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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA

ESCOLA AGROTÉCNICA DA UFRR


CURSO TÉCNICO EM AGROPECUÁRIA
PROF: Jandiê Araújo da Silva

OLERICULTURA GERAL

BOA VISTA-RR
2010
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1. INTRODUÇÃO À OLERICULTURA

1.1. O CAMPO DA OLERICULTURA

A Olericultura é um termo técnico-científico, muito preciso, utililizado no meio


agronômico. Derivado do latim (oleris, hortaliça, + colere, cultivar), refere-se à
ciência aplicada, bem como ao estudo da agrotecnologia de produção das culturas
oleráceas.

A palavra hortaliça refere-se ao grupo de plantas que apresentam, em sua


maioria, as seguintes características:
- consistência tenra, não lenhosa;
- ciclo biológico curto;
- exigência de tratos culturais intensivos;
- cultivo em áreas menores, em relação às grandes culturas; e
- utilização na alimentação humana, sem exigir prévio preparo industrial.

Popularmente, as hortaliças ou a sua parte utilizável são chamadas,


impropriamente, de “verduras” e “legumes”. Desse modo, em vez de uma única
palavra correta, as pessoas utilizam duas, ambas imprecisas e incorretas. Observe-
se que, além das plantas vulgarmente conhecidas como legumes e verduras, do
ponto de vista agronômico também são incluídos na olericultura: batata-doce,
melancia, melão, milho-verde e morango.
A olericultura, conforme o interesse a quem a ela se dedica, pode ser vista
como atividade agroeconômica, ciência aplicada, recreação educativa, ou como
fonte de alimento relevante para a nutrição humana. Aos olericultores empresariais,
extensionistas rurais, agentes da assistência técnica e estudantes de ciências
agrárias interessaria mais de perto o primeiro enfoque; já o pesquisador agrícola
optaria pelo segundo; a professora de ensino fundamental consideraria o terceiro; e
o nutricionista, ou mesmo a dona-de-casa esclarecida, consideraria o último
aspecto.
É importante notar que os termos técnicos olericultura e horticultura não são
sinônimos, tendo um segundo um significado muito mais abrangente, não devendo
substituir o primeiro, como ocorre na fala popular. Assim, em países europeus, de

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antiqüíssima tradição agrícola, bem como nos Estados Unidos, o termo horticultura
engloba a produção de plantas muito diversificadas.
O tipo de produção intensiva de plantas praticado no hortus medieval – local
murado e próximo à residência – foi denominado horticultura. Em contraposição
havia a agricultura (de agris, campo), referindo-se à produção extensiva de trigo e
outros cereais. Portanto, inclui-se na horticultura a produção de plantas utilizadas na
alimentação humana, bem como aquelas empregadas com finalidade estética, para
aprimoramento do sabor dos alimentos ou para fins medicinais.
O termo técnico fitotecnia (de fiton, planta) é ainda mais abrangente,
referindo-se à agrotecnologia praticada na produção de plantas muito diversificadas
– úteis ao bem-estar humano. Tais plantas podem ser agrupadas em 4 grandes
ramos, por sua vez subdivididos em outros mais particularizados, obtendo-se o
seguinte esquema didático:

Grandes culturas: produtoras de grãos, fibras e estimulantes

Olericultura: hortaliças
Fruticultura: fruteiras
Floricultura: flores
Jardinocultura: plantas ornamentais
Horticultura
FITOTECNIA Viveiricultura: mudas em geral
Cultura de plantas condimentares
Cultura de plantas medicinais
Cultura de cogumelos comestíveis

Silvicultura: espécies florestais


Forragicultura: pastagem e forrageiras

Conforme ficou evidenciado, a olericultura é o ramo da horticultura que


abrange o estudo da produção das culturas oleráceas. Note-se que tal abrangência
não é pequena, visto que tais culturas englobam quase uma centena de plantas
alimentícias no mundo ocidental.
1.2. CARACTERÍSTICAS DO AGRONEGÓCIO

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a) Atividade altamente intensiva

A característica mais geral e marcante do agronegócio da produção de


hortaliças é o fato de ser uma atividade agroeconômica altamente intensiva, em
seus mais variados aspectos, em contraste com outras atividades, extensivas, como
a produção de grãos. Desse modo, há o emprego contínuo do solo de uma gleba,
com vários ciclos culturais, que se desenvolvem em seqüência.
As atividades de campo são realizadas nas 4 estações do ano. Em olericultura,
o chamado “ano agrícola” – termo utilizado por produtores de grãos – se confunde
com o ano civil. Costuma-se dizer que o olericultor é um agricultor que não tem
sossego, em tempo algum, nem direito a feriado e férias.

b) Alto investimento

A olericultura exige alto investimento por hectare explorado, ou seja, alto


“input”, em termos físicos e econômicos. Em contrapartida, possibilita a obtenção de
elevada produção física e alta renda (bruta e líquida), por hectare cultivado e por
hectare/ano, ou seja, alto “output”. É notória a obtenção de substancial volume físico
de produção, concentrado em pequena área, inclusive a alta eficiência na utilização
do espaço físico bi ou até tridimensional (no caso de culturas tutoradas). Quanto à
produtividade, por hectare ou hectare/ano, a olericultura destaca-se em relação às
demais opções agroeconômicas.

c) Ciclo curto

O ciclo das culturas oleráceas é geralmente curto. A maioria das espécies é de


ciclo anual; algumas são bienais – exigem um período de frio entre as etapas
vegetativa e reprodutiva; e muitas poucas são perenes. Por exemplo, uma mesma
gleba, ao longo de um ano civil, pode ser utilizada com 3 tomatais transplantados,
ou 6 culturas de alface propagadas por mudas, ou ainda 12 semeaduras diretas de
rabanete. Compare-se isso com as culturas produtoras de grãos, que utilizam o
terreno uma só vez, normalmente, ou duas, no máximo. A obtenção de mais de uma

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safra, anualmente e na mesma gleba, eleva o rendimento físico e econômico da


olericultura.

d) Tamanho reduzido da área física

O agronegócio da produção de hortaliças também se identifica pelo tamanho


mais reduzido da área física ocupada, porém intensivamente utilizada, tanto no
espaço como no tempo. O menor tamanho das culturas facilita o aprimoramento nos
tratos culturais, que são intensivos e sofisticados. Esse aprimoramento se observa
mesmo em plantios mais extensos, como ocorre em culturas com finalidade
agroindustrial.

e) Apurada agrotecnologia

A olericultura requer apurada agrotecnologia, sempre em constante evolução.


Viabiliza e exige artifícios tecnológicos refinados, que seriam antieconômicos em
outros tipos de agronegócio. É o caso de produção de mudas em bandejas,
polinização manual de flores, raleamento de frutinhos, desbaste de plantas em
excesso, irrigação por gotejamento, fertirrigação (aplicação de nutrientes dissolvidos
na água), cultura em casa de vegetação e o máximo de sofisticação: hidroponia, que
é a cultura sem utilização de solo. São numerosos os tratos culturais (irrigação,
tutoramento, desbaste, poda, capina etc.). Também é intensiva a utilização de
insumos agrícolas modernos (sementes, defensivos, fertilizantes, agrofilmes etc).
Além disso, torna-se necessário o uso de instalações, equipamentos e implementos
especializados, como galpões para beneficiamento, câmaras frigoríficas, casas de
vegetação, tratores semeadeiras, adubadeiras, transplantadeiras etc.

f) Utilização intensiva de mão-de-obra

É notória a utilização intensiva de mão-de-obra rural em olericultura,


certamente acarretando significativos benefícios do ponto de vista social,
contribuindo para diminuir o desemprego – uma das pragas da economia
globalizada desse início de século. Desse modo, utiliza-se um número elevado de
“serviços” por hectare trabalhado e por propriedade. Um “serviço” corresponde ao

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trabalho desenvolvido por um operário adulto durante sua jornada normal de


trabalho, apenas utilizando as mãos e ferramentas manuais.

g) Aproveitamento de terras problemáticas

A olericultura viabiliza o aproveitamento agrícola de glebas consideradas


problemáticas. A utilização de tais glebas seria impraticável em outros tipos de
atividade agrícola, do ponto de vista agronômico e, ou, econômico. O fato fica bem
evidenciado quando o terreno se localiza próximo a cidades ou à margem de
rodovias. Assim, torna-se perfeitamente viável o cultivo de hortaliças em terrenos de
baixa fertilidade, muito pobres em nutrientes, desde que criteriosamente corrigidos e
adubados. Glebas com solo pedregoso também podem ser exploradas, com certas
espécies. São viáveis, inclusive, baixadas alagadas, após a necessária drenagem.

h) Atividade agrícola de risco

Finalmente, há de se considerar o fato de o agronegócio da produção de


hortaliças ser uma atividade agrícola de maior risco para o empresário rural, em
relação a outras opções. Isso ocorre em virtude da maior incidência de problemas
fitossanitários, maior sensibilidade às condições climáticas, notória ocorrência de
anomalias de origem fisiológica nas plantas, entre outros problemas.

i) Requer maior capacidade técnico-administrativa

Devido às características peculiares, o agronegócio da olericultura requer


maior capacidade técnico-administrativa do empresário rural no manejo dos fatores
agronômicos e econômicos e, também, a assistência por parte de técnicos
especializados, mais intensivamente em relação a outros agricultores. Obviamente,
o olericultor torna-se mais exigente em relação à qualidade da assistência técnica.

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1.3. TIPOS DE EXPLORAÇÃO EM OLERICULTURA

Conforme a finalidade a que se propõe, o número de espécies, a localização


da base física e a agrotecnologia utilizada, há alguns tipos característicos de
exploração em olericultura.

a) Exploração diversificada

Esta exploração é típica dos chamados “cinturões verdes”, culturas localizadas


na periferia das cidades e próximas aos pontos de comercialização. O olericultor
vende seus produtos aos varejistas, tais como os donos de bancas em feiras,
mercearias, mercadinhos; ou se transforma, ele próprio, em varejista, atingindo
diretamente o consumidor. São olericultores profissionais explorando áreas
pequenas com espécies diversificadas. Esse tipo de exploração tende a sofrer
deslocamentos, motivados pela valorização dos terrenos, em áreas urbanas ou
suburbanas sujeitas à especulação imobiliária.
A interiorização da exploração diversificada, desde que se disponha de
estradas e o transporte não seja por demais oneroso, pode ser uma tendência
auspiciosa. Desse modo, o custo de utilização da gleba, da água necessária e da
energia elétrica torna-se menor; a mão-de-obra rural é mais abundante, mais barata
e melhor qualificada; há maior possibilidade de mecanização, inclusive com
máquinas e implementos simples; e tudo contribui para redução no custo de
produção, por hectare explorado e por tonelada produzida. Além disso, diminui-se a
possibilidade de água contaminada por agentes causadores de doenças tanto em
plantas como em pessoas. Todavia, perde-se a oportunidade de atingir o varejista e,
mais ainda, o consumidor diretamente, em razão da maior distância até os locais de
comercialização.

b) Exploração especializada

Parece ser o tipo de exploração para o qual tende a olericultura nas regiões
mais desenvolvidas, mesmo dentro do Brasil, e nas regiões do 1 o Mundo. Quanto à
área cultivada, a exploração especializada já predomina no centro-sul brasileiro,
onde há menor número de espécies oleráceas, e é comum haver apenas uma ou

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duas sendo produzidas por vez. A agrotecnologia de produção torna-se mais


sofisticada, inclusive com maior utilização de máquinas e implementos. Também é
intensiva a aplicação de insumos agrícolas modernos. A propriedade rural,
geralmente, localiza-se longe dos centros urbanos, porém a produção é escoada por
estradas vicinais ou rodovias.
O olericultor especializado às vezes ocupa grandes áreas com uma só cultura,
inclusive utilizando grau de mecanização comparável ao dos produtores de grãos.
Há produtores que cultivam centenas de hectares com batata, cebola, cenoura,
melão e outras hortaliças. Eles concentram-se nas complexidades da produção, no
campo, não se dedicando à comercialização. Geralmente entregam seu produto a
atacadistas, freqüentemente sediados longe do local da produção. Raramente
vendem a varejistas e, muito menos, procuram atingir o consumidor diretamente.
Esse tipo de produtor é aquele que adota, mais prontamente, as inovações
tecnológicas, também valorizando a assistência agronômica. Graças a sua visão
empresarial, ao espírito de iniciativa e à disponibilidade de recursos, torna-se capaz
de causar grande impacto socioeconômico na região onde atua.

c) Exploração com finalidade agroindustrial

A industrialização de hortaliças é uma atividade que vem crescendo no Brasil


para abastecer os mercados interno e externo. Para fornecimento da matéria-prima
necessária à agroindústria, surgiu um tipo peculiar de exploração especializada. São
extensas culturas cujo grau de mecanização é elevado, sendo as hortaliças
cultivadas de maneira extensiva – também aqui cabendo analogia com a produção
de grãos. Objetiva-se obter considerável volume de produção, a um custo unitário o
mais reduzido possível.
Em algumas regiões brasileiras, esse tipo de exploração vem se expandindo,
para acompanhar a crescente demanda por alimentos industrializados ou
semipreparados, motivada pelo fato de a dona-de-casa também trabalhar fora do lar
freqüentemente e não mais dispor de muito tempo para os trabalhos culinários.
Exemplos típicos são as culturas rasteiras de tomate para obtenção de massa; de
ervilha para produção de grão seco posteriormente reidratado; de pimentão para
obtenção do codimento páprica; de alho-porró para sopas desidratadas; e de
aspargo para enlatamento dos turiões.

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d) Horta doméstica, recreativa ou educativa

É precisamente nesse tipo de cultura que há certo retorno às origens da


olericultura, pois lembra o hortus latino e medieval. Aqui não se trata de uma
exploração agroeconômica, já que o objetivo primordial é aprimorar a alimentação
da família ou da comunidade. Dessa forma, propicia-se a obtenção de hortaliças de
alta qualidade, produzidas com requinte artesanal e em pequena escala.
Tal atividade tem sido desenvolvida nos meios urbano, suburbano e rural e até
em apartamentos, utilizando-se, neste caso, caixas com solo ou mesmo cultura
hidropônica. O mais comum são as hortas tipicamente diversificadas, localizadas em
pequenas áreas, próximas a residências, clubes, escolas, hospitais e dentro de
quartéis e de penitenciárias. Os trabalhos são executados manualmente, com ajuda
de ferramentas simples, por pessoas que se dedicam a outras atividades
profissionais.
No ensino fundamental, a horta educativa pode se tornar um meio excelente de
a professora ilustrar, na prática e de maneira fascinante, os variados aspectos da
Biologia, tornando o ensino mais atraente, motivando as crianças. Bons resultados
também foram obtidos com jovens do meio rural organizados em clubes orientados
por extensionistas – um trabalho educativo infelizmente relegado na época atual. Em
instituições dedicadas à recuperação de pessoas com dependência química –
viciadas em álcool ou em drogas – também o cultivo de hortaliças pode contribuir
como um tipo de terapia.

e) Viveiricultura

A produção de mudas de certas espécies oleráceas, destacando-se tomate,


alface e pimentão, tornou-se um tipo particular de exploração olerácea a partir de
meados da década de 1980. Há agrônomos e agrotécnicos que se dedicam a essa
atividade e fornecem, ao olericultor, mudas com garantia de qualidade, inclusive
fitossanidade.
Para o olericultor que pretende implantar uma cultura pelo plantio de mudas,
há vantagens ponderáveis em deixar essa fase altamente delicada sob os cuidados
de um especialista, como ocorreu há muitas décadas em outros países, como
Holanda e Estados Unidos. No Brasil, a tendência é de que a viveiricultura, além da

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tradicional produção de mudas cítricas e de plantas ornamentais, também produza


mudas de hortaliças, pois é uma atividade altamente lucrativa e mais uma opção
para técnicos agrícolas.

f) Produção de sementes e estruturas vegetativas

A produção de material propagativo, como a semente, é um tipo de exploração


que exige muito mais conhecimento do produtor, em relação à obtenção de
hortaliças para mercado. Grandes empresas produtoras de sementes contratam e
orientam culturas especializadas, inclusive fornecendo a semente básica necessária,
bem como a orientação técnica.
As espécies oleráceas de propagação assexuada, a exemplo de batata,
batata-doce, morango e alho, exigem o plantio de certas estruturas vegetativas.
Estas devem ser produzidas em culturas especialmente orientadas, obedecendo-se
a rigorosas normas de fitossanidade, pois tais estruturas são eficientes veiculadoras
de fitopatógenos. Bons exemplos, no Brasil, são a produção de batata-semente
certificada e de mudas vegetativas de morangueiro, isentas ou com baixo teor de
vírus.

g) Cultivo protegido

Certamente a produção de hortaliças em cultivo protegido, dentro de casas de


vegetação ou de túneis cobertos com agrofilmes, é uma exploração diferenciada das
demais, especialmente em razão da possibilidade de controle de alguns fatores
agroclimáticos. Entretanto, considerando-se as vantagens de ordem agronômica e
econômica, são poucas as espécies oleráceas que se adaptam ao cultivo protegido,
sendo alface, tomate, pimentão, pepino, melão e berinjela aquelas mais
comumentes produzidas.

1.4. RUMOS DA OLERICULTURA BRASILEIRA

A evolução da olericultura acompanha o desenvolvimento geral de uma nação,


sendo mais diretamente influenciada por ele que outras atividades agrícolas. Assim,
é sensível às mudanças sociais, econômicas e culturais, decorrentes da elevação do

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nível de prosperidade geral, da urbanização e da industrialização. O grande


olericultor especializado surge como resposta ao desenvolvimento econômico, que
acarreta incremento na demanda e maior exigência na qualidade dos produtos,
quanto ao aspecto principalmente, mas também ao sabor e à riqueza em vitaminas
e nutrientes minerais.
Quanto mais evoluído um povo, maior e mais diversificado é o consumo de
hortaliças, tanto ao natural como em forma industrializada, fato este claramente
observado nos países desenvolvidos. O nível de consumo relaciona-se não só com
a renda pessoal, que, por sua vez, depende do progresso geral de um país, como
também com o grau de escolaridade e de cultura geral de sua população. Além
disso, a evolução do trabalho braçal para um tipo de trabalho mais leve reduz a
necessidade de alimentos energéticos e pode aumentar a demanda de hortaliças.
Certamente, a evolução da agrotecnologia de produção, resultando no aumento da
oferta e na redução do preço para o consumidor, também tende a elevar a demanda
interna.
A olericultura evoluiu mais acentuadamente no Brasil a partir do início da dec.
de 1940, durante a II Guerra Mundial. Naquela época existiam somente pequenas
explorações diversificadas, localizadas nos denominados “cinturões verdes”, nos
arredores das cidades. A partir de então houve um deslocamento em direção ao
meio rural, estabelecendo-se explorações especializadas em áreas maiores, com
certas culturas. A interiorização certamente deveu-se ao fato de alguns olericultores
buscarem melhores condições agroecológicas ou de ordem econômica, fazendo
com que a olericultura brasileira evoluísse da pequena “horta” para uma exploração
comercial com características bem definidas.
A passagem da “horta” para a olericultura empresarial foi promovida pelos
próprios produtores, sem contarem, de início, com o apoio das entidades oficiais de
pesquisa e de assistência técnica – tradicionalmente voltadas para as “grandes
culturas”. Aqui cabe o reconhecimento dos méritos da dinâmica comunidade nipo-
brasileira e aos imigrantes europeus – responsáveis pela expansão e interiorização
da olericultura como agronegócio.
A ampliação e o aprimoramento da rede assistencial oficial aos produtores
rurais, inclusive olericultores, ocorreram após o término da II Guerra Mundial. Desde
o início, os extensionistas têm contribuído efetivamente para a evolução da
olericultura brasileira.

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Especialmente a partir da dec. de 1950, também instituições oficiais de


pesquisa e ensino passaram a apoiar a olericultura, surgindo uma retaguarda
técnico-científica composta por professores e pesquisadores, além de
extensionistas. Esse movimento consolidou-se com a fundação da Sociedade de
Olericultura do Brasil, em 1961. Essa entidade, muito dinâmica, congrega
profissionais ligados aos variados aspectos da produção e da comercialização de
hortaliças.
O empenho do governo federal na implantação e no efetivo funcionamento das
Centrais de Abastecimento (CEASA’s), ao longo da dec. de 1970, também foi
decisivo. A racionalização na comercialização beneficiou, como era esperado, a
produção. A dec. de 1980 foi considerada “a década perdida” – quanto ao
desenvolvimento geral e econômico do País -, não porém, para a olericultura,
especialmente graças às atividades da pesquisa oficial. Vale assinalar que a
Embrapa Hortaliças foi criada em 1981, no Distrito Federal, e vem contribuindo,
desde então, para o aprimoramento da olericultura em âmbito nacional. Na década
de 1990 – a chamada “era da incerteza” – continuou a expansão da olericultura,
inclusive com a definitiva implantação da cultura protegida, bem como o
desenvolvimento da hidroponia e da fertirrigação. Neste início de século ocorre a
introdução do gotejamento, bem como do plantio na palha, em certas culturas
oleráceas. Atualmente, o agronegócio da olericultura é reconhecido como altamente
relevante no cômputo da agricultura brasileira
Explorando sua diversidade agroecológica, o País tem ampla possibilidade de
exportar, em escala muito maior que a atual, produtos oleráceos, ao natural ou
industrializados, especialmente para mercados europeus, em particular durante o
inverno rigoroso desses países, bem como para a China e outros países asiáticos.
O olericultor é um produtor rural capaz de responder, pronta e produtivamente,
a estímulos econômicos e inovações agrotecnológicas, bem como a medidas
governamentais dignas de aplauso, como a implantação das CEASA’s. É um
agricultor bem sintonizado com a realidade do País, sensível às mudanças que
ocorrem na agricultura ou fora dela. Dessa forma, durante o marasmo da década de
1980, foi iniciada a produção em casa de vegetação – uma vitoriosa iniciativa de
olericultores inovadores e de empresários ligados à produção de agrofilmes.

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2. O UNIVERSO DA OLERICULTURA

Dezenas de culturas oleráceas são produzidas no Brasil, sendo a vastidão e a


complexidade do universo da olericultura devido à multiplicidade e às peculiaridades
de cada espécie cultivada como hortaliça. Assim, para um estudo sistematizado da
olericultura como ciência aplicada, torna-se necessária uma metodologia capaz de
evidenciar as similaridades e as dessemelhanças entre as diferentes plantas. Nesse
sentido, algumas classificações têm procurado agrupar as hortaliças com base em
suas características comuns.

2.1. CLASSIFICAÇÃO POPULAR E TÉCNICA

A dona-de-casa brasileira típica não se impressiona com a grande


complexidade do universo abrangido pelas culturas oleráceas. Para ela, as
hortaliças podem ser reunidas em 3 grupos, simplesmente. Desse modo, nessa
classificação popular, os “legumes” constituem as hortaliças que exigem preparação
culinária mais elaborada, como cozimento, assamento ou fritura; as “verduras”, além
de apresentarem a típica coloração verde, são consumidas ao natural; e os
“temperos” são aquelas utilizadas para dar sabor especial aos pratos.
Uma classificação técnica das hortaliças foi adaptada pelas Centrais de
Abastecimento e vem sendo aplicada. De acordo com essa classificação, as
hortaliças podem ser reunidas, segundo suas partes utilizáveis e comerciáveis, em 3
grupos:

· Hortaliças-fruto – utilizam-se os frutos ou partes deles, como as sementes:


tomate, melancia, quiabo, morango, feijão-vagem, etc.
· Hortaliças herbáceas – aquelas cujas partes comerciáveis e utilizáveis
localizam-se acima do solo, sendo tenras e suculentas: folhas (alface, repolho,
taioba); talos e hastes (aspargo, aipo, funcho); flores ou inflorescências (couve-flor,
brócolos, alcachofra).
· Hortaliças tuberosas – as partes utilizáveis desenvolvem-se dentro do solo,
sendo ricas em carboidratos: raízes (cenoura, beterraba, batata-doce, rabanete e
mandioquinha-salsa); tubérculos (batata, cará); rizomas (inhame); bulbos (alho e
cebola).

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Nas diversas CEASA’s, tem-se cometido o engano – do ponto de vista


agronômico – de considerar melancia, melão e morango como “frutas” e não como
hortaliças-fruto.
Por implicações de ordem agronômica na condução das culturas (controle
fitossanitário integrado, manejo de solo, aplicação de adubação), e também por
razões mercadológicas, inclusive por diminuir o risco de insucesso econômico para
o olericultor, é desejável que coexistam hortaliças-fruto, hortaliças herbáceas e
hortaliças tuberosas numa mesma exploração.

2.2. CLASSIFICAÇÃO BOTÂNICA

a) Características e vantagens dessa classificação

A maior vantagem da classificação botânica é basear-se em características


muito estáveis, enquanto a agrotecnologia pode variar ao longo do tempo e
conforme as tradições regionais. As características botânicas definem melhor a
localização de cada espécie olerácea, dentro da imensa comunidade vegetal, da
qual depende a alimentação e a vida humana.
A classificação botânica das espécies vegetais baseia-se no parentesco, nas
similaridades e nas dessemelhanças entre elas, mormente no que se refere aos
órgãos vegetativos e reprodutivos. No caso particular das plantas oleráceas, todavia,
ainda não existe um consenso universal entre botânicos, havendo desacordo quanto
ao nome correto de algumas famílias, gêneros e espécies. Uma compilação é
apresentada na Tabela 1.

