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AGDA DIAS BAETA

DISNEY PÓS-MODERNA
A presença do discurso pós-moderno nas histórias em
quadrinhos da personagem Margarida

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


Escola de Comunicações e Artes
Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo
Curso de Pós-Graduação Lato-Sensu de Especialização em Gestão
Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas

São Paulo, 2006


AGDA DIAS BAETA

DISNEY PÓS-MODERNA
A presença do discurso pós-moderno nas histórias em
quadrinhos da personagem Margarida

Monografia apresentada ao Departamento de


Relações Públicas, Propaganda e Turismo da Escola
de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo, em cumprimento parcial às exigências do
Curso de Pós-Graduação Lato-Sensu, para obtenção
do título de Especialista em Gestão Estratégica em
Comunicação Organizacional e Relações Públicas,
sob a orientação do Prof. Dr. Mauro Wilton de
Sousa.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


Escola de Comunicações e Artes

São Paulo, 2006


Disney Pós-Moderna

Aprovação

Professor Orientador: ____________________________________________________


Prof. Dr. Mauro Wilton de Sousa

Professor Convidado: ____________________________________________________


Prof. Dr. Waldomiro de Castro Santos Vergueiro

Professor do Curso: ______________________________________________________


Prof. Ms. Arlindo Ornellas Figueira Neto

Nome do Autor: Agda Dias Baeta


Título da Monografia: Disney Pós-Moderna
Aprovada em: 07 de março de 2006
Instituição: Universidade de São Paulo – Escola de Comunicações e Artes

Agda Dias Baeta 3


Disney Pós-Moderna

Resumo

O que está por trás do discurso supostamente inocente das histórias em quadrinhos?
Muito além do entretenimento, ele dissemina ideologias e padrões de comportamento.
Em Disney Pós-Moderna, a autora analisa o papel da mulher no período pós-moderno e
sua relação com o discurso das histórias em quadrinhos da personagem Margarida,
produzidas no Brasil nas décadas de 80 e 90.

Palavras-chaves: pós-modernidade, feminismo, mulher, Disney, história em quadrinhos,


crise de identidade do sujeito, comunicação, cultura.

Agda Dias Baeta 4


Disney Pós-Moderna

Abstract

What is behind the supposedly innocent discourse of comics? Besides entertainment, it


disseminates ideologies and models of behaviour. In Disney Postmodern, the author
analyzes both the role of women in the postmodern period and its relation to the
discourse of the comics character Daisy Duck, produced in Brazil in the 80´s and 90´s.

Key-words: postmodernism, feminism, woman, Disney, comic, crisis of identity,


communication, culture.

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Resumen

¿Qué hay detrás del discurso supuestamente inocente de las historietas? Además de
entretenimiento, éste disemina ideologías y patrones de comportamiento. En Disney
Postmoderna, la autora analiza el papel de la mujer en el periodo posmoderno y su
relación con el discurso de las historietas de la personaje Daisy1, producidas en Brasil
en las décadas de 80 y 90.

Palabras Clave: posmodernismo, feminismo, mujer, Disney, historieta, crisis de


identidad, comunicación, cultura.

1
Margarita en Argentina.

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Sumário
Apresentação............................................................................................................................ 8
Primeira Parte: Comunicação, Ideologia, Contexto Social e Histórias em Quadrinhos ..... 10
1.1 Introdução................................................................................................................... 11
1.2 Histórias em Quadrinhos, Ideologia e Comportamento ......................................... 13
1.2.1 A evidência do discurso social nos quadrinhos ..................................................................15
1.2.2 A influência no público leitor .............................................................................................18
1.3 Pós-Modernidade........................................................................................................ 21
1.3.1 Modernidade ou Modernismo?...........................................................................................22
1.3.2 Teoria das Ondas ................................................................................................................22
1.3.3 Uma nova ambiência ..........................................................................................................24
1.3.3.1 A Nova Era ....................................................................................................................24
1.3.3.2 A Sociedade...................................................................................................................28
1.3.3.3 O Sujeito........................................................................................................................31
1.3.3.4 A Mulher ........................................................................................................................33
1.4 A Personagem Margarida.......................................................................................... 36
1.4.1 A Super Pata .......................................................................................................................39
1.4.2 O Gibi .................................................................................................................................40
Segunda Parte: Evidências de uma Margarida Pós-Moderna .......................................... 41
2.1 Crise e Pluralismo do Sujeito .................................................................................... 42
2.2 O Feminismo como Deslocamento do Sujeito .......................................................... 45
2.3 O Relacionamento Amoroso, o Casamento e a Maternidade ................................. 50
2.4 Tarefas Domésticas..................................................................................................... 55
2.5 O Fim do Sexo Frágil .................................................................................................. 58
2.6 Feminista, sem deixar de ser feminina...................................................................... 60
2.7 Simulacro .................................................................................................................... 64
2.8 Profissional do Conhecimento ................................................................................... 67
2.9 A Conquista do Mercado de Trabalho ..................................................................... 68
2.10 Cidadã - consciente...................................................................................................... 74
2.11 Identidades Contraditórias......................................................................................... 76
Terceira Parte: Considerações Finais ............................................................................. 79
3.1 Conclusão .................................................................................................................... 80
3.1.1 A mulher nos meios de comunicação nos anos 80 .............................................................80
3.1.2 Um novo estereótipo...........................................................................................................82
3.1.3 Mudança Global .................................................................................................................84
Bibliografia .................................................................................................................... 86
Livros......................................................................................................................................87
Teses e Dissertações ...............................................................................................................89
Monografias............................................................................................................................90
Artigos ....................................................................................................................................90
Sites ........................................................................................................................................92
Gibis........................................................................................................................................93
Anexos ............................................................................................................................ 94
Histórias em quadrinhos citadas .........................................................................................................95

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Apresentação

As mudanças que caracterizam a pós-modernidade repercutem em todos os setores de


nossas vidas e provocam alterações no nosso modo de pensar e agir. Essas
transformações foram apresentadas por Alvin Toffler (1980) em seu livro A Terceira
Onda, no qual o autor descreve o declínio da sociedade industrial e o desenvolvimento
da economia cerebral propiciados pelo avanço tecnológico e pelo aumento da
importância do conhecimento no âmbito econômico. Com a mesma intensidade, essas
mudanças atingem o contexto político e social, o que acarreta a crise dos valores
modernos e a redefinição de papéis, tanto das instituições sagradas da modernidade –
Estado, Igreja, Família e Escola – quanto do próprio indivíduo em relação ao mundo e a
si mesmo.

Todos os conceitos - seja no campo econômico, político ou social - se alteram e a


comunicação não passa imune diante dessa situação. Ela capta e dissemina o
movimento de mudanças, propagando os novos valores e evidenciando os
acontecimentos latentes. Os meios de comunicação funcionam como radar dos
deslocamentos de valores e difusor dos novos comportamentos.

Apesar de ter nascido em um mundo já marcado pela importância da imagem e de ter


sido criada em um país que tem a televisão como referência de vida, sempre gostei da
leitura e essa sempre fez parte da minha vida, seja em forma de livros, jornais, revistas
ou até mesmo, gibis. Ao realizar leituras sobre o contexto atual em que vivemos, me
deparei com conceitos sobre pós-modernidade, terceira onda, modernidade tardia e crise
do sujeito. Todos esses assuntos me fascinaram e me fizeram pensar sobre a minha
própria formação.

Quais foram as influências de pensamento que sofri ao longo de minha vida? E como
que numa retrospectiva, recordei as viagens que tive a oportunidade de fazer, os anos
escolares, os professores que me foram exemplo, a convivência com diferentes grupos
de amigos, a família, as músicas que ouvi, os filmes que assisti e... como não poderiam
faltar, as leituras que fiz. E já no final dessa retrospectiva me deparei com um gibi que
aos dez anos eu adorava: o gibi da Margarida!

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Qual a relação desse gibi com a pós-modernidade e com a terceira onda de Toffler? Na
década de 80, a personagem Margarida (isso mesmo... a namorada do Pato Donald... ou
melhor, simplesmente Margarida, aliás, ela tornou-se independente) além de um gibi
próprio, ganhou uma nova personalidade. Ela deixou de ser a coadjuvante namorada do
Pato Donald e transformou-se no retrato da mulher da terceira onda. O velho coletinho
preto e rosa foi substituído por roupas modernas, ela passou a trabalhar fora e a lutar por
seus direitos e ideais. Este estudo analisa o discurso pós-moderno nas histórias em
quadrinhos da personagem e verifica a influência que causou na formação de garotas,
que como eu, eram leitoras assíduas do gibi.

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Primeira Parte
Comunicação, Ideologia, Contexto Social e
Histórias em Quadrinhos
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1.1 Introdução

Alvin Toffler lançou o seu livro A Terceira Onda em 1980. O gibi número um da
Margarida foi lançado no Brasil em 18 de julho de 1986. A personalidade atribuída à
personagem, nas histórias em quadrinhos elaboradas no Brasil, está sustentada em
valores que coincidem com aqueles apresentados por Toffler e por outros autores que se
dedicaram ao estudo da pós-modernidade.

A coincidência nas datas de publicação do livro de Toffler e do gibi da Margarida


evidencia a repercussão mundial, em diferentes meios de comunicação, dos mesmos
valores e conceitos. As mudanças que se processam no contexto global e que afetam –
inevitavelmente - o indivíduo, se tornam objeto de estudo de diversas áreas do
conhecimento e compõem o discurso de diferentes manifestações de informação, cultura
e lazer, entre elas, as histórias em quadrinhos.

Será que o discurso utilizado nas histórias em quadrinhos apenas reflete as mudanças
mundiais discutidas pelos diferentes autores ou também são responsáveis pela sua
disseminação? Até que ponto a linguagem utilizada para levar entretenimento para
crianças não conduz o comportamento das mesmas? Pretendo com este estudo
evidenciar a repercussão dos ideais pós-modernos no discurso aparentemente inocente
das histórias em quadrinhos. A leitura de um gibi está repleta de significados e
dissemina de maneira efetiva temas complexos estudados pelas teorias da comunicação.

Para isso, analisarei as histórias da personagem Margarida criadas pelos quadrinhistas


brasileiros no período de 1986 a 1997, época em que o gibi com título próprio da
personagem esteve no mercado. Este estudo comparará o discurso dessas histórias com
as transformações ocorridas no indivíduo no período chamado de nova ambiência
(transição da modernidade para a pós-modernidade).

Entre as características pós-modernas que serão abordadas, atribuo maior relevância à


crise de identidade do sujeito - analisada por Stuart Hall (2005) em seu livro A
Identidade Cultural na Pós-Modernidade - ocasionada pelas mudanças conceituais

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ocorridas a partir do final do século XX, em especial pelo feminismo, tido por Hall
como o quinto fato responsável pelo deslocamento do sujeito na atualidade.

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1.2 Histórias em Quadrinhos, Ideologia e Comportamento

Por analisar o discurso das histórias em quadrinhos da Margarida, este trabalho


relaciona-se às histórias do universo Disney e conseqüentemente às histórias em
quadrinhos americanas. Ao contrário do que ocorreu na Europa, os primeiros
quadrinhos americanos foram as comic strips - conhecidas no Brasil como ‘tirinhas’-
publicadas nos grandes jornais de Nova York por volta de 1895. A entrada dos
personagens de Walt Disney para o mundo dos quadrinhos ocorreu na década de 1930,
ocasião em que o estúdio passava por dificuldades financeiras e começou a
comercializar produtos com os personagens dos desenhos animados, além de licenciar
os direitos de publicação de tira do personagem Mickey. Dessa maneira, Mickey e Pato
Donald ganharam a simpatia dos leitores e novos personagens foram criados tanto para
os desenhos animados quanto para as histórias em quadrinhos.

Devido a sua origem no desenho animado, as histórias em quadrinhos Disney estão


associadas ao público infantil e são consideradas, pela grande massa, unicamente fonte
de entretenimento. Por ter seu uso relacionado ao lazer e ao passatempo, a princípio, seu
conteúdo é tido como menos relevante no contexto comunicacional. No entanto, ao
analisar a história das histórias em quadrinhos percebe-se que esse meio de
comunicação de massa não é assim tão inocente. Desde sua origem, as histórias em
quadrinhos têm causado - no Brasil e no mundo - inúmeras polêmicas e proibições em
torno do seu discurso ideológico e moral. Entre elas podemos citar a intervenção do
governo fascista em 1938, na Itália, que proibiu a importação de quadrinhos
estrangeiros; a publicação em 1954 de The Seduction of the Innocent, escrito por
Frederic Wertham, “que marcou o apogeu de violenta campanha contra as histórias em
quadrinhos” (Vergueiro, 1985:6), porque nele o autor alertava pais e educadores em
relação aos malefícios causados por essas histórias; e a censura durante o regime militar
brasileiro que afetou não só a música, a televisão e a imprensa, mas também os
quadrinhos.

Cabe aqui lembrar que os contos populares dos Irmãos Grimm que inspiraram a maioria
dos contos-de-fada produzidos pela Disney também eram direcionados para as crianças:

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“na tradição oral, as histórias compiladas não eram destinadas ao público


infantil e sim aos adultos. Foram os Irmãos Grimm que dedicaram-nas às
crianças por sua temática mágica e maravilhosa. Fundiram, assim, esses dois
universos: o popular e o infantil. O título escolhido para a coletânea ‘Histórias
das crianças e do lar2’ já evidencia uma proposta educativa” (Oliveira, s/d3).

Assim, as histórias dos irmãos alemães - conhecidas mundialmente através da


distribuição industrial dos desenhos animados de Walt Disney - já apresentavam no
início do século XIX um conteúdo moralizante. O castigo era, em todas as narrativas, o
final para as personagens que não se comportavam de acordo com as normas
estabelecidas pela sociedade. Isso evidencia que a leitura infantil está repleta de
significados, ideologias e padrões de comportamentos e não constituem apenas um meio
de fuga da realidade ou passaporte para um mundo fantástico. Serve também de
instrumento moralizador e ideológico.

Diante disso, por que as histórias em quadrinhos estariam neutras em seu discurso? Com
o advento da indústria cultural de massa4, as histórias em quadrinhos das personagens
de Walt Disney - que começaram a ser publicadas em forma de revistas em quadrinhos
(os comic books norte-americanos), conhecidas popularmente no Brasil como gibis5 -
ganharam repercussão mundial e passaram a ser consumidas não somente pelo público
americano, mas também pelos países europeus e latino-americanos. Nesse contexto,
estudos foram realizados na eminência de provar que as histórias em quadrinhos,
enquanto produto cultural, carregam a influência da sociedade em que são
desenvolvidas. Como trata Mosatta:

2
A primeira compilação de histórias dos Irmãos Grimm tinha 51 contos e data de 1810. Publicada pela
primeira vez em 1812, Histórias das Crianças e do Lar teve um segundo volume publicado em 1815. A
edição foi revista e aumentada em 1819 e depois em 1822. A última edição que aparece em vida dos
irmãos Grimm é de 1857 e conta com 181 histórias. Fonte: http://www.graudez.com.br/litinf/
autores/grimm/grimmhtm, acessado em 05/02/2006.
3
Fonte: http://www.graudez.com.br/litinf/ autores/grimm/grimmhtm , acessado em 05/02/2006.
4
“Desde o início, sua característica (da história em quadrinhos) foi a de comunicação de massa, uma vez
que atingia um público enorme” (Bibe-Luyten, 1985: 10).
5
“Poucas pessoas se lembram de que a palavra ‘gibi’ significa ‘moleque’. É que houve uma revista com
este nome, nas décadas de 30 a 40, que, de tão difundida, emprestou seu nome a todas as revistas de
quadrinhos do país” (Bibe-Luyten: 1985: 11).

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“Las historietas, en los Estados Unidos, no son tan inofensivas: no solo se


encuentran casi absoluta y verticalmente integradas a la sociedad que las
origino, sino que se hallan estrechamente mezcladas con las instituciones
interesadas en la integración y el status quo social”6 (1982:21).

