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PARA COMPREENDER

JONAH GOLDBERG

Texto baseado na obra: Fascismo de Esquerda de


Jonah Goldberg escrito por Felipe Flexa
1. Por que os esquerdistas chamam os direitistas - ou simplesmente quem discorde deles - de fascistas?

Porque este é o seu grande "argumento". Afinal de contas, quem é que leva a sério um fascista? "Você não tem a
obrigação de ouvir um argumento de um fascista (...)". É por isso que Al Gore e muitos outros ambientalistas têm
tanta facilidade em comparar os céticos a respeito do aquecimento global àqueles que negam a existência do
Holocausto.

2. O que se tornou, enfim, a palavra fascista?

Um sinônimo de herege. Atualmente, significa algo "não desejado", como notou, em 1946, George Orwell. A
esquerda usa outras palavras com significados menos elásticos com o mesmo intuito: "racista", "homófobo",
"sexista" e, pasmem, "cristão".

3. A era dos debates acabou?

Bom, este seria o sonho dourado dos esquerdistas. Mas quem seria contra a "guerra contra a pobreza", "guerra
contra o aquecimento global"? Exortações deste tipo que encontramos quase diariamente na imprensa são na
verdade "equivalentes morais para a guerra". Os especialistas e os cientistas sabem o que fazer, dizem-nos. Não há o
que debater. Embora numa forma mais gentil e benigna, é a lógica do fascismo.

4. Hoje, nos sentimos confortáveis equiparando racismo e nazismo, não sem razão. Mas por que não se equiparam
racismo e afrocentrismo?

É uma boa pergunta. Afrocentristas do passado, como Marcus Garvey, eram pró-fascistas. A Nação do Islã tem
vínculos com nazistas e sua teologia é himmleriana. Os Panteras Negras são essencialmente fascistas. Não diferem
nada nos seus procedimentos dos camisas-pardas de Hitler.

5. Comparar israelenses a nazistas é injusto?

Injusto e problemático. Não se ouve isso, por exemplo, em relação a grupos como o National Council of La Raza.
Recentemente, Barack Obama indicou para a Suprema Corte a juíza Sonia Sotomayor, integrante deste grupo. "Tudo
pela raça, nada fora da raça". Por que será que quando um homem branco despeja tais sentimentos, ele é fascista,
mas quando um negro diz a mesma coisa, é multiculturalismo?

6. Fidel Castro é um fascista?

Fascista de carteirinha. Mas como a esquerda aprova sua luta contra o imperialismo e ele usa palavras mágicas do
marxismo, então é, segundo a própria esquerda, estúpido chamá-lo de fascista. Mas chamar Reagan de fascista é
bacana. Coisa de gente que pensa.

7. Então o fascismo não é um fenômeno de direita?

Sempre houve a crença de que fascismo e comunismo estão em polos opostos. Nada mais falso. Historicamente,
sempre competiram pelas mesmas bases, buscando controlar o mesmo espaço social. Em termos de teorias e
práticas, as diferenças são mínimas. Essa crença de que eram coisas diferentes foi um truque intelectual "vermelho"
- e muito bem sucedido.

8. Tanto o comunismo quanto o fascismo atraíram seguidores no Ocidente. Por quê?

Porque eram movimentos internacionais. Vivíamos um momento fascista no começo do século XX, sobretudo depois
da Primeira Guerra Mundial. Este momento fascista reuniu vários elementos que compunham a política e culturas da
Europa: ascenção do nacionalismo, o Estado de bem-estar social de Bismarck, o colapso do Cristianismo como fonte
de ortodoxia social e política. Em lugar do Cristianismo, foi oferecida uma nova religião: o Estado divinizado e a
nação como comunidade orgânica.
9. Mas por que o nazismo passou a ser mal visto?

Por causa do Holocausto. Depois do massacre alemão, não era chique louvar Hitler e Mussolini como muitos
progressistas haviam feito nas décadas de 20 e 30. O fascismo era visto como um movimento social progressista.
Depois disso, ninguém queria se ver ligado a um nacionalismo extremista e genocida. A partir daí, a esquerda
redefiniu o fascismo como coisa de gente "de direita" e projetaram seus pecados sobre os conservadores. Mas não
deixaram de tomar emprestados alguns dos pensamentos fascistas e pré-fascistas até hoje.

