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www.serradopilar.com | 1 Advento, 29.11.

2020 | ano 46º | nº 2196

Meditações de F A U S
após o Covid-19:
«Desta pandemia não
sairemos iguais ao que
éramos antes, sairemos
piores ou melhores…
depende de nós».

● fragilidade e crueldade,
características do género humano (1)

● regressemos
às nossas raízes (2)

● da pandemia, não sairemos iguais


ao que éram os antes
sairemos piores ou melhores (3)
fragilidade e crueldade,
características do género humano (1)
mais significa do que o regresso à nossa
fragilidade e ao nosso esquecimento dela.
Mas o pior é que, para além de frágeis,
também somos cruéis; e a nossa
normalidade consiste em encobrir a dor do
mundo. É que, neste mundo (que pensamos
ter convertido numa “aldeia global”),
morrem, diariamente, de fome, vinte e cinco
mil seres humanos, nove dos quais crianças.
o mosteiro mundial da pandemia
Não é incrível que possamos não só comer,

U
ma das grandes lições que mas até banquetear-nos, tranquilamente,
aprendemos com o Covid-19 foi a sem que nos pese na consciência não só a
de nos trazer à lembrança que fome, como, ainda, o desespero de tantas
nós, criaturas humanas, somos seres bem mães, incapazes de calar a fome dos seus
frágeis, à mercê de forças desconhecidas filhos? E, contudo, neste mesmo mundo, a
capazes de nos causar grandes danos, e que obesidade continua a ser uma das nossas
sempre julgamos ter dominado. maiores doenças. Tanto assim é que, o que
se gasta em terapias para a perda de peso,
Após cada peste ou cada “gripe espanhola”, ou a quantidade de alimentos que se
reagimos como se a tivéssemos superado destroem para manter os preços em alta,
para sempre, e que ela nunca mais voltará a seriam suficientes para sanar este desespero
repetir-se. Do mesmo modo procedemos, dos famintos.
após cada tsunami ou cada Chernobil…
Em vez de reconhecermos a nossa Nesta aldeia global, há milhões de pessoas
fragilidade, confiamos no poder da ciência. vítimas da guerra, com feridas que custam
a sarar, e obrigadas a converter-se em
Com certeza que a ciência é admirável e
teóricos “refugiados” que, muito
muito necessária. Acabamos, porém, por a
dificilmente, encontrarão acolhimento
idolatrar, por pôr nela toda a nossa
noutro lugar qualquer. E os que a si
confiança, e por nos esquecermos que é
próprios se consideram “civilizados”, obtêm
característico da ciência suscitar uma nova
parte da sua riqueza da venda e negócio de
pergunta, por cada resposta que nos dá, e
armas, para que os não civilizados possam
que cada problema prático que ela resolve,
disparar cada vez melhor, ainda que tenham
acaba por dar origem a um novo problema.
de alimentar-se cada vez pior.
Procuramos tranquilizar-nos falando de
“peritos” e recorrendo a eles: porém Este nosso género humano continua a
ninguém, absolutamente ninguém era praticar a tortura, recorrendo a
perito em Covid-19. No máximo, talvez procedimentos calculados, refinados e
houvesse alguns epidemiologistas e colegas surpreendentes; há, inclusivamente, escolas
do género, que pudessem ter alguns dados destinadas a ensinar a torturar, e que
úteis sobre o modo como nos deveríamos exportam essa ciência para os países menos
comportar; mas logo se viram ultrapassados “civilizados”. Neste mundo da dignidade
pelas novas caraterísticas desta epidemia. E, humana, trafica-se com seres humanos, para
contudo, continuamos ansiosos por “voltar à a prática de experiências médicas e da
normalidade”, quando esta expressão nada prostituição sexual. E é de arrepiar o grau
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de escravidão que algumas destas pobres que deviam andar na escola, e justifica-se,
criaturas chegam a suportar alegando que, deste modo, está a
Neste mundo que proclama a igualdade de possibilitar a entrada de algum dinheiro
direitos de todos os seres humanos, há naquelas casas, o que sempre é melhor do
quem possua quatro ou cinco moradias que nada (visto não quererem dar emprego
de luxo em diversas cidades do planeta, e aos pais, para não terem de lhes pagar
quem durma na rua por falta dessas “quatro mais). Este mundo inoculou na mãe Terra
paredes”, e de um catre que deitamos ao uma doença mortal, não se sabe se, até já,
lixo. Há máfias invisíveis que fazem incurável, enquanto se nega a alterar a
comércio com a droga, que matam, orientação do seu progresso, limitando-se a
impunemente, quem lhes cria a mais aplicar uns paninhos quentes neste planeta
pequena dificuldade, e que chegam, mesmo, gravemente enfermo.
a organizar-se como “estados paralelos e
invasores” num país qualquer.
Neste mundo tão aparentemente unificado,
1% dos seus habitantes possuem quase
tanta riqueza como os restantes 99%.
Mas, em vez de os apelidarmos de ladrões,
respeitamo-los e admiramo-los, como se a
sua fortuna fosse fruto dos próprios méritos.
