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BIOÉTICA E BIOSSEGURANÇA*

Hermann G. Schatzmayr

Carlos Alberto Müller

Vice-Diretoria de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação


Instituto Oswaldo Cruz – Fiocruz - camuller@ioc.fiocruz.br

*Este artigo foi atualizado por Carlos Alberto Müller em Janeiro de 2018, a
partir da publicação original.

A Bioética pode ser definida como a aplicação dos conceitos éticos à Biologia
e à Medicina. Historicamente a palavra foi criada pelo oncólogo Van Rensselder
Potter, em livro datado de 1971 (1). Pelo título do livro, Bioética uma ponte para o
futuro, sugere o autor que deve haver uma ponte ligando a ciência e sua aplicação,
com base na defesa dos valores humanos. Em 1988, Potter veio a defini-la como a
combinação da biologia com conhecimentos humanísticos diversos constituindo uma
ciência que estabelece um sistema de prioridades médicas e ambientais para a
sobrevivência aceitável (2). Pode-se afirmar que hoje a Bioética diz respeito a toda a
ética de ciências da vida, da saúde e do ambiente. Podemos definir a Ética como a
ciência dos fundamentos ou princípios da ação humana, ou seja, os critérios e
teorias sobre o comportamento correto do homem (3). Ao buscar benefícios e
garantias para o ser humano, a Bioética tem como princípio básico à defesa da
dignidade humana, dentro das áreas da Biologia e da Medicina. A Bioética exige
uma conjunção de várias disciplinas visando à correta utilização dos conhecimentos
adquiridos pela ciência; ela deve unir a Ética e a Biologia, os valores éticos e os
fatos biológicos, visando à sobrevivência do nosso ecossistema no planeta como um
todo, nos ensinando como usar o conhecimento adquirido (4). Ela, portanto, nos
indica como ter uma atuação responsável em relação ao futuro, envolvendo até
questões de nossa própria sobrevivência como espécie. A Moral por sua vez, seria o
imperativo de conduta individualmente assumido, o qual é influenciado diretamente
pela sociedade onde se vive e os ensinamentos que ela repassa aos seus membros.
Assim um ato pode ser considerado moralmente inaceitável por uma sociedade e

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aceitável por outra. Exemplo relevante seria o conceito das religiões cristãs de que a
vida humana se inicia no momento da formação das primeiras células no óvulo
fecundado, conceito este aceito no Código Civil Brasileiro. Esta definição é, no
entanto aceita de forma mais flexível por outras religiões. É importante se frisar que,
como muitos aspectos da Moral vem a influenciar diretamente a Bioética, podem ser
gerados conflitos em função de conceitos morais, aceitos por algumas sociedades,
mas não por outras. Outro componente em nossa discussão seria a Ciência, que
pode ser definida como sistemas que nos permitem compreender fenômenos e
eventualmente controlá-los, pela aplicação dos conhecimentos adquiridos. A
curiosidade humana é reconhecidamente ilimitada e a capacidade de questionar faz
parte da essência da condição humana. Porém, depois que se adquiriu a
capacidade de manipular material genético, surgiu a necessidade de se estabelecer
limites e regras para esta manipulação. Contudo, precisa ficar claro, que a busca de
conhecimentos não deve ser impedida, pois como nos adverte Hossne, o nosso
“inimigo” não é o conhecimento e sim a ignorância e o obscurantismo. O
conhecimento deve ser continuamente buscado, porém por meios eticamente
adequados e sua aplicação também deve ser regulada por padrões éticos (5). A
Bioética é norteada por determinados princípios como a beneficência, a prudência, a
autonomia, a justiça e a responsabilidade. Entre estes princípios podem surgir
eventuais conflitos e as decisões devem ser tomadas em função das características
de cada caso em julgamento. Como beneficência se entende a análise dos
benefícios ou eventuais malefícios que podem advir do conhecimento adquirido ou
dos processos propostos para sua obtenção. O principio da prudência nos indica a
necessidade de uma postura cuidadosa e atenta, com o objetivo de impedir uma
possível perda ou prejuízo na busca do conhecimento e de suas aplicações. A
autonomia constitui a parte da ética que define a capacidade da pessoa governar-se
a si mesmo, como indelével qualidade humana. Este princípio deve ser respeitado
estritamente, por exemplo, através do consentimento prévio de cada indivíduo que
se integre a uma pesquisa com seres humanos. Por justiça se entende a
necessidade de se procurar que os benefícios alcançados pelos conhecimentos a
serem adquiridos sejam distribuídos da forma mais eqüitativa possível na sociedade.
A responsabilidade se define como a previsão dos efeitos de uma ação ou
comportamento e da sua correção, antes dos mesmos serem executados e o dever
de assumir a autoria eventual de erros ou omissões. Historicamente podemos

