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Marcos Staub

Simão Mago
A saga de um mago moderno

Gráfica e Editora 3 de Maio Ltda.


Blumenau, 2018
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser repro-
duzida por qualquer meio, sem autorização prévia do(a) autor(a) por escrito.
Esta obra foi impressa com recursos próprios do autor.
Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme Leis N. 10.994, de 14/12/2004
e 12.192, de 14/01/2010.

Ilustrações: Juliano Amorim ( Jub Lee)


Revisão: Ines Staub Araldi
Autor: Marcos Antonio Staub
Contatos do Autor: omega.corp@ymail.com

S798s Staub, Marcos.


Simão Mago : a saga de um mago moderno / Marcos
Staub. – Blumenau : 3 de Maio, 2018.
94 p. : il.

ISBN: 978-85-5573-184-6

Dedicatória
1. Magia – Feitiçaria. 2. Esoterismo. 3. Alquimia.
4. Maçonaria – Simbologia. I. Título.
DD 22 – 133.43
A minha esposa, leal companheira, e
Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Sandra Cristina da Silva, Msc. – CRB 14/945 a todos que buscam fazer o bem.

Impresso no Brasil
Sumário
Capítulo l - Quem Sou Eu? 7

Capítulo II - A Bruxa 15

Capítulo III - Salvator Mundi 21

Capítulo IV - A Feiticeira de Évora — Poderosa Bruxa 31

Capítulo V - Iniciação a Magia Negra 45

Capítulo VI - Tentação de Simão 53

Capítulo VII - Mago Adormecido 61

Capítulo VIII - O Mago Visita o Passado 69

Capítulo IV - Iniciação a Maçonaria 79

Capítulo X - O Simbolismo Maçonico 85


Capítulo l
Quem Sou Eu?

Todo aquele que não é iniciado, em vão


pretende conhecer os mistérios ocultos.
O Livro Egípcio Dos Mortos.

7
S
ou conhecido na comunidade esotérica como Simão Mago. Isso
implica que sou sucessor de Simão Mago, contemporâneo de Cris-
to. E é com essa identidade que vou revelar aos Amentibus (não
iniciados) como conheci a Magia.
Sou um filho de uma família de sete irmãos e sete irmãs. Nasci em
1972 aos 29 dias do mês 05. Aos sete anos, acidentalmente, fui apresen-
tado aos mistérios da magia1.
Era um menino franzino, magérrimo. Costelas aparecendo, joe-
lhos nodosos, braços finos, cabeça grande, argúcia descomunal... E a
curiosidade de um menino. A casa era grande, porém módica para aco-
modar sete irmãos e sete irmãs, o pai e a mãe. Havia quartos com uma
ou duas camas grandes nas quais dormiam dois ou três meninos e outros
em que dormiam em cada cama duas ou três meninas. À mesa do jantar
podiam sentar-se até dez pessoas. Desta forma, as crianças mais novas
não se sentavam à mesa. Os serviços domésticos ficavam sob a responsa-
bilidade da mãe que os revezava com as filhas. A comida frugal, embora
suficiente, nem sempre era apetitosa. Já os serviços da fazenda eram atri-
buídos aos meninos, sob o comando intransigente do pai. Consistiam
basicamente em arar, enxadar, sulcar, semear e colher dos mais diversos
tipos de plantação, grãos e sementes, hortaliças e frutas; além de tutelar
animais de lactação, ovos e carnes. A rotina era, por vezes, extenuante.
Demasiado pesada para um menino fisicamente fraco.
As roupas eram costuradas à máquina pela mãe, em moldes li-
neares que não se ajustavam aos contornos do corpo. Pareciam ter sido
feitas para o homem de lata, do Mágico de Oz. E eram confeccionadas
1 Numerologia: 5- A estrela de cinco pontas, o pentágono, simboliza os quatro membros do homem
mais a cabeça. É o homem perfeito com as cinco qualidades (bondade, justiça, amor, sabedoria
e verdade), Deus manifestado no Ser. 7- É o número da perfeição, integra os dois mundos e é
considerado símbolo da totalidade do Universo em transformação..9- Tem um significado extre-
mamente poderoso. Ele reforça o triplo poder do número 3 e, logo, das tríades sagradas (Pai, Filho
e Espírito Santo.
Simão Mago ou Simão, o Mago é um personagem bíblico com quem o apóstolo Pedro travou po-
lémica em Samaria (Atos 8:9-24). Além do livro bíblico dos Atos dos Apóstolos, o personagem é
referido em outras obras ligadas ao gnosticismo.

