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CONSTRUINDO UMA COMUNIDADE ESPÍRITA1 1

André Luiz Peixinho

1. Comunidade: uma Justificativa Evolucionista

Em várias culturas descreve-se a evolução como a geração e entrelaçamento de seres cada vez mais
complexos, entendidos como formas de expressão da consciência ou espírito.
A tese espírita afirma que em a natureza “tudo se encadeia do átomo ao arcanjo que inicia como
átomo”. Matéria, vida e psiquismo são manifestações da substância primordial, essência ou espírito.
A evolução usualmente também é descrita como uma emersão criativa do múltiplo ou fragmentário
para o uno ou sintético. Cada indivíduo, ser ou individuação é simultaneamente todo/parte ou uma unida-
de coletiva. Equivale a dizer que somos formados de partes menores e assim sucessivamente até o infinite-
simal e formadores de partes maiores até o infinito. A separatividade das manifestações do ser, as formas
existenciais, é mera ilusão da percepção do processo evolutivo. No ápice da evolução está Deus e experien-
ciamos a unidade cósmica ou Monismo do espírito.
No estágio humano da evolução, podemos identificar nossos avanços pelo grau de integração que
alcançamos com outros seres, constituindo formas de manifestação mais complexas: as comunidades. Daí a
necessidade de pertencimento que sentimos em nossas vidas. Isto não exime a pessoa de manter sua iden-
tidade própria, sua autonomia e sua ação singular, sua capacidade de manter a sua totalidade.
O Espiritismo, no seu livro genético O Livro dos Espíritos, nos remete ao caráter evolutivo do grega-
rismo humano ao afirmar que “nenhum homem dispõe de faculdades completas e é pela união social que
eles se completam uns aos outros, na lei de Sociedade...”. E afirma na Lei do Progresso: O homem desen-
volve por si mesmo, naturalmente, mas nem todos progridem ao mesmo tempo e da mesma maneira; é
então que os mais adiantados ajudam os outros a progredir, pelo contato social. Historicamente o movi-
mento espírita tem pugnado pela unificação, principiando pela união dos espíritas.

2. Comunidade: Conceito e Caracterização

Comunidade é um vocábulo polissêmico que aparece tanto na ecologia para caracterizar as bioce-
noses como na sociologia,para designar agregar grupos de pessoas que compartilham algo em comum,
como sua história, área geográfica ou práticas comuns. Esta palavra significa que muitos formam uma uni-
dade, e esta pressupõe união ou comunhão.
Há dimensões existenciais práticas no relacionamento entre pessoas que são decisivas para que a
comunidade tenha alguma credibilidade. Podemos avaliar isto tomando como base alguns indicadores,
como: coesão de ideias, capacidade de comunicação, vínculo afetivo e propriedade.

2.1. Coesão de ideias

Expressa-se na aptidão para pensar juntamente com os outros, para saber partilhar tarefas, para
elaborar em conjunto projetos, para fazer juízos similares sobre a realidade, para determinar formas parti-
cipativas de proceder no seio da comunidade, para valorizar os recursos de todos. Assim se formam círculos
de pensamento que admitem um paradigma norteador de suas decisões, evitando gastos de tempo em

1
A partir de escritos inéditos do mesmo autor, o presente texto foi refundido com o objetivo de ser integrado à fun-
damentação de uma conferência-padrão, programada para ocorrer durante os Encontros Macrorregionais de Salvador
e Região Metropolitana. A justificativa e os objetivos desta conferência, bem como outros subsídios pedagógicos,
encontram-se no anexo, no final do texto. Colaboraram Jéssica Plácido e Creuza Lage.
análises de premissas. Uma comunidade só pode ser construída por sujeitos responsáveis e participativos.
Daí a necessidade de criar condições para uma participação corresponsável, adulta, comprometida, em 2
consonância com a maturidade do conjunto e sob o horizonte da indispensável liberdade de consciência.
Saber ouvir as pessoas, estar atento às experiências reais dos participantes nas suas múltiplas circunstân-
cias de vida, captando os seus sentimentos, opiniões e reações face às decisões tomadas, caminhando em
conjunto na busca comum da verdade, são competências que vão estabelecer um clima de confiança mú-
tua, indispensável à realização de tarefas para alcançar os objetivos colimados.

2.2. Capacidade de comunicação

Não há comunhão nem construção de comunidade sem uma comunicação ampla e constante. Esta
é uma questão crucial que envolve a existência e circulação de uma informação clara e suficiente, como
pressuposto mínimo indispensável para estabelecer uma cultura de diálogo, de colaboração e de participa-
ção. Valores humanos básicos deverão ser cultivados, tais como o respeito profundo pela verdade, a coe-
rência de atitudes, o sentido de honestidade, a responsabilização pela palavra dada, a observância de com-
portamentos éticos elementares. Reconhecer o valor da pluralidade, abrir o espaço indispensável à criativi-
dade de pessoas e grupos, estimular caminhos próprios de iniciativa sem querer controlar tudo de ante-
mão, dar tempo a que as novas iniciativas amadureçam e manifestem as suas potencialidades, são atitudes
facilitadoras para a criação de um clima de pertencimento na comunidade.

