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INTRODUÇÃO

O termo “biosfera”, criado por E. Suess1 (1831–1914) é, por Vernadsky, dotado de um


carácter mais amplo e complexo. Vernadsky, que empregou o termo pela primeira vez em 1924 no
seu ensaio A Biosfera, define “biosfera” como a compreensão da vida terreste na sua totalidade,
encarando-a, à luz da biogeoquímica, como a camada envolvente do globo terrestre, habitada não só
por todos os seres vivos como ainda por todos os componentes permitem a construção do seu
habitat. Apesar de categorizar de “geosfera” a matéria inanimada e inorgância, considera que, a
maior parte destes elementos não podem ser excluídos da “biosfera”, devido ao papel crucial que
desempenham na manutenção da existência de vida nesta. A água é, de facto, um dos grandes
componentes da biosfera, apesar do seu carácter inorgânico, tal como a radiação solar e os gases
que absorvemos e expelimos. Também os produtos das actividades dos seres biológicos (os
artefactos humanos, os ninhos dos pássaros) são parte integrante da biosfera. Ou seja, pode definir-
se biosfera como o mundo que alberga não só os seres biológicos como todo o espaço por onde eles
circulam, tirando dele proveito e transformando-o.
Vernadsky defendia, então, a existência de três etapas de desenvolvimento terrestre, não
compartimentos estanques e isolados, mas em constante interacção e partilha: a biosfera (matéria
viva, orgânica), a geosfera (matéria inanimada, inorgânica) e, por último, a noosfera (1936), a esfera
do pensamento humano, dos saberes e das ideias, do conhecimento científico, sendo precisamente
este a função da matéria viva que se ergue da matéria inorgânica.
A civilization of ‘cultural humanity’ (being a form of a new geological force
created in the biosphere) cannot disappear or cease to exist, for it is a great
natural phenomenon corresponding historically, or more correctly, geologically,
to the established organization of the biosphere. Forming the
noosphere, the civilization becomes connected through all its terrestrial roots
to its terrestrial envelope (biosphere), which has never happened in the
previous history of mankind to a comparable degree. (Vernadsky 1977: 33;
English quotation in Levit 2001: 77)
Assim, “a noosfera não é uma camada separada da biosfera, nem tão pouco uma camada da
biosfera, ela é a própria biosfera, pois é um resultado da existência de consciência, da
“culturização” e do surgimento do saber científico humanos, sendo o papel principal da biosfera,
precisamente desempenhado pela energia da cultura humana”(Vernadsky 1977: 95).
A ideia de noosfera foi, mais tarde, retomada por Teilhard, embora este a olhe como uma

1 Para Suess “biosfera” era somente a fina camada superficial terrestre onde se encontram os seres vivos,
compreendendo, portanto, a vida e as condições ambientais que permitem a sua existência (temperatura, pressão,
composição química) (M.Piqueras:1998)
mera fase transitória para um posterior desenvolvimento da consciência suprema. (K.Kotov : 2002)
Concomitantemente a esta noção de espaço de pensamento surge introduzido por Iuri
Lotman o termo “semiosfera”, o campo semiótico fora do qual qualquer tipo de processo de
significação é impossível. Lotman, contudo, apesar de algumas similitudes, defende que não se
deve confundir Noosfera com Semiosfera pois elas remetem-nos para espaços distintos, a primeira
para um espaço material e espacial, componente do mundo físico e a segunda para um espaço
abstracto.
Apesar do termo “semiosfera” surgir com Lottman, a ideia de campo/espaço semiótico é, a
ele, anterior. Segundo Mihhail Lotman, no seu texto “Umwelt e Semiosfera”2, podem distinguir-se
três concepções deste espaço semiótico: a Clássica ( noção de Semiose de Peirce), a Moderna (o
Umwelt de Uexküll – ideia posteriormente retomada por Sebeok) e a Pós-Moderna (a Semiosfera de
Lotman). A semiose de Peirce difere em alguns apectos da da Escola de Tartu (à qual Lotman
pertencia), o ponto central da Semiótica de Peirce era o signo (isolado e singular) e as qualidades a
ele intrínsecas.Ou seja, na óptica de Peirce, naquilo a que chama Primeiridade3, assumem-se as
características do signo (representamen) como algo imediatamente dado, envolvendo apenas o
nosso “mundo experimentado o mundo de sentimentos e sensações antes que haja qualquer
percepção consciente do outro” (F. Merrel : 2003). É, assim, a junção dos sistemas semióticos que
constrói o espaço semiótico, são eles os elementos primários a partir dos quais sistemas mais
complexos se formam. Lotman, pelo contrário, considera que é a semiosfera a unidade inicial
dentro da qual, posteriormente, têm lugar os actos sígnicos, surgem os sistemas subordinados.
Muito embora esta diferença entre as concepções de Peirce e Lotman, ao alcançar-se a categoria da
Terceiridade (de Peirce) pode observar-se uma interligação tridimensional entre as três categorias,
formando-se, portanto, um “continuum” semiótico que em muito se assemelha à
tridimensionalidade do espaço semiótico (semiosfera) de Lotman. O Uexküll, por seu turno,
distinguia “o espaço objectivo no qual vemos mover um ser vivo” ao qual dá o nome de Umgebung,
do Umwelt, o “mundo-ambiente constituído pelos elementos (…) portadores de significado”,
porém, ao contrário do animal, o Homem não vive absorto e aturdido por estas “marcas”, ou seja, a
Umgebung humana é a nossa própria Umwelt, cujo teor depende do ponto de vista pelo qual é
observada. Não existe realidade determinada. Na linhagem de Uexküll, surge também Heidegger
que considera que o Homem forma o seu próprio mundo, constituído por todos os nossos
2 Sign Systems Studies 30.1, 2002
3 Segundo C.S.Peirce, num artigo de Maio de 1867 (“Sobre uma nova lista de categorias”) toda a experiência e
pensamento podem ser descritos de acordo com três categorias. A Primeiridade reúne tudo aquilo que é sem, para
isso, precisar de se relacionar com coisa alguma, auto-suficiente, auto-contido e auto-reflexivo. A Secundidade
corresponde aquilo que somente é em relação com outra coisa, interagindo na qualidade de signo e objecto. Na
Terceiridade “um signo (...) é algo que se encontra em relação com o seu objeto, de um lado, e
com o seu interpretante, de outro forma a pôr o interpretante numa relação com o objeto
que corresponde à sua” (1974, p. 124), é uma acção cognitiva que torna possível a
mediação entre as outras duas categorias.
“portadores de significado” (desinibidores), porém, enquanto que o animal vive enclausurado no
seu círculo desinibidor, o Homem constrói-o progressivamente, através do desvelamento. (G.
Agamben : 2002). A Umwelt de Uexküll (Círculo desinibidor de Heidegger) corresponde portanto à
noção de campo semiótico, numa concepção, tal como supracitado, moderna.
P.S.- A noção de campo semiótico não surge com Lotman, é, a ele, anterior. Qualquer concepção
semiótica define o seu campo semiótico, ora expandindo ora retraindo os seus limites. Por exemplo,
Sebeok, biosemioticista, defende a existência, não de uma semiosfera, mas sim de uma
semibiosfera, ou seja os limites do seu campo coincidem com os limites da biosfera, pois onde “há
vida há semiose”, alargando, portanto, a semiosfera cultural de Lotman, integrando no espaço
biosemiótico elementos que, segundo Lotman, pertenciam ao campo extra-semiótico.
Surge, então, Lottman (Escola de Tartu) que dá ao campo semiótico o nome de Semiosfera,
traçando-lhe limites e descrevendo as suas principais características.