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em série, com a mesma fazenda para meninos e meninas, de modo que a igreja, dizia o ministro. Santos e demônios se enfrentavam na pregação
eu recebi uma camisa com a mesma estampa do vestido de minha ir- dominical, e o resultado das batalhas celestiais demonstravam quem era
mãzinha. Uma estampa floral de violetas em uma camisa reta, abotoada digno do paraíso e quem teria o inferno como destino. Eu seria também
na frente e com um pequeno bolso no lado esquerdo do peito, tal qual um soldado de Cristo!
o estereotipo de um turista americano. E minha irmãzinha um vestido O arrebatamento só era interrompido pela menina levada e im-
reto, com alças largas nos ombros, elástico no peito pregas na saia e zíper pudica que sentava ao meu lado e fazia questão de se recostar em meu
nas costas. Ela, linda como um anjo. Eu, um palhaço. ombro e, desavergonhadamente, me abraçar. Era uma tez alvíssima, de
Aos domingos íamos à missa. Era um cortejo próprio, por assim lindos cabelos louros cacheados e ímpetos imoderados que me faziam
dizer. O pai, desnorteado, perguntando para a mãe onde estava o seu corar.
chapéu de feltro. A mãe, aturdida, verificando se as meninas estavam A escola, esse sim era o ambiente em que me sentia bem. A pro-
penteadas e os meninos de sapatos limpos e calças abotoadas. Calças fessora me dera um livro: “Rosinha, Minha Canoa”. Era a estória de
e sapatos pretos, camisa branca, chapéu de feltro, o hinário em um fo- um jatobá, que de semente se tornou árvore, de árvore se tornou uma
lhetim de papel jornal intitulado “O Domingo“ em mãos e revestido canoa para um indiozinho em sua melhor fase da vida, e depois ter-
da autoridade de pai, bradava: “Vamos que a missa já vai começar e o minou como coxo servindo de alimentador para os animais. Esse foi o
ministro não pode esperar!” meu primeiro livro. Aos sete anos era fluente em leitura. Minha querida
A missa era um evento singular que misturava a angústia ver- professora, que dava conta de quatro séries em uma única sala, separadas
gonhosa da humilhação à qual eu era submetido pelos meninos mais apenas em fileiras, se virava como podia ministrando conteúdos diferen-
velhos que motejavam dos trajes “feitos a mão”, os calçados por vezes tes para cada série e procurando manter a atenção de todos. Para minha
remendados e costurados “a mão e com linha de pesca”, e o frenesi sa- satisfação pessoal, a professora me recrutou como monitor de leitura. E
crilíaco evocado pelos cânticos e aleluias. eu ajudava aos deficitários da mesma série e até mesmo das séries supe-
O Pai era baixo tenor no coral e invocava anjos e santos lindamen- riores, o que me enchia de orgulho e satisfação. O terror era o recreio,
te. Também fazia a leitura dos salmos. Sentado com as outras crianças cuja brincadeira predominante era o abominável futebol. As pernas es-
no altar, eu era arrebatado pela devoção católica. Meu santo herói era queléticas, os pés calejados e os calçados depauperados não favoreciam o
São Miguel Arcanjo. E o que fez São Miguel? Expulsou o demônio esporte. A pressão dos outros meninos para que eu participasse do jogo
do paraíso. Eu queria ser São Miguel e merecer o favor do altíssimo. era constante e constrangedora, ao ponto de eu preferir ficar em sala
Privar da glória fulgurante e resplandecente de beatitude e onipotência para evitar o assédio.
de Deus. Também queria ser São Gerônimo, o doutor da igreja que de- O que me levava à introspecção e ao estudo, ao invés dos folgue-
cifrou as línguas pagãs e, por inspiração divina, nos deu a Vulgata latina. dos da meninice. Exceto pela companhia de alguma menina que, curio-
A palavra de Deus materializada em latim. A Bíblia Sagrada. Como sa, pretendia saber o que tanto eu lia. Ou então algum menino que por
ele, queria granjear a admiração dos fiéis da igreja de Roma, por todo o estar machucado era impedido da brincadeira.
mundo civilizado. Nos poucos momentos de liberdade entre as obrigações domésti-
Na pequena igreja, toda de madeira rústica, o Ministro execrara cas e a escola, as brincadeiras eram as mais criativas. Minha espada era
Martin Luther, o demônio alemão que deturpara e profanara a sagrada um sarrafo de madeira lisa e pontiaguda, com uma guarda em cruz como
Bíblia em proveito próprio. Para desmoralizar a igreja de Roma, se ca- uma espada Templária. Duas talas de madeira engrossavam o cabo e
sara com uma virgem de apenas dezesseis anos, dizia o pregador. O que uma tampinha de garrafa afixada com uma cruz desenhada a prego con-
interessava a Luther era viver em pecado e desfrutar da gula e da ganân- feria ao brinquedo um ar medieval. O cavalo era uma ossada do crânio
cia por mera ambição e perversidade, continuava. Doutor Lutero dividiu seco de uma mula, que por muitos anos servira à família no serviço pesa-

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do do campo, encravado em um cabo de vassoura. Na outra ponta duas
rodas feitas de tampas de latas de tinta tendo como eixo um prego. Tiras
de couro eram os arreios. O plástico colorido nas cavidades oculares da
caveira tornava a montaria ainda mais ameaçadora. Uma capa feita de
uma saca de feijão cobria os ombros e arrastava pelo chão. O capacete
era uma cabaça cortada cuidadosamente e polida com esmero. Um furo
no topo e amarrado a um nó por dentro, pendia para fora um punhado
de fios de barbante. Eu era São Miguel e lutava com o demônio. Eu
era Hercules e lutava para provar meu valor e expiar minhas fraquezas
humanas, provar ser herói e tornar-me um deus. Eu era Aquiles e lutava
porque havia nascido para lutar. Eu era Ulisses, porque era inteligente,
perspicaz, destemido, patriota. E nada podia me deter. Nem mesmo os
deuses! Eu podia ser quem eu quisesse.
Já conhecia a magia e não tinha consciência disso. Possuía poderes
ilimitados. Podia assumir diversas formas. Podia viver aventuras mágicas
e extraordinárias. Nada estava além do alcance da mente, pois o universo
é mental. Tudo que existe, existiu ou existirá é um produto da mente. Foi
pensado, foi sonhado ou imaginado por uma Mente Criativa.
Basta sobre mim, Simão Mago menino! A consciência de minha
identidade esotérica sopesada pela existência terrena de meu antecessor,
Simão Mago, rival de Cristo, estigmatizada pela igreja com a pecha do
pecado, condenado por Dante ao lugar reservado no inferno para aque-
les que podem mentalizar, criar e ser quem eles quiserem. Simonia é o
pecado daqueles que ousam ser a imagem e semelhança de Deus.

