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Copyright© 2018 Os organizadores
Copyright© 2018 Autênt ica Editora

Todos os _direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma pa rte desta publicação poderá ser
reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorizaçJo
prévia da Editora .

COORDENADORA DA COLEÇÃO EDITORAS RESPONSÁVEIS


Nilma Lino Gomes Rejane Dias
CONSELHO EDITORIAL Cecília Martins
Marta Araújo (Universidade de Coimbra);
REVISÃO
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (UFSCAR),·
Carla Neves
Renato Emerson dos Santos (UERJ); Maria
Nazareth Soares Fonseca (PUC Minas); CAPA
Kabengele Munanga (USP) Alberto Bittencourt (sobre ilustração de
Nelson Fernando Inocêncio da Silva)
CONSELHO EDITORIAL DO DEPARTAMENTO
DE SOCIOLOGIA DA UNB(sm) DIAGRAMAÇÃO

Renato Ortiz (Unicamp); Sadi Dai Rosso (UnB); Larissa Carvalho Mazzoni
Glaucia Vil/as-Boas (UFRJ); Marcelo Ridenti Camila Sthefane Guimarães
(Unicamp); Mike Featherstone (University
of London); Carlos Benedito Martins (UnB);
Luís Roberto Cardoso Oliveira (UnB); Gerard
Delanty (University of Sussex)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico / organizadores Joaze
Bernardino-Costa, Nelson Maldonado-Torres, Ramón Grosfoguel. -- 2.
ed .; 1. reimp. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2019. (Coleção
Cultura Negra e Identidades)
Vários autores.
Bibliografia.
ISBN 978-85-513-0605-5
1. Antropologia 2. Colonialismo 3. Diáspora africana 4. Epistemologia 5.
Negros - Condições sociais 6. Relações raciais 7. Sociologia 1. Bernardino-
Costa, Joaze. li. Maldonado-Torres, Nelson. Ili. Grosfoguel, Ramón. IV. Série.

18-14715 CDD-305 .896

Índices para catálogo sistemático:


1. Decolonialidade : Populações afrodiaspóricas :
Ciências sociais 305 .896

Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB -B/7639

~ GRUP O AUTÊNTICA

Belo Horizonte São Paulo


Rua Carlos Turner, 420 Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional
Silveira . 31140-520 Horsa 1. 23º andar. Conj . 2310-2312
Belo Horizonte . MG Cerqueira César . O1311-940 . São Paulo . SP
Tel. : (55 31) 3465 4500 Tel. : (55 11) 3034 4468

www.grupoautentica.com .br
Sumário

09 Introdução: Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico


Joaze Bernardino-Costa, Nelson Maldonado-Torres,
Ramón Grosfoguel

_:::::7 27 Analítica da colonialidade e da decolonialidade: algumas


dimensões básicas
Nelson Maldonado-Torres
- -,,
-,,,, 55 Para uma visão decolonial da crise civilizatória e dos
paradigmas da esquerda ocidentalizada
Ramón Grosfoguel

--.,,/
79 Encontro de Saberes e descolonização: para uma refundação
étnica, racial e epistêmica das universidades brasileiras
José Jorge de Carvalho
107 Antropologia filosófica, raça e a economia política da
privação de direito
Lewis R. Gordon
139 Epistemologia feminista negra
Patrícia Hill Collins
...:._7 171 Conceitualizandó gênero: a fundação eurocêntrica de
conceitos feministas e o desafio das epistemologias africanas
Oyerónk~' Oyewumí
183 Descolonizando a raiva: a teoria feminista negra e a prática nas
universidades do Reino Unido
Shirley Anne Tate
203 A Marcha das Mulheres Negras concla1na por un1 novo pacto
civilizatório: descolonização das mentes, dos corpos e dos
espaços frente às novas faces da colonialidade do poder
Angela Figueiredo
--1/ 223 O Movimen to Negro e a intelectua lidade negra descolonizando
os currículos
Nilma Lino Gomes

-
1
247 Convergências entre intelectuais do Atlântico Negro: Guerreiro
/
Ramos, Frantz Fanon e Du Bois
Joaze Bernardino-Costa

269 Quem negro foi e quem negro é? Anotações para uma sociologia
política transnacional negra
Valter Roberto Silvério

285 Por um constitucionalismo ladino-amefricano


Thula Pires

305 Descoloni zando a terra, desembranquecendo a sociologia: ques-


tões a partir da África do Sul contemporânea
Marcelo C. Rosa
319 Ubuntu: por uma outra interpretação de ações afirmativas na
universidade
Wilson Roberto de Mattos
341 Etnografia e emancipação: descolonizando a antropologia na es-
cola pública
Osmundo Pinho

361 Sobre os autores e as autoras

365 Agradecimentos
Epistemologia feminista negra1
Patricia Hill Collins

Uma menina e sua mãe passaram por uma estátua que retratava

~ um homem europeu dominando um leão com as próprias mãos.


A menina parou, olhou intrigada e disse: "Mamãe, alguma coisa
r
{ está errada com esta estátua. Todo mundo sabe que um homem
(
( não seria capaz de dominar um leão". A mãe lhe respondeu: "Mas
1 querida, lembre-se de que foi o homem quem construiu a estátua".

l
r
Conforme relatado por Katie G. Cannon, 1985

r
! O feminismo negro dos Estados Unidos, em sua expressão de teoria
( social crítica, reflete os interesses e o ponto de vista de suas criadoras. A in-
(
vestigação sobre a origem e a difusão do pensamento feminista negro, assim
r
como de qualquer outro corpo de conhecimento especializado, revela sua
1 afinidade com o poder do grupo que o criou (MANNHEIM, 1936). Uma vez que
homens brancos da elite controlam as estruturas de validação do conhecimen-
to ocidental, seus interesses permeiam temas, paradigmas e epistemologias
do trabalho acadêmico tradicional. Consequentemente, as experiências de
mulheres negras norte-americanas, bem como as experiências de mulheres
afrodescendentes na esfera transnacional, têm sido distorcidas ou excluídas
daquilo que é definido como conhecimento.
O pensamento feminista negro dos Estados Unidos, na qualidade de um
pensamento especializado, reflete temas característicos das experiências de
mulheres afro-americanas, e seus temas centrais - trabalho, família, política

1
Texto originalmente publicado em COLLINS, Patricia Hill. Black Feminist Thought:
know/edge, consciousness, and the politics of empowerment. New York/London:
R.outledge, 2000. p. 251 _27 1. Direitos cedidos pela autora e pela Ro~tledge/Taylor and
Francis Group LLC Books. Tradução de Ana Claudia Jaquetto Pereira.

139
· . .
desce nden tes branc os. O s desce nden te.li de H,.,m "' 1ngi; eram b'lstem.at icam enU:
s1..·xual, mate rnida de e ativis nw polftico - silo
derivados de parad igma s que i •
J csacred1tados até finalm ente terem sua vcn,ãcJ co mpro vada por testes de D NA.
nnis na constituição da matri z .
enfat izam a rekvà ncia de oprt'ssôes intns eccio
.
.
D1fercnc1ar ep1st cmol ogías, parad iuma s todO1 •
e me ogias pode ser útil
de domi naçáo nns Estados Unidos . Entre tanto
, promover esses temas e pa- f . .
o de t:pis temo l
0

ogías a ta - . (
para enten der o s1gni ficad n gorn cas HARD ING 1987) ·
as mulh eres negras têm tido r .
radig mas não tem sido tarefa fácil, uma vez que Em contr aste com ep1st emol ogias, para digm as a b rang em abor dage ns in-
'
os sobre o mundo. ! .
qut· en frt·nt ar as interp retações dos home ns branc . -
terpretativas, como a intersecci onal idade ' que· sao utJ 1iz as para expli car
- ._ ad
pode ser visto como 1
Ness e contex to, o pens amen to feminista negro , • • 2
• , .
a supressão das ideias de
{ fenomenos socia is. . Meto dolog ia refer e-se ao s pnnc 1p10 s ampl os de com o
um conh eci ment o subjugado . Trad icion alme nte, . · -
is contr olada s por homens conduzir uma pesq uisa e como aplic ar os parad igma s inter preta tivos . 3 O nível
mulheres negras no interi or de instit uiçõe s socia f . , . ,.
e porq ue deter mi . _
usar a música, a litera tura, as ep1stemolog1co e impo rtant na quai s ques toes são dign as de
branc os levou as mulh eres afro- amer icana s a ! . . .
t • -
espaços impo rtant es na serem inves tigad as, quais abor dage ns interpre ativa s serao utiliz adas a
conversas e os comp ortam entos do cotid iano como . . , . h . P ra
. Mais recentemente, a edu- analisar evide ncias e qual será a final idade d o con eCJmento daí deriv ad 0
const rução de uma consciência feminista negra . . ·
lidad o como espaços cada 1 As intelectuais negra s usua lmen te defro n t am-s e com duas ep · t 1 .
cação super ior e a comu nicaç ão social têm se conso . . . 1· d is emo og1as
de feministas negras. Nesses distintas ao prod uzire m o conh ecim ento e spec1a iza o do femin is
vez mais impo rtant es para o ativismo intelectual f . mo negr o nos
negro frequentemente tem se Estados Unidos: uma delas repre sent a os mtere sses da elite bra .
novos espaços sociais, o pensa ment o femin ista preoc upaç ões do e . . nca masc ulma ,
gado de mane iras diversas f a outra expressa 1emm1smo negro Exi t .
desta cado , e, apesa r da visibilidade, tem sido subju . s em mmt as varia ções
de ambas as epist emol ogias ' mas e, poss1,ve1 resum ir al d
(COL LINS, 1998, p. 32-43). f guns e seus traço s ca-
de grupo s subordinados - ( racterísticos que trans cend e d .fj uma
A investigação do conh ecim ento subju gado m I erenç as entre os parad igma s que cada
nesse caso, o ponto de vista das mulh eres negra
s e o pensa ment o feminista !
se dos ponto s de vistas e
negro - reque r mais inven tivida de do que a análi ' Muitos acadêmicos consid eram O pos1t1 ..
trein amen to para atuar como rivais vismo e O , .
do pens amen to de grup os domi nante s. Meu que , ?ºr e~emp lo, devid o ao fato de cada um d I pos-modern1smo epistemologias
o
cient ista social demo nstro u-se inade quad o para
subju gado de um ponto de vista das mulh eres
o estud o do conhecimento
negra s. Isso porqu e os grupos
pós-m:~;;:;:;:::::dad_e e por quê. Em cont:::t:~:c7e~~;; P:~prias t~~r'.as e o
os no interior d J mais uns dos diversos termo
s b' , . q . o pos1t1v1smo
sobre

subo rdina dos há temp os tiver am que recor rer a


form as alternativas para criar A discussão feit: :;;;~~ gere ep~st~molog
mst 1hou
ia ocidental
ht sobr
(~~{~si~~Ja
- •
oposição unifica-
1998, p. 126-1 37).
classe, gênero . ac Femz
enden tes, rearticulando-os opreds~oes intersec tadas de raça •
autodefinições e para estabelecer seus valores indep discutirei adi~nsetexuahdade e nação busca estoç ar ume para 1gma Jt .
exem plo de outro s grupos su- fi . · pode constituir um
neste art igo, . a ernat1vo que, como
por meio de nossos própr ios especialistas. A t emmista negr a. a parte 1mpo t d
r ante a epistemologia
volve ram um ponto de viS ª Por exempJ
bordi nado s, as afro- amer icana s não apen as desen oJ •
º• metod- og1as qualitativas e u . .
ando form as alternativas para metodoJó ica
carac teríst ico, como tamb ém o fizera m utiliz
prod uzir e valid ar o conh ecim ento.
;:~~as ci!nci:;~:~;;n~:i:~~~as com freq~ ên:~: :t::;:: ;i:i:::
En uma determinada ma metodologia partic ular
:~:am tu~ abor~agens
'. pe as uman1dades
A epistemologia const itui uma teoria geral
do conh ecim ento (HARDING'. episte mológ ica e sua ~~de dv1r a ser identificada
nã~~:nto a metodologia ::~rd agem
O
ar o conhecimento ou porque e ~. uma teoria abrangente dor agem Jnterpretativa.
1987). Ela investiga padrõ es utilizados para avali o da determ~ada inerentemente "ebre-s ranco ou " ,, " e como fazer ,pesquisa, .
d polític Inada m negro , masculino" ou "f. . .
e de ser um estu O ª ou ao ma . etodologia. Algu
de consi derar mos algo como verda deiro . Long s podem ser asso em1~1110 em uma
1 - es de poder
. p. IOJ-IQ;cultno e, assim , o er mas metodologia
com que as re aço
verdade, a epistemologia atent a para a mane ira , pio muitos questioná;;o!écnicas especí~ca:r ;;:d~: sfavo r das mulhcomo anál .
eres negr:~a~~~aL~~~iuitude
que o e. Por exem ' da em pesqu isa, , 1998,
estabelecem quem é consi derad o confiável e por . da e coloca necessariam , constituem métod
os de pesqu isa ou instru m ise de entrevistas e
negra escraviza a que Padr· ente encon tram
desce nden tes de Sally Hem ings, uma mulh er o . entos específicos que não
. . , ras vezes que Jefferson er grupos - oes de Utilização -se ~trelados a algum ru
. d Th J ffi . . e (ro-
mulheres :omens brancos t::b t~~nicas específica: P!sa
~ l:~e:esse particular. Ainda
a serviço e ornas e erson , ms1s tiram mum. l d cendentes raseus d • nar entre os diferentes
.
pai dos filhos de Hem ings. A histó ria defen
dida pe os es empregado egras recorrem m ~ am com bases de dados
- campadas Pº s Para uma varie da~s ; entrevistas indivi duais ~ grand~ escala, enqu anto
versoes en . os metodos pode ms~
amer icano s de Jefferson foi ignor ada em favor das e e propósitos ·

