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Módulo 8

Texto

D. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua ideia:


- Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada...
Não tem prenda nenhuma!
- Mas é muito esperto, minha rica senhora! - acudiu Vilaça.
- É possível - respondeu secamente a inteligente Silveira.
E, voltando-se para Eusebiozinho, que se conservava ao lado dela, quieto como se fosse de gesso:
- Ó filho, diz tu aqui ao Sr. Vilaça aqueles lindos versos que sabes... Não sejas atado, anda!... Vá,
Eusébio, filho, sê bonito...
Mas o menino, molengão e tristonho, não se descolava das saias da titi: teve ela de o pôr de pé,
ampará-lo, para que o tenro prodígio não aluísse sobre as perninhas flácidas; e a mamã prometeu-lhe que,
se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela...
Isto decidiu-o: abriu a boca, e como de uma torneira lassa veio de lá escorrendo, num fio de voz, um
recitativo lento e babujado:

É noite, o astro saudoso


Rompe a custo um plúmbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, húmido véu...

Disse-a toda - sem se mexer, com as mãozinhas pendentes, os olhos mortiços pregados na titi. A
mamã fazia o compasso com a agulha do crochet; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de
quebranto, banhada no langor da melopeia, ia cerrando as pálpebras.
- Muito bem, muito bem! - exclamou o Vilaça, impressionado, quando o Eusebiozinho findou
coberto de suor. - Que memória! Que memória!...É um prodígio!... (…)
Enquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Afonso, numa mesa baixa, os cristais e as
garrafas de soda, Vilaça, com as mãos nos bolsos, de pé e pensativo, olhava a brasa da acha que morria na
cinza branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso:
- Aquele rapazito é esperto...
- Quem? O Eusebiozinho? - disse Afonso, que se acomodava junto ao fogão, enchendo alegremente
o cachimbo. - Eu tremo de o ver cá, Vilaça! O Carlos não gosta dele, e tivemos aí um desgosto
horroroso... Foi já há meses. Havia uma procissão e o Eusebiozinho ia de anjo... As Silveiras, excelentes
mulheres, coitadas, mandaram-no cá para o mostrar à viscondessa, já vestido de anjo. Pois senhores,
distraímo-nos, e o Carlos, que andava a rondar, apodera-se dele, leva-o para o sótão, e, meu caro Vilaça...
Em primeiro lugar ia-o matando porque embirra com anjos... Mas o pior não foi isso. Ima gine você
mesmo o terror, quando nos aparece o Eusebiozinho aos berros pela titi, todo desfrisado, sem uma asa,
com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um barbante, a coroa de rosas enterrada até ao
pescoço e os galões de ouro, os tules, as lantejoulas, toda a vestimenta celeste em franga lhos!... Enfim, um
anjo depenado e sovado... Eu ia dando cabo do Carlos.
Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, acrescentou, com uma satisfação
profunda:
- É levado do Diabo, Vilaça!
Eça de Queirós, Os Maias
I

1. Indica em que nível diegético se situa este excerto. Justifica.


1.1 Localiza este excerto na acção d'Os Maias.
2. Encontramos no texto a caracterização de duas crianças: Eusebiozinho e Carlos.
2.1 De que processos se serve o autor para os caracterizar?
3. Com base no texto, estabelece um contraste entre o procedimento de Eusebiozinho e o de Carlos.
3.1 A razão desse contraste estará apenas no temperamento dos miúdos? Justifica a resposta.
4. O conteúdo do texto foca um problema muito importante na economia de um romance
realista/naturalista como este.
4.1 Qual o problema e a sua importância?
5. As ideias de D. Ana e de Afonso da Maia não coincidem. Indica as caraterísticas essenciais dos
modelos que ambas as personagens defendem.
6. Qual o ponto de vista do narrador revelado neste texto? Justifica a tua resposta.
7. Assinala os aspectos estilísticos mais marcantes do texto, relacionados com o fim satírico que o
autor tinha em vista.
II
Elabora um texto expositivo-argumentativo subordinado ao tema:
“Carlos da Maia não fraquejou por causa da educação recebida, mas apesar da educação recebida”.
III
1. Refere os tempos verbais sublinhados nas frases que se seguem:

1. Amanhã farei os trabalhos de casa. a) Pretérito Imperfeito do Indicativo

2. Tenho de rever os conteúdos de funcionamento da língua. b) Futuro do Indicativo


3. Maria, entra. c) Presente do Indicativo
4. No passado nunca vinha a este parque. d) Pretérito Perfeito do Indicativo
5. Não copiei as frases que estavam no quadro. e) Imperativo
6. É necessário que faças a composição. f) Presente do Conjuntivo

2. Indica a função sintática das expressões sublinhadas:

1. Maria, já fizeste as malas? a) Sujeito


2. O João revê os textos que escreve e arquiva-os depois de corrigidos. b) Complemento Direto
3. Quem quer ter sucesso tem de aplicar-se. c) Modificador restritivo
4. Os jovens que se aplicam merecem férias prolongadas d) Vocativo
5. O romance Os Maias foi lido por todos os alunos da turma. e) Agente da Passiva
6. Os alunos desta turma são muito aplicados f) Predicativo do Sujeito
I
1. Indica em que nível diegético se situa este excerto. Justifica.
1.1 Localiza este excerto na acção d'Os Maias.
2. Encontramos no texto a caracterização de duas crianças: Eusebiozinho e Carlos.
2.1 De que processos se serve o autor para os caracterizar?
3. Com base no texto, estabelece um contraste entre o procedimento de Eusebiozinho e o de Carlos.
3.1 A razão desse contraste estará apenas no temperamento dos miúdos? Justifica a resposta.
4. O conteúdo do texto foca um problema muito importante na economia de um romance
realista/naturalista como este.
4.1 Qual o problema e a sua importância?
5. As ideias de D. Ana e de Afonso da Maia não coincidem. Indica as caraterísticas essenciais dos
modelos que ambas as personagens defendem.
6. Qual o ponto de vista do narrador revelado neste texto? Justifica a tua resposta.
7. Assinala os aspectos estilísticos mais marcantes do texto, relacionados com o fim satírico que o
autor tinha em vista.

II
Elabora um texto expositivo-argumentativo subordinado ao tema:
“Carlos da Maia não fraquejou por causa da educação recebida, mas apesar da educação recebida”.

III
1. Refere os tempos verbais sublinhados nas frases que se seguem:

1. Amanhã farei os trabalhos de casa. a) Presente do Conjuntivo


2. Tenho de rever os conteúdos de funcionamento da língua. b) Pretérito Perfeito do Indicativo
3. Maria, entra. c) Futuro do Indicativo
4. No passado nunca vinha a este parque. d) Imperativo
5. Não copiei as frases que estavam no quadro. e) Presente do Indicativo
6. É necessário que faças a composição. f) Pretérito Imperfeito do Indicativo

2. Indica a função sintática das expressões sublinhadas:

1. Maria, já fizeste as malas? a) Predicativo do Sujeito


2. O João revê os textos que escreve e arquiva-os depois de corrigidos. b) Vocativo
3. Quem quer ter sucesso tem de aplicar-se. c) Agente da Passiva
4. Os jovens que se aplicam merecem férias prolongadas d) Sujeito
5. O romance Os Maias foi lido por todos os alunos da turma. e) Modificador restritivo
6. Os alunos desta turma são muito aplicados f) Complemento Direto