2.3. Vínculo afetivo

Manifesta-se na sensibilidade relativamente ao Outro e seus valores fundamentais e constrói-se


com o reconhecimento e afirmação incondicional da dignidade da pessoa humana e sua inviolabilidade. A
comunidade só se configura como espaço de verdadeira fraternidade se emergir, consistente e coerente-
mente, como lugar de aceitação acolhedora de uns pelos outros, em que um ambiente de relacionamento
aberto e de acolhimento mútuo possibilite a experiência real das pessoas na sua vida interna. É de impor-
tância decisiva que a comunidade tenha consciência de que só através do serviço e do amor fraternos, da
capacidade de solicitude para com as pessoas em dificuldade, ela encontra a sua plena significação e sua
mais visível eficácia, o que significa autêntica vivência.

2.4. Propriedades

A formação de uma comunidade exige que seus participantes partilhem seus bens em benefício do
coletivo. Deste modo, constroem a consciência das necessidades comuns, do modo comum de supri-las, e
identificam as singulares pelo princípio da equidade. Deste modo estabelece-se um padrão mínimo de ne-
cessidades para todos, que deve ser suprido pelo coletivo. Atende-se a todos pelo princípio da equidade,
que permite investir mais em quem tem maiores demandas para atingir o padrão mínimo. E investe-se mais
em quem possui outras necessidades em função dos papéis sociais que desempenha na comunidade. Por
evolução, progressivamente, renuncia-se livremente ao controle pessoal de bens materiais para tornar-se
apto a alcançar novos bens.