140 141
.
rt i Gü,lh.is ep1s1emo Iog1
' ·ca - sobre quem é digno de crédit o, no ·do forjadas para repre senta r e prote ger os intere
de.1 35 comp o - · !, • .
SI
sses de home ns branc os
, d deiro não são quest ões acade micas neutra s. de grand e po d - -
" Jc:rt'<iit.1r e: por que: algo e ver a dota do S er, nao sao neces sariam ente os própr ios repre senta ntes
qut _ d. m , . fu
Pelo .:ontr.1rio. ~>5.:,--:is questoes ize respeito à probl emati ca ndam ental de desse grupo que dirige m as es~olas, o gover no, a
mídia e outra s instit uiçõe s
. . - al
como s..ío dé't.-rrn1n ad as as verso- es. da verda de que 1rao prev ecer. . ·s em que tais proce ssos tem lugar, ou mesm o as
c1a1 episte molog ias que eles
50
Ve m Mulh eres branc as, home ns e mulhe res negro s
promo · e outra s pesso as que
Proc essos euro cen. tricos de valid ação do conh ecim ento ncem a grupo s sociai s marg inaliz ados pelo racism
. ~~ o podem ser recrut ados
- entre -
e re l açoes de pode r nos Esta dos Unid os
- para reforç ar tais conex oes relaço es de poder e o :ue se consi dera ser a
verdade. Além disso , nem todos os home ns branc
os aceita m essas relaçõ es de
•d
Nos Estados Um os, as 1· nstitu ições sociais que• .
legiti mam o conhecimen - oder que privil egiam o euroc entris mo. Algu ns se
revol taram e subve rteram
. 1 · s ocide ntais e euroc entnc as que elas promovem,
to , bem como as ep1stemo og1a :stitu ições sociai s e as ideias que elas propa lam.
. .
co nsl it uem duas parte s ·m ter _r elacio nadas dos proce ssos dom mante s de vah- Dois critér ios políti cos influe nciam os proce ssos
. . . . de valida ção do conhe -
da - 0 do conhe cimen to. E, m geral • acadê micos , edito res e outro s espec1ahstas cimento. Em prime iro lugar, uma vez que uma formu
ça . . _ . lação seja apres entad a
repre senta m intere sses espec1'ficos e proce ssos de cert1f icaçao , e tudo aqmlo como verdade, ela é subm etida à aprec iação de um
. . . , . .
· nto deve atend er a cnten os pohti cos e ep1ste- conju nto de espec ialista s,
ue eles afirm am ser con h ec1me formado por mem bros que traze m consi go uma
q série de exper iência s se-
mológ icos vigen tes nos conte x t os em que se inser em (KUHN, 1962; MuLK AY, dimentadas, as quais se confi guram segun do a
1·d - locali zação , no interi or das
1979) Os proce ssos de va t açao r e fletem os intere sses de home ns brancos opressões inters eccio nais, do grupo socia l a que
· e • ntrola da por esse grupo.~ Embo ra tenham perte ncem . Nenh um aca-
da elite, uma vez que ta 1es1era eco dêmico ou acadê mica está isento de ideias basea
das em cultu ras espec íficas ,
tampouco em sua locali zação no interi or de opres
sões inters ectad as de raça,
d fi . -o de eurocentris gênero, classe, sexua lidad e e nação . Nos Estad os
• Sandra Hardíng oferece uma e n1{;. ,s).Opensam mo que espelha o meu uso Unido s, isso signif ica que
entosocialepolíticoocidental um acadêmico que produ za conhe cimen to norm almen
neste trabalho (HARDI NG, 19:8 • p. d 1· nter-relacionadas para estabelecer a te precis ará conve ncer
ou eurocêntríco compor a .· t tres abor agens · · uma comu nidad e acadê mica contr olada por uma
das como epistemologias rivais. A pnmei ra, elite branc a, decla radam en-
· verdade", que usualmente sao retrata . . d'ca
.. • t há muito re1v10 1 que verdades absolutas b.existem
refletida na ciência pos1t1v
te heterossexual e porta dora de cidad ania amer icana
, de que sua afirm ação
1s a, volver instru mento s científicos o Je t'ivo s_'
e que a tarefa acadêmica consiste em desend des Entret é pertinente. Em segun do lugar , cada comu nidad
anto, diversas teorias soc1a1s e de espec ialista s precis a
desprovidos de vieses , para me_d ir ta1~ ve_r ~ ss~ corren manter a credib ilidad e que lhe é confe rida pelo grupo
te da ciência ao afirmar que social mais amplo no
desafiaram os conceitos e a epistemo og1ad eh mens
. brancos da elite e, porta_nto, qual está situad a e do qual extra i seu conhe cimen
eles representam interesses p articu lares e O to básic o. Isso signif ica que
, . . ias de outros grupos. Além disso, comunidades acadê micas que quest ionam crenç as
são menos válidos quando _aplica_d_o~ as expe~ ~:~em predo mina ntes na cultu ra
sido interpelada pm co;re~::s st
mais recentemente, a ciência pos1t1v1sta ta~·culares ~ ~du~idense mais ampla receb erão meno s crédit
de uma elite masculina t ra ela~ o do que aquel as que apoia m
que igualmente priorizam os interesses ptoasr ~ segun 1de1as Já m ui-1o d'f
- de novos constru ·
da abordagem. compohs :: raiz . 1 un d.d
1 as. Por exem plo, se as comu nidad
es acadê micas se
mas que lançam mao . . d to de vista (standpoint t heori~ · s) que un
. • da ciência que
distanciarem · de
muito crenç as recor rente s sobre a femin ilidad e negra
rimeiras versões das teona s o pon . erteu o supos , elas
P · ialmen te to positiv ista ma visão correm O risco de cair em descr édito .
no positivismo marxista, essenc inv • ·d s têm u
I sugerir que os opnm 1 o - é limitada
determ ina qual verdade deve preva ecer ªºress ores porqu Quan do home ns branc os de elite ou qualq uer outro
" e sua visão ~ªºda teoria do grupo inequ ivoca -
mais precisa d a ver d ade" do que seus d op . ante Contudo, es ta versao . rnente heg • . .
• 1 · d po omin · . . terpreta çao d . . emon ico dom ma os proce ssos de valid ação do conhe cimen
pelas cortin as da ide o og1a o g~u a osítivista em uma un , 1ca 1n ois critério to, os
eada por urna l' ·

----
ponto de vista basicamente duplica a cre:~i ê~cia positi s po iticos menc ionad os anter iorme nte podem atuar no sentid
vista, está per:do promovido o
"verdadeira " da realidade e, assim c~mo terceira
abordagem, t~m vitável de su_a
série de problemas. O pós-m odern is~~• .ª e uma
consequência ine ru os sociais
como a antite se do pensamento ~0s1t1v1;:: quant o grupos é igual .
à existência _d~i;ad:. Algurnª: a realidad mente válido, e que não há um grupo em melhor posiçã
rejeição. A lógica pós -mode rna e re~::i rem pensa o de interpretar
mento espec1;do por diferente ideologiase do que outro. De certa forma, o pós-modern
e quant o à possibilidade de eles_pro ismo representa o oposto das
o pensamento express cientificas da objetividade (COLLINS, 1998, p. 124-15
corren tes chegam mesmo a consid erar que 4).

142 143
1 rivilégios especiais, o grupo que detém O poder b e
dt> suprimir o ~n:W mentl, femini :<tJ rw ~ m . L m .1 w z que J cultura geral P usca 1ormas d
. soas excluídas e, ao mesmo tempo, de fazê-) . . e manter as
dos E.st-aà os l ºnid~ '{ Ut' nw/J J u.s ,'0 n h~,-i mc•ntos de n ivcl m ais básico da pes ,. . _ as aceitar tais procedi
rno sendo leg1t1mos. A ace1taçao de alguns ex 1 'd « . mentos
corn u n id.1J e de e ~i .1li:'l.1S e' .1mpl.imen te pe rmead a por noções de infe - co . . c u1 os inofensivos" é u
tratégia para m1t1gar esse problema de Jegitimid d (B ma
r io ri<l.:H.it.> d.1 s rn u lhere-s n~ r JS. rn. n. -Js propos ições que pa reçam questionar es r d 1. . . a e ERGER; LUCKMANN
das 1ormas e exc u1r a ma1ona das mulh '
tais cons trutos (unJ.1ment :1 is pro,·a wlm ent e serão vista s como anomalias 1966). Uma- . , . - eres negras do processo
d validaçao do conhecimento e a perm1ssao de que alg
( K L·H:s , ! 962). ~ o m . 1 is... o p<:>nsa.mento es pec ial izado que coloca em xeque e . . . . - umas poucas detenham
osições de autondades em mstttu1çoes de legitimaç- d .
noções de inrerioriJ.1de das mul heres neg ras d ificilmente terá origem nos p - ao o conhecimento
encorajando-nos a trabalhar com noçoes de inferioridad e vigentes . '
co n texto s .....-.ià~m icos con trolado s po r homens brancos, já que tanto as . no senso
comum e difundidas amplamente na comunidade acadêm•JCa e na cu 1tura. As
questões nortc:1Jo rns q ua nto as res postas dadas a elas espelhariam, neces- . .
s.a ri..l..mente. su :1 falta de fa miliaridade com a realidade das mulheres negras. mulheres negras que aceitam tais noções muitas vezes são rec ompensadas por
. . _
Mesmo .1qud es que ac ha m que estão familiarizados podem vir a reproduzir suas inst1tu1çoes. Aquelas que as desafiam correm O risco de serem coIoca das
est eu ô tipos... Acred ita ndo que são experts , muitos estudiosos defendem, sem sob vigilância ou condenadas ao ostracismo.

