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Resumo do livro Direito Romano, Cruz Sebastião (1ª frequência 2017) Bruna Fonseca

Senatusconsultum Macedonianum (a.75 d.C)


Conceito – o senac.Macedonianum proibiu o empréstimo de dinheiro (pecunia)
a todo o filliusfamilias, mesmo que ele ocupasse um alto cargo.
Designação- É assim designado em virtude de comportamento gravemente
escandaloso dum tal macedónio. Esse filiusfamilias, devido principalmente ao
dinheiro que dispunha e que obtinha através de empréstimos – e os usuários
emprestavam-lhe, geralmente com juros muito elevados, porque, depois,
quando ele tivesse bens próprios, o que acontecia pelos menos quando
passasse a sui iuris, exigiram tudo - entregava-se às maiores imoralidades e
à prática de crimes gravíssimos. Até perpetrou o assassínio do seu pater (que
também era seu genitor), para mais depressa ficar sui iuris e receber a
herança.
Finalidade – evitar a devassidão dos filliusfamilias , e por conseguinte protegê-
los até contra esse perigo
Conteúdo – A proibição estabelecida pelo senac.Macedonianum visava só os
empréstimos de dinheiro (pecunia,aes) , pois também os romanos entendiam
que « na mão de rapazes, o dinheiro é mau conselheiro».
Caráter- o senac.Macedonianum é de caráter público. Não pode renunciar à
exceptio por ele concedida, nem mesmo apresentando um garante; este
também fica protegido pela exceptio.
Efeitos do senac.Macedoniaum «obligatio naturalis», («soluti retentio»)
Os empréstimos de dinheiro contraídos por um filiusfamilias, em virtude da
proibição do senac.Macedonianum , originavam simplesmente uma obligatio
naturalis. O credor não tem uma actio para exigir o seu crédito do filiusfamilias,
nem enquanto permanecer filiusfamilias (mesmo que ele possua bens
próprios), nem mesmo depois de ele ser já sui iuris. No entanto se o
filiusfamilias der o dinheiro emprestado, trata-se de um verdadeiro cumprimento
de uma obrigação, e concretamente de um pagamento, e por isso o credor tem
direito a reter o que lhe foi dado a titulo de pagamento (soluti retentio). Não se
trata de uma transferência da propriedade de coisa indevida, e daí que o
filiusfamilias não pode repetir, isto é, não tem a seu favor uma condictio
indebiti.
Consequência do senac.Macedonianum: «denegatio actionis»; concessão
duma exceptio (caso normal) e a sua caraterística (ser perpétua)
Se o credor que emprestava dinheiro a um filiusfamilias o demandava, e quer
se encontrasse ainda no status de filiusfamilias quer fosse já um paterfamilias,
o pretor podia, logo de inicio, solucionar rapidamente a questão, não
reconhecendo a legitimidade da existência de uma actio a favor desse credor, e
por isso não lha concedia (denegatio actionis).
Normalmente o pretor concedia ou reconhecia a actio ao credor; mas na
fórmula, colocava uma cláusula a favor do demandado (exceptio), que
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inutilizava a pretensão do demandante. Era como se dissesse: o credor tem


dto; mas, em virtude da proibição estabelecida pelo senac.Macedonianum, não
o pode exigir. Portanto, grosso modo, a proteção concedida pelo senac.Maced.
aos ff. concretizava-se numa exceptio a favor deles.
Caraterística da «exceptio senac.Maced.» - a exceptio senatusconsulti
Macedoniani era perpétua (eterna); podia opor-se à pretensão do credor-
demandante, não só em qualquer momento do processo, mas até na própria
altura da execução, isto é, já depois da condenação.
A que era concedida a «excepetio senatusconsulti Macedoniani»
 a todo o filiusfamilias, nada interessando que ele ocupasse um alto cargo, e
mesmo que tivesse bens próprios , e ainda mesmo depois de ser já sui iuris.
Foi feita uma extensão desde senac, talvez no século III, às filiaefamilias, se
pedissem dinheiro emprestado para comprar «ornamenta» (objetos de adorno
para as mulheres)
 ao pater
 aos herdeiros do ff.
 ao garante da divida em dinheiro, contraída pelo ff.
Casos em que era negada a exceptio senac.Macedoniani
 se o ff. maliciosamente se fez passar por sui iuris.
 se quem emprestou o dinheiro tinha motivos plausíveis para julgar o ff um
sui iuris, reconhece, então espontaneamente, o débito, embora numa forma
táctica.
 Se o pater consente (dá uma autorictas), embora tacitamente, ou valida, e
também mesmo só duma forma silenciosa.
 Se o dinheiro foi para proveito do pater ou pagar um débito (dívida) do
pater.
Fraude ao senac.«Macedonianum»; consequência
A fraude, em rigor, é um prejuízo doloso. Aplicando este conceito à fraude de
uma norma jurídica, podemos dizer que a fraude ao senac.mac. consiste em
atingir a mesma finalidade proibida pelo senac., através dum meio não
expressamente proibido pelo senac.
Consequência: nesses casos, o senac.Macedonianum continua a aplicar-se. A
fraude pode verificar-se principalmente em duas hipóteses.
1ª – Nos casos de normal não-aplicação – o Senac. proíbe aos ff. o
empréstimo de dinheiro (pecunia, aes) ; pois, desde que não se demonstre o
contrário pressupõe-se sempre que esse empréstimo é para fins imorais, ou
pelo menos, dá ocasião para isso. Então o ff. contrai um empréstimo de
géneros para depois, os vender e obter pecuria ( e o credor naturalmente sabe
que o empréstimo de géneros é para ele conseguir dinheiro). O senac. aplica-
se.
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2ªhipotese: se tiver sido praticada uma fraude, deixar de haver exceção ao


