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CHEVITARESE, A. L.; FUNARI, P. P. A. . Jesus Histórico, uma brevíssima introdução

10/01/2012. Rio de Janeiro: Kline, 2012. v. 1. 76p .

Jesus Histórico

André Leonardo Chevitarese

Pedro Paulo A. Funari


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Índice

1. Introdução: Jesus, um homem

2. Como conhecer o Jesus Histórico

As fontes

Os Evangelhos

As fontes arqueológicas

Outras fontes

3. A vida de Jesus

A infância de Jesus

O movimento batista e Jesus

Jesus, porta-voz de Deus

Jesus, o poder de Deus

A crucificação

4. A busca do Jesus Histórico

Antes do Iluminismo

O influxo do Iluminismo e as biografias de Jesus

As dúvidas sobre a possibilidade de conhecimento do Jesus Histórico

O Seminário de Jesus

Primeira Fase
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Segunda Fase

Terceira Fase

Tendências atuais

5. Conclusão: o Jesus Histórico e o Cristo da fé

Agradecimentos

Referências

Cronologia

Bibliografia

Os Autores
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1. Introdução: Jesus, um homem

Poucos personagens históricos tiveram tanta repercussão, por tanto tempo, como

Jesus de Nazaré. No início do terceiro milênio – ou seja, tendo como ponto de partida esse

mesmo Jesus, cujo nascimento marca o início da Era Comum adotada em todo o mundo –

cerca de um terço da humanidade, mais de dois bilhões de pessoas, professam a fé cristã e

se reportam, portanto, ao homem de Nazaré. No Brasil, mais de 150 milhões declaram-se

cristãos. Pelo critério do número de seguidores, Jesus ultrapassa, de longe, outros líderes,

como Maomé, cujos seguidores são hoje mais de um bilhão e quinhentos milhões. Jesus, à

diferença de Maomé (570-632 d.C.), não deixou nada escrito e, neste aspecto, está mais

próximo do filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.) ou de Sidarta Gautama (624-544 a.C.),

chamado por seus seguidores de Buda. O filósofo iluminista francês e agnóstico Voltaire

(1694-1778) afirmou sobre Jesus algo chocante, mas que continua, em grande parte, válido:

“Jesus de Nazaré foi um judeu obscuro, proveniente da raia miúda; ele foi

crucificado por blasfêmia, no tempo do imperador romano Tibério, sem que se possa saber

em qual ano”.

Este livro procura mostrar como Jesus de Nazaré, o homem que viveu há dois mil

anos, um personagem histórico, pode ser estudado e conhecido. Não se busca, aqui,

abranger o cristianismo, a religião que se originou, de alguma forma, do homem de Nazaré,

a não ser na medida em que a confissão cristã influiu na pesquisa sobre o Jesus histórico.

Nossa meta é mostrar o que se sabe e quais as discussões, por parte dos estudiosos, sobre a
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vida de Jesus. Nesta viagem, convidamos o leitor a mergulhar em algumas das mais

fascinantes histórias. Muitas delas estão conosco até hoje, na forma de parábolas, imagens,

rituais e comportamentos coletivos e individuais. Tantas vezes nos pegamos a falar em

“separar o joio do trigo”, ou a hesitar a “atirar a primeira pedra”, ou ainda a “lavar as

mãos”. Estas e outras passagens da vida de Jesus estão conosco até hoje e indicam o início

de nossa caminhada pela vida do Nazareno.


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2 - Como conhecer o Jesus histórico


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As fontes

A História se faz com documentos. O passado já não existe e apenas podemos

conjecturar a seu respeito por meio de testemunhos, diretos ou indiretos, materiais ou

imateriais. Os estudiosos costumam denominar documentos a tudo o que permite inferir

algo: são as fontes de informação. A própria palavra fonte é uma metáfora, como se algo

fosse comparável à água que brota e que nos dá de beber. No caso da vida de Jesus de

Nazaré, há diversos tipos de fontes: os manuscritos do Novo Testamento; as escavações

arqueológicas; as descobertas de Qumran (manuscritos do Mar Morto) e de Nag Hammadi,

no Egito; os escritos judaicos; e os testemunhos de fora do ambiente judaico-cristão.

Comecemos pelas mais conhecidas, os vinte e sete livros do Novo Testamento. Estes livros

são os mais difundidos no mundo e no Brasil, disponíveis nas casas, mas também em

quartos de hotel, vendidos, mas também distribuídos de forma gratuita e, hoje, disponíveis

on-line na internet. Pode dividir-se o Novo Testamento em quatro categorias:

1. Relatos da vida de Jesus: os Evangelhos

Mateus (Mt)

Marcos (Mc)

Lucas (Lc)

João (Jo)

2. Livro Histórico
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Ato dos Apóstolos (At)

3. Epístolas ou Cartas

Paulo aos Romanos (Rm)

Paulo aos Coríntios, Primeira Carta (1 Cor)

Paulo aos Coríntios, Segunda Carta (2Cor)

Paulo aos Gálatas (Gl)

Paulo aos Efésio (Ef)

Paulo aos Filipenses (Fl)

Paulo aos Colossenses (Cl)

Paulo aos Tessalonicenses, Primeira Carta (1Ts)

Paulo aos Tessalonicenses, Segunda Carta (2 Ts)

Paulo a Timóteo, Primeira Carta (1 Tm)

Paulo a Timóteo, Segunda Carta (2 Tm)

Paulo a Tito (Tt)

Paulo a Filemon (Fm)

Carta aos Hebreus (Hb)

Carta de Tiago (Tg)

Carta de Pedro, Primeira (1Pd)

Carta de Pedro, Segunda, (2 Pd)

Carta de João, Primeira (1 Jo)

Carta de João, Segunda (2 Jo)

Carta de João, Terceira (3 Jo)


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Carta de Judas (Jd)

4. Profético

Apocalipse (Ap)

Os Evangelhos são relatos da vida de Jesus e constituem fonte primária para nosso

conhecimento do nazareno. O nome “evangelho” significa “boa notícia” e se refere à vinda

de Jesus como salvador da humanidade. Estes livros foram escritos em grego, diversas

décadas depois da crucificação de Jesus, a partir de 70 d.C., o primeiro deles o mais curto,

de Marcos, considerado o testemunho mais fidedigno. Marcos, Mateus e Lucas são

chamados de sinóticos, que em grego significa “com a mesma visão”, pois seus relatos são

paralelos e seguem fontes comuns. O Evangelho de João segue caminhos próprios e foi

escrito mais tarde, entre 90 e 110 d.C. O Ato dos Apóstolos é um relato histórico dos

primeiros seguidores de Jesus e deve ter sido escrito entre 64 e 85 d.C. As cartas ou

epístolas constituem um gênero literário próprio, referente à correspondência entre os

primeiros cristãos. As cartas de Paulo são os mais antigos documentos que sobreviveram,

tendo sido escritas entre os anos 40 e 60 d.C., antes, portanto, do mais antigo Evangelho

que conhecemos (Marcos). A carta bem datada mais antiga é a Primeira aos

Tessalonicenses, escrita entre 50 e 51, uns vinte anos após a morte de Jesus. Paulo,

contudo, não parece ter conhecido pessoalmente Jesus e pouco nos fala sobre a vida do

nazareno. Por fim, o livro do Apocalipse consiste em uma visão profética do futuro e

tampouco se volta para o Jesus da Galileia. Portanto, as fontes principais sobre a vida de

Jesus são os Evangelhos.


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Os Evangelhos

Jesus falava o aramaico, uma língua semita, aparentada ao hebraico. Assim:

“E, tendo chegado à casa do principal da sinagoga, viu o alvoroço, e os que

choravam muito e pranteavam. E, entrando, disse-lhes: por que vos alvoroçais e chorais? A

menina não está morta, mas dorme. E riram-se dele; porém ele, tendo-os feito sair, tomou

consigo o pai e a mãe da menina, e os que com ele estavam, e entrou onde a menina estava

deitada. E, tomando a mão da menina, disse-lhe: Talita cumi – que, traduzido, é: menina, a

ti te digo, levanta-te. E logo a menina se levantou, e andava, pois já tinha doze anos; e

assombraram-se com grande espanto” (Mc 5, 38-42).

Esta é uma das poucas passagens que reproduzem palavras originais de Jesus em

sua língua. Talita significa “fresca”, pois era uma menina ainda, não era uma mulher adulta.

No entanto, já aqui se põe um problema, pois o termo grego usado no trecho para traduzir,

paidion, significa criança de ambos os gêneros. Neste caso, temos a frase original, mas em

todos os outros contamos apenas com o grego, língua que, ao que se sabe, Jesus nunca

falou.

Como as palavras de Jesus, em aramaico, acabaram, décadas depois, sendo

registradas nos Evangelhos? Antes de tudo, convém lembrar como as pessoas se


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relacionavam com a memória na Antiguidade. A alfabetização não era expandida e a

maioria das pessoas era analfabeta e mesmo as que dominavam a escrita nela não se fiavam

para se lembrar do que liam. Os livros já existiam, mas eram rolos que eram desenrolados

para que pudessem ser lidos. Era, portanto, impossível fazer uma consulta a passagens de

obras, como se pode fazer com livros impressos e, mais ainda, com documentos digitais.

