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Q UÍMICA E SOCIEDADE

M i g u e l J a f el i c c i J u n i o r
La u d e m i r Ca r l os Va r a n d a

A seção “ Quı´m ica e Sociedade” apresenta artigos que focalizam produção de bens de consumo, in-
aspectos importantes da interface ciência/sociedade, procurand o, cluindo o da água potável, os pro-
sempre que possı́vel, analisar o potencial e as lim itações da ciência cessos de separação nas indústrias,
na tentativa de solução de pr oblemas sociais. Este artigo discute o de biotecnologia e de ambiente. São
que são colóides, quais são seus tip os, como deixam de s er estáveis também muito importantes os colóides
e com o aparecem em nosso dia-a-dia e em diferentes aplicações biológicos, tais como o sangue, o hu-
tecnológicas. mor vı´treo e o cristalino (Licı´nio e
Delaye, 1987).
colóides, dispersões coloidais, misturas
Pr op r i e da d es d o s c o l óid e s
Os princı´pios relacionados com os
diferentes sistemas coloidais da Tabela

C
olóides são misturas hetero- grego, significa cola e na época referiu- 1 baseiam-se em propriedades co-
gêneas de pelo menos duas se às soluções de goma arábica, subs- muns a todos os colóides: tamanho e
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fases diferentes, com a maté- tância sem estrutura definida e de na- elevada relação área/volume de partı´-
ria de uma das fases na forma fina- tureza viscosa hoje conhecida como culas (Shaw, 1975). As partı´culas
mente dividida (sólido, lı´quido ou gás), macromolécula. A goma arábica (co- dispersas podem ter tamanhos
denominada fase dispersa, misturada lóide) difundia mais lentamente que diferentes e por isso o sistema coloidal
com a fase contı´nua (sólido, lı´quido ou soluções de sais (cristalóide). Diálise é denominado polidisperso. Na prática,
gás), denominada meio de dispersão. é o processo de separação através do a maioria dos colóides obtidos pelo
A ciência dos colóides está relacio- qual moléculas menores atravessam homem é polidispersa. Os sistemas
nada com o estudo dos sistemas nos uma membrana semipermeável en- com partı´culas de um mesmo tamanho
quais pelo menos um dos componen- quanto as moléculas maiores ou partı´- são monodispersos. As macromolé-
tes da mistura apresenta uma dimen- culas coloidais são retidas pela mesma culas de proteı´nas sintetizadas biolo-
são no intervalo de 1 a 1000 nano- membrana. gicamente têm todas um mesmo ta-
metros (1 nm = 10-9 m). Soluções de Sistemas coloidais estão presentes manho e massa molecular, por isso
macromoléculas são misturas no cotidiano desde as primeiras horas dão origem a colóides monodispersos.
homogêneas e também são conside- do dia, na higiene pessoal — sabone- Diversos pesquisadores obtiveram
radas colóides porque a dimensão das te, xampu, pasta de dente e espuma colóides monodispersos de polı´meros
macromoléculas está no intervalo de ou creme de barbear —, maquiagem, sintéticos, de metais, de óxidos metá-
tamanho coloidal e, como tal, apre- — cosméticos —, e no café da manhã, licos e de cloreto de prata.
sentam as propriedades caracterı´sti- — leite, café, manteiga, cremes vege- Como a área de superfı´cie da fase
cas dos colóides. Os sistemas coloi- tais e geléias de frutas. No caminho dispersa é elevada devido ao pequeno
dais vêm sendo utilizados pelas civili- para o trabalho podemos enfrentar tamanho das partı´culas, as proprie-
zações desde os primórdios da huma- neblina, poluição do ar ou ainda apre- dades da interface entre as duas fases
nidade. Os povos utilizaram géis de ciar a cor azul do céu, parcialmente — dispersa e de dispersão — deter-
produtos naturais como alimento, dis- explicada pelo espalhamento Rayleigh minam o comportamento dos diferen-
persões de argilas para fabricação de da luz do Sol ao entrar na atmosfera tes sistemas coloidais. Em soluções
utensı´lios de cerâmica e dispersões contendo moléculas e partı´culas de verdadeiras de macromoléculas ou em
coloidais de pigmentos para decorar poeira cósmica atraı´das pela Terra dispersões coloidais de partı´culas
as paredes das cavernas com motivos (Walker, 1989). No almoço, temperos, finas, o solvente pode ser retido pela
de animais e de caça. cremes e maionese para saladas. No configuração da cadeia macromole-
Graham, em 1861, introduziu os ter- entardecer, ao saborear cerveja, refri- cular ou das partı´culas. Quando todo
mos colóide e diálise em um estudo gerante ou sorvete estamos ingerindo o solvente é imobilizado nesse proces-
sobre a difusão da matéria nos estados colóides. Os colóides ainda estão so, o colóide enrijece e é chamado de
gasoso e lı´quido. O termo colóide, do presentes em diversos processos de gel.

