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Teste de avaliação 1

Português, 12.º ano


Fernando Pessoa – Poesia do ortónimo

GRUPOI (100 PONTOS)

Lê o poema.
MADRUGADAS

Em toda a noite o sono não veio. Agora


Raia do fundo
Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.
Que faço eu no mundo?
5 Nada que a noite acalme ou levante a aurora,
Coisa séria ou vã

Com olhos tontos da febre vã da vigília


Vejo com horror
O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim
1 Do mundo e da dor –
0
Um dia igual aos outros, da eterna família
De serem assim.

Nem o símbolo ao menos vale, a significação


Da manhã que vem
1
Saindo lenta da própria essência da noite que era,
5 Para quem,
Por tantas vezes ter sempre ‘sperado em vão,
Já nada espera.

PESSOA, Fernando (2005). Poesia 1918-1930. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 99-100.

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.

1. Identifica e caracteriza os momentos temporais representados na primeira estrofe.


(20 PONTOS)

2. Comenta a expressividade da interrogação retórica “Que faço eu no mundo?” (v. 4).


(20 PONTOS)

3. Identifica as razões do “horror” referido no verso 8.


(20 PONTOS)
B

Lê o soneto.

Com grandes esperanças já cantei


Com grandes esperanças já cantei,
com que os deuses no Olimpo conquistara;
despois vim a chorar porque cantara
5
e agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,


custa-me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
1 tenho pola mor mágoa que passei.
0

Pois logo, se está claro que um tormento


dá causa que outro n’alma s’ acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?


1 Oh! ocioso e cego pensamento!
5 Ainda eu imagino em ser contente?

CAMÕES, Luís de (1994). Rimas. Coimbra: Almedina, p. 165.

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.

4. Com base nos versos 1 a 11, traça o perfil do sujeito poético, no momento
presente. (20 PONTOS)

5. Identifica a função do segundo terceto, na estrutura global do soneto.


(20 PONTOS)

GRUPO (50 PONTOS)


II

Fernando Pessoa – o Romance


Por uma feliz coincidência, acabei hoje de ler o livro Fernando Pessoa –
o Romance. Na verdade, faz hoje 80 anos que foi editado Mensagem, o único
livro a sério que Fernando Pessoa conseguiu publicar. Toda a sua vasta obra
5 tem estado a ser publicada ao longo das últimas décadas e há ainda muito
material a ser estudado, com vista à sua publicação. Além disso, ocorreu
ontem, dia 30 de novembro, o 79.º aniversário da morte deste grande poeta,
filósofo e ensaísta, hoje um dos maiores pilares da moderna literatura portu-
guesa.
Sónia Louro construiu uma narrativa verdadeiramente
1 inovadora, ao es- crever um volume de mais de 400 páginas
0
pela boca da própria personagem
e quase integralmente composta por textos da autoria do próprio Fernando Pessoa. Mesmo
quando
não é texto escrito pela mão do poeta, bem que o podia ter sido, porque a autora soube muito
bem