Hoje, e há já alguns séculos, estamos acostumados a consultar escritos, quando queremos

nos informar ou mesmo rememorar algo que já lemos. Nada disso ocorria naquela época.

As pessoas decoravam, tendo lido ou ouvido um texto, e podiam reproduzir longas

passagens, para não dizer obras inteiras e imensas. Em Lucas (4, 16-18), diz-se que:

“E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu

costume, na sinagoga, e levantou-se para ler. E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e,

quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: o Espírito do Senhor é sobre

mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do

coração”.

Muitos estudiosos modernos ponderam que o que se chama de sinagoga, palavra

grega, representa, no caso de uma aldeia de 300 pessoas, como Nazaré, apenas uma casa

usada para a reunião da comunidade. Este, aliás, o nome da sinagoga em hebraico: beit

knesset, casa de reunião. Não se sabe se haveria rolos com a Bíblia hebraica, mas, mesmo

que houvesse, quem saberia ler? A passagem, contudo, sugere que Jesus tenha citado de

cabeça Isaias 61. Isaias era um dos profetas populares que defendiam os pobres, em versos

que mais se assemelham a nossas canções rimadas populares. Quem escreveu o Evangelho
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de Lucas, décadas depois, não conhecia de primeira mão as comunidades galileias e, assim

como em outras passagens, introduz detalhes, na narrativa, que refletiam a realidade das

cidades gregas na qual se difundia o cristianismo.

Um segundo aspecto da memória antiga deve ser recordado, para além da

capacidade de decorar frases: seu caráter subjetivo e religioso. A memória é sempre

subjetiva e estamos sempre sujeitos a recordar determinados momentos da vida, manter

certas frases e situações e a esquecer e suprimir outras. Estes mesmos mecanismos fizeram

com que os seguidores de Jesus recordassem episódios e ditos de Jesus, assim como

suprimissem outros. Isto garantiria a preservação, ainda que alterada pela experiência

posterior, de muitas experiências com o nazareno. Dentre os mecanismos de preservação e

supressão, sobressaiam as crenças e convicções dos antigos, que não estavam sujeitas aos

critérios da ciência moderna, que, claro, não existia naquela época. Muitos milagres são

mencionados nos Evangelhos, como a cura da menina que acabamos de reportar. Tais

episódios constituem experiências fortes e, portanto, inesquecíveis. Quem se esquece de um

milagre?

Neste contexto, começa-se a compreender como a vida de Jesus foi escrita décadas

depois de sua pregação. De início, tudo era lembrado e contado em aramaico, apenas

oralmente, pelos primeiros seguidores analfabetos de Jesus. Contudo, não foram eles que

escreveram os Evangelhos: foram falantes de língua grega que não tinham conhecido Jesus

ao vivo, apenas o Cristo após a Ressurreição. Jesus foi um homem crucificado, mas seus

seguidores acreditaram que ele ressuscitou e subiu aos Céus, tendo ganhado, após sua
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morte, um novo nome: Cristo, que em grego quer dizer “ungido” por Deus, tradução de

Messias, em hebraico. Nunca, em vida, Jesus foi chamado de Cristo ou Messias, mas, após

sua morte, no relato da sua vida, ele passou a ser chamado com os dois nomes: “Princípio

do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1, 1). Isto significa que toda a memória

sobre a vida de Jesus foi conformada pela crença na Ressurreição de Jesus e na sua

divindade.

Não sabemos se teria havido escritos em aramaico com ditos e relatos da vida de

Jesus. O que parece mais seguro é a existência de escritos com recordações de Jesus

traduzidas para o grego, já quando a nova fé começou a expandir-se fora da comunidade

judaica da Palestina.
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3 - A vida de Jesus
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A infância de Jesus

O Evangelho de Marcos não menciona nada sobre a infância de Jesus, pois sua

narrativa começa com o batismo no rio Jordão: “aconteceu, naqueles dias, que Jesus veio de

Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão” (Mc 1, 9). Isto significa que os

seus seguidores imediatos deviam ter poucas informações sobre a vida pregressa de Jesus

ou consideravam pouco importante tudo que antecedeu o seu encontro com o movimento

batista. O mesmo se pode dizer do último Evangelho, pois João também inicia o relato da

vida de Jesus com João Batista (Jo 1, 29). Mas há outras informações, fornecidas mesmo

no Evangelho mais avaro de Marcos, quando relata uma estada de Jesus em sua aldeia:

“Saindo dali, foi para sua pátria e os seus discípulos o seguiram. Vindo o sábado,

começou ele a ensinar na sinagoga e numerosos ouvintes ficavam maravilhados, dizendo:

‘De onde lhe vem tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais

milagres por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, José,

Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?” (Mc 6, 1-3).

A historieta pode parecer ilógica, se Jesus tivesse vivido toda sua vida adulta em

Nazaré, mas não sabemos quanto tempo antes do seu encontro com o Batista Jesus tinha

deixado a sua cidade. De todo modo, ficamos sabendo o nome da sua mãe Maria, sua

profissão ou a de seu pai – pois Mateus 13, 55 menciona neste episódio que ele era “o filho

do carpinteiro” -, assim como o nome de seus parentes. Em aramaico, a palavra ah era


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usada para designar um irmão ou um primo, mas em grego, o termo usado, adelphos,

restringe-se ao irmão de sangue. Jesus nasceu no tempo de Herodes (Mt 2, 1; Lc 1, 5), na

cidade de Belém, na Judeia (Mt 2, 5-8; Lc 2, 4-11), ainda que esta informação possa ter

sido adicionada posteriormente, para ligar Jesus à casa do rei Davi. De fato, o certo é que

Jesus e sua família viviam em Nazaré, na Galileia (Mt 2, 23; Lc 2, 39). Não se pode saber

quando surgiram as tradições referentes à concepção de Jesus pelo Espírito Santo (Mt 1,

18-20; Lc 1, 26-38), mas elas estão ausentes de Marcos.


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O movimento batista e Jesus

Na Palestina, à época de Jesus, pululavam os movimentos sociais, de caráter

religioso, voltados às insatisfações e agruras, em especial das pessoas humildes. O domínio

romano, em todo o Império, estabelecia clivagens entre aqueles que se beneficiavam da

associação com Roma – as elites – e as pessoas excluídas e queixosas da situação social em

que se encontravam. Roma adotava, havia muitos séculos, uma política de alianças com os

grupos dominantes locais, visando à sua incorporação ao exercício do poder, sentido da

palavra imperium. Na Palestina, os judeus constituíam uma população heterogênea, com

uma aristocracia, ligada ao Templo de Jerusalém, em sintonia com o império, mas também

com amplas massas camponesas excluídas. Os camponeses, artesãos e pobres em geral

inspiravam-se nos antigos profetas de Israel, que se opunham à opulência dos sacerdotes e

hierarcas ligados ao Templo de Jerusalém.

O escritor judaico-romano, Flávio Josefo (37-101 d.C) menciona João Batista e sua

morte, provavelmente em 28 d.C.:

“Alguns judeus pensavam que a destruição do exército de Herodes veio de Deus, de

forma justa, como punição pelo que ele havia feito contra João, chamado Batista: pois

Herodes o matara, ele que era um homem bom e pregava para que os judeus praticassem a

virtude, tanto pela justiça de uns para com os outros, como pela reverência a Deus, para

isso vindo ao batismo. Esta lavagem era aceita por ele, não se fosse para terem alguns

pecados perdoados, mas para a purificação do corpo. A alma devia estar purificada antes
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pela retidão. Quando muitos vieram em multidão até João, movidos por suas palavras,

Herodes, que temia a grande influência de João sobre o povo, o que permitiria que

estimulasse uma revolta (pois pareciam prontos a fazer o que ele dissesse), pensou ser

melhor matá-lo. Isto impediria qualquer ação contrária causada por João e não traria

dificuldades para o rei, que poderia arrepender-se muito tarde de tê-lo deixado vivo. Assim,

foi aprisionado em Maquerus, castelo que mencionei antes, e morto. Os judeus

consideraram que a destruição do exército de Herodes foi uma punição, para mostrar o

desagrado de Deus” (Antiguidades Judaicas 18, 5, 2, parágrafos 116-119).

Este testemunho mostra o caráter popular da pregação do Batista e como o povo,

além de acorrer ao profeta, interpretou o rei e a elite como ímpios. Jesus e alguns de seus

discípulos pertenceram a este movimento batista, como André e Pedro:

“No dia seguinte, João se achava lá de novo, com dois de seus discípulos. Ao ver

Jesus que passava, disse: ‘eis o cordeiro de Deus’. Os dois discípulos ouviram-no falar e

seguiram Jesus. Jesus voltou-se e, vendo que eles o seguiam, disse-lhes: ‘que estais

procurando?’ Disseram-lhe: ‘rabi (que, traduzido, significa mestre), onde moras?’ Disse-

lhes: ‘vinde e vede’. Então eles foram e viram onde morava e permaneceram com ele

aquele dia. Era a hora décima, aproximadamente. André, o irmão de Simão Pedro, era um

dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram Jesus. Encontrou primeiramente

Simão e lhe disse: ‘encontramos o Messias (que quer dizer Cristo)’. Ele o conduziu a Jesus.