Tabela 1 – Relação taxonômica de 60 hortaliças cultivadas no Brasil, com seus nomes populares,
científicos e família botânica
Nome popular Nome científico (latim) Família

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Abóbora-rasteira Cucurbita moschata Cucurbitácea


Abobrinha-italiana Cucurbita pepo Cucurbitácea
Acelga-verdadeira Beta vulgaris var. cicla Quenopodiácea
Agrião-aquático Rorippa nasturtium-aquaticum Brassicácea
Aipo (salsão) Apium graveolens var. dulce Apiácea
Alcachofra Cynara scolymus Asterácea
Alface Lactuca sativa Asterácea
Alho Allium sativum Aliácea
Alho-porró Allium porrum Aliácea
Almeirão Cichorium intybus Asterácea
Aspargo Asparagus officinalis Liliácea
Batata-doce Ipomoea batatas Convolvulácea
Batata (batatinha) Solanum tuberosum ssp. Tuberosum Solanácea
Berinjela Solanum melogena Solanácea
Beterraba Beta vulgaris Quenopodiácea
Cará Dioscorea alata Dioscoreácea
Cebola Allium cepa Aliácea
Cebolinha Allium schoenoprasum Aliácea
Cenoura Daucus carota Apiácea
Chicória Cichorium endivia Asterácea
Chuchu Sechium edule Cucurbitácea
Coentro Coriandrum sativum Apiácea
Couve-brócolos Brassica oleracea var. itálica Brassicácea
Couve-chinesa Brassica pekinensis Brassicácea
Couve-de-bruxelas Brassica oleracea var. Gemmifera Brassicácea
Couve-flor Brassica oleracea var. botrytis Brassicácea
Couve-folha Brassica oleracea var. acephala Brassicácea
Couve-rábano Brassica oleracea var. gongylodes Brassicácea
Couve-tronchuda Brassica oleracea var. tronchuda Brassicácea
Ervilha Pisum sativum Fabácea
Espinafre Spinacea oleracea Quenopodiácea
Espinafre neozelandês Tetragonia expansa Aizoácea
Fava-italiana Vicia faba Fabácea
Feijão-de-corda (caupi) Vigna unguiculata Fabácea
Feijão-de-lima (fava) Phaseolus lunatus Fabácea
Feijão-vagem (vagem) Phaseolus vulgaris Fabácea
Funcho (erva-doce) Foeniculum vulgare var. dulce Apiácea
Inhame Colocasia esculenta Arácea
Jiló Solanum gilo Solanácea
Mandioquinha(batata-baroa) Arracacia xanthorrhiza Apiácea
Maxixe Cucumis anguria Cucurbitácea
Melancia Citrullus lanatus Cucurbitácea
Melão Cucumis melo Cucurbitácea
Milho-doce Zea mays Poácea
Milho-verde Zea mays Poácea
Moranga Cucurbita máxima Cucurbitácea
Morango (moranguinho) Fragaria x ananassa Rosácea
Mostarda-de-folha Brassica juncea Brassicácea
Nabo Brassica rapa var. rapa Brassicácea
Pepino Cucumis sativus Cucurbitácea
Pimenta Capsicum frutescens Solanácea
Pimentão Capsicum annuum Solanácea
Quiabo Abelmoschus esculentus Malvácea
Rabanete Raphanus sativus Brassicácea
Rábano “daikon” Raphanus sativus var. acenthiformis Brassicácea
Repolho Brassica oleracea var. capitata Brassicácea

Continuação
Nome popular Nome científico (latim) Família
Rúcula Eruca sativa Brassicácea

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Salsa (salsinha) Petroselinum crispum Apiácea


Taioba Xanthosoma sagittifolium Arácea
Tomate Lycopersicon esculentum Solanácea

b) Unidades taxonômicas

Os botânicos agruparam as plantas, segundo suas similaridades, em: divisões,


classes, ordens, famílias, gêneros, espécies, variedades botânicas, formas e
indivíduos – do geral para o particular. Considerando os aspectos agronômicos das
culturas, apenas 4 unidades taxonômicas podem interessar mais de perto:

- família: reunião de gêneros semelhantes;


- gênero: agrupamento de espécies afins;
- espécie: unidade taxonômica englobando indivíduos muito similares; e
- variedade botânica: população com características peculiares, dentro de
certas espécies oleráceas.

Desde os trabalhos pioneiros do naturalista sueco Lineu (1707-1778) adotou-


se um sistema binário de nomenclatura botânica, em latim, universalmente aceito.
Assim, utiliza-se o nome do gênero e o da espécie propriamente dita para designar
uma determinada espécie botânica. Os nomes científicos das hortaliças facilitam o
intercâmbio entre os estudiosos, evitando-se as dificuldades criadas pelos nomes
populares nos diversos idiomas.
As plantas oleráceas pertencem à divisão Espermatófita – plantas que
produzem sementes, utilizáveis ou não na propagação. A subdivisão é
Magnoliofitina – plantas com óvulos encerrados em um ovário (angiosperma), que
originarão sementes. A grande maioria das plantas oleráceas é incluída na classe
Magnoliata – vegetais cujas sementes apresentam dois cotilédones (dicotiledôneas)
-; e a minoria, na classe Liliata – plantas com um só cotilédone (monocotiledôneas).
Atualmente, essa última classe engloba as famílias: aliácea (alho), arácea (inhame),
dioscoreácea (cará), liliácea (aspargo) e poácea (milho-doce).
A relação taxonômica das hortaliças mais cultivadas no Brasil, com os nomes
científicos atualizados das espécies, inclusive das famílias botânicas, é apresentada
na Tabela 1.

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c) Variedade Botânica e Cultivar

A espécie tem sido considerada a unidade básica de trabalho dos botânicos,


sendo a categoria na qual Lineu baseou seu genial sistema de nomenclatura.
Entretanto, em casos particulares, as espécies são subdivididas em variedades
botânicas (utilizando-se a abreviatura “var.”). Isso se torna necessário quando certa
população de plantas, dentro de determinada espécie, apresenta características
notáveis, inclusive de importância agronômica e comercial. Um exemplo é a espécie
Brassica oleracea, que abrange algumas variedades botânicas, que constituem
hortaliças de importância mundial, como B. oleracea var. acephala (couve), B.
oleracea var. capitata (repolho), B. oleracea var. Botrytis (couve-flor) e B. oleracea
var. italica (couve-brócolos).
O termo “variedade” – utilizado no sentido agronômico – tem sido substituído
pelo termo técnico cultivar, universal, derivado das palavras inglesas “cultivated
variety” (usa-se a abreviatura “cv.”). Trata-se de um grupo de plantas cultivadas
semelhantes entre si, que se distingue de outros grupos por características de
relevância agronômica e comercial. Tais características peculiares devem ser
mantidas inalteráveis, nos ciclos de propagação da cultivar, ao longo dos anos. Um
bom exemplo da adoção oficial desse termo técnico, no Brasil, é a Lei de Proteção
de Cultivares, instituída em abril de 1997.
As cultivares são obtidas por meio de técnicas de melhoramento genético,
utilizadas por melhoristas de plantas. Uma cultivar, em se tratando de olericultura,
pode ser constituída por plantas pertencentes a um dos quatro seguintes tipos de
agrupamento:

Clone: conjunto de plantas geneticamente idênticas e originárias de uma única


planta-matriz propagada assexuadamente, ou seja, sem utilização de sementes
botânicas. Exemplos: cultivares propagadas vegetativamente de alho, batata, couve-
manteiga, morango e mandioquinha-salsa.
Linhagem: grupo de plantas, com aparência muito uniforme, propagadas por
via sexual, cujas características são mantidas por seleção, tendo um padrão em
vista. Originariamente, esse tipo de cultivar é obtido por autofecundação induzida.
Exemplos: cultivares de algumas hortaliças propagadas por sementes.

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Cultivar não-híbrida: grupo de plantas que apresenta pequenas diferenças


genéticas (genótipo distinto), porém mantendo características agronômicas comuns
(fenótipo semelhante), pelas quais o grupo possa ser identificado. É o caso do
pepino tipo Caipira, selecionado por olericultores a partir de populações
heterogêneas tradicionalmente cultivadas nas propriedades rurais.
Híbrido, ou cultivar híbrida: conjunto de plantas altamente uniforme, de modo
geral obtido pelo cruzamento controlado entre duas linhagens compatíveis
escolhidas, mantidas por autofecundação induzida. Atualmente há tendência para o
lançamento de híbridos de 1 a geração (sementes de 1a geração, após o cruzamento)
em brássicas, particularmente em repolho, couve-flor e brócolos. Também se nota
essa tendência no caso de tomate, pepino e pimentão.

Na situação atual, observa-se que as cultivares de hortaliças estão em


constante mudança, inclusive pela introdução de novos híbridos. Então, torna-se
relevante o conceito de tipo ou grupo de cultivares, dentro de uma mesma cultura,
englobando aquelas cultivares com características agronômicas e comerciais
comuns.
Há, portanto, maneiras variadas de se obter uma nova cultivar. Entretanto,
historicamente, a técnica que originou maior número de cultivares de hortaliças ao
longo do tempo tem sido a seleção de plantas, no campo, a partir de um conjunto
desuniforme – a chamada “população”. Tal trabalho, no passado, foi efetuado por
olericultores com notável capacidade de observação e espírito de pesquisador. Os
fitomelhoristas profissionais, todavia, utilizam técnicas bem mais sofisticadas, como
a autofecundação controlada de uma planta especialmente escolhida ou o
cruzamento entre linhagens autofecundadas com características complementares.
Também valem-se de modernas técnicas de laboratório, como o cultivo de embrião,
a cultura de tecidos, a indução de mutações, a criação de plantas transgênicas –
esse um assunto ainda polêmico -, dentre outras.
O nome original de uma cultivar – preferencialmente no idioma de origem ou
em forma aportuguesada – deve ser mantido e utilizado pelos olericultores e por
agentes de comercialização de hortaliças. As embalagens de sementes, mesmo
quando importadas, devem conter o nome original, inclusive para evitar duplicidade
e facilitar o intercâmbio entre pesquisadores. Um problema sentido é a multiplicidade

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de nomes regionais de uma mesma cultivar, fato corriqueiro no caso de culturas de


propagação vegetativa, como alho, cará e batata-doce.
Para bem caracterizar uma cultura olerácea, deve-se agregar ao nome da
espécie o nome da variedade botânica, se houver, bem como o nome original da
cultivar. Por exemplo, o nome completo e correto da couve-flor brasileira, pioneira no
plantio de verão, é Brassica oleracea var. Botrytis cv. Piracicaba Precoce.
Uma classificação taxonômica integra e sumariza tudo o que se sabe sobre as
plantas oleráceas, incluindo aspectos morfológicos, genéticos, ecológicos ou
fisiológicos. Tal conhecimento possibilita antecipar as exigências de determinada
cultura, auxiliando na escolha e na utilização da agrotecnologia mais adequada.

3. OS FATORES AGROCLIMÁTICOS

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As condições ambientais interferem, decisivamente, no desenvolvimento das


plantas e na produção das culturas oleráceas. A compreensão dos fatores
envolvidos, especialmente aqueles de natureza agroclimática, é imprescindível para
quem pretenda se dedicar ao estudo aprofundado ou mesmo à prática da
olericultura comercial, em bases técnico-científica.

AMBIENTE, GENÓTIPO E FENÓTIPO

Existem alguns conceitos que devem ser bem compreendidos. Ambiente, ou


“meio ambiente” – expressão redundante muito utilizada pela imprensa -, é o
conjunto de fatores agroecológicos e agrotecnológicos, externos à planta, mas que
muito influenciam o desenvolvimento e a produção. É o caso do clima e do solo,
como também da adubação, irrigação, pulverização e outras práticas agrícolas –
todos incluídos nesse conceito por demais abrangente denominado “ambiente”.
O genótipo – a composição genética da planta – é outro conceito fundamental.
O resultado perceptível, e de implicações práticas, da ação do genótipo interagindo
com o ambiente constitui o fenótipo – algo que interessa mais de perto ao
olericultor. O fenótipo é expresso nas características da planta cultivada,
produtividade da cultura e qualidade do produto obtido, sendo, portanto, a expressão
visível do genótipo.
Dentro desse contexto, há duas vias para o possível aprimoramento da
olericultura. A primeira via é a busca da melhoria da própria planta, procurando-se
adequar o seu genótipo a um determinado ambiente. E isso se obtém por meio do
melhoramento genético, resultando na obtenção de novas cultivares melhoradas,
como é o caso de cultivares adaptadas a condições climáticas distintas daquelas
para as quais a planta foi inicialmente selecionada. Bons exemplos são as cultivares
de alface, brássicas e cenoura – ditas de “verão” -, já que, originalmente, todas as
cultivares dessas espécies eram consideradas “de inverno” e apenas produziam
bem se plantadas no outono-inverno. As novas cultivares foram criadas objetivando-
se a adaptação às condições de clima cálido.
A segunda via é a modificação e adequação do ambiente a um genótipo
previamente escolhido, utilizando-se a moderna agrotecnologia. Em relação a clima,
serve de exemplo o plantio de pepino – uma planta intolerante ao frio – em pleno
inverno, sob casa de vegetação, sendo beneficiada pelo efeito estufa. Outros

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exemplos são a utilização de adubação, irrigação e defensivos, que tornam o


ambiente propício ao cultivo de certas hortaliças. Um caso notório é o da adubação
de solos de baixa fertilidade natural, que passam a produzir hortaliças exigentes em
nutrientes.

3.2. INFLUÊNCIA DA TEMPERATURA

As culturas oleráceas apresentam com freqüência ampla adaptação climática,


provavelmente por serem cultivadas há muito tempo e nas mais diversas condições.
As espécies de ciclo curto principalmente – que são a maioria – sempre encontram
alguns meses com condições propícias, mesmo quando cultivadas em regiões de
clima distinto daquele de onde tiveram sua origem. Então, ao olericultor cabe
conhecer as exigências climáticas das plantas que pretende cultivar, bem como as
peculiaridades climáticas de sua região ao longo do ano, procurando harmonizar
ambas. Note-se que são os fatores climáticos que mais poderosamente influenciam
algumas características relevantes de uma cultura, como duração do ciclo,
precocidade na colheita, fitossanidade, produtividade, qualidade do produto e,
inclusive, preço de mercado.
Indubitavelmente, é a temperatura o fator climático que maior influência exerce
sobre a olericultura, sendo, freqüentemente, também o principal fator limitante a
essa atividade. A influência é verificada em todas as etapas do desenvolvimento da
planta. Desse modo, cada espécie botânica cultivada como hortaliça, cada
variedade botânica e cada cultivar comercial apresentam uma faixa termoclimática
mais propícia em cada etapa de seu ciclo. Temperaturas abaixo do nível ótimo
podem prolongar o ciclo, ou provocar o florescimento prematuro de certas hortaliças,
prejudicando o desenvolvimento da parte comerciável; acima do nível ótimo, podem
ocasionar perda em qualidade do produto.
As variações termoclimáticas ao longo do dia, do mês e do ano afetam o
desempenho profundamente ou mesmo determinam a época adequada para o
plantio de certas espécies ou cultivares. O ideal seria que cada propriedade
dispusesse de um posto agrometeorológico provido de equipamentos, que
medissem e registrassem a variação térmica.
As médias das temperaturas máximas e mínimas mensais caracterizam bem,
mês a mês, a variação térmica ao longo do ano. Os dados primários devem ser

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obtidos diariamente, ressaltando-se que as temperaturas máximas costumam


ocorrer durante o dia e, as mínimas, à noite. No cultivo de algumas solanáceas,
principalmente, a variação termoclimática entre o dia e a noite exerce influência
preponderante no desenvolvimento da planta e na produção.
Dentre os fatores que afetam o desempenho das sementes de hortaliças a
temperatura tem sido o mais estudado. Sabe-se então que a germinação, a
emergência e o desenvolvimento inicial das plântulas são diretamente
condicionados pela temperatura do leito no qual se efetua a semeadura. As
condições ótimas são aquelas que possibilitam acelerar a germinação, porém sem
diminuição da percentagem de sementes germinadas. Assim, cada espécie olerácea
apresenta suas exigências térmicas.
Sem dúvida, a temperatura do solo está diretamente relacionada com a
temperatura do ar, com a duração do período luminoso a que foi exposto tal solo e
com algumas características inerentes ao próprio solo. Um exemplo prático é o
efeito da coloração: solos escuros aquecem-se muito mais rapidamente que aqueles
de coloração clara.

3.3. ADAPTAÇÃO TERMOCLIMÁTICA DAS CULTURAS

É possível enquadrar as numerosas espécies botânicas cultivadas como


hortaliças em 3 grandes grupos, inclusive considerando-se as particularidades das
modernas cultivares. Para isso, levam-se em consideração as peculiares exigências
termoclimáticas de cada cultura durante a maior parte do ciclo cultural. Com base
nesse critério, tem-se a seguinte classificação:

- Hortaliças de Clima Quente: aquelas tipicamente intolerantes ao frio, que


prejudica ou mesmo inibe a produção, exigindo temperaturas elevadas, diurnas e
noturnas; são todas intolerantes às geadas, porém algumas toleram temperaturas
amenas. Exemplos: a maioria das cucurbitáceas, batata-doce e quiabo.

- Hortaliças de Clima Ameno: produzem melhor sob temperaturas amenas,


que também são aquelas mais favoráveis ao bem estar humano; toleram

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temperaturas mais baixas, próximas e acima de 0 oC; e podem, inclusive, tolerar


geadas leves. Exemplos: tomate, batata, alface e moranga híbrida.
- Hortaliças de Clima Frio: exigem ou produzem melhor sob baixas
temperaturas, tolerando aquelas situadas ligeiramente abaixo de 0 oC; suportam
geadas mais pesadas. Exemplos: alho, alcachofra e os vários tipos de couve.

Com base nesse critério, as culturas oleráceas são enquadradas em 3 grupos


(Tabela 2). A classificação das hortaliças segundo a exigência termoclimática
apresentada certamente é imperfeita e sujeita a alterações. Assim, os fitomelhoristas
têm ampliado a faixa térmica favorável ao cultivo de certas espécies, pela criação de
cultivares ditas “de verão” – apropriadas para cultivo sob temperatura mais elevada.
Esse termo deve ser compreendido no sentido de que dentro de uma espécie típica
de clima frio ou ameno foram criadas novas cultivares adaptadas a clima cálido.
Bons exemplos ocorrem nas culturas de alface, cenoura e couve-flor, entre outros.

Tabela 2 – Classificação das culturas oleráceas pela exigência termoclimática


Clima frio Clima ameno Clima quente
Acelga verdadeira Abobrinha italiana Abóbora rasteira

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Aipo (salsão) Agrião d’agua Batata-doce


Alcachofra Alface* Berinjela
Alho Almeirão Cará
Alho-porró Batata Chuchu
Aspargo Cenoura* Coentro
Beterraba Chicória Espinafre-neozelandês
Cebola Moranga híbrida Feijão-de-corda (caupi)
Cebolinha Rúcula Feijão-de-lima (fava)
Couve-brócolos* Salsa Feijão-vagem
Couve-chinesa* Tomate Inhame
Couve-de-bruxelas Jiló
Couve-flor* Maxixe
Couve-folha Melancia
Couve-rábano Melão
Couve-tronchuda Milho-doce
Ervilha Milho-verde
Espinafre-verdadeiro Moranga
Fava italiana Pepino
Funcho Pimenta
Mandioquinha-salsa Pimentão
Morango Quiabo
Mostarda-de-folha Taioba
Nabo
Rabanete
Rábano “daikon”
Repolho*
Observação: (*) Espécies que apresentam cultivares ditas “de verão”, ou seja, adaptadas a
temperaturas cálidas.

3.4. TERMOPERIODICIDADE ESTACIONAL

As culturas oleráceas estão submetidas à variação estacional da temperatura,


ao longo do seu ciclo, sendo essa variação indispensável para que ocorram
processos biológicos importantes.
O efeito da termoperiodicidade estacional torna-se mais bem evidenciado nas
espécies oleráceas ditas bienais, como em brássicas (repolho, couve-flor, couve-
brócolos), cebola, beterraba e rabanete. Tais plantas exigem frio para passarem da
etapa vegetativa do seu ciclo para a reprodutiva, com a emissão do pendão floral, e
posterior desenvolvimento das sementes. Não se entenda que são exigidos dois
anos – como o nome sugere -, mas dois períodos de tempo separados por um
intervalo com temperaturas favoravelmente baixas. A exigência de frio para o
pendoamento certamente depende da espécie, da variedade botânica e da cultivar,
havendo aquelas mais exigentes e outras, menos. Note-se que a passagem para a
etapa reprodutiva apenas interessa ao produtor de sementes, sendo desastrosa
para o olericultor comum.

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As espécies ditas anuais independem de um intervalo de frio para que a planta


passe da etapa vegetativa para a reprodutiva. Um exemplo típico é a alface, que
exige fotoperíodo longo e temperatura elevada para ocorrer o florescimento e a
formação de sementes.
Finalmente, há as espécies perenes, de ciclo muito dilatado, que podem
ocupar o terreno por um ou mais anos. Essas plantas enfrentam as condições
termoclimáticas decorrentes da passagem das 4 estações. Um bom exemplo é o
aspargueiro, que pode permanecer produtivo durante uma década, no campo. Outro
exemplo, de perenidade menos evidente, é o do tomateiro, que se comporta como
uma cultura anual, pelo fato de ser afetado por agentes etiológicos de natureza
variada, fungos, bactérias e vírus, além de insetos-praga, que abreviam o ciclo da
cultura.

3.5. TERMOPERIODICIDADE DIÁRIA

A temperatura oscila ao longo de um dia de 24 horas, sendo as noites mais


frias, geralmente. Em algumas espécies oleráceas, as plantas se desenvolvem e
produzem melhor quando a temperatura noturna é inferior à diurna – uma diferença
de 5-10 oC. Quando mantidas sob temperatura constante, noite e dia, essas plantas
são prejudicadas.
O efeito decisivo da termoperiodicidade diária tem sido mais bem estudado em
tomaticultura, em pesquisas conduzidas na Europa e nos Estados Unidos, as quais
demonstram que a temperatura noturna exerce maior efeito no desenvolvimento da
planta e na produção. Em altas temperaturas noturnas, o crescimento vegetativo é
acelerado, porém são prejudicadas ou até inibidas a floração e a frutificação. Tem
sido demonstrado que temperaturas noturnas de 13 a 18 oC e diurnas de 20 a 25
o
C são aquelas mais favoráveis à produção.
Como comprovação prática da exigência termoperiódica do tomateiro, é
conhecido o caso de antigos produtores holandeses, por demais cuidadosos, que se
levantavam em meio à noite invernal para aquecerem suas estufas. Entretanto,
verificavam que seus tomateiros apresentavam menor desenvolvimento e produção,
em relação às plantas de vizinhos, mais comodistas, que deixavam cair a
temperatura noturna. Assim agindo, eles propiciavam a termoperiodicidade diária
adequada à cultura.

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A exigência de termoperiodicidade também pode explicar a inadequação da


tomaticultura a regiões que apresentam temperaturas diurnas e noturnas igualmente
elevadas, como ocorre na Amazônia.
Outros estudos demonstram que as temperaturas diurnas de 20 a 25 oC e
noturnas de 10 a 16 oC são as mais favoráveis à bataticultura, nas condições
européias e norte-americanas. Isso explica o mau desempenho dessa cultura em
localidades brasileiras de baixa altitude, apresentando temperaturas constantemente
elevadas, de dia e de noite. Inversamente, tem sido demonstrado o sucesso da
cultura em altitudes acima de 800 m, sob temperaturas diurnas amenas e noturnas
favoravelmente menores, como ocorre em planaltos e regiões serranas do centro-
sul.
Outras culturas, menos estudadas, também apresentam exigência de
termoperiodicidade diária, devendo a temperatura noturna ser sempre mais baixa
que a diurna, a exemplo do pimentão, da beterraba, da ervilha e do morango.

3.6. INFLUÊNCIA DA LUZ: INTENSIDADE

A luz solar é um fator climático relevante para o desenvolvimento vegetal, pois


promove o processo da fotossíntese – sem o qual a vida humana e animal seria
impossível sobre o planeta. Quando se estuda a influência da luz na olericultura há
de se considerar a intensidade luminosa e a variação fotoperiódica, separadamente.
Experimentalmente se comprova que a um aumento na intensidade luminosa
corresponde uma elevação na atividade fotossintética, dentro de certos limites,
resultando em maior produção de matéria seca nas plantas. Contrariamente, a
deficiência luminosa provoca maior alongamento celular, resultando em
estiolamento, isto é, aumento na altura e extensão da parte aérea, porém sem
correspondente elevação do teor de matéria seca. Dessa forma, em localidades em
que prevalece alta intensidade luminosa é estimulada a produtividade, nas culturas
oleráceas. Sob baixa luminosidade, ao contrário, há formação de mudas estioladas
e de plantas adultas frágeis, de menor produtividade.
A baixa intensidade luminosa tem sido fator limitante à olericultura no norte da
Europa. Já em países tropicais, como o Brasil, a alta luminosidade favorece a
produtividade. Vale enfatizar serem as hortaliças plantas altamente exigentes, ao

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contrário do que ocorre com plantas ornamentais de interior, que requerem baixa
luminosidade.