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buscar as raízes da Bioética na Revolução Francesa, quando surge pela primeira
vez o conceito das liberdades fundamentais da pessoa humana, em contraposição
ao absolutismo anterior, quando o poder era totalmente exercido pela realeza e pelo
clero. A preocupação específica com a Ética médica se define com mais clareza no
fim do século 18, com o advento da era microbiológica. Os novos agentes
etiológicos descobertos eram com alguma frequência, utilizados para inoculação
experimental em detentos e outros grupos sociais mais vulneráveis, como
prostitutas. Experimentos em presos foram proibidos na Itália e Alemanha em 1891
(6), embora se tenha registrado que experiências em humanos, sem prévio
consentimento continuassem a ser realizadas. Moll, em 1902, publicou livro sobre
ética médica, talvez o primeiro em seu gênero, registrando que centenas destas
experiências foram realizadas (7). Uma delas ficou mais conhecida por envolver
Neisser, o descobridor do agente da gonorreia, o qual foi advertido e multado por
inoculação do agente da sífilis em prostitutas. Um levantamento deste tipo de
experiências na primeira metade do século 20 nas Américas foi realizado por
Lederer, demonstrando que este comportamento de utilização de seres humanos em
experiências, sem claro consentimento prévio, não era prática rara também em
nosso continente (8). Uma revisão do problema do consentimento em participar de
protocolos experimentais foi publicada por Faden e Beauchamp, com uma ampla
reflexão sobre vários aspectos do problema (9). Os trágicos acontecimentos da
guerra mundial de 1939-1945, envolvendo práticas de eutanásia e experimentos
médicos em grupos étnicos e raciais, levaram a um movimento mundial de repulsa a
este comportamento. Assim surge o chamado código de Nuremberg de 1947, no
qual em dez itens se define entre outros aspectos, a essencialidade do
consentimento prévio e individual por parte do participante em um experimento com
seres humanos, o direito inalienável do indivíduo se retirar do grupo do experimento
a qualquer momento, caso o deseje e a definição de que os experimentos em seres
humanos somente serão realizados quando não houver outra metodologia
disponível para se obter os resultados desejados, excluindo-se as experiências ao
acaso ou desnecessárias. Em dezembro do ano seguinte, a UNESCO, órgão da
Organização das Nações Unidas apresentou e foi aprovado por todas as Nações
Membro, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujos dois primeiros artigos
definem com clareza, os objetivos máximos do Documento. No artigo 1º se declara
que todos os homens são nascidos livres e iguais, em dignidade e direitos e no