1.2.1 A evidência do discurso social nos quadrinhos

As histórias em quadrinhos retratam o contexto social e a ideologia do autor que as


escreve e conseqüentemente do ambiente em que ele vive. Muitos são os estudos que
evidenciam a influência do discurso ideológico e político nas histórias em quadrinhos.
Entre eles, o livro Para Ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart,
lançado em 1976 no Chile7 e que “embora cientificamente não tenha muitos méritos,
destacou-se pelo grande número de reações que despertou entre os estudiosos e
aficionados do gênero” (Vergueiro, 1985:12).

Nessa obra, definida por Vergueiro como “parcial, radical, antiimperialista e


anticolonialista” (1985:12), os autores denunciam a disseminação dos ideais norte-
americanos nos países da América Latina através da exportação de suas histórias em
quadrinhos. Segundo os autores, o discurso contido nas histórias reflete a ideologia
imperialista americana e tem o objetivo de divulgar para o mundo a supremacia dos
EUA em relação aos países subdesenvolvidos. Hegemonia essa, justificada segundo
critérios associados ao controle econômico. Nas historias analisadas no livro torna-se
evidente o argumento de que o mais rico é o que manda e os menos afortunados devem
obedecer sem questionar:

“todo personagem está de um lado ou de outro da linha demarcatória do poder.


Os que estão abaixo devem ser obedientes, submissos, disciplinados, e aceitar
com respeito e humildade as ordens superiores. Os que estão acima exercem,
em troca, a coerção constante: ameaças, repressão física e moral, domínio
econômico (...). Ser mais velho ou mais rico ou mais belo neste mundo dá
imediatamente o direito de mandar nos menos ‘afortunados’. Estes aceitam

6
“As histórias em quadrinhos, nos EUA, não são tão inofensivas: não só se encontram quase absoluta e
verticalmente integradas com a sociedade que as originou, mas estreitamente mescladas com as
instituições interessadas na integração e no status quo social” (1982:21).
7
A edição utilizada para desenvolvimento deste trabalho é de 1978.

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como natural esta sujeição; passam o dia todo a se queixar de tudo e da sua
própria escravização. São incapazes, porém, de desobedecer ordens, por mais
insanas que sejam” (Dorfman e Mattelart, 1978: 30).

Desconsiderando o caráter extremista da obra - que por ter sido desenvolvida por
socialistas radicais, apresenta uma análise também influenciada pela ideologia partidária
de seus autores – percebe-se a importância do estudo enquanto evidência da presença
ideológica nas histórias infantis. No entanto, não é possível afirmar – como fizeram os
autores – que esse discurso seja intencional e utilizado como arma de dominação
mundial. Deve-se levar em consideração que a obra cultural é elaborada em um meio e
dele adquire influência e reflete os fenômenos vigentes, como a Guerra Fria que
vigorava no contexto mundial da época. Como argumenta Renard:

“as bandas desenhadas8 são produzidas por grupos de imprensa e autores que,
por um lado, têm as suas próprias opções filosóficas, políticas e sociais, e por
outro, partilham os hábitos e costumes da sociedade onde se encontram. É por
isso que as suas obras reflectem ideologias, ou seja, crenças e comportamentos
convencionais que são de resto formulados, numa linguagem mais clara, pelos
discursos da política e da educação” 9 (1978:177).

Outros exemplos de influência ideológica na composição do discurso das histórias em


quadrinhos podem ser citados. Ainda no que se refere ao universo Disney, o rato
Mickey também não está imune aos efeitos do capitalismo. Além do desmedido amor de
Tio Patinhas pelo dinheiro, também nas histórias de Mickey o tema é recorrente sob a
forma de minas de ouro, heranças, ganhos nas corridas, mapas do tesouro etc, como
salienta Renard (1978). Além disso, em estudo realizado por Bernard Pourprix10 e
citado por Renard:

“o universo Walt Disney é o ‘símbolo inamovível’ do conservantismo político,


econômico e social’. O tema propriedade privada surge com enorme freqüência.

8
Banda desenhada é a denominação de histórias em quadrinhos em Portugal, país no qual o livro de
Renard foi traduzido para o português.
9
A edição utilizada foi traduzida em Portugal e por isso apresenta grafia utilizada no país.
10
Renard (1978) cita um estudo realizado por Pourprix, intitulado Lecture Politique de Mickey –
Economie at Humanisme, maio-junho de 1971.

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A acção dos heróis tem como objectivo reforçar a autoridade pessoal de um


chefe, garantia da propriedade, ou defender directamente os bens de outrem; em
78% das histórias, os heróis comportam-se como defensores da propriedade, e
em 15% apenas como defensores de indivíduos ameaçados ou oprimidos”
(1978: 180).

Símbolo do conservadorismo norte-americano, os super-heróis também refletem a


dominação imperialista e isso se torna claro durante a Segunda Guerra Mundial, ocasião
em que os super-heróis foram à luta junto com seus compatriotas. As histórias em
quadrinhos da época mostravam, claramente, os personagens em combate. Segundo
análise de Moacy Cirne:

“o super-herói, em sua forma ideológica mais radical (Super-Homem, Capitão


América, Homem de Ferro, Capitão Marvel, Batman, Homem Borracha), é um
produto nazistificante que, ao surgir, volta-se contra o nazismo por um
imperativo político, assim como mais tarde se voltará contra o socialismo
(combatendo na Coréia, no Vietnam, na imaginária Lubânia etc.) por um
imperativo de ordem ideológica (...) O mito do super-herói, e mais
particularmente do Super-Homem, é o mito da classe média americana em
busca de auto-afirmação, identificando-se com a prepotência imperialista (que
invade ideológica, econômica e militarmente países periféricos do chamado
‘Terceiro Mundo’)” (1982:38).

Mas não é só a ideologia dominante e conservadora que está refletida nos quadrinhos.
Em análise de Peanuts, de Charles Schulz, percebe-se o papel dos quadrinhos como
sátira da sociedade moderna e modelo de sociedade humana. Seus personagens retratam
o conflito psicológico gerado no homem moderno pela sociedade capitalista. Já a
questionadora Mafalda, de Quino, representa os ideais da democracia liberal Argentina
da década de 60. Assim, pode-se dizer que os quadrinhos enquanto meios de
comunicação de massa estão abertos à disseminação de posicionamentos políticos e
ideológicos tanto de esquerda quanto de direita. O que nos faz acreditar que os
quadrinhos estão a serviço do grupo dominante é o controle dos meios de comunicação,
que na maioria das vezes está sob o poder dessa elite e que em momentos como de

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ditaduras militares, pode censurar ou coibir a produção de histórias que apresentem


ideologia contrária à dos detentores de poder.

1.2.2 A influência no público leitor

Reconhecida que a presença de ideologias e do contexto social está refletida nas


histórias em quadrinhos produzidas tanto em solo americano como em outros países,
resta verificar se a influência desses ideais disseminados afeta o público-leitor e
determina o seu comportamento. Segundo Renard (1978), com base em pesquisas sobre
a influência de outros meios de comunicação de massa - como jornais, cinema e
televisão - sobre o público:

“a banda desenhada, tal como todos os mass media, reforça as atitudes


preexistentes, não conseguindo no entanto determinar novas. Por outras
palavras, a banda desenhada não pode influenciar quem quer, como quer: em
última análise, tudo depende do leitor e da sua filiação num meio familiar e
social particular” (1978:188).

No entanto, o autor defende o caráter mitológico das histórias em quadrinhos que teriam
um aspecto compensatório para o leitor. As histórias de aventuras, por exemplo, seriam
fontes de fuga da monotonia cotidiana. Segundo estudo de Chambart de Lauwe11 sobre
a imagem da criança na imprensa infantil: “a criança encontra de facto nestas imagens
de crianças uma compensação para a sua situação na sociedade” (1970:126 apud
Renard, 1978:196). Assim, “enquanto o jovem leitor está dependente da família, o
jovem herói é independente, 44,2% dos personagens infantis não apresentam de facto
qualquer família; 18,1% só têm um tio ou um padrinho” (Renard 1978:196). O
personagem lido pela criança reflete a realização do que ela gostaria de ser. As
limitações impostas pela figura dos pais, por exemplo, desaparecem - nas histórias em
quadrinhos - simplesmente devido ao fato dos pais não existirem12. Ou ainda, o grande

11
Chambart de Lauwe, Marie-José. L’enfant et sés besoins culturels dans la cité contemporaine, em Paul-
Henry Chambart de Lauwe, Images de la culture, Paris, Payout, col. Petite Bibliothèque Payout, nº 163,
1970 (capítulo 6, p. 111- 134).
12
É interessante lembrar que segundo a análise de Dorfman e Mattelart em Para Ler o Pato Donald, a
ausência de pais nos quadrinhos Disney é uma maneira de incutir a ideologia de supremacia americana no
inconsciente coletivo dos países subdesenvolvidos, com o objetivo de evitar os questionamentos diante de
relações de poder não justificadas. Como declaram os autores “a relação de poder entre pai e filho é

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número de histórias que se passam fora dos centros urbanos, segundo pesquisa de
Chambart de Lauwe13, dos enquadramentos geográficos apresentados na imprensa
infantil, 75,1% retratam ambientes exóticos ou campo enquanto que 24,9% das
aventuras são na cidade. As histórias que se passam em ambiente diferente do qual o
leitor vive são consumidas para supressão do nomadismo14 intrínseco ao ser humano.

Dessa maneira, podemos dizer que apesar não ter uma influência direta e determinante
na composição do pensamento e comportamento coletivo - que têm como determinantes
outros aspectos sociais e culturais como os valores transmitidos pela família, a época e o
contexto no qual se desenvolveu a formação do indivíduo – as histórias em quadrinhos,
assim como os demais meios de comunicação, também não estão totalmente
desassociados da composição ideológica vigente. Como salienta Cirne: “não existe
quadrinhos inocentes, assim com não existem leituras inocentes” (1982: 11). Não
devemos levar a análise de maneira extrema como Whertam15 na década de 50, mas
também não podemos defender a idéia de que apesar do discurso ideológico e político
estar presente nas produções de quadrinhos, não influencia em nada aqueles que os
consomem como fonte de entretenimento.

No livro Quadrinho para Quadrados, Silva (1976) faz uma análise sobre as histórias
em quadrinhos do personagem Flash Gordon. No capítulo intitulado ‘O que Flash
Gordon nos ensinou’, o autor demonstra como o enredo das histórias antecipou
fenômenos que só ocorreram três décadas depois. Nas palavras do autor:

“quando no dia 20 de julho de 1969, o comandante Armstrong, da Apollo XI,


pisou pela primeira vez na lua, e comunicou que a terra era azul, pode ter
surpreendido milhões em todo o mundo, menos nós leitores das histórias em
quadrinhos, que já sabíamos disso, desde a década de trinta. Flash Gordon nos
tinha contado. Igualmente através dele, tomamos conhecimento antes do resto

justificada pela biologia, já a relação de poder entre tio e sobrinho perde esta justificação. É uma
relação contratual que toma a aparência de uma relação natural, uma tirania que não assume sequer a
responsabilidade de um nascimento. Sepultou-se, inclusive, a natureza como causa de rebeldia. (Não se
pode dizer a um tio: ‘Você foi um mau pai.’)” (1978: 29).
13
Chambart de Lauwe, Marie-José. L’enfant et sés besoins culturels dans la cité contemporaine, em Paul-
Henry Chambart de Lauwe, Images de la culture, Paris, Payout, col. Petite Bibliothèque Payout, nº 163,
1970 (capítulo 6, p. 111- 134). As informações mencionadas foram citadas pela autora na página 128.
14
A errância a qual todo ser humano está submetido é tratada por Maffesoli (2001) em Sobre o
Nomadismo: vagabundagens pós-modernas.
15
Autor da polêmica publicação The seduction of the innocent, já mencionada anteriormente.

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da humanidade da televisão, raio laser, propulsão a jato, energia atômica,


discos voadores, jato-spray e até da própria mini-saia. Tudo isso já existia em
fins de 1933, na mente de Alex Raymond, jovem desenhista americano, quando
criou Flash Gordon (...) Suas concepções de máquinas, roupas, armas e tantos
outros objetos, antecipavam-se aos cientistas e técnicos, e iriam tornar-se
realidade com tanta exatidão no decorrer dos anos, influenciando todo o
complexo industrial do mundo ocidental” (1976: 71).

A afirmação do autor não tem confirmação científica, mas nos leva a rever o papel das
histórias em quadrinhos e a importância do seu discurso dentro do contexto social.
Como visto anteriormente, a presença dos discursos ideológicos é marcante na
composição dos quadrinhos. A questão que deve ser avaliada agora se refere ao poder
de disseminação das idéias e padrões de comportamento vigentes na sociedade na qual a
história foi desenvolvida e a sua capacidade de antecipar tendências não só dessa
sociedade, mas tendências mundiais. A partir do momento que os quadrinhos funcionam
como espaço para disseminação de idéias e valores, estão muito próximos de incuti-las
no imaginário de seus leitores, daí a sua importância enquanto ferramenta ideológica.

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1.3 Pós-Modernidade

A discussão sobre a época pós-moderna tem suas raízes nos trabalhos realizados pelo
sociólogo Daniel Bell16 a respeito da sociedade pós-industrial. A sua interpretação sobre
o futuro da sociedade moderna, marcada pelo industrialismo, deu margem a diversos
outros estudos sobre a nova época que dava seus primeiros sinais de vida nos últimos
anos da década de 60.

No decorrer dos anos 70, as idéias do sociólogo Bell foram popularizadas por Toffler e
Peter Drucker17, entre outros autores. A cada releitura, a teoria ganhou uma nova
nomenclatura. Para Krishan Kumar, isso ocorreu porque os autores privilegiaram
aspectos de mudança diferentes em suas análises: “o que diferencia essas versões, não é
tanto o tipo particular de desenvolvimento que escolhem, mas os parâmetros que usam
para analisá-lo” (1997: 49). Assim, para citarmos alguns exemplos, na teoria pós-
fordista as relações de produção compõem o parâmetro de análise, enquanto que a teoria
da sociedade da informação, foca o advento do conhecimento.

Kumar (1997) aborda a pós-modernidade como uma corrente de pensamento derivada


da teoria pós-industrial, assim como o pós-fordismo e a sociedade da informação:

“o pós-modernismo é a mais abrangente das teorias recentes. Acolhe em seu


generoso abraço todas as formas de mudança – cultural, política e econômica.
Nenhuma delas é considerada o ‘vetor’ privilegiado do movimento em direção à
pós-modernidade. O que os outros vêem como provas de ‘pós-fordismo’ ou da
‘sociedade da informação’, ela tranqüilamente agrupa como componentes de
sua própria e ambiciosa conceituação de fenômenos correntes” (1997:16).

Portanto, independente do título utilizado, todos os autores versam sobre o mesmo tema:
a passagem entre a modernidade e a pós-modernidade, e é justamente nessa transição,
chamada de “nova ambiência” (Sousa, 2003), que se situa a análise pretendida com este
trabalho.

16
Ver Cevoli (1999) e Kumar (1997).
17
Ver Kumar (1997).

Agda Dias Baeta 21


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1.3.1 Modernidade ou Modernismo?

A pós-modernidade em muitos aspectos é a negação da modernidade e a continuidade


do modernismo, por isso é importante diferenciarmos os termos. A modernidade, que
corresponde à segunda onda de Toffler (1980), foi desencadeada pela revolução
industrial e tem na linha de produção um dos maiores fatores de mudanças econômicas,
políticas e sociais. O período tem seus alicerces na ação da Família, da Igreja e da
Escola. Através dessas três instituições, o Estado busca manter a ordem e o progresso.
Entre as principais características do período estão: o controle, a centralização, a
hierarquia, a massificação e a unidade.

Já o modernismo contradiz a modernidade. Formado pelas manifestações artísticas e


culturais, tem o caráter de negar o fordismo, o taylorismo e todos os outros valores e
preceitos que compõem a modernidade. Nas palavras de Kumar:

“entendo por ‘modernidade’ uma designação abrangente de todas as mudanças


– intelectuais, sociais e políticas – que criaram o mundo moderno.
‘Modernismo’ é um movimento cultural que surgiu no ocidente em fins do
século XIX e, para complicar ainda mais a questão, constituiu, em alguns
aspectos, uma reação crítica à modernidade” (1997:79).