3.7. INFLUÊNCIA DA LUZ: FOTOPERÍODO

A duração do período luminoso – o chamado fotoperíodo -, dentro de um dia


de 24 horas, influencia numerosos processos fisiológicos nas plantas. É o caso do
crescimento vegetativo, da floração e frutificação, da produção de sementes e da
obtenção de produtos para a alimentação humana.
O número de horas diárias de luz solar varia conforme a latitude da localidade
e a estação do ano. Belém do Pará – cidade situada pouco abaixo da linha do
Equador terrestre (latitude de 0o C) -, por exemplo, apresenta 12 horas diárias de
luz, portanto a duração do dia é igual à da noite ao longo das 4 estações. À medida
que se afasta do equador em direção ao extremo sul, constata-se que os dias vão
se tornando, progressivamente, maiores durante o verão e menores no inverno.
Essa variação no período luminoso denomina-se “fotoperiodismo”, ao qual
algumas hortaliças, especialmente aliáceas, são muito sensíveis. Em cebola e alho,
somente ocorre a formação de bulbos quando os dias apresentam duração acima de
um número mínimo de horas de luz – fotoperíodo crítico, característico de cada
cultivar. De acordo com a exigência fotoperiódica, há cultivares precoces e tardias,
conforme necessidade de dias menores e maiores, respectivamente, para a
bulbificação. Essa é a principal razão pela qual certas cultivares sulinas de cebola e
de alho não produzem bulbos se plantadas durante o outono – época normal de
plantio de tais culturas – no centro-sul. Sendo cultivares tardias, a exigência
fotoperiódica não é satisfeita, motivo pelo qual as plantas se mantêm vegetativas.
A formação de flores também depende do fotoperíodo, estritamente, em certas
espécies. Por isso, cultivares européias e norte-americanas de alface pendoam,
precocemente, quando cultivadas nos dias longos do verão brasileiro.
Contrariamente, as cucurbitáceas produzem maior número de flores femininas, com
conseqüente aumento na produtividade, nos dias curtos do inverno. Já o
morangueiro somente floresce e frutifica em dias curtos, tornando-se vegetativo
durante os dias longos do verão.
Do ponto de vista prático, o fotoperíodo torna-se fator limitante somente na
produção de poucas espécies oleráceas, destacando-se o caso peculiar da cebola e

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do alho. Em outras espécies, o fotoperiodismo afeta menos o desenvolvimento da


planta, bem como a produção.

3.8. IMPORTÂNCIA DA UMIDADE

A água é imprescindível à vida vegetal e constitui mais de 90% do peso da


parte utilizável da maioria das hortaliças, sendo fácil, portanto, aquilatar sua
importância na olericultura. O teor de umidade no solo condiciona a absorção de
água e dos nutrientes minerais, essenciais ao desenvolvimento das plantas; a
umidade do ar influencia a transpiração (perda de água pelas folhas) e outros
processos que afetam a cultura.
Dentre os fatores climáticos, o teor de umidade no solo é aquele que pode
mais facilmente ser controlado pelo olericultor, por meio da irrigação.
Contrariamente, o controle da umidade do ar é bem mais difícil, a não ser pela
escolha criteriosa da época de plantio, considerando-se que o ar é mais seco no
outono-inverno. Note-se que um elevado teor de umidade no ar afeta o estado
fitossanitário da cultura, especialmente no que concerne ao ataque de fungos e
bactérias fitopatogênicos. Contrariamente, baixo teor favorece a manifestação de
ácaros e alguns insetos.
O regime pluviométrico da localidade afeta, substancialmente, a produção das
culturas em geral. Entretanto, no caso particular da produção de espécies altamente
exigentes de água, como o são a maioria das hortaliças, o fornecimento desta não
se pode basear apenas nas chuvas. Por isso, a prática da irrigação racional é
indispensável, devendo estar sempre presente nas cogitações do olericultor.
Durante o período chuvoso, todavia, é possível a cultura não irrigada de certas
espécies – menos exigentes ou dispondo de raízes mais profundas -, por exemplo
aboboreira, chuchuzeiro, aspargueiro, quiabeiro, dentre outras.
Além do efeito benéfico de elevar o teor de água disponível no solo, as chuvas
também acarretam alguns efeitos negativos às culturas, elevando a umidade do ar e
removendo a camada protetora, obtida pela pulverização com fungicidas, o que
favorece o ataque de certos fitopatógenos. Esses problemas fitossanitários são
menos freqüentes durante o inverno, certamente devido à baixa umidade relativa do
ar; durante o verão chuvoso podem tornar-se fator limitante, no caso de culturas
suscetíveis.

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3.9. AGROTECNOLOGIA NO CONTROLE CLIMÁTICO

O olericultor dispõe, atualmente, de alguns artifícios que possibilitam certo


controle sobre as condições climáticas, na condução de uma cultura de hortaliças.
Quando se pretende diminuir a temperatura do solo ou do leito de semeadura
na formação de mudas, podem-se aplicar alguns tipos de cobertura palhosa, como:
capim seco, palha da haste do arroz, palha de trigo, maravalha de madeira,
bagacilho de cana, casca de arroz etc. O material deve ser abundante na região ou
na propriedade e de baixo custo, devendo sua aplicação ser manual ou, se possível,
mecânica. O principal efeito almejado é baixar a temperatura do solo e mantê-la
favoravelmente estável, alguns graus abaixo da temperatura normal do solo
descoberto, mesmo nas horas de maior insolação. Temperaturas amenas no solo
favorecem muito o desenvolvimento das plantas e a produção de algumas espécies
oleráceas, como alho e morango, nas quais é comum o uso dessa prática cultural.
A cobertura palhosa oferece ainda outros benefícios para as culturas
oleráceas. Um deles é manter adequado teor de umidade no solo por mais tempo,
após a irrigação ou uma chuva, permitindo dilatar o turno de rega, em relação ao
solo descoberto. Assim, constata-se real economia de água e energia, reduzindo-se
o custo de produção.
Outra vantagem desse tipo de cobertura é o controle das plantas invasoras. A
incidência de ervas daninhas é reduzida, dependendo da espécie, podendo-se
efetuar o controle integrado com a utilização de herbicidas, pulverizados sobre o
leito em pré-emergência antes de se aplicar a cobertura. Essas práticas são muito
utilizadas em alho, por exemplo.
No caso de sementeiras, ou mesmo na semeadura direta, também há
benefícios na aplicação da cobertura palhosa, desde que não prejudique a
emergência das plântulas. Dessa forma, pode-se cobrir com casca de arroz uma
sementeira para produção de mudas de cebola ou um canteiro para semeadura
direta de cenoura, não sendo necessária a remoção do mateiral. No entanto, quando
se aplica palha de cereais ou capim, remove-se o material tão logo se constate o
início da emergência das plântulas.

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A irrigação constitui um tipo muito utilizado de controle climático, já que


complemente ou substitui as chuvas, elevando o teor de água útil no solo, além de
influenciar o microclima formado ao redor da planta irrigada.
Um controle mais efetivo do clima é obtido certamente, pela chamada
“plasticultura” ou “cultivo protegido” – moderna agrotecnologia baseada na aplicação
de agrofilmes.

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4. SOLO, NUTRIÇÃO E ADUBAÇÃO

As culturas oleráceas são altamente exigentes em nutrientes, razão pela qual


os produtores às vezes, erram ao adubarem em excesso; outras vezes, a adubação
é desequilibrada e, freqüentemente, sem orientação agronômica.

4.1. SOLO E FORNECIMENTO DE NUTRIENTES

O solo é o substrato natural para a produção agrícola, servindo como meio


para o desenvolvimento das raízes. Em que pese sua relevância, entretanto, o solo
pode ser profundamente modificado ou até mesmo dispensado, em olericultura,
como ocorre no cultivo hidropônico. Todavia, o que acontece freqüentemente não é
a substituição, mas a modificação do solo promovida pelo olericultor. Observa-se
que as propriedades físicas de um solo são mais relevantes que o teor de nutrientes,
já que este pode ser profundamente modificado.
O solo agrícola é uma importante fonte de nutrientes minerais para as raízes.
No entanto, no caso particular da olericultura, freqüentemente o solo se comporta
como fonte insuficiente de nutrientes, dada a elevada exigência das culturas. Essa
limitação da fertilidade natural é bem conhecida, podendo ser corrigida pela
agrotecnologia. Evidentemente, devem-se minimizar possíveis danos ecológicos,
como a contaminação da água subterrânea por nitratos ou de lagoas por fosfatos.
As culturas precisam encontrar no solo, sob forma e quantidade adequadas, 14
nutrientes reconhecidos como essenciais aos vegetais. A ausência de qualquer um
deles na solução do solo torna-se fator limitante ao desenvolvimento e à produção
das plantas. São eles:

Nitrogênio (N)
Principais Fósforo (P)
Potássio (K)
Macronutrientes

Cálcio (Ca)
Secundários Magnésio (Mg)
Enxofre (S)

Micronutrientes: boro (B), zinco (Zn), molibdênio (Mo), cobre (Cu), manganês (Mn),
ferro (Fe), cloro (Cl) e níquel (Ni).

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32

Há ainda mais 3 nutrientes – silício (Si), sódio (Na) e cobalto (Co) – que não
são reconhecidos como essenciais para todas as plantas, mas que beneficiam
algumas.
Os 14 nutrientes inicialmente citados são reconhecidos como essenciais ou
imprescindíveis às plantas superiores – as hortaliças, por exemplo. Os
macronutrientes são extraídos em quantidades mais substanciais pelo sistema
radicular (kg/ha), em relação aos micronutrientes (g/ha). Não obstante, a falta de
alguns gramas de um micronutriente pode resultar no insucesso de uma cultura,
como se observa no campo. Quanto à distinção entre “principais” e “secundários”,
trata-se de questão puramente legislativa concernente à comercialização de
fertilizantes, sem qualquer relevância agronômica.

4.2. EXTRAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE NUTRIENTES

As espécies oleráceas extraem do solo e exportam, em suas partes


comerciáveis, maiores quantidades de nutrientes, por hectare, em relação a outras
culturas. Isso ocorre em razão de suas exigências peculiares e, principalmente, da
sua maior capacidade de produção.
A fertilidade natural dos solos não satisfaz, freqüentemente, as elevadas
exigências nutricionais das culturas oleráceas – algo que tem sido demonstrado por
pesquisadores e comprovado, na prática, por olericultores. Entretanto, há toda uma
agrotecnologia técnico-científica utilizada para melhorar um solo.
Em certas situações, o solo é naturalmente rico em alguns nutrientes, como K
e N, sendo capaz de suprir parcela substancial da exigência das culturas.
Contrariamente, é incomum um solo brasileiro apresentando teor tão elevado de P –
em forma utilizável pela planta – que possa dispensar a adubação fosfatada.

4.3. A APLICAÇÃO DE NUTRIENTES

As culturas oleráceas são mais produtivas e exigentes, razão pela qual


extraem e exportam do solo maior quantidade de nutrientes, em relação às culturas
de grãos, por exemplo, exigindo adubações mais fartas. A olericultura também é a
atividade agrícola que oferece respostas mais substanciais à adubação, sob o duplo
aspecto: agronômico e econômico. Adequadamente conduzida, a adubação resulta

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em maior produção, obtida por unidade de tempo e de área, além de produtos com
maior valor nutricional, aspecto mais atrativo, melhor sabor e aroma, bem como
valor de venda maior. Certamente contribui para isso o elevado potencial genético
das atuais cultivares melhoradas, inclusive mais exigentes em nutrientes, e toda a
moderna agrotecnologia. A irrigação, por exemplo, favorece a utilização dos
nutrientes pelas raízes; e o controle fitossanitário mantém a superfície
fotossintetizante ativa por mais tempo, contribuindo para elevar a produção.
Numa sucessão de culturas sobre uma gleba, é fundamental considerar o
ponderável efeito residual das adubações anteriormente aplicadas, já que é
impraticável fornecer os nutrientes na medida exata para atender, tão somente, à
demanda da cultura visada. Assim, o efeito residual contribui para reduzir o custo da
adubação da nova cultura. Por exemplo, o milho-doce pode suceder uma cultura
rasteira de tomate, exigindo pouca ou nenhuma adubação. Normalmente, o efeito
residual é benéfico, inclusive contribuindo para melhorar a fertilidade do solo.
Entretanto, também pode ser prejudicial, no caso de adubações excessivas. Isso
pode ser exemplificado com a aplicação de fontes de boro, sendo a cultura sucedida
por outras, sensíveis a níveis elevados de B. Vale ressaltar que a análise do solo de
cada gleba de uma propriedade – efetuada anualmente e complementada por
análise foliar das culturas – pode evitar essas situações.
A adubação é fator que onera o custo de produção de uma cultura, porém não
exageradamente. Todavia, como a maximização do lucro líquido por hectare
geralmente coincide com a maximização da produtividade e da qualidade do produto
obtido, para o olericultor empresário é compensador investir em adubação. Aliás,
tem sido constatado por economistas rurais que, no caso particular da olericultura, o
ótimo em termos agronômicos coincide com o ótimo em termos econômicos,
normalmente. Sem dúvida, essa é uma prática que proporciona respostas
favoráveis, razão pela qual um elevado investimento em adubação costuma ser
vantajoso, em termos agronômicos e econômicos.
Em muitas situações, constata-se que o olericultor aplica excesso de certos
nutrientes, ou utiliza adubação desequilibrada, o que, inclusive, pode ocasionar
problemas ambientais, como a contaminação da água subterrânea por nitratos.
Também se deve considerar que há um limite genético para a planta responder à
aplicação de nutrientes – mesmo nas atuais cultivares híbridas de alta produção. Ao
que parece, tal limite vem sendo ultrapassado em certas culturas, como batata,

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tomate e morango, com conseqüências agronômicas, econômicas e ambientais


negativas.

4.4. A FILOSOFIA DE “CONSTRUIR O SOLO”

Salvo raras exceções, o olericultor brasileiro preocupa-se em adubar a próxima


cultura a ser implantada – um imediatismo até justificável, dentro do contexto
socioeconômico em que ele vive e labuta. É até compreensível que um arrendatário
não cogite em elevar o nível de fertilidade da gleba por ele trabalhada, mas sim de
satisfazer as exigências da cultura. Entretanto, essa atitude é irracional e
injustificável no caso de um proprietário que pretenda manter uma agricultura
sustentável e produtiva, ao longo do tempo.
A filosofia de se preocupar, apenas, em adubar cada cultura é inadequada.
Entretanto, a preocupação exclusiva em melhorar o solo pode conduzir o olericultor
a desastres financeiros. Por conseguinte, é mister implantar a filosofia de “construir”
o solo, a médio prazo, paralelamente à adubação das culturas – imediatismo
necessário à sobrevivência do produtor, especialmente daqueles que dispõem de
área limitada. A “construção” do solo tem sido defendida por estudiosos da
agricultura, em solos tropicais de baixa fertilidade. Entretanto, é necessário conciliar
aquilo que é agronomicamente desejável com o economicamente viável ou
financeiramente possível.

a) Calagem

A calagem é uma das primeiras práticas ao se cogitar em iniciar um programa


de “construção” ou aprimoramento de um solo agrícola.
A quantidade de calcário a aplicar pode ser calculada pelo método de
saturação por bases – muito utilizado no Estado de São Paulo. Nesse método,
objetiva-se elevar a atual percentagem de saturação por bases fornecida pela
análise (V%) para o nível desejável, de 60 a 80%, dependendo da cultura. Também
se procura elevar os teores de Ca e de Mg trocáveis, aplicando um corretivo rico em
ambos os nutrientes, ou apenas em Ca, conforme a situação.
A aplicação de calcário deve ser efetuada a lanço sobre o solo, com
antecedência mínima de 60 a 90 dias do plantio, devendo a gleba ser molhada

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nesse período pela chuva ou pela irrigação. Observe-se que a cal agrícola é um
corretivo de mais rápida solubilização, que pode ser aplicado com antecedência
menor, de até 30 dias. A faixa de acidez do solo a ser atingida deve ser de pH 6,0 a
6,5 – a mais favorável para a maioria das culturas, inclusive por possibilitar a
absorção da maioria dos nutrientes.

b) Adubação corretiva

A adubação corretiva tem por objetivo elevar a disponibilidade de certos


nutrientes, como o P e o K, num solo de baixa fertilidade natural, ou empobrecido
por anos de manejo inadequado. Visa, também, reduzir as perdas no solo de
nutrientes aplicados em formas prontamente solúveis. Proporciona melhor
disponibilidade de certos nutrientes ao sistema radicular, o que ocorre num maior
volume de solo a ser explorado pelas raízes. Evita-se, assim, que as raízes se
concentrem em pequeno volume de solo – como ocorre quando a adubação é
localizada em covas.

c) Adubação verde

A incorporação de restos culturais ao solo é um meio eficiente e econômico


que o agricultor dispõe para elevar o teor de matéria orgânica, além do
enriquecimento em nutrientes. A chamada “adubação verde” é um caso particular da
incorporação de plantas herbáceas ao solo, favorecendo as condições físicas,
químicas e biológicas. Consiste em incorporar a massa vegetal produzida no próprio
terreno, utilizando-se, para isso, plantas da família das fabáceas (antigamente,
leguminosas), especialmente cultivadas para essa finalidade. Destacam-se, dentre
elas, as crotalárias e as mucunas, pela produção de massa verde e riqueza em N.
Quando em floração, com as plantas ainda tenras e facilmente decomponíveis,
promove-se a incorporação pela aração ou gradagem.
Os benefícios dessa prática agrícola ancestral são numerosos e notáveis. O
mais relevante é a fixação do N atmosférico pelas raízes, em simbiose com certas
bactérias fixadoras. Além deste, podem ser citados: a descompactação do solo,
provocada pela passagem de máquinas; a melhoria na utilização dos nutrientes
pelas culturas; o aumento na capacidade de armazenamento de água; a redução na

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população de nematóides daninhos; a redução na infestação de plantas invasoras; e


certa proteção do solo contra a erosão provocada pelas chuvas.
A única desvantagem é deixar a gleba ocupada, durante alguns meses, com
uma cultura que não produzirá renda imediata. Talvez isso não explique a falta de
tradição no uso dessa utilíssima prática agrícola, mas sim o total desconhecimento
por parte dos olericultores. Certamente, essa prática pode ser economicamente
desvantajosa para um arrendatário, mas não para um proprietário rural.

4.5. ADUBAÇÃO MINERAL NO PLANTIO

O plantio é ocasião propícia para o fornecimento de nutrientes às plantas via


sistema radicular. O N constitui exceção, podendo ou não integrar a adubação de
plantio, já que a maior parcela da dose programada deverá ser aplicada pós-plantio.
A aplicação de K também pode ser parcelada, se bem que, em muitas situações, a
dosagem total possa ser aplicada por ocasião do plantio.
Não é tarefa fácil conciliar os aspectos agronômicos e econômicos e a
praticidade na aplicação da adubação mineral. Assim, usualmente, aplicam-se
formulações NPK, obtidas a partir da mistura de adubos simples, utilizados como
fontes de nutrientes. Os 3 números, visíveis nas embalagens, referem-se às
percentagens de N, P2O5 e K2O. Observe-se que esses dois óxidos são uma forma
arcaica (porém universal) de expressar os teores de P e K disponíveis.
Em olericultura, constata-se que os corretivos de acidez não constituem fontes
totalmente confiáveis de Ca e Mg. Há outro engano generalizado: S não é veiculado
pelas chuvas em quantidades adequadas às necessidades de certas culturas, a não
ser em regiões industrializadas, em razão dos compostos sulfurosos emitidos pelas
chaminés – nocivos aos moradores e à natureza. No campo, constata-se que é
notória a deficiência de Ca e Mg, mais raramente em S, dependendo da cultura e do
solo. Conclui-se que a formulação NPK deva fornecer também os macronutrientes
ditos “secundários”. Obviamente, os resultados das análises do solo e foliar devem
ser considerados.
Uma formulação NPK adequada ao plantio de hortaliças deve ser
substancialmente mais rica em fósforo – expresso em percentagem de P 2O5 -, em
relação aos demais nutrientes. O P deve apresentar-se em forma utilizável pelas
raízes. Na maioria das situações, o fornecimento de P não deve ser parcelado,

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como se faz com N e K. Além disso, o fornecimento de P e Ca por ocasião do


plantio favorece a formação de amplo e ativo sistema radicular. Também tem sido
demonstrado que a localização de P-solúvel diretamente abaixo das raízes, ou
muito próximo, é mais eficiente. Desse modo, a formulação deve apresentar baixa
percentagem de N, elevada de P2O5 e média de K2O.

4.6. ADUBAÇÕES EM COBERTURA

Por ocasião do plantio deve-se, na maioria das situações, aplicar a dosagem


total necessária de P, porém apenas uma parcela mínima da dosagem total de N, e
a metade, ou menos, da dosagem total de K. Aplicar as doses adequadas de N é
uma arte, que depende da experiência pessoal com a cultura e o solo trabalhado.
Em alguns casos, a dose total de K também deve ser parcelada, para aumentar a
eficiência de sua utilização pela planta.
A condição para que um nutriente possa ser utilizado pelas raízes, quando
aplicado em cobertura, é que possua boa mobilidade vertical no solo. Nesse
aspecto, destaca-se N, seguido por K, enquanto P apresenta pequena mobilidade
vertical. Por conseguinte, a aplicação de P em cobertura é ineficiente e
antieconômica, na maioria das situações. Uma exceção é o caso do tomateiro
tutorado, que responde bem à aplicação de P na primeira cobertura, desde que haja
incorporação pela amontoa. Em outras situações, ao se aplicar P em cobertura,
parte substancial é fixada pelo solo e o restante não se move com velocidade
suficiente para atingir as raízes ativas na absorção. Inversamente, por sua elevada
mobilidade, a maior parcela da dose total planejada de N deve ser aplicada em
cobertura. Assim, o N estará disponível para as raízes, no tempo e no local mais
favoráveis. Pela mesma razão, a adubação de plantio deve ser pobre em N,
evitando-se perdas por lixiviação, para fora do alcance das raízes, e prevenindo
danos às plantas jovens. Atualmente, considera-se que também o K, em algumas
culturas, deve ter aplicação parcelada, mormente em solos arenosos.
Adubações em cobertura são, portanto, indispensáveis, geralmente.

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4.7. ADUBAÇÃO VIA FOLIAR

Em olericultura, a adubação foliar justifica-se e é recomendada quando vista


como uma complementação às aplicações efetuadas no solo e, ainda, quando se
pretende uma resposta rápida da cultura, em caso de carência de nutrientes,
declarada ou iminente.

a) Macronutrientes

Os olericultores vêm utilizando a adubação foliar. Trata-se de complementar a


adubação via solo, fornecendo pequena parcela da quantidade necessária dos
macronutrientes, ou mesmo parcela substancial, no caso dos micronutrientes.
Experimentalmente, tem sido demonstrada a capacidade de as culturas utilizarem
nutrientes aplicados em pulverização. A eficiência varia conforme o nutriente, a
espécie botânica e as condições agroecológicas.
Há situações em que a adubação foliar é o único meio de corrigir sintomas de
deficiência mineral, com a presteza necessária para que a planta retome o
desenvolvimento e produza normalmente. A absorção de nutrientes via foliar é mais
rápida que pela via normal, radicular, porém esta última absorve quantidades mais
elevadas. Em compensação, aplicados sobre as folhas, os nutrientes sofrem perdas
substancialmente menores. Servem de exemplos a lixiviação do N e a fixação do P,
quando aplicados ao solo. Todavia, as aplicações foliares não podem substituir, no
caso dos macronutrientes, mas apenas complementar a adubação foliar.

b) Micronutrientes

No caso dos micronutrientes, a aplicação foliar pode suprir, total ou


substancialmente, as exigências das culturas, e ter custo muito inferior ao da
aplicação via solo. Além disso, evita as perdas elevadas, comuns nas aplicações ao
solo, já que a eficiente utilização pelas raízes depende do grau de acidez e de
outros fatores edáficos.

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4.8. FERTIRRIGAÇÃO – ADUBAÇÃO NA ÁGUA

Uma alternativa para a adubação em cobertura é a fertirrigação – dissolução


de certos fertilizantes na água de irrigação -, sendo a aplicação efetuada por
aspersão ou gotejamento. Entre os fertilizantes solúveis mais utilizados estão: uréia,
nitrato de amônio, nitrato de cálcio, nitrato de magnésio, fosfato de amônio e sulfato
de potássio. Também estão disponíveis formulações específicas, de alta
solubilidade, contendo a maioria dos macronutrientes. Todos os nutrientes podem
ser aplicados, embora seja mais comum a aplicação de N e de K em substituição às
adubações em cobertura. Com a generalização do uso da irrigação por pivô central
e a introdução da rega por gotejamento, a fertirrigação vem ganhando adeptos.
Em termos experimentais, pouco se sabe sobre essa agrotecnologia nas
condições brasileiras. Há questões que devem ser consideradas e pesquisadas,
como nutrientes a aplicar, suas melhores fontes, dosagens adequadas e intervalos
entre as aplicações. Indubitavelmente a fertirrigação, em comparação com os
demais métodos de aplicação de fertilizantes, permite grande economia em adubos;
alta precisão na dosagem e na aplicação; economia de mão-de-obra; maior
eficiência da adubação; e perdas mínimas por percolação, lixiviação, escorrimento e
fixação.