Fitando-o, disse-lhe Jesus: ‘tu és Simão, o filho de João; chamar-te-ás Cefas (que quer dizer

pedra)” (Jo 1, 35-42).


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Eram, pois, membros do movimento batista e batizavam: “Depois disso, Jesus veio

com os seus discípulos para o território da Judeia e permaneceu ali com eles e batizava”

(Jo. 3, 23). A purificação pela água era regra ritual do judaísmo da época, com a

necessidade de banhos rituais (mikvot) para purificar as pessoas, quando tivessem contatos

impuros com estrangeiros, com mortos ou doentes, entre outras situações consideradas

impuras. Contudo, no seio do povo, nem sempre era possível manter tais rigores e o

movimento batista se caracterizava pela limpeza do corpo, mas com ênfase nas intenções,

não no contato ritual impuro. Jesus e seus discípulos terão sempre contato com impuros:

pecadores, leprosos, não-judeus, prostitutas ou mulheres em situação de impureza. Isto se

explica, em parte, pela origem popular desses movimentos sociais, pois artesãos e

camponeses não podia se preocupar tanto com a pureza ritual. O movimento batista estava

aberto a estrangeiros e permitia o perdão dos pecados, sem o acordo e mesmo em oposição

ao perdão centralizado no Templo de Jerusalém e oficializado pelo ritual do Yom Kipur

(dia do perdão), celebrado no dia 10 de mês tishri (setembro/outubro no nosso calendário).

Tudo indica que houve um abandono, após algum tempo, da prática do batismo, por

parte de Jesus e seus seguidores. Jesus será, como pregador, muito diferente de João

Batista: não se vestirá como o profeta Elias (Mc 1, 6), sairá do Rio Jordão para pregar ao

povo em suas aldeias, não se apresentará como um homem consagrado a Deus (nazir), que

deveria abster-se de vinho e fermentados. Ao contrário, beberá e comerá carne. O próprio

Jesus teria dito:


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“Com efeito, veio João, que não come nem bebe, e dizem: ‘um demônio está nele’.

Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ‘eis aí um glutão e beberrão, amigo de

publicanos e pecadores’” (Mt 11, 18-19).

Talvez se possa localizar a ruptura com o movimento batista nessa contraposição,

em um movimento de afastamento do ascetismo, em direção ao engajamento com os

impuros: “não são os que têm saúde que precisam de médicos, mas os doentes. Eu não vim

chamar justos, mas pecadores” (Mc 2, 17).


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Jesus, porta-voz de Deus

Jesus era conhecido, em vida, como emissário divino:

“E, entrando em Jerusalém, a cidade inteira agitou-se e dizia: ‘quem é este?’ A isso

as multidões respondiam: ‘Este é o profeta Jesus, o de Nazaré da Galileia’” (Mt 21, 10-11).

Era chamado de Nabi, traduzido para o grego (e depois para o português) como

profeta. A palavra significa, literalmente, borbulho, aquele que fala como se borbulhasse,

como se a fonte das suas palavras fosse Deus, que borbulhava as palavras na boca daquele

que era um emissário, um transmissor. Havia longa tradição de profetas em Israel. Eram

homens que, desde o período dos reis, falavam para o povo, criticavam as autoridades, tanto

políticas como religiosas, por se afastarem da justiça e da igualdade, comum a todos os

filhos de Deus. Sua mensagem inseria-se na linha dos antigos profetas de Israel, como um

profeta itinerante, que se poderia caracterizar como carismático, para usar o termo

difundido pelo sociólogo alemão Max Weber, com a seguinte definição:

“O carisma é uma qualidade de uma personalidade individual, por isso separado das

pessoas comuns, pessoa tratada como se dotada de poder e qualidades super-humanas, além

da natureza, ou ao menos excepcionais. Estas não são acessíveis às pessoas comuns, mas

são consideradas de origem divina ou como modelos e, por isso, o indivíduo é considerado

um líder” (Economia e Sociedade, 3, parágrafo 10).


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O próprio termo carisma deriva do termo grego kharis, “graça, favor”, um termo

muito usado no Novo Testamento. No entanto, a expressão usada para se referir ao carisma

de Jesus era outra, exousía, traduzido como “autoridade”:

“Os ouvintes ficavam admirados com a sua doutrina, porque os ensinava com quem

tem autoridade, e não como os escribas” (Mc 1, 22).

“Ele manda com autoridade até aos espíritos imundos, e obedecem-lhe” (Mc 1, 27).

A palavra grega exousía designa um tipo de poder, mas não sabemos como essa sua

potência mágica era chamada em aramaico. De qualquer modo, esse carisma exercia-se por

meio das falas de Jesus, perdidas em sua forma original, em aramaico, mas cujo substrato

oral se encontra preservado em muitas frases que parecem diretamente traduzidas da língua

semita para o grego. Talvez a mais famosa seja: “o sábado foi feito para o homem, e não o

homem para o sábado” (Mc 2, 27). Mas muitas outras, curtas e diretas, ressoam o original

aramaico que se perdeu, como:

“Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo” (Mt 4, 17).

“Se alguém quer ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,

34).

“Se uma casa se dividir contra si mesma, tal casa não pode subsistir” (Mc 3, 25).
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“Olhai os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham nem fiam. Eu vous

digo que nem mesmo Salomão, em toda sua glória, se vestiu com qualquer deles” (Mt 6,

28-29).

Jesus, após uma fase inicial com João Batista, torna-se um pregador errante,

caracterizado pelas frases simples, diretas e cortantes, pelos discursos que emanavam

autoridade, voltados para os pobres, pelas parábolas que se fundavam na vida quotidiana

dos mais simples. O caso paradigmático dessa pregação aos mais pobres, programático,

consiste no Sermão da Montanha:

“Vendo Jesus aquela multidão, subiu a um monte e, tendo-se sentado, aproximaram-

se dele os seus discípulos. Ele, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo: bem-aventurados

os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos, porque

possuirão a terra. Bem aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-

aventurados os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os

misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração,

porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados de filhos de

Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o

reino dos céus” (Mt 5, 1-12).

Em paralelo a esta defesa dos humildes, em discursos para multidões, Jesus

pregava por meio de parábolas. Este termo grego designa uma história contada por meio de
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situações concretas que possuem implicações mais amplas e a expressão parece traduzir o

hebraico mashal e o aramaico matla (provérbio). O que caracteriza tais contos é o uso de

comparações, que deveriam ser entendidas por aqueles abertos à mensagem de Jesus,

àqueles de coração disposto à justiça, mas não o eram pelos duros: “por isso lhes falo em

parábolas, porque vendo não veem, e ouvindo não ouvem, nem entendem” (Mt 13, 13).

Não por acaso, as parábolas apresentavam personagens desprezados pela elite sacerdotal,

com o bom samaritano, contraposto a certo doutor da lei. Segundo Jesus (Lc 10, 25-37), ao

explicar quem era o “próximo”, do mandamento “amarás teu próximo”, conta que uma

pessoa ficou em poder de ladrões. Um sacerdote viu-o e nada fez. Um levita fez o mesmo.

Um samaritano, que nem seguia o judaísmo do Templo e era, portanto, considerado

impuro, salvou e tratou do estranho que havia caído nas mãos dos ladrões. Este era o

próximo. Esta narrativa, simples, direta e popular, era tudo que o povo queria ouvir e era o

que desagradava às elites. Esta a essência da pregação de Jesus por parábolas.


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A crucificação

As informações sobre os últimos dias de Jesus resumem-se ao que escreveram seus

seguidores, nos Evangelhos, e, já muito depois, relatos de seus opositores. Na obra dos

rabinos, o Talmude da Babilônia (Sinédrio 43a) afirma-se:

“Na véspera da Páscoa, pendurou-se Jesus de Nazaré. O arauto anunciou por

quarenta dias: eis Jesus de Nazaré que vai ser apedrejado, pois praticou a bruxaria, seduziu

e desviou Israel. Todos os que conhecem algo a seu favor, venham testemunhar por ele.

Não encontrou quem o fizesse em sua defesa e foi pendurado na vigília da Páscoa”.

Não se pode saber se havia uma tradição judaica, preservada nesta passagem, sobre

o fim de Jesus. Parece mais provável que o relato seja posterior à difusão do cristianismo.

Contudo, revela algo significativo: a preocupação das autoridades judaicas com os dois

aspectos da sua pregação: o caráter popular da sua pregação (“seduziu e desviou Israel”) e

seus poderes miraculosos (“bruxaria”), também apreciados pelas pessoas comuns.

