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Universidade Federal de São Carlos

Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia


Departamento de Matemática

Introdução à Análise

Relatório de Iniciação Cientı́fica

Autor: Drielly Vilela Costa

Orientador: Francisco Braun

Curso: Licenciatura em Matemática

São Carlos, 9 de janeiro de 2017.

Este trabalho teve o apoio financeiro do CNPq através de uma bolsa PICME de agosto de 2013 a agosto de 2015.
3

Sumário

1 Introdução 5

2 Teoria Geral de Conjuntos 1


2.1 Conjuntos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
2.1.1 Operações com conjuntos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
2.2 Funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
2.3 Números Naturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
2.4 Conjuntos finitos e infinitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
2.5 Conjuntos enumeráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
2.6 Conjuntos não-enumeráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

3 Números Reais 15
3.1 Corpo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
3.2 Corpo ordenado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
3.3 Números reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

4 Sequências e séries de reais 21


4.1 Sequências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
4.2 Limites de sequências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
4.3 Propriedades dos limites . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
4.4 Subsequências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
4.5 Sequência de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
4.6 Limites infinitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
4.7 Séries Numéricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28

5 Construção dos Números Reais 31


5.1 Relação de equivalência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
5.2 Classe de equivalência, soma e produto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
A
5.3 Valor absoluto em ∼
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
A
5.4 Os racionais no conjunto ∼
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
4 Sumário

6 Topologia da Reta 35
6.1 Conjuntos abertos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
6.2 Conjuntos Fechados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
6.3 Pontos de acumulação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

7 Equações diferenciais autônomas 39


5

Capı́tulo 1

Introdução

Este trabalho teve inı́cio em março de 2013, quando comecei a pesquisa voluntariamente.
Mais tarde, em agosto de 2013, o projeto teve apoio financeiro do CNPq através de uma
bolsa PICME e finalizamos em agosto de 2015. O trabalho teve como objetivo o estudo
dos conceitos básicos de Análise Matemática partindo dos primeiros axiomas da Teoria
dos Números, passando pela construção dos corpos ordenados básicos (Racionais e Reais).
Vimos conceitos básicos da Topologia da Reta. Aprofundamos os conceitos matemáticos
básicos para o desenvolvimento do estudo de derivadas e integrais e sua aplicações na
Ciência. Além disso, estudamos a teoria qualitativa de edo’s autônomas.
Nestes dois anos de trabalho, participei do XXI e XXII Congresso de Iniciação Ci-
entı́fica (CIC), com a apresentação dos pôsteres “A contrução dos números reais devido
a George Cantor” em outubro de 2013 e “Teoria qualitativa de edo’s autônomas: estudos
de dimensão 1 e uma introdução à dimensão 2” em novembro de 2014. Estes dois pôsteres
apresentaram resultados parciais de nosso trabalho e estão contidos neste relatório.
1

Capı́tulo 2

Teoria Geral de Conjuntos

2.1 Conjuntos
Não apresentaremos uma definição matemática para o que é um conjunto. Tomemos
somente uma noção primitiva do significado de conjuntos. Conjunto tem o mesmo signi-
ficado que agrupamento, classe... Seus objetos, que estão no conjunto, são chamados de
elementos.

Exemplo 2.1. 1. No conjunto V das vogais, os elementos são a, e, i, o, u, isto é

V = {a,e,i,o,u}

2. No conjunto L dos livros de uma biblioteca, os elementos são Iracema, Senhora,


Dom Casmurro..., isto é

L = {Iracema, Senhora, Dom Casmurro,...}

Se temos que um elemento x, sendo um número, uma letra..., pertence a um conjunto


A escrevemos da seguinte forma: x ∈ A. Se porém x não é um dos elementos de A,
denotamos que x ∈
/ A (x não pertence a A).
Um conjunto A fica definido (ou determinado, ou caracterizado) quando damos uma
regra que permite decidir se um objeto x pertence ou não a A.

Exemplo 2.2. A é o conjunto dos estados brasileiros que se iniciam com a letra A. O
conjunto A está definido como: um objeto pertence a A quando for um estado do Brasil,
e além disso, tem que iniciar com A. Logo,

A = {Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas}

Quando queremos descrever um conjunto A por meio de uma propriedade carac-


2 2. Teoria Geral de Conjuntos

terı́stica P de seus elementos x escrevemos:

A = {x; x tem a propriedade P }.

Isto é, A é o conjunto dos elementos x que satisfaçam a propiedade P .


Muitas vezes a propriedade P se refere a elementos de um “conjunto fundamental E”,
neste caso temos:
A = {x ∈ E; x tem a propriedade P}.

Às vezes, temos que nenhum elemento de E satisfaz a propriedade P , neste caso, o
conjunto A não tem nenhum elemento. Dizemos que A é o conjunto vazio e usamos o
sı́mbolo ∅.

Exemplo 2.3. A = {x ∈ N; x é ı́mpar e múltiplo de 2 } = ∅, onde N denota os números


naturais.

Dados dois conjuntos, A e B, dizemos que A é subconjunto de B quando todos os


elementos de A são também elementos de B. Assim dizemos que A está contido em B e
escrevemos A ⊂ B. Para mostrarmos que um conjunto A não está contido em B, basta
mostrarmos que um elemento de A não pertence a B. Definimos que os conjuntos A e B
são iguais quando A ⊂ B e B ⊂ A.

Exemplo 2.4. Z 6⊂ N, pois −2 ∈ Z, mas −2 ∈


/ N, onde Z denota o conjuntos dos inteiros.

Temos algumas propriedades. Sejam os conjuntos A, B e C:

1. ∅ ⊂ A.
De fato, se não fosse ∅ ⊂ A, existiria algum x ∈ ∅ tal que x ∈
/ A, mas como não
existe um x ∈ ∅, temos que ∅ ⊂ A.

2. (Reflexiva) A ⊂ A.
De fato, um conjunto contém ele mesmo já que seus elementos são iguais.

3. (Antisimétrica) A ⊂ B e B ⊂ A ⇒ A = B.
De fato, segue da definição de igualdade que demos acima.

4. (Transitiva) A ⊂ B e B ⊂ C ⇒ A ⊂ C.
De fato, se todos os elementos de B estão em C e dentre os elementos de B estão
os elementos de A, temos que os elementos de A também estão em C. Alternativa-
mente, dado x ∈ A ⇒ x ∈ B ⇒ x ∈ C. Logo, A ⊂ C.

Dado um conjunto A, indicamos por P(A) o conjunto das partes de A, que é formado
por todos os subconjuntos de A. Daı́ temos que X ∈ P(A) é o mesmo que dizer que
X ⊂ A, pois X é um subconjunto de A.

Exemplo 2.5. Seja A = {1, 2} então temos que P(A) = {∅, {1}, {2}, {1, 2}}.
2.1. Conjuntos 3

2.1.1 Operações com conjuntos


Reunião ou união

Dados dois conjuntos A e B, chamamos união (reunião) de A e B o conjunto formado


pelos elementos de A e os elementos de B, e escrevemos A ∪ B. Ao afirmarmos que
x ∈ A ∪ B, portanto temos que x ∈ A ou x ∈ B. Porém não se exclui a ideia de x ∈ A e
x ∈ B. O “ou” só mostra que pelo menos uma ocorre. Isto é:

A ∪ B = {x; x ∈ A ou x ∈ B}

Propriedades da União:

1. A ∪ A = A.
De fato, x ∈ A ∪ A ⇔ x ∈ A ou x ∈ A ⇔ x ∈ A

2. A ∪ ∅ = A.
Pois, se x ∈ A ∪ ∅ ⇔ x ∈ A ou x ∈ ∅, contudo x ∈
/ ∅ então x ∈ A para todo
x ∈ A ∪ ∅.

3. A ∪ B = B ∪ A.
Dado x ∈ A ∪ B ⇒ x ∈ A ou x ∈ B. Se x ∈ A, x ∈ B ∪ A. Se x ∈ B, x ∈ B ∪ A.
Ou seja, para todo x ∈ A ∪ B temos que x ∈ B ∪ A. Analogamente, para todo
x ∈ B ∪ A temos que x ∈ A ∪ B. Portanto A ∪ B = B ∪ A

4. (A ∪ B) ∪ C = A ∪ (B ∪ C).
Se x ∈ A ∪ (B ∪ C) então x ∈ A ou x ∈ (B ∪ C) ⇒ x ∈ A ou x ∈ B ou x ∈ C
Assim (x ∈ A ∪ B ou x ∈ C ⇒ x ∈ (A ∪ B) ∪ C. É análoga a prova de que
x ∈ (A ∪ B) ∪ C ⇒ x ∈ A ∪ (B ∪ C).

5. Se A ⊂ B então A ∪ B = B. A ⊂ B significa x ∈ A ⇒ x ∈ B. A ∪ B = {x; x ∈


A ou x ∈ B}. Se x ∈ A então x ∈ B, portanto A∪B = {x; x ∈ B ou x ∈ B} = B∪B,
que pela propriedade 1, B ∪ B = B

Intersecção

Dados dois conjuntos A e B, chamamos intersecção de A e B o conjunto formado pelos


elementos comuns a A e B. Escrevemos A ∩ B. Ao afirmarmos que x ∈ A ∩ B temos
que x ∈ A e x ∈ B, ao mesmo tempo. Quando A ∩ B = ∅ dizemos que os conjuntos são
disjuntos, isto é, não têm elementos em comum. Em sı́mbolos a intersecção dos conjuntos
A e B da seguinte forma:

A ∩ B = {x; x ∈ A e x ∈ B}

Propriedades da Intersecção:
4 2. Teoria Geral de Conjuntos

1. A ∩ ∅ = ∅.
Temos x ∈ A ∩ ∅ ⇔ x ∈ A e x ∈ ∅, porém x ∈
/ ∅ logo A ∩ ∅ = ∅, pois sabemos que
∅ ⊂ A para todo A.

2. A ∩ A = A.
Vale x ∈ A ∩ A ⇔ x ∈ A e x ∈ A ⇔ x ∈ A.

3. A ∩ B = B ∩ A.
Se x ∈ A ∩ B,então x ∈ A e x ∈ B, logo x ∈ B ∩ A. Analogamente, se x ∈ B ∩ A,
então x ∈ B e x ∈ A, logo x ∈ A ∩ B. Portanto A ∩ B = B ∩ A.

4. (A ∩ B) ∩ C = A ∩ (B ∩ C).
Observe: x ∈ (A ∩ B) ∩ C ⇔ x ∈ A ∩ B e x ∈ C ⇒ x ∈ A e x ∈ B e x ∈ C ⇔ x ∈ A
e x ∈ B ∩ C ⇔ x ∈ A ∩ (B ∩ C).

5. Se A ⊂ B então A ∩ B = A.
Supondo A∩B 6= A. Assim temos duas opções: ∃x ∈ A tal que x ∈
/ B, ou ∃x ∈ A∩B
tal que x ∈/ A. Ambas são absurdas, pois se x ∈ A,então x ∈ B e se ∃x ∈ A ∩ B,
então x ∈ A. Portanto por absurdo, provamos o resultado.

Diferença ou Complementar de B em A

Dados dois conjuntos A e B, chamamos diferença de A e B ou complementar de B em A


ao conjunto formado pelos elementos de A que não pertencem a B. Representamos este
conjunto por A − B ou CAB . Ao afirmarmos que x ∈ A − B temos que x ∈ A e x ∈ / B.
Se A e B são disjuntos, A − B é o próprio A. Podemos escrever a diferença entre dois
conjuntos A e B como o conjunto A − B = {x ∈ A; x ∈ / B}.

Exemplo 2.6. Se A = {a, b, c, d, e} e B = {c, d, e} então CAB = A − B = {a, b}. Com


/ B ⇔ x ∈ A e x ∈ CAB ⇔ x ∈ A ∩ CAB
efeito x ∈ A − B ⇔ x ∈ A e x ∈

Propriedades da diferença :

1. A − B = A se, e somente se, A ∩ B = ∅.


De fato, se A − B = A ⇒ ∀x ∈ A, x ∈
/ B, ou seja A ∩ B = ∅. Se A ∩ B = ∅ nenhum
elemento de A pertence a B, logo A − B = A.

2. A − B = A − (A ∩ B).
De fato, seja x ∈ A − (A ∩ B) ⇒ x ∈ A tal que x ∈
/ (A ∩ B) ⇒ x ∈ A tal que x ∈
/A
ex∈ / B. Logo, x ∈ A − B.

3. Dados A, B ⊂ E, A ⊂ B ⇔ A ∩ CAB = ∅.
Provemos primeiramente a ida: se temos que A ⊂ B temos que não há elementos em
A que não pertençam a B. Então temos duas possibilidades ou A = B ou A 6= B.
i) Se A = B, então não há elementos de B que não pertença a A, sendo assim
2.1. Conjuntos 5

B − A = ∅ ⇒ CAB = ∅. Assim temos que A ∩ CAB = ∅ ⇔ A ∩ ∅ = ∅, pois como ∅ não


contém nenhum elemento, logo não terá elementos em comum com A.
ii) Se A 6= B, então há elementos em B que não pertencem a A. Assim temos que
B − A 6= ∅ ⇒ CAB 6= ∅. Isto implica dizer que x ∈ E; x ∈ CAB ⇒ x ∈ / A. Desta
forma temos que A ∩ CAB : {x ∈ E; x ∈ A e x ∈ CAB } = ∅, pois se x ∈ CAB , x ∈ A.
Logo temos que A ∩ CAB = ∅ A volta: A ∩ CAB = ∅, por definição temos então
que não existe x tal que x ∈ A e x ∈ CAB .Supohamos CAB for diferente de ∅, então
existe a ∈ CAB ⇒ a ∈ A, logo teriamos um a ∈ A ∩ CAB , uma contradição, logo
CAB = ∅ ⇒ A − B = ∅ ⇒ x ∈ A, x ∈
/ B = ∅ ⇒ A ⊂ B.