4.9. HIDROPONIA – CULTIVO NA ÁGUA

A hidroponia – denominado “cultivo sem solo” – vem sendo praticada desde a


dec. de 1930, nos Estados Unidos e em outros países; no Brasil, somente a partir de
fins da dec. de 1980. O solo é substituído por outro meio sólido (cascalho, areia,
vermiculita, plástico, lã de rocha) e é banhado por solução contendo todos os
nutrientes necessários; ou as raízes desenvolvem-se imersas, sem qualquer
substrato sólido. Normalmente, aplica-se essa agrotecnologia juntamente com o
cultivo em estufa.
Essa técnica apresenta várias vantagens em relação ao cultivo no solo: exige
menos trabalho humano; elimina várias operações agrícolas tradicionais; as plantas
não competem por nutrientes ou água; a produtividade pode triplicar, no mínimo; a
utilização da água e dos nutrientes é maximizada; há maior precocidade na colheita;
a incidência de problemas fitossanitários é menor; há menor exigência de aplicação

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de defensivos; geralmente a qualidade dos produtos é melhor; e o produto se


apresenta limpo. Entretanto, também há desvantagens, como custo inicial elevado
da estrutura e dos equipamentos; risco de perda total, por falta de energia elétrica;
exigência de conhecimentos sobre química e nutrição de plantas; e danos severos
às plantas ocasionados pelo balanço iônico e pela condutividade elétrica da solução
inadequados.
A viabilidade econômica da hidroponia depende de vários fatores, sendo
essencial a proximidade de um centro consumidor. Essa técnica permite, inclusive,
que se desenvolva a olericultura em situações em que a utilização do solo é inviável:
em desertos, áridos ou gelados, e em estações orbitais, por exemplo, ou então
quando se dispõe de uma área diminuta, como no caso de um lote urbano. As
culturas produzidas têm sido alface, morango, agrião e tomate, principalmente. Em
termos agronômicos e econômicos, muitas espécies não se adaptam à hidroponia.
Portanto, trata-se de uma opção que não deve ser usada indiscriminadamente. Na
maioria das situações, o solo continua sendo o substrato mais favorável à
olericultura.

4.10. ADUBAÇÃO ORGÂNCIA

É desejável que o olericultor procure aprimorar as condições físicas e


biológicas do solo, pela incorporação de materiais orgânicos, desde que esteja
ciente de que eles são bons condicionadores de solo, porém fontes pouco eficientes
de nutrientes. Aliás, a adubação orgânica vem sendo utilizada há séculos em
olericultura.
Os benefícios da adubação orgânica têm sido reconhecidos, ressaltando-se
que a incorporação de materiais orgânicos, como o esterco animal, torna o solo um
substrato mais propício à agricultura. Ela possui algumas características que
favorecem a agricultura, notadamente: aumenta a capacidade de penetração e
retenção de água; melhora a estrutura, o arejamento e a porosidade; aumenta a vida
microbiana útil, inclusive com eliminação de fitopatógenos; favorece a
disponibilidade e a absorção de nutrientes; e os solos argilosos, pesados e
compactos, tornam-se mais favoráveis, assim como os arenosos, leves e sem boa
estrutura.

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Vale enfatizar que a adubação orgânica provoca antagonismos entre


microorganismos do solo, podendo resultar no controle biológico de nematóides,
bactérias e fungos, prejudiciais ao sistema radicular das culturas. Em se tratando de
gleba pequena, intensivamente cultivada, é viável procurar manter a sanidade do
solo, por meio de aplicações pesadas de materiais orgânicos. É o que ocorre em
estufas, por exemplo, já que é inconveniente mudar a estrutura do lugar.

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5. PROPAGAÇÃO E IMPLANTAÇÃO DA CULTURA

As culturas oleráceas são propagadas por sementes botânicas em sua maioria,


ou pelo plantio de partes vegetativas. É nessa etapa delicada da cultura que são
cometidos pequenos e grandes enganos, muitos dos quais não podem ser corrigidos
posteriormente. A bem do sucesso de seu agronegócio, em um mundo mais
competitivo, distinto e distante daquele das décadas passadas, o olericultor
empresário atual dedica mais atenção à etapa crucial da implantação das culturas.

5.1. PROPAGAÇÃO POR SEMENTES

A maioria das hortaliças é propagada utilizando-se semente botânica. Todavia,


tal insumo agrícola, de importância fundamental numa cultura, nem sempre recebe a
atenção devida por parte do olericultor.

a) Qualidade da semente

Tradicionalmente, o olericultor brasileiro dá maior importância aos fertilizantes


e defensivos que à qualidade da semente. Agravando essa situação, em muitas
localidades interioranas não há disponibilidade de boas sementes. A relação
custo/benefício deveria ser mais bem avaliada pelo olericultor, que se mostra muito
sensível ao custo elevado de sementes de qualidade. Além disso, a semente
botânica é o item que menos onera o custo de produção de uma cultura.
A semente de alta qualidade deve conter carga genética (genótipo) favorável,
originando plantas responsivas à agrotecnologia e produtos com as características
exigidas pelo consumidor. O índice percentual de germinação deve ser elevado,
acima do padrão nacional mínimo exigido para aquela espécie, constando na
embalagem, juntamente com outras informações de interesse. O nome original da
cultivar deve ser mantido; empresas idôneas imprimem na embalagem esse nome,
bem como o nome comum da espécie (em português, inglês e espanhol).
A semente inferior, além de não ser geneticamente melhorada, pode
disseminar fitopatógenos – responsáveis por focos iniciais de doenças dentro da
cultura. A esse respeito vale ressaltar que as empresas produtoras idôneas, quando

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necessário, efetuam tratamentos de natureza física (água quente) ou química


(fungicidas e antibióticos) para assegurar a sanidade da semente.
Por ser a umidade capaz de diminuir a longevidade das sementes, estas
devem ter o teor de umidade reduzido, previamente à embalagem em recipientes
herméticos, no caso da maioria das espécies. A embalagem adequada deve
assegurar a manutenção do baixo teor inicial de umidade, não permitindo trocas
com o ambiente externo. As embalagens atuais são de vários tipos (latas, baldes
plásticos, envelopes e saquinhos). Os Envelopes e saquinhos têm paredes
constituídas por camadas de alumínio, polietileno e outros materiais, sendo mais
eficientes na conservação das sementes. Isso ocorre mesmo em umidade e
temperatura elevadas – condições comuns em climas tropicais – e altamente
deletérias às sementes.
Atualmente, observa-se sensível evolução na produção e comercialização de
sementes de hortaliças no Brasil. Nota-se, inclusive, o empenho de algumas
empresas em produzir sementes de cultivares adaptadas às condições brasileiras,
as cultivares nacionais incluídas. Algumas poucas espécies, todavia, não encontram
boas condições agroclimáticas para a produção de sementes, razão pela qual a
semente é importada, como no caso da beterraba.

b) Escolha da cultivar

Atualmente, há grande disponibilidade de cultivares melhoradas, como se


verifica nos catálogos das firmas produtoras de sementes de hortaliças. Novas
cultivares vêm sendo freqüentemente introduzidas, a tal ponto que a única maneira
de alguém se manter atualizado é consultar esses catálogos, ou manter contato com
os agrônomos dessas empresas.
Uma evolução que está em pleno andamento é a introdução de sementes de
novos híbridos. Embora as sementes híbridas sejam de custo muito mais elevado,
em relação às não híbridas, há algumas vantagens em sua utilização. Assim,
apresentam o vigor de híbrido (heterose), que se manifesta pela obtenção de
plantas mais vigorosas desde a germinação da semente e, em algumas espécies,
pelo aumento na produtividade. A uniformidade é outra vantagem, constatada
durante o desenvolvimento da planta até à colheita, inclusive com relação ao
produto colhido. A precocidade é observada em todas as etapas do

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desenvolvimento da planta, com encurtamento do ciclo cultural. Finalmente, os


fitomelhoristas incorporam, com maior facilidade no caso dos híbridos, genes de
resistência a doenças.
A última inovação na escolha de cultivares é o uso de plantas transgênicas –
aquelas com genótipo modificado, contendo genes de outra espécie
“transplantados”. A polêmica sobre a utilização de tais plantas, bem como o efeito
sobre o homem e a natureza, levou à criação da Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança, em 1996, responsável pelas normas relativas ao uso dessas
plantas. Há notícias sobre cultivares transgênicas de hortaliças, obtidas no exterior,
não introduzidas no Brasil. Observe-se, inclusive, que a melancia “sem sementes” e
o tomate “longa vida” foram obtidos por técnicas de melhoramento genético
clássicas. Até o momento, pelo que se sabe, cultivares transgênicas de hortaliças
não estão sendo plantadas nem comercializadas no Brasil.

c) Aquisição de sementes

Atualmente, não mais se justifica o olericultor adquirir sementes retiradas de


embalagens abertas, nem mesmo para pequenos plantios. É que houve uma
sensível evolução, e hoje há embalagens de várias capacidades nos mostruários
das firmas fornecedoras de insumos agrícolas. Igualmente, a não ser que o
olericultor pretenda atuar como fitomelhorista – o que pode ser interessante -, não
mais se justifica produzir sementes na propriedade rural. Há de se considerar esse
um ramo complexo, cada vez mais especializado. Exemplificando, técnicas de
biotecnologia e os procedimentos para a obtenção de híbridos estão fora do alcance
do produtor.
Não é demais, portanto, enfatizar que o olericultor deve adquirir sementes de
alta qualidade em embalagem com capacidade capaz de atender ao tamanho da
cultura programada. É bom ressaltar que se vive, hoje, em um mundo competitivo,
no qual são exigidas mais competência na produção e melhor qualidade no produto.
Logicamente, a aquisição de sementes de qualidade é um dos primeiros passos
para se iniciar uma bem sucedida cultura de hortaliças.

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d) Produção de mudas em sementeiras

Produção de mudas em sementeiras (Fotos: Arquivos UFLA).

Numerosas culturas oleráceas são tradicionalmente propagadas pela


semeadura em canteiros especialmente preparados – as sementeiras. Essas são
espécies que resistem bem ou são até beneficiadas pelo transplante para o local
definitivo, efetuado posteriormente.
Uma sementeira pode ser um canteiro rústico, temporário, ou mais sofisticado,
com proteção de alvenaria. O importante é que deve satisfazer às exigências iniciais
peculiares a cada espécie, em relação aos fatores que afetam a germinação da
semente e o desenvolvimento da plântula, como temperatura do leito, teor de
umidade, arejamento do meio e fornecimento de luminosidade (em poucos casos).
Dessa forma, é importante planejar bem a localização, devendo o local escolhido
receber luz solar ao longo do dia e ter disponibilidade de água. A proximidade do
terreno de implantação definitiva da cultura também é desejável, pois facilita o
manuseio e o transporte das mudas, diminuindo os riscos por ocasião da mudança
de local.
O leito de uma sementeira merece atenção especial. Deve ser constituído de
solo de textura média, mais arenoso que argiloso e que não seja pesado;
adequadamente fértil, mas não exageradamente provido de N; rico em matéria
orgânica decomposta; e com ótimas propriedades físicas (porosidade, arejamento,
retenção de umidade e drenagem). O preparo do solo deve ser cuidadoso, pois é
necessário evitar que torrões, restos culturais e outros obstáculos impeçam o
contato íntimo entre a semente e as partículas do solo. A constituição ideal do solo
de um leito é aquela na qual um pouco dele, quando umedecido e apertado na
palma da mão, forma um torrão, que se esboroa quando esfregado entre os dedos.

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Quando o solo do local escolhido já apresenta a maioria das características


desejáveis, a obtenção de um bom leito é favorecida. Na prática, todavia,
geralmente é necessária a adição de outros materiais. O terriço de mata, aquela
camada escura que cobre o solo por entre as árvores, é ótimo material. Também o
esterco de curral, curtido e peneirado, é útil condicionador de solo. Se o solo do local
é excessivamente argiloso, pode-se lhe adicionar areia.
As dimensões de uma sementeira devem facilitar a semeadura e a execução
dos tratos culturais. Uma largura útil de 1 m evita o pisoteio, quando há
movimentação de pessoas, e facilita os cálculos referentes às quantidades de
sementes e de adubos. Já o comprimento pode ser muito variável, porém não deve
ultrapassar 5 m, evitando-se perdas de tempo na movimentação dos operários. As
sementeiras devem ser separadas por caminhos com 30 cm de largura, para
movimentação de pessoas, e por outros, mais largos, para passagem de máquinas.
A espessura total do leito deve ser de 15-20 cm, sendo 10 cm localizados
acima do nível normal do terreno, no máximo. Em solos com boa drenagem,
somente há desvantagem na construção de sementeiras muito elevadas, pois o leito
torna-se mais rapidamente ressecado. Depois que o solo é revolvido, incorporam-se
condicionadores de solo (esterco, areia ou vermiculita) e procura-se obter a altura
desejada, acertando a superfície com um ancinho.
Quanto à nutrição mineral, a prática tem consagrado a aplicação de 100-150 g
de superfosfato simples, juntamente com 30-40 g de cloreto de potássio, por metro
quadrado, em solos pobres. O N contido na adubação orgânica costuma ser
suficiente na fase inicial do desenvolvimento da plântula, porém um excesso origina
hastes finas e folhas muito tenras. Esterco de curral, bem curtido e peneirado, pode
ser aplicado a lanço e incorporado 10-15 dias antes da semeadura, juntamente com
os adubos minerais. No acabamento final, a superfície do leito deve ser bem
nivelada.
A semeadura bem rala é feita em sulcos transversais distanciados 10-15 cm e
na profundidade de 1 cm no caso de sementes diminutas. Quando as sementes são
maiores, a profundidade deve ser aumentada, havendo uma regra que estabelece
ser ela o dobro do maior diâmetro. Na maioria das espécies, a densidade de
semeadura deve ser de 3-4 gramas por metro quadrado de leito.
Após a semeadura, os sulcos devem ser cobertos com material do próprio leito,
vermiculita, areia fina ou casca de arroz, não devendo tais coberturas ser removidas.

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Materiais como palha, capim seco ou estopa, podem ser aplicados, porém deverão
ser retirados logo no início da emergência, prevenindo-se o estiolamento das
plântulas.

e) Produção de mudas em copinhos

A produção de mudas em copinhos confeccionados com papel de jornal – uma


invenção brasileira da dec. de 1970 – é mais vantajosa para certas espécies em
relação ao uso de sementeiras. É o caso das solanáceas-fruto (tomate, pimentão,
pimenta, berinjela e jiló) e das cucurbitáceas (pepino, abóbora, moranga, melão e
melancia), que podem ser beneficiadas.
Uma das vantagens no uso de copinhos é a diminuição do manuseio das
mudas, prevenindo-se a disseminação de fitopatógenos por mãos contaminadas.
Danos ao sistema radicular são evitados, o que dificulta a penetração de
fitopatógenos de solo. Há redução do tempo necessário à formação da muda, que
permanece no copinho por 25-30 dias, no máximo, após a semeadura. O ciclo da
cultura também é diminuído, devido à ausência de danos às raízes, aumentando-se
a precocidade da colheita. Quando são utilizados híbridos, cujas sementes são de
custo mais elevado, há melhor aproveitamento. Finalmente, o “pegamento” da
muda, após o plantio no local definitivo, é favorecido.
Um dos inconvenientes da formação de mudas em copinhos é a utilização
intensiva de mão-de-obra. Outra desvantagem é que os copinhos perdem água
muito rapidamente, exigindo irrigações abundantes e freqüentes durante o dia.
Para o substrato, um bom material é o terriço de mata ou qualquer outro solo
contendo teor elevado de matéria orgânica já decomposta. No caso de se utilizar
solo pobre, este poderá ser misturado com esterco de curral bem curtido e
peneirado, na proporção volumétrica de 2:1. O superfosfato simples pode ser
aplicado na dose de 20-40 g por litro da mistura, conforme a espécie.
Os copinhos podem ser arranjados, encostados um ao outro, formando-se
lotes com 1 m de largura e até 5 m de comprimento. Distribuem-se duas a três
sementes no centro de cada copinho, as quais devem ser cobertas com o substrato,
de modo a ficarem localizadas na profundidade de cerca de 10-20 mm, dependendo
do tamanho das sementes. Podem-se cobrir os copinhos com casca de arroz, que
não exige a retirada, pois não prejudica a emergência. Irriga-se com regadores de

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crivo fino ou pequenos aspersores, uma ou mais vezes ao dia. Desbastam-se as


plantinhas em excesso, ao apresentarem as duas folhas cotiledonares e surgir a 1 a
folha definitiva, deixando-se uma a duas mudas por copinho.

f) Produção de mudas em bandeja

(Fotos: Arquivos UFLA)

- O sistema “speedling”

Em 1985, o sistema “speedling” de produção de mudas – muito utilizado em


outros países – foi introduzido entre tomaticultores paulistas. Consiste na
semeadura em bandejas de isopor.
As células apresentam o formato de tronco de pirâmide invertido, com abertura
na parte inferior. Propiciam o direcionamento das raízes e impedem o seu
enovelamento – defeito comum em outros sistemas de semeadura. Sem o
enovelamento das raízes, as mudas transplantadas para o campo retomarão o
desenvolvimento com maior rapidez, o que reduz o ciclo cultural. Suspensas, as
bandejas facilitam a “poda pelo ar”, que ocorre quando a raiz principal atinge o fundo
das células e cessa o crescimento, havendo estímulo para a emissão de raízes

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secundárias. Proporciona-se, assim, maior equilíbrio entre a parte aérea e o sistema


radicular.

- Substrato

São utilizados substratos especiais nas bandejas, isentos de fitopatógenos e


de sementes de plantas daninhas, com ótimas propriedades físicas e teores
adequados de nutrientes. Esses substratos facilitam, inclusive, a retirada das mudas
em ponto de transplante com torrão. São constituídos por vermiculita expandida,
materiais orgânicos (turfa, casca de pinus, carvão de casca de arroz ou composto
orgânico), fertilizantes e aditivos.
A inclusão de vermiculita expandida é altamente vantajosa, pois esse material
micáceo absorve até 5x o próprio volume em água. Além de conter teores favoráveis
de K e Mg disponíveis, apresenta boa retenção de nutrientes, graças à elevada
capacidade de troca catiônica, aliás, uma propriedade dos bons solos agrícolas. A
vermiculita deve ser utilizada na base de 30-40% em relação ao volume da mistura
dos demais materiais.
Um bom substrato não deve conter solo, devido à presença de fitopatógenos e
sementes de plantas daninhas e por dificultar a retirada da muda com torrão. Essa é
uma das situações, em olericultura, nas quais o solo não é o melhor suporte para as
raízes.
Há substratos prontos para uso, formulados por firmas idôneas, disponíveis no
comércio. A esses substratos não devem ser adicionados fertilizantes ou quaisquer
outros materiais. Também é possível formular bons substratos na propriedade rural.

- Enchimento e semeadura nas bandejas

O substrato seco deve ser vertido sobre as bandejas, bem umedecidas,


usando-se uma régua para espalha-lo sobre um grupo de bandejas. As bandejas
devem estar apoiadas sobre uma bancada, não devendo ser erguidas até que o
substrato dentro das células esteja umedecido, para não haver perda pelo fundo das
células. Outra alternativa de enchimento, sem que o substrato se perca, é umedecer
levemente o substrato. Após o enchimento, o excesso é retirado com o auxílio de

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uma régua. Deve-se evitar a compactação do substrato, pois pode afetar a


vermiculita.
Colocam-se duas ou três sementes pequenas no centro das células, na
profundidade de 3-5 mm. Há quem prefira cobrir as sementes com vermiculita
finamente moída ou com areia. Quando se usa semente peletizada, ou semente
híbrida, de custo elevado, pode-se semear apenas uma.
As bandejas, após a semeadura, podem ser cobertas com estopa ou material
palhoso, que serão retirados por ocasião da emergência. Embora as bandejas
possam ser expostas ao tempo, os olericultores mais tecnificados preferem protege-
las dentro de túnel ou casa de vegetação. Evita-se, desse modo, o indesejável
impacto da chuva, com lixiviação de nutrientes e deslocamento das sementes.

- Tratos culturais nas bandejas

O conteúdo das células, estando as bandejas suspensas, perde água com


rapidez, o que é minimizado pela inclusão de vermiculita no substrato. Mesmo
assim, irrigações freqüentes são necessárias, com pouca intensidade, duas a três
vezes ao dia. Deve-se evitar o escoamento de água pelo orifício do fundo das
células, pois isso provoca a perda de nutrientes por lixiviação. Portanto, aplica-se
menor volume de água de cada vez, com irrigações freqüentes, utilizando-se um
regador de crivo fino ou microaspersores. Quando as mudas estiverem mais
desenvolvidas, a freqüência da irrigação deve ser diminuída, para que ocorra o
“endurecimento” da muda.
O desbaste é a eliminação das plantinhas excedentes, em cada célula, quando
se utilizou mais de uma semente. Deve ser efetuado entre 5 e 10 dias da
semeadura, dependendo da espécie. Previamente, faz-se uma irrigação farta,
trabalhando com o substrato umedecido, o que facilita o arrancamento. Há quem
prefira cortar as plantinhas para não abalar as raízes da muda selecionada.
Quando em ponto de transplante, as mudas deverão exibir um sistema
radicular abundante, muitas vezes cobrindo o torrão formado. Uma irrigação prévia
favorece o arrancamento das mudas.

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- Vantagens da utilização de bandejas

A produção de mudas em bandejas vem sendo preferida por olericultores de


elevado nível tecnológico, certamente por ser superior aos demais sistemas.
Observa-se que, por suas insofismáveis vantagens de ordem agronômica e
econômica, esse sistema de produção de mudas tende a substituir os demais.
O sistema “speedling” eleva o rendimento operacional, na execução de todas
as tarefas; reduz a quantidade necessária de semente, graças à melhor germinação
obtida; melhora a qualidade da muda, pelo equilíbrio entre a parte aérea e o sistema
radicular; aumenta a eficiência na produção de mudas, pela racionalização do uso
do espaço e do tempo; facilita o manuseio das mudas no campo; permite que as
mudas sejam transplantadas com um porte menor; aumenta a rapidez no
desenvolvimento da planta; e propicia maior precocidade na colheita.

g) Transplante das mudas

Define-se transplante como a operação de retirar a muda e planta-la no local


definitivo, geralmente em sulco, ou em cova. No caso da maioria das espécies
oleráceas, normalmente transplantadas, o ponto ideal de desenvolvimento é quando
a muda apresenta 4-6 folhas definitivas e 10-15 cm de altura. No sistema
“speedling”, entretanto, as mudas são transplantadas com porte menor, mais novas,
devido à aceleração no desenvolvimento. A idade, em dias, a partir da semeadura, é
muito variável, dependendo da espécie e das condições agroecológicas.
As mudas podem ser transplantadas com raiz nua, quando produzidas em
sementeiras. Aquelas desenvolvidas em copinhos de papel de jornal, ou em
bandejas, apresentam o sistema radicular protegido por torrão. Há substanciais
vantagens em relação às mudas com raiz nua: o índice de “pegamento” no campo
aumenta; a muda recupera-se mais rapidamente, após o transplante; e a planta
retoma o seu desenvolvimento com maior presteza.
Quando as mudas são produzidas em copinhos de papel de jornal, este não é
retirado por ocasião do transplante, o que mantém as raízes quase ntactas dentro
do torrão. Observe-se que apenas o papel de jornal deve ser utilizado, pois permite
a penetração das raízes. No caso de serem utilizadas bandejas com substrato
adequado, as mudas também apresentam o torrão.

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O “endurecimento” das mudas, previamente ao transplante, objetiva adapta-las


melhor às condições do local definitivo, menos favoráveis. Para isso, suspende-se a
irrigação às vésperas do transplante, elevando o teor de matéria seca na planta. A
retomada do desenvolvimento da planta, após o choque provocado pelo transplante,
é favorecida quando há teor elevado de matéria seca. A diminuição na turgescência
também facilita o manuseio e reduz os danos mecânicos, favorecendo o transplante.
O endurecimento também é propiciado pelo fornecimento adequado de P e K, sendo
prejudicado por excesso de N.
A profundidade adequada, ao se transplantar a muda para o local definitivo,
depende da espécie. Dessa forma, as espécies de caule pouco distinto devem ser
plantadas, geralmente, a uma profundidade um pouco maior em relação àquela em
que se encontravam, devendo ser enterradas até à altura de inserção das folhas,
como no caso de tomate e outras solanáceas-fruto. Contrariamente, as mudas de
caule pouco evidente devem ser plantadas na mesma profundidade, como no caso
da alface e outras asteráceas herbáceas. Esses cuidados favorecem a retomada do
desenvolvimento, após o inevitável estresse ocasionado nas plantas pelo
transplante.
Quando a qualidade das mudas produzidas é questionável, é prudente destruí-
las e efetuar nova semeadura.
Uma rigorosa seleção deve ser efetuada, por ocasião do transplante. Desse
modo, são eliminadas todas as mudas anormais, aproveitando-se apenas aquelas
com as características típicas da cultivar e em ótimas condições fisiológicas e
fitossanitárias. Vale enfatizar que as mudas podem constituir excelente veículo de
disseminação de fitopatógenos e que a boa seleção é uma medida preventiva.
Também não devem ser transplantadas mudas “passadas”, pois originarão plantas
adultas tardias e menos produtivas.
Para viabilizar uma seleção rigorosa, é necessário que se obtenha um número
de mudas úteis que seja o dobro, ou pouco menos, do requerido para plantio.
Embora se eleve, dessa forma, o custo do material de propagação, essa
desvantagem é amplamente compensada pela sanidade e produtividade que serão
obtidas na cultura. A disponibilidade de mudas de reserva também possibilita o
replantio de falhas na cultura, obtendo-se o número planejado de plantas adultas,
por hectare plantado.