Semiosfera = Espaço Semiótico → Fora da Semiosfera não existe Semiose.

• A existência deste universo (semiosfera) torna reais actos signatórios específicos, não é a
junção de vários actos semióticos separados que o constrói.

Ilustração 1: A integração dos signos no espaço semiótico é que torna possível a existência dos
primeiros, não é a junção destes que cria a semiosfera.

Semiosfera: Um Espaço Delimitado

• Quando falamos de Semiosfera falamos em Homogeneidade e individualidade semióticas


• Homogeneidade e individualidade
◦ Conceitos difíceis de definir formalmente;
◦ Dependem de sistemas de discrição;
◦ Actuam ao nível intuitivo → implicam a existência de uma qualquer fronteira entre a
semiosfera e o espaço não ou extra – semiótico que a envolve.

Ilustração 2: A fronteira da Semiosfera.

• Noção de Fronteira/Limite
◦ Imprescindível na compreensão da delimitação do espaço semiótico.
◦ As fronteiras não podem ser visualizadas através da imaginação concreta, pois a
semiosfera é um espaço de carácter abstracto.
◦ Constituída por uma enorme multiplicidade de pontos, simultaneamente pertencentes ao
espaço interno, da semiosfera, e ao externo, ao espaço não-semiótico.
Ilustração 3: Semiosfera, Fronteira e Filtros.

◦ Pontos de fronteira - conjunto de “filtros” bilínguais e tradutores.


◦ Ao passar por estes filtros, o texto:
▪ É traduzido de uma linguagem (ou linguagens) situada fora de uma determinada
semiosfera.
▪ É precisamente o facto de não ser contígua a textos extra-semióticos ou a não-textos
que determina a natureza isolada da semiosfera.
▪ Os textos extra-semiótico só se tornam compreensíveis aquando da sua tradução para
uma das línguas que o espaço semiótico alberga → Os factos devem ser
semiotizados.

▪ Exemplo I :
“Pontos-limite” da semiosfera ↔ Receptores sensoriais do sistema nervoso.

Adaptam, através da tradução, Adaptam os estímulos do meio ao corpo,


actores externos à esfera traduzindo-os em impulsos nervosos.
semiótica dada.

◦ A noção de fronteira correlaciona-se estreitamente com o conceito de individualidade


semiótica.

Ilustração 4: Filtros & Receptores Sensoriais.


A semiosfera possui uma “personalidade semiótica”.
• Combina, no interior desta propriedade, a inquestionabilidade empírica , a manifestação
intuitiva do conceito e a dificuldade de o definirmos formalmente.
• Exemplo II : O homem.
◦ Num sistema, podem fazer parte da sua personalidade – homem,mestre e patrão - esposa,
filhos, servos e vassalos, sem independência individual.
◦ Num outro sistema, podem surgir como personalidades separadas.

• Exemplo III : Relatividade da Semiótica Jurídica e Noção de Colectivo.


◦ Ivan, o Terrível, ao executar os Boyars4, executou também toda a sua família e todos os
seus servos.
▪ Este evento não foi produto do medo, mas, então, o que o despotelou?
▪ Nessa época, vingava uma concepção distinta de família e de justiça.
▪ Por conseguinte, todos eles (família e servos) eram pertença do mesmo “chefe”,
elementos da mesma casa e, por conseguinte, e execução estendia-se, naturalmente, a
eles também.

