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Universidade Federal Fluminense

Programa De Pós-Graduação Em Ciências Políticas


Teoria Política Contemporânea – 1/2019
Milla Karla Coqui De Oliveira

Resumo – Locke

O segundo tratado sobre os governos

Valendo-se de concepções previamente discutidas no pensamento hobbesiano,


como a noção de indivíduo, de direito e lei naturais e de contrato, John Locke (1632 –
1704) criou seu próprio arcabouço teórico para compreensão da natureza humana e das
estruturas que derivaram da existência da humanidade, como a política. No cerne de
toda a filosofia lockiana está a ideia de propriedade. É a partir desse conceito que Locke
pensa o homem em seu estado de natureza e a saída dele, por meio de uma teoria do
Contrato diferente da de Hobbes.

Em O segundo tratado sobre os governos, Locke descreve o estado de natureza


como um estado no qual o indivíduo goza de plena liberdade sobre suas ações e suas
posses e de igualdade (LOCKE, p. 382) (apesar de reconhecer a desigualdade natural,
do corpo e do intelecto que, no entanto, não era suficiente para determinar o domínio de
uns sobre os outros). Nota-se, aqui, que a propriedade é um elemento natural, inerente à
espécie humana. As primeiras propriedades do homem são o seu corpo e a sua mente,
sobre os quais ele possui o direito natural de livre usufruto e, pela lei natural, está
obrigado a garantir a preservação desses bens (LOCKE, p. 395), à autodefesa, de forma
passional e instintiva.

A lei da natureza, que rege o estado de natureza lockiano, é racionalizada a partir


do entendimento de que todos são, à exceção de algumas distinções ínfimas, iguais, de
modo que todos possuem iguais condições de defender-se, sendo irracional a tentativa
subordinação de uns aos outros. Dado esse estado de igualdade, todos também detém o
direito de assegurar que a lei natural seja observada caso os seus direitos (à vida,
liberdade, saúde, integridade ou bens) ou de outra pessoa, sejam violados, por meio do –
legítimo – castigo ao transgressor1. Consequência desse raciocínio é que a lei da
1
P. 386 E desse modo um homem obtém poder sobre outro no estado de natureza; não se trata, porém, de
um poder absoluto ou arbitrário (...) mas apenas para retribuir, conforme dita a razão calma e a
consciência, de modo proporcional à transgressão, ou seja, tanto quanto possa servir para a reparação e a
natureza e a razão indicam até que ponto o homem deve fazer valer sua própria
vontade2, ao que criam regras de conduta que buscam garantir a preservação da paz e da
propriedade, a partir de uma noção de moralidade resguardada em um sistema de
coerção.

Isto posto, é possível inferir que o estado de natureza no qual liberdade e


igualdade são plenas, é um estado de isolamento. A interação entre os homens, ainda
nesse estado, produziu uma lei para a preservação dos mesmos, ou seja, o estado de
natureza em Locke, apesar de não ser um estado caótico de todos contra todos, como em
Hobbes, é um estado de inconveniência, porquanto pode converter-se em um estado de
guerra (LOCKE, P. 397), representando instabilidade à preservação da propriedade.
Foram as regras de conduta, oriundas da lei da natureza e da razão na qual ela se
fundamenta que permitiram a convivência em sociedade. Pode-se retirar, já daqui, a
noção de direitos e deveres, como limitadores entre si. O direito de um indivíduo é o
dever do outro, noção materializada no contrato (convencionada pela sociedade civil e
institucionalizada na figura do Estado).

Os códigos éticos e morais se constituem ao passo que pequenas convenções vão


se estabelecendo de acordo com o consentimento dos indivíduos, que paulatinamente
abdicam da liberdade natural (plena), para viver no limite da liberdade do outro:
“Portanto, sempre que qualquer número de homens estiver unido numa sociedade de
modo que cada um renuncie ao poder executivo da lei da natureza e o coloque nas mãos
do público, então, e somente então, haverá uma sociedade política ou civil.” (p. 460)
Esse é o primeiro pacto, entre os homens, para a manutenção da paz e da propriedade,
um pacto progressivo, que é ampliado conforme novos códigos morais (direitos e
deveres) são estabelecidos. O filósofo argumenta que esse corpo político
obrigatoriamente move-se para um lado, e que a sua existência só é lógica se forem
seguidas as determinações da maioria (uma vez que é impossível que cada vontade
individual seja contemplada) (LOCKE, p. 469). Ele também questiona como será
garantida a determinação da maioria se não houver nenhum outro vínculo, além
daqueles do estado de natureza, que obrigue as determinações opostas e controle as
liberdades, concluindo que a primeira parte do pacto não tem significado sem a criação

restrição.
2
(...) a liberdade do homem e a liberdade de agir conforme sua própria vontade baseiam-se no fato de ser
ele possuidor de razão, que é capaz de instruí-lo sobre a lei pela qual ele deverá governar e de fazer com
que saiba até que ponto pode dar-se à liberdade de sua própria vontade. P. 438
de um mecanismo para tal função. Disso, decorre o segundo pacto. O segundo pacto é
entre essa sociedade formada e um terceiro ator, o Estado, administrado por um
governo, o qual recebe do corpo de indivíduos a autorização do exercício do direito
natural. Essa entidade, uma ficção jurídica criada para resguardar as convenções
estabelecidas entre os homens, absorve a moralidade e aplica as leis estabelecidas
nessas convenções. Caso perca a sintonia com a sociedade civil e falhe na manutenção
das convenções (do consentimento da maioria), o sistema de Locke prevê o direito à
rebelião, já que essa é a razão da existência de tal entidade.

A hierarquia no surgimento dos pactos mostra a precedência do indivíduo em


relação à sociedade, marcando um dos principais axiomas do liberalismo. A propriedade
como direito natural, a racionalidade inerente à essência humana e a conformação de
uma sociedade política com o intuito de resguardar a liberdade, são pedras angulares no
pensamento do pai do liberalismo. Ser livre, em Locke, é possuir aquilo que o seu
trabalho pode produzir e que deve ser a medida que cada indivíduo consegue desfrutar.
Uma vez que a capacidade de produzir deriva, para ele, das capacidades físicas e
intelectuais e como essas seriam mais ou menos iguais em todos, o sistema lockiano
previa um mundo de pequenos proprietários.