A narrativa dos Evangelhos mostra a entrada em Jerusalém como decisiva. Jesus

havia pregado e feito milagres entre os pobres, nas aldeias e entre os mais simples e

humildes. Jerusalém representava, por tradição profética secular, o Templo, com seu

aparato, circunstância e paradoxal afastamento de Deus, por parte dos sacerdotes e seu

séqüito. A cidade era cosmopolita e vivia essa contradição, pois havia muitos que
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dependiam do Templo, assim como havia muitos peregrinos que para lá se dirigiam e tanto

aceitavam como rejeitavam toda aquela pompa. A entrada de Jesus em Jerusalém, em plena

preparação da Páscoa, sinalizava um confronto mais direto, bem marcado pela expulsão dos

vendilhões do Templo:

“Jesus entrou no Templo de Deus, expulsou todos os que lá vendiam e compravam;

derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas” (Mt 21, 12).

Muitos interesses foram contrariados. Na sua derradeira entrada na cidade de

Jerusalém, contudo, os humildes saudaram o homem do povo:

“Os que iam adiante, e os que seguiam, atrás, clamavam, dizendo: ‘ Hosana!

Bendito o reino que vem do nosso pai Davi!’” (Mc 11, 10).

Estava, pois, clara uma contraposição entre uns e outros. O relato em Marcos -

considerado mais antigo e próximo dos acontecimentos - começa pela ação do sinédrio,

órgão administrativo judaico. Tendo sido interrogado, Jesus foi acusado de blasfêmia. O

poder de condenação formal do sinédrio era limitado:

“A nós não nos é permitido matar ninguém” (Jô 18, 31).


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Mas sabemos que era muito fácil matar uma pessoa que não fosse de cidadania

romana, protegida pela lei. Foi o que quase aconteceu com uma mulher acusada de

adultério, que ia ser apedrejada até a morte (Jô 8, 1-11), não fosse a intervenção de Jesus:

“Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra

ela” (Jô 8, 7).

Estevão não teve a mesma sorte:

“Tendo-o lançado fora da cidade, o apedrejavam; as testemunhas depuseram os seus

vestidos aos pés de um jovem chamado Saulo. Apedrejavam Estevão, que orava e dizia:

‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito’” (At 7, 58-59).

O sinédrio, contudo, remeteu Jesus à autoridade romana, Pilatos, que o condenou à

morte. Do ponto de vista dos seguidores de Jesus, a responsabilidade primeira era da

liderança judaica, como atesta um discurso atribuído a Pedro, logo no início dos Atos dos

Apóstolos (2, 23):

“Este homem que foi entregue, segundo os desígnios e presciência de Deus, vós o

mataste, crucificando-o por mãos de iníquos”.

Voltemos aos detalhes descritos. Enquanto o sinédrio trama, com a cumplicidade de

um discípulo de Jesus, Judas, ocorre a última ceia de Jesus com seus discípulos. Após a
28

refeição, dirigem-se a uma granja, Getsêmani, onde chegam guardas do sinédrio e o

prendem. Jesus é interrogado no sinédrio e entregue, no dia seguinte, a Pilatos, que o

condena à morte na cruz, acusado de sedição política:

“Pilatos perguntou-lhe: ‘Tu és o Rei dos judeus?’ Tu o dizes” (Mc 15, 2).

A pena, crucificação, era romana, destinada a não-romanos e, em particular, para

revoltosos, como era a acusação a Jesus. A execução pública foi coletiva, com outras

pessoas crucificadas, como era costume. Jesus foi pregado, o que apressou a morte, pois a

pessoa apenas amarrada podia tardar a morrer. As palavras finais, segundo Marcos, foram

em aramaico, ressoando o Salmo 22, 2:

“’Eloi, Eloi, lama sabachtani?’ que quer dizer: ‘Deus meu, Deus meu, por que me

desamparaste?” (Mc 15, 34).

Constatada a morte, foi concedido que o corpo fosse retirado da cruz para

sepultamento, algo excepcional, pois os romanos costumavam deixar os corpos sem serem

sepultados. Convinha fazer isso, tendo em vista a festa da Páscoa que se anunciava e que

não ela combinava com os cadáveres nas cruzes.


29

5. A busca do Jesus Histórico

Para conhecermos o Jesus Histórico, além das fontes, contamos com as reflexões

modernas. Quando lemos os Evangelhos, não o podemos fazer sem a mediação dos estudos

que nos condicionam o olhar. Neste capítulo, veremos como as pesquisas sobre Jesus

inseriram-se em suas épocas e nos legaram modos de entender e interpretar a figura

histórica do nazareno. No longo percurso nessa busca, começaremos com o período anterior

ao Iluminismo, no século XVIII, seguido pelos avanços posteriores e que chegam até nossa

época. No interior deste segundo recorte, a ênfase será destacar algumas das principais

idéias desenvolvidas pela historiografia associada no campo do Jesus Histórico. Esse

destaque está associado ao pressuposto de que tais idéias são responsáveis pela

determinação de muitas das percepções acerca de Jesus.

Antes do Iluminismo

Jesus não era estudado como uma figura histórica no sentido moderno. Implica dizer

que tanto os não-cristãos tinham pouco ou nenhum interesse nele, quanto que os cristãos

observavam as narrativas bíblicas como lembranças estritamente históricas da sua vida.

Desde o início, no século II d.C, porém, um problema incômodo foi colocado: o chamado

material neotestamentário apresentava quatro diferentes narrativas (ou quatro evangelhos)

sobre a vida de Jesus, e elas nem sempre pareciam concordar em suas histórias sobre ele.

Taciano, um cristão da Mesopotâmia, propôs uma narrativa contínua dos quatro


30

evangelhos, conhecida pelo nome de Diatessaron (ou “Quatro em Um”). O trabalho foi

traduzido para várias línguas e foi muito utilizado por quase três séculos. A versão siríaca

parece ter substituído os quatro evangelhos individuais em algumas igrejas. É possível

estabelecer alguns aspectos hipotéticos que poderiam levar à elaboração de uma obra de

síntese como esse “Quatro em Um”, a começar pelo aspecto cronológico. Como havia

muitas diferenças nas narrativas, procurou-se estabelecer uma ordem para as ações de Jesus

e eliminar as repetições. Poder-se-ia perguntar: há quatro narrativas sobre o mesmo evento?

Nos três primeiros evangelhos (Mc, Mt, Lc), a narrativa da expulsão dos mercadores do

Templo está associada ao final do ministério de Jesus, mas, em João, ela está presente no

início da sua missão (Mt 21:12-17; Mc 11:15-19; Lc 19:45-49; Jo 2:13-17). Jesus teria

repetido a mesma ação duas vezes?

Martinho Lutero, confrontado com o mesmo problema, ponderou que se devia

abandonar tais questões:

“Os Evangelhos não seguem nenhuma ordem de lembranças dos atos e

milagres de Jesus, e a questão não é, acima de tudo, de muita importância. Se uma

dificuldade se levanta em relação à Sagrada Escritura e nós não podemos resolvê-la,

nós devemos deixá-la de lado”.

Um segundo objetivo consistiu na superação do contraditório. Visava-se a estabelecer

uma narrativa que superasse as possíveis contradições dos evangelistas. Podem-se

tomar, a título de exemplo, as narrativas de Mt (8:5-13) e Lc (7:1-10). No primeiro caso,


31

o centurião vai a Jesus em Cafarnaum e lhe pede para curar o seu servo; enquanto que,

no segundo, o mesmo centurião envia anciãos judeus para pedir a Jesus que curasse o

seu servo. As palavras atribuídas ao centurião (Mt 8:8-9) ou aos seus amigos (Lc 7:6-8)

são quase idênticas. Assumindo que esses dois relatos façam parte da mesma história,

como eles poderiam ser harmonizados? Alguns estudiosos, como Calvino, por demais

interessados na produção de uma narrativa contínua, como o Diatessaron, simplesmente

apresentaram histórias similares de diferentes evangelhos lado a lado em colunas

paralelas. Pode-se admitir que, ao produzirem evangelhos harmônicos, esses eruditos já

estavam se perguntando por questões históricas relacionadas à vida de Jesus, mas eles o

faziam a partir de um contexto de fé, e não do ceticismo.

O influxo do Iluminismo e as biografias de Jesus

Convêm apontar, a título introdutório e preliminar, alguns aspectos do que está

sendo aqui chamado de Iluminismo: trata-se de um movimento europeu que exaltava o uso

da razão como a melhor forma para se chegar à verdade; ele enfatizava o ordenamento da

natureza, ao mesmo tempo em que encorajava uma erudição bem ordenada que aderisse a

métodos bem definidos para teste e verificação de hipóteses; ele favorecia a aquisição de

conhecimento e o desenvolvimento do pensamento crítico; embora ele fosse inicialmente

um movimento de características filosóficas (com Descartes, Locke, Rousseau, Voltaire),

essa nova orientação levou a um tremendo avanço da ciência e da matemática. O seu

impacto também foi sentido nos campos da política e da religião; e muito provavelmente,
32

um dos legados mais preciosos para o pensamento “Ocidental” foi jogar por terra o

pressuposto que alguns pontos e aspectos da vida não poderiam ser objetos de verificação.