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Capítulo II
A Bruxa

E
ra um domingo á tarde. Uma daquelas tardes macilentas de ou-
tono em que se ouvia o grasnar das aves e as folhas que caiam
copiosas das árvores secas... Meu irmãozinho mais novo e eu ha-
veríamos de averiguar um boato que corria acerca de nossa vizinha. Era
uma casa de madeira, sem pintura com uma varanda portentosa e uma
balaustrada de madeira torneada. Belíssima. Porém, simples e austera.
Sem pintura. Janelas grandes com venezianas de madeira abriam-se em
linha, três à frente e três a trás da casa. Sem pintura. As paredes externas,
envelhecidas, estampavam o acinzentado antigo das madeiras secas. E as
velhas telhas portuguesas adornavam o telhado. A fundação sobre toras
de madeira fincadas no solo suspendiam a casa a quase dois metros no
fundo, e ao nível da rua à frente. O porão aberto para os fundos da casa
era ladeado por paredes da mesma madeira antiga e tinha um ar som-
brio e misterioso. Teias de aranha pendiam de cima, donde se viam as
vigas do assoalho de madeira da casa.
O quintal era florido e varrido diariamente com vassoura de pia-
çava. Era de chão batido, quase lustroso. Caminhos ladeados por flores,
rosas, jasmins, antúrios e gramíneas cuidadosamente cultivadas, levavam
à casinha. Uma latrina que ficava há poucos passos da casa e era edifica-
da igualmente em madeira, cujas tabuas largas abrigavam um fosso no
qual jaziam os excrementos. Era, todavia, ladeada por flores e levava até
ela um trilho de pedras cuidadosamente assentadas e pintadas de bran-
co. Por certo para guiar o caminho em caso de uma necessidade noturna.

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Nossa casa divisava com a casa da vizinha. Os terrenos eram sepa- ás vezes, furtivamente, remexendo um pequeno caldeirão de ferro que
rados por uma cerca de arame farpado, reforçada com uma cerca baixa estava pendurado sobre uma fogueira que ela alimentava constantemen-
de tabuas estreitas cuidadosamente fincadas lado a lado, para manter te, no quintal, nos fundos da casa.
cercadas pequenas aves de criação, como as irritantes galinhas de angola, O plano era simples. Iríamos nos esgueirar pela estreita trilha, para
patos, gansos e galinhas comuns. Havia ainda uma barreira de capim espiar o que acontecia no quintal da casa vizinha. Seria ela uma bruxa?
limão plantada junto à cerca. Nada disso podia nos impedir de xeretar. O chão batido, o capim limão, o arame farpado e o rastejar sorrateiro
Uma estreita passagem, por baixo da cerca e entre o capim limão, por entre as folhas secas caídas da plantação de aipim. O barulho era
de onde foram removidas algumas estacas de madeira da cerca, foi por preocupante. O estalar das folhas poderia nos denunciar. Eu rastejava
onde fizemos caminho. Tratava-se de uma antiga trilha de passagem, adiante, meu irmãozinho logo atrás.
que usávamos costumeiramente para ir até os vizinhos. Na casa funcio- Dona Clarice era uma carola devota. Sempre assídua na igreja.
nava um bar, ou taverna, ou comércio de secos e molhados como meu Celibatária, não tinha marido, não tinha namorado e não dava confiança
pai dizia. Comprávamos lá alguns mantimentos e eventualmente um aos intentos de homem nenhum. Eu costumava reparar em sua feição
garrafão de cachaça encomendado pelo pai. Um fumo de corda ou um beatifica e quase que podia notar uma aura de santidade. Rezava fer-
punhado de balas. vorosamente e cantava os hinos à glória de nosso Senhor do altíssimo
Morava lá um senhor grisalho que porfiava a enorme barba, de- firmamento bem como dos anjos e santos. Santa Ana era sua santa pro-
bruçado no peitoril da janela que se abria para a rua. E dona Clarice. tetora, a mãe da Virgem Maria, a mãe de Deus. A ela, Dona Clarice,
Ela era sua cunhada, a qual após a morte da irmã passou a tomar conta recorriam os enfermos e aflitos, pois de todos ela cuidava. Uma ora-
do cunhado. O senhor de barba branca que lembrava a barba de São ção, uma invocação, uma conjuração ou uma expulsão de maus espíritos.
Pedro, o apóstolo, o príncipe da Igreja. O sujeito era uma alma caridosa Ninguém o faria melhor. A ninguém mais se confiava o alento ao terror
e bondosa, a quem todos demonstravam respeito e consideração. Estava noturno dos assombrados pelo mal, ou as enfermidades graves e leves,
caquético e reumático. Era tísico e franzino. A barba parecia pesar-lhe ou a bênção das gestantes e dos nascituros. Era ela quem fazia a ponte
no rosto. Movia-se empurrando uma cadeira pela casa e pelo bar. Exi- entre a Virgem Santa e nós degredados filhos de Eva que suplicamos
bia caroços nos membros das diversas fraturas que sofrera a cada queda gemendo e chorando no vale da morte, pela salvação divina.
que tivera. Fumava charutos de fumo de corda embrulhados em palha e Rastejamos lenta e silenciosamente até a borda da casa, donde se
bebia aguardente enquanto tomava chimarrão e escarrava desgraçada- via a varanda e a balaustrada. Não havia ninguém. Nem o senhor grisa-
mente uma gosma esverdeada para fora da janela, tal qual ectoplasma, lho, caquético de barbas brancas, nem a vizinha.
ou algum rejeito radioativo. Muito simpático e amigável, a todos cum- Coração acelerado, o medo de sermos flagrados em atitude sus-
primentava. Sua figura messiânica era vista diariamente pelos passantes peitíssima. As respirações ofegantes e o tremor constante. Vamos desis-
e era sinal de boa sorte. tir? Não. Havemos de descobrir! A curiosidade nos impelia a continuar.
Dona Clarice era uma mulher balzaquiana por volta de 35 anos. Escondidos atrás da casinha, a latrina, ao longe, víamos o porão da casa.
Figura altiva e elegante, de postura ereta e firme. Vestia-se elegante- Era um lugar lúgubre e misterioso.
mente, de maneira simples, mas vistosa. Saias até os joelhos, justas e De onde estávamos, podíamos ver as muitas ferramentas de enta-
discretas. Sapatos pretos, baixos e afivelados no peito do pé, geralmente lhar como cinzéis e malhos, as ferramentas de aplainar madeiras, serras
sem meias. Blusas de mangas curtas ajustadas ao corpo. Os cabelos, os de mão, martelos, facas e facões, além de ganchos e lanças forjados em
trazia bem penteados, presos por grampos ou laços de fitas. Era sempre vergalhões de aço. E muitas madeiras. Havia também, empilhadas ao
vista com bacias de roupas para coarar, baldes de água fresca que trazia largo, centenas de garrafas, a maioria vazias, de aguardente e cerveja.
do poço e colocava na varanda, cestas de frutas que colhia no quintal e, Também uma geladeira antiga da Figidaire, com uma espessa porta que