10. O presidente Lula disse que na Venezuela, existe "democracia até demais". Também pensavam assim, em
relação á Alemanha, alguns americanos na década de 20?

Claro. Os pais do New Deal achavam que o fascismo parecia uma ideia bastante boa, um experimento que valia a
pena fazer. O escritor progressista W. E. B DuBois achava que o nazismo era necessário para pôr em ordem o Estado.
Em 1937, ele fez um discurso no Harlem dizendo que em alguns aspectos, havia mais democracia na Alemanha do
que em anos passados. Não é praticamente a mesma coisa?

11. Um dos temas mais polêmicos do livro de Jonah Goldberg é quando ele afirma que, durante a Primeira Guerra
Mundial, os Estados Unidos tornaram-se um país fascista.

Sim, a primeira aparição do moderno totalitarismo não aconteceu nem na Itália e muito menos na Alemanha. Pelo
menos temporariamente, foi nos Estados Unidos. Mais precisamente no governo do democrata Wodroow Wilson.
De que forma se poderia descrever um país que criou o primeiro Ministério da Propaganda? Um país onde milhares
de prisioneiros políticos foram assediados, espancados, espionados e jogados na prisão simplesmente por
expressarem opiniões privadas? Um país onde o presidente acusava imigrantes estrangeiros de injetarem um
"veneno" traiçoeiro na corrente sanguínea americana? Um país onde jornais e revistas eram fechados, onde 1000
mil agentes de propaganda do governo se misturaram com o povo para mobilizá-lo para a sua guerra e onde 25%
dos capangas recebeu autoridade legal para intimidar e espancar "desertores" e dissidentes?

12. Por que os progressistas americanos ficaram impressionados com os experimentos de Mussolini e Lênin?

Porque se reconheceram em termos filosóficos, organizacionais e políticos. Eram militaristas, fanaticamente


nacionalistas, imperialistas, racistas, profundamente envolvidos na promoção da eugenia darwiniana, adoravam o
Estado de bem-estar social de Bismarck e eram estatistas além da medida moderna.

13. Neste sentido, a Revolução Francesa poderia ser chamada de fascista?

Claro. Como alguém pode duvidar disso? Ela foi totalitária, terrorista, nacionalista, conspiratória e populista.
Produziu os primeiros ditadores modernos: Robespierre e Napoleão. A paranoia do regime jacobino transformou os
revolucionários em pessoas mais selvagens e cruéis do que o rei que haviam destituído.

14. Se a Revolução Francesa era fascista então seus principais herdeiros, os esquerdistas, são frutos dessa árvore
envenenada?

Exatamente. E isso coloca corretamente o fascismo no lugar que lhe cabe na história da esquerda. Mas isso causaria
uma desordem sísmica na visão de mundo esquerdista. Por isso, adotam a dissonância cognitiva e recorrem a um
golpe de mão terminológico.

15. O liberalismo americano [a esquerda] se tornou uma religião política totalitária?

Não necessariamente orwelliana, mas que é totalitária, não resta dúvida. A esquerda não vê hoje nenhuma área da
vida humana que não possua significância política, desde o que você fuma, o que você come e o que você diz. Sexo é
política. Comida é política. Esportes, divertimento, tudo tem importância política para os fascistas de esquerda. Eles
depositam sua fé em especialistas alçados à categoria de sacerdotes que sabem o que é bom pra nós, que planejam,
exortam, molestam e censuram. Tentam usar noções científicas para desacreditar noções tradicionais de
religiosidade, mas usam a desculpa do pluralismo e da espiritualidade para defender crenças "não tradicionais". Tal
como os fascistas clássicos, os fascistas liberais falam de uma Terceira Via, nada de direita ou esquerda, onde só
haverá coisas boas e as escolhas difíceis são escolhas falsas.

16. Essa cruzada New Age pela saúde, contra o cigarro e a obsessão pelos direitos dos animais não é uma coisa
nova...

De forma alguma. Ninguém contesta que esses modismos sejam um produto da esquerda cultural e política. Mas
poucos querem ver que nada disso é inédito. Himmler era ativista de carteirinha dos direitos dos animais e um
promotor agressivo da "cura natural". Rudolph Hess, adjunto de Hitler, divulgava homeopatia e ervas medicinais.
Hitler queria transformar toda a nação alemã em vegetariana para rebater a dieta pouco saudável do capitalismo.
Dachau possuía o maior laboratório do mundo de pesquisa na área de medicina alternativa. Um manual hitlerista
proclamava que a nutrição não era um assunto privado. Não soa atual, a partir do momento em que isso ecoa
noestablishment da saúde pública atual?