hesitar, image ns co ntrol adoras de mulheres negras , retratando-as como Acadêmicas negras que persistem na tentativa de rearticular um ponto
~mães-pret as ", ma triarcas e hipersexuais, permitindo que tais noções do de vista de mulheres negras também se deparam com a potencial rejeição,
senso co m um permeiem seus escritos . em termos epistemológicos, daquilo que afirmam ser o conhecimento. Assim
As experiências de académicas afro-americanas ilustram a maneira como as realidades materiais dos grupos poderosos e dominantes produzem
como os indivíduos que desejam rearticular o ponto de visa das mulheres pontos de vista diversos, esses grupos também podem dispor de distintas
negras por meio do pensamento feminista negro podem ser freados pelos epistemologias ou teorias do conhecimento. As acadêmicas negras podem ter
processos de validação de conhecimento predominantes. Analfabetismo, a convicção de que algo é verdadeiro - isto é, de que algo é verdadeiro segun-
educação de baixa qualid ade e falta de acesso a posições administrativas e de do os padrões amplamente aceitos entre mulheres negras -, e, contudo, não
docência limitaram a progressão de mulheres negras a postos acadêmicos de quererem ou constatarem que é impossível legitimar suas afirmações usando
·
major influência (ZINN et ai., 1986; MosES, 1989). As mulheres negras há muito
·
as norm as aca d.emteas pre d ommantes. Cada discurso, cada nova proposição
afirmam conhecimentos que contestam a produção de homens brancos de elite. deve condizer com um conJun •
· t o d e con h ec1mentos existente e aceito como
.
verdadeiro pelo grupo que contro1a o contexto mterpretativo.
No entanto, como o acesso a posições de autoridade foi negado a elas, com Observe, por
•. d 1·dação do conhecimento. exemplo, as diferenç as en t re a maneira ·
frequ ênc ia recorrem a processos a 1ternat1vos eva 1 como as mulheres negras estaduni-
. . 1 ente têm rejeitado esses denses interpretam .• .
Consequentemente, as disciplinas aca d em1cas usua m suas expenenc1as como mães solteiras e a maneira como
d ciais controladas por as pesquisas em · • · • .
conhecimentos. Soma-se a isso o fato d e que as cre en E ciencias sociais geralmente analisam a mesma realidade.
das às mulheres negras nquanto as mulh .
homens brancos académicos sempre pu d eram ser nega d eres negras enfatizam sua luta contra a discriminação no
- . t de que os trabalhos e1as mercado de trabalh - . ,
que utilizam padroes alternativos, sob o argumen ° e . • .
1
o, pensoes ahmentICias insuficientes, moradias precárias
v10 enc1a urbana demas1·ada . .• . . . h.
não con stituem pesquisas legítimas . er- nor d ' s pesquisas em c1enc1as sooa1s parecem 1p-
. . d · micasbuscamosex 1za as por imag d " 1
Nós, mulheres negras, que com credenc1a1s aca e he- gov ,, ens e mu heres preguiçosas que dependem da ajuda do
r ara propornovoscon erno . Os mét 0 d . .
cer a autoridade que nossos status nos con1erem p ssa ser . os uttl1zados para validar o conhecimento devem, ainda ,
m pressões para que no aceitos pelo . - .
cime ntos sobre nós m esmas, deparamo -nos co d valoriza individ . grupo que controla esse processo de valtdaçao. Narrativas
. .. . d 1 ·r ar um sistema que es ua1s de afro- . .• . - .
autoridade seJ a utili zada para ªJU arª egt tm 'd _ nesse são i . . americanas sobre suas expenenc1as como maes solteiras
. . Q do um grupo exc1u1 o nv1s1bilizadas
e exclui a ma10na das mulheres negras. uan , oder - a individ . em metodologias de pesquisa quantitativa, que apagam a
o grupo que esta no p ua 1idade e f; . . .
caso mulheres afro -am erica nas - constata que l lh confira tstata · . m avor da identificação de padrões de abuso dos benef1c10s
' . . . . dade em gera e ts. Assim d . -
saber, homens brancos de elite - re1vind1ca que a soc1e ' a tscussao sobre o que con stitui um a justificativa adequada

144
145
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1n1111 111'1 · · • n poc cr social.
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n ·o111111 •. • ·rcs negras
\ "-"'-, tl ,\\~i, \' I.".
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·, 1,' 111, 11, 1<1 md\ 11.(,,l,, '~1"1 ,1:--,q ,, 1,11h ~, 11\ 1 p1 1" lt \v \s 11111 ll s, 11 ,ss11111 , ,e. rcsf)itldnr
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" ,1., ,111"h1H·f 1)<11 11 1~' 11 l111 <1r 11 pn,s,111w1111, ft·n1l11 ls t\\ . ·inlwo.dn
1111 ~li• llustrn111 divcrsu s r1.·spost11s nfácclda s din111c; de um positivismo
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• 111s 1•d d 1.·11l ,1ls ,111 c·1m ,,·r 11t rk, s nrnilgudo. ·ti-ndn l'.111 visr no longo período de cxclusi1o da.~mulheres negras da
1
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·• ' . d \vrrsus ub,,rdu~n,s ·
-.,\11·~,, r\ ,1s i:om p t •r t ,11\\ 1
sn.-li)l(igln 11 ré 11)70. o conhecimento sociológico sobre rnçn e gt:nero produ zido
l'-11 ,h l 1._~11\.l:-O , li s 11· 11 1\ .,_, n\l 1Y si. Ad kl1•n11 lmC"11tc. m r 11 h 1 n 1 11\l p11slt lvls mo 111\0 crn Sllll nusl' t1d11 cu lmpor1!111cla slmbôllcn dessn austnciu para a autodefiniçào
, i..,,111n,.1 ,t1t1.. t,~,,_,
l . ,,s, ·sn ts, \'t'"""('lí
r t1' t t's sc·ju m lill'l'\.'l\tcn11·11t1· pwbkm
, , 1\1kos du sociologia cnq1111nlo cil!11cin, ns 111ulhcres afro -americanas que atuaram
1,, 11 ,1 ,i'- 11. nt li 1t"ru,
. . 1, l .~•r11:-· , 1t11np(1111: o q111.· nbu n h1 ~1.·ns nl\o p11:-.lll\11stus scj11m como ngcnlcs do co11hccirne11to se depurara m co m situações comple.~as. Para
''""·,,.1 1 i.uH,·n lc' 11wlh1 11~·s . . St' Cllrtl rnporc111 ú 11nrrnt ivu ck i 11npticlüo dns mulheres negras para a ciência, elas

Al;lort l ,1~ n1s. pos·it 1' , l:s•t • · ,s t,


criar d1.·sc rl~·t'w s rk nt (Itens dn. r1·ulld11d1·
11 ·scu 111 liv..:rn rtt (Jllt' se valer de l~rrn mentas da sociologia por meio do uso de abordagens
i(, r 11\ (' lO de' . .11 l'.1 ltl',, \1l
~l' I\([ A • :S• (1bi' l •t iv11s. L1·v11 ndo
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pc,,1 · u IS lh 1ll l'\:S..Sull
, pu1
. .1,'1l llir1.·s. dos ma \s d ivasos vu lorcs. cxpt-r iê ncins e 1cmo-. 'lod11vln. dns precisa ram, 110 mes mo tempo. questionar as próprias estruturas
- J . . . li d é.' n cl11 ~l·nul11u só p1.llk ser nlc11 nçnd11 se ,to( us ris
' ll t:' , cl ,b li \'lll'tll 1\\ ljlll
sobre ns quais busca mm assentar sua legitimidade. Suas reações frente a esse
~ . . 1 i . s hunu11u1s.1.'XCt' IO li nidn11111ld 11dl'. lorcm cllm11111d11s cio p1oc1sso
L • • ' , ,.

dil..:mn refletem o uso estrntégico das ferramentas do positivismo quando era


u 1r.K tcrs1 , n. . 1 1 . , 'rn,; 1111.: tot1n l<1~
' 1-,s•·stritas
l h . ~- •
os ckntls111sb11scnm n(·ccss,lrio, combinado a um a mplo questionamento do positivismo quando
de irwc::-li~nçl\o. Sq~11 nt o ll~ . . 1 . •. . ·moções gcrndus por sua
' 1 ' 1 ·s inh:l'CSSt'S p11rt1cu l\lt:S l e; t'ssa possibilidade se apresentava (COLLINS, 1998. p. 95-123).
:--t· d1 s1a ndar l\ls vn ort._, "' · ·ifi c 1 Aoneutrnlizarrm o
. , , u JOr out rn slt ,mçllo t spt:c • i . Por outro lado, muitas mulheres neg ras tiveram acesso a outra epistemo-
r h1s1.c sua rnçn. Sl'II sexo o 1 1 . . . ·xt 'rnos e mn11ip11lucton:s
co ntexto, des supos1111n1.•ntc se 101.n a m obse rv (IC 01 c.:s ~ 1.: • logia, que engloba padrões para se chegar à verdade que são extensivamente
1983· HAIWING, 1986). 't ' aceitos por mulheres afro-americanas. A epistemologia feminista negra é
da natura ,, (jAGGAll. • 1 1 g'ns mctodológie11s pos1 ,. nd
l'fica ml\S (\)O HII t:. fu arnentada por uma base experimental e material, a saber, experiências
Di versos rl~qui sltos cxt·mp t ,. rmnlrnentt· rcqual·m roletiv·1s e v· · d d
, i , k pcsqu,sn no ' tsoes e num o correspondentes que as mulheres negras estaduni-
vista s. Em primt'iro lugar. os md Ol os L . - . '" • "objeto" dt· estudo. o
.. dor e m rdnçüo .1 St:l ., al e
denses consolidar·1n1 a t· d h' · · 1· A d. · h. · ·
um distanclnm1.·nto do pt:squ1s11

. . b' t"vldude hu1m1na inkgr ,
.
de trabalh 0 d·
' Ih par tr e sua 1stona pecu 1ar. s con 1çoes 1stoncas
.,. J •i .. ortador de sll Jt: 1 ) u segun· as mu eres negras. tanto na sociedade civil negra quanto no
ddinlndo como urn sue to p 1985· ASANTB. 1987. n1 . exercício do lr· b Ih
"d ·tudo (KB1 .t.8lt ,
,,bjct lficando o "o bjeto . e cs
·
- do processo de pcsqu1~
, ·a {JA GG AR ,
ier u111a vez co1 ª a'Ih o remun erado, ensejaram uma série de experiencias que.
1 . d as cmoçoes . ão devcrn nparti adas e transmitidas, conformaram a sabedoria coletiva do
do lmpcrn tivo éacxcusao •- , eticaeosv:ilorcsn . . rna Ponto de vist d Ih
. ·idem-se que '1 erscguir 11 " 1,1 . ·is r .ª . as
,, 1tar d .mu - eres negras. Além disso, uma gama de princípios para
1983). Em terceiro lugar. co ns . to motivação para p . 80) por
. , i •pesquisa.seja cnquan , (RI CH ARD, 19 . e0111 ' etvin tcaçoes de verdade encontra-se à disposição daquelas que
lngur no procc.: sso e t: . • do processo . método Partilh 11 . ·
(f'
-
SC). I\ CO IUO pn1 te J torn.l •St: O ª' tais experiências. làis princípios sedimentam urna sabedoria
d·'15 11111 1heres
lnvcstignçi\o c knl tcn , . . ·lto qunnto orn' . · 1 resistir ,\ rha•nioaquid· negras
I' ó , t·,nto csc1
fim. o debate co ntrn c ,1 n o, • ,· . . orguinrntos que con
seguc.:n · de caráter geral e consolidam, adicionalmente, o que eu
, . che •ar ,\ verdn( e. os• e episte111ologia feminista negra.
preferido parn st.: g