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artigo 2º que não deve haver distinção de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião
política ou qualquer outra. A Declaração continua sendo um documento básico para
o embasamento do comportamento ético dos seres humanos em todos os campos,
inclusive na área Biomédica em geral. Outro documento fundamental para a Bioética
foi a Declaração de Helsinque, que é um conjunto de princípios éticos que regem
a pesquisa com seres humanos e foi aprovada por aclamação na 18ª Assembléia
Médica Mundial, em junho de 1964. Neste documento se define que todo protocolo
experimental envolvendo seres humanos deve ser aprovado por um Comitê
independente externo; deve haver uma supervisão por profissional qualificado e
responsável pelo protocolo; reafirma que o consentimento prévio é essencial; uma
avaliação prévia e cuidadosa dos riscos do protocolo deve ser realizada, prevendo-
se que os benefícios esperados devem ser superiores aos possíveis riscos e se
levanta a questão de que nenhum resultado científico obtido em protocolos com
seres humanos deverá ser aceito para divulgação, caso não tenham sido
observados todos os requisitos descritos antes e durante a sua realização.
Posteriormente, foi revisada e aperfeiçoada sete vezes em 1975, 1983, 1989, 1996,
2000, 2008, sendo sua última revisão em outubro de 2013, durante a Assembleia
Geral da Assembléia Médica Mundial, no Brasil, e teve duas notas de
esclarecimento, em 2002 e 2004 (placebo e acesso à melhor intervenção
comprovada). A Declaração é um importante documento na história da ética em
pesquisa, e surge como o primeiro esforço significativo da comunidade médica para
regulamentar a investigação em si. Tornou-se um documento de referência
essencial aos Comitês de Ética em todo o mundo.
A revolução na biologia pela descoberta da estrutura do ácido nucleico e o
domínio de tecnologias para sua manipulação levou a criação, pela UNESCO em
1993, de um Comitê Internacional de Bioética, o qual se destinou a preparar a
Declaração Universal do Genoma Humano e Direitos Humanos, aprovado em
novembro de 1997, na 29ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO, como uma
busca do equilíbrio entre a salvaguarda dos direitos humanos e suas liberdades
fundamentais e a necessidade de se assegurar a liberdade da pesquisa. Dentre
seus 25 artigos, destacam-se o artigo 6º o qual rejeita qualquer tipo de discriminação
entre os seres humanos, o artigo 7º sobre a confidencialidade dos dados, o artigo
10º no qual se afirma a primazia do respeito da pessoa humana sobre a pesquisa e
o artigo 16º, no qual se reafirma a necessidade da formação em todos os países

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membros da ONU, de Comitês de Ética independentes, para julgamento prévio das
propostas de pesquisa envolvendo seres humanos. No Brasil, o primeiro documento
sobre normas de pesquisa em saúde foi a Resolução nº 1 do Conselho Nacional de
Saúde (CNS), de 13 de junho de 1988. O documento se baseia na Declaração de
Helsinque, reafirmando a necessidade do livre consentimento prévio, devendo ser
informado ao participante exatamente os objetivos, métodos, benefícios e eventuais
incômodos e perigos que possam advir de sua participação no projeto de pesquisa.
A Resolução previa a formação dos Comitês de Ética em todas as instituições de
pesquisa biomédica no país, fato que em realidade acabou não ocorrendo. Em uma
revisão da Resolução em 1995, na tentativa de sua ampla implantação, se definiram
com clareza vários aspectos, como a proibição de remuneração de participantes em
pesquisas com seres humanos, o respeito total a dignidade humana e a
necessidade do consentimento livre e esclarecido dos participantes, a preservação
do direito de decisão e em consequência, a possibilidade do participante se retirar
da pesquisa a qualquer momento, a proteção à imagem do participante, a
confidencialidade e a privacidade, a justificativa do uso de grupos placebo, o
planejamento das medidas de acompanhamento, tratamento e orientação, a
necessidade de comunicação aos Comitês de Ética da descontinuidade do Projeto
de Pesquisa, a necessidade de haver benefícios à comunidade envolvida na
pesquisa, bem como a obrigatoriedade de acesso dos indivíduos às vantagens da
pesquisa (10). Fundamental foi, no entanto, a Resolução do CNS nº 196/96, já
revogada, que criou a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), ligada ao
Conselho Nacional de Saúde, a qual passou a opinar obrigatoriamente em todas as
solicitações de pesquisa com seres humanos, após a aprovação dos mesmos pelas
Comissões de Ética das instituições onde as mesmas serão realizadas. A Resolução
além de criar os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) institucionais, enfatizou os
conceitos apresentados em Resoluções anteriores, prevê que o projeto deve ser
justificado cientificamente e deve se apoiar em experimentação prévia em
laboratório, em animal e em fatos científicos que apontem para um possível
benefício. Além disso, deve ser realizado apenas, quando o conhecimento que se
pretende obter não possa ser alcançado por outro meio.
A Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, foi instituída a Comissão Técnica
Nacional de Biossegurança (CTNBio), cuja atribuição é regrar a manipulação e o uso
das técnicas de engenharia genética e elaborar normas sobre a liberação no meio