17. Qual a definição, então, de fascismo de Goldberg?

Fascismo é uma religião de Estado. Ele presume a unidade orgânica do corpo político e almeja um líder nacional
afinado com a vontade popular. Assume responsabilidade por todos os aspectos da vida, como saúde e bem-estar e
busca a uniformidade de pensamento e ação: seja pela força, por meio de regulações e pressão social. Qualquer
dissenso é problema e, portanto, inimigo.

18. Mussolini e Lênin se encontraram alguma vez?

Isso é discutido até hoje. Mas o fato é que se admiravam mutuamente a ponto de Lênin achar que Mussolini era o
único revolucionário de verdade na Itália.

19. Hitler e Mussolini?

Discordavam em vários pontos acirrada e abertamente. Mussolini ameaçou um confronto militar com Hitler para
salvar a Áustria fascista de uma invasão nazista em 1934. Mussolini ridicularizava o racismo nazista e duvidava que
os alemães pudessem formar um raça pura. Ele dizia que tinha até certa comiseração para as doutrinas nazistas,
porque os alemães descendiam de um povo que não sabia ler nem escrever e que nunca registrara a própria vida
numa época em que Roma tinha César, Virgílio e Augusto.

20. Quem apoiou os nazistas?

A ideia de que as classes dominantes e a burguesia fossem os vilões dessa história é pura tendência ideológica, mas
em grande medida, já foi descartada. O nazismo e o fascismo eram dois movimentos populares e contavam com o
apoio de vários extratos da sociedade. Os nazistas subiram ao poder explorando uma retórica anticapitalista na qual
acreditavam. Se a esquerda é a mudança e a direita é a manutenção do status quo, então Hitler era de esquerda, um
revolucionário. Sua plataforma pregava reforma agrária, abolição da renda por juros, nacionalização das indústrias,
expansão dos serviços de saúde, abolição do trabalho infantil, pensão para idosos, garantia de emprego e educação
universal.

21. Houve um período de repressão progressista às liberdades civis no governo Wilson?

Os liberais tendem a reclamar da Era McCarthy. Dizem que foi o período mais obscuro da história americana depois
da escravidão. É verdade: sob o mccarthismo, alguns escritores de Hollywood que apoiaram Stálin e mentiram sobre
isso perderam seus empregos na década de 1950. Mas nada se compara ao que o governo Wilson e seus
progressistas impuseram à América. Sob a Lei de Espionagem e a Lei de Sedição, qualquer crítica ao governo, mesmo
em sua própria casa poderia lhe render uma sentença de prisão. A delação foi incentivada. Os integrantes da Liga
Protetora da América ficaram encarregados de ficar de olho em seus vizinhos, colegas de trabalho e amigos.
Chegavam a ler suas correspondências. A Patrulha Vigilante Americana espancava os que se recusavam a se alistar
no Exército. Eram fascistas praticamente oficiais.
22. Havia alguma semelhança entre Hitler e Franklin Roosevelt?

A bajulação do Homem Esquecido. Havia também apelos populistas ao ressentimento contra os "tubarões",
"banqueiros internacionais", "realistas econômicos". Hitler e Mussolini eram mais demagogos que FDR, mas este
percebeu a magia de tais apelos. FDR se preocupava com o homem comum. Mas Hitler também. Existem inúmeros
trabalhos mostrando que o "New Deal de Hitler" não era apenas semelhante ao de FDR, mas foi mais generoso e
bem sucedido.

23. Mas as instituições americanas, que já eram sólidas, travaram projetos de Roosevelt?

Não. FDR gravava secretamente suas conversas, usava o serviço postal para punir seus inimigos, mentiu repetidas
vezes para levar o país à guerra - lembra alguém? - e em diversas vezes solapou os poderes do Congresso de fazer
guerra. Em 1932, quando foi alertado que muitas disposições do New Deal eram inconstitucionais, deu de ombros.
Ele encheria a Suprema Corte com seus cupinchas. Em 1942, disse para quem quisesse ouvir que se o Congresso não
fizesse o que ele queria, ele o faria de qualquer modo. Ele questionava o patriotismo de qualquer um que se
opusesse à guerra. E criou o complexo industrial-militar que tantos de esquerda atualmente denigrem como fascista.