É justamente no final do século XVIII, a partir dos aspectos já mencionados, que

começaram a aparecer as biografias de Jesus. Os seus autores embarcaram no que ficou

conhecido como a “Primeira Busca pelo Jesus Histórico”. Eles foram além da produção de

harmonias evangélicas, e passaram a escrever as chamadas “Vidas de Jesus”. Essas

biografias diferiam das harmonias em três campos básicos: elas impunham algum grande

esquema ou hipótese sobre o material evangélico, permitindo que tudo fosse interpretado de

acordo com um paradigma consistente (Jesus poderia ser tratado, por exemplo, como um

reformador social ou como um místico religioso); a exclusão do material evangélico que

não preenchia o paradigma, submetendo assim a memória bíblica ao julgamento crítico do

autor do que lhe pareceria mais provável ou mais ser correto; e a inclusão de uma reflexão

não derivada dos Evangelhos, cujo objetivo seria o de preencher os vazios das narrativas

evangélicas com as projeções do próprio autor, fossem elas concernentes às motivações, os

objetivos ou à compreensão de Jesus sobre si mesmo.

Das centenas dessas “Vidas de Jesus” produzidas, durante o século XIX, quatro

biografias merecem destaque, por suas semelhanças, diferenças e influências posteriores, a

começar pela obra de Hermann Samuel Reimarus (1694-1768). Fragmentos de um grande

manuscrito apareceram entre 1774 e 1778. A partir da análise das expressões “reino de

Deus” e “reino do céu”, Reimarus apresentou duas hipóteses, a primeira delas sobre Jesus

como um político malsucedido que tencionava se tornar rei de Israel:


33

“Puseram por cima de sua cabeça uma inscrição indicando a causa da sua morte:

Este é Jesus, o Rei dos Judeus” Mt 27: 37.

Na cruz, ao se sentir abandonado por Deus, de quem ele acreditava ter apoio para

obter êxito em seu objetivo, Jesus berrou desesperadamente (Mt 27:46). Os seus discípulos

foram acusados de roubar o corpo (Mt 28:11-15) e anunciar a sua ressurreição. Afirmaram

também que Jesus seria um tipo de rei sofredor, que através da sua morte, abriria as portas

para a salvação da humanidade.

O relato de Heinrich Eberhard Gottlob Paulus (1761-1851) está em obra, em dois

volumes, publicada em 1828. Paulus buscou explicar, pelo crivo da razão, as histórias de

milagre presentes nos evangelhos. Ele era da opinião que Jesus curava pessoas pelo uso de

práticas terapêuticas e ou médicas (Mc 8:23; Jo 9:6). Outro sábio de língua alemã, David

Friedrich Strauss (1808-1874) publicou sua obra, em dois volumes, em 1835. Para o autor,

quase tudo que foi produzido pelos evangelhos acerca de Jesus era mito, ou melhor,

narrativas mitológicas derivadas do Antigo Testamento. Strauss acreditava que Marcos,

Mateus e Lucas apresentavam histórias menos desenvolvidas, enquanto que João oferecia

uma análise com mais base histórica. Tão logo a sua obra apareceu, ele foi demitido do

cargo de professor da Universidade de Zurique.

Trajetória muito diversa teve o grande estudioso e literato francês, Ernst Renan

(1823-1892). A sua obra foi publicada em 1863. Para o autor os evangelhos seriam como
34

biografias legendárias, com muito pouco de material histórico. Constata-se, na sua obra,

uma preocupação em estabelecer uma cronologia acerca da vida de Jesus, com forte ênfase

no impacto emocional da tradição de Jesus. Tão logo a sua obra foi publicada, ele foi

demitido do cargo de professor do Collège de France, mas sua obra continua a ser um dos

grandes best-sellers, tanto na França, como em inúmeras traduções, com a portuguesa, tanto

pela beleza da sua narrativa, como por suas interpretações:

“Jesus nunca concebeu a sociedade aristocrática senão como moço aldeão que vê o

mundo através do prisma da sua singeleza”.

Pode-se estabelecer um balanço dessas “Vidas” de Jesus: como toda biografia, é

possível detectar percepções favoráveis ou desfavoráveis sobre Jesus e acerca do

cristianismo. Há uma posição cética em relação às narrativas de milagres. Este aspecto

reafirmava uma relutância com tudo aquilo que descambasse para o sobrenatural, não

podendo aceitá-lo como sendo histórico (por que não podia ser explicado à luz da razão).

Uma segunda percepção estaria associada ao fato de elas apresentarem a inserção de visões,

percepções e conjecturas razoáveis, segundo os seus autores, aos pontos questionáveis das

narrativas evangélicas.

O Seminário de Jesus

O Seminário Jesus, The Jesus Seminar, foi fundado por Robert Funk em 1985.

Trata-se de uma autodenominação dada por um grupo de pesquisadores, em sua maioria,


35

norte-americanos. O seu propósito é o de buscar analisar Jesus como uma figura histórica.

Nas origens, a sua intenção era examinar cada fragmento das tradições atreladas ao nome

de Jesus, de modo a determinar o que ele realmente disse. Com o tempo, o trabalho

transcendeu a esse objetivo, como forma de incluir o estudo de atitudes e ações atribuídas a

Jesus. As ações historiográficas desse grupo de pesquisadores podem ser organizada em

três fases básicas.

Primeira fase

Buscou-se estabelecer, de imediato, uma lista numerada de tudo que Jesus é

reportado ter dito em qualquer documento até o ano 300. A lista incluía todas as palavras

atribuídas a Jesus no Novo Testamento, nos denominados evangelhos apócrifos e nos

outros escritos de autores cristãos. Nenhum dito de Jesus é encontrado na literatura não-

cristã, embora escritos judaicos e romanos ocasionalmente o mencionem, como vimos.

A tarefa seguinte foi examinar esses ditos de Jesus para determinar se eles eram ou

não historicamente autênticos. Os membros do grupo trocavam análises, impressões e

pareceres argüindo as várias posições. Encontraram-se duas vezes no ano para discutir os

resultados de suas pesquisas. Por fim, eles deliberavam sobre se um dado dito viria ou não

de Jesus. O resultado era estabelecido a partir de uma votação usando quatro sistemas de

cores: vermelho, para palavras muito provavelmente autenticas provenientes de Jesus; rosa,

para palavras que traziam certo grau de incerteza, muito embora elas tendessem mais para

uma autenticidade; cinza, para palavras que traziam certo grau de incerteza, muito embora
36

elas tendessem menos para uma autenticidade; e preto, para palavras com muito pouca

probabilidade de vir de Jesus. Este sistema representa bem o sistema democrático

americano, fundado na democracia. Na tradição européia, o fundamento dos argumentos

está no conhecimento, na erudição e nunca na votação. A introdução da expressão da

opinião de cada especialista e a consideração igualitária refletia bem o ambiente cultural e

político dos Estados Unidos. Após seis anos, o grupo completou essa fase do programa e

publicou seu resultado em um livro chamado Os Cinco Evangelhos. O nome do livro

buscava sintetizar a conclusão de que todas as palavras rosas e vermelhas podem ser

encontradas somente nos cinco evangelhos de Mc, Mt, Lc, Jo, Tomé.

Total de Ditos e sua Distribuição nas Cores.

Livros Total de Ditos Vermelho Rosa Cinza Preto

Mateus 420 11 60 115 234

Marcos 177 1 18 66 92

Lucas 392 14 65 128 185

João 140 0 1 5 134

Tomé 201 3 40 67 91

Porcentagem de Cores nos escritos Evangélicos.

Livros Nº Total de Vermelho Rosa Cinza Preto

Ditos
37

Mateus 420 2,6% 14,3% 27,4% 55,7%

Marcos 177 0,6% 10,2% 37,3% 52%

Lucas 392 3,6% 16,7% 32,6% 47,2%

João 140 0% 0,7% 3,6% 95,7%

Tomé 201 1,5% 19,9% 33,3% 45,3%

Dos cinco ditos atribuídos a Jesus, os que mais ganharam votos de autenticidade

foram:

“Aquele que te fere na face direita, oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5:39).

“Aquele que quer pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe também a

veste” (Mt 5:40).

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lc 6:20).

“E se alguém te obriga a andar uma milha, caminha com ele duas” (Mt 5:41).

“Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam” (Lc 6:27).

Notavelmente, do ponto de vista das suas autenticidades, as cinco passagens que

mais ganharam votos eram derivadas do evangelho Q. A maioria dos ditos vermelhos e
38

rosas também vinham dessa antiga coleção de ditos de Jesus. O outro grande grupo de falas

autênticas provinha do evangelho de Tomé, que é similar a Q na forma. Convém salientar,

contudo, que somente dois ditos de Tomé (97:1-4, 98:1-3) coloridos com vermelho ou rosa

não têm paralelo nos evangelhos canônicos, são eles:

“O reino [do Pai] é como uma mulher que estava carregando um [jarro] cheio

de farinha. Enquanto caminhava por [uma] longa estrada, a asa do jarro se quebrou e

a farinha se espalhou por trás dela [ao longo do] caminho. Ela não percebeu isso; não

observou qualquer problema. Quando ela chegou à casa, colocou o jarro no chão e

descobriu que estava vazio”.

“O reino do Pai é como uma pessoa que queria matar alguém poderoso.

Enquanto estava em casa tirou a espada e a enfiou na parede para ver se sua mão

acompanharia. Depois matou o poderoso”.