3. Da Necessidade de uma Comunidade Espírita

Existem vários conceitos sobre comunidade que exprimem, por sua vez, uma complexidade de per-
cepções inerente ao grau evolutivo do grupo social em que se instala. Em um grupo social cuja percepção
dominante é a sensorial, a comunidade construída será possivelmente hedonista; a dominância do racional
materialista possibilitará o surgimento da comunidade consumista, competitiva. Uma mundividência espiri-
tualista por certo investirá na construção de uma comunidade espiritualizada. A nossa procura é o que ca-
racteriza uma comunidade espírita e como construí-la.
Para uma comunidade se denominar de espírita, deve ter como princípios fundantes aqueles da
primeira comunidade cristã – a Casa do Caminho – subsidiados e esclarecidos pelos postulados da Doutrina 3
Espírita, que funcionarão como eixos estruturantes do pensar as relações e as ações comunitárias.
Um primeiro pensar na construção de uma comunidade espírita é a unidade a partir da reflexão so-
bre o que temos em comum. A resposta óbvia é a opção consciente pela Doutrina Espírita, ou seja, ser espí-
rita, assumindo as consequências da nossa escolha. Assim, a unidade vai ser identificada em nossa condição
de Espíritos imortais, de filhos de Deus, submissos às Suas leis, com possibilidades evolutivas idênticas e
aproveitamento particular. Na comunidade isto se expressa concretamente em um senso de complementa-
ridade. Uma atitude que há de se manifestar, por exemplo, no sentido de uma pertença comum, na preo-
cupação de uns pelos outros, na capacidade de diálogo e de correção fraternos, na tolerância das legítimas
diferenças, na disponibilidade para a partilha de bens espirituais e de recursos materiais. A diversidade nos
une e nos remete ao sentido de interdependência.
Uma segunda reflexão para tal construção é perceber que o ser humano não prescinde, para se de-
senvolver, da convivência com seus semelhantes, sob pena de se estiolarem suas qualidades. Daí a imperi-
osa necessidade gregária que ajudou a viabilizar a civilização. Mas, praticamente, toda ela está centrada
numa visão de mundo que coloca o homem na perspectiva de ser para a morte, lutando bravamente para
adiá-la, permanentemente ameaçado e em contínua competição. Afinal, só se percebe sua finitude corpó-
rea. O tempo é o algoz de seus sonhos e esperanças. Tudo acontece no intervalo entre a gênese e o desa-
parecimento do corpo. Mesmo aqueles que acreditam na vida pós-morte procedem na experiência cotidia-
na como se este saber pouca ou nenhuma influência tivesse no modo de se inserir na sua vida social. Assim,
os valores da vida são concentrados em assegurar a sobrevivência. E que mais perdure no mundo quem
conseguir melhor adaptação, diria qualquer descendente intelectual de Charles Darwin.
É natural que assim aconteça, seja porque a visão de mundo não inclui, no seu eixo estruturante,
uma perspectiva atemporal ou permanente, seja porque os indivíduos não alcançaram uma consciência
transcendental sobre si mesmos.
A proposta espírita é desafiadora para a organização comunitária. Ao nos colocarmos frente a fren-
te com a nossa realidade essencial como espíritos, nos conclama a rever nossa postura mundana, mesmo
que, para tanto, fiquemos na contracorrente dos valores sociais vigentes. Nossos propósitos devem estar
bem vinculados aos processos de realização do espírito em sua gama de manifestações evolutivas. Con-
quanto sobreviver seja parte de nossas obrigações espirituais, não podemos nos restringir e nos deixar
guiar por este aspecto da vida. Afinal de contas, por maior que seja a longevidade física, ela tem um ponto
final. E em múltiplos corpos, continuaremos nossa saga evolutiva. Por isso mesmo, enquanto sobrevivemos,
necessitamos aspirar e realizar sonhos que transcendam a vida corporal. E eles são de natureza espiritu-
al.Como estamos com uma consciência muito restrita, precisamos ampliá-la com o aval de indivíduos mais
avançados, sejam guias espirituais ou pessoas mais experientes, a fim de quebrarmos o ciclo vicioso de
lutar para sobreviver e sobreviver para lutar. E reforçarmos esta busca com a companhia de pessoas inte-
ressadas em dar passos similares na realização de objetivos eternos. Daí a necessidade de uma comunidade
espiritual.
A terceira reflexão constata que, embora o movimento espírita já tenha uma grande aceitação so-
cial e uma vasta rede de instituições representativas, percebemos que ele carece de um maior aprofunda-
mento nesta questão. Se existem comunidades espirituais, elas passam despercebidas no mundo físico e
delas não temos notícias. Em nossa observação, os espíritas nos reunimos para permutar informações espi-
rituais, organizar serviços de cuidados para terceiros, administrar instituições, divulgar o saber espírita e
realizar pesquisas, tarefas de grande valia, mas que não preenchem os critérios de uma organização em
comunidade centrada no desenvolvimento espiritual em grupo. Não temos o hábito de desenharmos nosso
projeto de vida, sucessos e obstáculos, em partilhas de experiências. Guardamos muita semelhança com
servidores de uma repartição pública que exercem um papel social, relacionam-se através dele, mas cada
um continua um ilustre desconhecido em matéria de subjetividade. Um reflexo deste jeito de ser é a inexis-
tência de relatos autobiográficos sobre as experiências de crescimento. Ao influxo do “conhece-te a ti
mesmo”, de difusão desde a Grécia, praticamos nossa reforma íntima, solitariamente, sem outros recursos
que os decorrentes de nossa própria competência. Não nos apropriamos do enorme valor das presenças de
outras vidas em nossas vidas espirituais. No máximo, nos reunimos episodicamente com alguns achegados
para falar de nossas dificuldades em épocas de crise existencial. 4
Parece-nos que mais uma vez não nos tornamos conscientes das oportunidades que o saber espíri-
ta nos abre, entre as quais está a compreensão de que asceses isoladas são de difícil execução, e, mais tar-
de ou mais cedo, deveremos exercitar a integração com base na amorosidade. Interessante é verificar que
muitos livros mediúnicos trazem relatos da existência de comunidades centradas no desenvolvimento do
espírito, mas a quase totalidade dos espíritas não as enxergamos como possibilidades de realização no
mundo corporal.
Se quisermos inspirar a transformação social, precisamos exemplificar convincentemente. Relatos
individuais, por mais ricos que sejam, carregam o estigma da dificuldade de generalizações. E, para tanto, é
preciso agregar os profitentes espíritas num projeto viável com foco no espírito e capaz de resolver com um
mínimo de segurança as demandas terrestres.
Talvez esta seja a mais complexa tarefa de que o movimento espírita deva se ocupar, como forma
de demonstrar que sua proposta não é alienante em relação ao mundo e de serventia duvidosa, pois fada-
da a frutificar apenas numa vida após a morte.