24. A agitação e a rebeldia dos anos 60 eram um acontecimento inédito?

Nem de longe. A cultura da juventude alemã dos anos 1920 (!!!) e no início da seguinte estava cheia de rebelião,
misticismo ambiental, idealismo, uma não pequena dose de paganismo e viam a vida familiar como repressiva e
falsa. E eram igualmente intolerantes como os jovens dos anos 60. Professores que não aceitavam sua rebeldia eram
perseguidos, vaiados, denunciados. Administradores que tentavam bloquear ou punir suas travessuras eram alvos
de protestos maciços e eles achavam que estavam lutando contra o conservadorismo. Queriam governar as
universidades o que, para um acadêmico tradicionalista, significava entregar a direção do hospício nas mãos dos
loucos.

25. A esquerda continua dizendo que o bacilo do fascismo corre nas veias da direita.

Bom, as principais correntes do pensamento conservador, salvo raras exceções, derivam de campeões do
Iluminismo: John Locke, Adam Smith, Montesquieu, Burke. Nenhuma delas com o vínculo intelectual direto com o
nazismo ou com Nietzsche ou com o niilismo, o existencialismo e muito menos com o pragmatismo. Enquanto isso,
as fileiras dos intelectuais de esquerda estão coalhadas de pensadores derivados diretamente da tradição fascista. E
tudo o que se requer é a palavra mágica "marxista" para absolver a maior parte deles. Foucault celebrou a Revolução
Islâmica do Irã e a ditadura dos mulás. Marcuse era um protégé de Heidegger e tornou-se o líder do brain trust da
Nova Esquerda. Carl Schmitt, um grotesco filósofo nazista, está entre os mais chiques intelectuais da esquerda atual.

26. Pode-se dizer que muitas coisas que se pensam sobre JFK estão erradas?

É claro. A começar pela ideia de que se ele não tivesse morrido, os americanos sairiam do Vietnã. Kennedy era um
anticomunista ferrenho e um falcão da Guerra Fria. Fez campanha falando de um fictício "hiato de mísseis" alegando
uma suposta inferioridade americana em relação aos mísseis soviéticos. Com isso, conseguiu passar para a direita de
Nixon no que diz respeito à política externa. Tentou derrubar Fidel Castro, levou o mundo à beira de uma guerra
nuclear. Foi alçado a um dos líderes pelos direitos civis, mas afirmou que "não perdia o sono com o problema dos
negros". Kennedy era um obcecado por crises. Nos seus primeiros oito meses, foram dezesseis. Isso demonstra os
perigos da paixão fascista na política democrática. A tensão com os soviéticos ele mesmo se empenhou em criar.

27. McCarthy sempre foi demonizado pela esquerda por causa de suas investigações contra comunistas?

Depende. O problema é que comunistas e liberais - aqui no sentido de esquerdistas - sempre fizeram concessões às
táticas de McCarthy quando quem estava sendo frito eram seus inimigos. Os próprios comunistas usaram isso para
prender trotskistas americanos durante a guerra. O Comitê de Atividades Antiamericanas foi fundado por um
progressista, Samuel Dickinson, para investigar a atividade de simpatizantes da Alemanha. Poucos se lembrar que
McCarthy tinha origem em bases progressistas.
28. E a Escola de Frankfurt?

Simplificando: foi ela quem sistematizou a ideia de que quem era anticomunista só podia ser louco. Adorno,
Horkheimer, Erich Fromm e Marcuse tentaram explicar por que o fascismo era mais popular que o comunismo.
Tomando emprestado de Freud e Jung, a Escola de Frankfurt descrevia o naszismo e o fascismo de psicose de
massas. Isto era plausível, mas sua análise sustentava que, como o marxismo era objetivamente superior àquelas
alternativas, as massas, a burguesia e qualquer um que discordasse dos marxistas tinha de estar, literalmente, louco.

