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1º Ano do Curso Profissional de Animador Sociocultural

Disciplina: Área de Estudo da Comunidade

Módulo 1 – A Comunidade: Partilha e Pertença

Objetivos de aprendizagem

 Caracterizar o conceito de comunidade.


 Reconhecer a dimensão das alterações do conceito de acordo com as
modificações operadas na vida em sociedade, nomeadamente ao nível da
família da escola e do trabalho.
 Articular os conhecimentos sobre a realidade social e suas transformações.
 Distinguir as diversas dimensões da participação na vida em sociedade que
acompanham as mudanças sociais.
 Identificar o papel de pertença e partilha na construção da comunidade.
 Aplicar conhecimentos de outras áreas de aprendizagem na análise da
sociedade portuguesa.
Âmbito dos conteúdos

1. Definição de comunidade e sua evolução.

2. Transformações sociais e suas implicações práticas na vida social.

2.1. Ao nível da família (conceito, organização e estrutura).

2.2. Ao nível da escola (da escola de elite à massificação do ensino).

2.3. Ao nível do trabalho (industrial e pós-industrial).

3. As diversas dimensões da participação em sociedade neste quadro de mudança.


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A COMUNIDADE

A comunidade é um grupo ou conjunto de indivíduos que vivem em comum


na sociedade, com diferentes caraterísticas: personalidade, interesses, vivem em
sítios diferentes, …
Dentro da comunidade existem pequenos grupos de elementos naturais,
fundamentais da sociedade, que se chamam famílias.

Na literatura do desenvolvimento comunitário o conceito de comunidade é


ambíguo, muito pela quantidade de definições utilizadas para a definir. É
frequente ouvirmos ou lermos o termo aplicado para designar pequenos
agregados rurais (aldeias, freguesias) ou urbanos (quarteirões, bairros), mas
também a grupos profissionais (comunidade médica, comunidade cientifica), a
organizações (comunidade escolar), ou a sistemas mais complexos como países
(comunidade nacional), ou mesmo o mundo visto como um todo (comunidade
internacional ou mundial).
Nas ciências sociais estão identificados alguns tipos de comunidades.
Gusfield (1975) fez uma distinção entre duas formas de usar o termo
comunidade. A primeira, prende-se com a noção territorial ou geográfica. Neste
sentido, comunidade pode ser entendida como uma cidade, uma região, um pais,
um bairro, o prédio, ou a vizinhança. O Sentimento de Comunidade implica um
sentimento de pertença com uma área particular, ou com uma estrutura social
dentro dessa área. A segunda, tem um carácter relacional, que diz respeito à rede
social e à qualidade das relações humanas dentro da localização de referência
(Gusfield, 1975; Heller, 1989; Hunter & Ringer, 1986; McMillan e Chavis, 1986;
Dalton, Elias & Wandersman, 2001).
Reconhecendo esta pluralidade, Hillary (1950), examinou noventa e quatro
definições de comunidade e na sua maioria continham três pontos coincidentes:
I. Partilha de um espaço físico;
II. Relações e laços comuns;
III. Interação social.
Nos últimos anos, o interesse pelas comunidades tem aumentado, pois
estas podem apresentar factores protetores ou fatores de risco para os indivíduos.
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Rappaport (1977) entende comunidade como um grupo social que partilha