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O plantio de mudas com raízes envoltas por torrão – muito superiores às


mudas com raízes nuas – é feito nos sulcos ou nas covas, no espaçamento
adequado. A adubação organomineral aplicada, desde que bem incorporada ao
solo, não afeta esse tipo de muda, e a planta retoma o desenvolvimento com
rapidez. Contrariamente, as mudas de raízes nuas exigem cuidados maiores,
evitando-se o contato direto das raízes com os adubos. O esterco puro, obtido em
gaiolas de galinhas poedeiras, por exemplo, é ótimo adubo, mas pode danificar
mudas de raízes nuas.
O sucesso na operação de transplante traduz-se pelo “pegamento” elevado
das mudas – influenciado pelas condições agroecológicas e agrotecnológicas.
Assim, a presteza com que são efetuadas as primeiras irrigações é garantia de
sucesso, na ausência de chuvas. A aspersão é mais eficiente, por molhar a parte
aérea da planta e reduzir a perda de água por evapotranspiração. Uma prática
favorável é a irrigação do terreno pré-plantio, transplantando-se com solo úmido.
Optando pela irrigação no sulco, deve-se aplicar a água inicialmente em um sulco de
rega temporário, localizado bem próximo às mudas transplantadas; ou irriga-se no
próprio sulco de plantio. O gotejamento também pode ser utilizado, desde que as
mudas fiquem localizadas na região úmida produzida.
A hora mais favorável para se efetuar o transplante é logo antes do crepúsculo,
quando a temperatura se torna amena e não há incidência de luz solar intensa e
direta. Dias chuvosos ou com céu encoberto também favorecem o “pegamento” das
mudas. Condições ambientais desfavoráveis afetam muito mais as mudas de raízes
nuas que aquelas com raízes protegidas por torrão.

h) Semeadura diretamente no local definitivo

A maioria das espécies propagadas por semente botânica pode ser semeada
diretamente no local definitivo, evitando-se a trabalhosa operação de transplante.
Por exemplo, em alguns países, repolho, pimentão, alface e cebola são semeados
diretamente no campo, enquanto no Brasil eles são transplantados.
Outros exemplos:
- Melancia e outras cucurbitáceas (apresentam pouca tolerância ao
transplante);
- Feijão-vagem e demais fabáceas, milho e quiabo – todas intolerantes;

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- Tomate rasteiro para agroindústria (também pode ser transplantado);


- A maioria das hortaliças tuberosas, como cenoura, rabanete, rábano, nabo e
beterraba (também pode ser transplantada).

Cada cultura apresenta peculiaridades, inclusive que afetam a propagação. É o


caso das cucurbitáceas e fabáceas (leguminosas), que, com suas sementes
graúdas, são facilmente semeadas diretamente em covas ou em sulcos; já a
cenoura e o rabanete, com suas sementes pequenas, são semeadas em sulcos
superficiais, sobre canteiros definitivos.
Sementes diminutas e de formato irregular, como as de alface, cebola e
cenoura, podem ser “peletizadas”, ou seja: recebem um revestimento que
transforma cada semente numa pequena esfera, favorecendo a semeadura
mecânica. Entretanto, a utilização de sementes peletizadas, em semeadura
mecânica direta, ainda é incipiente no Brasil. Possivelmente uma das razões é o
custo mais elevado, em relação à semente comum, embora essa técnica permita
eliminar o desbaste das plantinhas em excesso – ainda efetuado manualmente.
Inegavelmente, há algumas vantagens na semeadura direta: substancial
economia de mão-de-obra; precocidade no desenvolvimento da planta; redução no
ciclo até à colheita; e menor disseminação de fitopatógenos, na parte aérea e nas
raízes. Entretanto, também há pontos negativos: maior quantidade de sementes
requeridas por unidade de área e maior dificuldade na aplicação dos tratos culturais
iniciais, inclusive capina e irrigação.

5.2. PROPAGAÇÃO VEGETATIVA

A propagação vegetativa ou assexual baseia-se na capacidade – inerentes a


certas estruturas de algumas espécies – de formar um novo indivíduo vegetal,
completo e idêntico à planta matriz. Para isso, essas estruturas são destacadas da
planta-mãe e plantadas. Algumas espécies são propagadas por esse meio, sendo
as principais, em ordem alfabética: agrião, alcachofra, alho, aspargo, batata, batata-
doce, cará, cebolinha, couve-manteiga (clones), inhame, mandioquinha-salsa,
morango e taioba. As estruturas utilizadas são de tipos variados: rebentos, ramas,
bulbilhos, tubérculos, perfilhos, estolhos, dentre outras. São plantadas no local
definitivo ou previamente enraizadas em viveiros. Há razões ponderáveis para que a

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propagação vegetativa seja utilizada, com exclusividade, em certas espécies, sendo


a inabilidade para produzir sementes botânicas a principal. Outra razão é que
reproduz, com perfeita exatidão, as características da planta-mãe, inclusive aquelas
apreciadas pelo consumidor.
Em propagação vegetativa, assume relevância o conceito de clone: conjunto
de indivíduos originários de uma planta matriz, conseqüentemente possuindo
constituição genética (genótipo) idêntica, em relação a ela e entre si. As plantas
obtidas apresentam o mesmo aspecto (fenótipo), constituindo uma cultura muito
uniforme, por exemplo, clones de alho, que vêm sendo propagados há milênios e
mantêm sua identidade. Entretanto, mutações somáticas podem ocorrer, e o
mutante pode vir a constituir uma nova cultivar clone, caso apresente boas
características, o que, porém, é a exceção, não a regra.
Há um grupo de espécies que pode ser propagado por via vegetativa ou por
sementes, dependendo da conveniência. É o caso da alcachofra, aspargo, cebolinha
e couve. No entanto, vale enfatizar que somente por meio da propagação vegetativa
é que se obtém a reprodução integral das características da planta matriz. Além
disso, o ciclo é reduzido e há antecipação na colheita.
As plantas matrizes devem ser selecionadas pela produtividade, pelo vigor
vegetativo, pelo estado fitossanitário e pelas características do produto.
A propagação vegetativa apresenta algumas desvantagens, quando
confrontada com a via sexual. A principal é a degeneração dos clones ocasionada
pelo progressivo acúmulo de fitopatógenos ao longo das gerações, com a
conseqüente perda de vigor e de produtividade. É que as estruturas propagativas
constituem eficiente meio de perpetuação, não apenas das boas características da
planta matriz, mas também de viroses, por exemplo. Inclusive, a cultura de tecidos
tem sido utilizada para “limpar” certos clones especialmente valiosos, obtendo-se
plantas isentas de fitopatógenos. Essa técnica tem sido praticada, com sucesso, em
batata, morango, alho, batata-doce e mandioquinha-salsa, possibilitando o
“rejuvenescimento” de cultivares tradicionais.
Há uma desvantagem incontornável na propagação vegetativa: o volumoso
material propagativo onera demasiadamente o custo de implantação da cultura. Por
exemplo: no caso da batata, o item batata-semente é responsável por 40% do custo
global da cultura, em certos casos; em cenoura, a semente responde por 4%; e no
tomate tutorado o gasto não passa de 1%, geralmente.

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5.3. A CONTRIBUIÇÃO DA BIOTECNOLOGIA

A biotecnologia consiste na utilização de células ou tecidos provenientes de


seres vivos, no caso de vegetais, para fins tecnológicos. No caso da agricultura,
procura-se reproduzir uma planta completa, a partir de uma pequena parte, em
laboratório. É possível, inclusive, reconstituir uma planta partindo-se de uma única
célula, já que esta contém todas as informações genéticas necessárias.
Um exemplo da aplicação prática da biotecnologia é o “rejuvenescimento” de
uma antiga cultivar, propagada a partir de tecidos meristemáticos, isentos de vírus e
outros fitopatógenos. Assim, obtém-se uma “nova” planta (mesmo genótipo)
apresentando absoluta fitossanidade, que passa a ser propagada vegetativamente.
Exemplificando: as cultivares nacionais de batata Aracy e Baronesa foram “limpas”
por esse meio, obtendo-se batata-semente pré-básica e básica de alta qualidade.
Essa técnica também vem sendo utilizada na tradicional cultivar paulista IAC
Campinas, originando mudas isentas de viroses.
A cultura do alho poderá vir a ser beneficiada pela variabilidade genética obtida
na cultura de células ou tecidos dos atuais clones, já que mutações somáticas
ocorrem. Então, novos clones poderiam ser selecionados como novas cultivares.
Indo mais além, a fusão de protoplastos – células vegetais desprovidas de parede
celular – permite a hibridação somática entre plantas que não se cruzam pela via
sexual normal. Desse modo, seria possível criar “híbridos somáticos” pelo
cruzamento dos atuais clones, reunindo-se as características desejáveis na mesma
planta, que constituiria uma cultivar melhorada. Entretanto, por enquanto, tais
possibilidades ainda não se tornaram realidades.
A biotecnologia vem, portanto, contribuindo nas áreas de fitomelhoramento e
propagação de plantas. Contudo, é imprescindível que se estabeleça uma “ponte”
eficiente, ligando o laboratório do cientista e a propriedade rural, para que os últimos
avanços da ciência se convertam, com presteza, em agrotecnologia viável.

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6. IRRIGAÇÃO

A água constitui mais de 90% do peso de matéria fresca da parte utilizável da


maioria das hortaliças, razão pela qual estas se destacam, dentre as culturas de
relevância, pela elevada exigência de água. Assim, a irrigação é um dos mais
característicos e relevantes tratos culturais, sendo, também, aquele de mais difícil
execução.

6.1. NOÇÕES BÁSICAS SOBRE IRRIGAÇÃO

O teor de água útil no solo, ou seja, o que é aproveitável pelo sistema radicular
das culturas, varia de 0 a 100%. Dentro dessa faixa, quanto mais elevado, mais
facilmente a água será utilizada pelas plantas. Note-se que um teor próximo a 0%
não significa que o solo se ache completamente seco, mas que a pouca água
existente está tão fortemente retida pelas partículas do solo que não é utilizável.
Quando esse teor é atingido, provoca murchamento irreversível nas plantas – o
ponto de murcha permanente. No outro extremo está o teor de 100%, que é o teor
máximo de água que um solo pode comportar – a capacidade de campo – antes que
ocorra a perda de água livre ou gravitacional.
Quando se irriga uma cultura, o teor de água útil deve atingir 100% na região
do solo onde ocorre maior concentração de raízes ativas. Esse nível não deve ser
ultrapassado, sob pena de ocorrer perda de água livre. Após a irrigação, e ao longo
do tempo, o teor de água cairá, devido à utilização pela planta e às perdas.
O teor de água útil no solo, junto às raízes, varia com a espécie e com o
estádio de desenvolvimento da planta; porém, como regra geral, deve ser mantido
entre 70 e 100%. Objetiva-se, assim, maximizar a produtividade e a qualidade do
produto a ser obtido. As hortaliças herbáceas são as mais exigentes de água,
devendo o teor ser mantido próximo a 100% ao longo do ciclo cultura, inclusive
durante a colheita. Sabe-se que mesmo uma ligeira deficiência favorece a formação
de tecidos grosseiros; o desejável são tecidos macios e túrgidos.
As hortaliças-fruto constituem o grupo seguinte, em ordem decrescente de
exigência hídrica. Há dois estádios críticos em que um período de deficiência pode
comprometer a produção: o vegetativo inicial e o de floração e frutificação. São
aqueles de maior sensibilidade, nos quais mesmo uma leve deficiência hídrica afeta

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a produção. No caso de espécies de produção contínua de frutos, por longo período,


como as solanáceas-fruto, um teor de água próximo a 100% deve ser mantido
também durante a colheita. Outras, como a maioria das cucurbitáceas, exigem
teores mais baixos na fase de amadurecimento dos frutos, o que influencia a
qualidade.
Seguramente, são as hortaliças tuberosas as culturas menos exigentes de
água, inclusive podendo dispensar a irrigação quando chuvas abundantes ocorrem
semanalmente. Mesmo assim, durante o desenvolvimento vegetativo, o teor de água
útil no solo deve ser mantido elevado (70-90%). Durante a formação das partes
tuberosas comestíveis também se deve manter um teor elevado, visto que um farto
suprimento hídrico, nessa fase, eleva a produtividade. Todavia, excesso de água,
ocasionado por drenagem deficiente, ou por aplicação excessiva, prejudica a
qualidade do produto. No estádio final da cultura, quando do “acabamento”, é
necessário manter um teor ainda mais baixo, devendo a colheita ser efetuada com
solo ainda mais seco.
Na maioria das culturas deve-se aplicar, de cada vez, volume de água
suficiente para elevar o teor de água útil até 100%, preferencialmente apenas na
região do solo onde há maior concentração de raízes ativas na absorção (a grande
vantagem do gotejamento). Assim, pequenos volumes de água, aplicados com
freqüência, podem ser vantajosos em certas situações. Entretanto, umedecem o
perfil do solo somente até uma pequena profundidade, restringindo o
desenvolvimento radicular a essa camada superficial. Desse modo, em espécies de
enraizamento mais profundo, a planta pode se tornar incapaz de explorar as
camadas mais profundas do solo, em razão da superficialidade forçada das raízes,
bem como perder a habilidade em resistir a um período acidental de seca.
Dependendo da espécie, então, irrigações mais espaçadas e com maior volume de
água podem ser mais favoráveis. Certamente, a melhor opção depende da espécie
cultivada, levando-se em consideração se o sistema radicular se desenvolve
lateralmente ou em profundidade. Na formação de mudas, por exemplo, é desejável
que as irrigações sejam mais freqüentes e que seja menor o volume de água
aplicado por vez, já que o sistema radicular ainda está em formação e a planta é
mais sensível à perda de água.
Deve-se irrigar a cultura tão-somente para suprir suas necessidades na justa
medida, procurando maximizar os efeitos favoráveis e minimizar os custos. A

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racionalização da irrigação, aliás, é premente na época atual, evitando-se o


desperdício de água, bem como a má utilização da energia.

6.2. IRRIGAÇÃO POR SULCO

A irrigação por sulco – antigamente denominada irrigação por


infiltração – ainda é utilizada por pequenos olericultores. Realmente é vantajosa
para produtores que dispõem de pequeno capital e de propriedade com elevada
disponibilidade de água, especialmente quando esta se localiza na parte alta do
terreno, podendo ser conduzida por gravidade. Em outros casos, a construção de
pequenas barragens de terra possibilita a elevação necessária. Também podem ser
utilizadas motobombas, para elevar a água, quando não há outro meio.
Um dos relevantes pontos negativos da irrigação por sulco é a elevada
utilização de mão-de-obra especializada na sistematização do terreno e na abertura
dos sulcos e canais, bem como na aplicação e no controle da água. Mais grave
ainda, esse é o método que utiliza e desperdiça maior volume de água por hectare
irrigado. Além disso, a erosão acelerada pode se tornar altamente destruidora,
mormente em glebas com topografia acidentada.
Entretanto, em culturas freqüentemente pulverizadas com defensivos – como
tomate e outras solanáceas-fruto – a irrigação por sulco é positiva, pois não provoca
a lavagem dos pesticidas aplicados à parte aérea, diminuindo, então, a necessidade
de pulverizações e facilitando o controle fitossanitário.
Pequenos olericultores, dispondo de abundância de água, na parte alta do
terreno que pretendam irrigar, podem optar pela rega no sulco, já que não há
dependência de motobombas nem gasto com combustível ou eletricidade.
Na aplicação da irrigação por sulco, deve-se observar o denominado “perfil
úmido”, formado pela infiltração da água nos sentidos vertical e lateral, sendo muito
dependente da textura do solo. Observe-se que a tendência para infiltração vertical
é muito mais acentuada em solos arenosos, lembrando o formato de uma cenoura.
Em solo argiloso, há maior movimentação lateral da água, aproximando-se o perfil
obtido da silhueta de um nabo achatado.
A seção dos sulcos também influencia o tipo de “perfil úmido” obtido, razão
pela qual devem ser construídos com boa largura e pouca profundidade. Assim,
permitem maior movimentação lateral da água, com melhor aproveitamento pelas

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raízes das plantas dispostas lateralmente, próximas ao sulco. Também pode-se


evitar que as fileiras do centro de um canteiro não recebam água adequadamente,
pelo fato de as raízes não alcançarem a zona úmida. Todavia, mesmo nas melhores
condições, o movimento lateral da água é pequeno, a partir de duas margens de um
sulco cheio. Esse movimento realiza-se por capilaridade, da parte saturada (100%
de água útil) até a parte mais seca do solo. Por apresentarem movimento lateral
mais acentuado, os solos argilosos ou ricos em matéria orgânica são mais
favoráveis à rega por sulco, em relação aos arenosos. Mesmo assim, as fileiras de
plantas devem ser localizadas o mais próximo possível das margens dos sulcos.
A freqüência da irrigação por sulco – o turno de rega – depende da espécie
cultivada, do tipo de solo e das condições climáticas. Solos com maior capacidade
de retenção de água (argilosos ou ricos em matéria orgânica) possibilitam turnos de
rega maiores. Hortaliças herbáceas exigem irrigações mais freqüentes que as
tuberosas, por exemplo. Na prática, irriga-se uma ou duas vezes por semeana. O
olericultor também deve procurar a combinação mais vantajosa entre o intervalo de
rega e a quantidade de água aplicada. Em algumas situações, irrigar mais
pesadamente e com maior turno de rega pode ser mais favorável; noutras,
irrigações leves e freqüentes são mais propícias. Certamente, o estádio de
desenvolvimento da planta deve ser considerado.

6.3. IRRIGAÇÃO POR ASPERSÃO

a) Características da aspersão

Numerosos olericultores, sejam eles pequenos ou grandes, preferem a


irrigação por aspersão – uma imitação tecnológica da chuva. Uma das vantagens
desse método é controlar a freqüência, a duração, a intensidade e o tamnho das
gotas. Evita a instalação da complexa rede de canais e sulcos, necessária na rega
por sulco, a qual reduz a área útil ocupada pelas plantas, dificulta a mecanização e
ocasiona, não raro, a erosão da gleba cultivada. Note-se que tanto o pequeno
olericultor, com mangueira de jardim, como o grande empresário, que irriga com pivô
central, estão praticando a aspersão, utilizando os mesmos princípios.
Na aspersão, a água é conduzida dentro de tubulações, sob pressão, até os
aspersores. Estes são capazes de irrigar qualquer gleba, independentemente do tipo

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de solo ou da topografia, inclusive no caso de terrenos planos ou acidentados. A


aspersão, também, permite ótimo controle da quantidade de água a ser aplicada,
além de requerer quantidade muito menor, em relação à rega por sulco, para se
obter resultado similar. A eficiência e a uniformidade da irrigação são muito maiores
mesmo em solos arenosos, nos quais é problemática a irrigação por sulco.
A superioridade da aspersão também é notória, especialmente nos estádios
iniciais do desenvolvimento das culturas, propiciando melhor germinação e
emergência mais uniforme e mais rápida das plântulas. Isso se explica pelo diminuto
tamanho das raízes, dificultando que seja alcançada a zona úmida, propiciada pelos
sulcos de irrigação. Nos estádios posteriores, a aspersão permite que o sistema
radicular se desenvolva melhor e trabalhe mais ativamente, já que há volume maior
de solo úmido. Logicamente, o trabalho radicular mais ativo facilita o aproveitamento
dos nutrientes, beneficiando a produção e a qualidade do produto.
A rega por aspersão racionaliza as operações de campo e é muito menos
exigente de mão-de-obra. A execução, inclusive, é muito simples – isso após uma
instalação complexa.

b) Manejo da irrigação

A freqüência das irrigações depende de vários fatores, mas, ao longo do


período seco, a maioria das culturas exige uma ou três aplicações semanalmente.
Em muitas situações, é mais vantajoso promover regas espaçadas e abundantes
que diárias e superficiais. Então, o turno de rega pode variar de 3-7 dias,
geralmente. No período chuvoso, a aspersão é aplicada para complementar as
chuvas sempre que o teor de água útil no solo baixar a um nível desfavorável à
cultura.
A duração da rega e o volume de água aplicado em cada irrigação devem
possibilitar que a zona de maior concentração radicular atinja 100% de água útil – a
capacidade de campo. Assim, tempo de aplicação e volume de água devem ser
controlados em cada faixa do terreno irrigada, evitando-se a perda de água
gravitacional. O uso de tubulação portátil facilita as operações de desmontagem da
linha, transporte e nova montagem, passando-se a irrigar a faixa seguinte.
Quando viável, deve-se preferir irrigar do crepúsculo até ao amanhecer, pois o
aproveitamento da água aplicada é máximo, em razão da ausência de luz solar e de

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ventos quentes e secos – causas de perdas elevadas. Em culturas delicadas, a


irrigação noturna também previne a ocorrência de queima das folhas, bem como de
outros distúrbios. Embora seja uma prática vantajosa, a irrigação noturna é pouco
difundida entre os olericultores.

c) Pontos negativos da aspersão

A aspersão também apresenta algumas desvantagens, em relação à rega por


sulco. A mais notória tem sido a lavagem provocada nos pesticidas pulverizados
sobre a parte aérea, dificultando o controle fitossanitário. Isso é crucial no caso de
culturas altamente suscetíveis ao ataque de fungos fitopatogênicos, como as
solanáceas. É por essa razão que a grande maioria dos produtores de tomate
tutorado prefere a rega no sulco. Logicamente, a dificuldade pode ser contornada
pela pulverização mais freqüente, efetuada logo após o secamento da parte aérea,
porém isso aumenta a utilização de defensivos – algo desvantajoso, sob todos os
aspectos.
Outro ponto negativo da aspersão, muito propalado, é a criação de um
microclima úmido envolvendo a parte aérea da cultura, propício à atuação de fungos
fitopatogênicos. Isso somente ocorre sob elevada umidade relativa do ar.
Contrariamente, sob baixa umidade no ar a parte aérea torna-se seca muito
rapidamente após a irrigação.
Além disso, por ser a irrigação muito influenciada pelo vento, a uniformidade na
aplicação de água sobre a cultura é comprometida e nem sempre é possível efetuar
correções, como diminuir o espaçamento entre as linhas laterais, nas quais estão
montados os aspersores.

6.4. IRRIGAÇÃO POR GOTEJAMENTO

O gotejamento é um “novo” método de irrigação, introduzido na olericultura


brasileira durante a década de 1990. Consiste em aplicar água, gota a gota,
diretamente na zona de maior concentração de raízes. Para isso, a água é
conduzida, sob pequena pressão, dentro de tubulações plásticas flexíveis providas
de simples perfurações ou de gotejadores. Esse método foi desenvolvido em Israel,
a partir do início da déc. De 1960, para propiciar o máximo de eficiência na utilização

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da água. Culturas em solos arenosos, com baixa retenção de água, e em zonas


áridas, com perdas por evapotranspiração elevadas, são mais eficientemente
irrigadas por gotejamento.
Embora a experiência do olericultor brasileiro com o gotejamento seja
pequena, há situações em que esse método se mostra indubitavelmente superior.
Em culturas semeadas em fileiras muito espaçadas, como melão e melancia, aplicar
água diretamente nas raízes é mais racional que espalha-la sobre o terreno
(aspersão), favorecendo plantas invasoras, ou faze-la correr em sulco, molhando e
prejudicando os frutos em desenvolvimento. Em tomate tutorado, o gotejamento
evita algumas desvantagens dos demais métodos de irrigação, pois não molha as
folhas, lavando os pesticidas, como na aspersão, nem provoca erosão em terrenos
acidentados, como na irrigação em sulco. Em culturas conduzidas em casas de
vegetação, o gotejamento tem sido utilizado freqüentemente.
Um princípio básico do gotejamento é fornecer água diretamente ao sistema
radicular, em quantidade que se aproxime, o possível, do consumo da planta. Rega-
se tão somente o volume de solo que contém as raízes. A taxa de aplicação nunca
deve ser superior à capacidade de retenção do solo, evitando-se a perda de água
gravitacional. Mantém-se, assim, o solo junto às raízes continuamente úmido, mas
não saturado, razão pela qual permanece favoravelmente arejado.

a) Vantagens e desvantagens do gotejamento

As principais vantagens do gotejamento, como praticado em Israel e outros


países, em relação à irrigação por sulco ou por aspersão, podem ser resumidas nos
seguintes pontos:

- Propicia notável economia de água e aumento na eficiência da irrigação, já


que apenas repõe a água evaporada ou absorvida pela planta num volume limitado
de solo, onde se concentram as raízes.
- Favorece o controle das plantas invasoras, já que a superfície global do solo
não é toda molhada, como na rega por aspersão, nem boa parte dela, como na rega
por sulco.