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Esse modelo do sistema coloidal
Fu n d a d or e s d a q u ı́m i c a d os c ol ó id es pressupõe muitos equilı´brios quı´micos
nas fases, ocorrendo processos depen-
Thomas Graham (1805-1869), mente cloreto de prata, azul da Prús- dentes do tempo e que resultam na
escocês de Glasgow, quı´mico contra sia e enxofre, sistemas importantes agregação de partı´culas de uma disper-
a vontade do pai e por isso deserdado, para fotografia, tingimento de tecidos são sólido-lı´quido ou na coalescência de
sustentou seus estudos escrevendo e e farmacologia, respectivamente. Es- gotas de uma emulsão. Essas unidades
ensinando quı´mica no Andersonian creveu a primeira enciclopédia de quı´- cinéticas (partı´culas/gotas) podem
College (atual Royal College of Science mica em italiano, de 1868 a 1881 permanecer estáveis e constantes com
and Technology) em Glasgow (1830- (Encyclopaedia Britannica, 1996). Ou- o tempo devido à afinidade entre a su-
1837). Lecionou depois na Universi- tro pesquisador que contribuiu para a perfı´cie da partı´cula e o solvente. Na
dade de Londres (1837-1869) e tornou- quı´mica dos colóides foi Carl Wilhelm ciência dos colóides, o sistema é clas-
se posteriormente chefe da casa da Wolfgang Ostwald (1883-1943), sicamente denominado colóide liofı´lico
moeda britânica (1854-1869). Após quı´mico alemão, professor e pesqui- (do grego lyein = solvente + philein =
seu trabalho sobre a lei de velocidade sador na Universidade de Leipzig em gostar de). No entanto, se as unidades
de difusão dos gases (1829), 1935 e filho de Friedrich Wilhelm cinéticas não permanecerem estáveis
examinou também a difusão entre Ostwald (Laidler, 1993). Grande divul- com o tempo devido às interações en-
lı´quidos e denominou cristalóides as gador da quı´mica dos colóides, com tre elas e vierem a agregar-se, formarão
partı´culas com alta difusão, como as trabalhos sobre propriedades elétricas unidades maiores que se sedimentam
de sais, e colóides aquelas com baixa e ópticas dos mesmos, Ostwald foi sob a ação do campo gravitacional,
difusão, como as da goma arábica. editor da revista Kolloidchemische separando assim a fase dispersa da
Divide o reconhecimento como ‘pai Beihefte em 1909 e fundador da contı´nua. Esse sistema é também classi-
dos colóides’ com Francesco Selmi, Sociedade de Colóides (Kolloid camente conhecido como colóide liofó-
quı´mico toxicologista italiano, profes- Gesellschaft) no mesmo ano. Escreveu bico (repulsão ao solvente — phobos
sor em Turim e Modena, antes de o livro O mundo das dimensões des- = repelir). Assim, existem colóides está-
assumir o posto de professor de prezadas, sobre a natureza dos siste- veis por muitos anos, enquanto em ou-
10 quı´mica farmacológica e toxicologia na mas complexos contendo partı´culas tros as fases constituintes separam-se