4. Indicadores do Evangelho na Formação de uma Comunidade Espírita

Os aspirantes espirituais, ao participarem de um projeto evolutivo em comunidade, devem estar


atentos a alguns indicadores que definirão, com justeza, seu envolvimento com os objetivos traçados.
Para a nossa cultura ocidental, arquetipicamente constituída em bases judaico-cristãs, e tendo o
Espiritismo adotado Jesus como modelo de perfeição para o homem, é natural que tomemos o Evangelho
como inspirador na escolha dos indicadores.
Em primeiro lugar, os aspirantes em foco observarão o grau de aderência à máxima “buscai o reino
dos céus e sua justiça e tudo o mais vos será acrescentado”. Ela nos parece o horizonte visível de nossa
realização espiritual. É também a revelação do nosso vínculo com a dimensão transcendental. Sua proposta
é, claramente, tornar secundária, embora continue valiosa, nossa atenção às questões de sobrevivência. A
experiência humana normalmente subordina a Lei de Deus à vontade pessoal e trata de resolver as dificul-
dades materiais através da previdência humana, como se elas não fossem conectadas com o espiritual. Esta
inversão impede-nos de enxergar soluções a partir de uma livre entrega à Providência Divina. Nosso poder
pessoal é muito pequeno, quando comparado com a Vontade Suprema.
Outro indicador essencial é o grau de desenvolvimento de nossa amorosidade. Sendo o amor a
energia primordial de unificação impulsionadora da integração, é essencial que observemos como ele se
manifesta em nossas vidas, principalmente no aspecto da inclusividade, do desapego e da não ofensibilida-
de. Embora estejamos longe do exercício pleno do “amai os vossos inimigos”, como é fácil constatar, pode-
remos, na fase inicial de nosso experimento, traçar uma linha de base do nosso estágio de desenvolvimento
amoroso. Assim, os resultados de nossos esforços serão facilmente observáveis, norteando condutas futu-
ras.
O terceiro indicador relaciona-se com a capacidade de ser aquele que serve. Numa cultura que va-
loriza o poder sobre outra pessoa, e o coloca como sucesso, será importante verificar, de saída, o grau de
despojamento em que nos encontramos, nesse sentido. A título de referência, deveremos lembrar a máxi-
ma: o maior no reino dos céus é o servo de todos. Não se trata de colocarmos a submissão ao outro como
suprema realização, mas sintonizarmos com os desígnios de Deus e nos dispormos a auxiliá-lo como cocria-
dores da Sua manifestação. Além disso, este é o parâmetro para sabermos nosso grau de liberdade interior,
de impassibilidade e de aceitação das diferenças, conquistas naturais do processo evolutivo.
Um mais exigente indicador é nos situarmos quanto ao grau de perfeição que já alcançamos em re-
lação a Deus. Sua relevância pode ser evidenciada ao tentarmos praticar o ensinamento evangélico que nos
manda ser perfeito como é o Pai Celestial.
Sabemos que a condição humana já é uma limitação para realizarmos tal propósito. Isto não nos
impede, entretanto, de estabelecermos uma referência em termos de perfeição possível em nossa existên-
cia, conforme as condições atuais da consciência. Admitimos que em cada estágio evolutivohá um padrão
ou modelo de referência para nossas manifestações. Assim, desenvolveremos a perfeição nas coisas trivi- 5
ais, nos eventos efêmeros, na experiência do cotidiano. Este indicador poderá, deste modo, ser utilizado
em tudo que possamos fazer.
O quinto indicador poderá ser usado com o passar do tempo. Trata-se da capacidade de renunciar.
Ele está muito bem explicitado no diálogo de Jesus com o mancebo rico e pode ser traduzido como a medi-
da da competência em nos desvincularmos das conquistas do passado para realizarmos as aspirações do
futuro, em termos de evolução. Generalizada, sua aplicação poderá nos dizer a quantas anda a nossa de-
pendência em relação ao impermanente e sinalizar sobre necessidades de desapego. Vale lembrar que a
renúncia neste caso é a permuta do menos pelo mais. Exige porém, previamente, o “abandono” do primei-
ro para entrar-se na posse do segundo. É a perda que antecede o ganho. Desafia, assim, nossa aparente e
transitória segurança.
Mais um indicador importante está na aceitação da palavra de Jesus, quanto a nossa potencialidade
e nossa crença sobre nós mesmos, ao afirmar que aquele que possuísse fé do tamanho de um grão de mos-
tarda teria condições de realizar os seus feitos e mais ainda. Como a fé, síntese psíquica da intuição e do
sentimento, é a garantia de acesso ao nosso superconsciente, aos estados mais transcendentais e ao ma-
nuseio de segredos da natureza, podemos tomar os resultados das observações pessoais como parâmetro
das nossas condições de realização de nossas potencialidades. Além disso, será possível desenvolver a fé
como nos ensinam mestres da espiritualidade.
Estudando o Evangelho, poderemos identificar muitos outros ensinos passíveis de serem transfor-
mados em indicadores da nossa condição espiritual. As parábolas, em especial, são fontes muito ricas para
realizar este mister.
O aspirante espiritual deverá levar em consideração uma característica dos indicadores. Eles não
afirmam se estamos bem ou mal. Apenas nos situam em relação à distância de nossos objetivos. Ressalte-
se que, entre os ensinos evangélicos, há explícita proibição aos julgamentos, por serem falhos, inúteis e
perniciosos.
Embasados no que nos chegou de relevante do pensamento do Cristo, tratando das “coisas do espí-
rito,” teremos mais chance de obter sucesso na proposta de construção de uma comunidade espiritual.
Maior certeza da validade destes indicadores teremos, se passarmos da aspiração e do seu desenho teóri-
co, para a experimentação.

