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Produto REO-06– Filosofia do Direito (GDI163)

Docente: Prof.ª Dra. Leticia Garcia Ribeiro Dyniewicz Data: 17/08/2020


Discentes: Emmanuel de Lima Porto – 201610386
Luis Felipe Braga Resende – 201611383
Mauro Lucas França Dutra – 201610661
Rangel Mendes Francisco – 201611386

A epistemologia queer e o caso da censura de literatura infanto-juvenil com


temática LGBTQI+ na Bienal do Livro de 2019 por meio da Suspensão nº 0056881-
31.2019.8.19.0000

O presente texto tem como objetivo explanar certos atributos da teoria queer,
tendo como ponto de partida o texto A epistemologia do armário (2007), de Eve
Sedgwick. Para isso, será usada como pano de fundo a Suspensão nº 0056881-
31.2019.8.19.0000, que autorizou a retirada de livros com temática LGBTQI+ da Bienal
do Livro de 2019.
A discriminação contra pessoas não-heterossexuais é flagrante e se manifesta
nas estruturas do cotidiano. Eve Sedgwick, a partir do texto supramencionado, pretende
demonstrar como tal discriminação se apresenta a partir de arquétipos heteronormativos
tidos como padrões, sinalizando também as nuances que permeiam tal discussão.
Mesmo havendo luta pela igualdade e pela não descriminação, como nos movimentos
iniciados a partir de 1960, apontados por Sedgwick, estruturalmente ainda se vê que
padrões normalizados se dão apenas ao redor da heterossexualidade (SEDGWICK,
2007, p.21).
Também por isso que, a cada nova experiência, pessoas não-heterossexuais
precisam revelar àqueles que se encontram dentro do padrão, qual a sua orientação
sexual. Há, portanto, uma nova “saída do armário” em cada nova interação:

Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais


assumidamente gays há pouquíssimas que não estejam no
armário com alguém que seja pessoal, econômica ou
institucionalmente importante para elas. Além disso, a elasticidade
mortífera da presunção heterossexista significa que, como Wendy
em Peter Pan, as pessoas encontram novos muros que surgem à
volta delas até quando cochilam. Cada encontro com uma nova
turma de estudantes, para não falar de um novo chefe, assistente
social, gerente de banco, senhorio, médico, constrói novos
armários cujas leis características de ótica e física exigem, pelo
menos da parte de pessoas gays, novos levantamentos, novos
cálculos, novos esquemas e demandas de sigilo ou exposição
(SEDGWICK, 2007, p.23).

Ainda, afirma-se que sair do armário “pode trazer a revelação de um


desconhecimento poderoso como um ato de desconhecer, não como o vácuo ou o vazio
que ele finge ser, mas como um espaço epistemológico pesado, ocupado e consequente”
(SEDGWICK, 2007, p. 35).
Sedgwick também trata do binarismo existente entre “segredo” e “revelação”,
que ainda hoje é presente, mas que se viu mais diretamente no século XIX, na Europa e
nos Estados Unidos, em que a homossexualidade só poderia ser aparente na vida
privada das pessoas, de modo a não causar problemas nas estruturas sociais e
econômicas, que eram dominadas por indivíduos, pelo menos publicamente,
heterossexuais (SEDGWICK, 2007, p. 26). Tal repulsa à homossexualidade, como
lembra a autora, foi bem explicada por Michael Focault, autor que demonstrou como
questões sexuais tornaram-se protagonistas do conhecimento e como só podia haver
representação da sexualidade em segredo, vez que vigorava a proibição do amor entre
duas pessoas do mesmo sexo.
Como decisões do judiciário podem refletir os apontamentos levantados por
Sedgwick? No ano de 2019, na Bienal do Livro, evento que acontecia na cidade do RJ,
o prefeito Marcelo Crivella, ao saber que livros destinados ao público infanto-juvenil
continham imagens relativas à romances LGBTQI+, determinou que funcionários da
administração retirassem as obras do evento. O Desembargador Heleno Ribeiro Pereira
proferiu decisão que apontava para que as obras permanecessem no evento, mas o
presidente do Tribunal de Justiça – o Desembargador Claudio De Mello Tavares - optou
por suspendê-la. Como embasamento, afirmou:

[...] não se tratar de ato de censura, mas reputa ser inadequado que
uma obra de super-heróis, atrativa ao público infanto-juvenil a que se
destina, apresente e ilustre o tema da homossexualidade a adolescentes
e crianças sem que os pais sejam devidamente alertados, com a
finalidade de acessarem informações a respeito do teor das
publicações disponíveis no livre comércio, antes de decidirem se
aquele texto se adequa ou não a sua visão de como educar seus filhos
(BRASIL, 2019, p.2)
É facilmente observável que o presidente do tribunal manifesta uma visão
pertencente a um espectro heteronormativo e que reflete alguns dos apontamentos feitos
por Sedgwick. Ele certamente seria incapaz de fundamentar sua decisão sem recorrer a
esta visão que só se sustenta dentro de dogmas padronizados. No que se difere um
romance entre personagens heterossexuais e entre personagens LGBTQI+?
Tal decisão manifesta o ideal de que o que constitui o “normal” dentro de nossa
sociedade é aquilo refletido pela heteronormatividade, e que qualquer obra que desafie
tais padrões é ofensiva ou ameaçadora, precisando estar sob vigia ou fiscalização.
Isso se manifesta com maior clareza neste ponto da decisão:

Não houve impedimento ou embaraço à liberdade de expressão,


porquanto, em se tratando de obra de super-heróis, atrativa ao público
infanto-juvenil, que aborda o tema da homossexualidade, é mister que
os pais sejam devidamente alertados, com a finalidade de acessarem
previamente informações a respeito do teor das publicações
disponíveis no livre comércio, antes de decidirem se aquele texto se
adequa ou não à sua visão de como educar seus filhos [...]
configurados o manifesto interesse público e a grave lesão à ordem
pública que a decisão judicial impugnada está a causar, há de ser
deferido o pedido de suspensão, com fundamento no artigo 4º da Lei
nº 8.437/92 (BRASIL, 2019, p. 3-4).

Para além do flagrante atentado à liberdade de expressão, achar que o público


infanto-juvenil não deve poder ter contato com esse tipo de obra, por correr risco de
qualquer prejuízo, certamente coloca manifestações LGBTQI+ em nível de censura
parecido com aquele ocorrido na Europa e nos EUA, no século XIX, citado
anteriormente.
Caso o referido desembargador - que proferiu tal decisão - fosse homossexual,
ela poderia ter sido diferente? E qual poderia ser o efeito disso sobre a comunidade
LGBTQI+? É possível, sim, que se decidisse de forma diversa, mas não
necessariamente haveria, a partir do ato proferido por uma pessoa em posição de poder,
um impacto significativo nas estruturas sociais. Como apontado por Sedgwick, é muito
difícil que tais estruturas enraizadas sejam mudadas com base na ação de um indivíduo,
independentemente de sua posição social. Assim, não basta que haja, dentro da estrutura
social contemporânea, algumas pessoas decidindo positivamente pelo o público
LGBTQI+, é preciso que se parta da observação das estruturas distintivas da
epistemologia do armário
Além disso, há uma outra questão extremamente relevante trazida pela autora. A
teoria queer não busca apenas apontar o funcionamento e a opressão gerada por padrões
heteronormativos, mas romper também com os estereótipos que se colocou sobre
pessoas LGBTQI+. Pessoas não-heterossexuais não necessariamente consumirão apenas
literatura com temática LGBTQI+, e, por isso, não se pode dizer também que, caso o
público infanto-juvenil não consumisse tal tipo de literatura, ele não poderia se sentir
contemplado ou até mesmo se “descobrir” e, com isso, ter sua “saída do armário”
prejudicada. Certamente, essa pode ser a situação de alguns indivíduos, mas a teoria
queer demonstra que não se pode colocar todo um grupo dentro de um estereótipo, pois
isso também é contraproducente.
Tendo em vista o que foi aqui apresentado, conclui-se que Sedgwick apresenta
importante contribuição para que se reflita sobre o padrão heteronormativo vigente, e é
preciso pensar em como isso exerce influência dentro do judiciário. Mas, além disso,
também é necessário que se busque o abandono dos estereótipos que permeiam a visão
da sociedade sobre a comunidade LGBTQI+, e que muitas vezes são normalizados por
setores progressistas que, mesmo involuntariamente, acabam por agir de forma
contraproducente.

REFERÊNCIAS

SEDGWICK, Eve Kosofsky. A epistemologia do armário. Cadernos Pagu, Campinas,


v. 28, n. 1, jan./jun. 2007, p. 19-54.
TJ-RJ. Suspensão nº 0056881-31.2019.8.19.0000. Desembargador Claudio De Mello
Tavares. Rio de Janeiro, 07 de setembro de 2019. Disponível em:
<https://www.migalhas.com.br/arquivos/2019/9/art20190907-02.pdf). Acesso em: 15
ago. 2020.