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ambiente de organismos cujo material genético tenha sido alterado por qualquer
procedimento. Questões relativas à clonagem ou pesquisa genética com embriões
estão contidas neste dispositivo, regulamentado pelo Decreto nº 5.591, em 22 de
novembro de 2005.
O Plenário do Conselho Nacional de Saúde aprovou em 12 de dezembro de
2012 a Resolução nº466, que aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de
pesquisas envolvendo seres humanos e revoga as Resoluções CNS 196/96,
303/2000 e 404/2008 e aprovou em 07 de abril de 2016 a Resolução nº 510 que
dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais
cujos procedimentos metodológicos envolvam a utilização de dados diretamente
obtidos com os participantes ou de informações identificáveis ou que possam
acarretar riscos maiores do que os existentes na vida cotidiana, na forma definida
nesta Resolução.
Em relação à experimentação animal, pode-se afirmar que um movimento de
controle sobre o uso de animais tem sido crescente, como aquele das pesquisas
envolvendo seres humanos. O debate ético sobre o uso de animais tem atraído a
atenção da sociedade, com diferentes visões sobre o assunto, embora não seja
propriamente um debate novo. Os animais vêm sendo utilizados em pesquisas
básicas e aplicadas por mais de 2000 anos em algumas sociedades, e eram usados
em diversas investigações na era romana. Da mesma forma, a aceitabilidade dessa
prática também tem sido contestada ao longo dos tempos (11). No último século, o
desenvolvimento das ciências biomédicas foi substancial e houve um grande
aumento do número de animais utilizados, dos tipos de procedimentos e dos
pesquisadores que usam o “modelo animal”. Com isso, a bioética também se
ocupou das nossas relações com os animais e o debate sobre a ética no uso de
animais, embora já existente, adquiriu uma intensidade bem maior e uma nova
visibilidade em diversos países (12). A primeira lei britânica que tratou da questão do
uso de animais pela ciência foi o Cruelty to Animals Act em 1876. Tratava-se ainda
de uma lei pouco abrangente e pouco eficaz em garantir a sua proposta, pois ainda
não se tinha avançado no debate moral e as visões daqueles que se preocupavam
com os animais e daqueles que usavam os animais eram muito distanciadas. As
mudanças significativas começaram a ocorrer a partir dos anos 70. A publicação da
obra “Libertação animal” do filósofo e bioeticista Peter Singer, em 1975, é
considerada um marco para o início das mudanças em relação aos animais (13). A

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grande questão moral trazida por Peter Singer é saber se é aceitável moralmente
que uma espécie cause dor, sofrimento e morte em outros seres de outras espécies
para garantir benefícios de acordo com seus próprios interesses. A partir dessa
obra, várias outras se tornaram também relevantes, mas principalmente a atenção à
questão do sofrimento animal viria a se constituir numa preocupação ética, científica
e legal. O país não possuía uma legislação que realmente regulasse com clareza
estas atividades, embora o Decreto nº 24.645 de 1934, já reconhecia como tutelados
e, portanto, merecedores de proteção por parte do Estado, todos os animais
existentes no país. Em 1941, o Decreto-lei nº 3.688 reforça as medidas da Lei de
1934, prevendo pena para a prática da crueldade animal e estendendo-a para
aquele que, embora para fins didáticos ou científicos, realiza, em lugar público ou
exposto ao público, experiência dolorosa ou cruel em animal vivo. Posteriormente a
Lei nº 6638/1979 estabeleceu normas para a vivissecção de animais, porém como
nunca foi regulamentada, acabou sem efeito real, pela impossibilidade de penalizar
seus infratores. Embora esta lei tivesse o mérito de abordar mais especificamente o
uso de animais para fins didático-científicos, ainda não poderia ser considerada uma
lei moderna sobre a experimentação animal, tal como as que começaram a surgir na
Europa nos anos 1970 e 80. De fato, o pano de fundo das leis que surgem após os
anos 70 é o princípio dos 3Rs da experimentação animal, tal como se tornaram
amplamente conhecidos os princípios propostos por Russel e Burch em 1959 (14),
em busca de uma estratégia de abordagem em relação à experimentação animal.
Os 3Rs - Replace, reduce e refine - visam a substituir, reduzir e refinar o uso de
animais em experimentos, logo, se tornaram diretrizes para o controle da
experimentação animal em diversos países. A partir da consideração desse
princípio, começaram a crescer alternativas ao uso de animais ou métodos
substitutivos, os quais alcançam os objetivos científicos, porém utilizando-se de
diferentes meios tais como; métodos in vitro e cultura de células, dentre outros (15).
Da mesma forma, o número de animais utilizados em cada procedimento tornou-se
uma preocupação e deve ser buscado o menor número possível que seja
estatisticamente significativo. No que se refere ao refinamento, todas as boas
práticas de criação e manejo dos animais devem estar também voltadas para
garantir o mínimo de estresse, dor e sofrimento, quando estes não puderem ser
totalmente abolidos. As comissões de ética no uso de animais, que vão surgir a
exemplo das comissões de pesquisas em seres humanos, também vão orientar sua