▪ Para os Russos, a crueldade do Czar era algo natural, já não os surpreendia esta
larga aplicação de uma execução, quer relativemente ao número de pessoas
envolvidas quer à grande variedade de estratos sociais.
▪ Os estrangeiros, porém, sentiam-se revoltados pelo facto da culpa de um único

4 Boyars (bōyärz'), do Russo боярин, eram membros da alta nobreza Russa (do séc. X ao séc. XVII), cuja inicial
influência e subida a cargos do Governo se deveu principalmente ao facto de terem prestado apoio militar aos
príncipes de Kiev. Assim,e apesar de, rapidamente, todo o seu poder e prestígio ter passado a depender somente dos
contratos de vassalagem, típicos do feudalismo europeu, os boyars ocupavam os mais elevados cargos do Estado e
os seus conselhos eram imensamente prezados pelo príncipe. Aquando da mudança do poder político para Moscovo
(nos séculos XIV e XV) os boyars conseguiram manter a sua influência. Porém, esta foi-se, gradualmente,
dissolvendo, particularmente com a tomada de poder de Ivan III e, posteriormente, de Ivan IV. Os boyars foram,
assim, perdendo grande parte dos seus direitos e privilégios, ao mesmo tempo que viam acrescidos os seus deveres.
Deste modo, com o seu poder cada vez mais enfraquecido, o título de boyar não consegue manter-se até ao século
XVIII, sendo abolido no século XVII por Peter I.
homem fazer sofrer tantos outros.

◦ Outro exemplo da importância do colectivo remonta a 1732:


▪ Lady Rondo, esposa do embaixador Inglês na Rússia, redige uma carta, reportando o
exílio da família Dolgoruki. E escrevia assim, Lady Rondo:

“Pode ficar surpreendido por se terem exilado também mulheres e crianças. Porém, aqui, quando
o chefe da família cai em desgraça, toda a sua família é alvo de perseguição” (Shubinskij 1874 :
46)
▪ Conceito de colectivo ≠ Personalidade Individual – Esta noção de colectivo faz com
que o indivíduo nele se dilua.
▪ É, ainda, intrínseco ao conceito de Vingança de Sangue, onde os familiares de um
assassino são vistos também como responsáveis pelos crimes por este cometidos.
• Portanto, o limite do espaço semiótico:
◦ É a mais importante, funcional e estrutural posição do mesmo;
◦ Impregna de substância o mecanismo semiótico;
◦ É um mecanismo bilingual;
◦ Traduz as comunicações externas para a linguagem interna da semiosfera e vice-versa.
◦ Permite que semiosfera estabeleça contacto com espaços não- e extra-semióticos.
◦ Domínio da semântica – exige que apelemos a uma realidade extra-semiótica, contanto
que não nos esqueçamos que, para uma dada semiosfera, esta realidade apenas se torna
numa realidade em si mesma se traduzida para a linguagem da semiosfera ( do mesmo
modo que materiais químicos exteriores apenas podem ser adoptados por uma célula se
transformados nas estruturas bioquímicas internas desta).

Funções da Fronteira
• A tarefa de qualquer orla ou película, desde a membrana de uma célula viva à visão da
biosfera como uma película que cobre o nosso planeta (Vernadsky) até à delimitação da
semiosfera, consiste em:

1)limitar a penetração, 2)filtrar, 3) transformar o externo em interno.

• Esta função invariável manifesta-se de diferentes formas a diferentes níveis:


◦ Nível da semiosfera.
▪ Representa a divisão entre o “eu” e o “outro”, a filtração das comunicações e, daí, a
tradução destas para a sua própria linguagem, tal como a transformação das não-
comunicações externas em comunicações.

Semiosfera: Espaço Cultural

• A semiosfera identifica-se a si mesma com o espaço cultural assimilado e com o


mundo que lhe é exterior – o caótico reino dos elementos desorganizados.
• Dentro da semiosfera, a distribuição espacial das formas semióticas pode, assim,
tomar, de acordo com a situação, várias configurações:

• Pertença a dois mundos : Fronteira.


◦ Grandes Impérios: faziam fronteira com os povos nómadas.
▪ Incluíam, nas zonas-limite, membros dessas mesmas tribos, contratando-os
para defender a fronteira.
▪ Estes membros situavam-se, deste modo, numa zona de culturalmente
bilingual, cabendo a eles assegurar os contactos semióticos entre os dois
mundos (o Imperial e o Tribal).

Estas áreas com múltiplos significados culturais surgem também na fronteira da semiosfera,
levando a uma espécie de creolização5 das estruturas semióticas.

• Podemos tentar explicar o funcionamento do mecanismo de fronteira através de uma


analogia com o romance de Shakepeare, Romeu e Julieta. De facto, a temática desta obra, o
amor, a união, a ligação de dois espaços culturais hostis, revela claramente a essência deste
mecanismo.
• Ou seja, a fronteira pode ser olhada de diferentes modos, encarada de modos distintos:
◦ Como um mecanismo imanente: une duas esferas de semiose.
◦ Do ponto de vista de auto-conhecimento semiótico de uma dada semiosfera: divide as
duas esferas.

• Porque razão, quando encarada do ponto de vista de auto-conhecimento da semiosfera,


a fronteira funciona como um mecanismo de divisão?
• Auto-conhecimento = Tomada de consciência de si mesmo.

• Concepção semiótico-cultural = Tomada de consciência do carácter específico por uma


determinada semiosfera, em oposição às outras esferas → Acentuam-se os contornos da
esfera dada.

Oposição Centro - Periferia

• Outra função da fronteira: Albergar os processos semióticos acelerados.


◦ Os processos semióticos fluem mais activamente na periferia dos meios culturais.
◦ Esta maior rapidez de actividade resulta da sua “vontade” de ser anexados às estruturas
nucleares do centro.

5 A hibridização de uma cultura, à medida que absorve e tranforma forças a ela exteriores.
◦ Exemplo IV: Roma Antiga
▪ Existia uma área cultural, em rápido crescimento.
▪ Esta área incorpora na sua órbitra estruturas externas (de outras áreas culturais).
▪ Transforma-as na sua própria periferia, originando um forte crescimento cultural e
económico da área periférica.
▪ A área periférica traduz, através do centro, as suas estruturas semióticas →
Estabelece precedentes culturais e, a longo prazo, conquista, literalmente, a esfera
cultural central.
▪ No núcleo cultural formam-se novas estruturas.