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- Possibilita grande economia em mão-de-obra para se efetuar a irrigação, pois


exige apenas o controle do funcionamento do equipamento já instalado, sem
movimentação de tubos.
- Favorece a utilização da fertirrigação e proporciona alta eficiência no
aproveitamento dos nutrientes aplicados, uma vez que as raízes se acham
envolvidas por solo com teor propício de umidade.
- Auxilia na conservação do solo, prevenindo o escorrimento superficial da
água aplicada e evitando a lixiviação de nutrientes para as camadas mais profundas,
longe das raízes.
- Favorece o desenvolvimento da cultura em todas as etapas, tornando-a mais
precoce, inclusive antecipando a colheita.
- Aumenta substancialmente a produtividade em diversas culturas oleráceas,
comparado aos demais métodos.
- Reduz significativamente a necessidade de aplicação de pesticidas, já que os
problemas fitossanitários diminuem.

As desvantagens do gotejamento, comparado aos demais métodos de


irrigação, são poucas. Uma delas é que as tubulações, contendo os gotejadores
embutidos, não podem ser tão longas quanto aquelas usadas na aspersão. Também
é imprescindível a utilização de motobomba, filtro, tubos e registros – o que,
dependendo da situação, pode exigir elevado emprego de capital.

b) Utilização do gotejamento

Atualmente, no Brasil, já não há mais dúvidas de que o gotejamento possa ser


uma opção vantajosa, em termos agronômicos e econômicos, de irrigar culturas
oleráceas. Certamente, ainda há poucos dados experimentais brasileiros, porém
olericultores pioneiros vêm conseguindo bons resultados.
O gotejamento exige, mais que outros métodos de irrigação, meticuloso
planejamento e instalação cuidadosa. É um método de grande precisão, delicadeza
e sensibilidade.
Um ponto fundamental é que a irrigação deve ser utilizada diariamente ou no
máximo a cada três dias, aplicando-se pequena quantidade de água de cada vez.
Uma das características do gotejamento, aliás, é manter sempre um nível ótimo de

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água junto às raízes ativas na absorção, diminuindo a energia gasta pela planta para
utiliza-la.
Os modernos “tubogotejadores” são fabricados de modo a atender a qualquer
especificação técnica, inclusive com relação ao espaçamento de plantio. Problemas
como entupimento, verificados no passado, estão hoje superados. O custo do
equipamento, inclusive, vem se tornando competitivo em relação ao de conjuntos
para irrigação por aspersão.
O gotejamento tende a substituir os demais métodos de irrigação em certas
situações. Note-se que a demanda por água já vem ocasionando disputas entre
citadinos e agricultores que irrigam. E não pense que, mesmo havendo muita água
disponível, um método criado para um país árido como Israel não possa ser
vantajosamente aplicado no Brasil. Nunca é demais enfatizar que um dos mais
relevantes problemas mundiais do 3o milênio – já antecipado por numerosos
estudiosos – é justamente a disponibilidade de água potável, não poluída. Devido à
notável economia em água proporcionada e à elevada eficiência na irrigação, o
gotejamento tem muito a oferecer.

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7. CONTROLE FITOSSANITÁRIO

O controle fitossanitário é imprescindível em olericultura – essa é a realidade


que deve ser encarada -, já que as culturas são suscetíveis a numerosos
fitopatógenos e outros organismos deletérios. Entretanto, pelas implicações na
sanidade ambiental e saúde humana, as práticas fitossanitárias constituem um
complexo campo de estudo.

7.1. O PROBLEMA DA FITOSSANIDADE

Na época atual, o controle fitossanitário por meios químicos tem sido


intensamente questionado pela opnião pública mundial. A sociedade exige produtos
alimentícios livres de resíduos danosos à saúde, além de ocorrer uma preocupação
generalizada com poluição ambiental e destruição da natureza. Em contraposição, o
consumidor torna-se cada vez mais exigente com a qualidade dos produtos –
expressa principalmente pelo aspecto, sabor e aroma.
Debatendo-se em meio ao entrechoque de opniões conflitantes e interesses
antagônicos estão agrônomos, agrotécnicos e olericultores. Todos têm em mãos a
complexa e ingrata tarefa de defender as culturas contra as variadas mazelas
fitossanitárias e, simultaneamente, atender às demais exigências da sociedade
atual.
A questão do controle fitossanitário é delicada, pois atitudes radicais e
irrealísticas podem resultar no colapso da produção agrícola, tendo como
decorrência a desnutrição e mesmo a morte de milhões de pessoas. É bom não
esquecermos o que ocorrer na Irlanda, no séc. XIX: cerca de um milhão de mortes
por inanição e um e meio milhão de emigrantes. Essa tragédia foi ocasionada pela
requeima – uma doença fúngica -, que dizimou os batatais. Entre as causas
estavam as cultivares de estreiteza genética e alta suscetibilidade; condições
agroclimáticas altamente propícias à doença; e ausência de fungicidas eficientes
para a pulverização.
Uma possível solução para o problema fitossanitário seria aceitar o
desaparecimento de alguns produtos oleráceos ou agroindustriais da mesa do
consumidor. Isso porque as espécies botânicas que os produzem se alinham entre
as plantas mais problemáticas, em termos fitossanitários. Estariam entre tais

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produtos: a batata-frita, o tomate para salada, o extrato de tomate, a couve-flor –


apenas para iniciar a lista dos produtos a serem excluídos.
Outra solução seria não promover uma lamentável e indiscriminada “guerra
química”, mas enfrentar o problema fitossanitário utilizando medidas de natureza
variada. Desta forma, utilizando-se o conhecimento técnico-científico acumulado,
bem como as novas conquistas que vêm ocorrendo a cada ano, é possível introduzir
na olericultura o moderno conceito de manejo integrado da cultura. Tal manejo
inclui diversas medidas para o controle fitossanitário, sejam de natureza química,
biológica, genética ou de qualquer outro tipo.

7.2. CONTROLE DAS DOENÇAS

As culturas oleráceas são, seguramente, aquelas mais afetadas por doenças


ocasionadas por microorganismos patogênicos. É preciso considerar que somente
ocorre uma doença quando há interação de um agente fitopatogênico com
condições agroecológicas propícias, ambos atuando sobre uma planta suscetível.
Então, deve-se ter em mente que são controladas as doenças e não os agentes –
um ponto importante para se entender o controle integrado. Essas doenças contam-
se às centenas, podendo, segundo o tipo de agente, ser agrupadas didaticamente
em doenças fungicas, bacterioses e viroses.

a) Controle de doenças fúngicas

As doenças fungicas são causadas por fungos fitopatogênicos, que são seres
inferiores, microscópicos, que podem afetar todas as partes de uma planta ao longo
dos vários estádios de desenvolvimento, inclusive pós-colheita e pré-plantio. Na
parte aérea, os sintomas mais comuns são lesões, na forma de manchas e pintas
características. Nessas lesões, desenvolvem-se as formas infectantes – os esporos
-, disseminadas por meios variados (vento, água, sementes, mãos, ferramentas,
tutores etc.). Existem ainda outros sintomas, como murchas e podridões secas;
também há fungos que são fitopatógenos de solo, afetando partes subterrâneas das
plantas.
No controle das doenças fúngicas são muito utilizadas as pulverizações com
fungicidas – produtos que formam uma fina película protetora, revestindo a

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superfície das plantas. Ao caírem sobre tal película, os esporos são destruídos antes
que a doença se manifeste e se propague para outras plantas. Ao caírem sobre tal
película, os esporos são destruídos antes que a doença se manifeste e se propague
para outras plantas. A maioria dos fungicidas apresenta maior eficiência na
prevenção à doença que na erradicação. Conseqüentemente, as pulverizações
devem ser iniciadas logo que as condições agroecológicas se mostrarem favoráveis
ao ataque, isso no caso de uma cultivar suscetível – uma escolha questionável,
havendo disponibilidade de cultivares resistentes.
A utilização de sementes comprovadamente isentas de fitopatógenos são um
dos meios de evitar a introdução de agentes fitopatogênicos em uma região, uma
propriedade ou uma cultura, assim como a introdução de cultivares geneticamente
melhoradas para resistência a doenças – um meio muito mais eficiente do que
qualquer tipo de aplicação de fungicidas. “O melhor fungicida é o gene de
resistência incorporado a uma boa cultivar”.

b) Controle de bacterioses

As bacterioses são doenças cujos agentes são bactérias fitopatogênicas, que


também são seres microscópicos. São disseminadas por sementes botânicas,
partes vegetativas utilizadas na propagação, mãos contaminadas, implementos
agrícolas e água de irrigação, dentre outros meios. São capazes de afetar todas as
partes de uma planta, inclusive aquelas subterrâneas, já que algumas bactérias
habitam o solo. As bacterioses são caracterizadas por podridões úmidas,
murchamento da planta, manchas foliares e queima marginal nas folhas ou pela
presença de pus bacteriano.
Certo controle em bacterioses pode ser obtido pela pulverização com
fungicidas cúpricos – de comprovada ação inibidora do desenvolvimento de
bactérias. Antibióticos também podem ser aplicados em sementes, geralmente por
via úmida, mas isso é feito muito mais eficientemente pelas firmas produtoras de
sementes. A pulverização com antibióticos, cujo custo é elevado, apresenta
resultados duvidosos.
Muitas medidas de controle às bacterioses são de controle integrado.
Destacam-se uso de sementes livres de bactérias fitopatogênicas, rotação com

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culturas não suscetíveis e utilização de cultivares resistentes. Observe-se que o


controle de bacterioses é mais difícil, em relação ao obtido com doenças fúngicas.

c) Controle de viroses

As viroses têm como agentes etiológicos seres rudimentares, parecendo


situados no limiar entre a matéria viva e a inanimada. São tão diminutos que
somente são percebidos quando fotografados por meio de microscópio eletrônico.
Graças ao seu primitivismo na escala biológica, a capacidade infecciosa de tais
agentes fitopatogênicos é ainda mais elevada, em relação aos fungos e bactérias.
As viroses podem ser transmitidas pela mão contaminada do operário, ao
transplantar mudas ou efetuar tratos culturais que ferem a planta, como a poda;
pelos instrumentos cortantes; e até pelo contato entre uma folha afetada e outra
sadia. As sementes botânicas veiculam um número reduzido de vírus, servindo, por
isso mesmo, de “filtro” para a maioria das viroses. A propagação via vegetativa,
contrariamente, é um eficiente meio de disseminação.
Outro meio altamente especializado de disseminação de viroses são os insetos
vetores, que adquirem o vírus ao se alimentarem sobre uma planta virótica,
tornando-se agentes veiculadores quando sugam plantas anteriormente sadias.
Destacam-se, nesse mister, afídeos, tripés, mosca-branca e cigarrinhas.
A dificuldade do controle das viroses em plantas é comparável à que ocorre na
espécie humana, sendo muito mais difícil em relação às doenças fúngicas e
bacterianas. Somente é possível quando efetuado preventivamente; após a
manifestação inicial dos sintomas, a planta virótica dificilmente se recupera.
No caso particular das viroses, é ainda mais relevante a utilização de cultivares
que apresentem nível elevado de resistência genética – o método mais eficiente.
Outras medidas podem ser mencionadas: controle de insetos-vetores virulíferos
(geralmente problemático); erradicação de plantas afetadas; cultura conduzida sob
estufa ou telado, utilizando telas de malhas finas; plantio de barreiras vivas,
circundando a cultura; e rotação de culturas.

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7.3. CONTROLE DAS PRAGAS

a) Conceito e tipos de “praga”

As culturas oleráceas são afetadas por numerosos animais invertebrados, de


pequeno porte, popularmente denominados de “pragas”. Esses animais minúsculos
podem ser reunidos em três grandes grupos: insetos, ácaros e nematóides. Ao
contrário dos agentes etiológicos de doenças, microscópicos, a maioria das “pragas”
é observável sem auxílio de instrumentos ópticos – o que muito facilita a sua
identificação.
Os insetos são animais diminutos, que se alimentam das diversas partes de
uma planta, sejam elas aéreas ou subterrâneas. Conforme o tipo de seu aparelho
bucal, podem ser distinguidos insetos sugadores e mastigadores. Assim, afídeos
(pulgões), tripés e mosca branca são insetos sugadores, que formam colônias nas
folhas, sugam a seiva vegetal, depauperando a planta, e transmitem viroses.
Lagartas, larvas e besourinhos são insetos mastigadores, que destroem as partes
vegetais situadas acima ou abaixo do solo.
Os ácaros são pequeníssimos animais sugadores, distintos dos insetos e
similares aos carrapatos, que se alimentam de seiva vegetal, ocasionando danos ou
até erradicando as plantas afetadas. Muitos ácaros formam colônias na face inferior
das folhas, e alguns tecem teias. Algumas espécies são observáveis a olho nu;
outras somente utilizando-se lupa ou microscópio.
Os nematóides são minúsculos vermes que parasitam geralmente as partes
subterrâneas das plantas. Algumas espécies são observáveis a olho nu, porém a
maioria exige o auxílio de microscópio. Em olericultura, os mais danosos são os
nematóides, que ocasionam pequenas nodosidades no sistema radicular – as
chamadas “galhas”. Esses integram a microfauna nativa em muitos solos, inclusive
em solos virgens. As lesões provocadas nas raízes dificultam o aproveitamento dos
nutrientes, também constituindo uma via de penetração de fungos e bactérias
fitopatogênicos que habitam o solo.
Alerta aos produtores de hortaliças: muitos insetos encontrados nas culturas
não são insetos-praga. Inclusive, muitos deles constituem inimigos naturais de
insetos daninhos, devendo ser preservados, como valiosos “aliados”.

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b) Meios de controle

Os meios de controle das pragas dependem do grupo zoológico a que elas


pertencem, bem como à espécie envolvida. Os insetos mastigadores, que afetam a
parte aérea, são mais bem controlados pela pulverização com inseticidas de ação
por contato e por ingestão; e os sugadores, por inseticidas sistêmicos, que penetram
e se translocam dentro da planta, e também por aficidas, com ação translaminar,
que, aplicados numa face da planta, controlam os pulgões instalados na outra. Já as
larvas de insetos mastigadores, de hábitos subterrâneos, são eficientemente
controlados por inseticidas granulados aplicados ao sulco de plantio. O melhor
controle dos ácaros é feito com acaricidas específicos ou por inseticidas sistêmicos,
de ação acaricida. Os nematóides do solo são combatidos pó meio de certas
práticas culturais e pela aplicação de nematicidas granulados ao solo.
As culturas oleráceas são aquelas eu utilizam, mais intensivamente,
pulverizações com inseticidas e acaricidas. A incidência de pragas é tão comum que
os olericultores consideram essa uma prática normal, aplicada para enfrentar a
constante ameaça de destruição das plantas e do produto. Os defensivos devem ser
aplicados nas culturas para as quais foram registrados, observando-se as
recomendações dos fabricantes, sobretudo a época de aplicação e o período de
carência.
Meios de controle não químicos das pragas existem, mas não são utilizados
com a freqüência desejável, sendo necessário maior difusão.

c) Outras medidas no controle fitossanitário

Atualmente, vêm sendo cada vez mais valorizadas as medidas preventivas,


particularmente aquelas de natureza não-química. Certamente que a
conscientização sobre os perigos do uso abusivo dos defensivos, a dificuldade de
controlar certos agentes fitopatogênicos, a conscientização ecológica e ambiental,
bem como o custo elevado do controle estritamente químico, influenciam nesse
sentido. Dessa forma, algumas medidas práticas são aqui sugeridas:

- Determinar os locais para produção de mudas, bem como os campos para


semeadura direta, o mais afastado possível de culturas oleráceas adultas ou em

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senescência. Desse modo, minimiza-se o risco de disseminação de fitopatógenos e


de insetos-praga, cujo foco possa situar-se em tais culturas. Trata-se de medida
preventiva importante, que deve ser aplicada nos estádios iniciais do
desenvolvimento das plantas.
- Plântulas, mudas e plantinhas em início de desenvolvimento, estas
originárias da semeadura direta, devem ser tocadas o mínimo possível pela mão dos
operários. Se o manuseio for inevitável, somente devem ser tocadas por mãos bem
lavadas, mormente no caso de solanáceas-fruto – plantas altamente suscetíveis a
viroses e bacterioses, que podem ser transmitidas por contato.
- Na produção de mudas de solanáceas-fruto, devem preferir sistemas que
minimizem o manuseio e não ocasionem danos mecânicos nas partes aérea e
subterrânea, diminuindo-se a possibilidade de inoculação de fitopatógenos. Assim, a
formação de mudas em bandejas de isopor ou em copinhos de papel de jornal – em
substituição às sementeiras – é preferível. Também plantas de outras famílias
botânicas podem ser beneficiadas.
- A utilização de sementes botânicas e de estruturas de propagação vegetativa
de elevada qualidade fitossanitária previne o surgimento de focos iniciais de
doenças na cultura. Material de propagação suspeito não deve ser plantado.
- Cultivares geneticamente melhoradas para resistência a doenças ou a
pragas devem ser preferidas àquelas suscetíveis. Vale ressaltar que é possível
reduzir, ou até eliminar, a aplicação de defensivos por meio da adequada utilização
de cultivares resistentes.
- A escolha de boas glebas (ensolaradas, ventiladas e drenadas) auxilia na
prevenção à ocorrência de muitas doenças. Baixadas úmidas devem primeiramente
ser drenadas, antes de serem plantadas com hortaliças. Devem-se evitar terrenos
sombreados, úmidos ou mal ventilados – condições essas favoráveis ao
desenvolvimento de fungos e bactérias fitopatogênicas.
- Plantas jovens, de espécies altamente suscetíveis a viroses veiculadas por
insetos, devem ser circundadas por faixas de solo livres de plantas invasoras, com
um mínimo de 5 m de largura. É que, além de essas ervas daninhas serem
hospedeiras de vírus e de vetores, os insetos transmissores utilizam-nas como
“aeroportos” intermediários, em seus vôos, quando a invasão parte de fora para
dentro da cultura.

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- Barreiras vivas, constituídas por plantas de porte elevado – milho é a mais


usada -, cercando as culturas oleráceas oferecem proteção contra a invasão de
insetos vetores de viroses. Pulverizações com inseticidas, efetuadas apenas nas
plantas da barreira, destroem somente os vetores, sem afetar os inimigos naturais
dentro da cultura.
- Emprego de plantas atrativas para insetos-praga. Exemplo: cabaças
maduras, já em início de apodrecimento, e abobrinha italiana, são boas iscas para a
vaquinha verde-amarela. Pulverizam-se com inseticidas tão-somente as plantas
atrativas, e não a cultura.
- Plantas isoladas, apresentando os sintomas iniciais de doenças, em meio a
uma cultura com bom aspecto fitossanitário, devem ser erradicadas o mais
precocemente possível. Havendo possibilidade, devem ser substituídas por outras
sadias. As plantas erradicadas devem ser enterradas ou queimadas em local
afastado da cultura.
- A rotação com espécies cultivadas menos sujeitas às doenças e pragas, que
afetam as culturas oleráceas – como milho e outras poáceas (gramíneas) -, deve ser
efetuada. Evite-se, por essa forma, que culturas altamente suscetíveis, como as
solanáceas, ocupem a mesma gleba, ano após ano. Bons exemplos práticos são as
rotações batata-trigo, tomate-milho e pimentão-sorgo. Rotações com poáceas, que
ocupam a gleba por cinco ou mais anos – como nos casos de pastagem e cana-de-
açúcar -, são ainda mais efetivas. Também a rotação com fabáceas (leguminosas),
como crotalárias e mucunas – conhecidas como “adubos verdes”-, controla
fitopatógenos de solo. A rotação com cravo-de-defunto (Tagetes erecta) é um meio
de controlar os nematóides causadores de galhas nas raízes, especificamente.
- No caso de insetos-praga, deve-se pulverizar no início do ataque e não
antes, procurando-se preservar os inimigos naturais. Em se tratando de doenças
fúngicas, as pulverizações são preventivas e efetuadas sempre que as condições
climáticas forem propícias ao surgimento dos focos iniciais. Vale enfatizar que a
doença é um processo resultante da interação entre plantas suscetíveis, agentes
fitopatogênicos e condições propícias. Se um dos três fatores estiver ausente, a
doença não ocorre.
- O grau de acidez do solo deve ser mantido na faixa de pH 6,0 a 6,5, propícia
ao vigoroso desenvolvimento das culturas e desfavorável para alguns fitopatógenos
de solo. Também, a fosfatagem e a potassagem, em solos pobres, predispõem a

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planta a maior tolerância aos ataques de fitopatógenos; inversamente, aplicações


excessivas de N podem favorecer a incidência de doenças fúngicas e bacterianas.
- Dentro do possível, devem-se escolher as épocas de plantio de forma a
favorecer o desenvolvimento da cultura e dificultar a ação de fitopatógenos e de
insetos-praga. Desse modo, as solanáceas são favorecidas pelas condições do
período seco em relação ao chuvoso, período este em que a incidência de doenças
é maior. Entretanto, o ataque de pulgões, brocas e ácaros é mais intenso durante o
período seco, pois as chuvas são um meio natural de controle. A irrigação por
aspersão pode ser utilizada, inclusive, com essa finalidade.
- A água de irrigação pode constituir eficiente meio de propagação de
bactérias e fungos fitopatogênicos. O ideal é que seja obtida em manancial livre de
contaminações e que, antes da captação, a água não percorra glebas plantadas
com culturas vizinhas. Tratamento da água somente se justifica no caso da
produção de mudas quando apenas se dispõe de água poluída.
- Roupas, botas, ferramentas, implementos, pneus e maquinaria agrícola
devem ser mantidos limpos, livres de terra aderida. Há situações em que devem ser
lavados com água e desinfetados com soluções germicidas. É fato comprovado que
os itens citados podem tornar-se eficientes meios de disseminação de fitopatógenos,
insetos-praga, nematóides e ervas daninhas. Cuidados ainda mais rigorosos com
tais equipamentos devem ser tomados na produção de material de propagação.
- Adubações orgânicas pesadas, da ordem de 50 a 100m 3/ha de esterco
bovino não curtido, são benéficas para o controle de nematóides, fungos e bactérias
que afetam a parte subterrânea das culturas. A aplicação deve ser efetuada
cobrindo-se bem o solo e seguida pela incorporação, por meio de gradagem, com
antecedência de alguns meses de plantio. Nesse período, ocorre uma ativação da
vida microbiana do solo, o que acarreta antagonismos biológicos desfavoráveis aos
agentes fitopatogênicos. A melhoria das condições físicas do solo também favorece
o desenvolvimento da planta, tornando-a mais resistente ou tolerante aos
organismos daninhos.
- Após efetuada a colheita, é desejável que os restos de certas culturas,
incluindo hastes e raízes, sejam arrancados, amontoados e queimados, se possível
fora do terreno. Essa medida é praticada por cotonicultores, para combater insetos-
praga; os olericultores também deveriam adota-la em culturas muito afetadas por
problemas fitossanitários. Após a queima dos restos culturais, ara-se em

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profundidade (35-40 cm), objetivando a exposição das camadas inferiores do solo.


Quanto à incorporação de planta, é mais útil efetua-la no caso da rotação com os
denominados “adubos verdes” – crotalárias e mucunas, por exemplo.
- Deve-se promover o chamado “alqueive”, efetuando-se arações e gradagens
sucessivas, de modo a deixar o solo completamente livre de qualquer vegetação e
expor as camadas inferiores à ação esterilizante da radiação solar e ao efeito
dessecante do vento. A gleba deve permanecer durante alguns meses sem
nenhuma utilização agrícola e, inclusive, sem a presença de ervas daninhas. Esse é
um meio de reduzir a população de nematóides e de fungos e bactérias
fitopatogênicos que habitam o solo.
- Para o controle de nematóides, pode-se utilizar a inundação total do terreno
durante alguns dias. Como são animais aeróbios, a falta de ar promove a
erradicação. Logicamente, a inundação é viável apenas em algumas situações,
como quando se plantam hortaliças em rotação com arroz irrigado por inundação ou
em baixadas inundáveis.

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8. COMERCIALIZAÇÃO

Aplicando a agrotecnologia moderna e os fatores naturais sendo favoráveis ou


adequadamente controlados, o olericultor depende de si mesmo para produzir bem.
Isso já não ocorre no momento da comercialização de seus produtos; e é justamente
nessa etapa crucial e final de sua atividade que o sucesso ou o fracasso econômicos
se decidem. O olericultor brasileiro é mais competente como produtor que como
comerciante.