senac. para então ele se aplicar, nos termos normais.

Constituciones principum
A expressão «decreta principum», significa decisões («decretum») do
imperador. «decreta principum» são um dos vários tipos decisões imperiais.
Para evitar esta dupla aceção de decreta principu que origina certamente
confusões, aí pelo séc.II d.C, quando os as constituições eram já um
verdadeiro «constituit» com força de norma jurídica, surgiu a expressão
«constitutiones principum» para substituir «decreta principum», ficando desde
então a palavra «decreta» a significar apenas uma das várias espécies de
constituições.
As constituições imperiais durante o principado e a parte do dominado
(séc.I-IV)
As constituições imperiais são decisões de caráter jurídico proferidas
diretamente pelo imperador. «Diretamente», quer dizer, no sentido de que o
prínceps não necessita de cooperação, nem mesmo mediata ou indireta, quer
do senado quer do povo; são decisões que procedem (do imperador)
unilateralmente.
O principado surgiu no ano 27 a.C, e prolongou-se até aos fins do séc.III. O
prínceps é a nova e grande figura da constituição política de Roma. Não sendo
nem rei nem cônsul nem sequer magistratus, tem um poder quase absoluto,
por estar investido da tribunitia postestas com caráter vitalício, e do
imperium proconsulare maius práticamente também tem caráter vitalício. As
antigas magistraturas republicanas, sobretudo os cônsules e pretores,
transformam-se em funcionários executivos. Surge o funcionalismo, tudo e
todos subordinados ao princeps numa colaboração forçada.
O princeps, cheio de prestigio e de poderes, começa a proferir edictos –
ex+dicere= afirmar solenemente, para fora, em volta alta (ex), isto é, para o
público. O edicto é um programa de atividades a realizar, afixado publicamente.
Os edictos dos magistrados eram fonte do ius honorarium; mas como o
princeps não é um magistrado, os seus edictos passam a ser fonte do ius civile.
Como?
No séc. I, as constituições imperiais têm valor jurídico, de ordem prática; o povo
acata os seus preceitos e observa-os.. são decisões do imperador.
No século II, são equiparadas às leges, isto é, têm a força da lex, mas não são
leis.
No século III, já são leis.
A partir do séc.IV , as constitutiones principum são a única fonte de dto, e então
as constituições e leis são sinónimos. Justiniano revela-se o termo dessa
evolução, ao afirmar numa sua constituição de 529. Isto era o inicio da lei, ou
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melhor, da vontade absoluta do imperador, já que ele era designado e