meter-se na pele dele, escrever como ele o faria e construir uma trama com nexo e sequência.
Soube
1 muito bem contornar o risco que correu de estender uma manta de retalhos composta por
5
centenas de
citações. É “o romance” de Fernando Pessoa, mas quem de tal não estivesse informado, bem
o consi-deraria uma autobiografia do poeta. Muito esotérica e filosófica, na verdade, mas este
era um traço da
personalidade da personagem que a autora bem soube captar.
2 Poderão alguns ter receio de se abalançar à leitura deste livro, temendo que seja um
0
monólogo
comprido, enfadonho e cansativo. Garanto que não é. Para além da constante intromissão no
monó- logo dos heterónimos que acompanharam Fernando Pessoa ao longo da sua vida (uns
durante mais
2 anos, outros menos), a autora apresentou-nos passagens de diálogos e troca de ideias (até
5
piropos)
com os heterónimos, especialmente o Engenheiro Álvaro de Campos, que o acompanhou até
à hora da
morte e o ajudou a libertar-se do fardo da vida terrena.
Através da prosa de Sónia Louro, ficamos a conhecer a personalidade de Fernando Pessoa:
3 a sua
0
timidez mórbida, a sua dificuldade de relacionamento com os outros e de amar, o seu
racionalismo, os
seus traumas, o seu receio constante de enlouquecer, a sua incapacidade de se dedicar a uma
coisa de
cada vez, o que o impossibilitou de terminar aquilo que começava e mostrar ao mundo a sua
3
5 extraor-dinária produção literária. Sendo um desadaptado permanente, refugiou-se nas várias
personalidades
que criou para si próprio, nas quais sublimava as suas frustrações. Porém, tal não foi
suficiente e, infe-lizmente, acabou refém do alcoolismo que apressou o fim dos seus dias.
Tudo isto nos é relatado neste
livro com uma tal nitidez, que nós, leitores, quase acabamos a sentir-nos na pele de Fernando
Pessoa, a
sofrer com ele e a querer levá-lo pela nossa mão, como criança que, no fundo, ele nunca
deixou de ser
até à morte.
Podia salientar várias passagens que mais me marcaram, mas refiro somente a descrição da
visita à
Quinta da Regaleira, uma narrativa de grande lirismo, com esoterismo, suspense e erotismo à
mistura.
Verdadeiramente sublime.
Depois do que fica dito, penso não ser necessário recomendar a leitura deste livro, que
considero
o melhor dos que li da autora.
BARATA, Sebastião, “Fernando Pessoa – o Romance”, 01-12-2014 [Em linha].
Segredo dos Livros [Consult. em 07-11-2016].
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.

1. Este texto classifica-se como


(5 PONTOS)
(A) relato de viagem.
(B) exposição sobre um tema.
(C) artigo de opinião.
(D) apreciação crítica.

2. O primeiro parágrafo é marcado pela abundância de deíticos


(5 PONTOS)
(A) espaciais.
(B) pessoais de 2.ª pessoa.
(C) temporais que remetem para um tempo anterior à enunciação.
(D) temporais que remetem para um tempo posterior à enunciação.

3. De acordo com o autor, uma das mais-valias de Fernando Pessoa – o Romance é


(5 PONTOS)
(A) integrar excertos dispersos da obra do próprio Pessoa sem preocupação de
progressão temática.
(B) ter sido publicado no 79.º aniversário da morte de Fernando Pessoa.
(C) consistir num monólogo enfadonho e repetitivo.
(D) construir um fio condutor narrativo a partir de citações de Pessoa.

4. A afirmação “Poderão alguns ter receio de se abalançar à leitura deste livro,


temendo que seja um monólogo comprido, enfadonho e cansativo.” (ll. 18-19)
(5 PONTOS)
(A) introduz um contra-argumento que será refutado de seguida.
(B) inicia um argumento que será exemplificado posteriormente.
(C) corresponde a um exemplo que ilustra o ponto de vista do autor.
(D) sintetiza a informação apresentada no parágrafo anterior.

5. O vocábulo “Porém” (l. 29) contribui para o estabelecimento da coesão


(5 PONTOS)
(A) lexical.
(B) gramatical referencial.
(C) gramatical frásica.
(D) gramatical interfrásica.

6. O constituinte “o melhor dos que li da autora” (l. 38) desempenha a função sintática
de (5 PONTOS)
(A) sujeito.
(B) predicado.
(C) complemento direto.
(D) predicativo do complemento direto.

7. A oração “Sendo um desadaptado permanente” (l. 28) tem um valor


(5 PONTOS)
(A) causal.
(B) temporal.
(C) condicional.
(D) concessivo.

8. Identifica o valor temporal veiculado no enunciado “Toda a sua vasta obra tem
estado a ser publicada ao longo das últimas décadas” (ll. 3-4).
(5 PONTOS)

9. Justifica o uso das aspas a delimitar a expressão “o romance” (l. 15).


(5 PONTOS)

10. Identifica o antecedente de “o que ” (l. 27).


(5 PONTOS)

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