29. Adorno dizia que as pessoas conservadoras precisavam de terapia?

Em seu livro "A personalidade autoritária", Adorno dá conceito F, de fascismo, às pessoas com visão conservadora e
precisavam de terapia. A explicação original dos marxistas era que o fascismo se tratava da reação da classe
dominante capitalista diante da ascensão das classes trabalhadoras. O que é falso. A Escola de Franfurt habilmente
psicologizou isso. Homens que não saberiam lidar com o "progresso" respondem violentamente porque possuem
personalidades autoritárias. Assim, quem discorde dos liberais, do escopo e do seu método está padecendo de um
deficiência mental, comumente conhecida como fascismo.

30. A esquerda nem sempre renega o populismo.

É verdade. Quando o populismo vem da esquerda, como no caso de Chávez, ela o ama. Mas quando os desejos
populistas do povo se contrapõem à agenda da esquerda, subitamente palavras carregadas como "reação",
"extremismo" e, é claro, "fascismo" são disparadas a torto e a direito. [À guisa de explicação foi exatamente o que
aconteceu depois da derrota da esquerda no referendo sobre o desarmamento. De uma hora pra outra, o povo tinha
"desaprendido" a votar. Só reaprendeu ao reeleger Lula, claro.]

31. A direita americana é constantemente instada a assumir os capítulos mais negros da história do país: os
acordos segregacionistas, os excessos mccarthistas, o isolacionismo na Segunda Guerra e assim por diante. Isso é
correto?

Raramente se menciona o lado da esquerda nessas histórias. O Partido Democrata abrigou leis e práticas
segregacionistas, conhecidas nos Estados Unidos como Jim Crow durante um século. A Ku Klux Klan tem raiz
democrata. O liberalismo americano era tão isolacionista quanto o conservadorismo. A histeria progressista contra
os comunistas, com o Red Scare, fazia o mccarthismo parecer debate de universidade. Os sucessivos presidentes
democratas ordenaram a detenção de sino-americanos, a disseminação da vigilância doméstica de inimigos políticos
e o uso de bombas atômicas contra o Japão. Os comunistas leais a Moscou deduravam trotskistas heréticos. Falta
perguntar por que o progressismo - e não o conservadorismo - era tão favoravelmente inclinado à eugenia.

32. Por falar em eugenia, muitos intelectuais famosos eram a favor dela.

Sim. Bernard Shaw, H. G. Wells, John Maynard Keynes, Aldous Huxley. Todos eram a favor da eugenia. Os
progressistas, e aqui falamos dos Estados Unidos, viviam obcecados pela "saúde racial" da nação, supostamente
ameaçada por ondas crescentes de imigração e pela superpopulação de americanos nativos. Muitos dos projetos
progressistas de destaque, desde a Lei Seca até o movimento pelo controle de natalidade, baseavam-se nessa busca
de soluções para domesticar a besta demográfica. O conservador católico Chesterton foi submetido a um implacável
desprezo por sua oposição à eugenia. [Observação: político sul-americano importante, Salvador Allende, tão
endeusado pelas esquerdas, era eugenista.]

33. Isso quer dizer que é impossível não ver o progressismo como um empreendimento fascista - pelo menos de
acordo com os padrões que usamos hoje?

Os historiadores liberais reconhecem consensualmente que o progressismo resiste a uma definição fácil. Mas a
explicação talvez seja simples: identificar o progressismo de forma adequada seria muito inconveniente para a
esquerda, pois isso exporia seu projeto eugênico.
34. Como a esquerda contesta sua proximidade com a eugenia?

Seus representantes dizem que os progressistas da época apenas eram homens de seu tempo. Mas essa é uma
explicação que não resiste a uma análise mais profunda.

35. Por quê?

Em primeiro lugar, os eugenistas progressistas tinham adversários que não eram progressistas e eram antieugênicos:
conservadores prematuros, libertários radicais e católicos ortodoxos - gente que os progressistas chamavam de
retrógrados e reacionários.

Em segundo lugar, argumentar que progressistas eram produtos de seu tempo simplesmente reforça meu
argumento de que o progressismo foi gerado num momento fascista e nunca quis encarar sua herança.

