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FICHA DE APOIO sobre Fernando Pessoa Ortónimo

Disciplina: Português – 12.º ano

A – AS LINHAS TEMÁTICAS DE FERNANDO PESSOA

Constantemente amargurado por problemas metafísicos e existenciais que se


prendem com a uni dade/ fragmentação do “eu”, e com a explicação do mistério do ser,
Fernando Pessoa, viaj ando dentro de si, tenta encontrar respostas para as suas
inquietações. Ele é um ser solitário em eterna demanda, que não consegue encontrar
soluções absolutas e que confessa odiar o definitivo, o acabado, o concreto.
Sempre lúcido e racional, condenado ao vício de pensar, que o impede de ser feliz,
embora toda a vida tenha perse guido a felicidade, a sua obra espelha essa angústi a
existencial e, por isso, o poeta refugia -se no mundo onírico e no tempo da infância, o seu
paraíso perdido, o tempo em que, mesmo inconscientemente, era feliz.
Jacinto Prado Coelho considera que Pessoa viveu torturado pela “ fome
inextinguível de conhecer ” e que assistia “ de braços descaídos à dissolução do eu…”
A sua alma insatisfeita vive mergulhada num tédio imenso que o leva a concluir
“que náusea de vi da!”

FINGIMENTO POÉTICO

Tomando como ponto de partida os poemas Autopsicografia e Isto , facilmente se


compreenderá uma das questões que marca a produção poética de Fernando Pessoa
ortónimo: a teoria do fingimento poético.
Para Pessoa, o process o de criação poética implica uma a titude de fingimento por
parte do criador. O poeta tem, necessariamente, de fingir e isto significa imaginar,
intelectualizar os sentimentos e as emoções, uma vez que aquilo que o poeta sente tem de
ser transfigurado, trabalhado mentalmente. Fingir é model ar através de imaginação, é
simular uma emoção ou um sentimento. Assim, o primeiro verso do poema Autopsicografia
funciona como uma tese, na qual Pessoa explica que o poeta tem de inventar a realidade,
pois, só deste modo, ela adquire o caráter de arte. Es te processo de transformação da dor
sentida em dor fi ngida materializa -se através da linguagem poética.
A dor sentida, isto é, as emoções, os sentimentos experimentados e a realidade
vivida não são aquilo que ele transmite. As dores sentidas, essas ficam sempre com o
poeta, são incomunicáveis. Elas poderão servir de suporte, mas o poeta tem de as
interiorizar para construir uma nov a dor que é a que vai exprimir, aquela que ele vai
transmitir aos lei tores.
Mas estes ao lerem a composição poética, não vão experimentar nem a dor sentida
nem a dor fingida do poeta. Eles vão também construir uma dor. A dor lida não é a dor que
eles sentem, também ela tem de ser intelectualizada, embora todo o manancial de
emoções e de sentimentos de que os leitores dispõem po ssa estar na base dessa
construção mental.
Pode-se, então, conclui r que a experiência emocional é o ponto de partida para a
criação poética. Contudo, apenas quando filtradas pela razão, as emoções adquirem a sua
verdade estética.
A última es trofe remete para a dicotomia sentir -pensar, uma vez que põe em
confronto a razão e o coração. (…) O coração representa a emoção, é o que está
relacionado com o senti r, enquanto a razão se relaciona com o pensamento. (…) A razão
domina, mas precisa do coração que, ao dar-lhe os sentimentos e as emoções para serem
moldados, int electualizados, a alimenta. (…)
[O poema Isto] funciona como uma concretização das ideias apresentadas no
Autopsicografia , que constituiria uma teorização poética e como se Isto fosse uma
aplicação concreta à situação do suj eito poético. (…)
Trata-s e de um compl emento do Autpsicografia , no qual o eu lírico explica que,
quando escreve, se socorre da imaginação, banindo os sentimentos.