Chegámos ao cúmulo de estabelecer como
princípio de boa educação, a convicção de É pior o coronavírus?
que todos os ricos o são, devido ao seu
próprio mérito, e que todas as vítimas da
pobreza e do sofrimento o são, por culpa E em tom menor, mas também sentindo
própria. É a melhor maneira de nos necessidade de o não encobrir, a fração
preocuparmos com estes infelizes. E é a teoricamente mais adiantada deste mundo,
forma de irmos desmontando, pouco a proclama viver numa democracia, enquanto
pouco, os serviços públicos de saúde e de vive sujeita a uma ditadura cruel de certos
educação (com a desculpa de os estarmos a poderes económicos que não foram eleitos
organizar), pois as grandes necessidades por ninguém, e que condicionam todas as
humanas sempre foram uma grande fonte de atividades dos políticos. A ponto de, em
enriquecimento para uma certa minoria. casos de crise e endividamentos, ser mais
importante garantir o lucro dos bancos do
Neste mundo onde todos têm liberdade de
que a subsistência das pessoas. E estamos
expressão, mas onde, apenas, uma minoria
satisfeitos com uma mal denominada
tem possibilidade de exercer essa liberdade,
democracia, em que o Parlamento deveria
essa minoria proclama aos quatro ventos chamar-se, antes, “Insultamento”, pois
que “nunca a humanidade esteve tão bem quem ali se senta não o faz para dialogar
como hoje”, ou que “estamos melhor do que
nem para obter acordos, mas antes, para
nunca”. Uma pseudociência que (mesmo
insultar e faltar ao respeito aos outros; é um
que fosse verdadeira), apenas serve para local onde se assiste a uma pantomina de
adormecer a nossa consciência, por nos votação, cujo resultado final já é conhecido
transmitir a sensação de “estarmos bastante
de antemão. De modo que aquelas sessões
bem”.
se poderiam suprimir, sem qualquer
Este mundo tão admirador do seu problema, limitando-se os participantes,
"progresso”, criou sociedades em que os apenas, a comunicar os resultados das
futebolistas são mais importantes do que as negociações prévias. Deste modo se
enfermeiras; deslocaliza as suas empresas pouparia muito tempo e dinheiro, que
para a Ásia, para poder empregar crianças poderiam ser aplicados nalgumas aulas de
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educação para representantes do povo…, e (justificada, aliás, como virtude) levou-nos
a ensinar aos políticos que a liberdade de à construção duma “sociedade-mercado”,
que desfrutam (e que tanto aplaudem, em vez de uma “sociedade de convivência”.
noutras ocasiões), a têm, agora, para votar o E a estabelecer a competitividade como
que lhes dita a consciência, e não o que lhes princípio fundamental, em vez do princípio
dita o partido. básico da solidariedade.
Porque, além disso, estas democracias A maior prova deste panorama desolador, é
proclamam a sua fé quase religiosa no negarmo-nos a prestar-lhe atenção:
deus Mercado, cuja providência regula simplesmente porque não o suportaríamos,
todas as relações; porém, sem perda de e porque nos culpabiliza, mesmo sem nada
tempo, os assim chamados servidores do nos dizer. É frequente o gesto de apagar a
povo, estipulam qual a retribuição a atribuir televisão, quando ela nos informa da
a si próprios pelos seus serviços (?), e o milésima parte do que acabamos de dizer,
valor da sua aposentação, sem sequer dar ao alegando aquele dito já podre de velho:
patrão a quem servem, a oportunidade de “bolas, assim não se consegue comer”.
ser ele a decidir sobre essa matéria. Porém, mesmo quando só a imagem nos
Apressam-se a defender o “mercado de impede de comer, deveríamos perguntar-
trabalho”, quando eles próprios se nos se a realidade nos permite comer. E
autoexcluem desse mercado. Deste modo se desculpem-me se estou a ser muito duro: eu
criou uma espécie de “clericalismo dos também me questiono a mim mesmo.
políticos”, ao qual se podem aplicar as É a este mundo e a estes homens que a
duras palavras de Francisco contra o pandemia apanhou desprevenidos…
clericalismo eclesiástico.
A este mundo, assim, tão desumano se
aplica um diagnóstico que procuramos JOSÉ I. GONZÁLEZ FAUS
desconhecer ou nos negamos a aceitar: “A https://www.religiondigital.org/miradas_cristianas/
raiz de todos os seus males é a paixão pela PANDEMIA-SALDREMOS-IGUAL-MEJOR-
riqueza privada (1Tim 6, 10). Esta paixão DEPENDE_7_2233646623.html

r e g r e s s e m os à s n o s s a s r a í z e s (2)

N
ão será este nosso mundo, tão cruel primeira parte, se lermos aqueles
e desumano, merecedor de um maravilhosos poemas bíblicos chamados
desses chamados “castigos Lamentações, falsamente atribuídos a
bíblicos”? Não precisamos, porém, de Jeremias, descobriremos algo muito
nenhum Deus “castigador”, uma vez que a importante: que conquistar Jerusalém e
nossa própria conduta nos coloca, agora, arrasá-la, era algo tão incrível para um
perante uma dupla ameaça que nos vai judeu (e parecia tão confirmado por
obrigar a optar: continuar como estávamos experiências prévias) que a dor e o
antes, à custa da vida de metade da desespero que este acontecimento
humanidade e destruindo a nossa casa (que despertou, convertem o nosso pavor perante
não me atrevo a chamar “comum”), ou o Covid-19, em meras lágrimas de
procurar o que a Bíblia costuma designar crocodilo. Não sei se, alguma vez, se terão
como conversão, traduzindo uma palavra escrito lamentações mais sérias, em toda a
hebraica que significa mudança de rumo. história humana.