Enquanto a esquerda continua cega às ameaças fascistas que vêm de suas próprias fileiras, continuam atacando os
dogmas religiosos e os políticos conservadores. Quem rejeita a clonagem? Quem se sente mais incomodado com a
eutanásia, o aborto e o ato de brincar de Deus em laboratório? Uma nação conservadora de verdade, coisa que já
não somos, nem ficaria se perguntando se destruir um blastócito ou um feto de oito meses é um assassinato.
Quanto mais bebês defeituosos.

36. Ainda falando em eugenia, qual a principal linha divisória entre os progressistas em relação ao assunto?

Esta linha não era entre eugenistas e não eugenistas ou entre racistas e não racistas. Era entre defensores da
"eugenia positiva" e da "eugenia negativa", entre aqueles que se chamavam humanistas e aqueles que subscreviam
as teorias de suicídio da raça, entre ambientalistas e deterministas genéticos.

37. O que defendiam os "eugenistas do bem"?

Defendiam a ideia de que bastaria encorajar, bajular e subsidiar os mais aptos para que se reproduzissem mais e os
não aptos para que se reproduzissem menos.

38. O que defendiam os "eugenistas do mal"?

Operavam ao longo do espectro que ia desde a esterilização forçada até o aprisionamento, pelo menos durante os
anos reprodutivos.

39. E quanto aos ambientalistas?

Eles enfatizavam que a melhoria das condições materiais das classes degeneradas melhoraria seu infortúnio. Já os
teóricos do suicídio da raça acreditavam que linhagem e classes inteiras de pessoas estavam além da possibilidade
de salvação.

40. E quanto aos oponentes da eugenia?

Eram os conservadores. Os progressistas os chamavam de "darwinistas sociais". Foi o termo que usaram para
descrever qualquer um que se opusesse à noção de que o Estado deve "interferir" agressivamente na ordem
reprodutiva da sociedade. Na lógica artificial da esquerda, aqueles que se opunham à esterilização forçada dos
"inaptos" e dos pobres eram os vilões, pois deixavam um "estado de natureza" reinar entre as classes inferiores. A
instituição que mais se destacou no combate à eugenia foi a Igreja Católica. Foi a sua influência na Itália que tornou
o fascismo menos obcecado pela eugenia que os progressistas americanos e os nazistas.

41. E a Klu Klux Klan?

O rótulo de fascista dado á KKK faz bastante sentido. Já o de direitista, não. A Klan da Era Progressista, surgida na
segunda década do século XX, não era a mesma Klan que surgira em 1865, depois da Guerra Civil. Era uma coleção
frouxa de organizações independentes que se espalhavam pelos Estados Unidos. O que as unia, além do nome e dos
trajes absurdos, era que todas se inspiravam no filme “O nascimento de uma Nação”. Eram, na realidade, uma
“subcultura repulsiva” de fãs do filme.

42. E a KKK da década de 1920?

Esta era vista como reformista e moderna, e tinha uma relação íntima com alguns elementos progressistas do
Partido Democrata. O jovem Harry Truman, bem como Hugo Black, futuro juiz da Suprema Corte, estavam entre os
seus integrantes. E a KKK era menos racista do que a academia.

43. Em que se sustenta hoje o liberalismo [a esquerda] nos Estados Unidos?

Ela se sustenta em três pilares: apoio ao Estado de bem-estar social, aborto e política de identidade. Obviamente,
esta é uma formulação grosseira. O aborto, por exemplo, poderia ser integrado à política de identidade, já que o
feminismo é um dos credos que exaltam a “jaula de ferro” (no sentido weberiano) da identidade.

44. O maior recurso da esquerda em discussões sobre racismo, sexismo e o papel do governo de modo geral é a
suposição implícita de que as intenções da esquerda são melhores e mais elevadas do que as do
conservadorismo.

Tudo pose. O clichê diz: “Os liberais pensam com o coração, e os conservadores pensam com a cabeça.” Mas se
levarmos em conta a história do liberalismo, é claro que essa vantagem é injusta, uma base intectual roubada. Os
liberais podem estar certos ou errados a respeito de determinada política, mas a suposição de que estão
automaticamente defendendo a posição mais virtuosa é pura besteira.

45. Como era o projeto do Estado de bem-estar social americano?

Era um projeto racial e eugênico desde a sua concepção. Os autores progressistas do socialismo do bem-estar social
estavam interessados não em proteger os fracos das devastações do capitalismo, como afirmam os liberais
modernos, mas em extinguir, como ervas daninhas, os fracos e inaptos, para assim preservar e fortalecer o caráter
anglo-saxão da comunidade racial americana.