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se abria e fechava empunhando uma alça de fechadura que se levantava do caldeirão. Não havia fogo. Havia, porém, um feixe de lenha prepara-
ao abrir e se baixava ao fechar. Dizia-se que, ao fechar, a pressão externa do. A visão era reveladora. Ela era uma bruxa! O olhar de meu irmãozi-
era tanta que nem um halterofilista poderia abri-la imediatamente. So- nho e o silencio cúmplice falava por nós dois. A perplexidade da terrível
bre a geladeira, uma caixa de madeira com refrigerantes da Pepsi - Cola. descoberta. O que faríamos? Revelar o segredo seria como confessar o
Ao lado, algumas mais de Fanta laranja e Fanta uva, minhas preferidas. furto, a invasão. Éramos medo, angústia e desalento naquele momento.
Tínhamos que chegar lá. Outro raio, e outra visão reveladora. Alguém se aproximava. Era
Havia também uma serra elétrica de mesa, com muita serragem Dona Clarice que vinha para o porão. Estava envolta em uma capa de
em volta. As irritantes galinhas de angola passavam em bando, cacare- chuva e usava um velho chapéu de palha. O rosto mal se via, ocultado
jando a plenos pulmões. Devíamos deixá-las se afastar. Elas poderiam pela gola da capa que encontrava com a aba do chapéu. Era ela. Os
denunciar nossa presença. Estávamos tão perto. Após tudo se aquietar, sapatos pretos, os tornozelos de marfim. Trazia uma bolsa de couro de
e um silêncio sepulcral apoderar-se da atmosfera de perigo, é que logra- onde tirou um pote, um livro de capa preta e um maço de ervas. Aproxi-
mos alcançar o porão sem sermos vistos. Ficamos tentados a apanhar mou-se do caldeirão e espreitou se havia alguém por perto. Desabotoou
os refrigerantes e, ao nos aproximarmos silenciosamente, notamos uma a capa e ajoelhou-se para acender o fogo. Tirou o chapéu de palha mo-
caixa de bolachas de mel. Concordamos imediatamente que iríamos pe- lhado e o sacudiu. Abanou o fogo que lambia o caldeirão por baixo, as
gar um refrigerante e uma bolacha para cada um de nós, apenas. labaredas dançando ao ritmo das golfadas de ar de um lado para outro.
Nesse ínterim um gemido assustador se fez ouvir, provavelmente Raios seguidos de trovões iluminavam a figura sombria envolta na capa
do interior da casa. Era um gemer de agonia, de dor e de aflição, seguido molhada, que abanava o chapéu em largas braçadas dançando ao ritmo
de passos apressados que pareciam vir-lhe ao socorro. O trepidar do as- da tempestade. O clarão do fogo e dos relâmpagos revelava nitidamente
soalho da casa denunciava a movimentação que ocorria e parecia descre- a sua figura. Cantava, ou balbuciava orações? Não se ouvia. Subitamente
ver a cena: Dona Clarice atendendo o velho cunhado acamado, com dor, ela soltou o cabelo e com um movimento de cabeça o jogou para trás e
em agonia. Quem sabe acordado por um pesadelo horrível. Pegamos os abriu a capa. Estava nua. Jamais a vira daquele jeito, com seus cabelos
refrigerantes e as bolachas e corremos o mais depressa possível para nos negros e volumosos soltos, tão pouco nua! Remexia o caldeirão com
ocultarmos por entre a plantação de aipim que ocupava maior parte do uma colher de madeira e acrescentava, aos poucos, o ramalhete de ervas,
terreno. Coração a saltar pela boca, respiração ofegante, medo desolador. enquanto orava, ou cantava. Fazia invocações de santos ou demônios?
Ocultos na plantação, com os produtos de nosso furto nas mãos Imobilizados pelo terror e perplexidade, assistíamos a tudo sem mo-
trêmulas de medo e de remorso, espreitávamos se algo haveria de acon- vermos um músculo sequer, sem pronunciar palavra, nem mesmo um
tecer. Longo tempo se passou sem que nada houvesse. Bebemos os refri- suspiro de pavor.
gerantes, comemos as bolachas e riamos secretamente, até que uma chu- O ritual macabro parecia não ter fim. Dona Clarice, agora com os
va repentina desabou. Corremos para nos abrigar em uma manjedoura cabelos desgrenhados, a capa entreaberta, feições demoníacas, parecia
que ficava a poucos passos e dava uma visão ainda mais privilegiada do estar possuída por um espírito do mal. Remexia o caldeirão e abanava
porão do lado oeste. Um raio, ao longe, clareou o céu nublado e enegre- o fogo. E cantava. Parecia retirar algo da bolsa que trouxera. Despe-
cido, seguido de um trovão. Neste instante, quase que simultaneamente, jou dentro do caldeirão o conteúdo de um frasco pequeno, que parecia
nós o vimos. O caldeirão! conter um pó amarelado como Cury, ou enxofre. Derramou ainda um
Era um caldeirão de ferro, pequeno, negro como a noite, suspenso liquido de um segundo frasco. Mexeu. E uma reação aconteceu. O cal-
sobre um fogão improvisado de duas fileiras de tijolos unidos por arga- deirão transbordou uma espuma densa e um fumo espesso se ergueu.
massa, em duas estacas de ferro com encaixe nas pontas, como palmas de Era assombroso e fascinante ao mesmo tempo. A fumaça era amarelada
mãos pequenas a suspender um eixo que perpassava a alça de transporte e assumia contornos da silhueta de um anjo. Meu irmão e eu nos olha-