Muitas palavras atribuídas a Jesus tiveram suas autenticidades questionadas: as

palavras ditas na cruz (Lc 15:34; Lc 23:34,43,46; Jo 19:26-30), a afirmação do próprio

Jesus de que ele seria o Messias (Mc 14:62), além dos seguintes ditos:

“Vós sois o sal da terra” (Mt 5:13).

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-

me” (Mc 8:34).


39

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6).

Sobre a única cor rosa contida no evangelho de João e a única cor vermelha presente

no Evangelho de Marcos:

“Um profeta não é honrado em sua própria pátria” (Jo 4:44).

“O que é de César, devolvei a César, o que é de Deus, a Deus” (Mc 12:17).

Todo esse primeiro período foi caracterizado por um esforço para determinar aquilo

de Jesus poderia ter dito. Em certo sentido, era uma retomada das preocupações dos

primeiros grandes estudos sobre o Jesus Histórico, no século XIX.

Segunda fase

Em seguida, voltou-se a atenção para a investigação das proposições concernentes à

vida e à obra de Jesus. Lendo as histórias reportadas no Novo Testamento e em outros

textos, o grupo de pesquisa desenvolveu listas de proposições tais como: Jesus nasceu em

Belém, era descendente de Davi, curou a sogra de Pedro e foi crucificado. Os pesquisadores

poderiam votar também em dezenas de sugestões relacionadas a uma mesma proposição.

Assim, por exemplo:


40

“Maria concebeu Jesus sem relação sexual com um homem” (preta).

“Jesus foi concebido enquanto Maria e José eram noivos” (cinza).

“Maria concebeu de José” (cinza).

“Maria concebeu de algum homem não nomeado por rapto ou sedução” (cinza).

A linguagem dessas proposições foi operada cuidadosamente. Assim, por exemplo:

“Jesus exorcizou um homem que pensava que ele estava possuído por demônios” (cinza).

Afirmado dessa maneira, os pesquisadores poderiam olhar o evento como histórico, sem,

por conseguinte, afirmar que um exorcismo de demônios aconteceu. O que se considerava

era que as pessoas acreditaram na possessão e no exorcismo. “A ressurreição de Jesus da

morte envolveu a ressurreição do seu corpo” (preto) e “a ressurreição de Jesus era um

evento aberto à verificação empírica” são duas proposições muito diferentes. Na primeira,

discute-se se, para seus seguidores, a ressurreição havia sido do corpo. A segunda refere-se

à nossa concepção, moderna, de “verificação empírica”, termos que nem existiam naquela

época. Tal cuidado era necessário, por que algumas pessoas poderiam argumentar que

Jesus levantou da morte num sentido outro do que aquele demandado pela proposição.

Rudolf Bultmann considerava que “Jesus ressurgiu da morte na verdade da Igreja”, ou seja,

já quando os seguidos de Jesus constituíram uma instituição, a Igreja.


41

Depois de discuti-las, os pesquisadores votaram em tais proposições, utilizando

novamente o sistema de cores, com algumas variantes: vermelho (virtualmente certo), rosa

(proposições que traziam certo grau de incerteza, muito embora elas tendessem mais para o

certo), cinza (proposições que traziam certo grau de incerteza, muito embora elas

tendessem mais para o improvável), e preto (improvável). O grupo completou essa fase do

programa e publicou seu resultado em 1998 no livro chamado “Os atos de Jesus. A busca

pelos verdadeiros atos de Jesus”. Essa obra traz todas as histórias do Evangelho sobre

Jesus que refletiam sua realidade como narrativas históricas.

Terceira fase

O grupo de pesquisadores publicou um terceiro livro, “Jesus, o homem”, cujo

objetivo foi o de descrever o mundo político e histórico do homem Jesus, tal como o

próprio Seminário de Jesus o vê: a sua família e como discípulo de João, o Batista; a sua

rejeição à vida ascética e à mensagem apocalíptica da vinda de um julgamento iminente, o

reino como uma realidade, aqui e agora.

John Dominic Crossan é co-presidente, com Robert Funk, do grupo Seminário de

Jesus. Ele parece ter se tornado para os estudos bíblicos, o que Carl Segan se tornou para a

astronomia: o grande divulgador. Os seus livros estão em todas as bibliografias sobre o

Jesus histórico. Ele vê o seu trabalho não como “procura” ou “busca”, as quais poderiam

sugerir uma idéia de se alcançar uma resposta definitiva. Ele prefere ver a sua pesquisa
42

como uma reconstrução: alguma coisa que deve ser feita mais de uma vez em diferentes

tempos e lugares, por diferentes grupos e comunidades, por diferentes gerações.

Crossan publicou O Jesus Histórico em 1991 e O Nascimento da Cristianismo em

1998. Estas duas obras representam um esforço de estatura considerável. Outros três livros

do Crossan ajudam o leitor a entender melhor a reconstrução que ele faz da figura de Jesus:

Jesus. Uma Biografia Revolucionária; The Essential Jesus; Quem Matou Jesus. A sua base

teórico-metodológica consiste em três níveis de operação: microcósmica; mesocósmica; e

macrocósmica. São termos meio obscuros, mas fica claro, quando os examinamos, um a

um.

O Nível Microcósmico diz respeito ao tratamento da documentação literária. Busca-

se estabelecer, neste nível, um “inventário” das tradições sobre Jesus, assinalando cada

elemento da tradição em dois números, separados por uma barra. O primeiro indica a idade

da fonte em que a tradição pela primeira vez aparece:

1 entre 30 e 60 d.C.;

2 entre 60 e 80 d.C.;

3 entre 80 e 120 d.C.;

4 entre 120 e 150 d.C.


43

O segundo número da barra indica quantas atestações independentes para a tradição

podem ser achadas em todas as fontes consideradas. Assim, por exemplo, as relações entre

reino e crianças (Tomé 22:1-2; Mc 10:13-16; Mt 18:3; Jo 3:1-10) = 1 / 4, ou seja, no

primeiro período, entre 30 e 60, há quatro referências. Já para a assimilação entre Jesus e

Logos aparece como (Jo 1:1) = 4 / 1, ou seja, uma única vez, entre 120 e 150 d.C.

Crossan estabelece ainda para a documentação seis importantes decisões: a

prioridade de Marcos; a existência do evangelho Q; a dependência de João, em relação aos

Evangelhos sinóticos; a independência de Tomé em relação aos evangelhos sinóticos; a

independência da Didaqué, um documento de difícil datação; a existência e independência

do Evangelho da cruz, reconstruído a partir da narrativa da paixão do evangelho de Pedro.

Dessa maneira, o programa teórico-metodológico do autor deposita uma forte

confiança na datação da documentação e no critério da múltipla atestação.

O Nível Mesocósmico diz respeito à reconstrução histórica do lugar e do tempo em

que viveu Jesus. Neste sentido, deve-se conhecer o mundo greco-romano, bem como o

ambiente histórico específico da Palestina judaica. Com relação ao contexto histórico

palestino judaico no século I, Crossan aponta duas características gerais, concentrando

sobre elas as suas atenções: uma violenta tensão sócio-política e econômica, em particular

no campesinato judaico. Em seguida, ressalta que essa tensão pode ser medida em três

níveis progressivos que o campesinato judaico sofreu, de maneira sucessiva: tumulto;


44

conspiração; guerra aberta. Essa tensão estava diretamente relacionada à política social e à

de taxação opressiva, medidas que pioravam de ano a ano. Sobre os vários tipos de

resistência camponesa identificados na documentação, podem ser destacados aqueles

relacionados aos camponeses que protestaram, aos profetas aos bandidos sociais e aos

candidatos a Messias.

Crossan dedica, também, uma atenção ao fenômeno específico dos filósofos cínicos.

Ele observa que os cínicos viam à vida como uma luta da “natureza contra a cultura” e suas

alianças eram francamente com os camponeses. Seguem-se, daí, algumas observações: o

movimento cínico está associado a Diógenes de Sinope (400-325 a.C.). Esse filósofo

admitia um estilo de vida simples e natural, livre da hipocrisia ou simulação. Por vida

simples, Diógenes reivindicava a realização da auto-suficiência, que o libertava da

necessidade de depender dos outros. Assim, livre, ele poderia fazer o que ele quisesse, que

era aceitar qualquer coisa como “natural”, sem vergonha.

Os cínicos não eram pessoas pessimistas que tendiam a esperar o pior. Eles eram

indivíduos radicais que advogavam uma abstenção do caos mundial e desafiavam as

convenções sociais. Cícer relata uma visita, histórica ou ficcional, pouco importa, de

Alexandre, o grande, a Diógenes. Enquanto esse filósofo estava tomando banho de sol, o rei

se aproximou e lhe perguntou se havia algo que ele, Alexandre, poderia fazer, enquanto

senhor do mundo, pelo filósofo cínico. Diógenes, sem nenhum respeito por autoridade

respondeu-lhe:
45

“Exatamente agora, você pode sair da frente do sol por que está me fazendo

sombra”.