46. Existe alguma relação entre os progressistas americanos e os nazistas no que diz respeito à saúde moral e
física?

Sim. O bem comum se sobrepõe ao bem privado. Foi essa bandeira que a Alemanha levou a extremos totalitários. A
Lei Seca foi a principal ilustração disso na América e os nazistas olhavam com bons olhos este esforço americano. O
álcool alimentaria a licenciosidade das raças mestiças inferiores. Na Alemanha, a principal preocupação era que o
álcool e os ainda mais desprezados cigarros levassem à degenerescência da pureza ariana alemã. O tabaco recebia o
crédito por todos os males imagináveis, inclusive de promover a homossexualidade.

47. Margaret Sanger é considerada uma santa liberal, uma santa de esquerda, uma fundadora do feminismo
moderno. Foi a fundadora também do movimento pelo controle da natalidade e da Planned Parenthood, que todo
ano concede os Prêmios Maggie a esquerdistas famosos. Estar do lado dela é estar do lado “certo”?

Depende. Margaret Sanger era uma completa racista. Sob a bandeira da “liberdade de concepção”, Sanger apoiou
todas as bandeiras eugênicas. Buscou proibir a reprodução de inaptos e regular a reprodução de todas as pessoas.
Ela escarnecia da abordagem cautelosa de eugenistas “positivos”, ridicularizando-os como mera “competição pelo
berço”. Até hoje seus admiradores tentam minimizar este seu lado. Aliás, ficam ansiosos por isso. Talvez para se
acharem do lado “certo”…

48. E conseguem?

Só fazendo um esforço muito grande. Uma pessoal imparcial não pode ler os livros, artigos e panfletos de Sanger
sem encontrar semelhanças com a eugenia nazista. Ela publicava textos com o tipo de racismo extremado que
associamos a Goebbels ou Himmler. Sua revista, Birth Control Review, apresentava os nazistas sob uma luz positiva.
Publicava artigos de Ernst Rüdin, o diretor de esterilização de Hitler e um dos fundadores da Sociedade Nazista para
a Higiene Racial.

49. Qual foi a razão do sucesso de Sanger?

Foi promover a campanha pelo controle social associando a campanha racista-eugênica a prazer sexual e liberação
feminina. Em seu “Código para parar a superprodução de crianças”, de 1934, ela decretou que “nenhuma mulher
terá o direito legal de gerar um filho sem permissão… Nenhuma permissão será válida para mais de um filho.” Ela
argumentava que a maternidade era uma restrição socialmente imposta à liberdade das mulheres.

50. O que foi o Projeto Negro de Sanger?

Em 1939, ela contratou ministros negros por meio da Federação de Controle da Natalidade. Contratou também
médicos e outros líderes para podar a supostamente excessiva população negra. A intenção racista está acima de
qualquer dúvida. Ela afirmava:

A massa de significativo número de negros ainda se reproduz descuidada e desastrosamente, e isso resulta em que o
número de negros ocorra naquela porção de população menos inteligente e apta.

Hoje, a intenção de Sanger pode parecer chocante, mas ela reconhecia seu extremo radicalismo. É possível que
Sanger não quisesse “exterminar” os negros. Mesmo assim, muitos negros viram o projeto desse modo e
começaram a lançar suspeitas sobre o projeto. Em 1977, uma pessoa que via a relação, por exemplo, entre aborto e
raça de uma perspectiva menos confiante, mandou um telegrama ao Congresso para dizer que o aborto era o
mesmo que “genocídio contra a raça negra”. E acrescentou em caixa alta: “POR UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA,
TENHO QUE ME OPOR AO USO DE FUNDOS FEDERAIS PARA UMA POLÍTICA DE MATAR CRIANCINHAS”. O nome dessa
pessoa era Jesse Jackson. Talvez seja desnecessário dizer que ele mudou de posição sem o menor problema quando
decidiu disputar a indicação do Partido Democrata.