Porque, apesar de tudo o que dissemos na E contudo, no meio de todo aquele
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desespero, renasce e ecoa a voz do poeta: de mais agradável e delicioso do que a
aquele mesmo homem que afirma ter convivência dos irmãos em harmonia”,
“experimentado a dor”, que “lhe cantava o salmista. Nada de mais progresso
roubaram a paz e já dela se esqueceu”, técnico, de mais bem-estar supérfluo, de
atreve-se a gritar, logo em seguida que “a mais armas invencíveis, nem de mais guetos
misericórdia do Senhor não tem fim, e a sua intocáveis, mas antes, melhor convivência
compaixão não acaba nunca”, que “o na maior paz e harmonia possíveis. Se a
Senhor não se compraz em afligir, mas se cultura e as humanidades são assim tão
compadece continuamente”. E isso enche-o importantes, é porque nelas é fundamental a
de esperança. (Ver o terceiro capítulo das questão da convivência e as relações entre
Lamentações). as pessoas. E porque uma convivência sã e
Não precisamos de recorrer a uma leitura bem estruturada, é um ambiente onde
religiosa de tudo isto. Basta-nos o que maiores níveis de felicidade podem
poderíamos chamar uma “fé terrena”, desde alcançar-se, para todo o género humano.
que seja uma verdadeira fé, e não uma falsa De acordo com este ponto de vista, e
esperança, fácil e cómoda. Recordemos o fixando-nos, agora, neste mundo ocidental
célebre verso de Hölderlin: “Onde existe o que se atribui uma discutível missão de
perigo, cresce a salvação”. Mas não cresce liderança neste nosso planeta, gostaria de
por si só: precisa de ser cultivada por nós. referir o que pode ser considerado o grande
Como pequenas estrelas na noite que pesa “pecado original” do Ocidente: o
sobre nós, os meios de comunicação individualismo. Um vício que afeta toda a
comentam, admirados, como baixaram as nossa história e a da nossa chamada
emissões de CO2, e como a nossa Modernidade. Valerá a pena remetermo-nos
atmosfera ficou mais pura. Ou, como um pouco às nossas raízes mais profundas.
diminuíram os acidentes de viação. Como Já por várias vezes se referiu que um dos
despertou a capacidade de sacrifício, a venenos deste individualismo reside na
solidariedade e ternura do nosso pessoal de filosofia de Descartes, e no famoso “penso
saúde… São pequenas coisas, mas que logo existo”. Num momento de dúvida total
podemos considerar minúsculos embriões. e absoluta, a primeira e máxima certeza, o
E o que elas poderão vir a ser no futuro, ponto de partida de toda a reflexão, é o meu
dependerá de todos nós, a quem é exigido eu: “penso logo existo”. Apesar de recorrer
um estudo sério e um esforço constante. às “ideias claras e distintas” para continuar
O repetido slogan da metodologia científica a avançar, Descartes não encontrou forma
“tentativa e erro”, deve ser aplicado, agora, de reformar essa conjetura inicial, para
não a um problema particular, mas a toda a chegar à verdadeira certeza-ponto-de-
nossa atitude perante o cosmos e a vida da partida: “existimos, logo existo”. E como
humanidade. E isso, tanto na nossa forma todos os génios tendem a adiantar-se à sua
original de encararmos e de nos abrirmos ao época, talvez se deva afirmar que Descartes
mundo, como nas mil questões práticas que foi o primeiro a recorrer a uma selfie,
daí podem derivar. No que toca ao primeiro mesmo antes da existência do material
âmbito, já existem constatações suficientes informático… É esta a nossa forma mais
de que algum erro havia, na nossa forma de original de estar no mundo.