5. Um Exemplo de Comunidade Evangélica

Uma comunidade espírita é uma comunidade cristã, uma vez que os seus fundamentos encontram
apoio no Evangelho. O evangelista Lucas apresenta, em Atos dos Apóstolos, o modelo de uma comunidade
cristã:“E da comunidade dos que creram, o coração era um e a alma uma, e nenhum deles dizia que coisa
alguma das que possuía era sua própria, mas tudo entre eles era comum”2.
Essa comunhão abrangente, do pão material às necessidades do espírito, está presente em outras
passagens do texto evangélico: “Perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e
nas orações”; “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que
alguém tinha necessidade.”3
Cairbar Schutel observa que “o testemunho que [os partícipes da comunidade cristã] davam de sua
fé, da obediência severa aos preceitos de Cristo, tornava-os respeitados e até temidos, devido às maravi-
lhas que se iam verificando”. Essas manifestações transcendentes se devem, segundo o autor, à união que
os caracterizava, haja vista que essa solidariedade fraterna “constituía uma contribuição forte para que o
poder de Deus se manifestasse por meio deles.”4

2
Atos dos Apóstolos, 4:32.
3
Id., cap. 2, passim.
4
SCHUTEL, Cairbar. Vida e Atos dos Apóstolos. 1.ed. Matão: O Clarim,passim.
Na comunidade dos primeiros cristãos, a crença e a perseverança na doutrina dos apóstolos – ver-
dadeiros representantes de Jesus – lhes fortaleciam o coração e a alma, unindo-os na tarefa de “salvação” 6
daqueles que lhes eram acrescentados. Por sua vez o partilhar o pão dava-lhes a alegria, e a singeleza de
coração lhes fortalecia o poder espiritual e a abundante graça.
Ter tudo em comum significa compartilhar. Os cientistas sociais afirmam que o compartilhamento
cria vínculos e os vínculos facilitam o compartilhamento e criam coisas compartilhadas. Entendendo-se
comunhão como relação e ação, a relação social, numa comunidade, é uma conduta de indivíduos, recipro-
camente orientada e dotada de sentido e partilhada pelos seus participantes. Assim, compartilhar a crença,
o pão e as posses, fortalecia o vínculo entre eles, numa relação social onde não existiam necessitados.
Os convertidos tinham também em comum os testemunhos de fé, a obediência severa aos precei-
tos do Cristo e a união e solidariedade fraterna que os tornavam respeitados na sociedade em que viviam e
que constituíam uma forte contribuição para que o poder de Deus se manifestasse por meio deles.
A comunidade dos convertidos da Casa do Caminho teve também em comum a “obediência seve-
ra” aos postulados da Doutrina, expressa na prática dos seus fundamentos. Os testemunhos de fé, por sua
vez, definem-se pelo comportamento diante das dificuldades evolutivas. A união e a solidariedade fraterna
fundamentaram-se na vivência diária dos ensinamentos de Jesus. Lembremos, reiterando Schutel, que a
manifestação dessas qualidades tornou a comunidade respeitada na sociedade dos encarnados e dos de-
sencarnados e “uma forte contribuição para que o poder de Deus se manifeste”.

6. A Estruturação da Comunidade Espírita

Com base nas reflexões anteriores, a constituição de uma comunidade espiritual em bases espíri-
tas, em síntese, deverá incorporar seus pressupostos filosóficos, especialmente sua ética. Deveremos ter
como referência a diversidade de níveis evolutivos e, portanto, de percepção espiritual; o livre-arbítrio co-
mo norteador das decisões pessoais; a predisposição ao cultivo da amorosidade como argamassa nas rela-
ções interpessoais e, é claro, a unidade de princípios e objetivos na diversidade de formas de organização.
Um roteiro mínimo de passos a serem dados pode ser o seguinte:

(i) identificação de adeptos do Espiritismo com interesse na partilha de suas experiências de de-
senvolvimento humano: Em uma fase inicial, poderemos divulgar a relevância do autoconheci-
mento ou reforma íntima em seminários e vivências de curta duração e reconhecermos as pes-
soas motivadas para tal empreendimento;

(ii) a seguir, poderemos formar grupos com base no nível de conhecimento espírita e disposição
para aprofundamento geral de conceitos, formando núcleos de cultura; assim procedendo, es-
tamos em consonância com as informações espíritas que afirmam ser o progresso intelectual
antecedente ao desenvolvimento moral e, em certo sentido, sua causa;

(iii) desse núcleo cultural, deverão emergir grupos afins, formados por voluntários dispostos a uma
investigação mais profunda de si mesmos e de seu transformismo evolutivo, de forma compar-
tilhada. Em se tratando de um trabalho que supõe uma certa exposição pessoal, tais grupos se-
rão de pequeno porte, envolvendo, por exemplo, 12 a 20 pessoas, com compromisso de cons-
tância e de silêncio sobre os depoimentos e as ocorrências pessoais.