Produto Cartesiano

Dados dois objetos a e b, o par ordenado (a, b) fica formado quando escolhemos um
desses, no caso a para ser a primeira coordenada do par e o objeto b para ser a segunda
coordenada.
Dados dois pares (a, b) e (c, d), serão iguais se suas primeiras coordenadas, a e c, forem
iguais e se suas segundas coordenadas, b e d, também forem.

(a, b) = (c, d) ⇔ a = c e b = d

Obs.: Não podemos confundir par ordenado (a, b) com o conjunto {a, b}, pois os dois
conjuntos {a, b} e {b, a} são iguais, mas como já vimos (a, b) = (b, a) somente se a = b.
O produto cartesiano dos conjuntos A e B é o conjunto A × B cujos elementos são
pares ordenados (a, b) tais que a ∈ A e b ∈ B.

Exemplo 2.7. Dado A = {1, 2, 3} e B = {0, 1},

A × B = {(1, 0), (1, 1), (2, 0), (2, 1), (3, 0), (3, 1)}

EXERCÍCIOS
1. Prove as afirmações:
a)(A ∩ B) × C = (A × C) ∩ (B × C).
b)(A − B) × C = (A × C) − (B × C).
Resolução:
a) Tomemos o lado esquerdo da igualdade:
(x, y) ∈ (A ∩ B) × C ⇒ x ∈ A ∩ B e y ∈ C. Daı́ x ∈ A ∩ B ⇒ x ∈ A e x ∈ B. Logo
(x, y) ∈ (A × C) e (x, y) ∈ (B × C).
(A × C) ∩ (B × C) = (A ∩ B) × C.
Tomemos agora o lado direito da igualdade:
6 2. Teoria Geral de Conjuntos

(x, y) ∈ (A × C) ∩ (B × C) ⇒ (x, y) ∈ (A × C) e (x, y) ∈ (B × C).


i) (x, y) ∈ (A × C) ⇒ x ∈ A e y ∈ C. ii)(x, y) ∈ (B × C) ⇒ x ∈ B e y ∈ C. Logo
x ∈ (A ∩ B) e y ∈ C, (x, y) ∈ (A ∩ B) × C.
b) Uma maneira de provarmos a igualdade é mostrarmos que (A − B) × C ⊂ (A ×
C) − (B × C) e (A − B) × C ⊃ (A × C) − (B × C).
Seja (x, y) ∈ (A − B) × C ⇒ x ∈ (A − B) e y ∈ C ⇒ x ∈ A, x ∈ / B e y ∈ C. Daı́
temos (x ∈ A e y ∈ B) e (x ∈
/ B e Y ∈ C, ou seja (x, y) ∈ A × B e (x, y) ∈
/ B × C.
Logo (x, y) ∈ (A × C) − (B × C).Portanto (A − B) × C ⊂ (A × C) − (B × C)
Seja (x, y) ∈ (A×C)−(B×C) ⇒ (x, y) ∈ (A×C) e (x, y) ∈ / (B×C) ⇒ x ∈ A, y ∈ C
ex∈ / B, y ∈ C. Daı́ temos, x ∈ (A − B) ey ∈ C. Logo (x, y) ∈ A − B) × C. Assim
(A − B) × C ⊃ (A × C) − (B × C).

2.2 Funções
Definimos função como uma relação binária, f, de dois conjuntos satisfazendo os itens
1 e 2 abaixo. Antes disso, dizemos que uma função consta de 3 partes: um conjunto A
(domı́nio), um conjunto B (contradomı́nio) e uma regra que permite associar um elemento
de A a um elemento de B, denotado por f : A → B. Observamos que f é a função,
enquanto que f (x) é o valor que a função assume num ponto x do seu domı́nio. O
conjunto dos f (x) é chamado imagem da função e donotamos por f (A).
Há duas condições para obter o valor f (x) ∈ B quando é dado x ∈ A:

1. A regra tem que fornecer f (x) para todo x ∈ A

2. A cada x ∈ A, a regra deve fazer corresponder um único f (x) em B.

Uma caracterização interessante de uma função f : A → B é como sendo o seguinte


subconjunto de A × B, chamado o gráfico de f, (veja a figura 2.1)

f = {(x, y); x ∈ A y = f (x)}.

E com abuso de notação, escreveremos às vezes f = {(x, y) : x ∈ A y = f (x)}.


Dizemos que duas funções são iguais quando ela têm o mesmo domı́nio, o mesmo
contradomı́nio e a mesma regra de correspondência.
Tomemos duas funções f : A → B e g : A′ → B ′ . Elas são iguais se A = A′ , B = B ′ e
f (x) = g(x), para todo x ∈ A
O gráfico de uma função f é o conjunto dos pares ordenados (x, f (x)) onde x pertence
ao domı́nio da função.
graf(f ) = {(x, f (x)); x ∈ D(f )}.
2.2. Funções 7

Figura 2.1:

Função injetora

Uma função é injetora quando a dois elementos diferentes do domı́nio correspondem ima-
gens diferentes no contradomı́nio. Ou seja, a função f : A → B é injetora se dados um
x e um y (sendo x 6= y) pertencentes a A conseguirmos provar que f (x) 6= f (y). Ou
equivalentemente, f (x) = f (y) implicar que x = y.

Exemplo 2.8. Dada f : {0, 1, 2} → {0, 1, 2, 3, 4} e f (x) = 2x temos que f é injetora pois
qualquer dois pontos de {0, 1, 2} distintos são levados em pontos distintos de {0, 1, 2, 3, 4}.

Função sobrejetora

Uma função é sobrejetora quando a imagem de f é o próprio contradomı́nio. Isto é,


f : A → B é sobrejetora se para todo y ∈ B existir um x ∈ A tal que f (x) = y.

Exemplo 2.9. Dado f : A → B e f (x) = 2x, sendo A = {0, 1, 2} e B = {0, 2, 4}, f é


sobrejetora pois a f (A) = {0, 2, 4} = B.

Função bijetora

Dizemos que uma função é bijetora quando ela for injetora e sobrejetora, ou seja juntando
as duas definições, todo elemento do contradomı́nio está associado a um único elemento
do domı́nio. Se existe f : A → B bijetora, dizemos que há uma bijeção entre A e B.

Função inversa

Se f é bijetora, uma vez que cada elemento do domı́nio está associado a um único ele-
mento do contradomı́nio, definimos a inversa como a função que liga todo elemento do
contradomı́nio à um elemento do domı́nio da seguinte forma: y = f (x) está associado a
8 2. Teoria Geral de Conjuntos

x. Sendo f : A → B uma função bijetora, a sua inversa é denotado por f −1 : B. Assim


temos:

f : {(x, y); x ∈ A e y = f (x)} e f −1 : {(y, x); y ∈ B e y = f (x)}.

Assim temos que uma função é inversı́vel, ou possui inversa, somente quando ela for
bijetora.
Caso f : A → B seja apenas injetora, podemos definir a função g : f (A) → A da
seguinte forma g(y) = x onde f (x) = y. Por vezes também escrevemos g = f −1 , mas
agora com domı́nio f (A) ⊂ B.

Exemplo 2.10. Dado f : A → B e f (x) = 2x, sendo A = {0, 1, 2} e B = {0, 2, 4}. Temos
que f = {(0, 0), (1, 2), (2, 4)}. Sabemos que ela é bijetora, asssim ela apresenta inversa,
ou seja f −1 : B → A e f −1 (x) = x2 , note que o f (x) na função inversa é o resultado se
isorlarmos o x na f (x) da função f . Assim temos que f −1 = {(0, 0), (2, 1), (4, 2)}, o que
era domı́nio na f tornou-se imagem na f −1 e vice-versa.

Funções compostas

Tomemos f : A → B e g : B → C funções, sendo o domı́nio de g igual ao contradomı́nio


de f . Podemos definir a função composta g ◦ f : A → C, que consiste em aplicarmos
primeiro f e depois g. Escrevemos:

g ◦ f (x) = g(f (x))

para todo x ∈ A.
Porém a função f ◦ g pode não estar definida pois o domı́nio de f ,A, pode não ser
igual ao contradomı́nio de g.

Exemplo 2.11. Dados f : R → R, f (x) = 2x + 1 e g : R → R, g(x) = x + 2, temos que


são definidos g ◦ f e f ◦ g, pois o domı́nio e o contradomı́nio são iguais. Observemos que

g ◦ f (x) = g(f (x)) = g(2x + 1) = (2x + 1) + 2 = 2x + 3

e
f ◦ g(x) = f (g(x)) = f (x + 2) = 2(x + 2) + 1 = 2x + 5.

Logo g ◦ f : R → R e f ◦ g : R → R são dadas por g ◦ f (x) = 2x + 3 e f ◦ g(x) = 2x + 5.

Dadas ainda f : A → B, g : B → C e h : C → D, vale a associatividade (h ◦ g) ◦ f =


h ◦ (g ◦ f ) : A → D. Pois para todo x ∈ A:

[(h ◦ g) ◦ f ](x) = (h ◦ g)(f (x)) = h[g(f (x))] = h[g ◦ h)(x)] = [h ◦ (g ◦ f )](x).


2.3. Números Naturais 9

Proposição 2.12. Ainda temos que se f : A → B e g : B → C são funções injetoras


então g ◦ f : A → C é injetora, pois sejam g ◦ f (x) = g ◦ f (y) ⇒ g(f (x)) = g(f (y)) ⇒
f (x) = f (y) ⇒ x = y. A composta de funções sobrejetoras é sobrejetora, pois dado c ∈ C,
existe b ∈ B tal que g(b) = c, daı́ existe a ∈ A tal que f (a) = b ⇒ g ◦ f (a) = g(b) = c.
Assim também, a composta de funções bijetoras é bijetora.

Dadas as funções f : A → B e g : B → A, dizemos que g é uma inversa à esquerda


para f quando g ◦ f = idA : A → A, ou seja, quando g(f (x)) = x para todo x ∈ A. Uma
função g : B → A é chamada inversa à direita de f : A → B quando f ◦ g = idB : B → B,
ou seja, quando f (g(y)) = y para todo y ∈ B.

Proposição 2.13. 1. A função f : A → B tem uma inversa à esquerda se, e somente


se, f é injetora.

2. A função f : A → B tem uma inversa à direita se, e somente se, f é sobrejetora.

Demonstração. 1. Por definição f ter uma inversa à esquerda implica dizer que existe
uma g : B → A tal que g ◦ f = idA . Sejam x, y ∈ A, f (x) = f (y) ⇒ g(f (x)) =
g(f (y)) ⇒ g ◦ f (x) = g ◦ f (y) ⇒ idA (x) = idA (y) ⇒ x = y. Portanto f é injetora.
Provemos a volta, seja f : A → B injetora, isso implica que existe f −1 : f (A) → A.
Fixemos x0 ∈ A qualquer e tomemos g : B → A tal que
(
f −1 , se x ∈ f (A)
g(x) =
x0 , se x ∈ B − f (A)

De fato, g é a inversa à esquerda de f , pois g(f (x)) = f −1 (f (x)) = x.

2. Agora, f ter uma inversa à direita implica dizer que existe uma g : B → A tal que
f ◦ g = idB . Seja y ∈ A arbitrário. Pela hipótese f ◦ g(y) = idB (y) ⇒ f (g(y)) = y.
Assim consideremos que g(y) = x ∈ B, temos então f ◦ g(y) = f (g(y)) = f (x) = y,
logo f é sobrejetora. Provemos a volta, seja f : A → B sobrejetora. A cada
y ∈ B existe ao menos um x ∈ A, tal que f (x) = y. Escolhamos xy ∈ f −1 ({y}) e
definamos g : B → A,y 7→ xy . Logo, temos que g é a inversa à direita de f , pois
f ◦ g(y) = f (xy ) = y.

2.3 Números Naturais


O conjunto dos números naturais, denotado por N , é caracterizado como sendo um
conjunto que admite uma função sucessor s : N → N que satisfaz os axiomas de Peano
abaixo. Para cada n ∈ N, o número s(n), valor que a função s assume no ponto n, é
chamado o sucessor de n.
10 2. Teoria Geral de Conjuntos

P1. A função s é injetora, ou seja dados m, n ∈ N e m 6= n então s(m) 6= s(n). Em


outras palavras temos que dados dois naturais distintos seus sucessores são distintos.

P2. Existe um único número natural que não é sucessor de ninguém, ele se chama um e
o representamos pelo sı́mbolo 1. Ou seja, temos que 1 6= s(n) para todo n ∈ N.

P3. (Princı́pio da Indução) Se X ⊂ N é um subconjunto tal que 1 ∈ X e , para todo


n ∈ X temos também que s(n) ∈ X então X = N

Outra maneira de enunciar o Princı́pio da Indução é:


Seja n0 ∈ N um elemento fixado e seja U = {x ∈ N; n0 ≤ x}. Seja, também, p(n)
uma função proposicional definida em U. Função proposicional sobre U é toda expressão
p(x) tal que p(x) é verdadeiro ou falso para todo x ∈ U. Suponha provadas as seguintes
condições:

i p(n0 ) é verdadeiro.

ii para cada k ∈ N, vale a implicação: “Se p(k) é verdadeiro, então p(k + 1)” é
verdadeiro.