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ação de acordo com os 3Rs. No Brasil, essas comissões surgiram tardiamente nos
anos1990 (16). Em 1995, o projeto de lei 1153 apresentado pelo deputado Sergio
Arouca, visou instituir um controle sobre a experimentação animal, tendo como
referência os 3Rs e a necessidade de avaliações institucionais, as quais estariam
vinculadas a um Sistema Nacional de Controle de Animais de Laboratório. Naquele
momento, o debate iniciado em 1993 pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB),
no sentido de se chegar a uma regulamentação do uso de animais de
experimentação, começava a ganhar visibilidade para a sociedade civil e científica.
Porém, o projeto suscitou diversas polêmicas e o consenso entre representantes da
atividade científica e das organizações de proteção animal não foi alcançado. Em
1997, as seguintes entidades – FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz), SBPC
(Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), COBEA (Colégio Brasileiro de
Experimentação Animal), atualmente SBCAL, FESBE (Federação das Sociedades
de Biologia Experimental) e ABC (Academia Brasileira de Ciências) se reuniram para
apresentar um outro projeto de lei. O Projeto de Lei nº 3964, o qual cria a exemplo
do modelo desenvolvido para as pesquisas com seres humanos, um órgão central
denominado Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e
Comissões de Ética no uso de animais ao nível das instituições. Este projeto foi
apensado ao PL nº 1153. O projeto continuava em tramitação no Congresso, tendo
sofrido ao longo dos anos algumas reformulações. Em 2003, foi criado o PL nº
1.691, que tinha como objetivo dispor sobre o uso de animais para fins científicos e
didáticos e estabelecia a escusa de consciência à experimentação animal, que
também foi apensado ao PL 1153. Como cada mudança no projeto original suscitava
novos debates, ainda não se conseguia um consenso que levasse a uma legislação
nacional. Enquanto isso se observava que em nível internacional, os países vinham
revendo suas leis e as adequando cada vez mais as novas demandas sociais, que
exigiam uma grande preocupação com o bem-estar dos animais e, até mesmo, com
os direitos dos animais. No Brasil, verificava-se também que alguns estados vinham
estabelecendo códigos de proteção animal, embora ‘proteção animal’ de uma forma
geral também estivesse prevista na atual lei de crimes ambientais. A Lei nº 9605 de
1998, relativa a atividades lesivas ao ambiente prevê em seu artigo 32, como crime
contra a fauna os atos de abuso e maus-tratos a animais, inclusive animais
domésticos ou domesticados e animais destinados a fins didáticos e científicos. Com
isto, considerando a possibilidade de ações penais previstas nesta Lei, as

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instituições com projetos em experimentação animal têm optado por criar suas
Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs), para avaliar os projetos
respectivos, utilizando os Princípios Éticos da Experimentação Animal, estabelecidos
pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA) em 1991, o qual, em
doze artigos estabeleceu diretrizes para a conduta dos profissionais envolvidos na
prática do uso de animais de experimentação, também baseadas nos 3 Rs. Em 08
de outubro de 2008, finalmente, foi sancionada a Lei nº 11.794, que regulamenta o
inciso VII, do parágrafo 1º do artigo 225, da Constituição Federal, estabelecendo
procedimentos para o uso científico de animais. O disposto nesta Lei aplica-se aos
animais das espécies classificadas como filo Chordata, subfilo Vertebrata,
observada a legislação ambiental e revoga a Lei nº 6.638 (17). Com a
regulamentação desta lei nacional, através do Decreto nº 6899/2009, que dispõe
sobre a composição do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal
(CONCEA) e estabelece as normas para o seu funcionamento e de sua Secretaria-
Executiva e cria o Cadastro das Instituições de Uso Científico de Animais (CIUCA)
(18). Espera-se que a questão dos princípios éticos a serem seguidos com os
animais de experimentação seja cumprida, mas, sobretudo acredita-se que um
adequado debate ético deve ser estimulado entre os diversos grupos que compõe a
nossa sociedade, a fim de que pesquisadores e cidadãos mais conscientes possam
contribuir para uma melhor qualidade de vida de seres humanos e não humanos em
nosso planeta. Como conclusão pode-se questionar quais seriam afinal, as relações
entre a Bioética e a Biossegurança? Sobre esta relação, a Biossegurança e a
Bioética preocupam-se com uma série de referentes comuns (a probabilidade dos
riscos e de degradação da qualidade de vida de indivíduos e de populações) e
legítimos (a aceitabilidade das novas práticas). Porém a Biossegurança o faz
quantificando e ponderando riscos e benefícios, ao passo que a Bioética analisa os
argumentos racionais que justificam ou não assumir tais riscos. Assim pode-se
afirmar que a mesma problemática é abordada de forma diferente pela
Biossegurança e pela Bioética, a primeira buscando os riscos e como atuar para
reduzi-los e a segunda refletindo se é realmente justificável assumir esses riscos
(19).