1<17

Essa epistemologia alternativa utiliza padrões singulares que são con- _ e pode dizer nada, pessoas que são capazes de atirar com uma espingarda
nao s
sistentes com os critérios de mulheres negras em relação aos fundamentos do barata - é alguém muito esquisito 5" (GwALTNEY, 1980, p. 68).
em uma
conhecimento, bem como com seus critérios para determinar a adequação As mulheres negras precisam de sabedoria para lidar com os "tolos
metodológica. Sem dúvidas, a epistemologia feminista negra tem sido desva- educados" que "atirariam com uma espingarda em uma barata". Enquanto
lorizada por processos dominantes de validação do conhecimento e deixou de membros de um grupo subordinado, as mulheres negras não podem se dar ao
ser adotada por muitas mulheres afro-americanas. Mas, se essa epistemologia luxo de serem tolas, uma vez que a sua objetificação como "outras" as nega a
existe, quais são suas características? E quais são suas contribuições reais e proteção conferida pela pele branca, pela masculinidade e pela riqueza. Essa
potenciais para o pensamento feminista negro? distinção entre conhecimento e sabedoria, e o uso da experiência como a
fronteira que os separa, é central para a sobrevivência das mulheres negras.
Experiência vivida como critério de significação No contexto de opressões intersectadas, a distinção é essencial. O conheci-
mento desprovido de sabedoria é adequado para quem detém o poder, mas a
Carolyn Chase, uma mulher negra de 31 anos que mora em uma região cen- sabedoria é essencial para a sobrevivência do subordinado.
tral e empobrecida de sua cidade, recorda-se: "Minha tia costumava dizer: 'Muitos Para a maioria das afro-americanas, os indivíduos que passaram pelas
veem, mas poucos sabem"'. Esse ditado retrata duas formas de conhecer - o conhe- experiências sobre as quais dizem ser especialistas são mais críveis e dignos
cimento e a sabedoria - e está relacionado à primeira dimensão da epistemologia de crédito do que aqueles que meramente leram ou refletiram sobre tais ex-
e • • t negra Viver a vida enquanto mulher negra requer sabedoria, uma vez que periências. Portanto, a experiência vivida enquanto critério de credibilidade é
1emm1s a • , ·1
o conhecimento sobre as dinâmicas das opressões que se interse~tam e essenc1a frequentemente evocada por mulheres negras quando avaliam o conhecimento.
para a sobrevivência das negras americanas. Ao avaliar o co~hecunento, as afro- Hannah Nelson, por exemplo, descreve a importância que a experiência pessoal
americanas conferem grande credibilidade a essad sabedonao. ntradas em mani- tem para ela: "Nosso discurso é mais diretamente pessoal, e as pessoas negras
d hecer po em ser enc supõem que todas as outras pessoas negras têm o direito à opinião pessoal.
Alusões a essas duas formas e con z·t h Elaw uma pregadora Ao tratar de assuntos ·
l d mulheres negras. i p a , impor t antes, sua expenencia
.• . ·
pessoal é considerada
festações de uma amp a gama e . . tes termos a tenacidade uma evidência muito b p , , .
, l XIX explica nos segum _ _ . oa. ara nos, estatlstlcas distantes certamente não
religiosa de meados do secu o , b , uma ninharia de grande sao tao importantes qua t .• .
do racismo: "O orgulho das pessoas e ·d
d pele ranca e
A elas pessoas sacrificam suas
fi . ,,
per eito (GWALTNEY 1980
° n as expenencias reais de uma pessoa em seu juízo
7) I
valor em muitas partes dos Estados Un_1 os. d:u - m mais de conhecimento eia vi .d , , p. . gualmente, Ruth Shays usa sua experiên-
v1 a para desafi .d . d
reconceitos e ispoe regra para oco h . ar a I eia e que a educação formal é o único caminho
inteligências em favor d e seus P N White recorre a uma n ec1mento: "Eu sou o f d -
o que de sabedoria" (ANDREWS, 1986, P· 85). ancmy mulheres afro-american~s minha mã . . ipo e pessoa que nao estudou muito, mas
d , e e meu pai tinham bo B
d ·fi as que separa e sao e necessário E - m senso. em, eu acho que isso é tudo o que
semelhante para descrever as i erenç mulheres brancas pensam qu J47). f . u posso nao saber co .
"N fim das contas, as 1980, P· rase que pod e mo usar tnnta e quatro palavras em uma
de mulheres brancas: o não são livres" (GWALTNEY, r u(stica e ser iormulada c • .
om tres, mas isso não significa que eu não saiba
livres. As mulheres negras sab:m qur: universitária especializada emt~::scritos
.h uma pro1esso docurnen
Geneva Sm1t erman,
. "Dentro de uma per
spectiva negra, os b evivênciª ~
qu,, o termo "t 1 "
vida e so r
americana, sugere. dem ensinar sobre a , Eles pode[ll assumid o o refere-se à no ão d fc l
irnp o no bojo da cult fç e oo , que, por sua vez, alude ao significado
são limitados em termos do que ~~icularizar os 'tolos educad:a··~em sabedo- ortante d ura a ro-ame . S
de aco d essa cultura é a a -ncana. egundo Morgan, um aspecto
no mundo. Os negros costumam -o têm a sagacidade da v1 eloquente, a de ditar o corn a capacidade d predsentaçao social do indivíduo, que é mensurada
d 1· os mas na

. ,, (SMITHERMAN, 1977, P·
d forma
ter o conhecimento os ivr 7~)- Mabel Lincoln resume, :e ras comº eu,
d .. "Para pessoas g . para que
u: r
da situaç·tend · -
) enc1as, calmo saga
ao F 1 , '
e se emonst
a recusa do . oo e o antônimo de co z, ao
.
mesmo
rar capaz d e ser coo/ (atualizado, capaz
te d ·
. . mpo esmteressado e no controle
na . nto e sabe ona. de raiva, tnforrnaçõ Pertencirnento de . d~/, ,utilizado como insulto e para sinalizar
onhec1me surtos es, ver M um m 1v1duo à ·d d
distinção entre c , b que adoram ter organ (1999). (N.T.) comum a e cultural. Para mais
voce sa e,
tolo - aquelas pessoas,
!48 149
si.' a morte de.: minha màc ~o,, algo cx r - .
.: •. 1 . · , ,·,u<' .~t,.lu fa l:111Jl1 l"-\~ Ul' .::-t<..lU faland o de l\\Íll\
..::~; ; )
mulhe res tenha que lida r con-, hera r~ord,n ár; 0 . 'f'a1vez a . .
CQ <.j_U<:' 6!1.JU L&-::..l.'Kl<-~ -- ·'--' ""'- ~
. _

, ; '"1-. tG,,.H r :-:n. l9Sü. p. 2;, 33). Implíc


i ta maioria da ~
,:. ,.,~, , -~ -\.. ~" •'lk' mulhe r cuja morte.: nãos•e po de cxatnças scrnclhant e~. o legad d
O ~ Ill<L E~1:1..Xl l .!!..1 .....•~'-' ·" "'"' '" '1 V
O
·.i .10 eir--' de çon lwcirne.nl o que ofusca arnentt si tuar p e uma
• " ,
• _ _ 1 -,. - i ., , .... ,-s ,-ubi..l.:: ..i ,-n ti~
_.-c l~. - · tantas , mas tantas vezes ' e porque rn . orque ela
J. i1L!t0~ \, ;.u.1-..:.""~ V Ü"
a Yerdad e que pode esrno ante, de cl morreu
verdad e, ..:.5 ·tn.nC-.i e qu.HT\) r-,J.J,T.J:: - que' c>nçob.t'rtam mãe, a vida dela já havia sid 0 ª 5e torna. r sua
J.
. . . roubada Cheguei tarde d
auxili ar minha mãe a se erg . ...
ser ex p ress;:i cm .ipen-2.S rr6. . uer. Aliás, minha ema" para
. eterna gratid •
de forma magis- as mulhe res que me aJudaram a continuar vi
Mesmo que S!.ioo.rn u_..:;,;.r as c>pisr ~olog ias domin antes . va, estou trabalh
ao a toda,
d
própri as ex--periências nunca mais chega r tarde 0oRo AN, 1985, p. 26). an o para
cral, mu itas mulbd'e5 cegr.is .1.:-ade.micas mobil izam suas
seleci onar temas de
vividas e as expe.riênci.ls de ourr.is afro-a meric anas para
por exemplo, usa como Embo ra Jordan tenha conhe cimen to so bre o ato concreto da
investigação e m<C'to<lologias. Elsa Barkley Brown (l 986), . rnone de sua
negra s a frase "Com o mãe, ela se esforç a para adqui rir sabedo ria acerca do s1gnific ad O d
subtír ulo de ~u ensaio sobre a histór ia das mulhe res essa morte.
r de meu treina mento Algum as acadê micas femin istas afirm. am que as mulher
minha mãe me ensino u a se r uma histor iadora apesa - . . . . es, enquan to
que sua experi ência de grupo , sao mais mclm adas do que os home ns a aciona r suas e .. .
acadé mico~. Igual.mente, Joyce Ladne r (1972) defen de xpenenc1as
s a confe riu habili dades vividas na elabo ração de conhe cimen tos . Po r exemp1o em um d
mulhe r negra que cresce u no Sul dos Estad os Unido d, est u O sa-
s. bre o desen volvi mento cogni tivo de mulhe res, 135 elas - um .
especiais para co nduzi r seu estud o sobre mulhe res negra d ,, numero
comb inada com o emprego expressivo - foram consid erada s "conh ecedo ras conecta as ' revelando-se
A experi ência como critéri o de signif icação , .
princí pio epistemológico prope nsas a empre gar o tipo de conhe cimen to que emerge de observações
de imagens prátic as como veícul os simbó licos, é um , . . . · Ih
ano (MITCHELL; LEWTER, propn as e 1med1 atas (BELENKY et ai ., 1986) · Tais mu eres consideravam
fundam ental dos sistem as de pensa mento afro-a meric . ·. .
Truth , "Eu arei, plantei que, tendo em vista que o conhe cimen to deriva d a expenenc1a, a melhor
1986). ~Olhe m para o meu braço", procla mou Sojou rner
desenvolvendo em-
e estoquei alimen tos em celeiro s, e nenhu m home m
teria sido melho r do que for~a de comp ~eend er as ideias de outra pessoa seria
a formar tais ideias.
eu! E eu não sou uma mulhe r?" (LOEWENBERG; BoGIN
, 1976, p. 235). Recorren- patia e compa r_tilh ando as exper iência s que a levaram
stas sugerem que
novos significados, Truth Buscando explic ar esses padrõ es, algum as teóricas femini
do a exemp los de sua própr ia vida para simbo lizar xos, nos quais o
r. Histór ias, narrativas as mulhe res são social izada s em nexos relacionais comple
desco nstrui u noçõe s preval entes sobre o que é ser mulhe · · fl · d
bilida de às experiências compo rtame nto é ma 1s m uenc1a o por regras contextuais do que por prin-
e princí pios da Bíblia são seleci onado s por sua aplica , .
(CHo oo 1978 G
cipios abstra tos ; ILLIGAN, 1982). Acredita-se que esse
entaçõ es simbólicas de um
vividas de afro-a meric anos e transf ormad os em repres
ROW,
processo de social ·izaçao - · l e
escolh idas pela sabedoria estim u e 1orma s partic ulares de saber (HARTS OCK,
rico conju nto de experi ências . As fábula s bíblic as são KY t / 198 ) .
que sua interp retaçã o não 1983a; BELEN e a •• 6 . As teóric as sugere m que as mulheres são mais
que expres sam acerca da vida cotidi ana, o que faz com . .
inclinadas a e . corpo
métod o narrat ivo requer xperi menta r duas forma s de saber: uma localizada no
deman de verificações histór icas de cunho cientí fico. O e no espaço qu l a
. , . . - d. d . a f tca mente ,
· confiável no . e e e ocupa , e outra que vai além dele. As mulheres fazem
que uma htston a se1a contad a, e nao 1sseca a sistem . . . "(MITC HELL; mediação ent d as maneir as de
- .. . nto c1encia re essas uas forma s de saber por meio de múltipl
que tem de mais funda menta l, e nao admir ada enqua exercer a t . namenle
, lt' ma ernid ade, e utiliz am suas experi ências vividas cotidia
LEWTER, 1986, p. 8). u 1·, para avalia fi - de saber
. 'd.10 d e sua ma- eílust raosm . .d d. r ormu laçoe s mais abstra tas (SMITH, 1987). Tais formas
O ensaio de June Jorda n sobre o su1c1 riênci a v1v1 Iha e ao espaço p . - conhec e e seu
. d
o a expe ob • ara ª mclus ao de aspec tos subjetivos entre quem
pios níveis de signif icado que podem surgir quan - ma mu er Jeto de conh . ( .
nao
o de signif icação . Jorda n descre ve sua mae, u d la e ecime nto, situam os sabere s nas próprias mulheres e d
alçada a um critéri
, e .
eieito s
que a morte e rn autori d d
irn d ' ª es super iores)
.
e são exper iment adas diretamente no mun °
que literal mente morre u tentan do ficar de pe, e os e Jato (e n - .
ao por meio de abstra ções).
teve em seus trabal hos: nvergência
abalho. Certamente As Vidas da s mu Ih eres afro-a meric anas são estruturadas peIa co
res e tr . Não sei de d· fl te princípios
Penso que tudo isso tem a ver com mulhe. h a vi'da profiss1ona 1. !Versos fator es.. a orgam.zaçao - .
da comun idade negra, que re e
tem a ver comig o enqua nto mulhe r e mm
151
150
.. . . tl c'ncüdos por rt:'tcrêndn.s .africanas ; as tradições de
.. . . l· . . . sólido para essa dim e nsão da epistem 1 .
de' sistemas Uc' crt'n.,.,\:. tn u o og1a ÍCmini st
. ·t'mutun
, e::1< uma k1turn poht1z,\d,\. e,\ 111,\te, n1dade das mulheres brancas também valorizem a • , ., . ªnegra .Embora .
·\tiYismo m:\tcrno, -tm: l as
negras •·\ ex perienc1a vivida . .
'nnuht'n'S ne.:;;r.\s; e um:>\~ .· ·tt!lll'\• 'soda! de classes, que . as mulheres
. relega . encontre m o mesmo respaldo junto às fa ,1. , e improvável que
King . . m1 ias brancas - .
b· Ih· d 1. que o..:up,1m a base da h1erarqm.,a soetal.. A manda mente
. .
f)°'.'1\':.lO de' tnl ,\ ,\ or. :, . .. . .. . . . . nas famílias de classe média, nas quai s a . . e é - particular .
. . - . . privacidad
.- , . t.r o • m -ri -,rna cuJaS expt'l 1en c.1<1s .1lust1
,1111 essas convergências • tão valorizada _e
.
lLI11'l JOn !Jll ll\,\c ,\ , \ . t: ~ . • . . . outras inst1tu1ç oes soc1a1s controlad as por
. . pessoas brancas
des~Jt'\'c' a niane1n, • ., como
. da• usa• a e.." \.penenaa v1v1da para avaliar construto s valores s1m1lares . Da mesma forma , embor h que promovem
. - . . . a os omens negro 5 .
essas duas formas pode ser difícil·· institu1ço es da sociedad e civil negra, eles não i integrem as
:....... " como a mediação entre
Jbstr.ito~. t? o b-.,rv,, ormam parte d .
de mulheres negras. Consider ando as relações ª sorondade
Os lidaes do ROC [um sindicato ] também perderam seus empregos, . que estabelece m entr .
mulheres afro-ame ricanas podem ter maior facilid d d e si, as
mas parecia que eles já estavam acostuma dos a serem demitidos ... Ir às . , . a e e conhecer as con e-
ruas e protestar era como se fosse algo que perdurav a toda a vida para xões como uma tiorma pnmana de conhecer simpl
. • , esmente porque têm mais
oportuni dades para faze-lo e têm que se basear nela . f
des. Eles eram - como é mesmo que se diz? - intelectua is ... Existem s mais requenteme n te
essas pessoas que vão para a universid ade e que são aquelas de quem se do que outras pessoas.
espera que façam discursos , as que devem liderar, sabe, começar uma
pequena revolução ; e existem as pessoas pequenas ... que vão para as
fábricas todos os dias, e que são as pessoas que devem lutar. Eu tenho
O uso do diálogo para avaliar o conhecimento
uma criança e pensei que não tenho tempo para andar com essas
"O diálogo implica uma conversa entre dois su1·e1·tos , na- o o d.1scurso do
pessoas ... Assim, eu entendo algumas das coisas que elas falam, sobre _
a burguesia , os ricos e os pobres e tudo mais, mas eu estou ocupada sujeito e o objeto. E um discurso humaniza nte, que desafia e resiste à domi-
com minha sobrevivê ncia e a da minha criança (BYERLY, 1986, p. 198). nação", afirma bell hooks (1989, p . 131). Para as mulheres negras, raramente
~o~a~ formas de conhece r são constituí das sem a participação de outros
Na formulaç ão de King, ideais abstratos de solidarie dade de classe fo- mdividuo s, e elas são normalm ente desenvolv idas por meio do diálogo com
ram mediados por suas experiên cias concreta s como mãe e as conexões que outros membros de uma comunid ade. Um pressupos to primário que funda-
- d
menta o uso do diálog o na ava1·1açao h • ,
a maternid ade envolve. _ o con ecimento e que as conexões, e
. . a1s
Nas comunid ades tradic1on
. a fro-amen·canas, as mulheres negras • . nao as separaçõ es - .
, sao um compone nte essencial de processo de validação do
'd , 1 lorizar a experienc1a
encontra m respaldo institucio nal cons1 erave para va conhecim ento (BELENK Y et ai., 1986, p. 18).
e -1· · ·as e outras orga-
vivida. A centralid ade das mulheres negras em 1am1 ias, igreJ Tal crença nas conexões e no uso do diálogo enquanto um critério de
. ·1h . - s mais jovens, menos adequação met 0 d 1 , . .
nizações comunitá rias as permite comparti ar com irma . . o ogica tem ongens africanas . Ainda que as mulheres sejam
, r uma mulher negra,. tipicamen te s b d ·
experient es, seus conhecim entos concretos so b re o que e se u or. madas aos homens nas sociedade s tradicionais africanas,
, " . - , mulheres negras ' essas mesma
que se define por si propria. A sorondad e nao e nova para as harn
ah s sociedad es cultivam visões de mundo holísticas, que buscam.
armonia "É .
" b
diz Bonnie Thornton Dill. Contudo , [... ] em ora as mu
lheres negras ld tennossas · preciso compree nder que tornar-se humano, concretizar "a
p
ara mo ar pressa rornessa de to h
cultivado e encorajad o a sororidad e, nós nunca a usamos P . rnar-se umano, é a única tarefa relevante de uma pessoa ,
coJ
- t nha sido exs pode oca Molefi A
identidad es políticas" (DILL, 1983, p. 134). Embora nao e ee sante (1987, p. 185). As pessoas se tornam mais humanas d
lheres negraricanas rnpodera das · • ,
em termos políticos, essa relação de sororida de entre mu elas "[ ) Pnmana mente no contexto comunita rio, e apenas quan o·
- as afro-ame ... busca O · d
ser vista como modelo de diversos tipos de relaçoes que har . m hpo de conexões ' interaçõe s e encontros que con uzem .
ª
rnon1a" ( 185
estabelec em entre si (GILKES, 1985; GrnDING S, 1988). _ ·nstitui·
Permitem p . . ), O poder da palavra, em geral, e o diálogo, em parttcular,
ente sao 1
Dado que as igrejas negras e as famílias frequent em . fricanas, que isso ocorra.
ferênc1as a 1 O Uso do d· 'l ogo tem raízes nas tradições orais herdadas d a A· fnca
· a
ções encabeça das pelas mulheres e influenci adas por re . t·tuciona cultur ia en
orte ins 1 d . 1
a afro-arn .
as afro-ame ricanas tradicion almente encontra ram um sup encana, e não deve ser confundi do com o debate a versaria