• Conclui-se que a fronteira é uma parte inexcluível da semiosfera.


• A existência de uma fronteira pressupõe a existência de algo em relação ao qual a
semiosfera deve ser delimitada. Ou seja:
◦ A semiosfera requere uma esfera caótica a si exterior, construindo-a quando não ela
existe.
◦ Exemplo V: A Antiguidade constrói os seus bárbaros.
• Os bárbaros não constituíam um Todo uno, abrangiam um vasto leque cultural.
• A civilização Antiga só pode afirmar-se e ver-se como culturalmente intacta por
oposição à desorganização do mundo bárbaro.
• Dividia-os ainda a barreira da linguagem.
Irregularidade Semiótica

• Para uma determinada semiosfera pode ser espaço não-semiótico todo o espaço de outras
esferas semióticas.
• Assim:
◦ De um ponto de vista interno (de uma semiosfera X): Uma dada cultura (integrada
numa esfera Y) pode ser tomada como o mundo externo, não-semiótico.
• Logo: O ponto de passagem da fronteira de uma determinada cultura depende da posição
do observador.

• Por seu turno, o espaço semiótico caracteriza-se pela:


◦ Presença de estruturas nucleares (frequentemente múltiplas), visivelmente organizadas.
◦ Presença de mundo semiótico mais amorfo, que tende a ganhar uma forma e, assim, à
integração nessas estruturas nucleares.
◦ Eventualmente, uma destas assume uma posição dominante e, deste modo
1. Eleva-se a um estado de auto-discretização.
2. Começa a separar-se do sistema de meta-linguagens.
3. Começa descrever-se a si mesma e ao espaço periférico de uma determinada
semiosfera.
4. Alcança o nível de unidade ideal.
5. Torna-se numa superestrutura.
6. Ergue-se acima da irregularidade do mapa semiótico.

• Nível estrutural
◦ Irregularidades:
1. Aumenta a fusão entre os vários níveis.
2. A realidade da semiosfera, a hierarquia das linguagens e dos textos como uma regra,
é perturbada.
3. Os elementos colidem como se coexistissem num mesmo nível.
4. Os textos parecem estar imersos em linguagens que não lhes correspondem, e estão
ausentes os códigos que permitiriam decifrá-los.
◦ A estrutura do espaço semiótico é heterogénea e caracterizada por uma intensa
interactividade, criando reservas de processos dinâmicos.
◦ A heterogeneidade e a criação de reservas representam um dos mecanismos para a
criação de informação dentro da esfera semiótica.

◦ Nas áreas periféricas:


▪ As estruturas são “esquivas”, menos organizadas e mais flexíveis.
▪ Os processos dinâmicos encontram menor oposição → Desenvolvem-se mais
rapidamente.
▪ A rigidez da estrutura consegue-se através da criação de auto-descritores meta-
estruturais (gramática) → Abrandamento do desenvolvimento dos processos.

◦ Os processos dinâmicos que ocorrem na semiosfera podem alterar a configuração da


mesma:
▪ A função do núcleo estrutural desloca-se para aquilo que, no estágio anterior,
correspondia à periferia.
▪ O centro inicial apreende as funções da periferia.
▪ Geograficamente, este processo pode ser traçado na transferência geográfica entre o
centro e os arredores dos mundos civilizados.

◦ Divisão entre Núcleo e Periferia: lei da onganização interna da semiosfera.


▪ Núcleo: Sistemas semióticos dominantes.
• Esta divisão não é absoluta, depende da existência de elementos de auto-
descrição6, ou da condução desta divisão por um observador externo, de acordo
com as categorias de um outro sistema.
▪ Periferia: Fragmentos das estruturas fixas (linguagens) e textos separados, que:
• Resvalam para a categoria de “estrangeiros” dentro de um determinado sistema.
• Exercem a função de catalizadores no mecanismo da semiosfera.
• Preservam o mecanismo capaz de reconstruir todo o sistema.

6Descrição feita de um ponto de vista interno e em termos oriundos do processo de auto-desenvolvimento de uma
determinada semiosfera
◦ Todos e Partes Semióticos: Reconstrução de um Sistema.
▪ Destruição da integridade do sistema semiótico → Acelera o processo de
“rememoração”.
▪ Entende-se por rememoração: a reconstrução do Todo semiótico a partir das suas
partes.
▪ Reconstrução da linguagem perdida → Criação de uma nova linguagem.
▪ A nova linguagem emana do auto-conhecimento da cultura.
▪ Por outras palavras, o fluxo cultural de reservas específicas de texto ( em códigos
perdidos) conduz, quando a integridade do sistema é destruída, ao processo de
criação de novos códigos, entendidos como reconstruções (“recordações”).