Então, p(n) é verdadeiro, para todo n ≥ n0 .


n(n+1)
Exemplo 2.14. Mostremos por indução que 1 + 2 + 3 + · · ·+ n = 2
para todo n ≥ 1.
1+1
Temos que vale para 1, pois 1 = 2
. Suponhamos que vale para k, provemos que vale
pra k + 1. Para k temos:

k(k + 1)
1+2+3+···+k = ,
2

somando k + 1, temos
 
k(k + 1) k
1 + 2 + · · · + k + (k + 1) = + (k + 1) = + 1 (k + 1)
2 2
 
(k + 1) + 1
= (k + 1).
2

n(n+1)
Portanto temos que 1 + 2 + 3 + · · · + n = 2
vale para todo n ≥ 1.

No conjunto dos N podemos definir duas operações denominadas adição e multi-


plicação.

Adição

Associa cada par (m, n) a um número natural denotado por m + n. A operação de adição
satisfaz alguns axiomas:
Associatividade: m + (n + p) = (m + n) + p;
2.4. Conjuntos finitos e infinitos 11

Comutatividade: m + n = n + m;
Lei do corte: m + n = m + p ⇒ n = p;
Tricotomia: Dados m, n ∈ N um dos três ocorre: ou m = n, ou existe um p ∈ N tal que
m = n + p ou existe um q ∈ N com n = m + q.

A ordenação entre números naturais é definida em termos da adição. Dados m, n ∈ N,


dizemos que m é menor que n e escrevemos m < n, quando existe p ∈ N tal que m+p = n.
Da mesma maneira podemos dizer que n é maior que m e escrevemos n > m. A notação
m ≤ n significa que m é menor ou igual a n. A ordenação tem as seguintes propriedades:
Transitividade: se m < n e n < p então m < p.
Demonstração: Temos que existem r, s números naturais, tais que m+r = n e n+s = p.
Temos ainda que r + s ∈ N Assim podemos dizer m + (r + s) = (m + r) + s = n + s = p.
Logo m < p.
Tricotomia: Dados m, n ∈ N um dos três ocorre: ou m = n, ou m < n ou n < m.
Demonstração: Não vale m = n e m > n, pois se valessem ambas existiria um p tal que
m = n + p e substituindo n por m teriamos m = m + p uma contradição pela tricotomia
acima. Da mesma forma temos que não vale m = n e m < n. Não vale m < n e m > n
pois por transitividade teriamos que n < n, como já vimos uma contradição.
Monotonicidade da adição: se m < n então, para todo p ∈ N temos que m + p < n + p.
Demonstração: m < n significa dizer que m + r = n para algum r ∈ N. Então
(m + p) + r = n + p e portanto m + p < n + p.

Multiplicação

Associa cada par (m, n) a um número natural denotado por m · n. A operação de multi-
plicação possui os axiomas:
Associatividade: (m · n) · p = m · (n · p);
Comutatividade: m · n = n · m;
Lei do corte: m · p = n · p ⇒ m = n;
Distributividade: m · (n + p) = m · n + m · p;
Elemento neutro: Existe o elemento neutro da multiplicação e escrevemos 1, ou seja,
m · 1 = m;
Denotaremos x · y = xy

2.4 Conjuntos finitos e infinitos


Usamos In para representar o conjunto {1, ..., n} dos números naturais de 1 até n. Cha-
mamos um conjunto X de finito quando ele é vazio ou quando existe, para algum n ∈ N,
uma função bijetora
ϕ : In → X.
12 2. Teoria Geral de Conjuntos

Temos então que X pode ter zero elementos ou que n ∈ N é o número de elementos de
X, ou seja, X possui n elementos.
Notemos que In é finito, pois uma bijeção de In em In é a identidade. É claro que In
possui n elementos. Além disso, se f : X → Y é uma função bijetora, um desses conjuntos
será finito se, e somente se o outro for finito.
Temos a partir disso dois corolários:

Corolário 2.15. Seja f : X → Y uma função injetora. Se Y for finito então X também
será. E o número de elementos de X não excede o de Y .

Demonstração. Temos que f define uma bijeção de X com sua imagem f (X), a qual é
finita pois é um subconjunto de Y , um conjunto finito. Além disso, o número de elementos
de f (X), que é igual ao número elementos de X, não excede o de Y , pois f (X) ⊂ Y .

Corolário 2.16. Seja g : X → Y uma função sobrejetora. Se X for finito então Y


também será e o seu número de elementos não excede o de X.

Demonstração. Pela Proposição 2.13, g possui uma inversa à direita ou seja, existe uma
função f : Y → X tal que g ◦ f = idy . Então g é a inversa à esquerda de f e f é uma
função injetora de Y em X que é um conjunto finito. Então a partir do corolário acima
temos que Y é finito e seu número de elementos não excede o de X.

Chamamos um conjunto X de infinito quando ele não é finito. Ou seja X é infinito


quando ele não é vazio e quando, para qualquer n ∈ N, não existir uma bijeção ϕ : In → X.

2.5 Conjuntos enumeráveis


Dizemos que um conjunto X é enumerável quando ele é finito ou quando existe uma
bijeção f : N → X. Quando existe tal bijeção, X diz-se infinito enumerável, e pondo
x1 = f (1), x2 = f (2), ..., xn = f (n) tem-se X = {x1 , x2 , ..., xn , ...}. Chamamos cada
bijeção f : N → X de uma enumeração de X.
O conjunto dos números naturais pares é um exemplo de conjunto infinito enumerável,
pois há a bijeção f : N → P , onde cada n ∈ N se relaciona com 2n ∈ P ,

f : {1, 2, 3, ...} → {2, 4, 6, ...} = {x1 , x2 , x3 , ..., xn , ...}

n 7→ 2n

E analogamente temos que o conjunto dos números naturais ı́mpares também é um


exemplo de conjunto infinito enumerável.
2.6. Conjuntos não-enumeráveis 13

2.6 Conjuntos não-enumeráveis


Definimos um conjunto infinito X por não-enumerável quando não existir uma bijeção
f : N → X. Veremos que existem muitos conjuntos não-enumeráveis através de um
argumento simples e genial devido a Cantor. Para o teorema abaixo, introduzimos o
sı́mbolo F (X; Y ) que representa o conjunto de todas as funções f : X → Y .

Teorema 2.17 (Cantor). Seja X um conjunto arbitrário e Y um conjunto contendo pelo


menos dois elementos. Nenhuma função ϕ : X → F (X; Y ) é sobrejetora.

Demonstração. Seja ϕ : X → F (X; Y ) uma função dada. Indicaremos por ϕx o valor de


ϕ no ponto x ∈ X. Assim, ϕx é uma função de X em Y . Para cada x ∈ X, escolhemos
um elemento yx ∈ Y , diferente de ϕx (x). Isto é possı́vel pois Y contém pelo menos dois
elementos. A função f : X → Y definida por f (x) = yx é tal que f (x) 6= ϕx (x) e, portanto,
f 6= ϕx , para todo x ∈ X. Logo f ∈
/ ϕ(X) e, por conseguinte, ϕ não é sobrejetora.

O argumento usado nesta demonstração chama-se “Método da diagonal de Cantor”.


Este nome deve-se ao caso particular em que X = N. Os elementos de F (N; Y ) são
sequências de elementos de Y , pois x1 = f (x1 ),x2 = f (x2 ).... Para provar que nenhuma
função ϕ : N → F (N; Y ) é sobrejetiva, escrevemos ϕ(1) = s1 , ϕ(2) = s2 ,... etc., onde
s1 , s2 ,... são sequências de elementos de Y , isto é:

s1 = (y11 , y12 , y13 , ...)

s2 = (y21 , y22 , y23 , ...)

s3 = (y31 , y32 , y33 , ...)

...............................

onde yij ∈ Y .
Em seguida, formamos uma nova sequência s = (y1 , y2 , y3 , ...) de elementos de Y
simplesmente escolhendo, para cada n ∈ N, um elemento yn ∈ Y diferente do n-ésimo
termo da diagonal : yn 6= ynn . A sequência s não pertence à lista das sequências sn .
Assim, nenhuma lista enumerável pode esgotar todas as funções em F (N; Y ).
14 2. Teoria Geral de Conjuntos
15

Capı́tulo 3

Números Reais

Denotaremos o conjunto dos números reais por R. Nesse capı́tulo, faremos uma “cons-
trução” axiomática do conjunto dos números reais, procurando defini-lo como um corpo
ordenado completo. Veremos, também, suas propriedades e suas consequências, que serão
usadas nos próximos capı́tulos.
Construções de R podem ser feitas usando Cortes de Dedekind ou Sequências de Cau-
chy por exemplo. No Capı́tulo 5 faremos uma construção usando sequências de Cauchy.

3.1 Corpo
Dizemos que um conjunto K é um corpo quando ele é munido de duas operações, chamadas
adição e multiplicação, que satisfazem algumas condições chamadas os axiomas de corpo.
A adição associa cada par (x, y) ∈ K × K a um elemento de K denotado x + y. Já a
multiplicação associa a esse par o elemento x · y. Tais operações satisfazem:
A. Axiomas da adição
A1. Associatividade - para quaisquer x, y, z ∈ K, tem-se (x + y) + z = x + (y + z)
A2. Comutatividade - para quaisquer x, y ∈ K tem-se x + y = y + x
A3. Elemento Neutro - existe 0 ∈ K tal que x + 0 = x, para todo x ∈ K. Tal elemento 0
chama-se zero
A4. Simétrico - Todo x ∈ K possui um simétrico y ∈ K tal que x + y = 0. Denotamos
y = −x.
Indicaremos a soma x + (−y) com a notação x − y e chamaremos a diferença entre x e
y. Chamaremos a operação (x, y) 7→ x − y de subtração. O zero é único, pois se x + θ = x,
para algum x e θ ∈ K, então θ = x−x, ou seja θ = 0. Resulta também que todo x ∈ K tem
somente um simétrico, pois se x+y = 0 ⇒ (x+y)−x = 0−x ⇒ y+x−x = −x ⇒ y = −x,
ou seja y = −x. Temos também a lei do corte: x + z = y + z ⇒ x = y (basta somar −z
a ambos os membros da primeira igualdade).
M. Axiomas da multiplicação
M1. Associatividade - para quaisquer x, y, z ∈ K, tem-se (x · y) · z = x · (y · z)
16 3. Números Reais

M2. Comutatividade - para quaisquer x, y ∈ K tem-se x · y = y · x


M3. Elemento Neutro - existe 1 ∈ K tal que 1 6= 0 e x · 1 = x, para todo x ∈ K. Tal
elemento, 1, chama-se um
M4. Inverso multiplicativo - todo x 6= 0 em K possui um inverso x−1 , tal que x · x−1 = 1
Tais axiomas dizem que os elementos diferentes de 0 num corpo K formam um grupo
abeliano em relação à operação de multiplicação. Consequentemente, valem propriedades
análogas provadas para adição, lembrando que 0 não tem inverso multiplicativo.
Dados x, y ∈ K, com y 6= 0, escreve-se também xy em vez de x.y −1 . Chamamos a
operação (x, y) 7→ xy , definida pra qualquer x e y 6= 0 em K de divisão e o resultado de
quociente. Se y 6= 0, tem-se xy = z ⇒ x = z · y disso temos a lei do corte: se z 6= 0 e
x · z = y · z, então x = y.Se x · y = x para todo x ∈ K então, tomando x = 1 obtemos que
y = 1, isto prova a unicidade do 1. Agora sabendo apenas que x · y = x para um certo x,
há duas possibilidades: se x 6= 0 então y = 1 ou se x = 0 então y pode ser qualquer, pois
y · 0 = y · (1 − 1) = y − y = 0 para todo y ∈ K.
Um conjunto onde está definida apenas uma operação satisfazendo a estes axiomas é
o que se chama um grupo abeliano.
As operações de adição e multiplicação se relacionam por mais um axioma, com o qual
fica completa a definição de corpo:
D1. Axioma da distributividade - para quaisquer x, y, z ∈ K tem-se x · (y + z) =
x · y + x · z.
Resulta de D1 que x · 0 = 0. Dados x, y ∈ K com x · y = 0, segue que ou x = 0 ou
y = 0, ou seja, se for x · y = 0 e x 6= 0 então temos x · y = x · 0 e pela lei do corte y = 0.
Podemos explicar as “regras dos sinais” através do axioma da distributividade: (−x) ·
y = x · (−y) = −(x · y) e (−x) · (−y) = x · y. De fato, primeiramente (−x) · y + x · y =
(−x + x) · y = 0 · y = 0, ou seja (−x) · y = −(x · y) e analogamente x · (−y) = −(x · y).
Logo (−x) · (−y) = −[x · (−y)] = −[−(x · y)] = x · y.

Exemplo 3.1. O conjunto Q dos números racionais é um corpo, com as operações ( pq ) +


′ ′)
( pq′ ) = (pq qq+pq
′ ′ ′ ′
′ e pq · pq′ = pp
qq ′
. Temos que pq = pq′ ⇔ p · q ′ = p′ · q. O simétrico de pq é − pq . O
zero é 0q , para todo q 6= 0. O inverso de pq 6= 0 é pq . A prova fica como exercı́cio.

3.2 Corpo ordenado


K é um corpo ordenado quando existe um subconjunto P de K, chamado conjunto dos
elementos positivos de K, satisfaz as seguintes condições:

P1 A soma e o produto de elementos positivos são positivos, ou seja, x, y ∈ P ⇒ x+y ∈


P e x · y ∈ P.