Da mesma maneira, os termos pós-modernidade e pós-modernismo estão relacionados


ao contexto geral e à produção cultural, consecutivamente. Neste trabalho,
principalmente a pós-modernidade é abordada. A análise está diretamente relacionada
aos aspectos globais de mudança – âmbitos econômico, social e político – e não às
produções artísticas.

1.3.2 Teoria das Ondas

Para Toffler (1980), as mudanças ocorridas na sociedade se processam como ondas.


Segundo ele, três grandes ondas são as responsáveis pelas transformações ocorridas no
mundo ao longo dos séculos. Transformações essas, que alteram a vida em sociedade, o
modo de trabalho e produção, a política e o comportamento humano.

Agda Dias Baeta 22


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A primeira grande onda foi a passagem da sociedade nômade – que vivia da coleta, caça
e pesca – para a sociedade agrícola. O domínio do solo transformou a civilização, que
além de extrair o seu sustento, passou a fixar-se nele. As famílias tornaram-se
multigeracionais e trabalhavam juntas, consumindo o que produziam.

A segunda onda assolou o mundo no século XVIII com o advento da Revolução


Industrial, que transformou o modo de produção e fez com que as pessoas deixassem o
campo para viverem nos centros urbanos e trabalharem nas fábricas. Isso fez com que as
famílias estendidas da primeira onda se transformassem em famílias nucleares e que
seus papéis em relação ao trabalho e à vida em sociedade fossem redefinidos.

“A produção econômica deslocou-se do campo para a fábrica, a família não


mais trabalhava junta como uma unidade. Para liberar trabalhadores para o
serviço na fábrica, funções básicas da família eram distribuídas para novas
instituições especializadas. A educação da criança era entregue às escolas. O
cuidado dos idosos era entregue a asilos de indigentes ou casas de saúde (...). A
chamada família nuclear – pai, mãe e algumas crianças, sem o estorvo de
parentes – tornou-se o modelo padrão ‘moderno’, socialmente aprovado em
todas as sociedades industriais, capitalistas ou socialistas” (Toffler, 1980: 41-
2).

Já a terceira onda, pela qual estamos passando, iniciou-se na segunda metade do século
XX e tem como propulsores: a crise de energia, o advento do conhecimento (tratado por
alguns autores como Revolução da Informação) e a globalização, entre outros inúmeros
fatores que se relacionam nesta cadeia de mudanças.

A alegoria da onda é utilizada por Toffler (1980) porque esses três grandes movimentos
se processam como as ondas do mar: assolam o planeta e não necessariamente uma
onda deve acabar para que a outra se inicie. Na verdade, elas se colidem. Assim, apesar
de quase extinta, a sociedade pré-industrial ou o movimento da primeira onda ainda
existe em algumas regiões da América Latina, Ásia e África. A segunda onda ou a
sociedade industrial compõe a maioria das nações e a pós-industrial tem deixado o seu
lastro nos países desenvolvidos e afetado aos demais devido à globalização.

Agda Dias Baeta 23


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1.3.3 Uma nova ambiência

Como dito anteriormente, é a nova ambiência – a transição da modernidade para a pós-


modernidade – que tem importância para o desenvolvimento deste trabalho. Ou seja, a
passagem da segunda para a terceira onda, conforme a teoria de Toffler (1980) ou da
modernidade para a pós-modernidade, como trata Kumar (1997). É importante ter em
mente que as mudanças que se processam nessa transição:

“não são independentes umas das outras. Nem são fortuitas. Por exemplo, o
colapso da família nuclear, a crise global de energia, o advento do tempo
flexível e o novo pacote de vantagens adicionais, o aparecimento dos
movimentos separatistas (...), tudo isso parecem eventos isolados. A verdade,
entretanto, é o inverso. Estes e muitos outros eventos ou tendências
aparentemente desconexos estão inter-relacionados” (Toffler, 1980:16).

Para apresentar as principais mudanças ocorridas na nova ambiência e que resultam nos
valores pós-modernos, a análise é divida em quatro módulos. Em A Nova Era, serão
retratadas as mudanças globais; em A Sociedade, as mudanças que afetam diretamente o
convívio das pessoas em sociedade; em O Sujeito, serão abordadas as mudanças
ocorridas na identidade cultural do indivíduo e em A Mulher, a influência pós-moderna
no padrão de comportamento feminino.

1.3.3.1 A Nova Era

As ondas de mudanças se propagam quando ocorrem alterações em relação ao


entendimento do espaço e do tempo. Na pós-modernidade, a revolução da informação e
a globalização são os fenômenos responsáveis pelos “novos modos de inserção no (e de
percepção de) tempo e espaço” (Martín-Barbero, 2003: 60).

“Os fluxos de informação e o tratamento automático de dados estão para esse


novo tempo em que vivemos como a urbanização, a mecanização do cotidiano, a
prepotência do Estado e o irresistível ascenso dos meios de comunicação, entre
tantos outros fatores, estiveram para a Modernidade” (Polistchuk e Trinta,
2003:143).

Agda Dias Baeta 24


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No contexto vivido pelo mundo contemporâneo, no qual “o espaço foi ampliado para
cobrir todo o globo e está ligado quase que em ‘tempo real’” (Bell, 1980:62 apud
Kumar, 1997:23), a informação – assim como o solo na sociedade rural e a indústria na
modernidade – se transformou no motor propulsor de toda a sociedade. Por esse motivo,
as três grandes ondas podem também ser analisadas como três revoluções: a Agrícola, a
Industrial e a da Informação.

Temos na informação e no conhecimento, a chave da reorganização mundial. O


desenvolvimento das tecnologias da informação introduziu virtualidade ao espaço e
velocidade ao tempo. Assim, o computador e o satélite são representantes da
importância da tecnologia na era pós-moderna: “a empresa multinacional vive de
comunicação. É ela que lhe confere identidade como empresa que abrange o mundo.
Computadores e satélites são tão essenciais ao seu funcionamento quanto os operários
e as fábricas que produzem bens e serviços” (Kumar, 1997:19-20).

Os avanços tecnológicos possibilitam que as pessoas se comuniquem num curtíssimo


espaço de tempo. As notícias de todo o mundo estão em tempo real dentro de nossas
casas, basta ligar a televisão ou acessar a internet. Os efeitos desses avanços atribuíram
velocidade ao tempo, ele não é mais um empecilho, ele propicia oportunidades. Não há
mais demora: “pela primeira vez, temos informações compartilhadas de forma
instantânea pelo planeta” (Naisbitt, 1984:57 apud Kumar, 1997:22),

O mesmo ocorre com o espaço. Devido à virtualidade atribuída a ele, podemos conhecer
e nos comunicar com pessoas de qualquer país sem sair de casa. Negócios são fechados
sem que os executivos apertem suas mãos. Não há mais distância e isso fez surgir a
globalização, um dos fenômenos centrais do mundo pós-moderno responsável pela
transformação do “sentido do lugar no mundo” (Martín-Barbero, 2003:58).

No entanto, globalização nada tem a ver com a padronização, um dos princípios do


industrialismo. Globalizar não significa que o mundo é uma unidade, significa que o
mundo está interconectado. Cada local mantém as suas características, apesar de
conhecer as dos outros. É por este motivo que o advento da informação e da
globalização estão intrinsecamente relacionados.

Agda Dias Baeta 25


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Assim, podemos dizer que: “o processo de globalização que agora vivemos é ao mesmo
tempo um movimento de potencialização da diferença e de exposição constante de cada
cultura às outras” (Martín-Barbero, 2003:60), o que atribuiu à pós-modernidade a
importância tanto do global quanto do local, que assim como inúmeras outras vertentes
que parecem contraditórias, se justapõem na pós-modernidade.

O local adquire valor através do conhecimento global. Segundo Kumar, esse


paralelismo ocorre porque: “a sociedade pós-moderna associa tipicamente o local e o
global. Os acontecimentos globais – a internacionalização da economia e da cultura –
são refletidos para as sociedades nacionais, minando as estruturas nacionais e
promovendo as locais” (1997: 132).

Com a globalização, o sentimento de pertencer a uma nacionalidade foi substituído pelo


´fazer parte´ de um pequeno grupo, um grupo local e isso justifica a queda do
totalitarismo do estado-nação, típico da modernidade. Os contextos político, social,
cultural e econômico são hoje influenciados pelos acontecimentos globais, o nacional
perdeu sua credibilidade. “A nação-estado, a encarnação política clássica da
modernidade, acabou, atacada por uma combinação de forças globais e locais”
(Kumar, 1997:162). Não é mais possível o Estado controlar seu povo, qualquer um tem
acesso ao que ocorre no mundo todo: “pense globalmente, aja localmente’, o lema da
década de 1960, aplica-se a um bom número de novos movimentos sociais, sobretudo
aos movimentos feminista e ecológico” (Kumar, 1997:133).

O declínio da hegemonia do Estado e a relação paralela, e ao mesmo tempo antagônica,


de local e global atribuem individualidade ao que na sociedade moderna era visto como
massa. O sentido de local atribui particularidades aos indivíduos e isso ocasiona a
descrença na massificação e o início da desmassificação.

Conseqüência do industrialismo, a massificação na produção dos bens de consumo,


obtida através da divisão de trabalho – que possibilitou a produção em série, conhecida
como fordismo – acarretou a massificação dos demais componentes da sociedade (como
a educação, a comunicação, o conhecimento, a atitude e o comportamento dos
indivíduos) e propiciou a padronização da informação que gerou a alienação das

Agda Dias Baeta 26


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massas. Na nova onda que se espalha pelo globo terrestre tudo se desmassifica. Cada
vez mais o desenvolvimento das novas tecnologias possibilita o atendimento às
particularidades do sujeito, a personalização é possível.

Outra conseqüência ocasionada pela globalização, e pela conseqüente queda do estado-


nação como instituição detentora do poder, é a descentralização e com ela a
desmistificação da hierarquia e do fluxo linear. O controle, um dos princípios
possibilitadores da modernidade, está associado aos conceitos de centralização e
unidade e por esse motivo, a hierarquização foi fundamental durante o período. Não só
as empresas, mas outras instituições como a Igreja, são organizadas através de uma forte
e imutável hierarquia de poder. O fluxo organizado e linear estabelecido pela hierarquia
abrangia também a forma de pensamento, que era dual: a única distinção existente era a
do certo e do errado, a do bem e o mal. Não existe, na modernidade, a múltipla
possibilidade.

Já na pós-modernidade, “há simplesmente um fluxo aleatório, sem direção, que


perpassa todos os setores da sociedade” (Kumar, 1997: 113-4). Isso ocorre porque ao
contrário da modernidade, a pós-modernidade não possui um fluxo linear e organizado
de pensamento: “ela apaga as linhas divisórias entre os diferentes reinos da sociedade
– político, econômico, social e cultural” (Kumar, 1997:113). É a própria manifestação
da diversidade e por esse motivo, muitas vezes, apresenta características conflitantes,
contraditórias. Esse fluxo aleatório a estabelece como fragmentada, é composta de
arranjos que se justapõem de acordo com a situação, apresentando uma pluralidade de
possibilidades. Em definição de Jencks:

“a era pós-moderna é um tempo de opção incessante (...) todas as tradições


aparentemente têm alguma validade. Esse fato é em parte conseqüência do que
se denomina de explosão das informações, o advento do conhecimento
organizado, das comunicações mundiais e da cibernética” (1989:7 apud Kumar,
1997:115).

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1.3.3.2 A Sociedade

Os valores pós-modernos, além do contexto global, afetam também a vida em


sociedade. A pós-modernidade é uma nova maneira de estar no mundo. “Dela falam as
profundas mudanças produzidas no mundo da vida: no trabalho, no casal, na roupa, na
comida, no lazer” (Martín-Barbero, 2003:60). Essa mudança generalizada, muda o
sentido do convívio em sociedade, o estar-junto muda de significado.

Na sociedade na qual a linguagem multimídia impera, vivemos a simulação: “não


importa quem você é ou quem você seja, o que importa é como você se produz para
mostrar quem você é. Você não é o que é, você mostra quem é a partir do momento que
se identifica com alguma roupagem. Você passa a ser o que mostra” (Sousa, 2003: 23).
E essa simulação também afeta o estar-junto social. As pessoas por natureza têm a
necessidade do conjunto, do contato coletivo. Hoje, este estar-junto tem sido
midiatizado: “nos grandes centros, não há mais a experiência do estar-junto coletivo.
Não temos mais o público. Quem faz a ponte do estar-junto coletivo é a mídia, a
televisão, o computador” (Sousa, 2003:22-3). A tecnologia serve de prótese para que os
indivíduos compartilhem experiências e essa prótese tem se tornado o real.

“A revolução da informação é uma realidade e nela estamos. Afetou a maneira


como vemos o mundo e como vivemos nele. O fluxo de imagens e informação
gera, de fato, um senso de ‘hiper-real’ (...). Vivemos na ‘sociedade do
espetáculo’ (...). Nosso mundo saturado de imagens, alimentado de forma
incessante pela mídia eletrônica, muda realmente nossa percepção do que é real
e torna mais difícil do que antes diferenciar imagem de realidade” (Kumar,
1997: 171).

Assim, aprendemos a acreditar no simulacro. O que era apenas uma prótese do real,
passa a compô-lo e a espetacularização substitui a racionalidade: “você passa a ser o
que mostra” (Sousa, 2003). Morrem as grandes utopias pelas quais a sociedade
moderna lutava e em seu lugar entra a performance, que está relacionada ao viver hoje e
não adiar a felicidade para um futuro incerto. Não importa mais a construção de uma
sociedade ideal para vivermos no futuro ou para que nossos filhos usufruam. Não existe
mais a luta contra o governo ditador, nem a luta pela liberdade, igualdade e fraternidade,

Agda Dias Baeta 28


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que nunca foram alcançadas. A sociedade pós-moderna deseja viver o presente, fazer do
hoje o mundo ideal.

Essa preocupação com o presente e não mais com o futuro, como ocorria na
modernidade, está associada principalmente com os problemas ambientais enfrentados
por todo o globo terrestre. Problemas com a camada de ozônio e com o esgotamento de
recursos naturais fazem surgir uma nova consciência coletiva que evidencia o AGORA,
que por vezes parece perto de acabar.

Os problemas com a biosfera e a crise da energia fizeram surgir um indivíduo que deve
ser responsável. O petróleo, o gás e o carvão - que garantiram o crescimento econômico
do industrialismo - são energias não-renováveis e a sua incorreta utilização, durante os
trezentos anos de sobrevivência da segunda onda, tornou evidente seu esgotamento e os
prejuízos causados à biosfera. Isso tem exigido uma nova postura dos cidadãos em
relação ao mundo em que vivem.

O indivíduo deixa de ser apenas uma peça na engrenagem da máquina social e passa a
ter opinião, a exigir seus direitos e respeito. Ele adquire consciência de cidadão e o
consumerismo:

"entendido como um movimento social organizado, próprio da Sociedade de


Consumo - surge como reação à situação de desigualdade entre fornecedores e
consumidores. Considerando as imperfeições do mercado e sua incapacidade de
solucionar, de maneira adequada, uma série de situações como práticas
abusivas, acidentes de consumo, injustiças nos contratos de adesão, publicidade
e informação enganosa etc" (Portilho, 2005:36),

substitui o consumismo da sociedade industrial. Nasce o cidadão-consciente.

Essa consciência também é resultado de uma sociedade mais esclarecida e informada,


que acarretou a constituição de uma nova força de trabalho, formada por profissionais
do conhecimento. Na sociedade da informação, os trabalhadores previsíveis, não-
críticos e intercambiáveis do industrialismo sedem espaço aos críticos, inovadores, que
gostam de assumir riscos e que têm no conhecimento a sua principal força de trabalho.

Agda Dias Baeta 29


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Esses novos trabalhadores não são facilmente intercambiáveis, o que favorece a


individualidade. Eles são altamente especializados, o que torna tanto sua substituição
quanto sua recolocação no mercado mais difícil do que ocorria na modernidade.