aclamado como lex animata
Partes duma «constitutio»
1.Inscriptio – é a primeira parte. Contém o nome ou nomes dos imperadores,
autores da constituição, e o da pessoa a quem é dirigida;
2.Corpus – a parte dispositiva, onde está a matéria ou conteúdo da
constituição;
3.Subscriptio- é a parte final; contém a data e a indicação do lugar onde foi
escrita.
É um fato, que a partir do século II, as constitutiones principum tem valor de lei;
são como uma lex rogata. Depois são uma lex; e finalmente, só elas é que são
leges.
As constituições imperiais adquiriram caráter normativo-jurídico, portanto com
valor igual ao das leges e dos senatusconsulta, devido a um equivoco do
«populus». Este quando viu o imperador carregado de prestigio, cheio de
autorictas, convenceu-se de que tudo o que ele ordenasse tinha valor de lei.
Por sua vez, o imperador, ao tomar conhecimento desta convicção do povo,
começa a impor a sua vontade e a criar leis. O populus acata sem relutância;
ele próprio tinha-se preparado para isso. Mas os juízes recusaram-se a aplicar
nos tribunais as constituições, sobretudo quando vim que eram injustas.
Começou então uma verdadeira luta entre juízes e imperadores. Este, para
vencer, recorreu energicamente à aplicação de penas graves aos juízes que
dolosamente não fizessem caso das constitutiones. Essas penas variavam. Iam
desde a infâmia e perda de cargo, ameaças, confiscações de bens e exílio até
à morte. O imperador acabou por vence, conseguindo que as constituições
imperiais fossem não apenas também leis, mas as únicas leis.
Vários tipos de constituições imperiais deste período (séc.I-IV)
1.Edicta – são constituições de carater geral, proferidas pelo imperador no uso
do imperium proconsulare maius. Por exemplo, o edicto de Caracala (a.212),
que concedeu a cidadania a todos os habitantes do Império.
2.Decreta (sensu stricto) – eram decisões judiciais pronunciadas pelo
imperador, naqueles pleitos submetidos à sua apreciação.
Ao lado dos tribunais ordinários em que o processo tinha duas fases – in iure,
perante um magistrado, e apud iudicem, perante o juiz –, havia uma forma
«extra-ordinária» de processar. Era um tribunal especial, presidido pelo
imperador, com amplos judiciais. Funcionava quer em primeira instância quer
como tribunal de apelação. O processo aqui, não tinha duas fases, mas uma: o
imperador desempenhava cumulativamente as funções de magistrado e de
juiz. As sentenças dadas por esse tribunal, que eram portanto decisões do
imperador verdadeiramente judiciais, chamavam-se decreta.
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3.Rescripta (epistolae e subscriptiones)- os rescripta eram decisões


(respostas) do imperador dadas por escrito às «perguntas» ou aos pedidos que
lhe faziam quer os magistrados quer os particulares. As «perguntas» feitas
pelos magistrados denominavam-se consultas (consultationes, relationers
ou sugestiones); a resposta do imperador chamava-se epistola, em rigor,
escrita, toda pelo imperador. - As «perguntas» ou pedidos feitos pelos
particulares tinha o nome de preces, supplicationes ou libelli; a resposta do
imperador intitulava-se subscriptio, pois era apenas assinalada pelo
imperador e não escrita, toda, por ele.
4. Mandata – eram a ordens ou instruções dadas pelo imperador aos
governadores das províncias, funcionários, etc. Autênticas circulares sobre
problemas administrativos.

As constituições imperiais no Baixo Império (séc.VI-IV)


Contraposição de leges (=constitutiones) ou «ius novum» a «ius» ou «ius
vetus»
A partir do séc.IV as constituições imperiais são a única fonte de dto. Só o
imperador é que tem o poder de criar leis. Nesta altura, o imperador já era
considerado dominus et deus do império. O seu poder não provém mais de
uma lex (curiata) do império, mas diretamente da investidura dos deuses. A
partir do séc.IV, leges são apenas as constituições imperiais. Formam o novo e
único modo de criar dto. É o «ius novum». Contrapõem-se as leges.
Também sabemos eu o «ius» ou «ius vetus», a partir do século IV, é todo o
dto tradicional; e porque se concretiza nas obras dos juristas clássicos, é
sinónimo de literatura jurídica clássica. Este era o alcance da expressão ius
ou ius vetus.
Quanto ao valor, o ius é superior às leges em matéria de dto privado; as leges
são superiores ao ius em matéria de dto constitucional e de dto administrativo.
Vários tipos de constituições imperiais deste período (séc.IV-VI)
1.Edita- são leges generales, de aplicação a todo o imperium. Constituem a
fonte principal de dto deste período.
2.Rescripta – são leges speciales, resposta dadas pelo imperador às consultas
e ele dirigidas, tal como as epistolaes. Como a forma normal de legislação
deste período era os edicta, os rescripta diminuem muito em relação ao
período antecedente.
3. Adnotationes – é uma forma nova com que o imperador dá despacho às
«preces» que lhe são dirigidas, substituem as subscriptiones. Consistem num
rescrito, colocado no pedido do particular, concedendo favores, isenção dum
imposto.
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4.Decreta – diminuem muito, pois o imperador, agora, pessoalmente resolve


muitos poucos casos. Tem o seu tribunal oficia (cognitio); a ele se devem dirigir
os interessados.
5.Pragmata sanctiones – É também um novo tipo de constituições imperiais
deste período. São constituições imperiais de caráter regional.