P2 Dado x ∈ K, exatamente uma das três alternativas ocorre: ou x = 0, ou x ∈ P ou


−x ∈ P .
3.2. Corpo ordenado 17

Podemos indicar por −P o conjunto dos elemetons −x onde x ∈ P . Temos então que
K = P ∪ (−P ) ∪ {0}, dois a dois disjuntos. Chamamos os elementos de −P de negativos.
Num corpo ordenado, se a 6= 0, a2 ∈ P , sendo a ∈ P ou −a ∈ P , pois no primeiro
caso a2 = a · a ∈ P e no segundo a2 = (−a) · (−a) ∈ P .
A relação de ordem num corpo ordenado K satisfaz as seguintes propriedades:
O1. Transitividade - se x < y e y < z então x < z.
O2. Tricotomia - se dados x, y ∈ K então x < y ou x = y ou x > y.
O3. Monotonicidade da adição - se x < y então, para todo z ∈ K, tem-se x + z < y + z.
O4. Monotonicidade da multiplicação - se x < y então, para todo z > 0, tem-se xz < yz,
se, porém, z < 0, então xz > yz.
De fato, O1. x < y ⇒ y − x > 0 e y < z ⇒ z − y > 0, ou seja por P1 temos
que (y − x) + (z − y) = z − x > 0, logo z > x. O2. Dados x, y ∈ K, y − x ∈ P ,
ou y − x = 0, ou y − x ∈ −P (x − y ∈ P ), pela P2. Temos x < y, x = y e x > y,
respectivamente, tais possibilidades se excluem devido P2. O3. Se x < y então y − x > 0,
(y + z) − (x + z) = y − z > 0, isto é, x + z < y + z. O4. Se y − x > 0 e z > 0 então
(y − x)z > 0, ou seja yz − xz > 0 ⇒ yz > xz, se y − x > 0 e z < 0 então (y − x)z < 0,
ou seja yz − xz < 0 ⇒ yz < xz.
O5. Se x < y e x′ < y ′ então x + x′ < y + y ′, de fato, (y − x) + (y ′ − x′ ) =
(y + y ′) − (x + x′ ) > 0
O6. Se 0 < x < y e 0 < x′ < y ′ então xx′ < yy ′ pois yy ′ − xx′ = yy ′ − yx′ + yx′ − xx′ =
y(y − x′ ) + x′ (y − x) > 0.
O7. Se 0 < x < y então y −1 < x−1 . Prova: como x · x1 = 1 > 0 e y · y1 = 1 > 0 então
1 · x1 = x1 > 0 e 1 · y1 = y1 > 0. Temos então que x1 · y1 > 0. Por O6, x( x1 · y1 ) < y( x1 · y1 ) ⇔
y −1 = y1 < x1 = x−1 .
Escrevemos x ≥ y quando x > y ou x = y. Denotamos xn = x.x.x.x...x (n vezes),
1n
∈ N e x−1 = x
.

Teorema 3.2 (Desigualdade de Bernoulli). Em todo corpo ordenado K, se n ∈ N e


x ≥ −1, vale (1 + x)n ≥ 1 + nx.

Demonstração. A demonstração será por indução. Para n = 1 a desigualdade é verda-


deira. Suponhamos que vale para n, provemos que vale para n + 1, de (1 + x)n ≥ 1 + nx
temos que (1 + x)n+1 = (1 + x)n (1 + x) ≥ (1 + nx)(1 + x) = 1 + nx + x + nx2 =
1 + (n + 1)x + nx2 ≥ 1 + (n + 1)x, onde a desigualdade provém do fato de x ≥ −1.

Intervalos
Dados a, b ∈ K, com a < b, usamos as notações:
[a, b] = x ∈ K; a ≤ x ≤ b, [a, b) = x ∈ K; a ≤ x < b, (a, b] = x ∈ K; a < x ≤ b,
(a, b) = x ∈ K; a < x < b, (−∞, b] = x ∈ K; x ≤ b, (−∞, b) = x ∈ K; x < b, [a, ∞) =
x ∈ K; a ≤ x, (a, ∞) = x ∈ K; a < x e (−∞, ∞) = K.
O intervalo [a, b] é um intervalo fechado, [a, b) é fechado à esquerda, (a, b] é fechado à
direita e (a, b) é um intervalo aberto. Estes são intervals limitados, já os intervalos que
18 3. Números Reais

contém −∞ ou ∞ nas extremidades são ilimitados, pois isso significa, que o intevalo tem
um começo e não tem um fim, ou ao contrário, não há um começo mas tem um fim, por
exemplo (−∞, 3], o intervalo “corre” todos os números menores ou igual a 3 e termina
ali. O intervalo total (−∞, ∞) = K pode ser considerado aberto ou fechado. O intervalo
composto por um único ponto, como é o caso de [a, a] é chamado intervalo degenerado.
Todo intervalo não-degenerado é um conjunto infinito, pelo simples fato de num corpo K,
se x < y, então x < x+y
2
< y.
Chamaremos de valor absoluto de um elemento x, como sendo x, se x ≥ 0 e −x se
x < 0, usamos o sı́mbolo |x| para indicar o valor absoluto.
(
x, se x ≥ 0
|x| =
x, se x < 0
Equivalentemente, |x| = max{x, −x}, temos assim, |x| ≥ x e |x| ≥ −x, ou seja,
−|x| ≤ x ≤ |x|, para todo x ∈ K.

Teorema 3.3. Para x, y ∈ K, sendo K um corpo ordenado, valem as relações:

i |x + y| ≤ |x| + |y|;

ii |x · y| = |x| · |y|;

iii |x| − |y| ≤ ||x| − |y|| ≤ |x − y|;

iv |x − z| ≤ |x − y| + |y − z|.

Demonstração. (i) Como −|x| ≤ x ≤ |x| e −|y| ≤ y ≤ |y| somando as desigualdades


temos −(|x| + |y|) ≤ x + y ≤ |x| + |y| temos então que |x + y| ≤ |x| + |y|.
(ii) note que, para qualquer x ∈ K, temos x2 = |x|2 pois x2 = (−x)2 , logo |x · y|2 =
(x · y)2 = x2 y 2 = (|x| · |y|)2. Como |x · y| e |x| · |y| são não-negativos, temos |x · y| = |x| · |y|.
(iii) temos |x| = |(x − y) + y| ≤ |x − y| + |y| subtraindo |y| de ambos os lados temos
|x| − |y| ≤ |x − y|, analogamente |y| − |x| ≤ |y − x| e como |y − x| =≤ |x − y| concluı́mos
que |x − y| ≥ |x| − |y| e |x − y| ≥ −(|x| − |y|) logo ||x| − |y|| ≤ |x − y|, a outra desigualdade
é óbvia. (iv) resulta de (i) aplicada à soma x − y = (x − y) + (y − z).

Um subconjunto X de um corpo ordenado K chama-se limitado superiormente quando


existe b ∈ K tal que b ≥ x para todo x ∈ X, cada b com essa propriedade é chamado de
cota superior de X. Um subconjunto X ⊂ K denomina-se limitado inferiormente quando
existe a ∈ K tal que a ≤ x para todo x ∈ X, cada a com essa propriedade é chamado de
cota inferior de X. Um subconjunto X ⊂ K é limitado quando é limitado superiormente
e inferiormente.

Teorema 3.4. Num corpo ordenado K, as seguintes informações são equivalentes:

i N ⊂ K é ilimitado superiormente;
3.3. Números reais 19

ii dados a, b ∈ K, com a > 0, existe n ∈ N tal que n · a > b;


1
iii dado qualquer a ∈ K positivo, existe n ∈ N tal que 0 < n
< a.

Demonstração. (i) ⇒ (ii) Como N é ilimitado, dados a > 0 e b ∈ K, existe n ∈ N tal que
b
a
< n, logo b < a · n.
(ii) ⇒ (iii), dado a > 0, existe n ∈ N tal que n · a > 1, então 0 < n1 < a.
(iii) ⇒ (i) dado qualquer b > 0 exitse, por (iii) um n ∈ N tal que n1 < 1b , ou seja n > b,
assim nenhum elemento maior que zero pode ser cota superior de N e um elemento menor
ou igual a zero também não pode ser. Logo N é ilimitado superiormente.

Um corpo ordenado K é arquimediano quando é válida qualquer das condições equi-


valentes citadas acima. O corpo Q é um exemplo de corpo arquimediano.

3.3 Números reais


Seja X ⊂ K, um subconjunto limitado superiormente. Um elemento b ∈ K chama-se
supremo de X quando b é a menor das cotas superiores de X em K. Ou seja, b ser
supremo implica dizer que

i) x ≤ b, para todo x ∈ X e

ii) se c < b, então existe x ∈ X; c < x ≤ b.

Analogamente, seja X ⊂ K, um subconjunto limitado inferiormente. Um elemento


a ∈ K chama-se ı́nfimo de X quando a é a maior das cotas inferiores de X em K. Ou
seja, a ser ı́nfimo implica dizer que

i) a ≤ x, para todo x ∈ X e

ii) se a < c, então existe x ∈ X; a ≤ x < c.


20 3. Números Reais
21

Capı́tulo 4

Sequências e séries de reais

4.1 Sequências
Uma sequência de números reais é uma função x : N → R. A imagem de n por x, denotada
por xn é chamada de termo de ordem n ou ainda n-ésimo termo da sequência e podemos
denotar a sequência das seguintes maneiras:

(x1 , x2 , ..., xn , ...) = (xn )n∈N = (xn ).

Não confundamos (x1 , x2 , ..., xn , ...) com {x1 , x2 , ..., xn , ...}, que é o conjunto dos termos
da sequência, ou o conjunto imagem da sequência.
A função x : N → R não é necessariamente injetora. Podemos ter xn = xm com n 6= m.
Quando a sequência (xn ) for injetiva, dizemos que a ela é uma sequência de termos dois
a dois distintos. Dizemos que a sequência (xn ) é limitada quando x(N) é limitado, ou
seja, existe a, b ∈ R tais que a ≤ xn ≤ b, para todo n ∈ N. Quando uma sequência não é
limitada dizemos que ela é ilimitada.
Uma sequêcia (xn ) é limitada inferiormente quando existe um número real a tal que
a ≤ xn para todo n ∈ N. Analogamente, (xn ) é limitada superiormente quando existe um
numéro real b tal que xn ≤ b para todo n ∈ N.
Dada uma sequência x = (xn ) de números reais, uma subsequência de x é a restrição
da função x a um subconjunto infinito (ordenado)

N′ = {n1 < n2 < ... < ni < ...}

de N. Escrevemos x′ = (xn )n∈N′ , ou (xn1 , xn2 , ..., xni , ...) ou (xni )i∈N , notação mais usual,
para indicar a subsequência x′ = x|N′
Toda subsequência de uma sequência limitada é limitada (respectivamente limitada
superiormente ou inferiormente).
Uma sequência (xn ) é crescente quando x1 ≤ x2 ≤ ..., isto é, quando xn ≤ xn+1 para
todo n ∈ N. Se xn < xn+1 para todo n, dizemos que a sequência é estritamente crescente.
22 4. Sequências e séries de reais

Analogamente, (xn ) é decrescente quando x1 ≥ x2 ≥ ..., isto é, quando xn ≥ xn+1 para
todo n ∈ N. Sexn > xn+1 para todo n, a sequência é estritamente descescente.
As sequências crescentes e decrescentes são chamadas sequências monótonas.

Teorema 4.1. Se uma sequência monótona possui subsequência limitada, então a


sequência é limitada

Demonstração. Suponha que (xn ) seja uma sequência crescente e possua uma sub-
sequência limitada, vamos mostrar que para todo n ∈ N vale xn < M para algum M.
Como a subsequência de (xn ) é limitada, então para todo n ∈ N existe n0 ∈ N tal que
n0 > n e n0 é ı́ndice da subsequência limitada e com isso temos que xn ≤ xn0 e como a
subsequência é limitada, existe M tal que xn0 < M. Daı́ por transitividade temos que
xn < M, isso implica que (xn ) é limitada superiormente e como a sequência é crescente,
ela é limitada inferiormente. Logo concluimos que (xn ) é limitada.
1
Exemplo 4.2. Seja xn = n
para todo n ∈ N. A sequência (1, 21 , 13 , ..., n1 , ...) é monótona
decrescente, limitada.

Exemplo 4.3. Seja xn = [1 + (−1)n+1 ]n/2. Então xn = n para n ı́mpar e xn = 0 para


n par. A sequência (xn ) tem a forma (1, 0, 3, 0, 5, 0, ...). Ela é limitada inferiormente,
ilimitada superiormente, não monótona. Seus termos de ordem ı́mpar constituem uma
subsequência monótona crescente ilimitada, x2n−1 = 2n − 1, enquanto os termos de ordem
par constituem uma subsequência constante, x2n = 0.

4.2 Limites de sequências


Dizemos que um número real a é limite da sequência (xn ) de números reais, e escrevemos
a = lim xn , quando para cada número real ǫ > 0 dado arbitrariamente, for possı́vel obter
um inteiro n0 ∈ N tal que |xn − a| < ǫ, sempre que n > n0 . Simbolicamente temos

lim xn = a ⇔ ∀ǫ > 0, ∃n0 ∈ N; n > no ⇒ |xn − a| < ǫ

Se lim xn = a então qualquer intervalo (a − ǫ, a + ǫ), de centro a e raio ǫ > 0, contém


todos os termos xn da sequência, com exceção no máximo de um número finito de ı́ndices
n. De fato, dado o intervalo (a − ǫ, a + ǫ), como lim xn = a, obtemos n0 ∈ N tal que
n > n0 ⇒ |xn − a| < ǫ. Ou seja, n > n0 ⇒ xn ∈ (a − ǫ, a + ǫ), assim fora do intervalo só
poderão estar, no máximo, os termos x1 , x2 , ..., xn0 .
Reciprocamente: se qualquer intervalo de centro a contém todos os xn , salvo talvez
para um número finito de ı́ndices n, então lim xn = a. Com efeito, dado qualquer ǫ > 0,
o intervalo (a − ǫ, a + ǫ) conterá todos os xn exceto para um número finito de ı́ndices n.
Seja n0 o maior ı́ndice n tal que xn ∈ / (a − ǫ, a + ǫ). Então n > n0 ⇒ xn ∈ (a − ǫ, a + ǫ),
ou seja, |xn − a| < ǫ. Isto prova que lim xn = a.
4.2. Limites de sequências 23

Dado a qualquer quando lim xn = a dizemos que a sequência (xn ) converge para
a ou tende para a e tem limite. As sequências que possuem limites são chamadas de
convergentes e as que não têm chamamos de divergentes.