“A compactação do espaço e do tempo tornada possível pela nova tecnologia da


informação altera a velocidade e o escopo das decisões, aumentando a
capacidade do sistema de reagir rapidamente a mudanças, mas, ao mesmo
tempo e pela mesma razão, tornando-o mais vulnerável, dada a tendência de
amplificar perturbações relativamente pequenas e transformá-las em grandes
crises (...)” (Kumar, 1997:164).

Além dos avanços tecnológicos que proporcionam uma nova dimensão para o uso e
para a importância do conhecimento no mercado de trabalho, até então dominado pela
linha de produção mecanicista, as relações de trabalho pós-modernas também foram
afetadas pela nova estrutura das relações familiares.

A família moldada pela expansão do industrialismo tornou-se utópica. O núcleo familiar


da modernidade, no qual cada membro tinha função definida – o pai era provedor do
sustento da família, obtido fora de casa, e a mãe responsável pela manutenção do lar e
pelo cuidado de toda a família – já não é predominante na pós-modernidade. “A família
nuclear moderna desintegrou-se, sendo substituída por uma grande diversidade de
arranjos individuais” (Kumar, 1997: 162).

O número de divórcios aumentou, as mulheres ganharam o mercado de trabalho e já não


dependem de seus maridos para sobreviverem. A mudança no indivíduo acarretou a
diversidade nas formas familiares. Conforme exemplificado por Toffler (1980),
encontra-se hoje na sociedade, diferentes composições que nada têm a ver com a família
nuclear da segunda onda:

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Tipo Composição
Solos Famílias de uma pessoa só, os que vivem sozinhos.
Viver juntos Pessoas que moram juntas sem nenhum compromisso civil.
Sem filhos Casais que optam por não ter filhos.
Agregada Dois divorciados com filhos se casam e compõem uma nova família.
Um dos pais Filhos que moram apenas com um dos pais seja por motivo de divórcio, por serem filhos de
mães solteira, filhos tidos fora do casamento ou fruto de adoções por pessoas solteiras.

Quadro 1. Famílias informais já existentes. Fonte: informações obtidas em Toffler (1980).

Esses são poucos exemplos das inúmeras possibilidades que já surgiram em nossa
sociedade. “Essa diversidade da estrutura familiar revela a diversidade que
encontramos na economia e na cultura, enquanto a sociedade de massa da Segunda
Onda se desmassifica” (Toffler, 1997:112) e tem relação direta com as mudanças
ocorridas na relação homem X mulher e com a redefinição do papel de ambos na
sociedade, da qual trataremos posteriormente.

1.3.3.3 O Sujeito

A onda de mudanças pela qual o mundo está passando afeta não só estruturas políticas,
formas de produção e o convívio em sociedade, mas também e, conseqüentemente, o
indivíduo:

“estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais,


abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados (...) As
velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em
declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno,
até aqui visto como um sujeito unificado” (Hall, 2005:9/7).

O sujeito da nova ambiência é “composto não de uma única, mas de várias identidades,
algumas vezes contraditórias ou não resolvidas” (Hall, 2005:12). O dualismo
predominante na Idade Moderna foi substituído pelo pluralismo. Hoje, o sujeito possui
várias identidades, relacionadas às questões de raça, sexo, gênero, posicionamento
político, classe social, entre outras. De acordo com a situação, o sujeito considera mais
ou menos uma de suas identidades para posicionar-se em relação a determinado assunto.
Essas múltiplas identidades, por vezes, podem ser até contraditórias:

Agda Dias Baeta 31


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“O pluralismo, o ‘ismo’ da nossa época, é, ao mesmo tempo, o grande problema


e a grande oportunidade: quando Todo Homem se torna cosmopolita e, Toda
Mulher, um Indivíduo Liberado, a confusão e a ansiedade passam a ser estados
dominantes de espírito (...)” (Jencks, 1989:7 apud Kumar, 1997:115).

“Estamos na época da simultaneidade: estamos na época da justaposição, do perto e


do longe, do lado a lado, do disperso” (Soja, 1989:10 apud Kumar, 1997:157). Não
existe também no indivíduo o fluxo linear, seu pensamento e suas identidades também
são aleatórias, ele é tudo ao mesmo tempo e por vezes tem que optar por uma ou outra
identidade em momentos críticos: “não há mais expectativas de um desenvolvimento
contínuo por toda a vida (...) a biografia pessoal torna-se uma questão de experiências
e identidades descontínuas, e não a história de personalidade em desenvolvimento (...)”
(Kumar, 1997:157).

Segundo Hall, o sujeito pós-moderno não tem uma identidade fixa, essencial ou
permanente. “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada
continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados
nos sistemas culturais que nos rodeiam” (Hall, 2005:13). Isso faz do sujeito pós-
moderno um ser plural e que por ter a nova ambiência como algo definitivamente novo,
entra em crise por não ter mais o seu papel único no mundo. Ele busca entender qual o
seu novo lugar na nova sociedade.

“A assim chamada ‘crise de identidade’ é vista como parte de um processo


mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais
das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos
indivíduos uma ancoragem estável no mundo social” (Hall, 2005:7).

O sujeito unificado, centrado e estável da modernidade construía a sua identidade


através da interação entre o mundo pessoal e público. Hoje, ele encontra-se deslocado.
A onda de mudanças:

Agda Dias Baeta 32


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“está fragmentando as paisagens culturais, de classe, gênero, sexualidade,


etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas
localizações sociais. (...) Esta perda de um ‘sentido de si’ estável é chamada,
algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito” (Hall, 2005: 9).

Como apresenta Hall (2005), o deslocamento - ou a descentração - do sujeito foi


provocado por cinco rupturas18 nos discursos do conhecimento moderno. A análise das
histórias em quadrinhos da Margarida baseia-se no quinto deslocamento do sujeito: o
feminismo. A influência dessa teoria social é nítida no discurso das histórias em
quadrinhos da personagem estudada.

1.3.3.4 A Mulher

A mulher, com certeza, foi quem mais mudou com o início da terceira onda. Com a pós-
modernidade, ela deixou de ser submissa ao marido e foi para fora de casa buscar seu
espaço e seu tempo. O movimento feminista da década de 60, sem dúvida, é um marco
para essas mudanças e conseqüência da nova ordem social que começava a se propagar.

“O feminismo faz parte daquele grupo de ‘novos movimentos sociais’, que


emergiram durante os anos sessenta (o grande marco da modernidade tardia),
juntamente com as revoltas estudantis, os movimentos juvenis contraculturais e
antibelicistas, as lutas pelos direitos civis, os movimento revolucionários do
‘Terceiro Mundo’, os movimentos pela paz e tudo aquilo que está associado com
1968” (Hall, 2005: 44).

18
Segundo Hall (2005), essas cinco rupturas representam avanços na teoria social e nas ciências humanas.
A primeira é a reinterpretação feita na década de 60 do pensamento Marxista, que nega a existência de
uma essência universal de homem tirando-o do centro do sistema teórico. A segunda ruptura vem da
descoberta do inconsciente por Freud: “a teoria de Freud de que nossas identidades, nossa sexualidade e
a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do
inconsciente, que funciona de acordo com um ‘lógica’ muito diferente daquela da Razão, arrasa o
conceito do sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada” (Hall, 2005:36).
O terceiro deslocamento está associado com o trabalho de Saussure, no qual ele conclui que apenas
utilizamos a língua segundo padrões estabelecidos para nos posicionarmos de acordo com propostas pré-
existente. A quarta ruptura ocorre no trabalho de Foucault que conclui que “quanto mais coletiva e
organizada a natureza das instituições da modernidade tardia, maior o isolamento, a vigilância e a
individualização do sujeito individual” (Hall, 2005:43). A quinta ruptura, ou deslocamento, é o
feminismo.

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O movimento feminista, segundo Hall (2005), com o slogan ‘o pessoal é público’,


questionou a distinção entre o ‘privado’ e o ‘público’ e:

“abriu, portanto, para contestação política, arenas inteiramente novas de vida


social: a família, a sexualidade, o trabalho doméstico, a divisão doméstica do
trabalho, o cuidado com as crianças, etc (...) O feminismo questionou a noção
de que os homens e as mulheres eram parte da mesma identidade, a
‘Humanidade’, substituindo-a pela questão da diferença sexual” (Hall, 2005:
45-46).

Com o advento da segunda onda, o trabalho que na sociedade agrícola era realizado por
toda a família foi dividido. Coube ao homem prover o sustento da família através do
desempenho do trabalho que na era industrial passou a ter como foco o mercado
consumidor:

“Enquanto o marido, em geral, saía para fazer o trabalho econômico direto, a


mulher geralmente ficava em casa para fazer o trabalho econômico indireto. O
homem assumia a responsabilidade de forma historicamente mais avançada de
trabalho; a mulher era deixada atrás para tomar conta da forma mais antiga,
mais atrasada de trabalho. Ele avançava, por assim dizer, para o futuro; ela
permanecia no passado” (Toffler, 1980: 57).

A divisão de funções acentuada durante a modernidade, configurou a cisão sexual e os


estereótipos relacionados ao papel do homem e da mulher na sociedade industrial:

“As mulheres preparadas desde o berço para as tarefas da reprodução, da


criação dos filhos e da labuta doméstica, realizada até um grau considerável em
isolamento social, eram ensinadas a serem ‘subjetivas’- e eram freqüentemente
consideradas incapazes para a espécie de pensamento racional, analítico, que
supostamente acompanhava a objetividade” (Toffler, 1980:57).

Através do movimento feminista, esses estereótipos foram questionados e a mulher tem


conquistado ao longo das últimas décadas um novo espaço e um novo papel na
sociedade. A mulher pós-moderna foi à luta pela conquista do mercado de trabalho.

Agda Dias Baeta 34


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Adequada à sociedade da informação, conquistou aos poucos a oportunidade de exercer


todo e qualquer tipo de atividade que até então, só eram exercidas pelos homens. Adiou
a constituição da família, priorizou a carreira profissional ao invés da maternidade.
Impôs-se na relação com o parceiro. Conquistou a independência financeira e isso lhe
propiciou também a independência emocional e psicológica. É a influência das
‘identidades’ da mulher pós-moderna, amplificadas com o movimento feminista que
posicionaremos no discurso das histórias em quadrinhos.

Agda Dias Baeta 35


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1.4 A Personagem Margarida

A primeira aparição de Margarida foi no desenho animado Mr. Duck Steps Out, exibido
em sete de junho de 1940 e em quatro de novembro do mesmo ano, ela chegou aos
quadrinhos pelas mãos de Taliaferro. Nas primeiras tiras em que apareceu, acabara de se
mudar para a casa ao lado da de Donald, que se apaixonou por ela.

Antes de Margarida, uma outra namorada foi atribuída ao Donald. O nome dela era
Donna e apareceu pela primeira vez em nove de janeiro de 1937 no desenho Don
Donald. Depois disso, não figurou mais em nenhum desenho animado, mas tornou-se
personagem regular na tiras de jornal da Disney. Por serem muito parecidas, alguns
acreditam que Donna e Margarida são a mesma personagem. No entanto, em tira
publicada em sete de agosto de 1951, as duas apareceram como rivais pelo amor de
Donald, o que contradiz essa teoria.

No Brasil, a primeira aparição de Margarida ocorreu na revista Seleções Coloridas da


Ebal19 entre os anos de 1946 e 1948. Nos quadrinhos da editora Abril, a personagem
teve sua estréia em outubro de 1950, na história O Garimpeiro, publicada na revista O
Pato Donald número quatro. Na aventura sua participação foi pequena, mas passou a
figurar constantemente na revistas Disney e em 1986, a Abril concedeu-lhe um título
próprio.

Desde sua criação, a Margarida sempre foi diferente das outras personagens femininas
do Walt Disney por possuir uma personalidade forte, como salienta Roberto Elísio dos
Santos em sua tese de doutorado:

“De maneira diferente de outras personagens femininas dos quadrinhos Disney


– à exceção de Vovó Donalda – que são estereotipadas (a dengosa Minie, a
solteirona e fofoqueira Clarabela), a Margarida tem personalidade forte e, com
Donald, é intempestiva e segura de si. Ela pode, dependendo da situação,

19
Editora Brasil América Ltda. “A Ebal foi a maior e mais importante editora de quadrinhos do Brasil,
tendo sido criada em 1945 por Adolfo Aizen”. Foi responsável pela publicação de inúmeros autores
estrangeiros no Brasil, entre eles Walt Disney, através da revista Seleções Coloridas. Fonte:
www.gibindex.com/enciclopedia/br/e/46. Acessado em 17/03/2006.

Agda Dias Baeta 36


Disney Pós-Moderna

mostrar-se feminina, vaidosa, fútil, forte, determinada, consumista, ciumenta,


imprevisível, competente ou ambiciosa” (1998:148).

O quadro a seguir fornece uma visão geral sobre a evolução da personagem:

Déc. Quadrinhista Fase


40 Taliaferro Criação da Personagem
50 Carl Barks Diário da Margarida
60 Histórias mostram uma Margarida feminista
70 Tony Strobl Figura ora como repórter, ora como policial
80/90 Irineu S. Rodrigues/Euclides Miayaura Pós-moderna: revista própria no Brasil de 1986 a 1997

Quadro 2. Evolução da personagem. Fonte: informações obtidas em Santos (1998).

No início, Margarida era apenas coadjuvante das histórias e tiras do seu atrapalhado
namorado Donald. Foi com a criação de Diário da Margarida, na década de 50, por Carl
Barks, que a personagem começou a ter suas próprias histórias. Narradas em primeira
pessoa, eram histórias curtas e cômicas originadas de anotações que Margarida fazia em
seu diário Apesar de sua personalidade forte e de seu humor temperamental, os temas
dessas histórias abrangiam o romance, o ciúme e as atrapalhadas de uma personagem
consumista e fútil. Sua principal ocupação era ser presidente do Clube Feminino de
Patópolis, no qual ela organizava cursos de culinária, eventos beneficentes, sessões de
costura e bordado.

As últimas histórias elaboradas por Carl Barks, na década de 60, marcaram o início da
versão feminista da pata. Ela passou a trabalhar e se destacar pela sua competência e
inteligência. Era secretária do Tio Patinhas e a demonstrava interesse em firmar-se
profissionalmente. Tony Strobl, responsável pela maioria das narrativas na década de
70, seguiu a linha deixada por Carl Barks e apresentou histórias nas quais Margarida
figurava ora como repórter, ora como policial feminino. A inteligência e a competência
da pata continuaram a ser delineadas nas histórias, reforçadas pela preguiça e
incompetência dos primos Donald e Peninha, com os quais Margarida dividia a redação
do jornal.

Agda Dias Baeta 37


Disney Pós-Moderna

Os artistas brasileiros Irineu Soares Rodrigues e Euclides Miayaura20 continuaram e


ampliaram essa versão da personagem. Responsáveis pelo lançamento da revista com
título próprio no Brasil, deixaram a pata, além de feminista, mais feminina:
“desenhavam a personagem com o bico mais curto e vestindo roupas modernas e
refinadas” (Santos, 1998:302). Nenhum ‘modelito’ era repetido nas histórias por eles
criadas.

Isso ocorreu na década de 80, foco desta pesquisa. Foi nessa época que os desenhistas
brasileiros ao lado dos roteiristas Gerson Teixeira e Arthur Faria Junior - apesar de
seguirem a linha já desenvolvida na década de 70, de mulher, ou melhor, pata
inteligente e profissional - adaptaram sua personalidade e seu visual aos novos tempos.
Margarida ganhou um gibi próprio no Brasil e se consolidou como exemplo da mulher
independente.

As histórias escritas pela editora Abril, a partir de 1986 (ano que o gibi da Margarida foi
lançado no Brasil) atualizaram a personagem e lhe acrescentaram uma postura pós-
moderna. A versão brasileira das histórias em quadrinhos da Margarida atribui à
personagem valores diferenciados em relação à personagem retratada em outros países,
principalmente no seu país de origem: os EUA.