8.1. O SISTEMA DE COMERCIALIZAÇÃO DE HORTALIÇAS

Após as dificuldades inerentes à produção, eis que o olericultor está com seus
produtos colhidos e prontos para a comercialização. Agora é o momento crucial, pois
o preço que obtiver afetará o lucro líquido de sua exploração, mais que os demais
fatores. Não se deve perder de vista o objetivo do olericultor: a obtenção do maior
lucro líquido possível, que o remunere adequadamente como empresário rural,
possibilitando-lhe desfrutar de um bom padrão de vida juntamente com sua família,
além de permitir que ele prossiga em sua atividade.
Usualmente, os olericultores entregam sua produção aos atacadistas –
comerciantes que compram em larga escala. São localizados em Centrais de
Abastecimento (CEASAs) e em depósitos particulares de hortaliças nos centros
urbanos, ou são negociantes que vêm até a propriedade rural com seu caminhão
buscar os produtos. O atacadista pode encaminhar a mercadoria a intermediários de
outras cidades, ou distribuí-la aos varejistas. Esses comerciantes localizam-se em
supermercados, sacolões, feiras livres, empórios, mercearias e outros tipos de
estabelecimentos. Observe-se que, enquanto o atacadista adquire grandes
quantidades dos produtos, o varejista se abastece comprando algumas embalagens.
Este paga por unidade do produto um preço ligeiramente superior àquele pago pelo
atacadista ao olericultor. Na etapa seguinte, o varejista desfaz as embalagens e
vende unidades do produto aos consumidores a um preço unitário obviamente
superior àquele pago na fonte de produção. Esse é o chamado sistema de
comercialização.
O pequeno olericultor pode comercializar diretamente com o varejista,
eliminando um ou mais intermediários, com evidentes vantagens com relação a

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preços obtidos ou pagos, para si e para o consumidor. O pequeno olericultor


diversificado, quando dispõe de um estabelecimento de comercialização próprio –
um sacolão, por exemplo -, pode, inclusive, eliminar todos os intermediários e atingir
o consumidor. Somente nessa situação é que o preço pago pelo consumidor é o
mesmo recebido pelo produtor, favorecendo, sobremaneira, ambas as partes.
Todavia, essa é uma situação particular. Logicamente, um grande olericultor
especializado não tem possibilidade de atingir diretamente os consumidores, devido
ao seu volume de produção.
O sistema de comercialização funciona como uma corrente ou cadeia, ligando
o olericultor ao consumidor por meio de vários elos intermediários – os atacadistas e
varejistas -, obviamente personagens sem os quais o abastecimento de uma cidade
entraria em colapso. Evidentemente são normais os choques de interesses entre
quem vende e quem compra. Entretanto, também ocorrem ineficiências e fraudes da
parte dos personagens envolvidos, inclusive do produtor, que deveriam ser abolidas.
Há situações nas quais o produtor comercializa com o varejista, ou atinge o
consumidor diretamente.

8.2. AS FUNÇÕES E OS AGENTES DE COMERCIALIZAÇÃO

O sistema de comercialização compreende diversas etapas, e cada uma delas


exige a atuação de agentes executando determinadas funções ou serviços. Tais
funções adicionam utilidades e, conseqüentemente, valor ao produto.
Diversas funções ou serviços de comercialização são necessários para que as
hortaliças componham a refeição diária do consumidor, a partir da fonte de
produção. As principais são: compra, venda, coleta, reunião, estocagem, transporte,
beneficiamento, padronização, classificação, embalagem, financiamento, assunção
de riscos, informação de mercado, assunção de perdas, dentre outras menos
evidentes. Tais funções são executadas pelos diversos agentes de comercialização,
ressaltando-se que algumas delas podem ser assumidas pelo próprio olericultor,
evidentemente em seu benefício. Dessa forma, quanto maior o número de agentes
individualizados envolvidos entre os dois extremos da cadeia de comercialização,
menor a parcela de participação do olericultor no preço final do produto – pago pelo
consumidor. Não poderia ser de outro modo, a menos que o próprio produtor
assumisse algumas das funções ou serviços mencionados.

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A eliminação do intermediário, ou seja, a venda direta ao consumidor, somente


é viável em situações especiais, como em olericultura localizada na periferia urbana.
Nesse caso, o olericultor terá que dividir sua atenção entre os trabalhos agrícolas e
as tarefas da comercialização, geralmente com perda de eficiência em ambos os
campos de atuação.
Quando a produção agrícola evolui, do estado de subsistência para o
empresarial, há uma tendência irreversível de que as empresas rurais e as
explorações oleráceas se tornem maiores, mais especializadas e mais distanciadas
dos centros de consumo. Então, o olericultor empresário deve ter toda sua atenção
concentrada no processo produtivo. Esse tipo de olericultor considera mais
conveniente e vantajoso entregar sua produção a intermediários competentes, na
porteira da propriedade. Mesmo sabendo que receberá um preço unitário menor por
embalagem comercializada, ele sabe que será maior o lucro líquido global da sua
exploração, em razão do maior volume de vendas, do menor custo unitário de
produção – por ha cultivado e por embalagem – e do menor custo unitário dos
insumos necessários (sementes, adubos, corretivos, defensivos), devido ao maior
volume de compras. Chama-se isso de “economia de escala”, que vale tanto para
quem compra como para quem vende em alta escala, influenciando tanto a
rentabilidade global de uma empresa rural como o lucro propiciado por determinada
cultura.
É altamente relevante o papel dos intermediários na comercialização e no
abastecimento. Isso se deve ao fato, insofismável, de que são eles os principais
agentes que assumem a maioria das funções de comercialização, inclusive com as
perdas e os riscos inerentes. Sem a atuação dos intermediários, as hortaliças se
deteriorariam nas propriedades rurais e não chegariam ao prato do consumidor.
O comerciante é peça dificilmente substituível na comercialização, porém é
desejável e viável elevar a eficiência do sistema, resultando na redução do número
de intermediários individuais atuando entre o olericultor e o consumidor. Isso pode
ser alcançado com associações associativistas a serviço dos produtores, por
exemplo.
Diante do exposto, conclui-se que a maioria dos olericultores deve concentrar o
melhor dos seus esforços em sua atividade agrícola, na qual é absolutamente
insubstituível. A comercialização não é uma atividade propícia para sua atuação
direta, devendo ser deixada para outros profissionais, mais bem preparados e com

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disponibilidade de tempo para uma atuação mais eficiente. Isso não implica que os
produtores devam tornar-se alienados em relação à comercialização, porém que se
façam substituir por representantes capazes de defender seus interesses. E tais
personagens podem ser seus agentes comerciais ou organizações associativistas.
Na maioria das situações, o olericultor empresário, que comercializou seus
produtos na porteira da propriedade rural, a preço razoável, ao término do ano fez
melhor negócio que aquele que se desgastou, tentando atingir o consumidor
diretamente. Logicamente, caso consiga assumir algumas das funções de
comercialização, o produtor valoriza seu produto em benefício próprio.

8.3. PADRONIZAÇÃO, EMBALAGEM E CLASSIFICAÇÃO

Um perfeito entendimento e confiança mútua entre os agentes de


comercialização tornam-se necessários, para que sejam eficientes e agilizadas as
transações comerciais. É para isso que as hortaliças devem ser padronizadas,
classificadas e embaladas, seguindo-se certas normas preestabelecidas. Criam-se,
desse modo, termos comuns para o entendimento entre os agentes, viabilizando
transações a distância, via fax, internet ou telefone, inclusive.
Entende-se por padronização o estabelecimento de padrões, ou seja, a
fixação dos limites de cada atributo, que bem caracterizem e definam certo produto.
Classificação é a comparação do produto, em vias de ser comercializado, com os
padrões estabelecidos. Embalagem é o acondicionamento do produto, de forma a
viabilizar o transporte e o manuseio ao longo das etapas da comercialização.
Quando efetuados adequadamente, tais serviços de comercialização contribuem
para melhorar a apresentação e a qualidade do produto, facilitam as transações, dão
maior opção de compra, permitem o uso de terminologia comum aos diversos
agentes e aumentam a eficiência nas etapas sucessivas da comercialização.
No Brasil, a embalagem mais utilizada para hortaliças é a tradicional caixa tipo
K, que embala produtos muito diversificados. É uma versão ligeiramente modificada
de uma caixa de madeira utilizada na dec. de 1940, durante a 2 a Guerra Mundial,
para acondicionar duas latas de “Kerosene”. Portanto, trata-se de uma adpatação
grosseira, sendo essa embalagem criticada pelas suas evidentes deficiências.
A caixa tipo K pode ser substituída por caixas de papel ondulado – já
produzidas no País, para certas hortaliças. Essa nova embalagem é utilizável uma

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única vez pelo olericultor, é descartável e reciclável, além de apresentar várias


outras vantagens técnicas. Uma delas, importantíssima, é facilitar o controle
fitossanitário, já que evita a disseminação de fitopatógenos e insetos-praga, causada
pela atual embalagem de madeira.
Algumas hortaliças-fruto também estão sendo comercializadas em caixas
plásticas, retornáveis, similares aos contentores plásticos utilizados na colheita.
Dentre essas destaca-se, pelo superior desempenho, a “caixa Embrapa”. Além de
outras vantagens técnicas, essa embalagem, comparada com a caixa K, apresenta
redução significativa de perdas pós-colheita, considerando-se a conservação e a
integridade de tomate de mesa.
Outros tipos de embalagem também são utilizados, como engradados, para
hortaliças herbáceas, e caixas especiais, para alho, melão e morango. Algumas
hortaliças, como alho, batata, cebola e repolho, são embaladas em sacos de malha
de fibra natural ou sintética. Também há hortaliças comercializadas em maços:
beterraba, couve-brócolos, cenoura, couve, rabanete, taioba, entre outras. Algumas
hortaliças-fruto, de peso unitário elevado, são comercializadas a granel: abóbora-
seca, moranga e melancia.
As normas oficiais para classificação de hortaliças são estabelecidas pelo
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

8.4. MEDIDAS PARA APRIMORAR A COMERCIALIZAÇÃO

Os técnicos têm orientado o olericultor na produção, porém pouco tem sido


feito para orienta-lo também na comercialização. Assim, nessa etapa final, ele é
abandonado à própria sorte, e é justamente nesse momento crucial que está em
jogo a rentabilidade de seu agronegócio. Observe-se que as deficiências na
comercialização também afetam outras pessoas, incluseive comerciantes e
consumidores. Somente a união de esforços entre autoridades, intermediários,
olericultores e consumidores minimizaria tais deficiências.
O olericultor deveria ser orientado para encontrar as alternativas mais
favoráveis à venda de seu produto, muito antes da implantação da cultura e, mais
ainda, na proximidade da colheita. Algumas dessas alternativas são: entrega a
cooperativas de produção ou outras organizações associativistas; venda diretamente
a consumidores institucionais, como hotéis e restaurantes; venda a

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estabelecimentos varejistas; entrega a atacadistas; e fornecimento a agroindústrias,


sob contrato.

a) Cooperativismo

A olericultura brasileira é marcada pelo individualismo e isolacionismo. Então, o


cooperativismo choca-se com essa arraigada tradição – possivelmente uma herança
cultural da época da colonização. Entretanto, a união de esforços dos produtores é a
chave para a solução de numerosos problemas da comercialização. A cooperativa é
uma organização capaz de comercializar os produtos de seus cooperados em
condições mais vantajosas, a médio e longo prazos, do que quando eles agem
individualmente. Na prática, constata-se que o cooperativismo não tem sido bem
compreendido em seus princípios, nem bem aceito pela grande maioria dos
olericultores.

b) Outras formas de associativismo

A cooperativa é uma forma associativista complexa, muitas vezes não bem


aceita pelos produtores. No entanto, há formas mais simples de união de esforços,
como é o caso do estabelecimento de grupos de vizinhança para transporte e
comercialização. Tais grupos reúnem produtores próximos que não produzem,
individualmente, um volume de mercadorias que justifique a tentativa de conquistar
praças mais distantes. Agindo em conjunto, eles têm maior possibilidade de negociar
mais vantajosamente seus produtos. Todavia, também essa solução simples se
choca com entraves culturais, pois o produtor considera seus vizinhos apenas como
concorrentes, e não como possíveis parceiros na comercialização.

c) Produção na entressafra

A moderna agrotecnologia permite que o olericultor obtenha colheita de certos


produtos fora da época normal de safra, inclusive em condições adversas. Por
exemplo, plantar cultivares geneticamente melhoradas de cenoura, couve-flor e
cebola durante o verão; cultivar em estufa, para proteção contra chuvas excessivas;
e irrigar por gotejamento no período seco são algumas das técnicas capazes de

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regularizar a oferta de certos produtos ao longo do ano, possibilitando que o


olericultor comercialize em épocas de preços mais elevados.

d) Diversificação da produção

A diversificação de culturas é uma forma eficiente de favorecer a


comercialização e possibilitar maior segurança econômica para o olericultor em
certas situações. O grau de diversificação depende da localização da propriedade
rural, não sendo prudente dedicar-se a muitas espécies, caso a propriedade rural
seja muito afastada dos centros urbanos consumidores. Entretanto, a monocultura,
que se observa com espécies como alho, batata, cenoura e tomate, aumenta o risco
de insucesso econômico. Quando a produção se localiza próximo a um centro
consumidor, maior grau de diversificação favorece a comercialização, já que
possiblita ao olericultor atingir diretamente o varejista ou até o consumidor – ambos
desejando produtos diversificados.

e) Estabelecimento de “cinturão verde”

Em certas situações é vantajoso, para a comercialização e o abastecimento, o


estabelecimento do clássico “cinturão verde”. Consiste em desenvolver uma região
produtora circundando as sedes urbanas de cada município, com condições de
assegurar o fornecimento de hortaliças frescas, especialmente do grupo das
herbáceas. Certamente, é mais fácil ajustar-se a oferta às exigências da demanda
quando se trata de abastecer o mercado local. O trabalho assistencial, nesse caso,
deve envolver os pequenos olericultores diversificados, com o necessário apoio de
autoridades municipais, gerentes de bancos, comerciantes locais e consumidores.
Os produtores devem ser estimulados a vender diretamente aos consumidores,
atendendo às suas preferências ou à dos varejistas locais. Os olericultores que
produzem em estufa enquadram-se bem na situação focalizada.

f) Produção especializada

Um trabalho assistencial com objetivos opostos, em relação ao item anterior, é


incentivar a produção de algumas espécies em larga escala, destinada à exportação

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para outras regiões. Nesse caso, envolvem-se olericultores especializados. Somente


produtos de relevância econômica, de alta qualidade e capazes de ser transportados
até mercados distantes devem ser considerados.

g) Informação de mercado

A obtenção e a ágil divulgação de informações de mercado, sobre cada


hortaliça, incluindo praças alternativas, muito favorecem a eficiência na
comercialização. Tais informações referem-se ao movimento diário de mercadorias,
aos estoques disponíveis, aos preços em nível atacadista e às preferências de
consumidores, entre outros aspectos. Essas informações também evidenciam os
períodos de preços mais elevados ou mais baixos, as épocas de excesso ou
escassez de oferta e as épocas de demandas mais elevadas, além de outras
evidências capazes de auxiliar na tomada de posição dos produtores. Para isso, é
essencial que as informações alcancem o produtor diariamente, no meio rural, sendo
o rádio e a televisão os meios de comunicação mais eficientes.

h) Rede varejista

O eficiente funcionamento de ampla rede de estabelecimentos varejistas,


distribuídos pelos bairros, viabiliza o melhor abastecimento da população urbana,
estimulando o consumo de hortaliças e beneficiando o olericultor. Dessa forma,
melhorias na atuação de mercados municipais, tradicionais feiras livres, modernas
feiras cobertas, sacolões, mercearias, hortomercados, mercadinhos, quitandas,
empórios e supermercados contribuem para regularizar os preços praticados no
varejo. Pequenos olericultores podem, inclusive, adquirir bancas em tais pontos de
comercialização, atingindo o consumidor. Já produtores maiores podem entregar
seus produtos aos varejistas estabelecidos, reduzindo o custo total da
comercialização e elevando a própria margem de lucro.

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i) Melhoria na qualidade do produto

Urge incentivar o aprimoramento na qualidade dos produtos oleráceos


oferecidos, inclusive agregando-lhes valor por meio de padronização, classificação,
beneficiamento e embalagem mais aprimorados. Vale ressaltar que o consumidor de
hortaliças é altamente influenciado por características como coloração, sabor,
tamanho e uniformidade. Lamentavelmente, é notório o desleixo na apresentação
das hortaliças produzidas na vizinhança de cidades pequenas; o próprio olericultor
contribui para consolidar a opinião dos consumidores de que “produto de fora é que
é bom”. Inclusive, há olericultores desonestos capazes de colocar, na “vista da
caixa”, os produtos de melhor qualidade, porém que não representam o resto do
conteúdo da embalagem. É obvio que, somente quando olericultores e
intermediários agirem honestamente, entre si e em relação ao consumidor final, será
possível estabelecer um clima de confiança mútua – imprescindível para a eficiência
nas transações comerciais.

j) Valorização do produto local de qualidade

Atacadistas e varejistas devem pagar o melhor preço possível, conforme o


permitam as condições do mercado, pelos produtos melhores. Isso porque, quando
o olericultor sente que há significativo estímulo econômico, à medida que ele
melhora a qualidade do seu produto, ele responde a essa valorização.
Um sadio “regionalismo” deve ser estimulado. Desse modo, procura-se
despertar a atenção de comerciantes e consumidores para prestigiarem os bons
produtos obtidos no município. Dessa valorização resultam um poderoso estímulo
para o olericultor local e preços menores para o consumidor. Esse estímulo evita,
inclusive, o “turismo das hortaliças”, bem conhecido pelos extensionistas. Assim,
elas são produzidas próximo às cidades menores, porém, sendo produtos locais,
são desvalorizadas pelos comerciantes. Então, a comercialização é efetuada num
centro maior e, depois de passar por alguns intermediários, o mesmo produto volta
para ser vendido, a preço majorado, aos consumidores do local original.

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l) Estocagem de hortaliças tuberosas

Há hortaliças tuberosas com capacidade de armazenamento, durante


alguns meses, que poderiam ser mantidas dentro das propriedades rurais. Assim,
evitar-se-iam os excedentes de oferta, que ocorrem em épocas normais de safra,
resultando em aviltamento dos preços pagos ao produtor. Com a estocagem, a
venda poderia ser propositadamente adiada, durante alguns meses, e realizada em
plena entressafra, com preços majorados. Produtores de batata, batata-doce, cará,
inhame, alho e cebola, por exemplo, deveriam ser estimulados a realizar estocagem
de seus produtos. Há exemplos de que tal prática foi viável e vantajosa, sendo os
custos cobertos pela valorização do produto. Criam-se, assim, estoques
regularizadores de oferta e estabilizadores de preços, sendo o excedente de oferta
retirado da circulação, voltando a circular meses após. Certamente, organizações
associativistas podem sofisticar a estocagem, inclusive utilizando instalações
providas de ventilação forçada, refrigeração, aquecimento ou outros meios, de modo
a melhor atender às exigências do produto estocado.

m) Localização de agroindústrias no meio rural

A localização de agroindústrias processadoras de hortaliças em pleno meio


rural, na região produtora da matéria-prima, deveria ser estimulada. A
industrialização contribui para a absorção do excesso de oferta de certos produtos,
como alho, batata, cebola e cenoura, no período de safra, reduzindo a flutuação
estacional nos preços. Também reduz a conhecida perecibilidade dos produtos
frescos, viabilizando a estocagem prolongada de produtos industrializados, com
maior concentração e de valor mais elevado por unidade de peso.

n) Assistência ao consumidor

No Brasil, a assistência ao consumidor tem merecido pouca atenção por


entidades oficiais e particulares, o contrário ocorrendo em outros países. Vale
enfatizar que é o consumidor o personagem que justifica toda a atividade de
produção e de comercialização e, se bem orientado, contribui para a melhoria em
ambos os cenários. Pouco trabalhado e com algumas deficiências culturais – mais

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grave que as limitações econômicas -, o consumidor brasileiro apresenta algumas


características negativas, inclusive para si próprio. Dessa forma, adquire geralmente
os mesmos produtos, não se arriscando a inovar. É adepto das “microcompras”,
adquirindo pequenas quantidades, suficientes apenas para seu abastecimento
semanal. É altamente exigente em aspectos “cosméticos”, valorizando, por exemplo,
tamanho, coloração e brilho, em detrimento de outras características, como valor
nutricional, sabor e aroma.
O consumidor típico, das classes média e alta, inclusive com níveis
elevados de escolaridade, não pode ser considerado um bom consumidor de
hortaliças, pois é excessivamente tradicionalista em seus hábitos de consumo, além
de não valorizar a utilização diária de produtos variados em sua dieta. Entretanto, as
hortaliças constituem a fonte mais eficiente e menos onerosa da maioria das
vitaminas e sais minerais imprescindíveis à saúde. Assim, maior diversificação nos
hábitos de consumo deveria ser incentivada pelas entidades assistenciais e até
pelas empresas que produzem ou industrializam hortaliças.

8.5. CESTA DIRETA: NOVO EQUIPAMENTO DE VAREJO

A manipulação inadequada, bem como o número excessivo de


intermediários, contribui para que os produtos cheguem ao consumidor a um preço
excessivamente elevado e com baixa qualidade, em muitas situações. Todavia, ao
saírem das fontes de produção, as hortaliças apresentavam boa qualidade e os
preços pagos eram muito menores. Para corrigir essa distorção, em Santa Catarina,
criou-se a chamada “cesta direta”. Trata-se de um original equipamento de varejo,
que poderia ser adotado em outras regiões, com inestimáveis vantagens para
pequenos olericultores diversificados e consumidores.
A cesta direta consiste em um contrato informal entre um grupo de
olericultores e outro de consumidores. Estes se comprometem a receber,
semanalmente, certa quantidade de alguns produtos, a preço determinado de
comum acordo com os produtores. Os olericultores obrigam-se a produzir os itens
contratados e a fornece-los, semanalmente, aceitando os preços preestabelecidos.
Para cumprir seu compromisso e assegurar a produção contínua, utilizam a
agrotecnologia adequada.

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Com a aplicação da cesta direta, tem sido constatado que, como a produção
é direcionada para suprir uma demanda preestabelecida, não ocorrem sobras nem
perdas significativas dos produtos que possam onerar o custo de produção e, ou, o
preço de comercialização. O aperfeiçoamento tecnológico exigido dos produtores é
mais uma vantagem do sistema. Também é estimulante o relacionamento direto
entre consumidores e produtores, propiciado pelas reuniões entre seus
representantes, quando se planejam os itens a serem produzidos e ofertados.
Medidas são tomadas para maximizar a satisfação dos consumidores, e estes
asseguram bom número de interessados em adquirir as cestas semanalmente.
Assim, os consumidores recebem produtos recém-colhidos, de alta qualidade,
obtidos sob supervisão agronômica e com garantia de ausência de resíduos tóxicos.
As perdas são mínimas em nível de produção e de comercialização, já que aquela é
dimensionada de acordo com esta. O produto é entregue logo após a colheita,
sendo adequadamente manipulado, o que assegura a qualidade.
Esse original e eficiente equipamento de varejo abre perspectivas para que
sejam organizados grupos de consumidores em bairros, fábricas, colégios etc. Por
suas notáveis características, a cesta direta merece ser mais bem estudada,
aperfeiçoada e implantada em outras regiões. Note-se, todavia, que somente
funciona quando envolve olericultores diversificados, que produzem próximo aos
centros urbanos.

8.6. PROCESSAMENTO MÍNIMO NA PROPRIEDADE RURAL

O processamento mínimo de hortaliças na propriedade rural é uma alternativa


viável e válida para a redução de perdas pós-colheita, bem como a agregação de
valor ao produto. Inclui as práticas de seleção da matéria-prima, pré-lavagem,
processamento, sanitização, enxágüe, centrifugação, embalagem, estocagem e
comercialização. Objetiva-se obter um produto fresco, de alta qualidade, pronto para
ser consumido ou submetido ao preparo culinário por uma dona-de-casa, que
também trabalha fora do lar e dispõe de pouco tempo para o preparo das refeições.
Há boa aceitação dos consumidores, devido à praticidade, qualidade e higiene de
tais produtos, principalmente.
O consumo de hortaliças minimamente processadas vem aumentando em
países desenvolvidos. No Brasil, essa tendência tem sido verificada a partir do fim

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da dec. de 1980, principalmente em razão do interesse de lanchonetes e


restaurantes que vendem comida “a quilo”. Nesse início de século, observa-se que
essa tendência vem aumentando.
Há dezenas de hortaliças que comportam o processamento mínimo, com a
decorrente agregação de valor, destacando-se: alface, beterraba, brócolos,
cenoura, couve, repolho e rúcula. Observe-se que, com equipamentos pouco
dispendiosos instalados na propriedade rural, os olericultores podem efetuar o
processamento, melhorando a rentabilidade do agronegócio.