Exemplo 4.4. Seja xn = 2 para todo n. A sequência xn é convergente pois lim xn = 2.

Teorema 4.5 (Unicidade do limite de sequências). Se lim xn = a e lim xn = b então


a = b.
|b−a|
Demonstração. Seja lim xn = a e b 6= a vamos tomar ǫ = 2
,ǫ > 0 temos que os
intervalos (a − ǫ, a + ǫ) e (b − ǫ, b + ǫ) são disjuntos, pois se houvesse x tal que |a − x| < ǫ
e |x − b| < ǫ somando as desigualdades terı́amos |a − x| + |x − b| < 2ǫ = |b − a| e pela
desigualdade triangular |b − a| ≤ |a − x| + |x − b| < |b − a| o que é um absurdo.
Como lim xn = a temos que existe n0 tal que para todo n > n0 vale xn ∈ (a − ǫ, a + ǫ),
logo xn 6= (b − ǫ, b + ǫ). Portanto lim xn 6= b.

Teorema 4.6. Se lim xn = a então toda subsequência de (xn ) converge para o limite a.

Demonstração. Seja (xn1 , xn2 , ..., xni , ...) uma subsequência de (xn ). Dado ǫ > 0, existe
n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ |xn − a| < ǫ. Como os ı́ndices da subsequência formam
um subconjunto infinito, existe entre eles um ni0 > n0 . Daı́, para i > i0 , sege que
ni > ni0 > n0 ⇒ |xni − a| < ǫ. Portanto lim xni = a.

Corolário 4.7. Se duas subsequências de (xn ) possuem limites distintos então (xn ) di-
verge.

Um exemplo é a sequência (1, 2, 1, 2, 1, 2...) , pois possui duas subsequências conver-


gindo para limites diferentes, logo a sequência não converge. A saber, lim x2n = 2 e
lim x2n−1 = 1

Teorema 4.8. Toda sequência convergente é limitada.

Demonstração. Seja lim xn = a. Tomando ǫ = 1, sabemos que existe n0 ∈ N tal que n >
n0 ⇒ xn ∈ (a − 1, a + 1). Consideremos o conjunto finito S = {x1 , x2 , ..., xn0 , a − 1, a + 1}
e sejam c o menor e d o maior elemento de S. Então todos os termos xn da sequências
estão contidos em [c, d], logo a sequência é limitada.

Teorema 4.9. Toda sequência monótona limitada é convergente.


Mais precisamente, se for crescente, então lim xn = sup xn e se for descrescente, então
lim xn = inf xn .

Demonstração. Sejam (xn ) uma sequência crescente limitada e a = sup{xn ; n ∈ N},


vamos mostrar que lim xn = a. Para qualquer ǫ > 0, a > a − ǫ. Temos então que a − ǫ
não é cota superior, então existe n0 tão que xn0 > a − ǫ e como a sequência é crescente
temos para n > n0 que xn ≥ xn0 logo xn > a − ǫ e a − ǫ < xn < a < a + ǫ implicando
portanto que lim xn = a. Para a sequência decrescente a demonstração é análoga.
24 4. Sequências e séries de reais

Corolário 4.10. Se uma sequência monótona possui subsequência limitada então ela é
convergente

Demonstração. De fato, a sequência será limitada e toda sequência monótona limitada é


convergente. Em especial, se uma sequência monótona possui subsequência convergente,
então essa subsequência é limitada e daı́ a sequência monótona é convergente.

4.3 Propriedades dos limites


Veremos como se comportam os limites de sequências relativamente às operações e de-
sigualdades. As demonstrações a seguir são baseadas nas demonstrações das Anotações
sobre sequências, de Rodrigo Lima, citado nas referências.

Teorema 4.11 (Limite da soma). Se lim an = a e lim bn = b então lim(an + bn ) =


lim an + lim bn = a + b.

Demonstração. Dado ǫ > 0, consideremos ǫ1 e ǫ2 tais que ǫ1 + ǫ2 = ǫ Como lim an = a


e lim bn = b existem n0 , n1 ∈ N tal que para quaisquer ǫ1 > 0 e ǫ2 > 0, vale n > n0 ⇒
|an − a| < ǫ1 e n > n1 ⇒ |bn − b| < ǫ2 . Tomando n2 = max{n0 , n1 } temos que para
n > n2 vale |an − a| < ǫ1 e |bn − b| < ǫ2 . Somando as duas desigualdades termo a termo
segue:
|an + bn − (a + b)| ≤ |bn − b| + |an − a| < ǫ1 + ǫ2 = ǫ.

Teorema 4.12. Se lim xn = 0 e (yn ) é uma sequência limitada, então lim xn yn = 0


(mesmo que não exista lim yn ).

Demonstração. Existe c > 0 tal que |yn | < c, para todo n ∈ N. Dado ǫ > 0, como
lim xn = 0, podemos encontrar n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ |xn | < cǫ . Logo, n > n0 ⇒
|xn yn | = |xn ||yn | < cǫ · c = ǫ, ou seja, isso mostra que lim xn yn = 0.

Teorema 4.13 (Limite do produto). Se lim xn = a e lim yn = b então lim xn yn = ab .

Demonstração. Temos que xn yn − ab = xn yn − xn b + xn b − ab = xn (yn − b) + (xn − a)b.


Como (xn ) é limitada e lim yn −b = 0, pelo teorema anterior temos que lim[xn (yn −b)] = 0.
Por motivo semelhante, lim[(xn − a)b] = 0. Assim lim(xn yn − ab) = lim[xn (yn − b)] +
lim[(xn − a)b] = 0,pelo Teorema 4.11. Logo lim xn yn = ab.

Teorema 4.14 (Limite do inverso). Se lim yn = b 6= 0 então lim y1n = 1b .


2
Demonstração. Temos que lim yn b = b2 , pelo teorema anterior.
 2 Tomando ǫ = b2 , existe
2 2
n0 ∈ N tal que n > n0 implica yn b ∈ (b2 − ǫ, b2 + ǫ) ⇒ yn b ∈ b2 , 3b2 assim yn b > b2 > 0,
2 1
segue disso que para n > n0 temos b2
> Sendo positivo e limitado superiormente, ( yn1 b )
yn b
.
 
é uma sequêcia limitada. Consideremos o lim y1n − 1b = lim (b − yn ) yn1 b , no numerador
4.4. Subsequências 25

temos um limite que é zero e no produto uma sequência limitada, então tal limite é zero.
Logo, lim( y1n − 1b ) = 0 ⇒ lim y1n = 1b .

O limite do quociente fica assim como um corolário do teorema anterior. Sendo


lim xn = a e lim yn = b 6= 0 então lim xynn = ab , pois lim xynn = lim xn lim y1n = a 1b = ab .

Lema 4.15. Se xn ≤ yn e lim xn = x e lim yn = y, então x ≤ y.

Demonstração. Tomemos zn = yn − xn , vale n > n0 que zn ≥ 0. A sequência (zn ) é


convergente por ser uma subtração de sequências convergentes, logo lim zn = lim yn −
lim xn ≥ 0, ou seja, x ≤ y.

Teorema 4.16 (Permanência de sinal). Se lim xn = a > 0, existe n0 ∈ N tal que n >
n0 ⇒ xn > 0, ou seja, se uma sequência tem limite positivo, a partir de um certo ı́ndice
todos os seus termos são positivos.

Demonstração. Seja ǫ = a2 > 0. Então (a − ǫ, a + ǫ) = ( a2 , 3a


2
). Existe n0 ∈ N tal que
a 3a a
n > n0 ⇒ xn ∈ ( 2 , 2 ), ou seja, xn > 2 . Assim n > n0 ⇒ xn > 0

Teorema 4.17 (Teorema do Confronto). Sejam xn ≤ yn ≤ zn para todo n ∈ N. Se


lim xn = lim zn = a então lim yn = a.

Demonstração. Dado ǫ > 0, existem n1 , n2 ∈ N tais que n > n1 ⇒ xn ∈ (a − ǫ, a + ǫ)


e n > n2 ⇒ zn ∈ (a − ǫ, a + ǫ). Tomando no = max{n1 , n2 } daı́ n > n0 implica
aǫ < xn ≤ yn ≤ zn < a + ǫ, logo lim yn = a.

4.4 Subsequências
Teorema 4.18. A fim de que a ∈ R seja limite de uma subsequência de (xn ) é necessário
e suficiente que, para todo ǫ > 0, exista uma infinidade de ı́ndices n tais que xn ∈
(a − ǫ, a + ǫ).

Demonstração. A condição, primeiramente, é necessária. De fato, seja N′ = {n1 < n2 <


... < ni < ...} ⊂ N tal que limi→∞ xni = a, com n ∈ N′ . Então, para cada ǫ > 0 existe
i0 ∈ N tal que i > i0 ⇒ xni ∈ (a − ǫ, a + ǫ). Como existem uma infinidade de ı́ndices
i > i0 , seque-se que existem infinitosni ∈ N′ tais que xni ∈ (a − ǫ, a + ǫ).
Reciprocamente, suponhamos que, para cada ǫ > 0, o conjunto {n ∈ N; xn ∈ (a −
ǫ, a + ǫ)} seja infinito. Tomando sucessivamente ǫ = 1, 21 , 31 , ... vamos obter um conjunto
N′ = {n1 < n2 < ... < ni < ...} tal que a = lim xn . De fato, seja n1 ∈ N tal que
xn1 ∈ (a − 1, a + 1). Supondo, por indução, que n1 < n2 < ... < ni foram definidos
de modo que xn2 ∈ (a − 12 , a + 12 ), ..., xni ∈ (a − 1i , a + 1i ), observamos que o conjunto
1 1
{n ∈ N; xn ∈ (a − i+1 , a + i+1 )} é infinito, logo contém algum inteiro ni+1 maior do que
n1 , n2 , ..., ni . Isso completa a definição indutiva de N ′ = {n1 < n2 < ... < ni < ...}.
1
Como |xni − a| < i
para todo i ∈ N, temos do Teorema 4.17, lim xni = a, ou seja,
26 4. Sequências e séries de reais

lim xn = a. Vemos que a é limite de uma subsequência de (xn ). Logo a condição é


também suficiente.

Um número real a é chama-se valor de aderência de um sequência (xn ) quando existe


alguma subsequência de (xn ) que convirja a a.
Seja (xn ) uma sequência limitada, com α ≤ xn ≤ β para todo n ∈ N. Definindo
Xn = {xn , xn+ , ...} temos [α, β] ⊃ X1 ⊃ X2 ⊃ ... ⊃ Xn ⊃ ... Logo, pondo an = inf Xn e
bn = sup Xn , temos

α ≤ a1 ≤ a2 ≤ ... ≤ an ≤ ... ≤ bn ≤ ... ≤ b2 ≤ b1 ≤ β

Existem, portanto, os limites

a = lim an = sup{an ; n ∈ N} = sup inf{Xn ; n ∈ N}

b = lim bn = inf{bn ; n ∈ N} = inf sup{Xn ; n ∈ N}

Vamos definir a = lim inf xn , b = lim sup xn , a como sendo o limite inferior de (xn ) e b o
limite superior (xn ). Deste modo, pelo Lema 4.15, temos que lim inf xn ≤ lim sup xn .

Teorema 4.19. Seja (xn ) uma sequência limitada. Então lim inf xn é o menor valor de
aderência e lim sup xn é o maior valor de aderência de (xn )

Demonstração. Provemos que a = lim inf xn é valor de aderência de (xn ). Usaremos o


Teorema 4.18. Dado ǫ > 0, afirmamos que existem infinitos ı́ndices n0 , n1 , n2 ... ∈ N tais
que xni ∈ (a − ǫ, a + ǫ). Isso prova pelo citado teorema, que existe subsequências de (xn )
convergindo a a, o que termina a prova de que a é valor de aderência. Provemos agora
que existe um ı́ndice n1 ∈ N tal que xn1 ∈ (a − ǫ, a + ǫ). De fato, como a = lim an ,
existe N tal que, a − ǫ < aN < a + ǫ. Daı́ a + ǫ não é cota inferior de XN . Isto é, existe
xn ∈ XN tal que aN ≤ xn < a + ǫ ⇒ a − ǫ < xn < a + ǫ. Denotamos n1 = n. Agora,
supondo a existência de {n1 , n2 , ..., nk } distintos tais que xn1 , xn2 , ..., xnk ∈ (a − ǫ, a + ǫ),
consideremos n0 =máx {n1 , ..., nk }. Como lim an = a, segue que existe N ∈ N tal que
N > n0 e tal que a − ǫ < aN < a + ǫ. Como antes, a + ǫ não é cota inferior de XN , logo,
existe xn ∈ Xn , isto é, n ≥ N, tal que an ≤ xn < a + ǫ ⇒ xn ∈ (a − ǫ, a + ǫ). Denotemos
nk+1 = n. Por indução, nossa afirmação está provada.
Mostremos agora que a é o menor valor de aderência, isto é, que nenhum número
c < a pode ser valor de aderência de (xn ). Como a = lim an , seque-se de c < a que existe
n0 ∈ N tal que c < an0 ≤ a. Como an0 = inf Xn0 , temos que n ≥ n0 ⇒ c < an0 ≤ xn .
Pondo ǫ = an0 − c, vemos que an0 = ǫ + c, logo o intervalo (c − ǫ, c + ǫ) não contém termo
xn com n ≥ n0 , isso exclui a possibilade de c ser valor de aderência da sequência.
A demonstração para lim sup é análoga.