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mos estupefatos. Era a imagem do Arcanjo Uriel2.
Quando dei por mim, me encontrava sozinho na manjedoura. Capítulo III - Salvator Mundi
Meu irmão havia sumido. Também dona Clarice. E a chuva havia ces-
sado. Debaixo do caldeirão o fogo se extinguiu, assim como o medo e o
horror que havia presenciado. Havia desmaiado e, meu irmão, sem saber
o que fazer, fugira apavorado. Aparentemente sem ser notado.

2 Arcanjo Uriel- No Apocalipse de Pedro aparece como o Anjo do Arrependimento e tão desprovido
de piedade quanto qualquer demónio. Em Vida de Adão e Eva Uriel é representado como o espírito
(um dos querubins) referido no terceiro capítulo do Génesis. É também identificado com um dos
anjos que deram sepultura a Adão e a Abel no Paraíso.

20 21
O
vizinho que morava em frente à nossa casa, ao custo de atraves-
sar a rua, era um homem bondoso e trabalhador. Era simpático
e amigável com as crianças da vizinhança. O que não se podia
dizer de “Aristocrata”, o terrível velho bode ranzinza que não tolerava a
criançada que se amontoava no quintal para apanhar as deliciosas guabi-
robas-do-campo que caiam copiosas na primavera. A guabiroba3 é uma
fruta amarela saborosa que, quando madura, tem pouco tempo para ser
aproveitada porque passa do ponto, como as jabuticabas. A árvore tinha
quinze metros ou mais, e nós nos poupávamos de escalar seus galhos,
pois os frutos maduros caiam em grande quantidade. Além disso, seu
tronco era liso e soltava cascas, o que dificultava a escalada.
Um olho no Aristocrata e outro nas frutas, eu catava guabirobas
pelo chão quando um pequeno ramo me foi jogado na cabeça por meu
irmão mais velho, único de nós capaz de escalar a árvore desprovida
de saliências. Um calafrio percorreu-me a espinha. O olhar do bode,
curiosamente imóvel, cruzou com o meu. Por um instante que pareceu a
eternidade, pensei ter visto o semblante de Dona Clarice nas feições do
animal. Um pensamento sombrio me ocorreu. Seria Dona Clarice uma
bruxa? Não podia ser! Afinal, ela nos curava. Com seu conhecimento
em botânica, sempre recomendava as guabirobas a quem tinha diarreia,
disenteria, escorbuto e até febre.
Atormentava-me a mente o pensamento de que aquela mulher
caridosa pudesse ser uma bruxa. Ao contrário da grande maioria dos
adultos, Dona Clarice sempre conversava comigo, olho no olho. Ela ha-
via me explicado que a guabirobeira-do-campo era uma planta extraor-
dinária. Que poderia resistir a mais severa estiagem e que não precisava
de abelhas e pássaros para polinizá-la, que era hermafrodita (tem os dois
sexos na mesma flor) e autofértil (ocorre a fecundação do órgão femini-
no pelo pólen da mesma flor ou planta).
Próximo à frondosa guabirobeira, havia também um velho moi-

3 Guabiroba vem do tupi guarani e significa “fruto da casca amarga” característica bem notória
para qualquer pessoa que mastigar a casca desse fruto.