Comparativo EUA Brasil


Nome Daisy Duck Margarida
Cidade Duckburg Patópolis
data 04/11/1940 Entre 1946 e 1948
Primeira
aparição

HQ Na tirinha diária do Pato Donald Revista Seleções Coloridas

Ocupação Presidente do Clube Feminino de Patópolis, Várias, a principal é a de


secretária, policial feminina jornalista/repórter/editora do jornal A
Patada e da revista Patinha
Dirigir Normalmente transportada por Donald ou Tem seu próprio carro
Gastão
Personalidade/ Personalidade forte, intempestiva e segura de Eficiente no trabalho, confiante e
temperamento si, feminina, vaidosa, fútil, determinada, destemida, proativa, luta pelos seus
consumista, ciumenta, imprevisível, direitos e ideais, sempre às voltas com
competente, ambiciosa, ativa. problemas profissionais, românticos ou
de interesse da comunidade.

Quadro 3. Margarida no Brasil e nos EUA. Fontes: www.duckburg.com e Santos (1998:302-303).

20
Fonte: Santos (1998:302).

Agda Dias Baeta 38


Disney Pós-Moderna

Nas histórias brasileiras, segundo Santos:

“Ela deixa de ser a fútil representante do sexo feminino, que só tem interesse em
freqüentar a alta sociedade ou de participar de chás beneficentes com suas
amigas e de consumir compulsivamente, e passa a assumir riscos e a enfrentar
perigos, mostra-se mais inteligente e eficiente do que seus colegas de trabalho
(especialmente Donald) e aceita empregos como taxista, repórter televisiva,
professora, gerente de loja de roupas femininas, maquinista de trem, arqueóloga
a até jóquei” (Santos, 1998:303).

Em relação ao trabalho dos quadrinhistas brasileiros, o autor diz:

“Os brasileiros não criaram uma situação falsa ou ideal, mas basearam-se na
constatação de que a mulher, naquele momento, já havia superado diversas
barreiras sociais e morais e estava efetivamente se dedicando a profissões antes
restritas aos homens, ocupando postos mais altos no mercado de trabalho e
qualificando-se mais (por exemplo, em cursos universitários que eram
freqüentados majoritariamente por estudantes do sexo masculino, como
Administração de Empresas e Economia)” (Santos, 1998:303).

Pela cronologia apresentada, podemos perceber que a Disney e principalmente a equipe


brasileira, responsável pelas histórias desenvolvidas na editora Abril, acompanharam a
evolução das mulheres nas últimas décadas, atribuindo à personagem os valores da
mulher pós-moderna.

1.4.1 A Super Pata

A Super Pata foi criada na década de 70 pelos quadrinhistas italianos. Versão feminina
do Super Pato, identidade secreta de Donald. O Super Pato foi originalmente criado para
mostrar o Donald em situações nas quais ele sai vencedor, já que normalmente ele é
retratado como um perdedor. No entanto, ao lançarem a Super Pata, chamada na Itália
de Paperinika (o nome da Margarida lá é Paperina), ela tornou-se a vencedora das
histórias enquanto Donald voltou a ter o seu papel de fracassado. Por causa disso, as
crianças italianas reclamaram e os editores não mais utilizaram a personagem nas

Agda Dias Baeta 39


Disney Pós-Moderna

histórias elaboradas na Itália. Os quadrinhistas brasileiros continuaram a usar


personagem que ganhou histórias próprias nos gibis da Margarida.

“Além de mostrar-se uma profissional eficiente, Margarida continua realizando


atos heróicos usando a identidade secreta de Superpata, que sempre rivaliza com
Superpato na tentativa de convencê-lo de que as mulheres também podem enfrentar
e vencer os vilões. Mas, mesmo quando não está combatendo bandidos com o
uniforme de Superpata, a namorada de Donald acaba vivendo aventuras fantásticas
(da mesma forma que os protagonistas masculinos)” (Santos, 1998:303).

Quando os personagens Margarida e Donald assumem a identidade de super-heróis, a


guerra dos sexos é ainda mais evidenciada. A Superpata e o Superpato competem para
provar quem é o herói mais qualificado e, embora desconheçam suas verdadeiras
identidades, sentem-se atraídos um pelo outro.

1.4.2 O Gibi

Margarida foi a primeira personagem feminina da Disney a ganhar sua própria revista
no Brasil. Isso aconteceu em 1986 e a Margarida segurou-se nas bancas por 11 anos. De
1986 a 1997, totalizou 257 números, além de almanaques e edições especiais. Saiu das
bancas em setembro de 1997, ocasião em que o arrefecimento do mercado de
quadrinhos ocasionou baixa vendagem dos gibis e por esse motivo a Abril resolveu
parar com a produção nacional21.

Em agosto de 2004, a revista voltou a compor a linha de quadrinhos Disney da editora


Abril e durante aproximadamente um ano se manteve novamente nas bancas através da
republicação das histórias criadas nas décadas de 80 e 90. Em 2005, o gibi foi retirado
de circulação novamente.

Das 257 edições publicadas foram destacadas nesta análise 29 histórias para
exemplificação do conteúdo conceitual que compõem o discurso da personagem. As
histórias foram escolhidas por evidenciarem os tópicos analisados e representarem
enfaticamente o tema proposto o que as qualificam como amostragem.
21
Fonte: www.universohq.com/quadrinhos/2004/disney_brasil01.cfm . Acessado em 20/12/2005.

Agda Dias Baeta 40


Segunda Parte
Evidências de uma Margarida Pós-Moderna
Disney Pós-Moderna

2.1 Crise e Pluralismo do Sujeito

No gibi número um, a crise de identidade do sujeito é claramente apresentada na


história de abertura da revista. Em Uma Nova Margarida (B 860008 MG 1/1)22, o
próprio título já indica que algo diferente está para acontecer. Ao parar por engano no
divã de um psicanalista, Margarida percebe que precisa mudar seu posicionamento em
relação ao mundo e a si mesma. Como todo indivíduo que experimenta a nova
ambiência, ela procura o seu pertencimento e o seu papel dentro da sociedade e em
relação às outras pessoas, o que gera uma série de dúvidas e incertezas. Como salienta
Mercer: “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando
algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida
e da incerteza” (1990:43 apud Hall, 2005:9).

Figura 1. Fonte: B 860008 MG 1/1. Descentração do Sujeito: dúvidas e incertezas.

Já que Margarida assumiu um novo posicionamento perante a sociedade que integra,


tende a negar tudo o que era certo antes e ainda não consegue medir o que realmente
deve mudar e o que deve permanecer. Podemos dizer que Margarida perde o ‘sentido de
si’ estável - essa perda, como mencionada no capítulo um, é chamada de deslocamento
ou descentração do sujeito (Hall, 2005).

22
Código de identificação da história em quadrinhos. A primeira letra identifica o país em que foi
produzida (B = Brasil); os dois primeiros números representam o ano de aprovação da história (86 =
1986); os números que seguem o ano identificam a numeração seqüencial de todas as histórias aprovadas
no ano (008 = oitava), MG é o código do gibi (MG = Margarida) e a fração apresentada no final de cada
código identifica a posição da história dentro do gibi (1/1 = revista número 1, primeira história).

Agda Dias Baeta 42


Disney Pós-Moderna

O deslocamento de Margarida enquanto sujeito fica explícito na história quando Donald


tenta lhe fazer uma gentileza e a personagem não sabe ao certo o que significa aceitar
esse cuidado (Figura 1). Ela se mostra confusa em relação ao seu novo papel na
sociedade e em relação a si mesma, é a incompreensão do ‘eu’ que afeta a personagem.
Margarida, que tinha uma personalidade coerente e estável centrada principalmente em
seu relacionamento com Donald, deixa de ser exclusivamente namorada para se
transformar em um sujeito plural, com múltiplas identidades que muitas vezes são
contraditórias (Figura 2). Por viver esse deslocamento, Margarida procura entender-se
em sua nova identidade (Figura 3).

Figura 2. Fonte: B 860008 MG 1/1. Identidades Plurais: emancipada, mas feminina.

Conforme afirma Hall: “o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade
unificada e estável (como se supunha na modernidade), está se tornando fragmentado;
composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias
ou não resolvidas” (2005:12). Isso faz da pluralidade uma característica predominante
na formação do sujeito pós-moderno e essa pluralidade de identidades marca as histórias
em quadrinhos da personagem desenvolvidas no Brasil. Margarida que era apenas a
namorada do Pato Donald, torna-se – além de namorada – mulher emancipada,
profissional, cidadã-consciente, esportista radical e feminista convicta.

A Margarida, fútil e consumista de antigamente, centrava sua identidade na relação com


Donald. Fora esse relacionamento, sua ocupação era o Clube Feminino de Patópolis, no
qual sua futilidade era ainda mais evidenciada. Agora ela se torna mulher independente
e profissional competente. Luta pelos seus ideais feministas sem deixar de ser

Agda Dias Baeta 43


Disney Pós-Moderna

apaixonada por Donald. Como repórter - ora da revista A Patinha, ora do jornal A
Patada - é capaz de escrever matérias sobre assuntos considerados fúteis como moda e
beleza e matérias polêmicas que denunciam a má administração do prefeito de
Patópolis. Sintonizada com tudo que diz respeito ao seu tempo, está sempre disposta a
encarar uma aventura, a desvendar um mistério e a exigir seus direitos quando se sente
injustiçada.

Figura 3. Fonte: B 860008 MG 1/1. A busca do novo ‘sentido de si’,


mesmo que instável.

Agda Dias Baeta 44


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2.2 O Feminismo como Deslocamento do Sujeito

Figura 4. Fonte: MG 7 (1986). Margarida e sua identidade feminista.

Agda Dias Baeta 45


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A análise das histórias em quadrinhos da Margarida está situada no quinto deslocamento


23
nomeado por Hall (2005): o feminismo, que junto com outros movimentos sociais
surgidos no final da década de 60, enfraqueceu as estruturas estáveis da modernidade ao
contestar o papel da mulher na sociedade, em relação à família, à sexualidade, ao
mercado de trabalho, à divisão das tarefas domésticas, à execução de atividades
consideradas tipicamente masculinas, etc.

Figura 5. Fonte: B 870089 MG 44/1. A luta contra a desigualdade de direitos entre homens e
mulheres.

A redefinição da personalidade da Margarida, orientadora do seu novo posicionamento


em relação à sociedade em que vive, é determinada diretamente pelos valores
disseminados pelo feminismo, enquanto teoria social. Esses valores vigoram na
formação do pensamento da personagem e influenciam todas as identidades que a
compõem. A marca do feminismo está presente na maioria das histórias, seja como
tema principal ou secundário, o que nos permite dizer que ser feminista é uma das
próprias identidades da pata. A igualdade de direitos e o preconceito em relação à
mulher são situações freqüentemente abordadas nas histórias em que Margarida é a
protagonista. Além disso, nota-se claramente no discurso da personagem que o
feminismo também influencia o seu novo comportamento no que se refere ao
relacionamento amoroso, à divisão das atividades domésticas e ao mercado de trabalho.

23
A relevância do feminismo em relação aos outros movimentos sociais, como os antibelicistas por
exemplo, está no fato de que ele tomou proporções abrangentes, como descreve Hall: “aquilo que
começou como um movimento dirigido à contestação da posição social das mulheres expandiu-se para
incluir a formação das identidades sexuais e de gênero” (2005:45-46).

Agda Dias Baeta 46


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Mesmo fora das histórias em quadrinhos, a personagem dissemina os ideais feministas


para as leitoras. No gibi de número sete, Margarida após arrumar um emprego de xerife
para provar ao namorado Donald do que as mulheres são capazes de fazer (enredo da
história A Xerifa - B 860083 MG 7/1), desabafa com seu diário. A página do diário
publicada no gibi mostra a identidade feminista da pata e o que ela pensa sobre a antiga
e a nova Margarida (Figura 4).

Bandeira máxima do movimento feminista, a igualdade de direitos entre homens e


mulheres é presença constante no discurso das histórias em quadrinhos da personagem.
Chegou a ser tema principal na revista de número 44, de março de 1988.

Figura 6. Fonte: B 870089 MG 44/1. Igualdade de direitos: bandeira do


movimento feminista.

Em Feminismo em Uba Dhula (B 870089 MG 44/1), Margarida convence Tio Patinhas


a financiar uma viagem a Paris para ela e suas assistentes da revista A Patinha. O
objetivo da viagem é fazer uma matéria sobre moda, culinária e comportamento
feminino. No entanto, o avião é seqüestrado e elas são levadas para Uba Dhula, um país
no oriente médio no qual a mulher não tem o direito nem de dirigir a palavra ao homem
(Figura 5). Margarida indignada com a submissão feminina acaba por polemizar os
costumes locais e através de seu discurso (Figura 6) leva as mulheres de Uba Dhula a
reagirem às imposições masculinas e a revolucionarem o país (Figura 7).

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Figura 7. Fonte: B 870089 MG 44/1. O fim da submissão feminina.

Em praticamente todas as histórias, nos deparamos com situações nas quais Margarida
enfrenta alguma forma de discriminação em relação à mulher, geralmente explícita no
discurso dos personagens masculinos. O preconceito funciona, na constituição das
histórias em quadrinhos, como motivo para que se aborde o feminismo e se fale do
posicionamento da mulher pós-moderna.

Figura 8. Fonte: B 870089 MG 44/1. A mulher pós-moderna reage ao conceito de mulher


disseminado pela modernidade.

Ainda em Feminismo em Uba Dhula, esse preconceito é nítido nas palavras da


Majestade do país, que alega que as mulheres não têm nenhum direito porque são
inferiores aos homens tanto em força física quanto em inteligência. Claro que tal
afirmação não passa impune, a reação das mulheres é imediata (Figura 8). O discurso
das histórias em quadrinhos da Margarida é claro no que se refere à atitude que a mulher
deve tomar frente ao preconceito masculino, elas devem reagir e mostrar porque o
estereótipo construído durante a modernidade está errado. Na seqüência da história, a

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Majestade sofre uma tentativa de assassinato e quem o salva são as mulheres do seu
país, que já influenciadas pelo feminismo de Margarida, passam a ter atitude e a lutar
pelo que consideram correto. Margarida não perde a oportunidade de mostrar-lhe que as
mulheres não são em hipótese alguma inferiores aos homens (Figura 9).

Figura 9. Fonte: B 870089 MG 44/1. Pluralidade de identidades que se justapõem.

É interessante identificar nessa passagem da história, a já citada característica plural do


sujeito pós-moderno. Percebemos que mesmo no momento em que a identidade
feminista está aclamada, como na discussão com a Majestade, as mulheres pós-
modernas conciliam essa identidade com outra: a do sentido de justiça. As mulheres de
Uba Dhula não permitem que ele seja assassinado, o que mostra que mesmo sendo
contrárias às opiniões dele no que concerne ao papel da mulher na sociedade, elas
também não permitiriam que ele fosse morto pela rivalidade política existente no reino.
Em cada momento, uma das identidades fala mais alto, o que no todo constitui a mulher
dessa nova era.

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2.3 O Relacionamento Amoroso, o Casamento e a Maternidade

Com exceção do seu relacionamento com Donald, que muitas vezes coloca a Margarida
em contradição e do qual falaremos posteriormente, a personagem tem um
posicionamento muito claro sobre como uma mulher deve se comportar em relação ao
parceiro. Deslocada do padrão moderno de família nuclear, no qual o homem comanda
a relação e provém seu sustento, a nova Margarida deixa claro que a mulher deve tomar
a atitude no relacionamento e não deve se deixar ser subjugada pelo sexo oposto.

Em Paixão das Cavernas (B 860186 MG 23/1), o comportamento da mulher pós-


moderna em relação ao relacionamento amoroso é evidenciado. A alegoria do homem
das cavernas utilizada como representação do homem da modernidade, dá o contra-
ponto à liberação da mulher pós-moderna em relação ao parceiro. A mulher da nova
ambiência, influenciada pelas conquistas obtidas com o feminismo, entre elas a
conquista do mercado de trabalho, não é mais submissa ao homem também no
relacionamento e por isso é capaz de tomar a iniciativa quando necessário. Na história, o
Professor Pardal precisa de um assistente que aceite ir - através de uma máquina do
tempo - até a época dos homens das cavernas, ajudá-lo a fazer uma pesquisa. Diante do
medo de Donald e sempre com o intuito de provar que a mulher é capaz de fazer
qualquer coisa que o homem faz, Margarida embarca nesta viagem.