Corolário 4.20. Toda sequência limitada possui uma subsequência convergente.


4.5. Sequência de Cauchy 27

Demonstração. De fato, sendo a = lim sup xn um valor de aderência alguma subsequência


de (xn ) converge para a.

4.5 Sequência de Cauchy


Uma sequência (xn ) de números reais é dita de Cauchy se, e somente se, para todo ǫ > 0
existe n0 ∈ N tal que m, n > n0 implica |xm − xn | < ǫ

Teorema 4.21. Toda sequência convergente é de Cauchy.

Demonstração. Seja lim xn = a e dado arbitrariamente ǫ > 0, existe n0 ∈ N tal que para
m > n0 e n > n0 temos |xm − a| < 2ǫ e |xn − a| < 2ǫ . Logo m, n > n0 ⇒ |xm − xn | ≤
ǫ ǫ
|xm − a| + |xn − a| < 2
+ 2
= ǫ o que mostra a sequência ser (xn ) de Cauchy.

Teorema 4.22. Toda sequência de Cauchy é limitada.

Demonstração. Seja (xn ) uma sequência de Cauchy, então para todo ǫ > 0 existe n0 ∈ N
tal que para m, n > n0 vale |xm − xn | < ǫ. Tomando ǫ = 1 e um número natural n1 > n0 ,
fixando m = n1 segue que |xn − xn1 | < 1, para todo n > n0 . Logo para n > n0 temos
que xn ∈ (xn1 − 1, xn1 + 1). Considerando então o conjunto A = {x1 , x2 , ..., xn1 − 1, xn1 +
1}, tomemos a = min A e b = max A então xn ∈ [a, b] para todo n ∈ N, logo (xn ) é
limitada.

Teorema 4.23. Se uma sequência de Cauchy (xn ) possui uma subsequência (xnk ) con-
vergindo para a então (xn ) é convergente e converge para a.

Demonstração. Vale lim xnk = a para algum a ∈ R, daı́ para todo ǫ > 0, existe n0 ∈ N
tal que p > n0 implica |xnp − a| < 2ǫ . Pela sequência ser de Cauchy, existe n1 ∈ N, tal que
para m, n > n1 tem-se |xn − xm | < 2ǫ . Tomamos um termo da subsequência xnt tal que
nt > n0 e nt > n1 , logo vale |xnt − a| < 2ǫ e |xn − xnt | < 2ǫ . Somando por desigualdade
ǫ ǫ
triangular temos que |xn − a| ≤ |xnt − a| + |xn − xnt | ≤ 2
+ 2
= ǫ. Portanto temos que
|xn − a| < ǫ implicando que (xn ) converge para a.

Corolário 4.24. Toda sequência de Cauchy é convergente.

Demonstração. Dada (xn ) de Cauchy, pelo Teorema 4.22, ela é limitada. Daı́ pelo Co-
rolário 4.20, (xn ) tem subsequência convergente. Portanto, segue do Teorema 4.23 que
(xn ) é convergente.

4.6 Limites infinitos


Seja uma sequência (xn ). Dizemos que lim xn = ∞ se para todo A > 0, existe n0 ∈ N tal
que n > n0 ⇒ xn > A, nesse caso dizemos que xn tente a infinito. Negar que lim xn = ∞
28 4. Sequências e séries de reais

siguinifica que existe A > 0 para todo n0 ∈ N, e existe n > n0 tal que xn < A, ou seja,
sempre haverá uma infinidade de termos menores que um certo número A.
Analogamente dizemos que lim xn = −∞ quando para todo A > 0, existe n0 ∈ N tal que
n > n0 ⇒ xn < −A.
Se lim xn = ∞ então por definição (xn ) ão é limitada superiormente, da mesma maneira
se lim xn = −∞ então (xn ) não é limitada inferiormente.

Teorema 4.25 ( Operações com limites infinitos). 1 Se lim xn = ∞ e (yn ) é limitada


inferiormente, então, lim(xn + yn ) = ∞.

2 Se lim xn = ∞ e existe c > 0 tal que yn > c para todo n ∈ N, então lim xn yn = ∞.

3 Seja xn > 0 para todo n. Então lim xn = 0 ⇔ lim x1n = ∞.

4 Sejam (xn ) e (yn ) sequências de números positivos. Então:

(a) se existem c > 0 tal que xn > c para todo n e se lim yn = 0 tem-se lim xynn = ∞.

(b) se (xn ) é limitada e lim yn = ∞ então lim xynn = 0.

Demonstração. 1) Por (yn ) ser limitada inferiormente, existe c ∈ R tal que c < yn para
todo n ∈ N. Dado A > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ xn > A − c. Logo temos que
n > no ⇒ xn + yn > A − c + c = A, assim lim(xn + yn ) = ∞.
A A
2) Dado A > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ xn > c
. Logo n > n0 ⇒ xn yn > c
c = A,
portanto, lim(xn · yn ) = ∞.
3) Suponhamos lim xn = 0, dado A > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ 0 < xn < A1
e assim, A < x1n . Logo lim( x1n ) = ∞. Analogamente, se lim x1n = ∞, dado ǫ > 0 existe
no ∈ N tal que n > n0 ⇒ x1n > 1ǫ ⇒ 0 < xn < ǫ. Logo, lim xn = 0 .
4a) Dado A > 0, existe n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ 0 < yn < Ac . Então, n > n0 ⇒ xynn >
c
c/A
= A, logo, lim xynn = ∞. 4b) Existe k > 0 tal que xn < k para todo n. Dado ǫ > 0,
k xn k
existe n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ yn < ǫ
. Então n > n0 ⇒ 0 < yn
< k/ǫ
= ǫ, logo,
lim xynn = 0.

4.7 Séries Numéricas


Seja (an ) uma sequência de números reais. Formamos agora uma nova sequência (sn )
cujos elementos são as somas s1 = a1 , s2 = a1 + a2 , · · · , sn = a1 + a2 + ... + an , e que
P
chamamos de as reduzidas da série an . O número an é chamado n-ésimo termo ou
P
termo geral da série. A série an é dita convergente se existir o limite

s = lim sn = lim (a1 + a2 + · · · an )


n→∞

P
caso contrário, diremos que an será divergente. O limite s é chamado soma da série.
4.7. Séries Numéricas 29

P
Teorema 4.26. Se an é uma série convergente então lim an = 0.

Demonstração. Seja sn = a1 + a2 ... + an . Então existe s = lim sn . Tem-se também


s = lim sn−1 . Logo, pelo Teorema 4.11 lim(an ) = lim(sn − sn−1 ) = lim sn − lim sn−1 =
s − s = 0.
P1
A recı́proca do teorema anterior é falsa, um contra-exemplo é a série harmônica n
,
seu termo geral tende a zero mas a série é divergente.
P P
Critério da comparação. Sejam an e bn séries de termos não-negativos. Se
existem c > 0 e n0 ∈ N tais que an ≤ c · bn para todo n > n0 então a convergência de
P P P
bn implica a convergência de an , enquando que a divergência de an implica a de
P P
divergência de bn . De fato, para que xn convirja a sequência das reduzidas deve ser
P P
limitada se bn convergir , sna ≤ snb < k logo an converge e se K < sna ≤ snb para
P
todo K > 0, então bn diverge.
1
[n = 0][∞]xn =
P
Teorema 4.27. Se 0 ≤ x ≤ 1, então 1−x
. Se x ≥ 1, a série diverge.
n+1
Demonstração. Se x 6= 1,sn = [k = 0][n]xk = 1−x
P
1−x
. O resultado segue se fizermos
n → ∞. Para x = 1, temos 1 + 1 + 1 + 1..., que claramente diverge.
P P
Uma série an , chama-se absolutamente convergente quando |an | é uma série con-
P P P
vergente. Quando an converge mas |an |, diremos que an é condicionalmente
convergente.
P P
Teste da razão.Sejam an uma série de termos todos não-nulos e bn uma série
|an+1| bn+1
convergente com bn > 0 para todo n. Se existe n0 ∈ N tal que |an |
≤ bn
para todo
P
n > n0 então an é convergente.
30 4. Sequências e séries de reais
31

Capı́tulo 5

Construção dos Números Reais

Este capı́tulo tem a finalidade de apresentar a construção dos números reais envolvendo
os conceitos de convergência de sequência e de sequência de Cauchy. Tal construção foi
apresentada por Georg Cantor em 1872. Cantor é conhecido por ter elaborado a teoria dos
conjuntos, criado o conceito de números transfinitos, além de ser considerado o estudioso
mais importante na história do pensamento sobre o infinito matemático.
Tomemos (xn ) e (yn ), duas sequências de Cauchy em Q, tal como enunciado em 4.5.

Mostremos que |xn − yn | é uma sequência convergente nos reais (o limite pode não ser
racional).
A sequência (xn ) é de Cauchy, logo, dado ε > 0, ∃ n0 ∈ N tal que m, n > n0 ⇒
ε
|xm − xn | < 2
e o mesmo para (yn ): m, n > n0 ⇒ |ym − yn | < 2ε .
Assim: |xn − yn | ≤ |xn − xm | + |xm − ym | + |ym − yn | ⇒ |xn − yn | − |xm − ym | ≤
|xn − xm | + |ym − yn | < ε. Ou seja |xn − yn | − |xm − ym | < ε. Temos ainda que
|xm −ym | ≤ |xm −xn |+|xn −yn |+|yn −ym | ⇒ |xm −ym |−|xn −yn | ≤ |xm −xn |+|yn −ym | < ε.

Portanto |xm − ym | − |xn − yn | < ε.
Logo a sequência (|xn −yn |) é de Cauchy, portanto convergente nos reais pelo Corolário
4.24.

5.1 Relação de equivalência


Dados (xn ) e (yn ) duas sequências de Cauchy em Q, diremos que elas são equivalentes,
denotando por (xn ) ∼ (yn ), se lim |xn − yn | = 0. Provemos que ∼ é uma relação de
equivalência. Temos que provar que ∼ é reflexiva, simétrica e transitiva. - Reflexiva
(xn ) ∼ (xn ), pois lim |xn − xn | = 0
- Simétrica
(xn ) ∼ (yn ) ⇒ (yn ) ∼ (xn ), pois lim |xn − yn | = lim |yn − xn | = 0.
- Transitiva
(xn ) ∼ (yn ) e (yn ) ∼ (zn ) ⇒ (xn ) ∼ (zn ), pois |xn − zn | ≤ |xn − yn | + |yn − zn |. Daı́
lim |xn − zn | = 0 (Teorema do confronto).
32 5. Construção dos Números Reais

5.2 Classe de equivalência, soma e produto


Tomemos A = {(xn ) sequência de Cauchy em Q} e denotemos por (xn ) = {(yn ) ∈ A
tal que (xn ) ∼ (yn )} a classe de equivalência de {xn }. Daı́ consideremos o conjunto das
A A
classes de equivalência ∼
= {(xn ); (xn ) ∈ A}. Provemos que o conjunto ∼
tem relação de
soma e de produto.
Relação de soma
(xn ) + (yn ) = (xn + yn )
A
Provemos primeiro que (xn + yn ) ∈ ∼ . Basta mostrarmos que (xn + yn ) é de Cauchy.
Dado ε > 0, tomemos n1 tal que n, m > n1 ⇒ |xn − xm | < 2ε e n2 tal que n, m > n2 ⇒
|yn − ym | < 2ε . Temos que se n, m > n0 = n1 + n2 , então |(xn + yn ) − (xm + ym )| =
|(xn − xm ) + (yn − ym )| ≤ |xn − xm | + |yn − ym | < 2ε + 2ε = ε, portanto (xn + yn ) é de
Cauchy (Teorema do confronto).
Mostremos agora que a soma esta definida, ou seja que não depende do representante.
De fato:
Tomemos (xn ) = (x′n ) e (yn ) = (yn′ ) ⇒ (xn + yn ) = (x′n + yn′ ), pois |(xn +yn )−(x′n +yn′ )| =
|(xn − x′n ) + (yn − yn′ )| ≤ |xn − x′n | + |yn − yn′ |, seguindo (Teorema do confronto) que
lim |(xn + yn ) − (x′n + yn′ )| = 0.
A
Provemos que o conjunto ∼ satisfaz as propriedades da adição. Tomemos
A
(xn ), (yn ), (zn ) ∈ ∼
- Associatividade
 
(xn ) + (yn ) + (zn ) = (xn ) + (yn + zn ) = (xn + (yn + zn )) = ((xn + yn ) + zn ) =
 