famosa Universidade de Bolonha, em grandes, se comparadas com a di- em pouco tempo. Por exemplo, os sóis
1867. Entre 1845 e 1850, Selmi mensão da molécula, porém pe- de ouro obtidos por Michael Faraday em
escreveu sobre o estudo sistemático quenas se comparadas com uma 1864 permanecem estáveis até hoje e
dos colóides inorgânicos, principal- suspensão de partı´culas visı´veis a olho estão expostos na Royal Society of Che-
nu. mistry em Londres. Já a poeira levan-
As diferentes interações entre as fa- tı´culas dispersas simultaneamente às tada pelo trânsito assenta rapidamente.
ses dispersa (partı´culas) e a de disper- interações de superfı´cie. Portanto, es- As dispersões coloidais aquosas são
são (contı´nua) constituem um dos ses sistemas de partı´culas coloidais também sensı´veis à presença de eletró-
pontos crı´ticos do comportamento e da precisam de um modelo sistematizado litos e de polieletrólitos (polı´meros
estabilidade dos colóides. As proprie- para explicar a influência das intera- carregados de alta massa molecular).
dades fı´sicas e quı´micas de ambas as ções na estabilidade cinética e termo- As partı´culas coloidais podem agregar-
fases controlam essas interações. Tais dinâmica do colóide. Por exemplo, a se irreversivelmente na presença de
interações da superfı´cie incluem as produção de pó cerâmico ou de látex eletrólitos e resultar em agregados
coulombianas de repulsão eletrostáti- de polı´mero com partı´culas uniformes grandes e compactos (coágulos) por
ca, as de atração de van der Waals, as de igual tamanho requer o conheci- um processo denominado coagulação,
de repulsão estérica e as de solva- mento idealizado para prever a repro- enquanto na presença de polieletrólitos
tação. Forças hidrodinâmicas (difusão) dução das propriedades dos respec- pode haver a formação de agregados
também atuam no sistema de multipar- tivos sistemas coloidais. menos densos (flóculos), os quais
podem ser facilmente rompidos e
Tabela 1: Classificação dos colóides de acordo com as fases dispersa e de dispersão. redispersos por agitação vigorosa
(cisalhamento). A coagulação do leite,
Colóide Fase dispersa Fase de dispersão Exemplo por exemplo, resulta da adição de
Aerossol lı´quido Lı´quido Gás Neblina, desodorante vinagre (eletrólito) e a eliminação de
Aerossol sólido Sólido Gás Fumaça, poeira resı´duos da água de piscina por sulfato
Espuma Gás Lı´quido Espuma de sabão e de alumı´nio (forma polieletrólito na água)
de combate a incêndio é feita após a floculação.
Espuma sólida Gás Sólido Isopor®, poliuretana
Emulsão Lı´quido Lı´quido Leite, maionese, manteiga I n t er a ç ã o e n t r e p a rt ı́c u l a s
Emulsão sólida Lı´quido Sólido Margarina, opala, pérola c ol oi d a i s
Sol Sólido Lı´quido Tinta, pasta de dente
Sol sólido Sólido Sólido Vidro e plástico pigmentado As interações entre partı´culas co-
loidais governam as propriedades dos