estar neste mundo. E este pecado original continua a infetar
Se neste planeta terra vivem milhares de toda a nossa história subsequente: o
milhões de pessoas, cada uma delas com a imperativo absoluto da nossa Modernidade
sua dignidade inalienável e direitos foi, assim, proclamado por um dos pais do
sagrados, parece que a primeira meta de chamado Iluminismo: sapere aude: atreve-
qualquer vida humana, na terra, deverá te a conhecer e a situar-te por tua própria
ser a construção da convivência. “Nada há conta, porque só assim conseguirás sair de
5
“uma menoridade culpável”. Algo muito que ele nos incomoda tanto. A sua
importante e decisivo intuía Kant, ao falar provocante crítica: que os direitos do
deste modo. Essa intuição, porém, vinha homem proclamados pelo Ocidente são os
carregada de individualismo cartesiano. É “direitos do homem alienado”, não está,
um imperativo que a mim se destina inteiramente, correta: é que, precisamente,
enquanto indivíduo isolado. O bom do todas as declarações estão feitas no plural,
Kant não achou maneira de nos dizer: como direitos de todos os homens. Tem
sapere audeamus – atrevamo-nos a razão, porém, quando se refere à forma
decidir em conjunto. O resultado é que, individualista como foram encaradas essas
quando milhões de pessoas decidem pensar mesmas declarações: como direitos meus
e atuar por sua própria conta (e (ou, pelo menos, do meu grupo) e nada
prescindindo, agora, do dado fundamental mais. Acabando, deste modo, por chamar
de isso não ser possível, sem o prévio direitos a muitos dos nossos desejos: eis a
influxo positivo de muitos outros no nosso forma como o capitalismo converte e
desenvolvimento), produzir-se-á um choque perverte a liberdade num direito a oprimir.
de atitudes e de decisões que nos levará ao Porque os direitos humanos, ou são de
confronto, e que acabará por reduzir a todos, ou não são direitos (serão,
convivência humana a uma mera supressão porventura, “direitas”, se me é permitida a
de inimigos, por um lado, e a simples ironia). E por maior que seja a liberdade, a
alianças táticas, pelo outro. ninguém é concedida liberdade para causar
dano aos outros, ou colocá-los em perigo.
Aceitando parte desta crítica como uma
reivindicação dos outros, Marx não
descobre, logo a seguir, a síntese, quando,
perante o tema da morte, apenas sabe dizer
que “é uma dura vitória do género sobre o
indivíduo”. O “ser genérico” (que poderia
ser uma boa formulação do contributo de
Marx) deforma-se num ser “apenas
O individualismo crescente, outro dos males genérico”, onde o indivíduo desaparece
perante o género. O que dá lugar àquela
Eis o estado a que chegámos. Dizer que te inegável tolice (ou superstição, imprópria
atreves a decidir, é algo moderno e de um ateu) de que não precisamos de
estimulante, mas quando é dito de forma nenhum mandamento do amor: que se nos
individualista, pode resultar numa coleção limitarmos a alterar as relações de
de irresponsáveis, verdadeiros autistas, que produção, o egoísmo será vencido, e
ainda há poucos dias se passeavam sem produzir-se-á a “a identificação entre o
máscaras e sem guardarem as devidas indivíduo e o seu genérico”, sem qualquer
distâncias pelas ruas, muito convencidos e necessidade de apelar ao amor. É que todos
sem pensarem nos outros. E, ainda por os homens necessitam de acreditar “em
cima, se acham pessoas conscientes e algo”.
adultas, quando se comportam como E não sei se será ir longe demais, afirmar
inconscientes e menores de idade… Como que, daí, se passa a um existencialismo
resultaria diferente um conselho para que que descobre o homem como uma finitude
nos atrevêssemos a ser conscientes todos limitada e uma liberdade ilimitada, para
em conjunto! concluir que “o inferno são os outros”: o
Houve alguém que anteviu todo este erro seu autor devia ter explicitado que o inferno
original, mas não soube solucioná-lo: o são os outros, quando eu os não posso
temido e maltratado K. Marx: este será, explorar e aproveitar-me deles; há, porém,
para nós, o seu perene valor, e é por isso que recordar que esta frase surge escrita
6
numa situação como que de “confinamento” justificar: umas vezes, argumentando que
(Huis clos, À porta fechada, é o título da “se o não faço eu, fá-lo-ão os outros”,
obra de Sartre). E assim por diante, até (segundo aquele princípio de
chegarmos ao “transumanismo” atual, que “competitividade como primeira regra da
reconhece a necessidade de alterar, convivência”, que enunciamos no final do
profundamente, o homem, mas que aspira a parágrafo anterior. Outras vezes,
conseguir esse objetivo, através da argumentando, com uma superstição
tecnologia e da genética. parecida à de Marx, que tudo o que é
tecnicamente possível será humanamente
Curiosamente, o cristianismo e o budismo, bom, podemos visualizar o outro
exemplos de duas cosmovisões que mais imperativo, no título dado por Leonardo
insistiram na superação do ego, Boff ao seu primeiro livro sobre o drama
caraterizam-se por serem cosmovisões ecológico: “Grito da terra, grito dos
comunitárias essenciais: a shanga, no pobres”. Que a terra está a gritar é algo que
budismo, e a igreja, no cristianismo. E isso, já começamos a aceitar. É nos dito,
apesar de (ou precisamente por) também, que o Covid-19 pode acabar por
pretenderem chegar ao mais profundo do ser nefasto para os mais pobres, que nem
indivíduo. Nós, cristãos, não caímos, ainda, podem confinar-se nem podem deixar de ir
suficientemente, na conta do facto de todas trabalhar nenhum dia, por ser daí que
as orações oficiais cristãs serem orações retiram o escasso sustento quotidiano. E se,
comunitárias: o Pai-nosso expressa-se, até agora, nos parece que a pandemia os
sempre, no plural, as orações ao Espírito tem respeitado mais por viverem em países
Santo (que, logo a seguir à anterior, são das mais fechados, sem tanto afluxo de pessoas
mais centrais na vida cristã), suplicam como os nossos (ou, na melhor das
sempre no plural: “enche o coração dos hipóteses, por termos menos informação
teus”, “visita as mentes dos teus”, “luz da sobre eles), já começam a surgir situações
felicidade, enche o mais íntimo do coração desesperadas em países como o Equador
dos teus fiéis”. Em todos estes plurais se (em Guayaquil, por exemplo) ou o Perú.