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nho para a moagem de grãos, que transformava milho e trigo em fari- mundo: “Eu sei que vocês não são perfeitos. Eu lhes guiarei e mostrarei
nha. Além disso, restava como abrigo em fugas emergenciais do terrível o caminho. Vinde comigo até o pai celestial. A mão direita fazendo um
Aristocrata, o bode. Dizia-se que tinha este nome porque parecia um gesto hermético, apontando para o céu. O dedo mindinho e anular sua-
aristocrata, de cavanhaque e postura altiva. Peito e cabeça empinados vemente retraídos e os dedos indicador e médio entrelaçados, simboli-
para o alto, postura que lhe conferia certa imponência e autoridade so- camente representando o macro e o microcosmos, recitando lindamente
bre o quintal da casa. Havia algo de maligno naquele bode, além das a revelação hermética: “O que está encima é igual ao que está embaixo”.
perseguições ás crianças. Parecia espreitar escondido como que a espera O paradoxo cristão que afirma que somos a imagem e semelhança de
de alguém para dar de cabeçadas. Também parecia escolher suas vítimas. Deus, que somos feitos da mesma matéria do Criador. Na mão esquer-
Notei um padrão para os ataques. Preferia as meninas ou os meninos da sustentando um orbe de cristal. O mundo transparente, sem mácula
mais fracos e que mais o temiam. Maldito bode! Era atraído para as e sem pecado. A perfeição de Deus. Três pequenos pontos de luz no
crianças assim como as crianças à ele. Enfrentar o bode era uma de- orbe indicam a Santíssima Trindade. Os três reinos: animal, mineral e
monstração de coragem para os meninos, assim como salvar as meninas vegetal. As três dimensões visíveis: comprimento, altura e largura. As
dos ataques rendia aos corajosos grande prestígio, o que fazia aumentar partes que compõe o homem: corpo, mente e espírito. A terra, o sol e a
a ira do animal. lua e toda a perfeita criação divina que é em número de três, segundo
Havia um cadafalso em forma de uma enorme prancha de madei- os princípios sagrados do hermetismo. Do peito do Salvador do Mundo
ra que dava acesso ao moinho, apoiada sobre um barranco, de cuja queda emana uma luz. A luz interior, o espírito imortal. O semblante sereno e
resultariam certamente graves fraturas a quem porventura escorregasse. pacífico do Cristo, filho de Deus que foi iniciado na sabedoria hermética
Eu morria de medo na travessia. interior O interior do moinho era um transmitida diretamente pelo grande arquiteto do mundo, Deus, ao seu
mundo estranho a explorar. Complexas engrenagens, ferramentas di- servo Hermes Trismegistus.
versas, bicicletas empoeiradas, sacas de trigo e milho e um emaranhado O dono da casa estava moribundo. Uma doença incurável o abate-
complexo de polias e correias. Da Vinci não teria engendrado melhor ra. O amável senhor, querido das crianças, sofria em agonia. Os médicos
indústria. Subíamos ao último andar, de onde olhávamos para baixo. não o podiam ajudar. Tinha como único alento as infusões de ervas de
De lá, o bode não parecia tão ameaçador. Olhava, contudo, para o alto, Dona Clarice que diligentemente o assistia, e milagrosamente as suas
como se quisesse dizer: Estarei aqui quando descerem! Imaginávamos febres fazia baixar. Minha mãe era muito amiga da dona da casa e meu
se a criatura nos invejava ou odiava, ou vice versa. Um paradoxo ma- pai lhe tinha uma “dívida de gratidão”. O vizinho em tudo ajudara quan-
quiavélico. do da construção de nossa casa. Emprestara ferramentas, mantimentos e
Éramos sempre bem-vindos à casa do vizinho, e muito bem auxiliara em tudo o que fora possível. O padre havia sido chamado para
tratados. A dona da casa era uma senhora obesa e simpática. Servia dar-lhe a estrema unção dos enfermos e o Aristocrata correra com ele.
bolo e limonada gelada, tortas e geleias, bolachas de forno e sobremesas. Teve que ser contido. Berrava e escavava o chão, amarrado a guabirobei-
A casa era ostentosa, com grandes vitrais, escadarias, floreiras e duas ra. Talvez fosse por causa da batina. Talvez fosse para, de alguma forma,
varandas. Colunas coríntias adornavam o pórtico de entrada e o assoalho protestar contra o sacramento que parecia condenar o dono à morte.
de madeira era esmeradamente lustroso e bonito. Na sala principal, o A notícia da morte do bom vizinho foi aterradora. Nunca vira
magnífico Salvator Mundi4, uma reprodução esplêndida do famoso uma pessoa morta antes. O único contato que tivera com a morte fora
quadro de Da Vinci decorava a parede principal. O Cristo, o salvador a de animais. Alguns de morte natural, como a Mula. Curioso lembrar:
do mundo, com seu olhar de leão, o semblante piedoso parece dizer ao A Mula não tinha nome. Todos diziam: “Vai pegar a Mula para o tra-
balho!” Mula, anda!
4 Salvator Mundi é uma pintura de Jesus Cristo como Salvator Mundi (Salvador do Mundo), que Outros animais também eram sacrificados, como os porcos que
foi atribuída por alguns estudiosos como uma obra de autoria de Leonardo da Vinci.