• A Irregularidade da organização estrutural interna da Semiosfera é determinada:


◦ Pela sua natureza heterogénea – o desenvolvimento da semiosfera processa-se de
modos temporal e espacialmente distintos.
▪ Exemplo. Diferentes linguagens integram-se em diferentes tempos e em diferentes
círculos quantitativos → Linguagens naturais desenvolvem-se mais lentamente que
estruturas mentais e ideológicas → Processo de desenvolvimento dessincronizado.
◦ Pelo facto de, muitas vezes, extrapolar os seus próprios limites internos.
▪ A tradução da informação através destes limites depende da articulação entre as suas
diferentes estruturas e sub-estruturas.
▪ O sistema semiótico de uma dada semiosfera pode invadir uma estrutura do território
exterior.
▪ Desta invasão resulta nova informação, gera-se sentido.
◦ Pela sua diversidade interna → Implica que possua integridade.
▪ As partes entram no todo não como mecanismos detalhados mas como orgãos em
organismos.
▪ Mecanismos Nucleares:
• Cada uma das suas partes cria o seu próprio Todo, estruturalmente independente .
• As ligações das partes (ou do Todo tornado parte) com outras partes são
complexas e caracterizam-se por um elevado nível de desautomatização.
• Todo: localiza-se num outro nível da hierarquia estrutural.
• Relativamente ao todo em que se integram, as partes revelam uma qualidade
isomórfica.
• Partes: são diferentes entre si e são semelhantes ao Todo que integram, embora
sejam, dele, também distintas.
▪ Exemplo VI: Os fragmentos do Espelho.
• O escritor Tomasz Štítný (Século XIV), traçou uma analogia entre esta relação
isomórfica parte-Todo e um rosto que, se totalmente reflectido num espelho,
também o é em qualquer um dos seus fragmento cuja.
• Os fragmentos, embora partes, assemelham-se ao espelho inteiro.

▪ Existe também isomorfismo vertical:


• Surge entre estruturas de diferentes níveis hierárquicos.
• Gera o crescimento quantitativo das comunicações.
• Seguindo a analogia so espelho: um objecto reflectido num espelho origina
centenas de reflexões de si próprio nos fragmentos deste.
• Assim, uma comunicação, introduzida numa estrutura semiótica integral, é
rodeada por pedaços de si mesma nos níveis inferiores.

▪ A transformação de textos novos exige um outro mecanismo - diferentes contactos


são necessários → Não deve somente existir uma relação similar, mas sim um
elemento que se diferencie → Diferente constituição do mecanismo do
isomorfismo.
• Condição para a existência deste tipo de semiose: as sub-estruturas que
participam no acto de semiose não devem ser, relativamente umas às outras,
isomórficas.
• Porém, cada uma delas isolada deve ser isomórfica relativamente a um terceiro
elemento situado num nível superior do sistema.
• Exemplo. As linguagens textuais e icónicas de formas pictóricas não são
isomórficas entre si. De modo diferenciado, cada uma delas é isomórfica
relativamente ao mundo extra-semiótico da realidade que representa, através de
uma determinada linguagem.

• Sistemas de Diálogo: Condições de Criação.


Para que sejam criados sistemas de diálogo é necessário:
◦ A presença de dois parceiros, simultaneamente, semelhantes e diferentes.
◦ Troca de informação recíproca e mútua.
◦ Substituição do tempo da transferência pelo tempo da recepção(Newson 1978: 33).
◦ Discrição – possibilidade de interromper a transmissão da informação.
▪ Tem de ser possível transmitir informação por porções - regra geral nos sistemas de
diálogo.
▪ Esta discrição pode surgir a um nível estrutural → Mudança cíclica das percepções
materiais → Alternância entre períodos de elevada actividade e períodos de máximo
decréscimo da mesma.

Exemplo VII: História da Cultura.


▪ Podem delinear-se períodos em que uma ou outra forma de arte transmite os seus
textos a outros sistemas semióticos → Ponto de actividade elevada.
▪ Um determinado tipo de arte torna-se na “receita” a seguir → Estes períodos/épocas
alteram-se (não existindo, necessariamente, uma ruptura total com a continuidade).
▪ A análise do Todo da arte no interior da moldura de uma determinada época revela a
expansão da mesma, o modo como interrompeu e foi interrompida por outras épocas,
não esquecendo.
▪ Fenómenos como a Renascença, o Barroco, o Classicismo e o Romantismo,
originados por factores universais no seio de uma determinada cultura surgiram por
oposição a diferentes áreas artísticas e a desenvolvimentos intelectuais distintos.
▪ Porém, devemos ter em conta que a afirmação de um novo fenómeno, por oposição a
um outro dele distinto, estabiliza apenas ao alcançar o metanível do auto-
conhecimento da cultura.
▪ A não-sincronia é substância constituinte da cultura, não aparece como um devaneio
súbito.
▪ No auge da sua actividade, o agente de transferência produz características
dinâmicas e inovadoras.
• Os processos de influência cultural do Oriente no Ocidente e do Ocidente no
Oriente estão ligados à não-sincronia sinusoidal do seu desenvolvimento
imanente.
• Para o observador externo, estabelece-se uma mudança discreta das suas
actividades multi-direccionais.
◦ As fronteiras entre fenómenos não surgem sempre ao nível fonológico, nunca ao nível
fonético.
◦ Estas fronteiras estão também ausentes no oscilograma sónico do discurso.
◦ O texto traduzido e a resposta recebida por via do diálogo devem produzir, para um
terceiro, um texto unitário.
• Além disso o texto tende a transformar-se noutra linguagem – deve conservar dentro de si
mesmo um elemento da transferência para a outra linguagem → Diálogo torna-se possível.
Exemplo VIII: Linguagem Dialógica.
▪ John Newson - diálogo entre uma mãe lactante e o seu bebé - transição mútua para a
linguagem do outro - Usam mímicas e sinais falados.
▪ Século XIX - Forte influência da pintura → A literatura inclui na sua linguagem
elementos do domínio do pictoresco.

Significado sem comunicação não seria possível. Neste sentido, podemos dizer que o diálogo precede e dá à luz a
linguagem.

Noção de Semiosfera
Além das características já apresentadas, Lotman considera que, no âmago da semiosfera, jazem
ainda algumas outras noções:

• A junção de formações semióticas precede (não heurística mas funcionalmente) a


linguagem isolada e singular.
• A junção de formações semióticas é uma condição para a existência de linguagem.
• Sem a semiosfera não existe linguagem.
• As diferentes substruturas da semiosfera interligam-se e interagem.
• As diferentes substruturas não funcionam sem o apoio umas das outras.