Do ponto de vista religioso, os cínicos representam o que o antropólogo Bryan

Wilson chamou de “uma resposta introversa ao mundo” – alguém que assume o mundo

como irremediavelmente mau, de modo que as pessoas devem abandoná-lo, mais do que

repará-lo ou esperar por Deus para ordenar alguma reforma radical. Este dado serve para

que Crossan pense Jesus como “um camponês judeu cínico”, com uma visão “escatológica

ética”.

O Nível Macrocósmico envolve a análise do movimento de Jesus da perspectiva da

Antropologia social e cultural. Busca-se reconstruir a dinâmica e a estrutura social do

mundo em que viveu Jesus. Esse mundo seria caracterizado pela oposição entre honra e

vergonha, pelas relações de compadrio ou patronagem e pela sociabilidade camponesa.

Partindo das análises propostas pelo Seminário de Jesus e por Crossan, é possível observar

que as atuais pesquisas em torno do Jesus Histórico ampliaram consideravelmente as suas

bases teórico-metodológicas, inserindo novas percepções advindas dos campos da

Sociologia, Antropologia, História e Arqueologia. Não é sem sentido que historiadores têm

se sentido atraídos por este tema de pesquisa, já que ele começou a ganhar, principalmente

a partir dos anos oitenta do último século, contornos mais próximos ao seu ofício. Isto não

quer dizer que falar de Jesus Histórico, seja falar apenas de um ponto de vista histórico.

Muito pelo contrário! O que se quer colocar aqui é que este tema tem sido recentemente

dominado por uma abordagem transdisciplinar, não é mais uma “propriedade” exclusiva de
46

religiosos, de teólogos, de cientistas da religião, mas de um universo bem mais amplos de

pesquisadores. Além disso, esta tendência de transdisciplinaridade de olhares é que tem

viabilizado a possibilidade real de avanço numa área do conhecimento que parecia antes

estagnada a um exercício da fé.

5. Conclusão: o Jesus Histórico e o Cristo da Fé

Nossa trajetória nos levou das fontes às discussões atuais sobre o Jesus Histórico,

com uma passagem pela vida e ditos do nazareno. Jesus, logo após a sua morte na cruz,

tornou-se o Cristo Senhor, o Messias prometido, redentor da humanidade. Seus seguidores,

num primeiro momento, se resumiram a um pequeno grupo. Foram logo perseguidos e

Estêvão foi apedrejado, o primeiro mártir, ou testemunha, de Cristo. Isto tudo logo após a

crucificação de Jesus. Ante essa situação, a conversão de Saul ou Paulo de Tarso, em 32

d.C. foi responsável pela sucessiva expansão da nova fé, em direção aos que não eram

judeus. Paulo não parece ter conhecido o Jesus Histórico, mas apenas o Cristo. Nos anos

seguintes, Paulo irá romper com a comunidade cristã de Jerusalém e, como missionário

independente, irá levar a fé aos gentios. Esta é já outra história.

Contudo, o Jesus de Nazaré continua a fascinar crentes e não-crentes, admiradores

ou críticos. Por mais de dois séculos, estudiosos e pessoas comuns voltaram-se para esse

camponês simples e pouco preocupado com as grandezas deste mundo. Durante os

primeiros tempos, na luta do Iluminismo contra as Igrejas cristãs, Jesus casou espanto:

como um iletrado, que nada nos deixou por escrito, pôde ser tão influente? Como explicar
47

os seus milagres? Com o passar do tempo, e conforme o interesse pelo Jesus Histórico

expandiu-se e a luta anti-religiosa arrefeceu, procurou-se entender o contexto histórico, as

situações humanas e sociais vivenciadas pelo nazareno e seus seguidores. Nunca essa busca

afastou-se das inquietações do presente. No momento em que vivemos - neste início de

novo milênio, de tantas contradições e conflitos, mas também de esperanças e expectativas

- Jesus continua mais atual do que nunca. Ficaremos contentes se, ao final deste livro, o

leitor ficar instigado a conhecer mais esse personagem histórico único.


48

Agradecimentos

Agradecemos a Gabriele Cornelli, Dominic Crossan, Raquel dos Santos Funari, Richard

Horsley, Paulo Augusto de Souza Nogueira, Luiz Alexandre Solano Rossi, Monica

Selvatici, Edgard Leite, Izidoro Mazzarolo. Mencionamos, ainda, o apoio institucional do

Laboratório de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Núcleo de

Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas, do CNPq e da FAPESP. A

responsabilidade pelas idéias restringe-se aos autores.


49

Referências

O número de cristãos no mundo, com referências adicionais, pode ser encontrado

em http://www.adherents.com/Religions_By_Adherents.html, assim como na

Encyclopaedia Britannica, no verbete adherents (aderentes) e, no Brasil, os número do

Censo 2000 encontram-se nas publicações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE). A frase de Voltaire está em seu Dieu et les hommes (Deus e os homens),

publicado em Paris em 1769, p. 279. “Separar o joio do trigo” está citado em Mateus, 13:

37-43; “atirar a primeira pedra”, João, 8,7; “lavar as mãos”, Mateus, 27, 24. As

considerações sobre fontes e documentos derivam de Antiguidade Clássica, a História e a

cultura a partir dos documentos (Campinas, Editora da Unicamp, 2002, 2ª, Ed.), de Pedro

Paulo A. Funari, capítulos primeiro e segundo. Há muitas versões em português do Novo

Testamento, sendo muito difundida a tradução de João Ferreira de Almeida, O Novo

Testamento do Nosso Senhor Jesus Cristo, distribuído gratuitamente por muitas

denominações protestantes. Entre as versões católicas mais encontradas estão a Bíblia

Sagrada, Edição Pastoral (São Paulo, Paulus) e a Bíblia de Jerusalém (São Paulo, Paulus).

Pode consultar-se o Novo Testamento em diversos sites, como

http://www.sacudidura.com/biblia/ e http://www.bibliaonline.com.br/. Uma boa introdução

ao Novo Testamento é o livro de Donald Guthrie, New Testament, Introduction (Leicester,

Inter-Varsity Press, 1976). A vida e as cartas de Paulo estão bem esmiuçadas em Saint

Paul, de Étienne Trocmé (Paris, Presses Universitaires de France, 2003), assim como a

literatura apocalíptica em Religião de Visionários, Apocalipse e misticismo no cristianismo


50

primitivo, organizado por Paulo Augusto de Souza Nogueira (São Paulo, Loyola, 2005). A

Didaché, assim como outras fontes antigas, podem ser consultadas em suas línguas

originais, em Enchiridion Fontium Historiae Ecclesiasticae Antiquae, organizado por

Conradus Kirch (Barcelona, Herder, 1947), assim como é útil a História da Palestina nos

Tempos do Novo Testamento, de João Mehlmann (São Paulo, Coleção Revista de História,

1961).

As características do estudo arqueológico estão em Arqueologia (São Paulo,

Contexto, 2003), de Pedro Paulo A Funari e as evidências da época de Jesus encontram-se

no livro de John Dominic Crossan e Jonathan L. Reed, Em Busca de Jesus (São Paulo,

Paulinas, 2007) e em “O Jesus histórico e a contribuição da Arqueologia”, de P.P.A.

Funari, em Jesus de Nazaré, uma outra história (São Paulo, Annablume, 2006), A. L.

Chevitarese, G. Cornelli, M. Selvati, pp. 217-228. Não há tradução do Midrash para o

português, mas há edições em língua inglesa ou francesa, como Midrach Rabba (Lagrasse,

Verdier, 1987), assim como há uma boa introdução em Le Midrach, de David Banon (Paris,

Presses Universitaires de France, 1995).

O livro Antiguidades Judaicas, de Flávio Josefo, foi publicado em português pela

Edameris (São Paulo, 1974). A etimologia de termos hebraicos, como, nazir,

separado/consagrado, nabi, profeta, encontra-se em Ernst David Klein, A Comprehensive

Etymological Dictionary of the Hebrew Language (Jerusalém/Haifa, Carta/University of

Haifa, 1987). Os profetas hebreus estão bem tratados em Messianismo e Modernidade:

repensando o messianismo a partir das vítimas (São Paulo, Paulus, 2002), de Luiz
51

Alexandre Solano Rossi. Os Ditos de Jesus podem ser consultados em The Sayings of

Jesus, The Saying Gospel Q in English (Minneapolis, Fortress Press, 2002), organizado por

James M. Robinson, também em: http://www.chass.utoronto.ca/~kloppen/iqpqet.htm.

A citação de Max Weber vem de Economia e Sociedade (Brasília, Editora da UnB,

2008). A inscrição de Pompéia foi publicada no Corpus Inscriptionum Latinarum, 4, 8873

e está comentada no livro Vida Quotidiana na Roma Antiga (São Paulo, Annablume, 2003),

de P.P.A. Funari. A inscrição grega sobre Apolo, do século III-II a.C., foi publicada em

Human Transgression, Divine Retribution, tese de doutoramento de Aslak Rostad

(University of Bergen, 2006, p. 297), disponível na íntegra em:

https://bora.uib.no/bitstream/1956/2026/1/Dr.Avh.%20Aslak%20Rostad.pdf.. A inscrição

em agradecimento a Esculápio está em Jesus (Paris, Presses Universitaires de Frances,

1998, p. 75), de Charles Perrot. Os últimos dias de Jesus são objeto de dois livros recentes,

A Paixão (Rio de Janeiro, Record, 2006), de Geza Vermes e A Última Semana (Rio de

Janeiro, Nova Fronteira, 2007), de Marcus J. Borg e John Dominic Crossan.