152 153
(SIDRAN, 1971; SMITHERMAN, 1977; KocHMAN, 1981). Ruth Shays descreve a "Eu estava ... interessada ... em tradições .
orais do cont h.
importância do diálogo no processo de validação do conhecimento empregado afro-americanas ou outras-, nas quais ha' 5empreaco ar istórias _ fosse
.. m
por afro-americanos escravizados: de quem ouve" (JoNES, 1975 apudTATE, 1983 nsc1encia da importância
• • 'p. 91 ). Descreve d .
com que escritores e escritoras selecionam ev n o a diferença
Eles descobriam que algo era mentira, ainda que levasse um ano ... Os " entos e relaciona
tes, Jones argumenta: No caso de muitas escrit mentos relevan-
antepassados encontravam a verdade porque eles ouviam e faziam as . oras, as relações . .
pessoas contarem as histórias muitas vezes. Na maioria das vezes, é família, da comumdade, entre homens e mulhe no amb1to da
. res, entre mulhere
possível identificar uma mentira ... Aquelas pessoas circulavam em do com as narrativas sobre escravidão e os escr·t . s - começan-
1 os posteriores _ -
muitos lugares e sabiam a verdade sobre muitos conflitos. Elas acre- como relações complexas e significativas enqua t sao tradadas
- . 'fi . - , n o que, para muitos h
ditavam que um mentiroso deveria sofrer a dor de suas mentiras e as relaçoes s1gm cativas sao as que envolvem co f omens,
elas tinham muitas formas de submeter os mentirosos ao julgamento n rontos - relações t
à família e à comunidade" (JONES, 1975 apud TATE ex emas
(GWALTNEY, 1980, p. 32). . ' 1983 ' p. 92). A reação d
1
Alice Walker ao 1vro de Zora Neale Hurston, Mules and M , e
. 'l . en, e outro exem-
O uso generalizado do discurso em formato de fala e respostas entre plo do uso d o d ia ogo na avahação de formulações
enquanto conhecimento
afro-americanos ilustra a importância atribuída ao diálogo. Composto de Em Mules and Men, Hurston opta por não ser um 0 b d . ·
. , . ª serva ora distante da
interações verbais e não verbais entre quem fala e quem ouve, nas quais h1stona e dos contos que ela coleta. Pelo contrário 1 1
,. , e a se co oca no centro da
todas as afirmações de quem fala são marcadas por expressões ou respostas analise, recorrendo a extensos diálogos com as pe .
ssoas nas comumdades que
de quem ouve, esse modo de discurso permeia a cultura afro-americana. estudou. Usando um processo similar, Walker test e l -
a as iormu açoes de Hurston:
O pré-requisito fundamental dessa rede interativa é a participação ativa de
Qu_a ndo li Mules ~n_d Men, fiquei maravilhada. Era o livro perfeito!
todos os indivíduos (SMITHERMAN, 1977, p. 108). Todas as pessoas do grupo
CuJo ~ra~ ~e perfe1çao eu testei imediatamente junto a meus parentes,
devem participar para que as ideias sejam testadas e avaliadas. A recusa em que sao hpICos negros americanos e se adequam bem a toda forma de
participar, especialmente quando se discorda profundamente do que foi dito, survey poI't'
es l
I ico, cu tural e econômico. Pessoas normais do Sul, que estão

é vista como uma forma de trapaça (KocHMAN, 1981, P· 28). . quecendo rapidamente sua herança cultural sulista nos subúrbios e
A análise de June Jordan sobre o inglês afro-americano enfatiza o sig- nos guet~s de Boston e Nova York, eles se reuniram para ler o livro,
para ouvir a minha leitura, para ouvir uns aos outros e uma espécie
nificado dessa dimensão de uma epistemologia alternativa: · t;o1· restabelecida (WALKER, 1977, p. xii). '
de pa ra1s0
,d pessoas que constante-
Nossa linguagem é um sistema constrm o por . rte A centralidad d lh
· · Nossa linguagem Pª orga . _ e as mu eres negras nas famílias, igrejas e em outras
mente têm que insistir no fato de que existimos... . que tenda nizaçoes comun 1't' . . ,
- u qualquer c01sa de ap . anas proporciona as afro-americanas um grau elevado
de uma cultura que abomina toda ab straçao, o , . e agora - a
d h mano que esta aqw o10 para o uso d O d 1' 'l
f;
a obscurecer ou apagar o ato o ser u . d C sequentemente, a nista ª ogo como uma dimensão da epistemologia femi-
· f; 1 ndo ou ouvin o. on negra e d0
t
verdade da pessoa que es a aª . • ,Iro-americano. Por avalia · ontu , quando as afro-americanas utilizam o diálogo para
- possível no mg1es ap
st
voz passiva não é uma con ruçao
. "O . lês negro esta sen o
, d eliminado". Voce
. rs
·
que são
r o conhecim t
. en °, d
po e ser que estejam recorrendo a formas de saber
exemplo, não se pode d 1zer: mg - liminando o ing e mais usuais e n t re as mu lh eres. Estudiosas feministas argumentam que
hornen
" brancas estao e s e mulhere - • .
deve dizer, em vez disso, Pessoas todo o inglês negro ... lllia _ r· . s sao socializados para almejar tipos diferentes de autono-
da vida governa dois 05 1
negro". A suposição da presença . t· a de pelo menos e que p me1ros
. bas ea d os na separação, as segundas na conect1v1· ·dade -,
•· ão viva e a iv ) essa varia ãO . . .
Cada sentença assumeª participaç . N 1985, P· 129 ·
ouvinte (JoRDA , coin que ho ç nos tipos de autonomia corresponde às formas distintas
seres humanos, um orador e um - s pro· 197g. I< mens e mulheres compreendem ideias e experiências (CttoD0ROW,
- as conexoe
. . d. am as relaçoes e . que , ELLER, 1985
Muitas intelectuais negras reivm ic . d sobre os mouvos . as tnetá~ ' ; BELENKY et ai., 1986). Por exemplo, em contraS te com
do questiona a pondeU, oras visu . (
Q uan equipara ais que os cientistas e os filósofos geralmente usam corno
d d. Gayl Jones res
Piciadas pelo uso do diálogo., . ue se e ica, r 0 conhe cimento
· à iluminação, o conhecer ao ver e a verdªdeª· 1uz)'
a levaram a escolher as tematicas a q

