Você está na página 1de 3

Educação Literária – Fernando Pessoa ortónimo

Lê atentamente o seguinte poema de Fernando Pessoa.

Tenho tanto sentimento


Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental.
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,


Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira


E qual errada, ninguém
Não saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

18/09/1933
Fernando Pessoa, Poesias.

1. Caracteriza formalmente este poema.

2. Identifica a imagem que o sujeito poético tem de si próprio.

3. De acordo com a análise que o sujeito poético faz, indica o que há de comum entre ele e os
outros seres humanos.

4. Indica a dúvida que persiste no sujeito poético.

4.1. Transcreve os versos nos quais o sujeito poético acaba por fazer a sua opção.

5. No poema verifica-se a recorrência de um nome e de um verbo ligado lexicalmente a esse nome.

5.1. Identifica e explica a insistência no uso dessas palavras.

1
Educação Literária – Fernando Pessoa ortónimo

Cansa sentir quando se pensa.


No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste


Em que não sei quem hei-de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.


E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.


Mas noite, frio, negro sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo —
Ah, nada é isto, nada é assim!)
Fernando Pessoa, Obra Poética

Alguns tópicos de análise:

Existe uma grande insistência no campo lexical da "noite", que pode ser considerada um
espaço de guarnição de ideias e pensamentos. A noite é de onde vai surgir o dia novo, a reposição
de energias, como está evidenciado em "Noite antes do amanhecer".
No 1º verso -"Cansa sentir quando se pensa", está presente a temática pessoana associada ao
binómio sentir/pensar, a ideia de que o pensamento e o sentimento estão ligados. A dor de pensar
é provocada pela intelectualização do sentir, quando pensamos muito no que estamos a sentir,
deixamos de ter sensações e emoções puras, pois o pensar elimina o sentir, e cansa.
Neste poema, a dor de pensar resulta também da ausência de respostas, que leva o sujeito
poético a sentir-se só, numa "solidão imensa", simbolizada pela "noite", pelo "negro astral", pelo
"silêncio surdo", pelo "frio", pelo "negror sem fim" e pelo "silêncio mudo"; a incomunicabilidade de
«silêncio» é acentuada pelos adjetivos «surdo» e «mudo»; o estado de espírito triste e solitário do
poeta enquadra-se no ambiente noturno e silencioso que o poeta retrata.
O sujeito poético preocupa-se com o mistério da existência. Para ele, a vida é uma ilusão "[…]
não sei quem hei-de ser / Pesa-me o informe real que existe". A ausência de respostas provoca a
consciência da tragicidade da vida. Tal como se pode constatar pelo último verso do poema, o poeta

2
Educação Literária – Fernando Pessoa ortónimo
não pode viver sem a verdade, sem a obtenção de respostas.
Neste poema é descrita a separação da realidade do sujeito poético da sua imaginação e
sonhos, separação esta representada pelo muro. O sujeito poético encontra-se separado dos seus
desejos, que estão do outro lado do muro- “Tudo é do outro lado//No que há e no que penso.
O início do poema é marcado por um paradoxo: “Contemplo o que não vejo”. O sujeito poético
ao “imaginar” algo irreal “observa”, mas como é algo sonhado não o pode ver na realidade. O poema
termina também com um aparente paradoxo que se baseia na diferença de significados do verbo
ser e do verbo estar: o sujeito poético afirma não ser triste mas que está triste; a utilização do verbo
ser aponta uma característica do sujeito, e sendo que o poeta nega essa característica, é possível
concluir que para o sujeito a tristeza que experiencia é momentânea, expressada pelo verbo estar
(que neste caso representa apenas algo temporário). Esta tristeza não é, no entanto, sentida- “não
sinto”, mas sim resultante do raciocínio, ideia presente em vários poemas de Fernando Pessoa
ortónimo.
Apesar da existência do “muro”, a contemplação confunde o sujeito, fazendo-o duvidar o que
é real (interior do muro) do que é sonhado (exterior do muro). O poema aborda, portanto, os temas
da realidade, do sonho, da sua confusão e da supremacia do irreal, demonstrada por “Tudo é do
outro lado”.