A passagem de Martinho Lutero está em Schweitzer. A Busca do Jesus Histórico.

2003, p. 13 e a de Calvino em A Harmony of the Gospels Matthew, Mark and Luke.

Edinburgh: The Saint Andrew Press, 3 vols., 1972. A frase de Ernesta Renan está em Vida

de Jesus, Porto, Lello, s.d., p. 36. O livro Jesus’ Proclamation of the Kingdon of God, de

Johannes Weiss, pode ser consultado em ingles. A citação de Schweitzer está nas páginas

437-438. Existe edição inglesa da obra citada de Rudolf Bultmann, Faith and

Understanding, Londres, SCM, 1969, assim como de Käseman, The problem of the
52

historical Jesus, Essays on New Testament Themes, Londres, SCM, 1964, pp. 23-65. As

obras de Norman Perrin citadas são Rediscovering the Teaching of Jesus, de 1967 e Jesus

and the Language of the Kingdom, de 1976. The Acts of Jesus. The Search for the Authentic

Deeds of Jesus foi publicado em 1998 pela Harper and Collins, Nova Iorque. Marvin Cain

editou Jesus the Man. Santa Rosa, Califórnia: Polibridge, 1999. As ponderações de Cícero

estão nas Tusculanae Disputationes, 5, 92.

A citação de James H. Charlesworth está nas páginas 23 e 24 de Jesus dentro do

Judaísmo (Rio de Janeiro, Imago, 1992), do Papa Bento XVI em Jesus de Nazaré (São

Paulo, Planeta, 2007), p. 17. Dentre os muitos livros de Geza Vermes disponíveis em

português, aquele que descreve no detalhe a vida de Jesus é O Autêntico Evangelho de

Jesus (Rio de Janeiro, Imago, 2006) e a citação vem da página 2 de The Passion (Londres,

Penguin, 2005). Dois livros de Richard A. Horley explicitam sua abordagem de forma

ampla: Arqueologia, História e Sociedade na Galiléia, o Contexto social de Jesus e dos

rabis (São Paulo, Paulus, 2000) e Jesus e o Império (São Paulo, Paulus, 2004).

Há bons documentários sobre a vida de Jesus, como Jesus, o filho de Deus, co-

produção da BBC/Discovery Channel, distribuído em dois dvds pela Editora Abril, na

coleção de vídeos Superinteressante, com entrevista com o estudioso Gabriele Cornelli.


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Cronologia

27 a.C. Otávio Augusto Imperador Romano.

6-4 a.C. Quintilius Varo, legado romano na Síria.

6-4 a.C. Nascimento de Jesus.

4 a.C. Morte de Herodes, o Grande.

4 a.C. – 39 d.C. Heródes Antipas, tetrarca da Galileia.

6 – 41 d.C. Judeia torna-se província romana governada por um procurador.

6 Quirino Legado Romano na Síria e nascimento de Paulo, em Tarso (S. Paulo).

14, 19 de agosto, morte do imperador Augusto.

14-37 Tibério imperador romano.

15-26 Valério Grato prefeito da Judéia

26-36 Pônico Pilatus prefeito da Judéia

27-28 Pregação de João Batista e ministério de Jesus

30 Crucificação de Jesus.

34/37 Lapidação de Estévão e conversão de Paulo de Tarso.

36 Retirada de Pôncio Pilatus para Roma.

37-41 Calígula imperador romano.

41-54 Cláudio imperador romano.

41-44 Herodes Agripa rei da Judéia.

44-66 Judéia como província romana.

45-52, primeiras missões de Paulo de Tarso.


54

64, 19 de julho, incêndio de Roma e perseguição dos cristãos.

65-67 martírio de Pedro e Paulo em Roma.

66 revolta judaica na Palestina.

70 escrita do Evangelho de Marcos e destruição de Jerusalém por Tito, assim como

incêndio do Templo de Jerusalém. A Judeia torna-se província romana.

80-90 escrita dos evangelhos de Mateus e Lucas e do Atos dos Apóstolos.

90 Evangelho de João.

95 Apocalipse.
55

Bibliografia

Barrera, J. T. A Bíblia Judaica e A Bíblia Cristã. Introdução à História da Bíblia.

Petrópolis: Vozes, 1996, p. 276.

Brown, R E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.

Cavalcante, R.; Chevitarese, A. L. Jesus. São Paulo, Abril, 2003.

Chevitarese, A.L.; Cornelli, G.; Selvatici, M. Jesus de Nazaré, uma outra História. São

Paulo, Annablume/FAPSP, 2006.

Chevitarese, A.L.; Cornelli, G. Judaísmo, Cristianismo e Helenismo. São Paulo,

Annablume/Fapesp, 2007.

Crossan, D. O Jesus Histórico. Rio de Janeiro, Imago, 1994.

Ehrman, B.H. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Rio de Janeiro, Prestígio

Editorial, 2008.

Gabel, J. B. e Wheeler, C. B. A Bíblia como Literatura. Uma Introdução. São Paulo:

Loyola, 1993.

Horsley, R. Arqueologia, História e Sociedade na Galiléia. O contexto social de Jesus e

dos rabis. São Paulo, Paulus, 2000.

Horsley, R. Jesus e o Império. São Paulo, Paulus, 2004.

Meier, J. P. Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico. Rio de Janeiro: Imago,

1993.

Renan, E. Vida de Jesus. Porto, Lello e irmão, s.d.

Perrot, C. Jésus. Paris, Presses Universitaires de France, 1998.


56

Theissen, G. e Merz, A. O Jesus Histórico. Um Manual. São Paulo: Loyola, 2002.

Vermes, G. O Autêntico Evangelho de Jesus. Rio de Janeiro, Record, 2006.


57

Os Autores

André Leonardo Chevitarese

Nasci no Rio de Janeiro, graduei-me em História pela Universidade Federal do Rio de

Janeiro (1986), continuei meus estudos no mestrado em História Social pela Universidade

Federal do Rio de Janeiro (1989) e doutoramento em Ciência Social (Antropologia Social)

pela Universidade de São Paulo (1997). Atualmente sou professor doutor associado da

Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor visitante da Universidade Estadual de

Campinas, participante do programa de mestrado e doutorado da UNICAMP. Participei de

pesquisas arqueológicas na Grécia e desenvolvo estudos sobre a Antiguidade, com diversos

livros, capítulos e livros sobre o Cristianismo e o Jesus Histórico, tendo trazido ao Brasil

Dominic Crossan.

Pedro Paulo A. Funari

Nasci em São Paulo, graduei-me em História (USP 1981), segui para o mestrado em

Antropologia Social (USP 1985), doutorado em Arqueologia (USP 1990), Livre-Docência

em História (UNICAMP 1996), fui professor da Universidade Estadual Paulista

(UNESP/Assis) (1986-1992), sendo hoje Professor Titular da Universidade Estadual de

Campinas (1992 em diante), pesquisador associado da Illinois State University (Estados

Unidos) e Universitat de Barcelona (Espanha), professor, também, do Programa de Pós-


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Graduação em Arqueologia da Universidade de São Paulo. Atuo, ainda, como pesquisador

do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam/Unicamp) e no doutorado em

Ambiente e Sociedade. Lidero Grupo de Pesquisa do CNPq, sediado na UNICAMP.

Organizei o livro Religiões que o mundo esqueceu (São Paulo, Contexto, 2009) e publiquei

diversos artigos relativos às religiões e à religiosidade no mundo antigo.

Imagens

Mapa da Palestina, à época de Jesus

(The Gospel According to Mark, commentary by C.F.D. Moule, Cambridge, Cambridge

University Press, p. X; ou Geza Vermes, The Passion, Londres, Penguin, 2005, fig. 1)

Planta de Jerusalém, à época de Jesus

(Vangelo Secondo Marco, a cura di Piero Rossano, Milão, BUR, 1984, p. 11 ou Geza

Vermes, The Passion, Londres, Penguin, 2005, fig. 2)

Manuscrito do Mar Morto

(Millar Burrows, The Dead Sea Scrolls, Nova Iorque, Viking, 1956, plate IV).

Escavações em Qumran

(Millar Burrows, The Dead Sea Scrolls, Nova Iorque, Viking, 1956, plate V).

Manuscrito do Evangelho de Mateus, do século III d.C.


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(Linda Woodhead, Christianity, Oxford, Oxford University Press, 2004, p. 8)

Inscrição de Pôncio Pilatus

(http://www.sacred-destinations.com/israel/images/caesarea/pontius-pilate-inscription2-cc-

heatkernel.jpg us)

Sarcófago de Caifás

(http://www.bibliotecapleyades.net/imagenes_biblianazar/esp_bi18.jpg)

Barco da Galiléia da época de Jesus

(http://www.sacred-destinations.com/israel/images/galilee/boat/boat-c-zyzy.jpg)

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