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9. CULTIVO EM AMBIENTE PROTEGIDO

9.1. PLASTICULTURA

Plasticultura é um termo adotado internacionalmente para designar a


utilização de plásticos na agricultura, objetivando a criação de ambientes
melhorados e controláveis, mais propícios ao desenvolvimento das plantas. Desse
modo, favorece-se a potencialidade produtiva e econômica da cultura, protegendo-a
de alguns fatores adversos, que possam ser limitantes de seu pleno
desenvolvimento, caracterizando o cultivo em ambiente protegido.
As hortaliças, nas mais diferentes regiões do mundo, têm se beneficiado da
plasticultura. Das áridas regiões desérticas às úmidas florestas tropicais, do gélido
norte ao cálido equador, do nível do mar ao cimo das cordilheiras, da América à
Ásia, do pequeno ao grande produtor rural, seja no inverno, seja no verão, a
plasticultura está presente na vida dos mais diversos agricultores em todo o planeta.
É uma verdade irrefutável e irreversível na época atual.
O plástico surgiu no séc. XX, na década de 1930, com a descoberta inicial do
polietileno, e rapidamente tomou conta do dia-a-dia, podendo-se afirmar que se vive
a “era do plástico”. A agricultura já absorve valores significativos da produção
mundial de plástico. Em alguns países, a plasticultura avançou muito e está bem
implantada; em outros, está em fase inicial, com muito potencial a ser explorado,
como é o caso do Brasil. Os maiores consumidores de plástico na agricultura são os
países mais desenvolvidos, localizados no hemisfério norte, notadamente Japão,
Estados Unidos, países europeus e Israel. Naqueles países em desenvolvimento,
principalmente no hemisfério sul e nas baixas latitudes, a exemplo do Brasil, deve-se
investir em pesquisa e política educacional, visando à formação de um projeto
nacional, regionalizado, voltado para uma plasticultura eficiente e competitiva.
O cultivo em ambiente protegido tem apresentado uma série de vantagens,
como aumento de produtividade; melhoria na qualidade dos produtos; diminuição na
sazonalidade da oferta, conferindo maior competitividade pela possibilidade de
oferecer produtos de qualidade o ano todo, inclusive na entressafra; melhor
aproveitamento dos fatores de produção, principalmente adubos, defensivos e água;
controle local ou parcial dos fatores climáticos; fixação do homem no campo,

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diminuindo o êxodo rural e gerando empregos; melhoria nas condições do ambiente


de trabalho; e opção de aumento da rentabilidade da empresa agrícola.
A plasticultura também desempenha função social importante, viabilizando o
desenvolvimento de regiões pobres, improdutivas e de cultivo limitado, tornando-as
produtivas e ricas, a exemplo do que aconteceu em Almeria, ao sul da Espanha –
antes uma das regiões mais pobres do país -, que se tornou uma das mais ricas,
sendo denominada “horta da Europa”, graças ao efeito direto dos milhares de
hectares cultivados em ambiente protegido. Também, o Brasil tem tudo para
progredir nesse caminho, superando deficiências e distorções na oferta e no
abastecimento de hortaliças.
A agregação de valores na cadeia produtiva do agronegócio das hortaliças
produzidas em ambiente protegido deve ter prioridade ao se estudar a viabilidade do
sistema adotado. O sucesso do empreendimento deve considerar primeiramente,
junto com os aspectos técnicos, os aspectos econômicos e mercadológicos. É
preciso colocar o produto no mercado, de forma rentável, atendendo à demanda do
consumidor e conquistando novos espaços nesse competitivo setor alimentar.
Atenção especial deve ser concedida a seleção, embalagem, transporte e exposição
do produto na comercialização, visando melhores preços e atingindo públicos
diferenciados e mais exigentes. Uma opção promissora é a produção de hortaliças
orgânicas em ambiente protegido.
É importante conhecer bem as condições ambientais locais, as exigências das
cultivares e os efeitos do material plástico nos fatores de produção edafoclimáticos,
a fim de se obter o sucesso esperado do cultivo em ambiente protegido. Este poderá
ter influência significativa na época e densidade de plantio, no sistema de condução,
nos tratos culturais, no controle fitossanitário e nos distúrbios fisiológicos, afetando o
desenvolvimento da cultura.

9.2. COBERTURA DE SOLO

A cobertura do solo (“mulching”) é um sistema de proteção, que utiliza


materiais propícios para cobrir o solo, buscando oferecer melhores condições à
planta protegida. Funciona como uma barreira entre o solo e a atmosfera,
caracterizada pelo seu efeito isolante. É tão antiga e natural quanto as florestas, que
deixam uma manta espessa de folhas sobre a superfície. As coberturas mais

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tradicionais são de materiais orgânicos vegetais: capim, palha, bagaço, casca e


outros que estejam disponíveis. Existem também materiais inertes, como pedra,
cascalho, carvão, papel tratado etc. No entanto, nenhum desses supera a aplicação
do plástico, devido a sua diversidade na composição, disponibilidade no mercado,
facilidade no manejo e custo acessível.
Os filmes para cobertura de solo são de diversas cores: transparente, preta,
branca, prateada, parda, verde etc. Os transparentes são mais utilizados nas
regiões frias, por causa do efeito estufa sobre o solo, porém não controlam as
plantas daninhas. Em oposição, o filme preto não causa o efeito estufa, porém
controla as plantas daninhas e é mais resistente, sendo o mais utilizado no Brasil.
Os filmes de outras cores apresentam características intermediárias. Observa-se
que o filme preto absorve muito o calor recebido, aquecendo-se e podendo provocar
queimaduras nas partes mais sensíveis da planta, com as quais esteja em contato
direto. Uma opção interessante, já oferecida pelo mercado, é o filme de dupla face:
uma cor em cada face, por exemplo, preto na face interna – opaco e mais resistente
– e branco ou prateado na externa – reflete a luz e não se aquece tanto.
A cobertura plástica praticada sobre o solo apresenta numerosas vantagens,
sendo seus efeitos benéficos constatados nos seguintes aspectos relevantes:

a) Temperatura do solo: a cobertura tende a reduzir a amplitude térmica,


propiciando maior uniformidade à temperatura. Plásticos transparentes produzem o
efeito estufa no solo, aquecendo-o; plásticos pretos não causam esse efeito; e os
brancos ou prateados, que refletem a luz solar, tendem a diminuir a temperatura do
solo.
b) Umidade do solo: é favorecida pela cobertura plástica, que reduz a
evaporação e diminui o consumo de água.
c) Plantas daninhas: são mais bem controladas pelos filmes pretos.
d) Conservação e fertilidade do solo: são melhoradas, porque ocorrem
menor erosão e lixiviação dos nutrientes, conferidos pela proteção da cobertura.
Também há melhor aproveitamento dos adubos aplicados, inclusive maior
disponibilidade de nutrientes para o sistema radicular.
e) Salinidade do solo: é minimizada pela diminuição da evaporação, bem
como pela melhoria nos teores hídricos do solo.

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f) Cultura olerácea: melhora o desenvolvimento da planta, bem como a


produtividade, a precocidade e a qualidade dos frutos, que são protegidos do
contato direto com o solo.

Quanto à sua colocação, o filme deve ser estendido sobre a linha de plantio ou
canteiro devidamente preparado, fixando-se as duas extremidades e enterrando as
bordas. De conformidade com o espaçamento de plantio, deve ser perfurado,
preferencialmente em forma circular.
Nas condições brasileiras, é mais difundida a aplicação do filme preto,
principalmente em culturas de morango, solanáceas-fruto e cucurbitáceas,
conduzidas no campo, em casa de vegetação e também em túnel. A cobertura
plástica é de fácil instalação e relativamente de baixo custo, podendo trazer bons
retornos econômicos para o olericultor.

9.3. TELADO

As telas plásticas mais utilizadas e produzidas no Brasil são de materiais


resistentes e duráveis, que não absorvem umidade, sendo tolerantes aos fungos, à
salinidade e aos defensivos. Têm ampla aplicação na agricultura, podendo ser
utilizadas como sombreamento, quebra-vento, fechamento lateral de instalações e
cercas.
Os “sombrites” – telas para sombreamento – apresenta-se em variadas cores,
sendo predominante a preta, com durabilidade acima de 10 anos. Estão disponíveis
em diferentes espessuras e malhas, propiciando índices variados de sombreamento,
sendo utilizados entre 20 e 50% de retenção de luminosidade, na maior parte dos
casos. A porcentagem de sombra adequada varia conforme a radiação solar
recebida no local, a época de cultivo e a cultura a ser conduzida sob telado.
O telado é adotado, freqüentemente, na produção de mudas oleráceas.
Também pode ser utilizado ao longo do ciclo da cultura, principalmente em
condições tropicais. Sob elevada pluviosidade, o telado também atua como barreira
à ação direta e danosa das chuvas e de granizo sobre as plantas tenras. As culturas
oleráceas, especialmente as hortaliças herbáceas, são mais sensíveis a tais efeitos,
respondendo bem à proteção.

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O sombreamento diminui a temperatura interna, a evaporação e o consumo de


água. Cria-se, assim, um microclima interno mais favorável, mesmo sob temperatura
e luminosidade elevadas. Isso ocorre, seja em época seca, seja sob chuvas
intensas, com efeitos positivos na fisiologia da planta, elevando-se a produtividade e
a qualidade das hortaliças.
A utilização de telas em olericultura é uma técnica funcional, prática e eficiente,
de relativa adaptabilidade às mais diversas situações, que contribui para elevar a
eficiência do produtor.

9.4. TÚNEL PLÁSTICO

O tradicional túnel de cultivo forçado é constituído por um abrigo baixo, em


forma semicircular ou próximo a isso, recoberto com agrofilme sobre os arcos.
Abriga canteiros ou linhas de plantio dos cultivos.
O manejo adequado do túnel é fundamental para o desenvolvimento das
culturas, pois propicia a abertura e o fechamento no tempo correto, visando-se o
arejamento e o controle da temperatura e da umidade relativa do ar em seu interior.
Outrossim, possibilita a visita de insetos polinizadores – imprescindíveis para
algumas espécies, como as cucurbitáceas.
Durante o verão, o túnel pode funcionar como proteção contra chuvas e
também como redutor de luminosidade. Nesse caso, deve permanecer semi-aberto,
para melhorar a circulação interna do ar, evitando-se os excessos de temperatura e
umidade. Também encontram-se filmes perfurados, que conferem melhor
arejamento ao interior do túnel.
Os principais benefícios que os túneis oferecem à olericultura, entre outros,
são: possibilidade de produção na entressafra; antecipação da época normal de
plantio; substancial redução no ciclo, com maior precocidade na colheita; ganhos na
produtividade física e econômica; melhoria na qualidade do produto colhido;
proteção ao solo; e aumento na eficiência, com conseqüente economia na utilização
de certos insumos.

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9.5. CASA DE VEGETAÇÃO

a) Generalidades

A casa de vegetação – uma estrutura popular e erroneamente conhecida no


Brasil como estufa – é um abrigo que viabiliza o cultivo de plantas de porte alto e a
circulação de pessoas em seu interior. As primeiras surgiram no hemisfério norte,
como opção para o cultivo de plantas tropicais exóticas, passando a ser empregadas
na produção comercial de diversas espécies limitadas pelo inverno rigoroso. Sendo
o objetivo maior o efeito estufa, a estrutura recebeu o nome de estufa. Essa
terminologia tornou-se restritiva e inadequada, devido à abrangência dos atuais
objetivos, já que a utilização se tornou universal. Portanto, é preferível adotar o
termo casa de vegetação, menos popular, porém mais condizente com a realidade
agroclimática brasileira.
Inicialmente, as casas de vegetação eram cobertas de vidro. Entretanto, com o
advento do agrofilme, houve grande incremento na utilização dessa técnica, em
razão da maior versatilidade, disponibilidade e leveza, bem como do baixo custo
desse material, em relação ao vidro. A partir de então, houve possibilidade de serem
utilizadas estruturas mais simples, leves e baratas, cobertas com tipos variados de
filmes, que são adaptados às mais diferentes necessidades e oferecem maior
facilidade no transporte e manejo.
A produção comercial de hortaliças em casas-de-vegetação, no Brasil,
desenvolveu-se recentemente. Em meados da dec. de 80, a indústria petroquímica
brasileira incentivou a divulgação da plasticultura, despertando o interesse de
olericultores, extensionistas, educadores, pesquisadores e do público em geral para
essa nova modalidade de cultivo. Verifica-se atualmente que a plasticultura se acha
difundida por todas as regiões do País. Entretanto, poderia ter se desenvolvido mais
e melhor, não fosse a precária conjuntura brasileira, bem como a pouca ética
profissional e de mercado manifestada por algumas pessoas.
Uma das vantagens do cultivo de hortaliças em casa de vegetação é propiciar
condições de produção ao longo do ano, inclusive na entressafra, com ótima
qualidade e excelente produtividade. Também favorece a precocidade das colheitas,
a proteção do solo, o controle fitossanitário e a economia de insumos, além de
melhorar as condições microclimáticas no interior das estruturas, beneficiando o

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desenvolvimento das plantas e protegendo-as das intempéries. No entanto, no


Brasil, os principais problemas têm sido o custo elevado da implantação, a
instabilidade do mercado e a desorganização na comercialização; a ausência de
uma política governamental para o setor de hortaliças; as poucas ações de
marketing para o produto; o elevado custo de produção de muitas hortaliças; e a
falta de agrotecnologia mais bem adaptada às diferentes regiões do País.
Atualmente, existem casas de vegetação sofisticadas, dispondo de
equipamentos modernos, totalmente automatizadas, que controlam os principais
parâmetros climáticos (temperatura, umidade relativa do ar e luminosidade), a
umidade do solo, a ventilação, o teor de gás carbônico, dentre outros fatores, sendo
conhecidas como “climatizadas”. Todavia, sua utilização em olericultura é muito
restrita, devido aos custos por demais elevados, sendo mais difundida na produção
de mudas e de flores de algumas espécies mais exigentes, também mais valiosas,
comercialmente.
Inegavelmente, as casas de vegetação não-climatizadas estão bem mais
próximas da relaidade econômica brasileira: são construções mais simples e
baratas, sem sistemas sofisticados para o controle climático interno. No entanto,
consegue-se controlar, parcialmente, o microclima interno, por meio do tipo de
estrutura e dos agrofilmes adotados, do manejo destes e das trocas com o ambiente
externo. Apesar de suas restrições, tais estruturas têm viabilizado a produção de
sertãs hortaliças em regiões e épocas limitantes, em razão das melhorias
proporcionadas ao ambiente de cultivo. Também, podem-se utilizar, numa condição
intermediária, equipamentos mais simples, de custos menores, intensificando
parcialmente essas melhorias, como é o caso dos exaustores, para aumentar a
ventilação; dos nebulizadores, para elevar a umidade do ar; e das telas de
sombreamento ou da pintura branca no teto, para diminuir a luminosidade e a
temperatura internas.
De acordo com a região e a época do ano, a casa de vegetação pode ter
finalidades distintas. Quanto maior a latitude e mais intenso o inverno, maior é a
busca do tradicional efeito estufa; inversamente, quanto menor a latitude e mais
próximo ao equador, maior a busca do efeito guarda-chuva. Esse efeito não induz a
maior retenção de calor sob a cobertura; ao contrário, tende a dissipa-lo por meio da
máxima circulação de ar possível e das trocas com o ambiente externo. Nesse caso,
o objetivo maior é abrigar as hortaliças, protegendo-as das elevadas precipitações e

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radiações, que prejudicam o cultivo em campo aberto. A casa de vegetação protege,


também, da erosão e lixiviação de nutrientes do solo, do excesso de insolação, da
lavagem dos defensivos e nutrientes aplicados às folhas e dos danos mecânicos
causados à planta, como a queda de flores.
Diversos são os materiais utilizados na construção da estrutura, sendo os mais
comuns madeira, concreto, ferro, arame e alumínio. Cada material apresenta
vantagens e restrições, ressaltando-se que os mais elaborados e resistentes são
mais caros. A escolha é feita de acordo com a disponibilidade do material e a
capacidade aquisitiva do olericultor. Existem as estruturas pré-fabricadas, montadas
por empresas especializadas; ou pode-se dimensionar a estrutura, adquirir o
material e construí-la. Os cuidados requeridos são aqueles exigidos para a
construção de um bom galpão, considerando-se resistência, praticidade,
durabilidade, conforto, luminosidade, aeração e custos. Enfim, a estrutura deve ser
construída com muita segurança e bom acabamento, tendo-se em vista que a sua
finalidade é favorecer o cultivo das plantas.
Com o decorrer do tempo, principalmente nas últimas décadas, foram
desenvolvidos diversos materiais para cobertura das estruturas. Inicialmente era o
vidro; porém, com o surgimento do plástico, as opções foram aumentando. No
Brasil, entretanto, os agrofilmes são de polietileno aditivado, graças às suas boas
características e aos custos menores. O filme ideal é aquele que, tendo espessura
viável (em torno de 100 micra) e custo acessível, consiga reunir o máximo de
características desejáveis. Dessa forma, deve apresentar boas propriedades óticas,
como alta transmissão de luz visível, com elevada porcentagem da luz difusa, e
efeito termoisolante, se necessário, além de adequada resistência mecânica e ao
envelhecimento, com vida útil de 12 a 18 meses.

b) Modelos de casa de vegetação

Não há modelo ideal de casa de vegetação; o que existe é aquele mais


adaptado às condições econômicas, climáticas e técnicas do projeto. Os modelos
estão diretamente relacionados com o tipo de teto que o abrigo exibe, sendo os mais
adotados: teto plano, capela, em arco e túnel alto.
O teto plano tem sua aplicação limitada pelas elevadas precipitações. Só é
recomendado para regiões ou épocas de pouca chuva. Seu custo é baixo, porém

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seus efeitos, tanto estufa como guarda-chuva, são limitados. Apresenta o problema
da temperatura excessiva em seu interior, nos dias quentes, devido à deficiente
ventilação. No Brasil, foi desenvolvido o modelo Londrina, muito rústico, construído
com bambu e arame, de baixo custo. Contudo, apresenta sérios problemas de
durabilidade, resistência, segurança, vedação e ventilação, bem como baixo efeito
estufa, elevada umidade do ar, excesso de calor nos dias quentes e curta duração
do filme.
O modelo capela, com teto em duas águas, pode apresentar diferentes
inclinações deste, em razão do interesse em captar mais ou menos radiação solar,
resistir às pesadas chuvas e aumentar a ventilação. Para captar mais radiação solar,
melhorando o efeito estufa, o teto deve oferecer uma inclinação cujo ângulo permita
que a cobertura fique perpendicular às radiações solares. Objetivando o efeito
guarda-chuva, sugere-se esse modelo, prioritariamente, pois é resistente, favorece a
ventilação e pode diminuir a passagem da radiação solar para o seu interior, em
virtude de sua inclinação, evitando os excessos de calor e umidade.
A estrutura com teto em arco, bem como o túnel alto, são modelos que,
devido à curvatura do teto, favorecem a fixação do filme, a resistência ao vento e a
captação de luz solar, melhorando o efeito estufa. Em contrapartida, a ventilação é
prejudicada, podendo apresentar elevado aquecimento interno nos dias quentes.
Esse modelo tem sido muito utilizado no Brasil, dominando o mercado das
estruturas pré-fabricadas. Podem-se agrupar dois ou mais módulos (conjugados),
obtendo-se casas de vegetação geminadas, com as vantagens de economizar
material, melhorar o aproveitamento do terreno e intensificar o efeito estufa.
Contudo, apresenta o grande problema de dificultar a ventilação, podendo resultar
em conseqüências graves para as culturas.
Independentemente do modelo escolhido, quando o objetivo principal for o
efeito estufa, a estrutura deverá ser totalmente coberta, inclusive as laterais. Para o
efeito guarda-chuva, as laterais devem ser totalmente abertas, cobrindo-se somente
o teto.

c) Instalação da estrutura

Vários aspectos merecem ser levados em consideração ao se instalar a casa


de vegetação. Assim, a escolha do local é fundamental, devendo-se conhecer bem

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as condições climáticas locais, evitar baixadas úmidas, frias, pouco ensolaradas e


de baixa ventilação, bem como locais sujeitos a ventos fortes. A construção deve ser
orientada no sentido da direção dos ventos predominantes, visando-se diminuir o
impacto destes; para isso, podem-se, também, utilizar quebra-ventos. A distância
entre as estruturas, sua disposição sobre o terreno e a direção das linhas de plantio
devem favorecer a luminosidade interna, com ausência de sombreamento, bem
como a máxima circulação de ar, principalmente quando o objetivo for o efeito
guarda-chuva.
As dimensões adotadas devem levar em consideração as finalidades da
proteção. Para o efeito estufa, quanto maior o volume de ar aquecido durante o dia,
maior sua capacidade de resistir à queda de temperatura noturna. Entretanto,
quanto maior a área construída, maiores as dificuldades com a ventilação,
provocando excesso de umidade nos dias frios e elevada temperatura nos dias
quentes. A casa de vegetação com efeito estufa deve ser ampla o suficiente para
armazenar calor e limitada o bastante para favorecer boa ventilação. Para as
condições brasileiras, a área estaria situada entre 400 e 1.000 m 2,
aproximadamente. Certamente, tais valores podem ser questionados, devendo-se
buscar melhor dimensionamento em cada situação específica. Também há de se
considerar que uma casa de vegetação mais alta favorece o efeito estufa e a
circulação de ar, porém requer uma estrutura mais resistente, elevando o culsto.
Para obter o efeito guarda-chuva, adotando-se o raciocínio inverso, devem-se
utilizar áreas menores, inferiores a 500 m 2, buscando-se maior ventilação e menor
aquecimento possíveis.

d) Manejo da casa de vegetação

Os agrofilmes das laterais podem ser colocados na forma de cortinas, que se


abrem e fecham, levantando-as ou abaixando-as. Esse manejo é importante na
ventilação e no efeito estufa. Deve-se abrir de manhã e fechar à tarde, segundo as
condições climáticas e a necessidade da cultura. O manejo adequado das janelas e
cortinas é fundamental no arejamento, na troca de gás carbônico e no controle da
temperatura e da umidade relativa do ar, afetando a fisiologia da planta, a ocorrência
de doenças e a visita de insetos polinizadores. Para se obter apenas o efeito
guarda-chuva, todas as laterais devem permanecer abertas, favorecendo ao máximo

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de ventilação. Deve-se fazer o monitoramento microclimático do ambiente protegido,


essencialmente a temperatura e a umidade relativa do ar, durante todo o ciclo da
cultura.
O manejo do solo também é muito importante, destacando-se os seguintes
fatores: água, nutrientes e microorganismos. Têm-se observado vários cultivos, mal
instalados e mal manejados, que, com o decorrer do tempo, vão se agravando os
problemas de salinidade, de nematóides e de doenças do solo. É imprescindível o
acompanhamento regular da fertilidade do solo, mantendo-se o fornecimento de
nutrientes de forma suficiente e equilibrada, evitando carências e excessos. Nesse
caso, observe-se que não há os efeitos da lixiviação provocada pelas chuvas, como
ocorre na cultura no campo. A irrigação localizada (gotejamento) é a melhor opção
para o fornecimento de água. Também a fertirrigação é uma excelente tecnologia,
podendo ser associada à plasticultura com sucesso. Todavia, é necessário conhecer
melhor sua atuação e seu manejo, em solos tropicais.
Tem-se enfatizado cada vez mais o uso de medidas preventivas e de natureza
biológica no controle fitossanitário em ambiente protegido. Na aplicação de
defensivos, quando necessário, devem-se adotar dosagens e freqüências mais
específicas, ainda pouco conhecidas para as condições brasileiras. A técnica de
solarização pode ajudar muito no manejo de doenças de solo. O sucesso do cultivo
depende das ações voltadas para a assepsia do local, bem como da não introdução
de fitopatógenos.
No cultivo em ambiente protegido, o manejo da cultura também requer
cuidados especiais, desde a escolha de cultivares mais adaptadas até a colheita e o
preparo do produto final. O espaçamento adotado e os tratos culturais devem
resultar em densidade de plantas e sistema de condução que viabilizem a máxima
produtividade, dentro de padrões elevados de qualidade para o produto.

9.6. CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE PLASTICULTURA

O cultivo protegido, mormente em casa de vegetação, tem contribuído para a


solução de alguns dos problemas que limitam a eficiente e constante produção de
hortaliças no Brasil. Contudo, outros problemas podem advir da má implantação da
estrutura e do manejo inadequado. Têm-se observado, ao longo do tempo, os
efeitos negativos da má administração das casas de vegetação, nas condições

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brasileiras. Podem-se destacar os principais problemas relacionados ao solo


(ocorrência de salinização e desequilíbrios); à atmosfera interna (temperatura baixa
e umidade elevada no inverno e superaquecimento nas épocas mais quentes); à
planta (ocorrência de distúrbios fisiológicos e doenças); e ao mercado (excesso de
produção, baixa qualidade e falta de padronização).
Muitos dos problemas mencionados são oriundos da falta de dados de
pesquisa referentes ao cultivo em ambiente protegido, escassos em regiões
tropicais. Embora a agrotecnologia avançada, originária do exterior, ofereça novas
possibilidades, muitas dificuldades surgem ao ser implantada sem o devido estudo
prévio das possiblidades de adaptação. Portanto, há de se investir em pesquisa
direcionada para o desenvolvimento de produtos, inclusive cultivares, e de sistemas
de produção mais bem adaptados às condições brasileiras, gerando os
conhecimentos fundamentais que assegurem o contínuo progresso do cultivo em
ambiente protegido.
O sucesso do agronegócio da plasticultura depende de meticuloso
planejamento do projeto, bem como de aprimorada execução, desde a implantação
do sistema, passando pelo manejo, até a venda do produto final, sempre com visão
empresarial voltada para um mercado cada vez mais exigente. Considerado com
seriedade e competência pelos diferentes agentes atuantes, o cultivo de hortaliças
em ambiente protegido pode resultar – e isso tem ocorrido, tanto no exterior como
no Brasil – em privilegiado sucesso para o olericultor. Nesse início de século, a
plasticultura tem se firmado como uma alternativa valiosa à olericultura à céu aberto.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRIOLO, J.L. Olericultura Geral. Princípios e técnicas. Santa Maria: Editora UFSM,
2002. 158 p.

BORNE, H.R. Produção de Mudas de Hortaliças. Guaíba: Agropecuária, 1999. 72 p.

FILGUEIRA, F.A.R. Novo Manual de Olericultura. Agrotecnologia moderna na produção


e comercialização de hortaliças. 2. ed. Viçosa: Editora UFV, 2008. 421 p.

FONTES, P.C.R. (Editor). Olericultura. Teoria e prática. Viçosa: Editora UFV, 2005, 486 p.

MAROUELLI, W.A.; CARVALHO E SILVA, W.L. de; SILVA, H.R. da. Manejo da Irrigação
em Hortaliças. 5. ed. Brasília: Embrapa-SPI, 1996.. 72 p.

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