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Ensino coletivo de violão – uma possibilidade atual

Guipson Rodrigues Clementino – UFRN

Resumo: Esse texto tem como objetivo relatar a experiência de um professor de violão em um
curso de extensão de música, no qual descreve particularidades referentes às estratégias de
ensino coletivo de instrumento, bem como observações pontuais, no que tange a determinação
dessas estratégias de ensino e sua construção a partir das diretrizes da Escola de Música da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Palavras-chave: ensino coletivo de instrumento; violão; ensino-aprendizagem em cursos de
extensão.

Desde a seleção feita para professores estagiários em 2007 para o ensino de violão no
Curso Básico (CBM) na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(EMUFRN), na qual fui aprovado, me deparei com questionamentos do que viria a ser
“ensinar e aprender” um instrumento musical, nesse caso o violão, num curso regular de
música. Como primeira resposta a essa questão procurei me inteirar dos objetivos para o
CBM segundo a visão da EMUFRN. A partir daí, as seguintes diretrizes me foram apontadas:

O curso visa o incentivo à prática instrumental ou vocal, a formação de


grupos, a iniciação e o aperfeiçoamento dos estudos musicais, o
desenvolvimento da capacidade criativa e a formação de um público crítico e
apreciador de boa música. (http://www.musica.ufrn.br/basico.php)

Foi a partir dessas diretrizes, ou objetivos do curso, que pude ter a noção de quais
seriam minhas prioridades para o trabalho a ser desenvolvido. Ou seja:
• Iniciar ou aperfeiçoar as habilidades dos alunos ao violão;
• Incentivar a prática instrumental em grupo e individualmente;
• Desenvolver a capacidade criativa;
• Incentivar a apreciação musical.
E é justamente sobre esses objetivos acima ordenados que procurei estabelecer uma
dinâmica de atividades para as aulas de violão. Parecia-me claro que o formato dessas aulas
seria bem diferente de minhas experiências como aluno de violão, sob vários aspectos.
Primeiramente, destacaria a necessidade de estabelecimento de atividades que
desenvolvessem os alunos musicalmente de uma forma ampla (como era sugerido pelas
diretrizes do CBM) e outro aspecto seria trabalhar com classes de violão com até seis alunos.

 
Resumidamente, minhas dúvidas giravam em torno de como combinar atividades
diferenciadas e abrangentes para grupos que iam de três alunos até seis alunos, em um curso
com duração de quatro semestres, ou quatro módulos.
Observação: Para facilitar o detalhamento do texto me limitarei a descrever as
atividades do primeiro módulo do curso. Essas atividades são compostas de aproximadamente
15 aulas.
Tão importante quanto detalhar a rotina de aulas do curso é importante fazer um
breve comentário a respeito da entrevista para nivelamento e ingresso no curso. Esse processo
se faz necessário tanto pela procura que supera a capacidade da EMUFRN (espaço físico e
professores), quanto pela necessidade de se distribuir os alunos em turmas de maneira
homogênea (idade, horários afins e níveis de desenvoltura ao violão).

Entrevista de Nivelamento

No geral, as admissões de alunos (extensão) na EMUFRN eram feitas por dois


canais:
• Entrevista,
• Teste de aptidão.
Sob orientação do professor João Raone Tavares da Silva (orientador de violão no
CBM), os estagiários Daniela Castelo e Frederico Cavalcanti optaram pela entrevista como
instrumento de seleção. Ela se adequava perfeitamente a nossos objetivos, pois, verificaria o
grau de interesse dos candidatos e formaria as turmas sob os seguintes aspectos:
• Faixa etária aproximada;
• Grau de desenvoltura ao instrumento (se era iniciante ou possuía alguma
habilidade já desenvolvida);
• Disponibilidade de horário;
Terminado o processo, contávamos com turmas de crianças, jovens e adultos. Com
faixa etária que ia dos 8 anos de idade até os 60 anos aproximadamente, e heterogêneas
quanto ao grau de conhecimento ao violão, ou seja, haviam turmas de iniciantes, de já
iniciados e até mesmo turmas com alunos avançados no tocante ao instrumento mas que não
tinham conhecimento teórico de suas habilidades.

 
Elaboração de um programa regular de ensino de violão

A experiência do professor João Raone na Oficina de Violão da Universidade


Federal da Bahia foi de grande auxílio na construção de um programa de ensino e nos planos
de atividade de aulas. Como colaborador no método de ensino coletivo de instrumento
“Oficina de Violão” (TOURINHO e BARRETO, 2003), o professor nos possibilitou não
somente uma série de atividades, mas, sobretudo uma série de possibilidades e sugestões de
atividades durante as aulas, já embasadas em sua experiência em Salvador, pela UFBA.
Segundo afirma Cristina Tourinho, ”Mesmo em escolas especializadas de música
(escolas particulares, públicas, conservatórios) os professores cada vez mais se tornam
adeptos do ensino coletivo” (TOURINHO, 2006). Acredito que isso aconteça por uma série
de fatores, como por exemplo:
• Acesso de mais pessoas com menor custo;
• Maior possibilidade de interação social;
• E aquisição mais rápida de parâmetros musicais, etc.
Esses três fatores potencializam uma série de outras vantagens que torna sólido o
ensino coletivo de instrumento.
Ao acompanhar nossos alunos percebemos que por muitas vezes a possibilidade de
interagir com os colegas de classe são uma facilidade, e não uma barreira. Com o correr das
aulas, e com o incentivo do mediador (no caso o professor), os indivíduos naturalmente se
ajudam, se compreendem, se escutam e se fazem entender. Isso tudo, independe de classe
social, capacidade intelectual, etc.
Tendo em vista a constante comparação entre ensino coletivo de instrumento e
ensino individual faço o seguinte comentário a partir do prefácio do livro “Oficina de Violão”
transcrito abaixo:

Vários anos de experiência no ensino do instrumento, tanto em grupo quanto


individual, nos levam a acreditar que o rendimento do aluno iniciante é
maior dentro de um grupo, com colegas que atuem como referência, e com a
ajuda de um professor capacitado para lidar com as competências individuais
e coletivas. (TOURINHO; BARRETO, 2003, p.7)

De fato, acompanhando as turmas de iniciação ao violão da EMUFRN, no período de


2007 a 2009, enquanto aluno da graduação, percebi que a desenvoltura dos alunos era por
muitas vezes superior a de alunos meus no regime de ensino tutorial ou individualizado. Essa

 
“desenvoltura” se dava tanto no que tange a motivação com as aulas, como também no
desempenho em cumprir as tarefas em tempo hábil.
É preciso que se frise a necessidade de não transformar as aulas coletivas em uma
espécie de “aula individualizada dada para muitos”. Ou seja, não se pode conceber uma aula
para alguns indivíduos, realizada como se estivesse se dando para uma mesma pessoa. “É
mais efetivo que o professor esteja preparado para propor diversas atividades que visem à
participação ativa dos membros do grupo” (TOURINHO; BARRETO, 2003, p.8)
Esse cuidado em perceber e entender os indivíduos que compõem as classes é
fundamental. Só a partir disso é que a elaboração de atividades que comporão os planos de
aula se dará de maneira mais harmoniosa. Ignorar as características de cada indivíduo, suas
facilidades, suas dificuldades, seus questionamentos, só criarão uma barreira que poderia ter
sido evitada com uma simples conversa, ou uma simples observação das atividades
desempenhadas em classe pelos alunos. Sob esse aspecto, sugerimos que sejam criados
atividades que privilegiem as características de todos, ou ainda, que sejam criadas atividades
numa seqüência lógica que trabalhe repertório, técnica instrumental, leitura musical, cifras,
etc. Essa gama de atividades com certeza criará uma identificação em algum ponto com os
alunos e também uma formação musical que trabalhe de maneira rápida, prática e global as
diversas possibilidades formativas. Acredito que assim como na teoria de inteligências
múltiplas de Howard Gardner é preciso que se estimulem as várias capacidades do indivíduo e
suas habilidades. Isso só é possível através de atividades diversas e pedagogicamente bem
estruturadas.
Outro ponto a ser levantado é aquele que mostra a necessidade de exemplos práticos,
ao invés de divagações ou comentários que por muitas vezes pouco somarão ao aprendizado
do aluno, ou seja, é muito importante se mostrar como se faz “fazendo”. Quase sempre se
mostrar como se faz um rallentando é mais simplificado do que se descrever como se faz ao
se falar. Inserir conceitos de agógica, andamento e dinâmica no repertório dos alunos pode ser
feito nesse estágio de iniciação com facilidade. Para isso, alguns fatores se somam
positivamente, por exemplo: o repertório adaptado ao nível dos indivíduos e a não resistência
em repetir os ensinamentos do professor de forma musical (sem muito falatório). É preciso
que se tenha em mente que teoria e prática não têm que ser antagônicas, mas sim, integradas
em uma prática que as apresente como partes associadas no processo de aprendizagem.

 
Outro ponto importante da construção de um programa produtivo é a observância da
bagagem musical de cada aluno. Para isso, basta a inserção no planejamento de aulas de
músicas que estejam no gosto de cada aluno. Ao longo do curso sempre motivei os alunos a
trazerem para sala de aula o que escutavam em seu dia-a-dia, o que na maioria das vezes era
muito fácil de ser encaixado nas aulas e extremamente motivante para os alunos:

O problema no ensino do violão consiste principalmente na sistemática, que,


até agora, veio colocar como objetivo a formação de “virtuoses” no menor
tempo possível. Este tipo de filosofia, cujo argumento é caduco e sem bases
com concretas na evolução natural e ascendente do, veio formar mais
vítimas deste sistema do que propriamente os “virtuoses” pretendidos.
(PINTO, 1978, p.5)

A citação acima tem como objetivo a importância da construção lógica e embasada


de metodologias que visem primeiramente o bem estar do aluno e o comprometimento com
sua instrução gradativa, raciocinada e coerente com suas possibilidades. Estabelecer um
programa de ensino que não agregue essas características, sobretudo, compromete o próprio
ensino de música. Ou seja, compromete suas premissas de integrar, humanizar, formar
ouvintes atentos, músicos atenciosos e cidadãos mais sensíveis aos “fazeres musicais”. Tão
carentes em nossas comunidades brasileiras na contemporaneidade.
Referências:
ANTUNES, Celso. Inteligências Múltiplas e seus Jogos : Inteligência Sonora. vol. 8,
Petrópolis, RJ : Vozes, 2006.
<http://www.musica.ufrn.br/basico.php>. Acesso em: 05 de abr. 2010.

PINTO, Henrique. Iniciação ao violão. vol. 1, São Paulo: Ricordi, 1978.

TOURINHO, Cristina; BARRETO, Robson. Oficina de violão. Salvador: Quarteto, 2003

TOURINHO, Cristina. Ensino coletivo de violão: proposta para disposição física dos
estudantes em classe e atividades correlatas,
<http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos_texto.php > Acesso em 31 de abr. de 2010.