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eram abatidos gordos e felizes e dos quais tudo se aproveitava. A carne, como a presença de satanás a reclamar aquela pobre alma. O pavor se
a gordura, o torresmo, os miúdos. Até a cabeça era assada no forno e materializou quando a maçaneta girou lentamente e os olhares se volta-
servida como uma iguaria com acompanhamentos como pão de milho, ram para a porta. As conversas cessaram. As bocas pararam de mastigar
milho cozido, arroz e salada. As bochechas eram a melhor parte. No dia e ninguém poderia ser mais silencioso e imóvel que o defunto. A porta
do abate fazia-se um churrasco de costelas temperadas na salmoura e se abre e uma rajada de vento lança de uma só vez um punhado de fo-
alecrim e tomilho frescos. O fígado, os rins e o coração não eram des- lhas para dentro. E eis que surge uma silhueta iluminada pelas costas e
perdiçados. O mesmo ocorria com os novilhos, as galinhas, os patos, os sombreada no rosto. Com um gesto, afasta do rosto o véu e, atrás de si, a
marrecos e os peixes. É a vida na fazenda. Comer carne implicava em porta fecha-se imediatamente. Era ela. Dona Clarice, a bruxa.
criar o animal, alimentá-lo e cuidar dele. E ter que abatê-lo. Com um aceno de cabeça cumprimenta as pessoas, a mim tam-
A morte humana, contudo, parecia-me mais assustadora. A mãe bém. Eu desviei o olhar. E se ela viesse a ter comigo? Estaria perdido.
dizia que ele foi para o céu e que uma novena seria rezada por toda a Agarrado à perna da mãe, tremendo, me urinei. E, mortificado de ver-
nossa família. E que deveríamos ir ao velório. gonha, chorei. A mãe gentilmente me consolou e colocou-me no colo.
Fui com minha mãe, de mãos dadas, coração acelerado. A casa es- De canto do olho espiava a bruxa que se aproximou do corpo, tirou da
tava aberta aos visitantes pelo lado Sul, longe da vista do bode. A entrada bolsa um livro de capa preta, tomou uma cruz de madeira e proferiu a
tinha uma pequena varanda e um pórtico módico que dava acesso à sala seguinte oração5:
principal. Ao entrar divisamos o velório. A viúva chorava copiosamente
enquanto recebia as condolências. Pelas gordas bochechas rolavam fios
de lágrimas. Na mão um lenço, no ombro um chalé preto, sobre a cabeça
um véu. Uma fileira de cadeiras acomodava uma dúzia de senhoras que
cochichavam de boca ao ouvido e sacudiam as cabeças, lamentando pe-
sarosamente. Na parede, ao alto, como que pairando sobre a cabeceira do
esquife, a imagem do Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador do Mundo, “Eis a Cruz do Senhor! Ausentai-vos, inimigos da natureza
cuja mão apontando para o céu parecia mostrar o caminho para aquela humana!
pobre alma. No caixão, gélido e pálido, o corpo do homem morto. Mãos Eu vos esconjuro, em nome de Jesus, Maria, José, Jesus de
cruzadas sobre o peito como quem descansa o descanso eterno e cuja Nazaré, Rei dos judeus. Eis aqui a Cruz de Nosso Senhor
alma já retornara à presença de quem a deu e, junto do criador, aguarda Jesus Cristo. Fugi, partes inimigas. Venceu o leão da tribo de
o julgamento final. Não senti ali presença da alma do falecido. Não no Judá e a raça de Davi.
corpo lúrido como as estátuas de mármore dos santos da igreja. Mas sim
Aleluia! Aleluia! Aleluia! Exaltado seja o Senhor. Nos aben-
na casa! Na única poltrona vazia em que costumava se sentar, no lamen-
çoe, nos guarde e nos mostre a sua divina face, se vire para
to da viúva, na dor e na saudade dos amigos e parentes.
nós com o seu divino rosto e se compadeça de nós. O rei Davi
Lá fora o vento uivava e fazia-se ouvir do lado de dentro. O ba- veio em paz assim como Jesus se fez homem e habitou entre
louçar das nogueiras-de-pecan, o assovio lúgubre cantando a nênia das nós, e nasceu da Santa Maria Virgem pela sua bendita mise-
folhas secas da morte. Um arrepio percorreu-me a espinha. Um calafrio ricórdia.
tenebroso apossou-se de mim. Um suor repentino na fronte e nas mãos.
Santos Apóstolos, bem-aventurados do Senhor! Rogai ao
O prelúdio macabro da aparição de algum fantasma, haveria de ser. Po-
Senhor que me valha a mim, Clarice, para que eu possa des-
dia sentir uma presença maligna. Um leve odor de enxofre pairava no ar
truir tudo quanto tenho feito.
e uma sombra disforme crescia na parede e se projetava sobre o esquife,
5 Oração baseada no livro de São Cirpriano - O legitimo Capa Preta

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São João, S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas! Eu vos rogo que Aliviado de um pesadelo diurno, minha mãe me levou pela mão
vos digneis a livrar-nos e conservar-nos livres de todos os para fora do velório, ao que dei graças ao altíssimo e N.S.J.C pela pro-
acontecimentos dos demônios. teção contra o mal. Teria ela, a bruxa, combatido com o mal e salvado
Tudo esperamos de quem vive e reina com o Pai e Espírito aquela alma? Não sabia ao certo. Porém, uma paz celestial se fez notar
Santo, por todos os séculos dos séculos, Amém. no ambiente ao término da estranha oração. Ganhando a rua, divisei ao
A bênção de Deus Onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo longe a figura do bode de baixo da guabirobeira-do-campo. Deitado so-
desçam sobre nós e nos abençoe continuamente. bre as patas dianteiras, parecia ajoelhado, prostrado, cabeça baixa, como
que copiando a dor dos vizinhos e familiares pela morte do dono.
Jesus! Jesus! A vossa paz e a vossa virtude e Paixão, o sinal
da Cruz, a inteireza da Bem Aventurada Maria Virgem,
a bênção dos santos escolhidos de Deus, o título de Salvador
nosso, na cruz, Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus, seja triunfá-
vel hoje e todos os dias entre os meus inimigos visíveis e invi-
síveis, contra todos os perigos da nossa vida e do nosso corpo,
e em todo o tempo e lugar. Eu terei o sumo gosto e alegria em
Deus meu Salvador.
Jesus! Jesus! Jesus! Sede por nós, Jesus! Jesus! Criador e com-
preendedor; Jesus do universo porá os maus sobre o inferno e
impedirá que o demônio atormente jamais as suas criaturas.
Jesus, Filho de Maria, Salvador do mundo, pelos merecimen-
tos da Bem Aventurada Maria Virgem e dos Santos Após-
tolos, mártires e confessores, pois o Senhor seja contigo, para
que te defenda e esteja dentro de ti, para que te conserve e te
conduza e acompanhe e guarde e esteja sobre ti, para que te
abençoe, o qual vive e reina em perfeita unidade com o Pai e
o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.
A bênção de Deus, Onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo,
desça sobre nós e permaneça continuamente.
Virgem Santíssima Nossa Senhora do Amparo! Eu, a maior
das pecadoras, vos peço que rogueis a vosso amado Filho que
quebre todas as forças aos demônios, para que jamais possam
atormentar esta criatura.
“Dou fim a esta santa oração e darão fim às moléstias nesta
casa pela bichação dos espíritos malignos.”