Tais grupos aproveitarão a experiência individual e se beneficiarão de leituras espíritas e comple-


mentares para construir seu modo de funcionamento, sempre se referenciando nos objetivos gerais da
evolução. Assim, será possível um diagnóstico multidimensional do estágio da consciência individual e gru-
pal, a identificação de estratégias de desenvolvimento e a realização de avaliações futuras. Tanto quanto
possível, deverá haver espaço para o sopro inspirativo de espíritos orientadores e depoimentos dos que
realizam projetos similares no mundo espiritual. 7
Para o efetivo funcionamento do grupo, é preciso um trabalho preliminar de nivelamento de cons-
ciência, em que se desenvolva a capacidade de avaliação não julgadora, a superação do medo inicial de
exposição, a aprendizagem com flexibilidade na vivência de diferentes formas de trabalho e a identificação
e aceitação da existência de lideranças emergentes. A linguagem proativa deverá ser adotada como forma
de comunicação comum.
A posteriori, com o aprimoramento das atividades e reconhecimento de talentos, cada grupo pro-
gramará como exercitar cotidianamente suas experiências, envolvendo a família, o trabalho e o lazer, de
modo a colocar a noção de espírito e suas manifestações evolutivas em sua vida diária.
Adicionalmente, programará encontros espirituais nos horários de sono, através de estímulos como
a técnica de sonho lúcido, aproveitando o ensejo para maiores aprendizagens.
O reconhecimento de talentos entre os membros de um mesmo, ou de diferentes grupos, para faci-
litar o progresso individual em suas variadas dimensões, poderá fazer eclodir diversas atividades específicas
para o aprimoramento da mente, do corpo, dos valores, das emoções, da percepção anímica e palingenési-
ca, etc.
Com o fluir do tempo, é possível que a criatividade dos grupos construa novas formas de interação,
abrangendo aspectos dos cuidados da vida biológica, do nascimento à morte, da solução dos problemas
econômicos, da reordenação de práticas profissionais e da influência nos destinos sociais, ampliando o
espectro de atuação e estreitando os laços de convivência. Isto sem violar o princípio básico de livre esco-
lha e de não exigência.
Estes trabalhos de autoeducação poderão ser objeto de registro pessoal e grupal e, quando consta-
tada a pertinência, sistematizado e divulgado, obedecidas as normas éticas vigentes.
Periodicamente, os grupos se reunirão para permutar suas experiências e construir atividades cole-
tivas mais abrangentes.
O sucesso desta proposta depende fundamentalmente da clareza do objetivo primacial: uma real
tomada de consciência da natureza íntima do ser, a individualidade, ou espírito. E, como tal, manifestação
de Deus, o Criador. Esta essência por origem é a expressão potencial da sabedoria, da bem-aventurança e
da criatividade, desvelando-se na espiral da evolução. Este objetivo deve ser cláusula pétrea da constitui-
ção dos grupos. As formas de atuação, de decisão e de comportamento serão tão flexíveis quanto possível,
desde que assegurem a existência dos grupos.
Uma atitude facilitadora na arte de viver tal experiência é recordar, como afirma Wilber, que nin-
guém é tão esperto, a ponto de estar cem por cento errado o tempo todo. Portanto, há sempre verdades
no outro que podemos compartilhar.
Após a formação dos grupos e definição da periodicidade de encontros, usualmente semanais ou
quinzenais, passa-se a se definir o que fazer imediato. O primeiro passo é pactuar a realização de um estu-
do sobre cada participante, que pode ser tão simples como escutar seus depoimentos sobre si mesmo,
tendo como referência a ideia de evolução. Assim, perceberemos progressivamente o estágio de desenvol-
vimento espiritual do grupo. Existirão discrepâncias para mais e para menos, muito naturais, pois não te-
mos homogeneidade em matéria de maturidade psíquica. A diversidade poderá ser bem aproveitada como
enriquecedora, pois quem já ultrapassou um certo nível de evolução guiará o outro com suas experiências.
E como podemos estar mais adiantados em uma dimensão do que em outras, então seremos ora “apren-
