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Educação Literária – Fernando Pessoa ortónimo

Não sei porque é que sou assim.


Também, saber é não andar.
Sentir foi sempre para mim
Uma maneira de pensar.
Por isso agora essa cantiga,
Que me lembrou, me entristeceu.
Não sei se foi por ser antiga,
Se por ser ela, ou eu ser eu.
Às vezes há um rodopio
Das folhas secas num lugar.
Não consigo ser eu a fio,
Mas continuo sempre a olhar.
16.03.1931
Fernando Pessoa, in Poesia 1931-1935 e não datada, Assírio & Alvim,
ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006.

1. Identifique três traços de autocaracterização do sujeito poético, revelados na primeira e na terceira estrofes,
fundamentando a sua resposta com elementos do texto.
2. Considerando a segunda estrofe, caracterize e justifique o efeito que a memória exerce sobre o estado de
espírito do sujeito.
3. Aponte as duas linhas temáticas da poesia de Fernando Pessoa ortónimo presentes neste poema.

Exemplos de resposta

1. Os mais nítidos traços de autocaracterização do sujeito poético são os seguintes: a incompreensão de si


mesmo («Não sei porque é que sou assim.»); a incapacidade de sentir sem pensar («Sentir foi sempre para
mim / Uma maneira de pensar.»); a inquietação interior, representada pelo «rodopio / Das folhas secas», que
impedem o encontro consigo mesmo («Não consigo ser eu a fio»).

2. A recordação de uma velha canção entristece o sujeito poético, no entanto, ele não sabe determinar, com
exactidão, o motivo da tristeza. Essa tristeza advém do facto de a cantiga ser antiga e, por isso, remeter para
um passado distante, que já não existe? Ou é o sujeito poético que é antigo, condição de que a cantiga o faz
tomar consciência e, logo, tem o efeito de o deixar triste? Seja como for, na base da tristeza do sujeito poético
está a memória nostálgica de um passado distante e irrecuperável, despoletada pela lembrança de uma cantiga
que pertence a esse passado.

3. As duas linhas temáticas pessoanas que melhor se evidenciam no poema são: a dor de pensar, provocada
pela incapacidade de sentir sem a interferência do pensamento («Sentir foi sempre para mim / Uma maneira
de pensar.») e a nostalgia da infância, patente na segunda estrofe.