(xn + yn ) + (zn ) = (xn ) + (yn ) + (zn ).
- Comutatividade
(xn ) + (yn ) = (xn + yn ) = (yn + xn ) = (yn ) + (xn ).
- Elemento neutro
(xn ) + (0) = (xn + 0) = (xn ), ou seja (0) = {(xn ) ∈ A | lim xn = 0} é o elemento neutro.
- Inverso da soma
(xn ) + (−xn ) = (xn − xn ) = (0), ou seja ∀(xn ) existe −(xn ) = (−xn ) tal que a soma dê
(0).
Relação de produto
(xn ) · (yn ) = (xn · yn ).
A
Provemos que (xn · yn ) ∈ ∼
, para isto basta mostrarmos que (xn · yn ) é de Cauchy. De
fato, |xn ·yn −xm ·ym | = |xn (yn −ym )+ym (xn −xm )| ≤ |xn ||yn −ym |+|ym ||xn −xm | Tomemos
n1 , n2 ∈ N tais que m, n > n1 ⇒ |xn − xm | < 2Mε 1 e m, n > n2 ⇒ |yn − ym | < 2M ε
2
, em que
M1 e M2 são tais que |xn | < M1 , ∀n ∈ N e |ym | < M2 , ∀m ∈ N (conforme a demonstração
do Corolário 4.24).
Então, se m, n > n0 = max{n1 , n2 } temos que |xn · yn − xm · ym | ≤ |xn ||yn − ym | +
ε ε
|ym ||xn − xm | < M1 · 2M1
+ M2 · 2M2
= ε, provando que (xn · yn ) é de Cauchy.
Mostremos que o produto está definido (não depende do representante): Tomemos
A
5.3. Valor absoluto em ∼
33

(xn ) = (x′n ) e (yn ) = (yn′ ). Notemos que as sequências que definem tais classes são
limitadas (como recordamos acima). Assim, (xn · yn ) = (x′n · yn′ ), pois |xn · yn − x′n · yn′ | =
|xn (yn −yn′ )+yn′ (xn −x′n )| ≤ |xn (yn −yn′ )|+|yn′ (xn −x′n )|, seguindo que lim |xn ·yn −x′n ·yn′ | =
0.
Tal relação de produto satisfaz às seguintes propriedades fáceis de serem verificadas a
menos da última que verificaremos:
- Associatividade
   
(xn ) · (yn ) · (zn ) = (xn ) · (yn ) · (zn )
- Comutatividade
(xn ) · (yn ) = (yn ) · (xn )
- Elemento neutro
(xn ) · (1) = (xn ) ou seja, (1) = {(xn ) ∈ A | lim xn = 1} é o elemento neutro da multi-
plicação.
- Distributividade
 
(xn ) · (yn ) + (zn ) = (xn ) · (yn ) + (xn ) · (zn )
- Inverso Multiplicativo
Dado (xn ) 6= (0), segue que xn 6= 0 ∀n > n0 , para um certo n0 ∈ N (pois lim xn 6= 0).
A
Daı́ tomamos yn = 1/xn , para n > n0 e yn = 1, para n = 1, · · · n0 . Segue que (yn ) ∈ ∼
e (xn ) · (yn ) = (xn · yn ) = (1), pois é claro que lim xn · yn = 1, uma vez que xn · yn = 1,
∀n > n0 .

A
5.3 Valor absoluto em ∼
A

Dado (xn ) ∈ ∼ , definimos seu valor absoluto por (xn ) = lim xn . É claro que tal número
está bem definido (não depende do representante de (xn )).
A
As definições de sequência convergente e sequência de Cauchy em ∼ são como nos
A

m
reais: (xn ) m∈N é convergente a P ∈ ∼ se ∀ε > 0, existe m0 ∈ N tal que m > m0 =⇒

(xm ) − P < ε e (xm ) é de Cauchy se ∀ε > 0, existe m0 ∈ N tal que m, k > m0 =⇒
n n m∈N
m k
(xn ) − (xn ) < ε.

A
5.4 Os racionais no conjunto ∼

Dado x ∈ Q, denotemos por x∗ a seguinte sequência de Cauchy: x∗ = (x, x, x, x, x, . . .).


Assim, a aplicação ∗ : Q → A transforma cada racional em uma sequência de Cauchy.
Tal sequência x∗ é o representante da classe x∗ .

Podemos observar que x∗ = |x|. Dizemos nesse caso que a aplicação ∗ é uma
isometria.
A
 
Provemos agora que dada uma sequência de Cauchy (xm m é
n ) m∈N , em ∼ , então xn
A A
convergente a um elemento de ∼
. Isso provará que o espaço ∼
é completo, isto é toda
34 5. Construção dos Números Reais

sequência de Cauchy converge a um elemento do próprio espaço. Observe que Q não é



completo: a sequência de racionais (1, 1.4, 1.41, 1.414, · · · ) que converge a 2 é de Cauchy
em Q mas não converge a um elemento de Q.
A

Dada a sequência de Cauchy (xm n ) m∈N em ∼ , observe que para cada m ∈ N, a
sequência (xm
n )n∈N é de Cauchy (em Q). Daı́, segue que existe n0 ∈ N tal que n, nm >
1
n0 =⇒ |xm m m
n − xnm | < m . Defina xm = xnm .
Afirmamos que a sequência (xm ) ∈ A (isto é, (xm ) é de Cauchy). De fato, dado ε > 0,
tomando m0 tal que m10 < 3ε , segue que se m, k > m0 e n > max{nm , nk } =⇒ |xm −xk | ≤
1 1
|xm − xm m k k m k

| + |x − x | + |x − x | < + |x − x | + . Assim, como (xm) é de
n n n n k m n n n
k ε m∈N
Cauchy segue que para m, k suficientemente grandes, (xm k
n ) − (xn ) < 3 , e, portanto, pela
A ε
definição de valor absoluto em ∼ , segue que para n suficientemente grande |xm k
n − xn | < 3 .
A
Logo |xm − xk | < ε, provando que (xm ) é de Cauchy. Assim, (xn ) é um elemento de ∼ .

Provemos que (xm n ) m∈N converge para (xn ). Isso encerrará a demonstração.
m
De fato, dado ε > 0, para um certo m0 , se m > m0 : (xm n )−(xn ) = limn→∞ |xn −xn | <

· · · < ε.
Os três pontinhos acima podem ser completados pelo seguinte: |xm m
n − xn | ≤ |xn −
xm m0

m
n | + |xn − xm0 | + |xm0 − xn |. Daı́, desde que (xn ) é de Cauchy, existe m0 ∈ N
0

m0 ε

tal que (xmn ) − (xn ) < 3 . Além disso, como (xn ) é de Cauchy, para n suficientemente
grande, aumentando m0 , se necessário, |xn − xm0 | < 3ε . Daı́, aumentando n, se necessário,
ε 1 ε
obteremos |xm m0 m
n − xn | < 3 . Além disso, supondo m0 < 3 , seguirá que |xn − xn | < ε
1
(lembre-se que |xm
n − xm0 | < m0 ).
0

A
O conjunto ∼ é o conjunto dos números reais construı́do por Georg Cantor. Observa-
A
mos que, pela aplicação ∗ , os racionais estão ”contidos” em ∼ e tal conjunto tem todas
as propriedades que tı́nhamos nos Q. Além disso, como acabamos de ver, tal espaço é
completo: toda sequência de Cauchy nele é convergente. De uma certa forma, isto garante
A
que ∼
não tem buracos: lembre-se que, nos racionais, não é isso que ocorre.
35

Capı́tulo 6

Topologia da Reta

6.1 Conjuntos abertos


Dado um conjunto X ⊂ R, um ponto x ∈ X chama-se ponto interior de X quando existe
um intervalo aberto (a, b) tal que x ∈ (a, b) ⊂ X, ou seja, todos os pontos suficientemente
próximos de x ainda pertencem ao conjunto X. É correto dizer que x é interior se, e
somente se, existe ǫ > 0 tal que (x − ǫ, x + ǫ) ⊂ X. De fato, se x ∈ (a, b) ⊂ X, seja ǫ o
menor dos números positivos x − a e b − x, então (x − ǫ, x + ǫ) ⊂ (a, b) ⊂ X. A recı́proca
é trivial.
Equivalentemente, x é um ponto interior de X se, e somente se, existe ǫ > 0 tal que
|y − x| < ǫ ⇒ y ∈ X.
O conjunto dos pontos x ∈ X que são interiores a X é representado por int(X) e
chamado de o interior do conjunto X. Temos que int(X) ⊂ X e se X ⊂ Y então
int(X) ⊂ int(Y ).
Um conjunto A ⊂ R é um conjunto aberto quando todos os seus pontos são interiores, ou
seja, int(A) = A. Assim A é aberto se, e somente se, para cada x ∈ A existe um intervalo
aberto (a, b) tal que x ∈ (a, b) ⊂ A, ou equivalentemente, ∃ε > 0; |(x − y)| < ε ⇒ y ∈ A .
O conjunto vazio é aberto, pois um conjunto não é aberto se existe algum ponto
pertecente à ele que não é interior, como não existe ponto algum em ∅, segue que ∅ é aberto.

Teorema 6.1. a) Se A1 e A2 são conjuntos abertos então a interseção A1 ∩ A2 é um


conjunto aberto.

b) Se (Aλ )λ∈L é uma famı́lia qualquer de con juntos abertos, a união A = ∪λ∈L Aλ é
um conjunto aberto.

Demonstração. a) Se x ∈ A1 ∩ A2 então x ∈ A1 e x ∈ A2 . Como A1 e A2 são abertos,


existem ǫ1 > 0 e ǫ2 > 0 tais que (x − ǫ1 , x + ǫ1 ) ⊂ A1 e (x − ǫ2 , x + ǫ2 ) ⊂ A2 .
Seja ǫ =min{ǫ1 , ǫ2 }. Então (x − ǫ, x + ǫ) ⊂ (x − ǫ1 , x + ǫ1 ) ⊂ A1 e (x − ǫ, x + ǫ) ⊂
36 6. Topologia da Reta

(x − ǫ2 , x + ǫ2 ) ⊂ A2 logo (x − ǫ, x + ǫ) ⊂ A1 ∩ A2 . Assim todo ponto x ∈ A1 ∩ A2 é


um ponto interior, logo A1 ∩ A2 é aberto.

b) Se x ∈ A então existe λ ∈ L tal que x ∈ Aλ . Como Aλ é aberto, existe ǫ > 0 tal


que (x − ǫ, x + ǫ) ⊂ Aλ ⊂ A, logo todo ponto x ∈ A é interior, ou seja, A é aberto.

Se A1 , A2 , ..., An são subconjuntos abertos de R então A1 ∩ A2 ∩ ... ∩ An é aberto, isto


é, interseção de um número finito de conjuntos abertos é um conjunto aberto.
De fato, aplicando n − 1 vezes o Teorema 6.1 obtemos A1 ∩ A2 aberto, A1 ∩ A2 ∩ A3 =
(A1 ∩ A2 ) ∩ A3 aberto, ..., A1 ∩ ... ∩ An = (A1 ∩ ... ∩ An−1 ) ∩ An aberto.

6.2 Conjuntos Fechados


Dizemos que um ponto a é aderente ao conjunto X ⊂ R quando a é limite de alguma
sequência de pontos xn ∈ X. Todo ponto a ∈ X é aderente a X: basta tomar xn = a
para todo n ∈ N. Mas pode se ter a aderente a X sem que a pertença a X, por exemplo,
0 é aderente a (0, 1), por 0 = lim n1

Teorema 6.2. Um ponto a ∈ R é aderente a um conjunto X ⊂ R se, e somente se, para


todo ǫ > 0 tem-se X ∩ (a − ǫ, a + ǫ) 6= ∅.

Demonstração. Se a é aderente a X então a = lim xn com xn ∈ X para todo n. Dado ǫ >


0, temos xn ∈ (a−ǫ, a+ǫ) para todo n suficientemente grande. Logo (a−ǫ, a+ǫ)∩X 6= ∅.
Reciprocamente, para cada n ∈ N podemos encontrar xn ∈ X tal que xn ∈ (a − n1 , a + n1 ).
1
Isto define uma sequência de pontos xn ∈ X tais que |xn − a| < n
. Logo lim xn = a e
então a é aderente a X.

Chama-se fecho de um conjunto X ao conjunto X formado por todos os pontos ade-


rentes a X. Tem-se X ⊂ X. Se X ⊂ Y então X ⊂ Y .
Dizemos que um conjunto X é fechado quando X = X, isto é, quando todo ponto
aderente a X pertence a X. Podemos ainda dizer que para que X seja fechado é necessário
e suficiente que se xn ∈ X para todo n ∈ N e lim xn = a, então a ∈ X.

Teorema 6.3. Um conjunto F ⊂ R é fechado se, e somente se, seu complementar A =


R − F é aberto.

Demonstração. Sejam F fechado e a ∈ A, isto é, a ∈ / F . Pelo teorema anterior existe um


intervalo aberto que não contém pontos de F , isto é, V ⊂ A. Todo ponto a ∈ A é interior
a A, ou seja, A é aberto. Reciprocamente, se o conjunto A é aberto e o ponto a aderente
a F = R − A então todo intervalo de a contém pontos de F , logo a não é interior a A.
Sendo A aberto, temos a ∈ / A, ou seja, a ∈ F . Assim, todo ponto a aderente a F pertence
a F , logo F é fechado.
6.3. Pontos de acumulação 37

Teorema 6.4. a) R e o conjunto vazio são fechados.

b) Se F1 , F2 , ..., Fn são fechados então F1 ∪ F2 ∪ ... ∪ Fn é fechado.

c) Se (Fλ )λ∈L é uma famı́lia qualquer de conjuntos fechados, a interseção F = ∩λ∈L Fλ


é um conjunto fechado.