dentes”, ora “ensinantes”. Isto impedirá a existência de evoluídos inibidores ou atrasados depreciados.
Tais depoimentos deverão ter o compromisso de falar na primeira pessoa, pois é muito comum
usarmos o plural de modéstia, e demais designações para outros, evitando linguisticamente o comprome-
timento pessoal. Claro que tal atitude é um começo de desvelar-se, já que, em geral, temos medo de dizer
quem somos.
Este estudo personalizado pode ser tão complexo que envolva a construção de uma cartografia
multidimensional evolutiva de cada participante e do grupo. Assim, poderão ser realizadas algumas vivên-
cias com técnicas não verbais para reconhecermos o nosso grau de desenvolvimento emocional, valorativo,
relacional, corporal, mental, etc., traçando, cada um, seu referencial atual quanto ao estágio de desenvol-
vimento em cada dimensão. Também poderemos guardar alguns momentos para observações em estados
alterados de consciência, como o devaneio e a meditação, e permitirmos a influência inspiradora de espíri-
tos orientadores. Tudo depende dos talentos e experiências prévias dos envolvidos. Eventualmente, poderá 8
se convidar alguém que facilite esta fase diagnóstica.
Não é necessário, entretanto, esperar a totalidade das percepções sobre si mesmo e do grupo para
se passar a uma segunda fase: a identificação de procedimentos, tanto internos como externos, para deli-
nearmos o mapa de aspirações. Afinal, se não sabemos qual o nosso destino, o vir a ser, não poderemos
atuar com eficiência.
Assim, utilizando tanto dos depoimentos como das técnicas possíveis, vamos construindo o imagi-
nário do nosso futuro, que pode ser descrito, intuído ou sentido.
Importante é que ele seja consistente em apresentar diferenças significativas entre o presente e o
futuro.
Numa terceira etapa, passamos ao trabalho principal: reconhecer nosso modelo de transformismo
evolutivo, derivando daí suas práticas e comportamentos desejáveis; a seguir, utilizando-se da nossa von-
tade, agirmos na direção e sentido previamente definidos pelo imaginário do futuro. Ao mesmo tempo,
passamos a atentar para mudanças que ocorrem sem planejamento consciente, muitas delas operadas
subliminarmente ou influenciadas pela vida onírica.
À medida que o grupo se familiariza, seus participantes podem se tornar mais competentes em
ajuda mútua. Às vezes, poderemos dedicar a maior parte do tempo auxiliando a mudança evolutiva de um
único participante, e tal atitude pode ser simultaneamente um exercício de solidariedade e descentração.
Os aportes culturais biográficos, os indicadores evangélicos e os princípios gerais do Espiritismo de-
verão ser utilizados frequentemente para enriquecer a atividade.
Devemos tomar um cuidado especial acerca de nossa conduta, quanto ao autoengano. Nossas ob-
servações podem estar contaminadas pelo viés da supervalorização ou do subdimensionamento, tanto de
qualidades como problemas. Como já advertia Santo Agostinho, autor de um grande estudo sobre si mes-
mo intitulado Confissões, é possível confundir ser avarento com econômico, perdulário com generoso e
vice-versa. Um antídoto contra este engano é realizar as observações em estado de prece ou meditação,
retrospectivamente, já que nestas condições alcançamos a mais refinada postura investigativa.
Um mais exigente cuidado devemos ter, ao receber as observações dos demais participantes, pois,
a depender da parte psíquica predominante no momento, podemos cometer os mesmos equívocos da
situação anterior. Nada aparentemente tão parecido com uma conduta evoluída como certas atitudes atra-
sadas e vice-versa, quando vistas superficialmente. São as falácias tão ao gosto das mentes argumentado-
ras.
Exercitar a cautela diante dos relatos que envolvem terceiros também é uma atitude fundamental
para o sucesso do grupo, já que nada do que se diz é a pura realidade. Toda ela vem embalada pela condi-
ção evolutiva do apresentador e pela maturidade receptiva do ouvinte. Quem fala dos outros coloca uma
parte de si mesmo no seu discurso, e quem ouve escuta conforme sua capacidade. O importante é refinar a
auto-observação em cada instante, a partir das informações circulantes.