caraterísticas e interesses comuns e é percecionado ou se perceciona como
distinto em alguns aspetos da sociedade em geral em que está inserida. Para
Duham (1986), a comunidade não se entende unicamente como lugar, mas como
um processo interativo.
Segundo o dicionário inglês Random House (In Vidal, A., 1988),
“community” é definida da seguinte forma: “Grupo social de qualquer tamanho
cujos membros residem numa localidade específica, partilham o mesmo governo
e tem uma herança e história comuns.”
Segundo Marshall Gordon (1994), o fenómeno comunitário integra um
conjunto de ideias associadas ao conceito de comunidade:
• Alto grau de intimidade pessoal;
• Relações sociais afectivamente alicerçadas;
• Compromisso moral;
• Coesão Social;
• Continuidade no tempo.
Diez et al. (1996) referem nos seus estudos que para que exista uma
comunidade é necessário que os seus membros possuam um sentimento de
consciência partilhada de uma forma de vida, com referências comuns, um grupo
de pessoas com os quais interage e que através destas relações, proporciona
uma sensação de estimulação e de acolhimento. O sentimento de pertença ao
tecido social, com fortes laços, supõe por um lado a obtenção de apoio social e
por outro a disposição de recursos com os quais pode minimizar os efeitos de
situações de stress ao longo das suas vidas.
Segundo Ornelas uma comunidade competente pode ser definida como
“uma comunidade que utiliza, desenvolve e obtém recursos” (Ornelas 2002, p.
10). A abordagem ideal a uma comunidade será o de realçar e incentivar as
capacidades e qualidades dos indivíduos em vez de sobre-enfatizar os défices
dos indivíduos ou da própria comunidade. Caso esta atitude não seja tomada, os
sistemas sociais que se criam retiram a possibilidade dos sistemas naturais, como
a vizinhança, as associações locais e os recursos já existentes na comunidade
desempenharem um papel relevante na resolução dos problemas existentes.
“Deveríamos fazer um esforço para compreender os mecanismos naturais
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utilizados pelas comunidades para promover a sua própria sustentabilidade, bem


como a manutenção dos indivíduos que lhes pertencem” (Ornelas, 2002, p. 11).
Este esforço implica a ideia de que os indivíduos são os peritos e não os
sistemas, pelo que deveríamos encontrar aqueles que, na comunidade, resolvem
os problemas e participam em atividades de melhoramento da comunidade.
Sarason (1972) sustenta que os membros são melhor servidos quando a
comunidade providencia o desenvolvimento pessoal a todos os membros.
A Comunidade é considerada neste trabalho como o lugar de construção
do saber psicológico comunitário e da operacionalização de técnicas psicológicas
que sejam eficazes na construção desse saber.

As comunidades são, em geral, formadas por grupos de familiares, vizinhos


e amigos que possuem um grau de proximidade entre si, por viverem no mesmo
local (bairro, cidade, aldeia...). Juntos, os membros da comunidade tem como
objetivo o bem-estar social, buscando melhorias para seus membros nas áreas da
saúde, educação, habitação, etc. Juntos, tem um objetivo comum em prol da
comunidade em que vivem.
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MUDANÇA SOCIAL

Noção de Mudança Social:


 O sistema cultural não é um sistema fechado, antes vai crescendo e
transformando-se com o contributo inteletual e artístico dos homens e
mulheres de cada tempo e lugar. Sendo um fenómeno participado, que
concretiza a forma de expressão e de realização de um grupo, cada
geração irá dar-lhe o seu contributo ao encontrar novas formas e idealizar
outros valores, ao inventar outras formas de relacionamento e ao criar
novas tecnologias.  
A cultura transmitida a cada geração nunca é a cultura que a geração
presente herdou mas a que já produziu.

Conceito de Mudança Social: Toda a transformação observável no tempo, que


afeta, de modo não provisório ou efémero, a estrutura ou o funcionamento da
organização social de uma dada coletividade e modifica o curso da sua história.
           É a «transformação dos valores, ideais e formas de relacionamento
resultantes, nomeadamente, de processos de modernização que questionam o
antigo e do relacionamento mais forte entre os povos dos diferentes espaços
nacionais, em virtude dos processos progressivos de interdependência a nível
mundial».

CARATERÍSTICAS DA MUDANÇA:
 É um fenómeno coletivo – afeta e implica um conjunto substancial de
indivíduos que verão, assim, alterados o seu modo e condições de vida.
 Corresponde a uma mudança estrutural e não a uma adaptação funcional
das estruturas existentes – torna-se possível observar alterações
profundas na forma de organização social passíveis de comparação com
as formas anteriores.
 É identificável no tempo, o que nos permite detetar e descrever as
alterações estruturais a partir de um ponto de referência.
A mudança social surge assim como a diferença observável entre dois
estados da realidade social.
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 Não é efémero  – qualquer evento passageiro, independentemente da sua


força de pressão e de desorganização social, não conduz à mudança
social, pois os seus efeitos desaparecem progressivamente com a
adaptação funcional do sistema cultural existente.

Etapas do processo de mudança:


1. Descristalização do sistema de ideias vigente;
2. Reestruturação de um novo sistema noutras bases;
3. Recristalização do novo sistema de ideias.
4. A evolução social resulta do processo de mudança.