• Contemporaneamente, o significado de semiosfera tem-se expandido – carácter global –


abrange:
◦ Sinais de chamada dos satélites.
◦ Versos dos poetas.
◦ Sons animais.

• Os elementos da semiosfera são interdependentes.


◦ Distribuem-se em virtude de um complexo sistema de memória sem o qual não pode
funcionar a semiosfera – Propriedade Diacrónica.
◦ O mecanismo de memória funciona nas substruturas individuais da semiosfera e nela
como um todo.

• Estamos completamente imersos na semiosfera.


• Sabemos que ela é repleta de irregularidades e rodeada por um espaço cuja linguagem não
compreende.
• Porém, ela não pode estabelecer-se a si mesma como:
◦ Um objecto caótico e irregular.
◦ Uma colecção autónoma de elementos.
• Pode sim definir-se como:
◦ Um Todo em si mesmo, embora não o seja se para fora de si olhar.
◦ Um espaço constituído por partes internamente reguladas e funcionalmente
conectadas.
◦ Um espaço cujo comportamento é estabelecido pela relação dinâmica das partes.
▪ O desenvolvimento dinâmico dos elementos da semiosfera (substruturas) é ditado
pelas suas especificações e pelo incremento da sua diversidade interna.
▪ Este dinamismo não destrói a integridade da semiosfera.
▪ É sobre esta integridade que assentam todos os processos comunicativos, tornando-
se mutuamente semelhantes.
▪ Este princípio dinamismo-semelhança é construído sobre a combinação de
simetria–assimetria com o refluxo periódico e o fluxo de todos os processos
vitais de todas as formas.
(ao nível da linguagem esta característica estrutural foi descrita por Saussure como o “mecanismo
de semelhanças e diferenças”)
Simetria - Assimetria

• Podem também ser incorporados numa unidade mais geral:


Simetria-assimetria pode ser encarada como:
◦ A quebra de qualquer forma de unidade por um plano de simetria
◦ Aparecimento de um espelho da estrutura desconstruída.
◦ A base de uma subsequente especificação da diversidade e funcionalidade.

• A repetição cíclica torna-se a base de um crescimento rotativo em torno dos eixos de


simetria.
• O efeito combinado destes dois princípios pode ser observado a diferentes níveis:
◦ Plano de Simetria → Antítese: Plano do Tempo Mitológigo vs. Plano do Tempo
Histórico
Cíclico Dirigido
▪ Os eixos de simetria repetem-se ciclicamente, opondo-se à explosão atómica
unidireccional.
▪ O mundo do cosmos opõe-se ao mundo animal.
◦ Esta combinação adquire um carácter estrutural e, assim, os seus efeitos repercutem-
se:
▪ Nos limites da sociedade humana.
▪ Em todo o mundo vivo - novas estruturas gerais surgem.

• A questão da simetria – assimetria remete-nos para um outro traço dicotómico da


Semiosfera e dos elementos que nela se integram: Homogeneidade - Heterogeneidade
◦ A possibilidade de diálogo sugere, simultaneamente, uma heterogeneidade e uma
homogeneidade dos elementos.
◦ A heterogeneidade semiótica implica uma estrutura heterogénea – Diversidade
Estrutural.

De facto, a assimetria e heterogeneidade estrutural do Todo da Semiosfera indica-nos que as


estruturas que a constituem e os elementos que nas últimas se integram eram, já de si, assimétricos e
heterogéneos:
“Assimetria pode apenas ser originada por algo que, em si mesmo, era já assimétrico.”(Vernadsky
1977 : 149)

• Lotman apresenta uma forma de combinação de identidade e diferença estruturais: O


Enantiomorfismo.
◦ Enantiomorfismo: simetria em espelho.
◦ Neste mecanismo enantiomorfista, tal como num espelho, ambas as partes são iguais,
embora desiguais através da sobreposição.
◦ O enantiomorfismo dialógico representa o surgimento de:
▪ Uma diferença correlativa que distingue ambas as identidades – interpreta-o como
inútil.
▪ Uma diferença não co-relativa – interpreta-o como impossível.
▪ Por outro lado, o enantiomorfismo divide a unidade, cria uma difererença divisória
de unidades, cuja reaproximanção forma, precisamente a base do processo de
significação. (Ivanov 1978), pois fundamenta a correlação estrutural entre as
partes individuais que se empenham na sua execução.
▪ Ou seja é a reaproximação despoletada pela divisão enantiomorfista da unidade
que faz surgir, entre as partes individuais, aquilo que se denomina de comunicação
dialógica.
▪ É a comunicação dialógica a base da geração de significado.
▪ Logo, apenas a divisão enantiomorfisma permite o processo de significação.

Unidade → (Enantiomorfismo) → (Diferença Correlativa) → Partes Individuais → Tentativa de


Reaproximação → Comunicação Dialógica → Processo de Significação

◦ Assim, os textos não são idênticos, não formam um Todo homogéneo, mas, na sua
heterogeneidade, são semelhantes o suficiente para que a sua conversão mútua se
torne possível.
◦ Se os participantes numa relação dialógica fossem iguais esta não existiria sequer, eles
têm de ser distintos e “de conter, no interior da sua estrutura, uma imagem semiótica de
contra-agente” (Paducheva 1982).

Enantiomorfismo representa o mecanismo primário do diálogo.