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colóides e dependem da distância de compreender o comportamento de medida que as superfı´cies das partı´-
separação e da quantidade de partı´- dispersões aquosas. A carga da super- culas se aproximam umas das outras.
culas coloidais dispersas. As forças fı´cie da partı´cula influencia a distri- Essas forças de curto alcance são as
externas devidas ao campo da gravi- buição dos ´ons ı da solução na vizi- mesmas provenientes da polarização
dade ou ao cisalhamento também nhança, atraindo e repelindo contra- de átomos e moléculas (dipolos)
influenciam a interação e as colisões ´ons
ı e co-ı´ons, respectivamente. Essa constituintes dos sólidos dispersos no
entre partı´culas. Essas forças de inte- distribuição de´onsı desde a superfı´cie meio polar que separa as partı´culas.
ração entre as superfı´cies das partı´- da partı´cula até o interior da solução Portanto, a energia total de interação
culas coloidais advêm da natureza (meio de dispersão) gera diferentes (VT) é a soma resultante das energias
eletromagnética das interações entre potenciais e está representada esque- de repulsão (VR ) e de atração (VA)
a matéria. Nas dispersões coloidais maticamente na Figura 1. O potencial indicada na Figura 2.
aquosas pode haver: 1) interação re- da interfase entre a superfı´cie da partı´- Esta é base da teoria DLVO, desen-
pulsiva de duplas camadas de cargas, cula e o interior da solução do meio de volvida independentemente por Derja-
2) interação atrativa de van der Waals, dispersão diminui mais rapidamente à guin e Landau e Verwey e Overbeek,
3) interação estérica repulsiva de ca- medida que aumenta a força iônica, no final da década de 40, para explicar
deias de polı´meros adsorvidos nas par- porque a dupla camada de cargas que a estabilidade cinética coloidal. A partir
tı´culas, 4) interação atrativa de polı´- se forma ao redor da partı´cula é com- dos modelos e da formulação dessa
meros, 5) interação de moléculas de primida em direção à superfı´cie pela teoria, o estudo dos colóides passou
solvente (solvatação) e 6) interação concentração de ´ons ı da solução. Por- a ser considerado com maior rigor
hidrofóbica. As partı´culas coloidais tanto, as propriedades elétricas dos cientı´fico.
adquirem cargas elétricas na superfı´- colóides são governadas pelas intera-
cie, quando expostas ao contato com ções repulsivas coulombianas. Si st em a s Col oi d a i s
solvente polar, por diferentes mecanis- No entanto, essa energia de repul- Os tipos de colóides da Tabela 1
mos, tais como: dissociação de grupos são entre as partı´culas não garante a são descritos a seguir com as respec-
da superfı´cie e adsorção ou dissolução estabilidade das partı´culas dispersas. tivas aplicações tecnológicas.
de ´ons
ı da superfı´cie. Por isso o equilı´- Por isso, na prática, dispersões coloi- Sol é um colóide constituı´do de par- 11
brio quı´mico entre os prótons e a su- dais podem agregar-se e os agrega- tı´culas sólidas finamente divididas dis-
perfı´cie de óxidos é relevante para dos sedimentam-se rapidamente, co- persas em um meio de dispersão lı´-
mo por exemplo quido. Outras denominações – hidros-
Plano de Gouy no caso da disper- sol, organossol ou aerossol – são atri-
+ +
são de argila em buı´das segundo o meio de dispersão
Camada difusa + água. As intera- utilizado: água, solvente orgânico ou
+
+
+ ções atrativas de ar, respectivamente. Quanto à intera-
Plano de + + + curto alcance de ção entre as moléculas da fase contı´-
cisalhamento + Interior da
+ van der Waals nua e da fase dispersa, os sóis são
Partı´cula + + solução
+
com rede
negativa
induzem à agrega- classificados em liofı´licos, que apre-
ção do sistema à sentam partı´culas dispersas com maior
Plano Stern +
+ + + +
+
+ +
Superfı´cie + Força de repulsão da dupla
da partı´cula + camada elétrica (VR )
VR Repulsão (+ )