reflete aquela mentalidade de que acima
sentíamos falta: sou porque somos. Mas como, além disso, este vírus nos
afetou a nós, os ricos, pondo em relevo a
Se for válida esta análise, podemos estar nossa fragilidade (como se disse na
perante um futuro marcado pela opção entre primeira parte), que é, também, uma forma
dois imperativos a que poderemos chamar: de pobreza, daí se conclui que o título de
o imperativo tecnológico, ou o imperativo Boff pode ser alargado da seguinte forma:
humano. O primeiro significa que, quando “Grito da terra, grito dos pobres, grito dos
algo é possível, tecnicamente falando, há homens”. E parece ser este o verdadeiro
que fazê-lo sem mais, sem nenhuma horizonte que temos pela frente.
consideração sobre os efeitos que isso possa
provocar à humanidade no seu conjunto: se Oxalá seja possível que, em conjunto, nos
é possível construir uma bomba atómica, há atrevamos a antever um pouco como
que fazê-lo, sem atender aos danos que isso poderiam ser as coisas, se conseguíssemos
possa causar. Se é possível ir à lua, há que ir abrirmo-nos, comunitariamente, a este
e já, sem considerar se isso é aquilo de que horizonte.
mais necessita, hoje, o género humano; se é
possível destruir o planeta em proveito
próprio, destruímo-lo, certos de que, logo
em seguida, a ciência há de encontrar uma JOSÉ I. GONZÁLEZ FAUS
solução… Poderíamos prosseguir com HTTPS://WWW.RELIGIONDIGITAL.ORG/MIRAD
alusões à genética; mas será talvez mais útil AS_CRISTIANAS/PANDEMIA-SALDREMOS-
destacar até que ponto nos procuramos IGUAL-MEJOR-DEPENDE_7_2234846500.HTML
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da pandemia, não sairemos iguais ao que
éramos antes sairemos piores ou melhores (3)
Impossíveis necessários audeamus”, “atrevamo-nos a pensar em
conjunto), com que nos atrevemos a corrigir
O nosso futuro surge, marcado por duas Kant, e que pode concretizar-se num
ameaças que se contrapõem uma à outra: princípio cultivado nos começos da
uma repetição da pandemia que nos obrigue globalização: pensar globalmente e atuar
a retroceder, novamente, e que constitui localmente. E eis o que nos parece hoje em
uma sólida probabilidade, enquanto se não dia tão necessário como impossível.
generalizar uma vacina; e uma crise
económica prognosticada como terrível e, Vejamos alguns exemplos
que além disso, não será uma dessas crises
clássicas do capitalismo, que surgem devido 1.O Covid-19 surpreendeu-nos num
à quebra da oferta ou da procura, mas uma momento de pensamento local, obsessivo
nova crise, nascida duma paralisação da e exclusivo. Um bom exemplo disso é a
produção. repetida denúncia de Noam Chomsky: as
indústrias farmacêuticas estavam,
Em qualquer dos casos, há que tentar não suficientemente, alertadas para a grande
resolver esta crise como a de 2008, com probabilidade desta pandemia. Mas
essa forma criminosa de austeridade para os pensaram que tentar refrear a epidemia não
pobres e de benefícios para os mais ricos. lhes traria nenhum benefício, enquanto que
Em Espanha, a crise de 2008 partiu do o desencadear duma pandemia, sempre
suposto de que, os cidadãos mais ricos, constitui uma fonte de lucros em vacinas e
passassem do controlo de 44% da riqueza, medicamentos.
para o controlo de 53% dessa mesma
riqueza, enquanto que o salário real da Este individualismo deu origem a um
décima parte mais pobre da população irónico aviso, do qual não sei quem é autor:
baixou 30% (e não se trata de dados de “muito mais perigoso do que o
nenhum Pablo Iglesias, mas sim do Banco coronavírus, é o vírus do medo”. E este
de Espanha). Para além da enorme pânico fez com que a crise económica fosse
quantidade de profissionais de saúde que se considerada como algo certo e terrível,
viram obrigados a emigrar, e que tanta falta mesmo muito antes de se começar a sentir.
nos fizeram logo em seguida. De facto, nas grandes crises anteriores (a
peste negra de meados do século XIX, e a
gripe espanhola de 1918), morreram
milhões de pessoas, muito mais do que as
vítimas de agora, mas não houve crise
económica. Argumentará alguém que
foram, precisamente, todas estas mortes
numa população mundial muito mais
reduzida, que evitaram a crise económica.