154 155
· ·soai pe.lns comun idades afro-a merici' n·,Is. (S' M f'l'l-f I'
p~~
as em metáfo ras .· . llMAN, 1977; Koc ,1M ,
as mulhe res tendem n bas<.'u r suas prt·miss;1s q,isl<:'mológic.: 1981 ; MJTC H ELL; LEWT E R, 1986). Johnet ta R
. ay, rcs1clen1c cn, 11111 b \N,
• fa . .· I· . alrro pobrc..
que aludem a encontr.1r a rrópriu voz. falar e' ouvir ( BEL EN KY et ai., 1986). •screve essa en , se na smgu .ir1dade mdivid ua I denvada .
d
dt .
· ·. africana
ctrad içocs
e s·
"A inda que a gente se es1orce, acho que as pes soas negras nunca d ' ..
A ética do cuida do . . . cscnvolvcrão
ufll instint o de 1ebanh o. Somos profun dos i, d · 'd
,, • 1 ivi ualistas a ·
' paixonados pela
sem dizer autoexpressão (GWALTNEY, 1980, p. 228).
"Todos os p~.ido lt'.s brancos costum avam falar da boca pra fora
nada , mas }êsus dis..~ aos escravos que falassem com o coração"
(\'\1EBBER, 1978, Um segun do compo nente da ética do cuid ad o concerne ao 1
- . ,l - . ugar das
p. 127). Essas palavras de um ex-escravo sugere m que as ideias
não podem ser emoçoes no dia ogo. As emoço es indica m que a pessoa que fal .
. A temáti ca de falar validade do própri o argum ento. Observ e a descr·içao _ d ª acredita na
divorciadas dos indivíd uos que as criam e as compa rtilham . e Ntozake Sha
nge de
com o coraçã o tangencia a ética do cuidad o, outra dimen são
de uma alternativa um dos objetiv os de seu trabalh o: "Nossa sociedad e [oc1.d ental] permi
ex-escravo usou a te que
o as pessoas sejam absolu tamen te neurót icas e total mente 1ora
como e .
epistemológica usada pelas afro-am erican as. Assim de sintoni
sabedo ria de seu coraçã o para rejeitar os pregad ores que falavam
"da boca pra .
seus sentim entos e com os sentim entos de outras pessoas, e, mesmo assim
ª com
e pessoal, as . . . . '
fora sem dizer nada", a ética do cuidad o sugere que a expres sividad dignas de respei to. Para mim, isso é distorc ido ... Estou tentando mudar a
do conhecimento. - - .
emoções e a empati a são centrai s no proces so de validaç ão noçao de que emoço es e intelec to são faculd ad es di stmtas • ,,
(TATE, 1983
do cuidado . , .
O primei ro dos três compo nentes inter-r elacion ados da ética p. 156). A h1ston a de expres sividad e pessoa l na t d· - d
ra içao as mulheres negras do
'
o do human ismo . .
é a ênfase na singul aridad e individ ual. Ancor ado na tradiçã blues remedi a esse bmari smo que separa a emo çao - d ·
o mte 1ecto. Por exemplo
de um espírito .
african o, cada indivíd uo é visto como uma expres são única em sua mterpr etação de "Stran ge Fruit", a letra da canção de Billie H J·d ,
O I ay
Walke r afirma
comum , poder ou energi a ineren te a toda vida. Quand o Alice
6
funde se à - d uma cortant e crítica social
d 1· - h emoça o e sua perfor mance e aprese nta
porqu e sua mãe
que "nunc a duvido u de sua capaci dade de discer nimen to , o grito de Are-
e individ ual que os me a~ent os no Sul dos Estado s Unido s. Sem a emoção
sempre acredi tou nele", ela mobili za a noção de singul aridad h
i a Frankl in (1967) " · "
tmo da música . por respei to seria virtual mente desprovido de sentido .
sua mãe lhe ensino u (WASHINGTON, 1984, p. 145). O polirri O terceir o compo 11t e d ª ettca ne , . d .
s, assemelha-se, no d . o cuidad o envolve o desenvolvimento
afro-am erican a, no qual uma batida não domin a as demai a capacidade de em t.1 H .
s de retalhos pelas pJ· pa ª· arnet Jones, uma mulhe r negra de 16 anos, ex-
tema da expres são individ ual, ao fazer artesa nal das colcha ica para seu entrev ist d . .
e padrõe s marcan- coisas . . a or por que ela dec1dm se abrir para ele: "Algumas
mulhe res negras. As mulhe res negras artesãs costur am cores na rnmha vida sã O eao d'f' • d
algo depreciativo, sab
1 tce1s e aguent ar, e eu me sinto melhor por
tes lado a lado, toman do as diferen ças individ uais não como er que você se sen 'b 1·112 ·
N, 1989). A crença Sl ª com elas e as mudar ia se pudesse" (GWALTNEY,
mas como algo que enriqu ece a colcha como um todo (BROW 1980
'p. 11). Se não ac d ·
à expressividade re 11asse em sua empat ia, seria difícil para ela falar. As
na singul aridad e individ ual é ilustra da pelo valor atribuí do escrito
ras negras trab Ih b
uma ét' a am astant e a expans ão da empatia como parte de
ica do cuidad 0 p te entre a
rnuiher · or exemp lo, o respeit o recíproco e crescen
Oo enta , ec 'd I M hal Sobe! observa
d · d
• Em sua discuss ão sobre o Cosmo s Sagrad o da Africa negra escrav 12 ª a, Dessa, e a mulhe r branca , Rufei, no livro Dessa Rose,
a
" "
que nyam , uma palavra da qual denvam
. ,
.mumer as ou t ras e , s idiomas d
m diverso
· · tnnseco s a to ª
de SherI
ey Anne w·u· 1 iams, decorr e da capaci dade recíproca de compreensao
-
f . sua
África Ociden tal , faz referência a um espírito , poder'dou energia das per
tn
h ismo a ncano, sonage ns D .
forma de vida . Embora esse conceit o seja muito difund i o "no d
uman . . d' ·duais
homern b · epois de ver Rufei lutar para se defend er do ataque de um
nota que to as as
anáhsesl'd tn ivt
de dessa ranco o fi · . ..
definição é bastant e gelatinosa. Sobe! (1929, p. 23).d · heceram a rea I a
ªº lllesrn . ' essa ca acorda da pensan do: "A mulher branca
foi suJeJta
, . . os oc1 enta1s recon . termos .
dos vanos Cosmo s Sagrado s dos african o tipo de . 0
traduzi
. a d equad amen te esse
r . .
conceit
. d ade
o emafricana , sono. Eu _ rapina gem que eu; esse foi o pensamento que me ttrou
força, mas nenhum a delas conseg uiu 1I Ih
ecialmente b nao sabia er
ocident ais". Para uma discuss ão mais abrang ente sobre espintu
afro-am encano
a
s, esp _ ranca d que os homen s branco s eram capazes de usar uma mu o"
· h · · ,1 . d de tradiçoes aquela for
ver RJC ards (1990) e Pans (1995). Muitos- teo ogos· · !'d de denva as (1,, ma, toman do-a à força, da mesma forma que fazem conosc
mulher es, guiam seu trabalh o por essas noçoes de espmtu a
1 ª . 1 traditions), ver •vrtt 1A
2 · D ssa
Ns, 1986
african as . Para trabalh os sobre tradiçõ es do mulher ismo (womam s constatou- " ' p. 20). Como resulta do da recém-surgida empatia , e '
s ( 1995). · Era com 0 se tivess · , emas um segred o entre nós" (P· 220) ·
Grant (1989) e Sander

156
157
Esh:s co111po ne11 l.L-~, cl· ·i• ,,~ 1ic •i do cuidado - o valor da expressivida de indi- rn raízes no passado africano e em uma fil
.d co . . osofia que . .
vi ua 1, o 1ug.u . d·i• ~"'
.... ,noções e a capacidade de empatia - emergem em combina- ressividade e a ética do cuidado. Os hom aceita e incentiva a
_ . 1. • , • ,. ·.,d ·uk civil negra. Um dos melhores exemplos da natureza
ex P ens negros com .
çoes va n aci.1~ 11.1 1> 0 ~1' • • • tradição cultural. Mas, ao mesmo tempo, eles lidam c partilham dessa
.
mtera 11.v.1
• da 1·111 oort
r
áncia
do diálogo e da ética do cuidado para a análise do ue os confrontam na redefinição da masculinid d om as contradições
conheciment o ~ 0 uso do modo discursivo de fala e resposta em muitas igrejas q . . a
de rnascuhmda des abstratas, desprovidas de emo _e negra frente as . -
noçoes
negras. Durnnte as missas, tanto o ministro quanto a congregação usam o ritmo çoes, que lhes sãO ·
(HoCH, 1979). Portanto, a diferença entre mulhere impostas
das vozes e a inflexão vocal para comunicar significados. O som do que é dito s negras dos Estados Unid
e outros grupos, mesmo aqueles próximos a elas está os
~ tão importante quanto as palavras em si, o que acaba conformand o, de certa . . l d • ,
sua identidade rac1a e e genero do que no acesso a .menos estruturada em
. . _
forma, um diálogo entre razão e emoção. Como resultado, é quase impossível , . . inst1tu1çoes sociais ue
sustentam a etica do cuidado em suas vidas. q
distinguir o significado estritamente linguístico-c ognitivo abstrato do signifi-
cado sociocultura l psicoemotiv o (SMITHERMA N, 1977, p. 135, 137). Conquanto
A ética da responsabilidade pessoal
a ideia apresentada pela pessoa que está falando deva ter validade (ou seja, estar
alinhada ao corpus de conhecimen to geral compartilha do pela congregação
Uma ética da responsabili dade também caracteriza a ep· t
negra), 0 grupo também examina a forma com que as afirmações são feitas. 1s emo1og1a
.
feminista negra. Não somente os indivíduos devem produzir O conhecimento
A ênfase na expressivid ade e nas emoções das comunidade s afro-
por meio do diálogo e recorrer a um estilo de apresentação que demonstre uma
americanas guarda marcante semelhança com as perspectivas feministas sobre
ligação com as próprias ideias, mas também se espera que se responsabilizem
a importância da personalida de no conhecimen to conectado. Belenky et ai.
pelo que afirmam. A descrição da escravidão elaborada por Zilpha Elaw reflete
(1986) constata que duas orientações contrastante s caracterizam o conheci-
essa noção de que as ideias têm autoria e que a identidade do autor é um fator
mento: uma de separação, baseada em procedimen tos impessoais que visam
relevante. "Ah, as abominaçõe s da escravidão! ... Cada caso de escravidão, não
estabelecer a verdade, e outra de conexão, na qual a verdade emerge do cuida-
importa o quão brando tenha sido o fardo e quão atenuadas as atrocidades, in-
do. Embora essas formas de conhecer não sejam específicas dos gêneros, um
dica um opressor, um oprimido e uma opressão" (ANDREWS, 1986, p. 98). Para
número desproporcio nal de mulheres lança mão do conhecimen to conectado.
Elaw, definições abstratas da escravidão enredam-se às identidades pessoais
Conhecedor es isolados tentam desatrelar a personalidade dos m · d· 'd os de
ivi u dos perpetrador es e das vítimas. Os afro-americanos consideram essencial
suas ideias, uma vez que acreditam que a personal1.d a d e m · t aduziria vieses e
r que os indivíduos tenham opiniões bem-definidas sobre questões importantes
geraria distorções. Em contraste, conhecedore s conectad os ve em a. persona-
. . e assumam a responsabil idade por defender sua validade (KocHMAN, 198l).
\idade como uma vantagem para o desenvolvim . d ·d ·as ind1v1dua1s, e
ento e i ei . A apreciação de um construto apresentado como conhecimento é con-
.
acreditam que a personalidad e de cada um dos memb ros do grupo enriquece .a . ª s1· mu1taneamente a uma avaliação dos valores, da et1ca
duzid , · e dO carater
· d0
. .
compreensã o do todo. O s1gmficado da smgu . 1 'd d . dividual, da express1-
an a em • Indivíduo. Seguindo essa lógica, muitos afro-americanos rejeitam ª crença
·
vidade pessoal e da empatia nas comunidade s a f ro-amencan as ' portanto, tern
. . tas dornin an t e d
e que examinar o ponto de vista pessoal de um 111· d',v,'duo é algo
. • . . 'd 1 as
similaridade s com a 1mportanc1a atnbm a por a gum análises femin1s que extra 1 . . , . ·d
po a os 11m1tes da discussão. Pelo contrario, consi era-se que todas
à "voz interna" das mulheres (BELENKY et al., 198 6 ). ferni- as Visões . d ·unto de ideias
expressas e as ações realizadas denvam e um conJ .. ,
.
A convergênci a de princípios inspirados d · ões africanas e essenci ·
em tra iç d As ais que são, necessariam ente, pessoais (KocHMAN, 19 81 p 23) Sera
. 1 mente acentua a. ' · ·.
nistas quanto à ética do cuidado parece ser particu que Areth d ser respeitadas
. .
ar
fomentam a e
moção ª realmente acredita que as mulheres negras evam
mulheres brancas têm acesso a experiências femmmas que ou ela só d.12 . . ento válido para a
ricanas, . isso da boca para fora?" é um questionam . ,
. . . - . . b ncas norte-ame epistem0 1 . do por ind1v1duos
e a expressivida de, mas poucas mstltmçoes sociais ra t as rnu- ogia feminista negra O conheciment o apresenta
- ,. . . , .
com exceçao da familia, validam essa maneira de sab er. Em contras. e,stituiçao _ respeitado .
s por sua sintonia moral e ética com suas prop
, rias ideias tera mais
. . . negras uma in Peso do
lheres negras há muito contam com o apoio das 1greJaS ' que aquele defendido por figuras menos respei·tªdas·