Demonstração. a) R é o complementar do aberto ∅, e ∅ é o complementar do aberto


R. b) Os conjuntos A1 = R − F1 e A2 = R − F2 são abertos,logo, pelo Teorema 6.1,
A1 ∩ A2 = R − (F1 ∪ F2 ) é aberto. Asim pelo teorema anterior F1 ∪ F2 é fechado. c) Para
cada λ ∈ L, Aλ = R − Fλ é aberto, logo A = ∪λ∈L Aλ é aberto, mas A = R − F , logo F é
fechado.

Teorema 6.5. O fecho de todo conjunto X ⊂ R é um conjunto fechado, isto é, X = X.

Demonstração. Tomemos um ponto qualque x ∈ R − X. Existe um intervalo aberto I


com x ∈ I e I ∩ X = ∅, isto é, para todo y ∈ I vale y ∈ R − X. Logo I ⊂ R − X. Isto
mostra que todo ponto x ∈ R − X é um ponto interior, ou seja, que R − X é aberto. Logo
X é fechado.

Sejam X e Y conjuntos de números reais, com X ⊂ Y . Diremos que X é denso em Y


quando todo ponto de Y for aderente a X. Por exemplo, Q é denso em R

6.3 Pontos de acumulação


Seja X ∈ R. Um número a ∈ R chama-se ponto de acumulação do conjunto X quando
todo intervalo aberto (a − ǫ, a + ǫ), de centro a, contém algum ponto x ∈ X diferente de
a. O conjunto dos pontos de acumulação de X será representado pela notação X ′ .
Exemplo: Seja X = {1, 1/2, 1/3, ..., 1/n, ...}. Então X ′ = {0}. Mais geralmente,
se lim xn = a e a 6= xn para todo n ∈ N então, pondo X = {x1 , x2 , ..., xn , ...}, temos
X ′ = {a}. Se, porém, for a ∈ X, pode-se ter X ′ = {a} ou X ′ = ∅. Por exemplo, para a
sequência (a, a, a, ..) vale X ′ = ∅. Já a sequência (a, a+ 1, a, a+ 12 , a, a+ 13 , ...) dá X ′ = {a}
38 6. Topologia da Reta
39

Capı́tulo 7

Equações diferenciais autônomas

Equações diferenciais ordinárias são equações envolvendo derivadas em que a incógnita é


uma função, isto é: y ′(x) = F (x(t), t), em que F é uma função de x(t) e t.

Exemplo 7.1. y ′(x) = x e y ′′ (x) + y ′ (x)2 = 2

Estudaremos apenas o caso em que apareça uma derivada: equações de primeira or-
dem. Além disso, veremos somente os casos em que as equações são autônomas, ou seja
quando a equação depende somente de x, não do tempo t, isto é, x′ = f (x)
Vejamos antes de tudo o Teorema de Picard que mostra a existência e unicidade da
solução de um problema de valor inicial enunciado aqui no caso especial de um problema
autônomo.

Teorema 7.2 (Teorema de Picard). Seja f : A ⊂ Rn → R localmente Lipschitziana, isto


é, para algum λ > 0, |f (x) − f (y)| ≤ λ|x − y|, ∀x, (
y ∈ A. Então, dado x0 ∈ A, existe uma
ϕ′ (t) = f (ϕ(t))
única ϕ : I ⊂ R → Rn de classe C 1 satisfazendo , onde I é o maior
ϕ(0) = x0
intervalo contendo 0 em que a ϕ está definida.

A demonstração do teorema pode ser encontrada na referência [O].


Definição: Seja uma equação x′ = f (x). Dizemos que x0 ∈ A é um ponto de equilı́brio
se f (x0 ) = 0.
Observemos que a função x(t) = x0 , para todo t ∈ R, é uma solução da equação.
Exemplo: Tomemos a equação diferencial x′ = ax. As soluções dessa equação são dadas
por x(t) = x0 eat , pois x′ (t) = ax( at
0 e = ax(t). Pelo teorema de Picard sabemos que ela é
x′ (t) = ax
única para cada x0 no problema , onde a é um parâmetro. Se o parâmetro
x(0) = x0
muda, a equação muda e as soluções também.

i) Se a > 0, então as soluções crescem ou descrescem indefinidamente, se x0 > 0 ou


x0 < 0, respectivamente;

ii) Se a = 0, x0 eat é uma constante;


40 7. Equações diferenciais autônomas

iii) Se a < 0,então as soluções tendem todas para 0, quando t → ∞.

Quando t tendem a −∞ os comportamentos são opostos.


O ponto de equilibrio nessa equação é o 0. Quando a > 0, todas as soluções diferentes de
zero tendem para longe do ponto de equilı́brio, quando t aumenta e se a < 0 as soluções
tendem para o ponto de equilı́brio.
x x

t t

Definição: O ponto de equilı́brio é dito atrator quando as soluções próximas tendem


em direção a ele. Quando elas tendem para longe do ponto de equilı́brio ele é dito repulsor.
No caso acima temos que 0 é atrator para a < 0 e repulsor quando a > 0. Representamos
o comportamento das soluções x(t) em relação ao ponto de equilı́rio pela linha de fase.
Apresentamos abaixo a linha de fase do exemplo acima:

Ponto de equilı́brio 0 é repulsor quando a > 0

Ponto de equilı́brio 0 é atrator quando a < 0

Generalizando, dada f : A ⊂ R → R, a linha de fase, pode ser feita analisando o sinal de


f . Marcamos os pontos de equilı́brio e analisamos para um dado x0 tal que f (x0 ) 6= 0 se
a solução do PVI (
x′ (t) = f (x)
x(0) = x0
é crescente ou não.
Propriedade: Num intervalo (a, b) tal que f (x) 6= 0 e f (a) = f (b) = 0, dado x0 ∈ (a, b)
então a solução x(t) definida em seu intervalo maximal IM é uma bijeção de IM sobre
(a, b).
Exemplo: Sejam as seguintes suposições sobre um modelo populacional: se a população
for pequena, a taxa de crescimento é quase diretamente proporcional ao tamanho da po-
pulação, mas se a população crescer demais, a taxa de crescimento vira negativa. Podemos
modelar essas suposições na seguinte equação diferencial:
 x
x′ = ax 1 − ,
N
7. Equações diferenciais autônomas 41

onde a e N são parâmetros positivos: a é equivalente à taxa de crescimento da população


quando x for pequeno, enquanto N representa uma população ”ideal”.
A solução da equação, que pode ser encontrada pelo método da separação e integração, é

Nx(0)eat
x(t) = .
N − x(0) + x(0)eat

x

O gráfico da função f (x) = ax 1 − N
corta o eixo x nos pontos 0 e N, que são os pontos
de equilı́brio. Quando 0 < x < N temos f (x) > 0, ou seja, as soluções que começam em
x(0) neste intervalo devem crescer até a população ideal N. Para x > N, f (x) < 0 e as
soluções que começam aı́ devem decrescer até a solução ideal N. Quando x < 0, também
f (x) < 0, e as soluções devem decrescer (embora para x < 0 não faça sentido biológico).
Assim temos que 0 é um repulsor e N é um atrator. Observemos que essas conclusões têm
relação direta com a derivada de f (x) nos pontos de equilı́brio: f ′ (x) = N a−2ax
N
, seguindo
que f ′ (0) = Na > 0 e f ′ (N) = −a < 0, determinando o sinal de f à esquerda e à direita
dos pontos de equilı́brio. Vejamos o gráfico de algumas soluções e a linha de fase:
x

0 t x=0 x=N

Definição: Dizemos que a = x0 é uma bifurcação quando as soluções a partir desse


ponto mudam de comportamento, ou seja, os pontos de equilı́brio mudam de atratores
para repulsores e de repulsores para atratores ou nenhum dos dois.

Exemplo: Consideremos a famı́lia de equações diferenciais:

x′ = fa (x) = x2 − ax = x(x − a)

que depende do parâmetro a. Os pontos de equilı́brio são x = 0 e x = a. Temos que


fa′ (0) = −a, então 0 é um atrator se a > 0 e um repulsor se a < 0. Analogamente,
fa′ (a) = a, então x = a é um atrator se a < 0 e um repulsor quando a > 0. Nós temos
uma bifurcação em a = 0 desde que há somente um ponto de equilı́brio quando a = 0.
Além disso, o ponto de equilı́brio em 0 muda de repulsor para atrator conforme a cresce
e passa por 0. O ponto de equilı́brio x = a muda de atrator para repulsor quando a passa
através de 0. Vejamos o diagrama de bifurcação dessa famı́lia:
42 7. Equações diferenciais autônomas

x x=a

Dimensão 2: Sistemas Lineares

São equações da forma :


x′ = ax + by
y ′ = cx + dy
onde a, b, c e d são constantes. Podemos abreviar esse sistema usandoa matriz dos coefi-
cientes !
a b
A= ,
c d
escrevendo o sistema como X ′ = AX. O segredo para resolver essa equação está em
procurar um vetor V0 não nulo para o qual temos AV0 = λV0 onde λ ∈ R. Então a função
X(t) = eλt V0 é uma solução para o sistema. De fato:

X ′ (t) = λeλt V0 = eλt (λV0 ) = eλt (AV0 ) = A(eλt V0 ) = AX(t)

Definição: O vetor V0 6= 0 é chamado autovetor de A se AV0 = λV0 para algum λ. A


constante λ é chamada autovalor de A.
Da Álgebra Linear temos que podemos encontrar os autovalores da seguinte forma:
soluções reais de det(A − λI) = 0, onde I é a matriz identidade. Denominamos essa
equação como equação !
do polinômio
! caracterı́stico. Após encontrado o λ, resolvemos a
x 0
equação (A − λI) = para identificarmos os autovetores. Se encontramos
y 0
autovalores λ1 6= λ2 e respectivamente seus autovalores V1 e V2 , obtemos duas soluções
para o sistema: X1 (t) = eλ1 t V1 e X2 (t) = eλ2 t V2 . Como encontrar todas as soluções do
sistema usando X1 e X2 ? Não é difı́cil mostrar que V1 e V2 formam uma base de R2 . Daı́,
dado qualquer ponto Z0 ∈ R2 podemos escrevê-lo da forma Z0 = αV1 +βV2 , onde α e β são
um par único de números reais. Agora consideremos a função Z(t) = αX1 (t) + βX2(t). É
fácil ver que Z(t) é uma solução de X ′ (t) = AX(t). Podemos concluir o seguinte teorema:

Teorema 7.3. Suponhamos que A tenha um par de autovalores λ1 6= λ2 associados a


autovetores V1 e V2 . Então a solução geral do sistema linear X ′ = AX é dado por

X(t) = αeλ1 t V1 + βeλ2 t V2


7. Equações diferenciais autônomas 43

Retrato de fase de sistema planares


Autovalores reais e distintos

Considere X ′ = AX e suponha que A possua dois autovalores reais λ1 < λ2 . Assumiremos,


por enquanto, que esses autovalores são não-nulos. Existem três casos a se considerar:
λ1 < 0 < λ2 , λ1 < λ2 < 0 ou 0 < λ1 < λ2 Veremos um exemplo especı́fico dos dois
primeiros casos. Tais exemplos são modelos para os casos gerais.
Exemplo λ1 < 0 < λ2 (Sela)
Consideremos o sistema X ′ = AX onde
!
λ1 0
A=
0 λ2

com λ1 < 0 < λ2 . Isso pode ser resolvido desde que o sistema separa-se em duas equações
de primeira ordem não relacionadas:

x′ = λ1 x
y ′ = λ2 y

Precisamos encontrar os autovalores e os autovetores. O polinômio caracterı́stico é (λ −


λ1 )(λ − λ2 ) = 0, logo os autovalores são λ1 e λ2 e dois autovetores são (1, 0) e (0, 1)
correspondentes a λ1 e λ2 , respectivamente. Com isso temos a solução geral
! !
1 0
X(t) = αeλ1 t + βeλ2 t .
0 1

Sendo λ1 < 0 as soluções da forma αeλ1 t (1, 0) ficam no eixo x e tendem a (0, 0) quando
t → ∞. Esse eixo é chamado de linha estável. Sendo λ2 > 0, as soluções βeλ2 t (0, 1) ficam
no eixo y e tendem para longe de (0, 0) quando t → ∞. Esse eixo é chamado de linha
instável. Todas as outras soluções, com α, β 6= 0, tendem ao infinito na direção da linha
instável, quando t → ∞, desde X(t) vai se aproximando de (0, βeλ2 t ) quando t aumenta.
Em tempo reverso, essas soluções tendem a infinito na direção da linha estável. Vejamos
o retrato de fase da sela:

Quando tivermos λ1 < λ2 < 0, temos o que chamamos de atrator.Vejamos o retrato de


44 7. Equações diferenciais autônomas

fase:

Ainda temos o repulsor (0 < λ1 < λ2 ) em que o comportamento é o “oposto” do atrator.


Além disso temos os casos em que autovalores são reais e iguais e o caso dos autovalores
complexos, foco de um próximo trabalho.
45

Referências Bibliográficas

[1] LIMA, E. L., Curso de Análise volume 1, Rio de Janeiro. Associação Instituto
Nacional de Matemática Pura e Aplicada, 2002. 344 pp.

[2] RUDIN, W., Principles of Mathematical Analysis, International series in pure


and applied mathematics. McGraw-Hill, Inc, 1976. x+342 pp.

[3] DOMINGUES, H.H ; IEZZI,G. Álgebra Moderna 3.ed. Atual Editora, 2000,
iv+263pp.

[4] OLIVEIRA, C.R., Introdução à Análise Funcional, 2.ed., Publicações Ma-


temáticas - IMPA, 2007, viii+207pp.

[5] LIMA, R.C.S. Anotações sobre sequências Disponı́vel em


https://bmpa.wordpress.com/2012/04/29/minhas-anotacoes/, acesso 02.jul.2015