Talvez, não sei. Mas o que é inegável é que
os nossos poderes económicos já estão a
atravessar uma onda de pânico, mesmo
Coronavírus e solidariedade global. antes de a crise chegar. E o pânico, para
além de fomentar o egoísmo e a crueldade
Face a este panorama, a reflexão do capítulo (“salve-se quem puder!”), é um fator
anterior impõe-nos um princípio que se economicamente desastroso: “o capital é
poderia concretizar naquele “sapere muito assustadiço” dizem,
8
eufemisticamente, os cobardes capitalistas. 4. Pensar duma forma global, obrigar-
Em qualquer dos casos, pode ser que, ainda nos-ia a acabar com o imperativo
pior do que o coronavírus, possa vir a ser o económico de buscar, em todo o
“mercado-vírus”. Era preciso evitá-lo, mas investimento e operação financeira, “o lucro
não vejo como. máximo”, desaparecendo, deste modo, as
2.Tão necessária como impossível é, deslocalizações que, ultimamente, tanto têm
também, a existência de uma ONU com prejudicado a muita gente, e beneficiado a
verdadeira autoridade mundial para muito poucos. Tudo isto poderia ter como
problemas globais (e, claro, sem qualquer objetivo final, alcançar limites legais e
direito de veto), e com um tribunal mundial universais nos salários e nos lucros: brada
de justiça a que todos os países obedeçam. aos céus a existência de um salário mínimo,
Uma autoridade que reservasse, para si e não a de um salário máximo!
mesma, uma boa parte do uso e produção de
armas, libertando, deste modo, uma grande 5. Nesta mesma perspetiva, são
quantidade de riqueza para investir em absolutamente necessários (e
saúde pública para todos, e não na impossíveis?) uns impostos altíssimos
destruição de uns pelos outros. Uma para todos os multimilionários, e muito
autoridade assim, seria a única capaz de altos para todos os milionários. Esta
acabar com essoutra afirmação da liberdade proposta, tão necessária que irá ser
própria contra a vida dos outros, que são os furiosamente rejeitada, leva-nos,
paraísos fiscais. É impossível acabar com necessariamente, a recordar que o direito
eles a nível meramente local, porque muitos mais primário de propriedade é o de os bens
países pequenos, entre os considerados da terra serem acessíveis a todos, e não
“respeitáveis” (Luxemburgo, Holanda…),
apenas a uns tantos; e que, portanto, o
funcionam como tais.
direito de propriedade privada é um direito
secundário, que deve ceder a primazia ao
outro direito primário. E como conclusão,
que toda a propriedade privada que
constitua um obstáculo a este direito
primário é, simplesmente, um roubo que
implica devolução.
Há ONGs milionárias a financiar formas de
atacar movimentos pró-vida e pró-família.
Os ricos não veem os pobres
Todos estes dados nos fazem ver que é falso
Conclusão: outra fonte de receitas o argumento de que, muitas medidas que
desaproveitada. seriam úteis para nos dotar de mais
proteção, ou para impedir a grande
3. Pensando duma forma global,
probabilidade de um retorno da pandemia,
compreender-se-ia, também, a
são medidas impossíveis, por não haver
necessidade de acabar com todas as
dinheiro para elas. O que não há é vontade
indústrias contaminantes, e de investir em
de obter esse financiamento, nos locais
energias renováveis que podem criar muitos
onde isso poderia ser feito.
empregos, embora, a curto prazo, não
produzam outro benefício do que 6. Em qualquer dos casos, o dado antes
proporcionar-nos um planeta mais saudável. citado sobre o empobrecimento de grande
Um planeta mais saudável, contudo, parte de Espanha e agravamento das
permitir-nos-ia, depois, uma vida mais diferenças sociais (dado cuidadosamente
saudável também. esquecido), conduziu o atual governo ao
9
chamado rendimento mínimo que acaba vida, e o seu catecismo começa assim: “o
de ser aprovado. Obrigado. homeme foi criado para consumir”. O
Esta proposta chegou a ser criticada por filósofo coreano Byung-Chul Han diz que
uma voz episcopal que, ao invés de outras, convertemos o mundo num grande
temia que, deste modo, alguns trabalhadores armazém, e as relações humanas em
se deixassem arrastar para a preguiça. relações comerciais; deste modo, caímos no
Embora este perigo seja real, não é que ele chama a “sociedade do cansaço”.