Figura 10. Fonte: B 860186 MG 32/1. A mulher pós-moderna toma a iniciativa no


relacionamento amoroso.

Na aventura, um homem, ou melhor, um pato das cavernas se apaixona por Margarida e


tenta lhe dar uma pancada na cabeça após tê-la apresentado para a família. Pardal
explica que é dessa maneira que os patos das cavernas conquistam as namoradas. Após

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as confusões com Donald que se sente enciumado, o pato das cavernas entende que o
coração de Margarida já tem dono e vai embora desconsolado. Margarida percebe que
tem uma patinha das cavernas que é apaixonada por ele e a ensina a ter iniciativa no
relacionamento (Figura 10).

Figura 11. Fonte: B 870012 MG 31/3. Mais racional que a mulher moderna, a pós-moderna tem
o amor-próprio como prioridade.

Outra história que tem como tema central o relacionamento amoroso é Meu Gênio (B
870012 MG 31/3), na qual Ermengarda, namorada do Professor Pardal, está infeliz
porque o namorado não tem tempo para ela. Ao consultar uma cartomante, ela descobre
que Pardal tem uma garota na cabeça. Morta de ciúme, quer destruir o laboratório no
qual o namorado trabalha, mas Margarida a impede alegando que esse não é um
comportamento adequado. A mulher pós-moderna tem que reconquistar o namorado
através de outras armas e não se expor a uma cena de ciúme que a deixará em situação
de inferioridade (Figura 11 e 12).

Figura 12. Fonte: B 870012 MG 31/3. Iniciativa e amor-próprio: a mulher pós-moderna luta
pelo relacionamento sem se humilhar.

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Em Machão, Não! (B 860151 MG 15/1), sempre em contra-ponto com o feminismo de


Margarida, temos o machismo exacerbado de Donald. Esse contraste entre os dois é
fundamental para a abordagem da ‘guerra’ dos sexos nas histórias em quadrinhos da
personagem e para a exaltação da liberdade e independência feminina como fator
relevante na sociedade contemporânea. Nessa ‘guerra’, o fator ciúme sempre entra em
voga porque a disputa de espaço entre homem e mulher envolve o sentimento de
domínio e poder em relação ao parceiro. O sentimento de posse, que não é
exclusivamente feminino, sempre foi mascarado no mundo masculino pelo poder do
dinheiro. A sociedade na qual a mulher dependia do marido para se manter dava ao
homem uma condição cômoda por ter sempre a esposa sob os seus cuidados. A partir do
momento que ela passou a ter uma vida pública e saiu do enclausuramento da vida
privada em família, o homem passou a externalizar o seu sentimento de ciúme.

Figura 13. Fonte: B 860151 MG 15/1. Independência financeira e emocional.

No número 15, a pata além do seu trabalho de jornalista, atua como manequim e
aparece de biquíni em uma revista. As fotos causam a revolta do namorado que se sente
ridicularizado com a situação. A reação dele – como a de qualquer homem moderno –
não poderia ser diferente, resultou na proibição. Proibir a esposa ou namorada, de fazer
algo é a primeira reação do homem que um dia teve o controle da situação em suas
mãos. Como uma boa mulher da terceira onda, que deixou de ser dependente
financeiramente e conseqüentemente isso contribuiu para a sua independência afetiva
também, prefere perder o companheiro (Figura 13) do que ser subjugada como nas eras
anteriores. O discurso da independência dos sentimentos resultou em uma geração
caracterizada por casamentos tardios, na qual as mulheres priorizam a carreira ao invés
da constituição de uma família.

Agda Dias Baeta 52


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Assim, em suas histórias, Margarida deixa claro que a mulher da nova ambiência tem
um comportamento no relacionamento amoroso diferente do comportamento da mulher
moderna. Ela não é mais submissa e não tem o relacionamento como centro de sua vida.
O casamento é apresentado com tom pejorativo e como sinônimo de uma vida
monótona. Em A Bucaneira (B 870044 MG 41/1), Margarida conta a Donald a história
de uma pata-pirata que viveu em tempos passados e com quem o rei queria se casar. Ela
reage ao pedido de casamento como se isso representasse a prisão perpétua. Para ela,
casar significa cuidar do marido e da casa (no caso, castelo) para o resto dos seus dias e
isso não é o ideal de uma vida feliz, como seria para as mulheres da família nuclear
(Figura 14).

Figura 14. Fonte: B 870044 MG 41/1. Casamento é sinônimo de


monotonia e afazeres domésticos.

O tema é tratado também em No Castelo de Drácula (B 860194 MG 22/1). Margarida


com o carro quebrado em uma estrada chuvosa é socorrida pelo Conde Drácula que quer
se casar com ela. A figura do vampiro na história representa o homem moderno que na
visão feminista ‘suga o sangue’ de sua esposa por tratá-la como objeto e não valorizar o
cuidado que ela tem com a família e com os afazeres doméstico, atividades consideradas
sem valor pelo sistema econômico industrial. Ao questioná-lo sobre o motivo pelo qual
ele quer que ela se case com ele e fique para sempre no castelo, a resposta é imediata:
ele precisa de alguém para cuidar da casa e passar a sua roupa (Figura 15).

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Figura 15. Fonte: B 860194 MG 22/1. O Figura 16. Fonte: B 860206 MG 25/1. A
vampiro como alegoria do homem moderno. maternidade assusta a mulher pós-moderna.

Em Babau 1990 (B 860206 MG 25/1), Margarida demonstra o seu posicionamento em


relação à maternidade. Ao perceber que deixaram um bebê em sua porta, a personagem
se apavora com a situação (Figura 16). Por ter ingressado no mercado de trabalho e
investido no desenvolvimento de uma carreira, a mulher pós-moderna deixou para
segundo plano a constituição de uma família e adiou a maternidade. Acostumada com a
sua vida independente de mulher solteira que mora sozinha, a personagem se assusta ao
ter que cuidar de uma criança. No entanto, não contrariando o instinto materno que a
natureza biológica provê à mulher, logo ela se afeiçoa ao bebê, mesmo percebendo que
ele é um robô (Figura 17).

Figura 17. Fonte: B 860206 MG 25/1. E a


encanta também.

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2.4 Tarefas Domésticas

Figura 18. Fonte: B 860137 MG 12/1. A modernidade não


valoriza os afazeres domésticos.

O trabalho doméstico tornou-se responsabilidade exclusivamente feminina com a


sociedade industrial. A migração do homem do campo para a cidade fez com que as
mulheres deixassem de ajudar seus maridos no trato da terra e passassem a ser
responsáveis pelo cuidado da casa e dos filhos (Figura 18), enquanto seus esposos
ganhavam o sustento nas fábricas. Durante a modernidade, as mulheres reclamaram que
o trabalho doméstico não era valorizado pelo marido e pela sociedade (Figura 19). As
mulheres da terceira onda foram atrás de novos horizontes.

Figura 19. Fonte: B 860137 MG 12/1. Divisão de funções estipulada pelo modernismo: homem no
mercado de trabalho e mulheres restritas aos afazeres domésticos.

Agda Dias Baeta 55


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Hoje podemos falar da ´terceirização dos afazeres domésticos´, definido pela jornalista
Luciana Mello, como: “maravilhoso fenômeno da contemporaneidade feminina”24 que
possibilitou às mulheres da nova ambiência, descobrirem que há vida fora de casa. A
exaltação da vida pública em lugar da vida privada – do trabalho profissional ao invés
dos afazeres domésticos – é constantemente encontrada nas publicações da pata
Margarida.

Figura 20. Fonte: B 860137 MG 12/1. Mesmo quando ‘terceirizado’, o trabalho doméstico é
realizado por mulheres.

A questão da responsabilidade pela execução das atividades doméstica até hoje perdura
em nossa sociedade. Mesmo com a conquista do mercado de trabalho obtida pelas
mulheres, serviço doméstico ainda é responsabilidade feminina. Quando remunera
alguém para fazer o trabalho, a mulher é a responsável por providenciar a contratação e
orientar as empregadas, que em sua totalidade são mulheres.

Segundo dados do IBGE, o serviço doméstico que em 1992 ocupava o quinto lugar
entre as principais profissões das mulheres, em 2001 tornou-se o segundo tipo de
trabalho. Em 1992, havia 3,6 milhões de mulheres empregadas em serviço doméstico.
Em 2001, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) identificou 5,3
milhões na mesma situação. Ou seja, houve um aumento de 47%.25 Assim, mesmo que a
mulher tenha terceirizado esse serviço, ele continua sendo atribuição feminina, como

24
Luciana Mello escreveu sobre este assunto para o site www.releituras.com em artigo chamado Julieta
pós-moderna. Acessado em 15/11/2005.
25
Fonte: www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u67680.shtml . Acessado em 13/12/2005.

Agda Dias Baeta 56


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retratam Donald (vestido de princesa) e o cavaleiro mau (Figuras 20 e 21) na história


Nos tempos das cavaleiras andantes (B 860137 MG 12/1).

Figura 21. Fonte: B 870065 MG 34/1. Cozinha é lugar


de mulher para o homem da modernidade.

O tema é recorrente em O Cilindro Mágico (B 870065 MG 34/1), história na qual


Margarida recebe a visita da amiga Clarabela e do namorado. A polêmica surge porque
a pata pede para Donald preparar os sanduíches e ele reage indignado com o fato de ter
que ir para a cozinha (Figura 22), afinal para o homem da modernidade, isso é tarefa de
mulher. Após muito relutar, Donald concorda em atender o pedido da namorada. Mas
quando Clarabela e o namorado chegam, a polêmica é retomada. Carlão ridiculariza o
pato por estar na cozinha. O fato de Donald vestir um avental vira piada para o
tradicional Carlão, que vê o trabalho doméstico e tudo o que se refere a ele, como objeto
de uso feminino (Figura 23).

Figura 22. Fonte: B 860137 MG 12/1. Ainda Figura 23. Fonte: B 870065 MG 34/1. Avental:
hoje, associa-se a atividade doméstica ao sexo objeto feminino, por quê?
feminino.

Agda Dias Baeta 57


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2.5 O Fim do Sexo Frágil

A mulher ao tornar-se independente sofre, além de muitos preconceitos, os perigos

relacionados à antiga visão estereotipada que a sociedade tem dela: frágil e indefesa. Em
suas histórias, Margarida dissemina a idéia de que a mulher tem que saber se defender
sozinha de qualquer tipo de perigo.

Figura 24. Fonte: B 860187 MG 20/1. A mulher pós-moderna é criticada pela mulher da
modernidade.

A mulher pós-moderna, por estar fragmentada em diversas funções e posições na


sociedade – mãe, profissional, cidadã, esposa, filha, etc – entra cada dia mais em
contato com a violência do mundo público. E para poder se manter ilesa, na maioria das
vezes, precisa se defender sem a ajuda masculina. O assunto é tema da história
Defenda-se! (B 860187 MG 20/1), na qual Margarida enfrenta um dos irmãos Metralha
através de um golpe de jiu-jitsu.

Figura 25. Fonte: B 860187 MG 20/1. Moderna X Pós-


Moderna.

Agda Dias Baeta 58


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A discussão entra em debate quando sua amiga Clara de Ovos a critica pela atitude,
alegando que não é feminino saber lutar para se defender (Figura 24). Seu conselho é
um só: gritar! (Figura 25). Está em pauta a mulher moderna versus a mulher pós-
moderna e a história deixa claro que é a mulher da nova ambiência que está correta.
Após armar um ‘berreiro’ com direito a megafone, Margarida causa um tumulto tão
grande Patópolis, que faz o prefeito incentivar as mulheres da cidade a freqüentarem
cursos de defesa pessoal.

Agda Dias Baeta 59


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2.6 Feminista, sem deixar de ser feminina

O discurso das histórias em quadrinhos da Margarida dissemina que a mulher feminista


não precisa perder a sua feminilidade, o que coincide com a visão que a mulher pós-
moderna tem de si. O feminismo extremista do início do movimento, no qual as
mulheres queimaram os sutiãs como forma de protesto, não condiz com o ideal
perseguido pelas mulheres contemporâneas. As mulheres da nova ambiência querem
seus direitos garantidos sem que para isso precisem se sentir masculinizadas. Nas
histórias, a idéia de emancipação da mulher é acompanhada pela importância de estar
sempre ‘produzida’: bem vestida, maquiada e penteada. A beleza é fundamental para a
mulher pós-moderna, a mulher da sociedade da imagem.

Figura 26. Fonte: B 870089 MG 44/1. A estética é fundamental para a


mulher da terceira onda.

Reflexo da mulher pós-moderna, que vive em uma época marcada pela influência e
importância da imagem, Margarida, além de fazer questão de ter seus direitos
garantidos, está sempre bela. Assim, a estética mesmo não sendo mais a única
preocupação da pata - que agora tem assuntos mais importantes para pensar - continua a
influenciar sua vida. Em muitos momentos, a estética transforma-se em oportunidade
para a personagem, que se tornou editora da revista A Patinha, devido ao seu interesse
por ‘assuntos femininos’ relacionados à beleza e moda.

Agda Dias Baeta 60


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Margarida nunca deixa a vaidade de lado. A relação da personagem com a estética e a


moda é constantemente abordada nas histórias. O cuidado com o visual é sempre
demonstrado no discurso da pata, mesmo quando se encontra em condições adversas
como na história Feminismo em Uba Dhula. Na aventura, além de incentivar as
mulheres do país a exigirem seus direitos, Margarida as ensina a usar maquiagem,
reafirmando que a beleza é fundamental para a mulher (Figura 26).

Figura 27. Fonte: B 870011 MG 30/10. O outro nos percebe pelo que mostramos ser.

Em A Guerra das Amazonas (B 870011 MG 30/10), as selvagens habitantes de uma


floresta são transformadas por Margarida em mulheres bonitas e atraentes, repercutindo
que além de saber o que querem para as suas vidas, as mulheres pós-modernas também
devem cuidar da aparência e a utilizarem a seu favor. É o que acontece na história, após
inúmeros conflitos, os garimpeiros ficam encantados ao verem como elas ficaram
bonitas (Figuras 27 e 28).

Figura 28. Fonte: B 870011 MG 30/10. A beleza funciona como cartão de visita no universo
profissional.

Agda Dias Baeta 61


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Desde a edição três, Margarida convida as leitoras a enviarem sugestões de moda


porque pretende mudar o visual. Os modelos desenhados foram sendo publicados no
espaço reservado para o bate-papo com as leitoras. Foi desta maneira, através de
assuntos considerados femininos durante a modernidade, que a personagem cativou as
crianças e pré-adolescentes da década de 80 no Brasil e passou a fazer parte da vida
delas, disseminando a nova formação de mulher que já havia se desencadeado nos
países desenvolvidos e que dava os primeiros passos no Brasil. A estética, tão
valorizada no mundo da imagem, abriu as portas para uma geração de novas futuras
mulheres independentes, conhecedoras de seus direitos e capazes de lutarem por seus
ideais.

Figura 29. Fonte: B 870011 MG 30/10. Sátira da associação (moderna) feita entre mulher e
delicadeza.

Outra referência à preservação do feminino é feita através do uso dos termos: toque’ e
‘jeitinho’ feminino (Figura 29). Nas histórias eles representam uma maneira especial,
que só as mulheres conhecem, de fazer as coisas. Em algumas situações podem até ter
um significado peculiar que remete à iniciativa e a luta pelos seus direitos que a mulher
pós-moderna tem como foco (Figura 30). É a justaposição do feminismo com o
feminino, que ocorre no pluralismo de identidades do sujeito. Essas identidades por
vezes se confundem.