Enantiomorfismo: O Palíndroma
Palin (πάλιν; “trás”) e dromos (δρóμος; “maneira, sentido”)
• O palíndroma é a prova de quão fortemente o enantiomorfismo pode alterar o
funcionamento do mecanismo semiótico.
SAT O R
AREPO
• Porém, apesar da sua importância, até há pouco tempo,
TENET
este anagrama peculiar, esta capicua de palavras era alvo
OPERA
de conotações pejorativas, encarado como nada mais que R OTAS
o fruto do “jogo da arte das palavras” (Kvyatkovsky Texto 1: O "Quadrado Mágico"
(Pompeii : 79 d.C.) pode ser lido para a
1966 : 190). frentre, em reverso, na horizontal e na
vertical.
• Lotman afasta-se dessa concepção reducionista, apela à
compreensão da sua complexidade, de todas as suas potencialidades e questões que faz
erguer.
• Mergulha nas profundezas do universo palindrómico, não se limita a encarar a sua
capacidade de conservação do significado de uma palavra ou de um grupo de palavras quer
sejam estas lidas numa ou na outra direcção.
• Parte desta capacidade para se debruçar sobre um outro aspecto ainda mais complexo, a
capacidade de que o palíndroma é dotado, que o permite transformar o mecanismo de
formação textual - alterar o mecanismo da consciência.

Exemplo IX: Diversidade Palindromática – Palíndromas Chineses e Russos.

◦ Palíndromas Chineses – V. M. Alekseev.


▪ Os hieroglifos(caracteres tradicionais) chineses, tomados isoladamente, sugerem a
origem conceptual das famílias de palavras. Isto, é cada um deles tem em si inscritos
além de uma determinada fonia, uma dada semântica que, isoladamente, não é
totalmente revelada.
▪ As suas semântica e gramática concretas são somente reveladas em correlação com
os laços textuais.
▪ Sem a ordem palavra-signo, não é possível determinar a sua categoria gramatical,
nem tão pouco o seu verdadeiro conteúdo semântico.
▪ A palavra torna concreta a semântica abstracta do hieroglifo isolado.
▪ No palíndromo chinês, apesar de todas as sílabas se manterem, firmemente, no
mesmo local, desempenham um papel semântico e sintático distinto do inicial
(Alekseev 1951 : 95).
▪ O estudo do Palíndromo é a melhor forma de estudar a gramática da língua chinesa.

Chinês Tradução
E → D :Eu amo a mãe.
我愛媽媽
D → E :A mãe ama-me.
E → D :Todos se preocupam comigo.
人人為我
D → E :Eu preocupo-me com todos.
E → D :Um homem passa pelo Grande Templo de Buda.
人過大佛寺
D → E :O Templo de Buda é maior que um homem.
E → D :O convidado vai a Tien Ran Ju.
客上天然居
D → E :É um convidado dos Céus.
E → D :Os lugares certos geram pessoas abastadas
地福多出賢
D → E :Pessoas abastadas vêm dos lugares certos.
E → D :O Monge viaja para o Templo Escondido nas Nuvens.
僧遊雲隱寺
D → E :O Templo esconde as nuvens e os monges que viajam.
E → D :A chuva nutre as árvores da Primavera e fá-las tão viçosas e altas
雨滋春樹碧連天 que tocam o Céu.
D → E :O céu toca as árvores verdes e a Primavera nutre a chuva.
E → D :O vento espalha a fragância das flores e arrasta as pétalas
vermelhas pelo chão.
風送花香紅滿地
D → E :O chão está coberto de vermelho e as flores perfumadas dizem
adeus ao vento.
E → D :Flores vermelhas e brilhantes caem com a chuva
艷艷紅花隨落雨
D → E :A chuva cai com as flores e torna-se vermelha.
E → D :A Primavera regressa à aldeia de Xiafu.
春回先富村
D → E :A aldeia é famosa e volta primeiro à Primavera.

Chinese Palindromes @ http://www.yellowbridge.com


◦ Palíndromas Russos – S. Kirsanov.
▪ O mecanismo do palíndromo Russo assenta no facto da palavra ser vista.
▪ A palavra pode, portanto, ser lida na ordem inversa.
▪ A leitura reversa dos hieroglifos chineses revela a sua construção escondida, faz
surgir, de uma forma holística e visível, a sequência de elementos estruturais,.
▪ Na língua russa é necessária a capacidade de ver a palavra como um Todo.
▪ O palíndroma chinês transforma o visível e o integral em discreto.
▪ O palíndromo Russo transforma visibilidade e integridade. Ou seja, ler de trás para a
frente activa o mecanismo de diferentes hemisférios da consciência, é um fenómeno
visual.

“А роза упала на лапу Азора”


-”E a rosa caiu da pata do Azor.”-
Afanasy Fet

Facto Primário do Enantiomorfismo : A forma do texto altera o tipo de


consciência a ele atribuida.

• O Palíndroma:
◦ Activa camadas escondidas do significado linguístico;
◦ Procura lidar com o problema da assimetria funcional do cérebro.
◦ Não é desprovido de sentido, pelo contrário, possui vários.
◦ O texto, aquando da sua leitura convencional, identifica-se com aquilo que é aberto,
enquanto que, ao ler lido em reverso, se associa à esfera esotérica da cultura.
▪ Na era Barroca associava-se o palíndroma à feitiçaria e à magia negra, usando-se,
assim, para o definir, o termo “versus diabolicus”.
▪ Pode associar-se também à violência: Vladimir Tropov considerava o anagrama
semiológico de Saussurre como que uma operação cirúrgica, um acto sagrado, onde
o sacerdote desmebra o animal que se oferece ao sacrifício. Ora, se seguirmos esta
analogia, o palíndroma é algo muito mais horrendo, pois além do desmembramento
do corpo todas as partes cortadas são reorganizadas no altar sacrificial.

• O mecanismo de espelho pode ser rotulado como universal.