Iurisprudentia
A iurisprudentia é uma fonte de «ius civile». É a ciência do direito. É uma
ciência e uma técnica do justo e do injusto. A ciência do dto é prática,
concretiza-se numa atividade intelectual, dirigida a descobrir o que é justo,
honesto, útil e oportuno na convivência social.
Evolução histórica da iurisprudentia
Como a ciência do dto é «iuris-prudentia», os cultores desta ciência
chamavam-se prudentes (os que sabem agir) e os iurisprudentes.
Por este caráter «sacerdotal» do jurista, e ainda porque no inicio, Religião,
Moral, e Direito constituíam um único todo. – por estas duas razões, desde o
inicio do século IV a.C, unicamente os sacerdotes pontífices eram juristas.
A principio, a iurisprudentia constituía um privilégio dos sacerdotes pontífices.
Estes eram escolhidos pelos patrícios. Os plebeus eram tratados
desfavoravelmente. Das várias reações já sabemos que surgiu a Lei das XII
Tábuas. É o 1ºfator de laicização.
O 2ºfator é o chamado de Ius Flavianum. Segundo a tradição, Cneu Flávio,
liberto, escriba do nobre e pontífice Ápio Cláudio, aproveitando-se da cegueira
do seu patrono, publicou uma coleção de fórmulas legais processuais, que
ficou conhecida por Ius Flavianum.
O 3ºfator é o ensino público de dto, em meados do séc.III Ac por Tibério
Coruncâneo – o primeiro plebeu que teve acesso ao cargo de pontifex
maximus.
A partir do império, universalidade da «iurisprudentia»
Augusto resolveu admitir para cargos importantes jurisconsultos, mesmo
pessoas de classe média. Mas como o jurista tem de possuir além do saber
jurídico também autoridade social, e como agora, os iurisprudentes não tem
autoridade social de carater aristocrático, Augusto concede autoridade de
caráter político- ius respondendi.
Adriano, depois avançou um pouco mais. Concede aos juristas consultos
autoridade social de caráter burocrático. É o triunfo do funcionalismo sobre a
aristocracia.
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Função dos iurisprudentes. Cavere, agere, respondere


A atividade da nova iurisprudentia é a tríplice.
Cavere, isto é aconselhar os particulares como deviam realizar os seus
negócios jurídicos: palavras sacramentais a pronunciar, clausulas a entender ,
e por vezes, documentos escritos a redigir.
Agere, era a função de assistir às partes no processo: qual a fórmula a
empregar, que palavras a usar, quais os prazos para apresentar provas, etc.
Respondere, consistia em dar sentenças ou pareceres (responsa) a
particulares ou a magistrados sobre questões jurídicas. Era a função mais
importante dos iurisprudentes.
A «iurisprudentia como fonte de direito
A princípios toda a atividade de iurisprudentia se concretizava na interpretatio.
E a iurispridentia, de inicio, foi praticamente a única fonte de dto. A
«iurisprudentia» foi a primeira fons iuris.
São os iurisconsulti que, de facto, criam as normas jurídicas.
Consagração legal da iurisprudentia
1.Na época republicana- A «iurisprudentia» não é considerada oficialmente
fonte imediata de dto; os responsa não vinculavam os juízes. A «iurisprudentia»
é apenas a fonte inspiradora e material, mas tanto do «ius civile» como do «ius
honorarium».
2.Desde Augusto a Adriano - Augusto tinha como finalidade captar os juristas
de maior valor para defesa da sua politica, concedeu-lhes o chamado ius
respondendi. Quer dizer, os responsa dados por esses iurisprudentes
privilegiados aos seus consulentes tinham tanto valor como se fossem
respostas dados pelo imperador. Portanto, um valor igual ao das constituições
imperais no sec.I, que era apenas de caráter prático, indo depois culminar na
figura máxima da literatura jurídica clássica. Simplesmente, esses responsa
não eram já pura doutrina (dos particulares, dos «iurisprudentes») estavam
imbuídos ou até informados duma certa participação no império, eram decisões
de alguém que detinha uma parcela mínima de soberania. A iurisprudentia
(doutrina) passa a jurisprudência (decisões de pessoas com soberania,
decisões dos tribunais).
3. A partir de Adriano – a «iurisprudentia» é considerada fonte imediata de dto.

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