DOR DE PENSAR
A dor de pensar é um tema intenso e constante na obra de Fernando Pessoa, que tudo
submete à reflexão. (…)
Perfeitamente consciente de que na vida tudo passa, não consegue viver usufruindo cada
momento, pois a intelectualização de tudo o que perceciona, a consciência total da realidade
envolvente impedem-no de ser feliz. Para Pessoa, a Felicidade só existe na imaginação.
Prisioneiro do pensar, ser lúcido e inteligente, o poeta tudo questiona – quem é, porque existe
– sofre e angustia-se, pois não consegue responder às suas inquietações, às suas dúvidas, torna-se
num ser insatisfeito e daí o desejo recorrente de viver instintivamente. (…)

NOSTALGIA DA INFÂNCIA

Sempre dilacerado pela angústia que o invade, pela deceção que é a sua vida, Fernando
Pessoa tenta encontrar um refúgio que lhe dê alento e lhe permita continuar a vida mesmo sem
encontrar as respostas para as suas inquietações. Esse refúgio é o passado que ele revisita, muitas
vezes partindo de um som de um instrumento musical, de um cântico que perceciona ao longe ou
mesmo de um canto de ave que o transportam para o tempo/espaço que relembra, mas relembra como
verdadeiramente seu, isto é, como se de facto tivesse vivido (algo biográfico), mas como uma
representação atual desse tempo/espaço. (…)
A infância é o tempo da felicidade, da inocência, da “alegre inconsciência”. É o tempo de uma
felicidade que está longe e que está para sempre perdida (…).

FRAGMENTAÇÃO DO EU

(…) Fernando Pessoa debate [-se] com a incapacidade de se definir e de solucionar o enigma
da existência humana (…) vê-se irremediavelmente mergulhado num cansaço, numa náusea, num
desespero até porque se confronta com a sua finitude e com a irreversibilidade do tempo que passou e
já não volta.
Não é pois de estranhar que palavras como angústia, estranheza, cansaço, náusea, desespero
sejam recorrentes na poesia pessoana, como não é, igualmente, incompreensível que, numa tentativa
de superar todo o mal-estar que o assola, a ironia não esteja ausente no seu ato criativo, permitindo, ao
poeta, distanciar-se, alienar-se de si mesmo, enfim outrar-se.
In Preparar o Exame Nacional, Português 12. 2010. Areal Editores.

B- TÓPICOS DE ANÁLISE DE ALGUNS POEMAS DO ORTÓNIMO

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.


Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que eu sou e vejo.


Torno-me eles e não eu. b
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo


Como páginas, meu ser.
O que segue prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu"?
Deus sabe, porque o escreveu.

Delimitação do poema em partes lógicas:

Podemos encontrar no poema dois momentos significativos.

No primeiro momento (as duas primeiras estrofes), o sujeito poético


reconhece -se como um ser multifacetado, que continuamente se vai revelando,
resultando daí uma espécie de descanto consigo mesmo – “Nunca me vi nem achei”.
Este ser excessivo vai criar uma grande inquietação no sujeito poético - “Quem tem
alma não tem calma”, “Não sei sentir -me onde estou” – e, ao mesmo tempo, uma
distanciação, responsável por uma postura passiva em relação ao desf ile dos outros
eus.
O segundo momento (última estrofe), introduzido pela locução “por isso”,
constitui uma sequência relativamente ao primeiro – tentativa de conhecimento de si
próprio como se de um livro se tratasse (“…vou lendo/Como páginas, meu ser.”). O
resultado é, porém, um estranhamento, acabando por responsabilizar Deus pelo ato
de escrita que lhe pertence. Numa atitude de humildade, o sujeito poético não
atribui a si próprio o mérito do ato de criação.
Saliente -se ainda a atitude de alheam ento do sujeito poético, responsável
pelo sentimento de solidão.

Identificação dos sentimentos que dominam o sujeito poético:

Os sentimentos que dominam o sujeito poético são a angústia e a inquietação


provocados pela incapacidade de controlar as vá rias manifestações do seu “eu”. As
expressões que melhor documentam este estado de espírito são as seguintes:
“Quem tem alma não tem calma” e “Assisto à minha passagem / Diverso, móbil e
só.”.
ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços


E chama-me teu filho. Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,


Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa, - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha tão inútil,


Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,


E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Divida o poema em partes lógicas e sintetize o seu assunto.