9
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1- Potter VR. Bioethics: a bridge to the future. Englewood Cliffs, Prentice Hall.
1971.
2- Potter VR. Global Bioethics. Building on the Leopold Legacy. East Lansing:
Michigan State University Press. 1988.
3- Scholze SHC & Mazzaro MAT. Bioética e normas regulatórias: reflexões
para o código de ética das manipulações genéticas no Brasil. Parcerias Estratégicas,
16:13-40. 2002.
4- Sgreccia E. Manual de Bioética-1 Fundamentos de ética médica, São
Paulo, Edições Loyola. 1996.
5- Hossne WS. Código de manipulação genética. Parcerias estratégicas,
16:65-78. 2002.
6- Anônimo. Official regulations as to Tuberculin in Germany and Italy. JAMA
16: 492. ano1891.
7- Moll A. Ärtzliche Ethik (Ética Médica), Stuttgart, Editora Enke. 1902.
8- Lederer SE. Subjected to science, human experimentation in America
before Second World War. Baltimore, John Hopkins University Press. 1995.
9- Faden RR & Beauchamp TL. A history and theory of informed consent.
Nova Iorque, Oxford University Press. 1986.
10- Conti MCS. Ética e Direito na manipulação do genoma humano, Rio de
Janeiro, Editora Forense. 2001.
11- Nuffield Council on Bioethics. The Ethics of Research Involving Animals.
London: Nuffield Council on Bioethics. 2005.
12- Paixão, RL. Aspectos Éticos nas regulamentações das pesquisas em
animais. In: Bioética, Riscos e Proteção. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Editora
FIOCRUZ, p. 229. 2005.
13- Singer, P. Libertação animal. Porto Alegre: Ed. Lugano. 2004.
14- Russel, WMS. & Burch, RL. The Principles of Humane Experimental
Technique. England: Universities Federation for Animal Welfare. 1992.
15- Russel, WMS. The Three Rs: past, present and future. Animal Welfare,
vol. 14, n. 4, p. 279-286, 2005.
16- Paixão, RL. As Comissões de Ética no Uso de Animais. Revista do
Conselho Federal de Medicina Veterinária. Vol.10, nº 32. p. 13-20, 2004.

10
17- Guimarães, MV et .al. Utilização de animais em pesquisas: breve revisão
da legislação no Brasil. Revista de Bioética (Impr.). 24 (2): 217-24. 2016.
18- Müller, CA. O papel do médico veterinário à luz da legislação sobre o uso
científico de animais. Revista CFMV (Brasília), v. 18, p. 77-79. 2012.
19- Schatzmayr HG, Müller CA. As interfaces da bioética nas pesquisas com
seres humanos e animais com a biossegurança. Ciênc Vet Tróp.;11(1 Suppl):130-4.
2008.

Sites recomendados para consulta relacionados à Bioética:


www.unesco.org;
www.who.org;
www.ctnbio.gov.br;
www.planalto.gov.br;
www.sbcal.org.br/etica;
www.portalmédico.org.br;
www.conselho.saude.gov.br/comissao/eticapesq/htm;
http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016/Reso510.pdf;
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html;
www.sbbioetica.org.br.

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