Essa relação entre ‘jeitinho’ feminino e o próprio feminismo também é uma evidência
de que até o conceito do que é feminino mudou. Hoje, tudo pode ser feminino porque
não há, ou não deveria haver, mais a diferença entre homem e mulher. É o que
demonstra a história A Guerra das Amazonas, o jeitinho feminino das amazonas é usar a
força física, mostrando que elas não são o sexo frágil como pressupõem os homens

Agda Dias Baeta 62


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(Figura 31). O feminino hoje não está mais apenas relacionado ao delicado, subjetivo e
sensível – como proposto pelo estereótipo moderno de mulher. Se a mulher mudou, o
conceito de feminino seguiu o mesmo caminho. Na pós-modernidade, ele está
relacionado também à determinação, competência e eficácia, entre as inúmeras
qualidades que compõem a mulher dessa nova era.

Figura 30. Fonte: B 870011 MG 30/10. O Figura 31. Fonte: B 870011 MG 30/10. O
jeitinho feminino ganha novo significado na jeitinho feminino pós-moderno não é
pós-modernidade. necessariamente dócil.

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2.7 Simulacro

Figura 32. Fonte: B 860061 MG 6/1. Busca do novo: a moda é mudar.

A importância do visual faz parte do processo de transformação da Margarida. Na


revista número seis ela decide trocar o ‘guarda-roupa’. O traje cor-de-rosa de mangas
bufantes é definitivamente substituído por uma variedade de modelos diferentes e
arrojados. Na história, intitulada A Moda é Mudar (B 860061 MG 6/1), Tio Patinhas
aceita a proposta de Margarida de implantar um suplemento feminino no jornal A
Patada. Ao pesquisar as tendências da estação, Margarida percebe que se veste fora da
moda e resolve que a nova Margarida deve ter também um novo visual (Figura 32).

Figura 33. Fonte: B 860061 MG 6/1. Você é o que mostra.

Agda Dias Baeta 64


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A partir de então, como uma boa mulher, não repetiu um só modelo em suas aventuras
publicadas quinzenalmente. O velho visual rosa e preto, com laço e sapatos azuis,
continuou vigorando apenas nas histórias secundárias da revista, compostas em sua
maioria, de republicações americanas, principalmente da época de Diário da
Margarida. Superado o impacto inicial causado pela crise de identidade, Margarida
sentiu a necessidade de externalizar a sua mudança. Afinal, na pós-modernidade a
performance é o que concretiza o ‘viver’ do indivíduo (Figura 33). Para que os outros
enxerguem a Margarida da maneira que ela deseja, ela se ´veste` para isso. Ela simula
aquilo que ela quer ser através da composição do seu visual.

Outra evidência do uso da moda para demonstração do que se é, ou do que se deseja ser,
ocorre na história Ah, Os Velhos Tempos... (B 870157 AMG 1/1). Ao vestir o velho
traje para agradar Donald, a personagem tem medo que as amigas a vejam e pensem que
ela voltou a ser a antiga Margarida (Figura 34). Essa passagem da história demonstra
bem a importância da aparência como simulação na nova ambiência.

Figura 34. Fonte: B 870157 AMG 1/1. O hábito faz o monge.

O simulacro também é tema abordado na revista de número 143, na história Beleza


Tecnológica (B 910159 MG 143/1). Margarida após conseguir que Pardal faça uma
máquina que a livre da demora na sala de espera dos salões de beleza, sente falta do
‘estar-junto’ social. Ela não tem mais a companhia das parceiras de salão. O enredo
abrange o sentimento de perda do convívio desencadeada pela revolução tecnológica,
assim como o papel do simulacro para satisfação do mundo real. A solução para a
solidão e monotonia que Margarida sente ao utilizar a máquina embelezadora foi

Agda Dias Baeta 65


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solucionada com adequação do aparelho para duas pessoas, assim o estar-junto fica
garantido e com a ambientalização do espaço com gravação de conversas de salão,
temos o simulacro do salão de beleza (Figura 35). Por compartilhar o momento com
alguém e no ´clima´ do real, não necessariamente a personagem precisa viver o real,
basta viver algo que o imite.

Figura 35. Fonte: B 910159 MG 143/1. O real simulado.

Agda Dias Baeta 66


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2.8 Profissional do Conhecimento

Editora de A Patinha e repórter de A Patada, publicações pertencentes ao Tio Patinhas,


Margarida tem na escolha de sua profissão o símbolo maior da pós-modernidade,
também chamada de sociedade da informação. Como já foi dito anteriormente, o motor
propulsor da terceira onda é a informação, vivemos a era da economia cerebral. Já não é
mais o solo, como na sociedade agrária, ou a manufatura, como na sociedade industrial,
os propulsores da riqueza. Hoje, o maior bem é o conhecimento/ a informação e
nenhuma profissão poderia representar melhor a caracterização pós-moderna da
personagem, já que o jornalista trabalha exatamente com essa matéria-prima.

Margarida além de seus empregos fixos na revista feminina A Patinha e em A Patada,


diário de Patópolis, também já atuou em outros campos da Comunicação. Em
Margarida Mulher (B 850149 MG 5/4), ela apresenta um programa vespertino para
mulheres. Em O Chou da Margarida (B 870015 MG 27/1), trabalha como
apresentadora de programa infantil e em A Mulher-Âncora (B 870116 MG 40/1),
assume o Jornal das Oito de Patópolis.

Como sujeito plural, desenvolve múltiplas atividades e em muitas aventuras abandona


temporariamente a redação para desempenhar outras funções. Em algumas delas o fator
conhecimento também é evidenciado, como na história A Caverna das Sereias (B
870085 MG 36/1) na qual ela é especialista no estudo de lendas, ou em A Guerra das
Amazonas, na qual exerce a função de especialista em assuntos femininos do
departamento do Estado. Ambas as atividades, pressupõem conhecimento específico,
configurando o trabalhador da pós-modernidade: especializado e de difícil substituição.

Agda Dias Baeta 67


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2.9 A Conquista do Mercado de Trabalho

Um problema da sociedade da nova ambiência denunciado pela personagem é a


diferença de remuneração entre homens e mulheres. Na já citada história A Mulher-
Âncora, Margarida viveu a experiência de apresentar o Jornal das Oito, principal
noticiário da TV Patinhas. Como sempre, a proposta parte dela porque a Margarida da
sociedade da informação tem atitude e é proativa. Também como é de se esperar, a
reação dos homens, ou melhor, dos patos foi a de sempre (Figura 36). Nada que – como
no mundo real – a mulher não contorne aceitando uma proposta de salário menor, para
poder provar que também é capaz (Figura 37).

Figura 36. Fonte: B 870116 MG 40/1. Figura 37. Fonte: B 870116 MG 40/1.
Discriminação no mercado de trabalho. Salários mais baixos que dos homens: o
problema permanece.

E já que estamos falando de profissão, a procura de Margarida por um emprego


começou no número quatro de seu gibi. Ela foi até o Tio Patinhas pedir uma
oportunidade e a primeira reação dele? Adivinhem! Todos os empregos são para
homens! Como não poderia deixar de ser, Margarida ficou indignada com a resposta

Figura 38. Fonte: B 860057 MG 4/1. Guerra dos sexos no ambiente de trabalho.

Agda Dias Baeta 68


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(Figura 38) e nesse dia começou a provar para a sociedade machista de Patópolis que
ela pode realizar qualquer trabalho muito melhor do que qualquer homem (Figura 39).

Figura 39. B 860057 MG 4/1. Mulher tem que provar sua


competência a todo instante.

A partir de então, não recusou nem temeu nenhum tipo de tarefa. Por isso devemos
destacar aqui as outras atuações profissionais de Margarida, que como mencionado
anteriormente, são esporádicas, vigorando em uma história apenas, e sempre
demonstrando que a mulher é capaz de exercer qualquer atividade que um homem
realize.

Depois do seu emprego, em Pra Mau Pagador, Ótima Cobradora (B 860057 MG 4/1) –
no qual ela foi responsável em fazer todas as pessoas, que deviam para o Tio Patinhas,
pagarem suas dívidas – Margarida já apareceu nas mais diferentes situações como, por
exemplo, na revista de número 14, na qual ela se tornou uma espiã; ou na de número 21,
na qual ela se transformou em atriz de cinema. Em Trabalho Para Machão... Onde? (B
870014 MG 29/1), assumiu o posto de guarda-florestal e na edição especial de
aniversário 28-A, trocou de lugar com o prefeito por uma semana, colocando ordem em
Patópolis. Além disso, já exerceu a função de xerife, arqueóloga, taxista, caminhoneira,
entre outras.

Agda Dias Baeta 69


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Além da diferença salarial, a mulher pós-moderna também sofre com a discriminação e


o machismo existente no mercado de trabalho. Inúmeras situações colocam Margarida
tendo que provar que no campo profissional é capaz de realizar qualquer trabalho que na
era moderna era atribuído apenas aos homens. Em Paixão das Cavernas, o Professor
Pardal tenta convencer Donald a ser seu assistente em uma viagem no tempo. Donald
não quer ir e sugere que Margarida vá em seu lugar, imediatamente Pardal diz que
atividade não é trabalho para mulher e isso atinge o ego de Margarida (Figura 40) que
reage ao comentário.

Figura 40. Ponto-fraco: ser tratada com Figura 41. Fonte: B 870009 MG 28/1.
uma mulher moderna Apesar da resistência masculina.

Na história Com Quantas Arrobas se Faz um Boi (B 870009 MG 28/1), Donald recusa-
se a ser capataz da fazenda de Tio Patinhas e Margarida, sempre em busca de novidade,
se oferece para ocupar o cargo. A reação de Tio Patinhas é imediata: capataz não pode
ser mulher. Mas como acontece na maioria das histórias, mesmo não concordando com
o discurso da pata sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres (Figura 41),
aceita a proposta de Margarida por não ter alternativa.

Figura 42. Fonte: B 870014 MG 29/1. ...toda profissão é permitida para a mulher pós-moderna.

Agda Dias Baeta 70


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Em Trabalho pra Machão... Onde?, a situação se repete. Cansada da rotina da redação


(busca do novo), Margarida resolve ocupar o posto de guarda-florestal e como de
costume enfrenta o preconceito de uma mentalidade ainda voltada para os parâmetros
estabelecidos na modernidade (Figura 42). O objetivo de Margarida é sempre o mesmo,
provar que as mulheres são capazes de realizar qualquer atividade que um homem
realiza e quebrar os paradigmas impostos pelo pensamento conservador da
modernidade. Isso fica claro na passagem em que ao insistir para ocupar a vaga de
guarda-florestal, Margarida é questionada a respeito do motivo pelo qual deseja o cargo
(Figura 43). Nessa passagem, Margarida demonstra também mais uma característica da
pós-modernidade, o pertencimento a uma tribo. Ela busca as melhorias para um grupo
de pessoas, que no caso são as mulheres (Figura 44).

Figura 43. Fonte: B 870014 MG 29/1. Figura 44. Fonte: B 870014 MG 29/1. A
Causa feminista. importância do grupo.

O preconceito enfrentado pelas mulheres que resolveram encarar o mercado de trabalho


não se limita apenas à reação dos homens em perderem espaço para as mulheres. Outras
mulheres também reagem mal a uma mulher bonita que tem uma carreira de sucesso.
Para se livrar de preconceitos deste tipo, Margarida na história A Mulher-Âncora
mostrou que obtém o sucesso através da sua competência - e não por ser jovem e bonita
- ao aparecer no Jornal das Oito de bobes, roupão e creme no rosto (Figuras 45 e 46).

Devido às múltiplas tarefas assumidas pela mulher pluralista da pós-modernidade, a


falta de tempo tornou-se um problema. As histórias Problemas de Beleza (B 870035
MG 33/1) e Beleza Tecnológica retratam a situação da mulher que trabalha fora e tem
dificuldade em arrumar tempo para ficar bonita, devido à correria cotidiana. A nova
mulher, que se divide entre a vida profissional, amorosa, doméstica, social e ainda

Agda Dias Baeta 71


Disney Pós-Moderna

assim, tem que cuidar da aparência, é o assunto em pauta na história. O discurso, como
sempre, em nenhum momento critica essa identidade plural do sujeito e pelo contrário
apresenta uma condição de superioridade feminina, devido ao fato da mulher conseguir
dar conta de todas as suas atribuições.

Figura 45. Fonte: B 870116 MG 40/1. Figura 46. Fonte: B 870116 MG 40/1. Ousadia
Competência profissional. e espetacularização

A história Problemas de Beleza (B 870035 MG 33/1) trata da importância da aparência


e da falta de tempo da mulher pós-moderna, que trabalha fora e precisa estar sempre
bem-arrumada. O desenrolar dos quadrinhos mostra a mulher da terceira onda, que
trabalha fora, tem inúmeros compromissos agendados e por este motivo acaba tendo
problemas com a falta de tempo para cuidar da aparência (Figura 47).

Figura 47. Fonte: B 870035 MG 33/1. Falta de tempo na pós-modernidade.

Chamada para uma reunião urgente, Margarida acaba saindo do salão de beleza sem
terminar de se arrumar - com bobes na cabeça - e por esse motivo causa transtornos na

Agda Dias Baeta 72


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cidade. Todos se assustam com a sua aparência. O discurso da história mostra a rotina
da mulher pós-moderna que tem dupla e às vezes, tripla jornada de trabalho (Figura 48).

Figura 48. Fonte: B 870035 MG 33/1. A múltipla jornada de trabalho.

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2.10 Cidadã - consciente

Em sua identidade de cidadã, Margarida como sempre é proativa. Não deixa passar um
abuso de preço ou um ataque contra a natureza. Ela dissemina o padrão consumerista
marcante na pós-modernidade. Pensa no seu bem-estar e no da comunidade e quer seus
direitos respeitados. O lado consumerista de Margarida é mostrado na revista de número
cinco em Os Preços e a Fama (B 860049 MG 5/1). Na história, ela é o pivô de uma
grande confusão em um supermercado, devido ao abuso de preços (Figura 49).

Figura 49. Fonte: B 860049 MG 5/1. Do consumismo ao consumerismo.

Termo que indica um movimento que se contrapõem ao consumismo difundido durante


a modernidade, o consumerismo tem como base a responsabilidade social das
organizações, o respeito ao consumidor, o desenvolvimento da cidadania organizacional
e a ética. Tudo isso compõem a personalidade de Margarida a partir da década de 80.
Como sujeito pós-moderno, ela não suporta ser lesada. Exige respeito e briga por ele!
(Figura 50).

Figura 50. Fonte: B 860049 MG 5/1. Figura 51. Fonte: B 870028 MG


Reivindica seus interesses. 28A/1. Ética política.

Agda Dias Baeta 74


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Mostrando que as mulheres fúteis do passado não estão mais em voga, na revista de
número 28-A - edição especial de aniversário - Margarida em Prefeita Perfeita (B
870028 MG 28A/1) trata de assuntos de interesse da população e denuncia a má
administração do prefeito de Patópolis (Figura 51). Isso mostra que a mulher pós-
moderna, além de falar de beleza, também está interessada em assuntos de outras
naturezas, como político, econômico e cultural.

Figura 52. Fonte: B 870085 MG 36/1. Preocupação com o ecossistema.

Na história A Caverna das Sereias, Margarida é convidada para participar de uma


expedição que estudará sereias encontradas no meio do Atlântico. Seguindo seu padrão
ético de comportamento, Margarida avisa que só participa se a expedição não tiver o
interesse de atrapalhar a vida das sereias (Figura 52). Ela é contra a destruição ou
interferência no ecossistema. Após ser enganada pelo patrocinador da expedição que
estava interessado em capturar e comercializar as sereias, ela se une aos seres lendários
para dar uma lição na tripulação.

Agda Dias Baeta 75


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2.11 Identidades Contraditórias

É no relacionamento com o Donald que o caráter contraditório da convivência entre as


múltiplas identidades adotadas pela Margarida pós-moderna torna-se evidente. A nova
Margarida é segura de si, independente, determinada e tem opinião formada sobre
qualquer assunto vigente. Busca afirmar-se profissionalmente e abre espaço para as
mulheres atuarem e se libertarem dos preconceitos oriundos da segunda onda. Todas as
suas identidades convivem bem e muitas vezes se completam, até que entra em cena o
amor por Donald. Nesse momento muitas vezes ela demonstra a contradição exposta
por Hall (2005), resultante da pluralidade de identidades que o sujeito pós-moderno
assume.