51. De onde vem a ideia de que os “valores de família” são fascistas?

Ela possui uma longa genealogia, remontando, mais uma vez à Escola de Frankfurt. Max Horkheimer argumentava
que a raiz do totalitarismo nazista era a família. Mas a verdade não poderia estar mais distante disso. Embora a
retórica nazista frequentemente mostrasse deferência à família, a prática concreta do nazismo era compatível com o
esforço progressista de invadir a família, romper suas paredes, destruir sua autonomia. A família tradicional é a
inimiga de todos os totalitarismos políticos porque é um bastião de lealdades separado do Estado e anterior a ele,
razão pela qual os progressistas estão constantemente a quebrar sua casca.

52. Havia, por parte do nazismo, hostilidade contra o Cristianismo?

Basta ler Table talk, livro de Hitler. Mais claro que isso é impossível, sobretudo no quis respeito à sexualidade. O
Cristianismo, junto com o Judaísmo, rejeitava a visão pagã de sexo como gratificação, atribuindo-lhe significado
moral. Ao ler o livro é quase impossível não ver Hitler como um livre-pensador de mente aberta. Ele diz: “O
casamento, tal como praticado na sociedade burguesa, é, em geral, uma coisa contra a natureza”. E continua: “A
religião está em perpétuo conflito com o espírito de livre indagação”. E mais: “Para nós, a catástrofe é estarmos
amarrados a uma religião que se rebela contra todos os prazeres dos sentidos.” Hitler tinha profundo desprezo pelos
preconceitos sociais que condenam os nascimentos fora do casamento: “Eu amo ver essa exibição de saúde à minha
volta.”

53. E a posição dos nazistas em relação ao homossexualismo?

Essas atitudes ainda são fonte de confusão. É verdade que muitos homossexuais foram enviados à campos de
concentração, mas também é fato que o Partido Nazista e as organizações pangermânicas ao seu redor estavam
cheias de homossexuais. O chefe das SA, Ernst Rohm era homossexual assumido. Quando integrantes ciumentos das
SA tentaram usar esse fato contra ele em 1931, Hitler disse: “A homossexualidade de Rohm é puramente privada”.
54. O que há de fascismo no ambientalismo?

Com certeza, não são suas etéreas e obscuras suposições metafísicas a respeito do infortúnio existencial do homem.
Em vez disso, seu ingrediente fascista mais tangível é o fato de ser um inestimável “mecanismo de crise”. Al Gore
constantemente insiste em que o aquecimento global é a crise definidora de nossos tempos. Céticos são chamados
de traidores, negadores do Holocausto, instrumentos de interesses escusos. Alternativamente, ambientalistas
progressistas apresentam-se no papel de samaritanos protetores. Gore afirma que não tempo para debates, para
nenhum tipo de discussão. Em termos práticos, isso significa que precisamos nos render ao Estado-babá global e
criar o tipo de “ditadura econômica” pela qual anseiam os progressistas.

55. Nesta questão de ambientalismo, os nazistas saíram na frente de novo?

Sim. Eles foram os primeiros a usar a luta contra a poluição do ar, a criação de reservas naturais e a necessidade de
reflorestamento como pontos centrais de sua plataforma.

56. Afinal, o que defende um conservador?

Basicamente é alguém que defende e protege o que são consideradas instituições liberais, mas não no sentido
americano, e sim europeu, mas que são consideradas conservadoras nos Estados Unidos. Propriedade privada,
mercados livres, liberdade de consciência e os direitos das comunidades de determinar por elas mesmas como
viverão no espaço delimitado por essas diretrizes.

57. É correto dizer que os conservadores se opõem ao progresso como diz a esquerda?

Claro que não. Os conservadores americanos não se opõem à mudança nem ao progresso. Nenhum conservador que
restaurar a escravidão ou acabar com o papel-moeda. Mas o que o conservador acredita é que o progresso resulta
da resolução das inconsistências dentro de nossa tradição, e não de jogá-la fora.

58. Qual é a maior ameaça dentro disso tudo?

A mais grave é que estamos perdendo a noção de onde a política começa e onde ela termina. Numa sociedade na
qual se se supõe que o governo deva fazer tudo de “bom” e tenha sentido “pragmático”, numa sociedade na qual se
recusar a validar a autoestima de outra pessoa é quase um crime de ódio, numa sociedade na qual o que é pessoal é
político, existe o perigo constante de que um culto ou outro seja imbuído de poder político.