7. Da Comunhão de Bens e Tarefas

Assim que o grupo estiver estabilizado, inventará seus próprios caminhos em termos de atribuições
fora do local de reunião e recriará suas interações, visando enriquecer seu sistema de contribuições ao
desenvolvimento dos participantes, inclusive estendendo-as às questões do cotidiano.
Por já termos razoável experiência em atendimentos espirituais e uso dos nossos potenciais psíqui-
cos, podemos começar a ampliar nossas vivências comunitárias através do uso desta experiência em bene-
fício dos membros do grupo. São exemplos de atividades: realização de momentos de oração em horário
combinado para um determinado membro durante uma semana no lugar em que estivermos; planejamen-
to e execução de visitas espirituais a lares de participantes durante o sono e realização de momentos evan-
gélicos em estado de vigília; atendimento espiritual na instituição por demanda explícita do membro da
comunidade.
A seguir podemos organizar atividades coletivas de aproximação das pessoas espíritas como seres
existenciais singulares, com base nas necessidades humanas, tais como retiros, caminhadas e viagens turís- 9
tico-espirituais. No plano material, poderemos adquirir ganhos através de compras coletivas de bens e ser-
viços, descontos em empresas para a comunidade, troca de serviços, aprimoramentos para ampliar a em-
pregabilidade, ou criação de cooperativas de crédito para aquisição de bens essenciais. Também podere-
mos constituir redes de ajuda mútua a membros do grupo em situação de vulnerabilidade como idosos,
hospitalizados, adolescentes em dificuldades, etc...
Progressivamente, uma comunidade em ascese descobrirá novas formas de percepção, mais pro-
fundas verdades, belezas e bondades, até desvelar para si e para o mundo a Realidade última no interior de
cada participante e no psiquismo coletivo instaurado. Então, compreenderá que valeu a pena se ter dedi-
cado à ingente tarefa de realizar a viagem em busca da grande unificação em Deus.
Não mais haverá o tempo, quiçá o humano. Tudo, porém, terá sido conscientizado no tempo e no
humano.

ANEXO: ORIENTAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DA CONFERÊNCIA “CONSTRUINDO UMA


COMUNIDADE CRISTÔ E PARA A ATIVIDADE DIDÁTICA SOBRE O MESMO TEMA

Conforme orientado em reunião sobre os Encontros Macrorregionais, edição 2016, realizada em 4


de junho de 2016, na sede central da FEEB, seguem as orientações para a estruturação da palestra a ser
realizada nos polos.

Duração: Cerca de 50 minutos.

Público-Alvo: Participantes dos Encontros Macrorregionais 2016.

Justificativa

O tema Construindo uma Comunidade Cristã tem como fundamento a lei das unidades co-
letivas, um dos aspectos da Lei da Evolução, que aponta para a necessidade de crescimento em
conjunto, que por sua vez constitui um modo de ascese para Deus.
Nos polos de Salvador e Região Metropolitana, por ocasião dos EMR 2016, a tradicional pa-
lestra terá como tema Construindo uma Comunidade Cristã, em substituição ao tema Em Busca de
Deus, já trabalhado nos meses precedentes. A noção de Comunidade Cristã reaparece nitidamente
na linha da Saúde e Promoção Social, o 2º eixo temático federativo de 2016.

Objetivo: Apresentar a noção de comunidade cristã como modelo inspirador para a instauração de
comunidades espíritas como meios de ascese divina.

Método: Predominantemente Expositivo.

Percurso Argumentativo da Conferência

Sugere-se que a palestra seja construída observando o seguinte raciocínio:

1. A integração é um importante indicador do processo evolutivo;


2. No estágio humano, a integração expressa-se pela formação de comunidades;
3. Dispomos de um exemplar ideal de comunidade, já vivido historicamente: o modelo cristão, descrito
10
explicitamente em Atos dos Apóstolos e outras passagens do Evangelho, e ratificado pela literatura es-
pírita subsidiária;
4. Ora, se o nosso propósito é reviver o cristianismo original, nada mais natural que tenhamos a comuni-
dade cristã como modelo;
5. As comunidades espíritas podem estar em diferentes níveis, sendo possível fazer delas uma escala evo-
lutiva. Com vistas ao aprimoramento constante, o adepto do Espiritismo pode observar o próprio está-
gio da comunidade em que participa, bem como a sua atuação dentro dela, mediante instrumentos de
percepção que incluem indicadores como:
a. Comunhão de pensamentos
b. Capacidade de Comunicação
c. Vínculo afetivo
d. Propriedade
e. Tomada de decisões
f. Etc.

Obs.:O maior tempo da conferência deve ser dedicado à descrição e revivescência da Comunidade Cristã dos primeiros tempos,
dado que a sua energética psíquica poderosa terá o condão de estimular o superconsciente do público-alvo, alimentando-o com as
imagens imorredouras do relato apostólico e dos informes espirituais complementares, a ele alusivos.

Recursos: Projetor Multimídia, aparelhagem de som, microfone.

ORIENTAÇÃO PARA A ATIVIDADE DIDÁTICA

Momento I – Estudo dirigido dos tópicos 1 a 3. Leitura seguida de conversação circular.


Momento II – Imaginação ativa utilizando-se do tópico 5 seguido de leitura para auto-avaliação do
tópico 4.
Momento III – Discussão da viabilidade da proposta de formação de comunidade espírita com ba-
se nos tópicos 6 e 7. Elaboração de um mapa diagnóstico situacional de cada instituição relativo ao
tema.