+ + +

Energia potencial total (VT )


Legenda:
Ψ0 : Potencial de
Energia potencial

Ψ0 superfı´cie
Ψδ : Potencial de Stern
VMAX
ζ : Potencial zeta
1/ κ : Espessura da
0

d
Potencial

Ψδ dupla-camada
VA

ζ
Atração (-)

Força atrativa de van


der Waals (Va )
Distância da superfı´cie
1/κ
da partı´cula

Figura 1. Esquema da distribuição de cargas na vizinhança de uma Figura 2. Energia potencial (V) de interação partı´cula-partı´cula
partı´cula carregada e os respectivos potenciais associados à dupla em função da distância (d) de separação entre duas partı´culas
camada elétrica na interface sólido-lı´quido. coloidais.

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afinidade com o solvente, são mais como isopor ® . As bolhas podem estável formada cobria a ponte sobre
estáveis e semelhantes à solução coalescer, isto é, colidirem umas com o rio Tietê. No entanto, espumas po-
verdadeira, e liofóbicos, cujas partı´cu- as outras, e do encontro de duas for- dem ser quebradas pela adição de
las não atraem fortemente as molécu- mar uma bolha maior. Esse processo álcoois ou de formulações à base de
las de solvente e coagulam ou preci- de coalescência causa a quebra da óleo de silicone.
pitam facilmente. Essas dispersões espuma, o que determina a instabili- Detergentes são substâncias sin-
coloidais mais concentradas formam dade do sistema coloidal. É por isso téticas com propriedades tensoativas,
sistemas mais viscosos denominados que as espumas de combate a incên- isto é alteram a tensão interfacial quando
pastas, utilizadas, por exemplo, na dio são feitas com bolhas de gás car- dissolvidas em um solvente. A tensão
fabricação de creme dental. bônico provenientes de carbonato de interfacial está relacionada com o tra-
Gel é um colóide no qual a intera- sódio e sulfato de alumı´nio e estabili- balho necessário para manter as molé-
ção do lı´quido com partı´culas muito zadas com proteı´nas (sangue seco, culas de uma fase na superfı´cie ou inter-
finas induz o aumento da viscosidade, gomas) ou mais recentemente subs- face, permitindo, por exemplo, que a
tornando-se uma massa com partı´- tâncias tensoativas, conhecidas como libélula pouse sobre a superfı´cie da água
culas organizadas no meio de disper- detergentes, que previnem a coales- sem romper a pelı´cula de água da super-
são formando uma rede de partı´culas cência (Figueiredo et al., 1999; Ferreira, fı´cie. Também denominados surfactan-
enfileiradas como um colar. Esses co- 1999). As proteı´nas são bons tes (do inglês surface active agents =
lóides formam uma rede com natureza estabilizantes de espumas em alimen- surfactants), detergentes não são obti-
elástica e gelatinosa, tal como gelatina tos, tais como clara de ovo batida em dos da saponificação de óleo e gordura,
ou geléia de frutas, ou como um sólido neve, marshmallow e creme chantili. tal como é o sabão. As moléculas
rı´gido como sı´lica gel, muito usada em Por outro lado, espumas podem ser associam-se em solução, acima de uma
embalagens como agente secante. indesejáveis; por exemplo, os efluentes determinada concentração crı´tica para
Géis podem contrair e eliminar o sol- de matadouros não-tratados adequa- cada detergente; por isso são também
vente, processo este denominado de damente contêm grande quantidade conhecidos como colóides de associa-
sinérise. de proteı´nas (sangue, tecidos animais) ção. Da associação das moléculas de
12 Esp um
uma a é um sistema coloidal que, se despejados nos rios, podem detergente resultam as micelas, agre-
constituı´do de bolhas de gás muito misturar-se com água contendo deter- gados moleculares na faixa de tamanho
pequenas dispersas em um meio lı´- gentes e formar espuma devido à dos colóides. Usados principalmente
quido, como no caso da espuma de correnteza, causando transtornos am- para limpeza na cozinha e para lavar
sabão, ou em um meio sólido, como a bientais. Há alguns anos, em Bom Je- roupas, os detergentes são aplicados
espuma de poli(estireno) conhecida sus de Pirapora (SP), a espuma muito também em meio orgânico em óleos

Col ói d es n a t u r a is

Águas naturais e solo contêm muitos materiais disper- (CaAl2Si2O8) e montmorilonita [Ca0,33Al4,67Si7,33O12,33(OH)19,33]:
sos de dimensões coloidais, desde argilominerais solubili-
zados das rochas até macromoléculas tais como ácidos CaAl2Si2O8(s)+ 3H2O Ca2+ (aq) + 2OH–(aq) +
húmicos provenientes da matéria orgânica de células vege-
tais e animais (Ottewill, 1998). Esses colóides naturais origi- Al2O3.2SiO2.2H2O(s, caolinita) (4)
nam-se dos processos quı´micos e biológicos da natureza.
Diversos equilı´brios quı´micos ocorrem nas águas que lavam CaAl2Si2O8 (s)+ 2H2CO3(aq) + H2O
as rochas e nos solos. O primeiro equilı´brio ocorre entre o Ca2+ (aq) + 2HCO3–(aq) + Al2O3.2SiO2.2H2O (s) (5)
gás carbônico do ar que se dissolve nas águas naturais:
CO2(g) + H2O H2CO3(aq) (1) 3Ca0,33Al4,67Si7,33O12,33(OH)19,33(s) + 2H2CO3(aq)