Figura 53. Fonte: B 870157 AMG 1/1. Opinião sobre a antiga


Margarida.

O aspecto contraditório é tão evidente e prenunciado pelo discurso das histórias em


quadrinhos que no almanaque número um da personagem o tema da história principal
foi exatamente este. Em Ah, Os Velhos Tempos..., Donald simula uma doença para
obrigar a namorada a voltar a ser a antiga Margarida. Ele quer que ela desista da sua
nova personalidade e volte a fazer bolo para ele e a vestir o coletinho preto com blusa
cor-de-rosa. Margarida mesmo certa de que a nova Margarida é muito melhor, o que
fica evidente na passagem em que ela define - para o primo Peninha - a antiga

Agda Dias Baeta 76


Disney Pós-Moderna

Margarida (Figura 53), acaba sucumbindo à chantagem do namorado que arde em febre
e veste a antiga roupa.

Figura 54. Fonte: B 860205 MG 26/1. O Figura 55. B 860205 MG 26/1. O ciúme
feitiço contra o feiticeiro. versus a mulher pós-moderna.

Em Novo Pato no Pedaço (B 860205 MG 26/1), a contradição vivida pela personagem é


ainda mais evidente. Donald para participar de um jogo de futebol tem que desmarcar
seu encontro com Margarida e para isso usa o próprio discurso pós-moderno da pata
para tratar o relacionamento (Figura 54). Margarida, apesar de ter mantido a pose de
mulher contemporânea teve uma crise ao estilo moderno, de mulher ciumenta (Figura
55), sem falar na atitude de provocar ciúmes no Donald que não condiz com seu novo
comportamento.

Figura 56. Fonte: B 870049 32/1. Quando as identidades entram em conflito...

Na história Em Terra de Ci...u...mento... (B 870049 32/1), Margarida tem reação


semelhante ao perceber que uma escultora que ela vai entrevistar paquera Donald na sua
frente. Ela tenta manter uma atitude digna da mulher emancipada da terceira onda

Agda Dias Baeta 77


Disney Pós-Moderna

(Figura 56), mas não consegue disfarçar o ciúme e acaba armando um escândalo (Figura
57) até fazer as pazes com o namorado. O ciúme também é abordado, de maneira
divertida em Queda pra Pára-Quedismo (B 860150 MG 13/1), história na qual Donald
sente ciúmes do instrutor de pára-quedismo de Margarida porque o pato é ‘bonitão’,
depois de criticar o namorado pelo comportamento inseguro, Margarida passa pela
mesma situação ao ver que a instrutora de Donald é uma mulher muito bonita.

Figura 57. Fonte: B 870049 32/1. ... a teoria não condiz com a prática.

Agda Dias Baeta 78


Terceira Parte
Considerações Finais
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3.1 Conclusão

3.1.1 A mulher nos meios de comunicação nos anos 80

A década de 80 foi um período de transição para o Brasil. A complicada abertura


política iniciada em 1979, os inúmeros atentados que aterrorizaram o país nos anos que
antecederam a campanha de Diretas Já, a morte de Tancredo Neves e as crises
econômicas e políticas que acompanharam os governos de José Sarney e de Fernando
Collor de Mello a caracterizam como ‘a década perdida’. No entanto, o fim do regime
político autoritário incentivou a produção cultural, que se desenvolveu em meio ao
desequilíbrio de acesso às informações causado por anos de repressão e censura.

A queda do militarismo enfraquece a idéia de estado-nação brasileiro e


conseqüentemente os demais valores da modernidade. O Brasil finalmente começa a
sentir a onda de mudanças pós-moderna. Os meios de comunicação, com o
afrouxamento da censura, passaram a expor assuntos que eram considerados tabus
durante o militarismo. A indústria do entretenimento tornou-se polêmica ao expor a
crise sofrida pela instituição família – até então alicerce do centralismo moderno ao lado
do já denegrido Estado - que experimentava o aumento no número de divórcios. O
seriado Malu Mulher, estrelado por Regina Duarte e exibido pela Rede Globo de maio
de 1979 a dezembro de 1980, inicia a exposição midiática do declínio dos valores
modernos e da propagação dos novos valores pós-modernos relacionados ao gênero
feminino.

A crise de identidade vivida pela mulher entra em pauta na sociedade brasileira. Ao


mesmo tempo em que assuntos como constituição familiar, espaço da mulher no
mercado de trabalho e sexualidade são questionados na TV, a questão feminina vira
objeto de estudo nas universidades e passa a compor o discurso político. Desse modo,
no Brasil pós-ditadura, percebe-se a explosão dos questionamentos relacionados ao
papel da mulher na sociedade pós-industrial e a importância dos meios de comunicação
nesse processo. Da mesma maneira que a mídia catalisa as mudanças ocorridas nos
valores e comportamentos sociais femininos, também as dissemina através de sua
produção.

Agda Dias Baeta 80


Disney Pós-Moderna

Produção essa que pode ser um seriado - como no caso de Malu Mulher - uma
telenovela, um filme, um romance, um texto jornalístico, uma peça teatral, uma
composição musical, um programa de variedades ou uma história em quadrinhos, como
a da Margarida. Coincidência ou não, no mesmo ano em que a emancipação da mulher
começava a ganhar espaço no Brasil, Alvin Toffler lançava seu livro A Terceira Onda,
no qual apresenta as mudanças relacionadas ao declínio da hegemonia da sociedade
industrial e ascensão dos ideais pós-modernos, inclusive relacionados aos novos padrões
de composição familiar e comportamento feminino.

A exemplo dos demais meios de comunicação, nessa mesma década, no ano de 1986, o
gibi da Margarida foi lançado no Brasil com histórias produzidas por quadrinhistas
brasileiros que, influenciados pela época de transição e questionamentos pela qual
passava o país e o mundo, atribuíram à personagem uma roupagem típica da nova
mulher que galgava seu lugar na sociedade, não apenas como esposa e mãe, mas como
profissional economicamente ativa, independente financeiramente, não mais submissa
ao domínio masculino e disposta a lutar por seus direitos e ideais. É interessante
atentarmos ao fato de que são roteiristas e desenhistas homens retratando a mudança
pela qual passa o gênero feminino. Não temos aqui a ideologia feminina disseminada de
maneira intencional por um grupo feminista extremista como suporia os mais radicais
(como Dorfman e Mattlart em suas análises sobre os quadrinhos Disney), mas o reflexo
de uma sociedade em transição. São homens percebendo os anseios, os novos ideais e o
novo modo de pensar e agir femininos, o que mostra a importância do alcance dessas
mudanças percebidas em toda a sociedade por ser um processo global.

Os anseios e aspirações das mulheres brasileiras na década de 80, retratados por


programas como Malu Mulher, podem ser categorizados da seguinte maneira: 1) a
busca do seu lugar no mundo, através de uma colocação profissional que a valorize
como produtora e não apenas como consumidora (como durante a modernidade); 2) o
adiamento do casamento e da maternidade em detrimento de uma carreira profissional;
3) o fim da submissão em relação ao parceiro; 4) a independência financeira; 5) a
múltipla jornada de trabalho, que inclui, a vida profissional, acadêmica, os afazeres
domésticos, a família e o cuidado com a aparência. Se compararmos com as
características atribuídas à personagem Margarida nas histórias escritas no Brasil a

Agda Dias Baeta 81


Disney Pós-Moderna

partir de 1986, notaremos que as realizações e o estilo vida perseguidos pelas mulheres
são alcançados pela pata, que se torna o estereótipo da nova mulher. Margarida é a
referência de tudo que a mulher contemporânea quer e pode alcançar e dessa maneira,
supõe-se que o gibi da personagem além de refletir e disseminar as mudanças vigentes
na sociedade, pode de alguma forma influenciar o comportamento das leitoras que ao
ingressarem na vida adulta almejam o mesmo estilo de vida da personagem.

3.1.2 Um novo estereótipo

Quando analisamos os discursos das histórias em quadrinhos, percebemos que eles são
repletos de estereótipos sociais e o gênero feminino é um deles. No final da década de
70, as mulheres nos quadrinhos ainda estavam submetidas aos estereótipos
determinados pela sociedade industrial. Conforme declara Renard:

“apesar desta evolução ‘feminista’26 a imagem global da mulher mantém-se


ainda ligada a actividades profissionais pouco ou mediamente qualificadas
(vendedoras, domésticas, secretárias) contando-se apenas uma técnica de
electrônica (Yoko Tsuno), algumas aviadoras e algumas médicas. A promoção é
segura, mas lenta” (1978: 186).

Se fizermos um paralelo entre a afirmação do autor e o seriado Malu Mulher,


apresentado anteriormente, perceberemos que a posição da mulher tanto no Brasil
quanto no exterior nos últimos anos da década de 70 era a mesma. O que confirma a
teoria de Toffler de que as grandes ondas de mudança são fenômenos globais que
afetam gradativamente todas as sociedades, independentemente de posições políticas,
econômicas ou ideológicas.

Tendo em vista a posição da mulher no Brasil e no mundo (exemplificada pela maneira


como a mídia retratava a mulher: no Brasil, Malu Mulher e no exterior, quadrinhos
analisados por Renard) alguns anos antes do gibi da Margarida ser lançado, percebemos
que as histórias da personagem produzidas no Brasil foram pioneiras e contribuíram
para a desmistificação do estereótipo feminino criado pela modernidade. No contexto

26
Em parágrafo anterior, o autor trata do aumento do número de personagens femininas nas histórias em
quadrinhos devido ao movimento de emancipação feminina que se refletiu nos quadrinhos.

Agda Dias Baeta 82


Disney Pós-Moderna

mundial das histórias em quadrinhos, as personagens femininas no início dos anos 80


ainda não tinham alcançado a emancipação propagada por Margarida, mesmo nos países
desenvolvidos. E na vida real a situação era a mesma, como evidenciado pela Rede
Globo de Televisão.

Além de pioneira na disseminação do novo estereótipo de mulher, a nova Margarida


difundida pelas histórias em quadrinhos brasileiras é mais emancipada do que as
mulheres retratadas pela mídia até hoje. Ao comparar-se a análise realizada no
desenvolvimento deste estudo com o trabalho intitulado A influência das revistas
femininas na formação da identidade da mulher, realizado por Dornelles (1996)27
percebe-se que dez anos depois de Margarida ter desafiado o machismo do mundo dos
quadrinhos, as mulheres da vida real continuam presas ao antigo estereótipo que as
definem como mãe, dona-de-casa e submissa ao parceiro. Em A influência das revistas
femininas na formação da identidade da mulher, a autora analisa o discurso da revista
Nova - versão brasileira da internacional Cosmopolitan - através do artigo As 10 armas
secretas de uma sedutora publicado em 1995 e verifica que o estereótipo da mulher do
período moderno - subjetiva, emotiva e desesperada para encontrar o ‘príncipe
encantado’ - continua a ser disseminado pelo veículo de comunicação. Diante disso,
temos no gibi da Margarida um precursor dos ideais femininos pós-modernos até em
relação aos meios de comunicação que supostamente deveriam apresentar conteúdo
mais atual que as histórias em quadrinhos, por se tratar de um veículo não de
entretenimento, mas de informação.

A autora conclui seu trabalho declarando que “desconstruir os estereótipos de gênero


que ainda vigoram seja um bom começo para se construir novas concepções do que é o
feminino” (Dornelles, 1996). O gibi da Margarida, por trás da ingenuidade muitas
vezes atribuída às histórias infantis, prestou sua contribuição a esse movimento de
desconstrução dos estereótipos de gênero ao atribuir à mulher do final do século XX e
início do século XXI, características desvinculadas do casamento, do trato da família, da
busca desenfreada por um parceiro e do consumo e situá-la em uma condição de
emancipação em relação ao sexo oposto, independente financeiramente e com uma
participação ativa no mercado de trabalho deixando de desempenhar o papel apenas de

27
S/d. Fonte: www2.lael.pucsp.br/intercambio/06dornelles.ps.pdf . Acessado em 15/01/2006.

Agda Dias Baeta 83


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consumidora para tornar-se também produtora dentro da divisão de funções do âmbito


econômico da sociedade.

3.1.3 Mudança Global

Nas análises de quadrinhos feitas por autores como Dorfman e Mattlart, já mencionadas
na primeira parte deste trabalho, a ideologia dominante é evidenciada como arma para a
manutenção da hegemonia de poder estabelecida no mundo após a Segunda Guerra. Na
análise de Margarida, o contexto estudado é diferente. O discurso das histórias em
quadrinhos da personagem refere-se, não ao pensamento de uma nação (como ocorre
em Para Ler o Pato Donald, que abrange a ideologia imperialista norte-americana), mas
aos fenômenos de mudança universais, que independente de quem ocupa o poder e
controla a economia, afetam a composição das identidades dos indivíduos de qualquer
lugar do planeta. As mudanças sociais refletidas no discurso das histórias da
personagem estão se desenvolvendo em todas as sociedades contemporâneas, seja em
maior ou menor grau de penetração.

Assim como Toffler (1980) argumenta que o conjunto de mudanças - nomeado por ele
de onda - afeta o globo como um todo, independente de organização econômica ou
política (em seu livro ele demonstra que a Segunda Onda afetou tanto os países
comunistas como os capitalistas), a terceira onda e conseqüentemente o novo papel da
mulher dominará todas as sociedades contemporâneas, seja a curto ou longo prazo.

Para esse estudo interessa que se comprove que as histórias em quadrinhos, mesmo
sendo um meio de comunicação destinado ao entretenimento, refletem as mudanças de
comportamento e de ideologia que se processam no mundo. A influência que exercem
sobre os leitores ao disseminarem essas ideologias é um tema polêmico e ainda não
comprovado. No entanto, podemos concluir que mesmo não responsáveis pelas
mudanças de comportamento do indivíduo na sociedade, as histórias em quadrinhos
fazem parte desse processo. Elas possuem uma participação ativa na formatação dos
novos valores a partir do momento que interagem com o meio social e o retratam.
Assim, a história em quadrinhos – como os demais meios de comunicação de massa –
contribuem para que os novos padrões e estereótipos de comportamento sejam
disseminados e debatidos, levantando questões relacionadas às mudanças que já se

Agda Dias Baeta 84


Disney Pós-Moderna

processam na sociedade. Os quadrinhos funcionam como um canal de difusão do


momento atual e um espaço de reflexão sobre as alterações que ainda se processarão.

Agda Dias Baeta 85


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6. Gibis

Gibis da Margarida publicados no Brasil de 1986 a 1997.

Agda Dias Baeta 93


Anexos
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Histórias em quadrinhos citadas

A Bucaneira (B870044MG41/1)
A Caverna das Sereias (B870085MG36/1)
A Guerra das Amazonas (870011MG30/01)
A Moda é Mudar (B860061MG6/1)
A Mulher-Âncora (B870116MG40/1)
A Xerifa (B860083MG7/1)
Ah, Os Velhos Tempos... (B870157AMG1/1)
Babau 1990 (B860206MG25/1)
Beleza Tecnológica (B910159MG143/1)
Com Quantas Arrobas se Faz um Boi (B870009MG28/1)
Defenda-se! (B860187MG20/1)
Em Terra de Ci...u...mento... (B870049MG32/1)
Feminismo em Uba Dhula (B870089MG44/1)
Machão, não! (B860151MG15/1)
Margarida Mulher (B850149MG5/4)
Meu Gênio (B870012MG31/3)
No Castelo de Drácula (B860194MG22/1)
No Tempo das Cavaleiras Andantes (B860137MG12/1)
Novo Pato no Pedaço (B860205MG26/1)
O Chou da Margarida (B870015MG27/1)
O Cilindro Mágico (B870065MG34/1)
Os Preços e a Fama (B860049MG5/1)
Paixão das Cavernas (B860186MG23/1)
Pra Mau Pagador, Ótima Cobradora (B860057MG4/1)
Prefeita Perfeita (B870028MG28A/1)
Problemas de Beleza (B870035MG33/1)
Queda pra Pára-Quedismo (B860150MG13/1)
Trabalho pra Machão... Onde? (B870014MG29/1)
Uma Nova Margarida (B860008MG1/1)

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