FACTORES E AGENTES DE MUDANÇA


 Não é possível encontrar uma causa ou agente único que se possa
considerar exclusivamente responsável ou determinante pelos
acontecimentos sociais.

No domínio do social, existe sempre uma multiplicidade de


causas que, interagindo, produzem situações complexas, implicando, por sua
vez, repercussões em diferentes domínios sociais.
É nesta convergência de factores que se deverá procurar não a causa,
mas o conjunto das causas que permitiram o desencadear do processo
de mudança.

Fatores de mudança:
Geográficos; Demográficos; Políticos e Sociais; Culturais; Tecnológicos;
Psicossociológicos; As necessidades sentidas; A mundialização/globalização

 Fatores Geográficos: êxodo da população rural,  cataclismos, secas,


inundações, pragas…
 Fatores Demográficos: Variações nas taxas de crescimento populacional
ou grandes êxodos populacionais (ex: emigração inglesa para a américa)…
 Fatores Políticos e Sociais: luta de classes ou o conflito político, (25 de
Abril de 1974)
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 Fatores Culturais: a evolução das ideias: subcultura e contracultura,


religião; contacto entre culturas diferentes…
 Fatores Tecnológicos: descobertas científicas (computador, telemóvel,
etc.)…
 Fatores Psicossociológicos: o grau de instrução, a cultura geral e
a informação contribuem para maior abertura à mudança, enquanto que a
ignorância favorece o conservadorismo…
 As necessidades sentidas: desejo (ou não) de alterar a situação…
 A mundialização/globalização: ligações globais, interdependência
económica (União Europeia)…

Fatores:
- Exógenos: são fatores que intervêm a partir do exterior de uma
sociedade. Exemplos: Revolução Industrial; Comunidade Europeia; moeda
do euro; etc.
- Endógenos: são factores que surgem dentro da própria sociedade.
Exemplo: 25 de abril de 1974.

AGENTES DE MUDANÇA
 A influência de que os indivíduos estão revestidos e que lhes é
reconhecida pela generalidade da população, quer essa influência
provenha de situações institucionais ou carismáticas, pode ser decisiva
na aceitação de novas situações por parte das populações em geral.
Elites: pessoas ou grupos que, graças ao poder que detém ou à
influência que exercem, contribuem para a ação histórica da
coletividade seja pelas decisões tomadas, seja pelas ideias,
sentimentos ou emoções que experimentam ou simbolizam.
Grupos com capacidade de influenciar a vida social através,
nomeadamente, da opinião pública, pela importância social ou
status que ocupam na hierarquia social.
As elites, ao constituírem um elemento importante de mudança,
assumem um papel dinâmico nas alterações sociais ao nível:
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 da exemplaridade
 da definição de novas situações culturais
 da tomada de decisões.

Movimentos Sociais  - organizações de alguma forma estruturadas com vista à


defesa e promoção de certos objetivos e agindo, por
vezes, como grupos de pressão junto dos órgãos de
poder.

 Pela massa humana que mobilizam e pela força reivindicativa de que


dispõem, constituem-se como importantes elementos a ter em conta nas
sociedades atuais, desempenhando um papel relevante no processo de
mudança social e no dia-a-dia de uma sociedade.
 Os movimentos sociais não surgem «do nada» , antes resultam de
condições sociais facilitadoras para as quais muito contribui o
descontentamento dos cidadãos, relativamente à ordem social ou a alguns
aspetos dessa ordem.
 Pré-condições para o aparecimento de movimentos sociais  e que
favorecem a adesão aos mesmos:
1. Descontentamento social decorrente:
 da provação de uns grupos relativamente a outros
 da perceção de injustiça dos grupos desfavorecidos
 da incoerência dos status que a mesma pessoa ou grupo tem
na sociedade.
2. Existência de um bloqueio estrutural na sociedade que impede a
eliminação das causas do descontentamento.
3. Interação dos descontentes no sentido de passarem à acção.
4. Expetativa de que a ação concertada entre as partes tenha
eficácia.
5. Ideologia partilhada por todos os descontentes que não só justifica
a sua ação como a sustenta.
 Os movimentos sociais são altamente dinâmicos e, apesar da
estruturação que apresentam, são de duração incerta.
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 Tipos de movimentos sociais:


 Movimentos Migratórios (ex: judeus antes da constituição do
estado de Israel)
 Movimentos Expressivos – movimentos sociais de grupos
que, não conseguindo alterar a realidade, alteram as suas
reacções face a essa realidade (ex: seitas).
 Movimentos Utópicos – pretendem criar uma sociedade ideal
para os seus seguidores (ex: movimento hippie)
 Movimentos Reformistas – pretendem introduzir ajustamentos
aos modelos sociais vigentes, como os movimentos de
defesa dos direitos das minorias (movimento gay).
 Movimentos Revolucionários – são movimentos tendentes a
mudanças profundas na sociedade (ex: P. Comunista e
Berloque)
 Movimentos de Resistência – são movimentos tendentes a
travar a mudança operada na sociedade (ex: movimento anti-
aborto)

A Extensão e o Ritmo da Mudança

 As alterações conhecidas por uma cultura têm sempre de enfrentar a


resistência dessa mesma cultura, condicionando, assim, a
profundidade, rapidez e extensão da mudança.

 Mudanças evolutivas – são mudanças visíveis a longo prazo que


ocorrem, naturalmente, por adaptação progressiva a novas situações. Por
norma, são mudanças mais lentas e progressivas, são aceites mais
facilmente, por não introduzirem incertezas ou angústias.

 Mudanças Impostas – transformações bruscas e rápidas que acarretam a


transformação do próprio sistema. Normalmente são mudanças que
causam uma forte resistência.
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Quanto ao ritmo:
Rápidas: As mudanças sociais acontecem a um ritmo rápido e sem que
encontrem fortes resistências se responderem a carências sentidas pela
coletividade (telemóvel).

Lentas: As mudanças que questionam a própria ordem e estrutura


social, que colocam em perigo os direitos adquiridos, deparam-se com
mais resistência da população.

Consequências da Mudança:
1. Culturais: a aculturação
2. Económico-sociais
3. Outras consequências Sociais

Factores de resistência ou aceitação

Como vimos, o ritmo e a extensão da mudança dependerá do grau de


aceitação e de resistência a essa mudança.

A resistência ou aceitação à mudança pode ser favorecida por vários factores:

 Integração cultural muito forte, grande interdependência dos elementos


de uma cultura. Sociedade com estrutura muito rígida impedindo a
aceitação da mudança. (Ex. Países muçulmanos).
 Imobilismo social e cultural que perdure durante muito tempo leva os
indivíduos a tomarem atitudes etnocêntricas e a rejeitarem toda e qualquer
mudança. Pelo contrário, uma sociedade que se modifica está mais
disposta a aceitar mudança.
 Necessidades de mudança não sentidas pelos membros da
sociedade. Enquanto os membros de uma sociedade não sentirem
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necessidade de algumas mudanças estas não surgem e se forem postas


em prática não são aceites.
 Pouca acumulação de conhecimentos e técnicas. Quanto menos
desenvolvido tecnologicamente for um país, mais difícil se torna a sua
adaptação às mudanças e inovações.
 Mudanças que implicam a desvalorização de atitudes e de valores
específicos da cultura da sociedade em questão levam à rejeição da
mudança. Uma vez que entra em conflito também com a cultura existente.
Duma maneira geral, a mudança acarreta sempre custos para a sociedade,
pois tem efeitos sobre a cultura dessa mesma sociedade, modificando-a e
envolve mesmo alguns custos específicos. São poucas as mudanças que
se adicionam à cultura existente. Normalmente, implicam transformações
culturais.
 Interesses adquiridos. A mudança normalmente vai atingir alguns
privilégios e os seus detentores. Estes, obviamente, irão pôr essa mudança
em causa e rejeitá-la. Em 1579, por exemplo, o Conselho de Dantzig,
ordenou o estrangulamento de um inventor de um tear aperfeiçoado, em
virtude das pressões exercidas pelos tecelões.
 Direito vigente numa determinada sociedade. As leis também podem
ser um travão relativamente à mudança, quando se revelam
desajustadas à realidade social a que se destinam. Por outro lado, o Direito
pode ser um elemento facilitador da mudança, na medida em que pode
impor um comportamento mais de acordo com a mudança social, podendo
até modificar a estrutura social de uma determinada sociedade.

Silvestre, M. e Moinhos, M. (2001). Sociologia 12.º ano. 3.ª ed. Lisboa: Lisboa editora, pp. 246-247