suficiente para privar pessoas de algo tão Porque, no fundo, temos vindo a reconhecer
necessário como mínimo (eu acharia mais que o consumismo nos não dá a
perigoso que esse rendimento acabe por prometida felicidade, nem confere
chegar à mão de quem dele não precise). sentido à nossa vida; o que facilita o
Mas julgo que existe uma solução ainda reaparecimento de milhares de doutrinas
melhor do que esta: que o Estado se extremamente fundamentalistas (sobretudo
converta em garante, não de um simples de caráter nacionalista e xenófobo), com a
rendimento, mas de um trabalho. Como oferta de uma causa e razão para viver à
escreve o Monde Diplomatique: “o Estado qual nos possamos dedicar. E que, com base
deve garantir um trabalho. O novo acordo nessa necessidade de sentido, são aceites de
de Sanders e Ocasio-Cortez inclui esta forma fundamentalista e acrítica. Os
medida simples, mas essencial: o Estado profissionais de saúde, que tanto temos
compromete-se a oferecer, ou financiar, um aplaudido nestes dias, encontraram um
emprego a qualquer pessoa que deseje sentido muito maior na sua dedicação à
trabalhar com o salário base do setor saúde, do que aquele que muitos buscam no
público, ou maior. Do mesmo modo que os consumismo desenfreado e não solidário. E
bancos centrais são os prestamistas “de isto, apesar da sua dedicação ter sido
último recurso” nas crises financeiras, com excessiva, esgotante e muito arriscada, pois
esta garantia de emprego, o Estado a nossa tendência social em crer mais no
converte-se em financiador de emprego de nosso poder do que na nossa fragilidade,
“último recurso”… Com o emprego surpreendeu-os impreparados e sem
garantido, o trabalho deixa de ser uma recursos.
mercadoria, uma vez que a sua existência e Oxalá aprendamos, pois, que um certo
utilidade deixam de ser determinadas pelo protecionismo moderado no poderá vir a ser
mercado” (maio, 2020, p. 15). necessário, para não voltarmos, um dia, a
Desapareceria, assim, esse eufemismo ter necessidade de máscaras e ventiladores,
nefasto de “mercado do trabalho” para o e a sermos obrigados a ir procurá-los a
que é (como já, há anos, Polany criticara), milhares de quilómetros de distância, e a
realmente, um mercado de trabalhadores, de toda a pressa, expondo-nos aos clássicos
pessoas. E, portanto, um mercado de enganos e vigarices, que estas situações de
escravos, na nossa “civilizada” sociedade angústia costumam provocar. Nós, porém,
do século XXI. orgulhosos do nosso poder e esquecidos da
7. Daqui poderia derivar outra correção nossa fragilidade, pensámos que nunca mais
fundamental, tão necessária quanto iríamos precisar desse material, e que era
impossível, da nossa sociedade da riqueza: muito mais rentável produzir armas ou
acabar com a exacerbação do consumo, carros e aviões e produtos de luxo, do que
mediante a criação de falsas essas minudências desnecessárias e pouco
necessidades. A chamada “sociedade de rentáveis…
consumo”, colocou nele todo o sentido da 8. Reconhecendo não se tratar de supressão,
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mas de moderação ou sobriedade no 9. Como se vê, o Covid-19 foi-nos
consumo, o mesmo se pode dizer acerca confrontando com a impossibilidade (e a
doutra estrutura da nossa vida “normal”, necessidade) de juntar vida e liberdade.
fonte de tantas receitas e males: o turismo. O que me recorda uma frase de Margaret
É mau que a economia de um país gire mais Thatcher, ao enviar alguns soldados
à volta do turismo e serviços do que da ingleses para morrer nas Malvinas: “há
produção, como sucede em Espanha. É uma coisas que valem mais do que a vida, por
vergonha que a Alemanha, com muito exemplo, a liberdade”. Com isso pretendia
menos sol do que nós, esteja à nossa frente, ela dizer que a liberdade própria, a sua,
na instalação de fontes de energias valia mais, não do que a própria vida, mas
renováveis. E é de lamentar que boa parte do que a vida dos outros. É esta,
do nosso Mediterrâneo, devido à obsessão exatamente, a forma como alguns estão a
do lucro imediato, haja renegado o cultivo tentar, hoje em dia, resolver este dilema. Já
da terra, e (parodiando J. M. Serrat) devíamos saber que se trata dum caminho
“tenham despejado ali mil blocos, de errado.
Marbella a São Feliu”, incapazes agora de Como harmonizar, pois, o cuidado pela vida
“pintar de azul as brancas noites” do cantor. com o respeito pela liberdade?
E fora de Espanha, recorde-se o tsunami do 10. Todos os pontos aqui abordados têm
oceano Índico, de 2004, tão atroz que uma caraterística comum que foi
custou a vida a quase trezentas mil pessoas fundamental, também, na forma de se
e que, para designar o qual não nos bastou, encarar, corretamente, a presente pandemia,
já, a palavra maremoto, tendo nós de e que é o que, antes de mais, pretendi
recorrer ao vocábulo japonês (de destacar, nas páginas que me solicitou a
composição muito semelhante ao revista “Vida Nueva”, no começo desta
castelhano). Ora bem: houve, na altura, crise: para se tomar uma decisão correta, é
muitos ecologistas que defenderam a preciso considerar todos, ou pelo menos, o
opinião de que o fenómeno atingiu aquelas maior número possível de fatores que
dimensões, por se ter destruído, em entram em jogo nesta questão. Somos
benefício do turismo, toda uma cadeia de propensos a considerar, apenas, alguns
mangais que funcionavam como um travão destes fatores, que são os que mais nos
à força da água. Sem chegarmos a tanto, o favorecem. A forma de proceder de muitos
certo é que é vergonhoso que países pobres políticos revela-nos isto, duma forma muito
criem – só para atrair turistas – umas clara. Brinquei, há pouco tempo, com um
instalações de luxo, que ficam a anos-luz de velho aforismo superconhecido de A.