O ácido carbônico formado, em contato com sulfato de Ca2+ (aq) + 2HCO3–(aq) +


cálcio (usualmente conhecido como gesso - equação 2) e 8H4SiO4(s) + 7Al2Si2O5(OH)4(s) (6)
carbonato de cálcio (conhecido como calcita - equação
3), presentes no solo, pode originar ´ons
ı que interferem na Esses equilı´brios são controlados nos rios pelo sistema
estabilidade coloidal, atuando na camada de cargas da tampão CO32–/HCO3–, que por sua vez ajusta o pH (con-
superfı´cie da partı´cula coloidal: centração de ´on
ı hidroxônio) das águas naturais. À me-
dida que o rio (água doce) chega ao estuário, encontra
CaCO3(s) + H2O Ca2+ (aq) + HCO3–(aq) + OH–(aq) (2)
água do oceano de concentração salina muito elevada (ele-
trólito) e as partı´culas coloidais de argilominerais e ácidos
CaCO3(s) + H2CO3(aq) Ca2+ (aq) + 2HCO3– (aq) (3)
húmicos dispersas coagulam, formando maior quantidade
Equilı´brios semelhantes ocorrem entre água e feldspato de depósito sedimentado e contribuindo para a formação
(NaAlSi 3O 8) presente no granito, feldspato alcalino dos deltas.

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lubrificantes de motores e em gasolina, litos de alumı´nio e hidroxila (policátions) ciam melhores condições de vida. O
prevenindo, respectivamente, o acú- com até 13 átomos de alumı´nio. Esses estudo dos colóides também pode aju-
mulo de resı´duos de carvão nos pistões polieletrólitos de alumı´nio atuam pela dar a evitar a formação desses sistemas
e o crescimento de gomas (polı´meros) interação eletrostática com partı´culas de na natureza, quando poluem o ar
no carburador. argila carregadas negativamente e pelas (fumaça), a água (esgoto doméstico e
Emulsão e microemulsão são dis- ligações de hidrogênio devido ao núme- industrial) e os solos (resı´duos sólidos).
persões coloidais de um lı´quido em ro de grupos OH, formando uma rede Apesar de a quı´mica dos colóides ter
outro, geralmente estabilizadas por um com microestrutura porosa (flóculos) respostas para muitas dessas questões
terceiro componente tensoativo (emul- que, após a decantação do precipitado, ambientais, é a participação dos cida-
sificante) que se localiza na interface facilita a passagem da água no pro- dãos bem informados nos diversos as-
entre as fases lı´quidas. Entre os emulsi- cesso de filtração com filtro de casca- pectos da vida social que poderá asse-
ficantes mais usados pode-se citar pro- lho/areia/antracito (carvão mineral). gurar uma melhor qualidade de vida
teı´nas (ovoalbumina, caseı´na), gomas para todos.
(gelatina), sabões e detergentes, argilas Consideraç ões fin a is
e óxidos hidratados. Há dois tipos de A quı´mica dos colóides está bastante M i g u el J a fe l ic c i J u n i or , bacharel em quı´mica
pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre
emulsão, conforme a proporção das fa- relacionada com o dia-a-dia do cidadão em quı´mica de colóides e de superfı´cies pela Uni-
ses: água em óleo, com gotı´culas de e os sistemas coloidais tanto são versidade de Bristol, Inglaterra, e doutor em ciências
água dispersas na fase contı´nua óleo, e encontrados na natureza, nos reinos (fı´sico-quı´mica) pela USP, é docente do Instituto de
óleo em água, gotı´culas de óleo dis- mineral, vegetal e animal, como podem Quı´mica da Unesp no Campus de Araraquara.
La u de m i r Ca r los Va r a n da é bacharel e mestre
persas em água. O termo óleo refere- ser sintetizados para o bem-estar do em quı´mica pela Unesp - Araraquara, onde é aluno
se à fase orgânica e água à fase aquosa. homem na forma de bens de consumo do curso de doutorado (área de fı´sico-quı´mica) do
Esse sistema coloidal é vastamente e para processos industriais que propi- programa de pós-graduação em quı´mica.
utilizado na apresentação de produtos
farmacêuticos (cremes), alimentı´cios
Re fer ê n c i a s b i b li og r á fi c a s acs.ucalgary.ca/~ schramm. Universi-
(maionese, margarina, leite), indústriais dade de Calgary, Calgary, Alberta,
(petróleo, lubrificantes, asfalto). Além da ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA
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lina, o sulfato de alumı´nio reage com
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´ons
ı hidroxila, resultando em polieletró-

QUI´MICA NOVA NA ESCOLA O M u n d o d o s Co l ói d es N° 9, MAIO 1999

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