◦ Dissemina-se por todos os mecanismos de produção de sentido, revelando paridades
simétricas-assimétricas.
◦ Abrange o nível molecular e a estrutura geral do Universo.
◦ Abrange a criação global da alma humana.
◦ O enantiomorfismo, o texto palíndrómico, constitui ainda a antítese SAGRADO vs.
INFERNAL.
(directo) (inverso)
◦ Marca também esta antítese a sua reflectividade espacial, por oposição ao Paraíso
(bondosos) aparece um Inferno côncavo (malsosos), dividindo estas duas instâncias está
o local dos medíocres, o Purgatório, convexo.

Exemplo X: Criações palindrómicas na Literatura.

“Eugene Onegin”:
• “Ela” ama “ele” - enfatiza o seu amor numa carta.
• “Ela” é friamente repudiada por “ele”.

Num sentido inverso:


• “Ele” ama “ela” - envia-lhe, numa carta, o seu amor.
• “Ele” é, por “ela”, rejeitado.

“A Filha do Capitão” , Pushkin:


• 2 Jornadas – A de Grinev ao auto-proclamado Czar Camponês para salvar Masha/A de
Masha à nobreza Czariana para salvar Grinev (Lotman 1962).

Mecanismos análogos, ao nível da personagem, inundam a literatura Romântica e Pós-Romântica


da Europa do século XIX, frequentemente ligados ao tema dos espelhos e dos reflexos.

Exemplo XI: Criações enantiomórficas na Pinttura.


• Todos estes elementos de simetria-assimetria são apenas mecanismos de construção de
sentido.
• Tal como a assimetria bilateral do cérebro humano:
◦ Caracterizam o mecanismo do pensamento sem predeterminarem o seu conteúdo.
◦ Determinam a situação semiótica mas não o conteúdo desta ou daquela comunicação.

◦ N.Tarabukin sugeriu que a regra da composição pictórica, de acordo com eixos


diagonais da tela:
▪ Do canto inferior direito ao canto superior esquerdo: sensação de passividade.
▪ Do canto inferior esquerdo ao canto superior direito: actividade e intensidade.
• Consideremos o quadro de Jericho, “A Jangada de Medusa”.
◦ A sua composição é construída com base em duas malhas diagonais: a passiva e a activa.
◦ A trajectória da jangada, agitada pelo vento, move-se da direita para a esquerda,
mergulhando nas profundezas. - Personifica a espontaneidade das forças da Natureza,
arrastando consigo as vítimas do naufrágio, já sem forças.
◦ No sentido inverso, na linha activa, o artista colocou algumas figuras que, reunindo as
suas últimas forças, tentam resolver a trágica situação, não desistindo da luta.
◦ Acima delas, surge um único indivíduo que, com a sua ajuda, hasteia a bandeira, de
modo a chamar a atenção de um navio que apareceu no horizonte distante.
(Tarabukin 1973 : 479)

• Assim: Uma mesma tela, organizando segundo a simetria de espelho a uma gravura pintada,
altera a semântica-emocional para o seu estado inverso, pois:
1. Os objectos reflectidos possuem a sua própria estrutura de superfície, simétrica ou
assimétrica.
2. Através da transformação enantiomórfica, a simetria superficial é neutralizada e não
pode ser mostrada de nenhuma outra forma, enquanto que a assimetria se torna
estruturalmente significante.
3. Assim, a simetria-espelho representa, como já vimos, a estrutura primária das
relações dialógicas.

Mais ainda, o enantiomorfismo:


• É uma das principais estruturas básicas de organização interna dos processos de construção
de sentido.
• Inclui vários fenómenos paralelos, tais como o “ser respeitado” e o “ser engraçado”, o
aparecimento de duplos, a topicalidade paralela e outros fenómenos típicos da dualidade das
estruturas intratextuais.
• Inclui, igualmente, a magicidade do espelho e o papel que esta desempenha na arte e na
literatura.
• Abrange a fenomenologia textual:
◦ Os textos dentro de textos, enquanto fenómeno, têm uma Natureza semelhante.
◦ Um fenómeno pode ser analisado ao nível holístico das culturas nacionais .
◦ O processo de reconhecimento mútuo e de inclusão numa cultura geral origina
▪ Uma reaproximação de culturas separadas.
▪ Uma especialização das mesmas.
1. Uma cultura específica dá entrada numa cultura geral.
2. Começa a cultivar a sua própria originalidade.
3. A cultura geral considera “especial” e “única” a cultura específica.
4. Para si mesma, a cultura isolada é habitual e natural.
▪ Apenas tomando parte num Todo mais abrangente, numa cultura geral, a cultura
reconhece o ponto de vista externo como específico para si mesma.
▪ Neste sentido, generalidades culturais, como “Ocidente” e “Oriente”, são reveladas
nas paridades enantiomórficas das assimetrias funcionais.

• Todos os níveis da semiosfera – desde a personalidade humana ao texto individual, passando


pela unidade semiótica – constituem um grupo, aparentemente, interligado de múltiplas
semiosferas.
• Cada uma delas é, simultaneamente, participante no diálogo (como parte da semiosfera) e
espaço de diálogo (quando se encara esta semiosfera como um Todo).
• Em cada uma delas podem, ainda, ser identificadas manifestações de “direitismo” e
“esquerdismo” e, quer tendendo para um ou para o outro lado, todas possuem, no seu
interior, estruturas pertencentes ora mais a um lado ora mais ao outro.

É esta, segundo Lotman, a caracterização, a delimitação, a irregularidade e os mecanismos, deste


espaço por ele idealizado que é o espaço de todos os processos de criação de sentido, um espaço
cultural, simultaneamente homogéneo e heterogéneo, simultaneamente todo e parte. Ou seja, é
assim que Yuri Lotman nos descreve o espaço da Semiosfera.