158
159
do conhecim ento. Deixando de ser objetos .
Cm exemplo a.1.ra.ído de urna aula de graduaçã o, na qual todas as estu- 1egítimas . .
i.lustra a singulari_dade _dessa etapa do processo elos processo s domman tes de . validação do conheci passivos manipul d
d.anteS eram mulheres negras,
_ P . , a os
passamo s a reivindicar nossa própriamento, nos, mulheres
de Y2.füiaç:ão do conbecun ento. Durante
. , .
uma d1scussao em sala de aula, pedi. afro-amer icanas,
As afro-ame ricanas na academia e em voz.
às esrudantes que e.xammassem a analise de um conhecid o acadêmico negro outras posições d .
buscam promove r o pensame nto feminista ne agora deparam-s e autoridade que
sobre O feminismo negro. Em vez de remover o académic o de seu context º~ra . . • gro
. . . . e com padrões
Yerifiar a racionalidade de sua tese, mmhas alunas pediram informaço- es sobre epistemológicos conflitan tes de tres grupos pnnc1pa1s Em . .
pensamento feminista negro deve ser validado pe1as mulheres afr · primeiro lugar, 0
a biografia do autor. Elas se interessa ram particula rmente por detalhes d e sua .
comuns que, nas palavras de Hannah Nelson ' tornaram-se mulho-amencan as
-
\ida, co mo sua relação com mulheres negras, seu estado civil e sua posi·çaoem "
mundo onde quanto mais sã você for, mais louca farao _ . eres em um
termos de classe sociaL Solicitando dados sobre dimensõe s de sua vida pessoal voce parecer" (G
1980, p. 7). Para ter credibilid ade frente a esse gr . WALTNEY,
que comumen te são excluídas nas abordagens positivistas de validação do conhe- upo, as tntelectuais fi . .
eministas
negras devem defender seus trabalhos, se respon sa b·i• izarem ·
-
cimento, elas mobilizar am a experiência vivida como um critério de significaçao. . . pelas cons .
cias destes, ter v1venc1ado ou experienc iado de ai , equen-
Ela5 usaram essa informaç ão para avaliar se ele realment e se importava com . . guma iorma as temáticas
abordam e se disporem a dialogar sobre seus ach ados com pessoas comunsque
a temática e se basearam nessa ética do cuidado para produzir conhecimento . . .
· , .. ·
H1stonca mente, a vida das mulheres afro-a mencanas iacil1tava essa em-
sobre se u trabalho. Além disso, se recusaram a avaliar a racionalidade de seus . .
preitada, uma vez que os processos de validação do con hec1mento parcialmente
escritos na ausência de indicaçõe s de sua credibilid ade pessoal enquanto um r h
ou totalmente controlad os por mulheres ne gras m am 1ugar em contextos
ser humano ético. Tal d.ebate só poderia ter lugar entre membros de um grupo . . .
orga01zac1ona1s específic os. Quando as mu Ih eres negras elaboravam suas
co nsolidado enquanto comunid ade e capaz de empregar uma epistemologia .
. ' . ..
própnas autodefin ições, estas quatro dimensões da epistem o1og1a 1emm1sta
alternativa para apreciar a validade de construto s enquanto conhecimento. . . . .
significaçã o, o uso do diál
neg~a - a expenênc 1a v1v1da como critério de
Os cultos nas igrejas negras tradicion ais também ilustram a natureza
a ~t1ca_da responsa bilidade pessoal e a ética do cuidado - eram colocada ;;:
interativa das quatro dimensõe s dessa epistemo logia alternativa. O culto repre- pnme1ro plano. Quand 0 . t . . .
do h . os emas pnncipa1s e os recursos interpretativos
senta mais do que diálogos entre a lógica usada para examinar textos bíblicos con ec1mento das mu Ih eres negras eram informados pela epistemologia
fe . .
e hi stórias de um lado e a emoção inerente ao uso da razão para tal finalidade m1n1sta negra uma . d' -
T d" . ' nca tra içao do pensamento feminista negro florescia.
de outro. Tais diálogos existem para proporci onar a análise das experiências ra ic1onalm ente ' as mu Ih eres engaJadas .
nesse projeto intelectual e
polft·
vívidas na presença de uma ética do cuidado. Nem a emoção e tampouco a ética ico eram cantor d e bl ues, poetas, autobiógrafas, contadoras de his-
tória e d as
são subordin adas à razão. Na verdade, emoção, ética e razão são usadas de for- ora oras E! .
· · b do conhecimento. seu tr b h . · as se tornaram intelectuais feministas negras tanto por
ma .rnlerconc cta d a, como compone ntes essenciais na usca negra ª ª o
I mtel ec t ua 1 quanto pela validação que recebiam de mulheres
Nessa epi stemologia alternativ a, os valores são situados no centro do processo s comuns A
aderir , e •
Ih
s mu eres negras da academia, a seu turno, não podiam
.d - d . . . - - . sempre apontam ao iemini
de va lI açao o conhecimento, de maneira que as rnvest1gaçoes- - politizadas n-1ainst smo negro sem que fossem seriamente penalizadas pelo
.
para um objetivo ético. No mais, quando essas quatro d1mensoes sao rearn acadê .
colidia m •co. Em ambiente s racialmente segregados, que excluem
e at rei adas a um projeto de justiça social, elas conforma m um arcabouço que namente a . .
são c maioria das afro-ame ricanas apenas algumas poucas
ªPazes de d fi ' . . . .
orienta o pensamen to e a prática feminista negra. episte esa ar as normas dominan tes e aderir exphc1tamente a
mologia f, . . .
<lescr· - eminista negra. Zora Neale Hurston foi uma delas. Vejaª
imento içao de AI·
As mulhere s negras como agentes d o con h ec ice Walker sobre Hurston:

O.
· rammu·
uls1ona · S ·hi
. e 197 imp ação ·
Para mim, Zora Neale Hurston, Billie Holiday e Bessie mit ar-
Os movimen tos sociais dos anos 1950, 1960
. Em cornpar , • d e profa01ss1
mam uma espec1e .
, .1na tnnda de. zora per Ien cea· tradição
dan ças no clima intelec tual e político nos Estados Unidos. ~ ,entes
. . . , . t nararn-se ag . como B·11·
de cantoras negras, e não aos literatos ... Assim 1 ie· e Bessie '
co m o passado, muitas mulheres negras cstadun1 dcnses .or

161
160
ela segui u seu próprio ca minho, acreditou em seus próprios deUSes uc acompanha seu status de outsider . h .
perseguiu seus pró prios sonhos e se recusou a se separar das Pesso ' q wrt rn pod
f ustração quanto de criatividade. Na t . e ser tanto uma i
-,omuns" (W ,u KER, 19 77, p. xvii-xviii). as r entatrva de mi . . onte de
entre o contexto cultural das comunidad f n1rn1z.ar as dife
. . - . . es a ro-arneri renças
Zora 1'(eale Hurston foi uma exceção para sua época, já que, antes dos vas das inst1tu1çoes soc1a1s hegemónicas 1g canas e as expect 1.
' a urnas rn lh a r-
anos 1950 poucas mulheres negras cursavam ensino superior' e a ma·tona . seu comportamento e se tornam duas pes . . u eres dicotorniz.a
· - soas d1Strntas 0 C m
das que O lo gravam , aderiam aos processos dominantes de validação do tempo, o peso dessa atuaçao pode ser enor · m o passar do
me. Outras p
conheci m ento. os saberes acumulados pelas mulheres negras e ' or SUa vez, rejeitam
'b . operam contra .
A co munidade de académicas negras constitui um segundo grupo interesses ao contn mr para a manutençã d seus propnos
. O o o pen.sarnento esp . l
cujos padrões epistemológicos devem ser observados. À medida que O grupo do grupo d ommante. utras, ainda, conseg h . ecia iz.ado
uem ab1tar os d .
de académ icas negras cresce, essa coletividade heterogénea compartilha de mas o fazem de maneira crítica, usando as pe . ois contextos,
. - rspectrvas adqui ºd
a ma posição social semelhante no âmbito do ensino superior, e, ao mesmo a sua locahzaçao enquanto outsider within com . n as graças
o insumos e idei .
tem p o, encontra novos desafios na construção de grupos de solidariedade que tais mulheres possam fazer contribuições subst . . as. Ainda
anc1a1s enquanto
at ravés das diferenças. As académicas afro-americanas atribuem graus varia- do conhecimento, frequentemente O custo para .d agemes
• a v1 a pessoal é alto ~Em
dos de impo rtáncia à promoção do feminismo negro na academia. Todavia, algum ponto voce percebe que as coisas que te to . ·
, , . . - rnam excepcional se é ue
apesa r dessa nov a div ersidade emergente, que se consolida com o aumento de voce o e, inevitavelmente sao as que te tornam s l't · • " q
o I ana ' observa Lo .
Hansberry (1969, p. 148). rrame
afro- americanas no ensino superior, o escopo do feminismo negro académico
expandiu-se. His toricamente, as afro-americanas trouxeram sensibilidades Da mesma forma que o trânsito entre famílias brancas e 1
1 - ~ruco~
adqu iridas via epi s temologia feminista negra para seus trabalhos. Mas a a gumas questoes para as trabalhadoras domésticas . -
. . negras, a c1rculaçao entre
conqu ista da legitimidade com frequência teve como preço a rejeição dessa comunidades mterpretativas diferentes e rivais im - preocupaçoes - .
, . poe ep1Ste-
1
epistemologia . O simples fato de estudar a vida das mulheres negras colocou mo ogicas semelhantes para as pensadoras feministas negras. Os dilemas
enfrentados por acadê · .
mui tas carreira!> em ris co. Mais recentemente, um número crescente de aca- m1cas negras, particularmente por aquelas engajadas em
elaborar o pensam t f, . .
démicas afro-americanas optou por estudar experiências d.e mulheres negras, . en ° em1msta negro, ilustram as dificuldades que surgem
empregando elementos da epistemologia feminista negra em seu trabalho. Por ao 1idar com múlti 1 'd . .
P as comum ades interpretativas. Um conhecimento que
c-0rresponde aos crité . d d
exemplo o estudo d e Yalerie Lee (1996) sobre parteiras afro-americanas no ., nos e a equação de um grupo e é, portanto, considerado
' - d Ih egras método acertável., pode não .
Sul apresenta uma fu s ão inovadora entre ficçao e mu eres n ' ser aceito nos mesmos termos por outro grupo. Utiliz.ando
0
exemplo do in lê
etn ográfi co e narrativa pessoal, com bons resultados. ent d· g s negro, June Jordan ilustra as dificuldades de transitar
. te que ainda con - re 1ferent ·
Um terceiro grupo refere -se ao e strato d ominan . es epistemologias:
- , os de titulação, canais
trola escola5, programas de pó i,- graduaçao, process démicas
d e publicação e o utro s mccani
.
!>mOb
d. l
e egi
·r
ima
ção do saber. Aca
. or-
Não se pode "t ra d uz1r · " iormu
e laçoes · Jês pa drao
- d o rng - que denotam
. . , ento femini sta negro n abstração ou q uc nao - I· nc 1uem coisas ou pessoas ev1'dcntemen te a1·1v~s
a fro -americana s que almeJam promover o pensam ; ·uadir
. 1 • • eurocêntrícas para pers para O inglês negro. Isso deformaria a linguagem cm um uso contra·
malm e nte preci s am empregar epi stemo agias ferem- se · ,
d, itório frc n te aos pnnc1pios · ·
orientadores da comun1ºdad e de usuanos.
. . . ras enfrentam re .
t: '>be grup o. A~ dificuldades que ta1s mulhere s neg . t,molog1as Ern
. vc· i · · 1 d ·
z e isso, é necessário converter as frases do ing ês Pª rao em
. . , . ialis ta s cm cpis e
m c no 11 tm demon btrar que pod e nam ser es pec , . de sses pa- ideias compatíveis com a centralidade das pessoas as~umida pelo ingb
. . à •za hegemónica
. ., ar forma s
.
negro (JoRDAN, 1985, p. 130).
ma i.c ulina s bra n cas do que cm resis tir naturc · 1
ºb . alor e utl iz
drõcb de p en s amt:nto de m o do que possa ver, atn uir v • , negras que
6 m me smo
. . . Para as mulhere . de APesar <lc b. ºIh
·
alte rnativali d e co nhcc1mcnto ftmin1 s ta negro. . rnarginal1da VocabuJ . am as as visões de mundo comparti arem u
. . da academia, a áno as id · ·
11ào agcntc i, d o co nhe c imento no 1ntenor ' Cta s cm si desafiam uma tradução direta.

