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Educação Literária – Fernando Pessoa ortónimo

MADRUGADAS
Em toda a noite o sono não veio. Agora
Raia do fundo
Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.
Que faço eu no mundo?
5 Nada que a noite acalme ou levante a aurora,
Coisa séria ou vã

Com olhos tontos da febre vã da vigília


Vejo com horror
O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim
10 Do mundo e da dor –
Um dia igual aos outros, da eterna família
De serem assim.

Nem o símbolo ao menos vale, a significação


Da manhã que vem
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Saindo lenta da própria essência da noite que era,
Para quem,
Por tantas vezes ter sempre ‘sperado em vão,
Já nada espera.

PESSOA, Fernando (2005). Poesia 1918-1930. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 99-100.

1. Identifica e caracteriza os momentos temporais representados na primeira estrofe.


2. Comenta a expressividade da interrogação retórica “Que faço eu no mundo?” (v. 4).
3. Identifica as razões do “horror” referido no verso 8.

Tópicos de resposta:

1.
Momentos temporais:
- noite (passado recente): tempo longo, de vigília/ insónia (v. 1);
- madrugada (instante presente): “encoberta e fria” (vv. 2-3).

2.
Interrogação retórica que acentua o desespero e a angústia do sujeito poético face ao seu
lugar no mundo.

3.
Possíveis tópicos a abordar (selecionar um):
- certeza de que cada novo dia lhe traz sempre a mesma vivência decetiva (vv. 9-10);
- consciência da indiferenciação do tempo, da repetição incessante dos dias sempre iguais
(vv. 11-12);
- cansaço de “tantas vezes ter sempre ’sperado em vão” (v. 17), levando à desistência total
de qualquer tipo de esperança (vv. 16 e 18).
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