O poema poderá ser dividido em três partes, correspondendo a primeira parte


à 1.ª estrofe, a segunda parte à 2.ª e 3.ª estrofes, e a última parte à 4.º estrofe.
Na primeira parte, o sujeito p oético assume o seu cansaço e a vontade de
abdicar da vida voluntariamente.
Na segunda parte, o sujeito poético despe -se de tudo o que simboliza a sua
vida, tudo que era “poder”, assim liberta -se de tudo que é superficial e acessório,
para se entregar de corpo e alma, e de forma purificada, na última parte do poema,
à noite, ou seja, à solidão.

Identifique a atitude do sujeito poético perante a vida.

O sujeito poético está cansado de lutar e, por isso, abdica e renuncia


voluntariamente aos símbolos da realeza, desistindo, assim, da vida. Procura na
noite refúgio e o calmante possível para o seu cansaço. O sujeito poético despoja -
se de tudo que representa a sua infelicidade e regressa/ reencontra a harmonia.

Explicite o motivo pelo qual o poeta o terá escolhido como destinatário .

A noite em Pessoa simboliza refúgio, proteção e fuga de um estado de


tristeza e desalento; “noite eterna” poderá significar morte;

Aponte no texto os aspetos que melhor contribuem para a musicalidade


do poema.

A grande musicalidade presente neste poema é conseguida através das rimas


externas (braços/ cansaços; rei/ abandonei - 1.ª estrofe) e internas (“braços lassos”),
pelas aliterações em sibilantes ( -s, -z) – “…espada pesada a braços lassos”) e
oclusivas (-t, -p) – “Toma-me ó noite eterna nos teus braços/ E chama -me…; Minha
espada pesada”, pelo encavalgamento de versos presente na primeira, segunda e
quarta estrofes).
Bibliografia consultada:
Aula Viva, Português B, 12.º ano. Porto editora.
Campos, Ângela e Fernandes, Cidália. Fernando Pessoa, Poesia em Análise. Plátano Editora.
Pais, Amélia Pinto. Para Compreender Fernando Pessoa. Areal Editores.
Plural 12. Lisboa Editora.

Quadro Síntese de Características da Poesia de Fernando Pessoa Ortónimo

Estilísticos
Temáticas

Nível Fónico Nível Semântico e Morfossintático

- Consciência do absurdo da  Musicalidade:  Linguagem simples, mas sóbria;


existência, recusa da realidade,
incapacidade de viver: - simplicidade formal;  Expressividade dos modos e
tempos verbais (predomínio do
- Oposições pensar/sentir; - versificação regular e presente do indicativo);
consciência/inconsciência; tradicional : predomínio
pensamento/ vontade; da quadra e da quintilha
esperança/desilusão  Sintaxe simples;
e do verso curto (2 a 7
sílabas);  Adjetivação expressiva;
Conduzem a:
- rima, ritmo,  Paralelismo e repetições;
 Tédio, angústia,
aliterações, assonâncias;
melancolia, desespero,
náusea, nostalgia de um  Uso de símbolos;
bem perdido, abdicação, - encavalgamento.
desistência, abulia,  Pontuação expressiva
dificuldade em distinguir (interrogações, exclamações,
sonho de realidade. reticências);

 Solidão, ceticismo  Uso de frases nominais;

 Inquietação metafísica, dor  Metáforas, comparações, imagens;


de pensar, dor de viver.
 Paradoxos, oximoros, antíteses.
Busca de superação através de:

 Evocação da infância:

- enquanto símbolo da
pureza, da inconsciência e
da felicidade ;

- saudade intelectual e
literariamente trabalhada.

 Ilusão do sonho;

 Ocultismo (procura de
correspondência entre o
visível e o invisível);
 Fingimento (enquanto
alienação de si próprio,
processo criativo e
máscara) – heteronímia.