162 16)
ue , ·ic-idêmicas negras tenham .aceitado o fato de qu e, para -a mericanas para buscar compreender O pensamento femin·
Vma vez q '15 ' ' a f ro
perspectiva parcial sobre a dominaç·ao. ' st ª negro
.
certas d 1men!:i
-ões do ponto de vista delas, a tentativa de tradução deve rdades com O uma
feminista negra para outras abordagens pode Como as mulheres negras têm acesso a expe .ê .
val 1·d,,1d as pela• epistemologia . n nc1as que acumulam o
ser infértil, outras opções emergem. Em vez de tentar descobrir verdades r negra e ser mulher, uma epistemologia alternativa t'l .
se . . u t tzada para reani-
universais que possam ser traduzidas de uma epistemologia para outra (ao lar O ponto de vista delas deve refletu a convergênc· d .
cu • Ia esses dois conjuntos
menos à primeira vista), as intelectuais negras podem vir a constatar que de experiências. Raça e genero podem até ser analiticam te d.tstintos .
en mas
os esforços para rearticular um ponto de vista de mulheres negras são es- a vida cotidiana das mulheres negras eles operam con· t '
n , . . . . . Jun amente. A busca
pecialmente frutíferos. A rearticulação de um ponto de vista das mulheres de caractensticas d1stmt1vas de uma epistemologia util tza • d
a por mulheres
negras redesenha particularidades e revela uma dimensão mais universal da afro-americanas revela que algumas ideias que os acadêmicos f . . .
. . " ,, a ncamstas iden-
vida cotidiana delas. "Dato todos os meus trabalhos", conta Nikki Giovanni, tificam como sendo t1p1camente negras com frequência guard amseme Ih ança
, . . • .
"porque eu acho que poesia ou quaisquer outros escritos são reflexos de um consideravel com 1de1as que as academ1cas feministas afirmam ser t·tptcamente .
momento. O universal deriva do particular" (1988, p. 57). Lorraine Hansberry "femininas". Essa semelhança sugere que os contornos atuai·s d as opressoes _
expressa uma noção similar: "Acredito que uma das ideias mais sólidas na intersectadas podem variar drasticamente e ' ainda assim , gerar a1gumas
escrita dramática é que, para criar o universal, você precisa prestar muita regularidades nas epistemologias utilizadas por grupos subordinados. Assim
atenção no específico. A universalidade, acredito eu, emerge da identidade como mulheres negras estadunidenses e mulheres africanas depa raram-se com
verdadeira do que existe" (1969, p. 128). padrões diferentes de opressões intersectadas e, no entanto , es tabe1eceram
agendas semelhantes para seus feminismos • um processo si·milarpo de estar em
curso ~o ~ue diz ~espeito às epistemologias dos grupos oprimidos. Portanto,
No caminho da verdade
a relev~nc1a da epistemologia feminista negra pode residir em sua capacidade
A existência do pensamento feminista negro sugere outro caminho de enn:uecer nossa compreensão de como os grupos subordinados criam o
conhecimento que fioment a tanto seu empoderamento quanto a justiça social.
para as verdades universais que poderiam acompanhar a "identidade verda-
· ·
Essa visão do fem 1msmo . ,
deira do que existe". Em Black Feminist Ihought: knowledge, consciousness . . negro permite as mulheres negras explorarem
as implicações ep· t l, ·
and the politics of empowerment, coloco a subjetividade das mulheres ne- tal . _ is emo ogICas da política transversal. Em última instância,
v1sao pode nos c d .
gras no centro da análise e examino a interdependência do conhecimento B " on uz1r a um ponto em que, como afirma Elsa Barkley
rown, todas as pess
cotidiano e tácito compartilhado por mulheres afro-americanas enquanto valid , . , oas possam aprender a se situar em outra experiência,
a-1a e Julga-la segu d , . . ,
.
grupo, o conhecimento especializado produzido por rnte ec
. l tuais negras e
comp _
araçoes e sem a
°n seus propnos cnterios, sem que sejam necessárias
"d
. - soc1a1s ·
. t 1pos
. . que mo ld am os d 01s d e pensamentos. Essa abor· d própria" (1 necessi ade de adotar aquela abordagem como a sua
as con d 1çoes
influência as 989• p. 922) Na lóg1·ca de · "nao , · des1ocar uma
- e, necessano
dagem me permite descrever a tensão criativa que conecta ª .a pessoa . · ssa pol't
1 ICa,
se a rnanetr para situar out , , , .
condições sociais sobre o ponto de vista das mulheres negra ar e apropr· d ra, so e necessano que o centro seja deslocado constante
. para aIter 1
gro E ª amente" (p. 92 2)_
como o poder das ideias propiciou a muitas delas os mews . .
fem1111sta ne rn vez de enf; t' .
essas mesmas condições sociais. Eu abordo o pensamento . a de negras e . ª izar as diferenças entre o ponto de vista das mulheres
_
0
um s1stern sua ep1stem O l .
como situado em um contexto de dominação, e nao com sento e às outr ogia em relação às mulheres brancas, aos homens negros
. . . . • . N 0 ais, eu apre as coletivid d
1de1as d1vorc1ado da realidade política e econom1ca. m r rneio urna local . _ ª es, as experiências das mulheres negras servem como
. bordinado Pº , izaçao so . l . .
o pensamento feminista negro como conhecimento su s alter· tnultiplas . eia a partir da qual se pode examinar a conexao entre
ntrar Iugare i0 ep1stemol .
d o qual as afro-americanas há muito lutam para enco d finiçóe5- r111a, col ogias. Ao encarar a epistemologia feminista negra dessa
. , . s auto e o oca-se e . . .
nativos e epistemologias que possam validar suas propna mulheres ,ue as rnulh m xeque análises aditivas da opressão que re1vmd1cam
dinado das eres neg •
Em resumo, examinei o ponto de vista situado e su b or ras tem, nesse sentido, uma visão mais apurada do que

164 165
outros grupos. Tais abordagens sugerem que a opressão pode ser quantificada .
istemologia utilizada para validar O co h ec1mento
Se a ep n é •
e comparada, e que a adição de camadas de opressão produz um ponto de d os conhecimentos anteriores validados pel d questionada,
to os . . o mo elo dominante -
vista aprimorado (SPELMAN, 1988). Uma das implicações dos usos da teoria I cados sob suspeita. As epistemologias alternati d sao
coo .. . vas esafiam todos os co-
dos pontos de vista é que, quanto mais subordinado for um grupo, mais cimentos legitimados e mtroduzem questionam t
pura a visão disponível para ele. Isso é resultante das origens das abordagens nhe . en os acerca da validade
foram considerados verdades qua d f
dos construtos que
. . - n o con rontados com
do ponto de vista na teoria social do marxismo, que refletem o pensamento , mas alternativas de vahdaçao da verdade. A existên . d
ior .. . eia o ponto de vista
binário de suas raízes ocidentais. Ironicamente, ao quantificar e ranquear a mulheres negras que utilizam a epistemologia femin .t
da 5
1s a negra desafia 0
opressão humana, os teóricos do ponto de vista acionam critérios de adequação e é normalmente tomado como verdade e, ao mesmo tempo, questiona .
qu
metodológica que se assemelham aos do positivismo. Embora seja tentador processo através do qual tal verdade é produzida.
0

afirmar que as mulheres negras são mais oprimidas do que todo mundo e que,
portanto, estão em melhor posição para compreender mecanismos, processos
Referências
e efeitos da opressão, não é esse o caso.
Sustentamos, outrossim, que aquelas ideias confirmadas como verdadei- ANDREWS, William L. Sisters of the Spirit: Three Black Women's Autob.10gra-
· h .
ras por afro-americana s, afro-americano s, lésbicas latinas, asiático-americanas, phies of the Nmeteent Century. Bloommgton: Indiana University Press, 1986 _
porto-riquenho s e outros grupos com seus pontos de vista distintos - com a ASANTE, Molefi Kete. The Afrocentric Idea Philadelphia· Templ U · .
Press, 1987. · · e mversity
utilização por cada grupo de abordagens epistemológica s constituidoras de
seus posicionament os singulares - tornam as verdades mais "~bjetivas". ~ada BELENKY, Mary Field et ai. Womens Ways of Knowing. New Yi k· B ·
Books, 1986. or · asic
grupo fala a partir de seu próprio ponto de vista e compartilha seu propno
conhecimento parcial e situado. Porém, como cada grupo reconhece a par- BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas .. The Social Construction ofReality
New York: Doubleday, 1966. ·
o conhecimento é inacabado. Cada grupo .torna-se
eia 1 a de de sua verdade,
. 1·d , .
capaz de considerar os pontos de vista de outros grupos sem ren~nciar a ~1~- BROWN, Elsa ~arkley. Hearing Our Mothers' Lives. Atlanta: Emory University'
1986. (manuscrito)
de seu próprio ponto de vista ou suprimir as perspectivas parems
g ularidade , . redação da arte. e Am ·
os "O que é sempre necessano para uma ap BROWN, Elsa Barkley Afr W, , ..
d
" , ers ectiva ampla, que permita, fi eonceptuahzmg
or
. . and· Ti ican-
h. Afencan
. . Quiltmg: A
omens Framework
e outros grup . eac mg ncan-Amencan Women's History. Signs,
da vida", argumenta Alice Walker, e uma p p - os a v 14
· 'n. 4, p. 921-929, 1989.
. b l . ento de conexoes, ou ao men
onde antes não havia nada, o esta e ec1m . b, no esforço de BYERLY, Victoria H, d Ti C . .
f mpla consiste tam em
•fi -o de um tema Press, 1986 _ · ar zmes otton Mzlls Gzrls. Ithaca: Cornell University
busca das mesmas. Esta perspec iva a
. d d do mundo a um caça
abranger num único olhar a vane a e , 5) A parcialidade, e CANNON, Katie G To
. "d d "(WALKER , 1983, p. ··d . os indivíduos RUSSEL, Le M · e Eme:g~nce of a Bla~k Feminist ~onscio~sness. I_n:
d
a partir de uma imensa 1vers1 a e
não a universalidade , é a condição necessana
, · para ser ouvi o,
h suas posições são
Westminst 7 ·(Ed.). Femznzst Interpretatzons of the Bible. Philadelph1a:
er ress, 1985. p. 30-40
h . t s sem recon ecer CiiODoR.ow. N .
e grupos que promovem con ec1men o 1 s que o fazem.
fiança do que aque e e of Californi p' ancy. The Reproduction of Mothering. Berkeley: University
considerados menos dignos e con d locam em xequ ª ress, 1978
. ó raramente co d COLLINS .
Conhecimento s alternativos, por s1 s , . d desacredita os }..f Hill F h .
, Patricia
. . - lmente ignora os, . Lnneapoli . D . . · zg tzng Words: Black Women and the Search for Justice.
conhecimentos convenc10na1s. Eles sao gera digmas eJ{lstentes. Drtt B ~- niversity of Minnesota Press, 1998.
ou simplesmente absorvidos e margina iza
· r dos frente aos para
. . põem ao proce
sso · ,
s151 onn1e Thor
lternat1vas im nto erhood. Fe . _n ton. Race, Class, and Gender: Prospects for an All-lnclusive
1 .
Os questionament os que as epistemo ogias a l ·t·mar o conhecirne FRANKLIN rnin, st Studies, v. 9, n. 1, p. 131-50, 1983.
1
do poder de egi ·to mais re1evantes.
fundamental utilizado pelos d etentores th
Atlantic R.ec~ ~~e a. I Never Loved a Man the Way I Lave You . New York,
. têm impactos mui r ing Corp, 1967.
e, assim, justificar seu direito de d ommar,

166
167
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