distância do nível de vida dos habitantes Machado, apresentando-o da seguinte
desses locais. forma: “A tua verdade, e a minha
Também não parece necessário esse tipo de verdade. – E não as contraponhas. – Que
turismo carneirada de tanta gente que juntas ensinam-nos mais”.
parece viajar não para aprender algo, A que propósito vem isto, agora? É que
mas apenas para tirar fotografias e as gostava de aproveitar este princípio, tão
mostrar aos vizinhos no regresso a casa. O racional e tão científico, de encarar a
turismo é bom e encantador. E pode totalidade dos dados, quando se tem de
ensinarmos muitas coisas. Mas, mais uma emitir um juízo, para analisar uma dessas
vez, ele deve manter-se dentro dos limites situações disparatadas que animam a nossa
da sobriedade, se quisermos que continue a vida política: refiro-me ao ridículo pacto
ser um turismo humano, e não um turismo entre Sanchez e Bildu, para a abolição da
do dinheiro. nossa lei de reforma laboral.
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Tudo o que se disse é verdade, mas nem de sérios, que venham questionar a sua
longe nem de perto constitui toda a verdade. possibilidade. Mas isso não poderá fazer-se
Foi um disparate desnecessário, o governo sem reconhecer, ao mesmo tempo, que aí
não fica justificado, ao explicar o seu medo reside, precisamente, a melhor prova de que
e o desamparo a que o tem submetido a vivemos numa ditadura económica, e que,
irresponsabilidade, tanto da Esquerda como, quando um sistema recorre a injustiças (e a
sobretudo, do PP: é que, precisamente, por uma injustiça grave) para poder subsistir, é
isso, havia de evitar a todo o custo todo o sinal de que se trata de um sistema injusto e
passo em falso, e tentar não pregar uma desumano. De modo que, considerando
rasteira a si mesmo, sem necessidade de todos os fatores que estão em jogo, e não só
serem esses irresponsáveis a pregá-la, eles alguns favoráveis aos interesses particulares
que apenas procuram aproveitar-se da de cada um, acabamos presos no seguinte
pandemia para ficarem com o poder. dilema: ou abolir a lei ou mudar o sistema.
Escolha cada qual.
Tudo isto é verdade. Mas não toda a
verdade. E as meias verdades são, às vezes, … … …
mais daninhas do que uma mentira absoluta,
Eis ao que chegámos: rodeados de tarefas
porque podem enganar com mais facilidade.
tão necessárias quanto “impossíveis”. E é
A outra meia verdade é que essa mal
isto que nos leva a temer (como já
denominada lei de “reforma laboral”, é uma
confessaram pensadores bem sérios como
atroz injustiça, que contraria direitos muito
Adela Cortina ou Ignacio Ramonet) que não
primários, e que deve ser abolida quanto
iremos sair desta pandemia lá muito bem.
antes. Rajoy e Guindos reconheceram, ao
Eis o que diz o segundo destes pensadores:
enunciá-la, que ela iria ser uma reforma
não se trata de “regressar à normalidade”;
“duríssima”. O que os seus próprios autores
porque a nossa normalidade foi a causa e
chamam duríssimo significa, nem mais nem
não a solução do problema: foi uma
menos, algo tremendamente cruel e,
consequência do autismo cartesiano que
portanto, contrário à ética mais elementar
analisámos na reflexão anterior (penso eu,
(recordemos que iniciámos esta reflexão a
logo existo eu), em vez de ser o pôr em
falar da fragilidade e da crueldade humanas,
prática de uma verdade mais completa:
e da nossa tendência para recorrer à
“existimos, logo existo”.
segunda, para nos protegermos da
primeira). Esta lei é contrária à nossa Por outras palavras e para terminar: o mártir
Constituição e a pactos internacionais I GNACIO E LLACURÍA deixou-nos, como
assinados pela Espanha (veja-se, a legado pessoal, o seguinte: a humanidade
propósito, a análise de Julia López,
não tem outra saída a não ser a de uma
Injustiça e ineficácia, publicada como
“civilização da sobriedade partilhada”.
caderno virtual de “Cristianismo e
Justiça”). Os empresários não podem Pode objetar-se que isso é impossível. A
queixar-se, agora, de não terem sido outra alternativa, porém, é uma civilização
consultados, visto que também não foram da autodestruição partilhada.
ouvidos aquando da sua redação, e de nada
se queixaram então.
Inclusivamente, como já disse outras vezes, JOSÉ I. GONZÁLEZ FAUS
pode compreender-se, na perspetiva dum https://www.religiondigital.org/miradas_cristianas/
necessário realismo, que esta necessária pandemia-saldremos-igual-Saldremos-
abolição arraste consigo problemas depende_7_2236046375.html (29.05.2020)
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