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Capítulo IV
A Feiticeira de Évora —
Poderosa Bruxa

30 31
A
os 18 anos alistei-me no exército. Iria servir a pátria amada.
Longos anos se passaram desde os eventos anteriormente nar-
rados. Às vezes os creio fantasias pueris, principalmente acerca
da bruxa6. Contudo, algumas lembranças povoavam minha mente como
uma crença arraigada, fanatismo. Visitava meus pais nos finais de sema-
nada de folga do serviço militar, sempre que podia. Vestia o fardamento
militar com orgulho e galhardia, e fervorosa devoção à pátria. A vida na
caserna era tranquila e rotineira, exceto pelos treinamentos militares. O
campo de tiro, a sobrevivência na selva, as trilhas e os exercícios físicos.
O prosaísmo elementar das faxinas.
Sobre Dona Clarice, chegavam a mim as histórias de como ela
havia livrado meu pai do terrível vício do álcool e do tabagismo. Eram
contadas por minha mãe, que não aguentava mais ver meu pai camba-
leando, ébrio, perdido em altas horas na saturnal dos bares e tavernas,
escravo da bebida. Meu pai, desejando mudar de vida implorou por aju-
da. E ela atendeu. E o fez milagrosamente. De uma só vez, livrou-o do
vício do álcool e do tabagismo. Minha mãe contou que o pai vomitava
após a ingestão da poção que Dona Clarice lhe ministrara, e que em
poucas semanas a simples ideia de fumar ou beber lhe causava náuseas.
Meu pai, um novo homem, livre do vício, tornou-se ministro da igreja e
um exemplo para a família e toda a sociedade, contava a mãe orgulhosa
e agradecida.
Passei a me interessar por assuntos esotéricos. Salomão o rei sábio
e pacifico. E seus poderes metafísicos de controlar espíritos. Hermes
Trismegisto7, a magia antiga dos Caldeus, os Essênios e a iniciação de
6A Bruxa de Évora foi uma bruxa centenária que viveu na região portuguesa de Évora, guardava
os segredos de todos os feitiços do oriente, de onde vieram os 3 Magos que Deus convidou para
abençoar o nascimento de Jesus. (FARELLI, 2006 – p 33). Todavia, a moura pagã era, ao mesmo
tempo, devota cristã: ...a velha bruxa já tinha feito a peregrinação a Santiago de Compostela [tra-
dição cristã]... Já tinha ido à Sé de Braga, muitas vezes, pagar promessas... (Idem) ...E, ainda: ...a
bruxa de Évora não era uma herética. Era uma mulher que conhecia as rezas (Ibid., p 41).
7 Hermes Trismegisto (em latim: Hermes Trismegistus; (o três vezes grande”) era um legislador
egípcio, pastor e filósofo, que viveu na região de Ninus por volta de 1.330 a.C. ou antes desse perí-
odo; a estimativa é de 1.500 a.C a 2.500 a.C. Teve sua contribuição registrada através de trinta e
seis livros sobre teologia e filosofia, além de seis sobre medicina, todos perdidos ou destruídos após
invasões ao Egito. O estudo sobre sua filosofia é denominado hemetismo.

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Jesus Cristo, Cipriano, Nicolas Flamel8, Alquimia, A Cabala9, Nume- te, ardendo em febre eu rezava fervorosamente por são Miguel Arcanjo.
rologia e tudo relacionado aos magos antigos e modernos, famosos ou Pedia que me livrasse do demônio. Não sei se delirei ou sonhei. Mas vivi
anônimos. Tudo me interessava. E o estudo era favorecido pelo ócio no intensamente, o que relato a seguir10:
quartel.
Certa vez, enquanto aguardava pelo ônibus cuja parada ficava exa-
tamente em frente ao bar no qual Dona Clarice morava - e eu sabia que
vê-la ou ser visto por ela era uma questão de tempo - ela apareceu. Com
um sorriso amável, me cumprimentou e eu a cumprimentei também.
Não sentia medo, mas simpatia e gratidão por ter salvado do vício o meu
pai. Iniciou-se uma conversa amigável e ela me perguntava sobre a vida, Tomado de um poder sobrenatural, capaz de subverter as leis
a carreira militar e se havia conhecido uma garota. A tudo respondia da natureza e controlar o tempo, sentia um desejo insaciável.
serenamente, até que ela me perguntou se por assuntos esotéricos eu Estava no Século III e eu era o poderoso Mago feiticeiro Ci-
me interessara, ao que respondi que sim. E ela então me disse que sabia priano. Desejava o amor de uma menina de nome Adelaide.
que há quase dez anos meu irmão e eu a vimos preparando uma poção. Fui pedi-la a seus pais, mas em vão, porque estes não deram
Ignorando o meu espanto, ela perguntou se meu irmão havia ficado tão consentimento.
impressionado quanto eu. Eu jamais havia comentado com meu irmão, Desesperado com a negativa dos pais da jovem, enfureci-me me
ou ele comigo, ou com mais ninguém. Seu segredo estava guardado. de tal maneira contra eles que mandei o Homúnculo, meu dia-
Antes de partir, Dona Clarice falou que havia algo que ela queria binho, que trazia sempre na algibeira, destruir sem mais perda
me dar de presente, e que guardava por todos esses anos. Pediu ainda de tempo as casas e todos os bens dos pais de Adelaide. As mi-
que viesse visitá-la sozinho, e com tempo disponível para uma longa e nhas ordens foram de imediato executadas. Logo que Adelaide
boa conversa. Despedi-me com um aceno ao embarcar no ônibus, com viu os seus haveres destruídos, dirigiu-se a mim e me insultou:
angustia e aflição. A curiosidade me consumia. Nos dias seguintes a fan- — Homem, que mal te fez meu pai para que procedesses para
tasia turbava-me a mente e uma ideia fixa como um câncer se apoderou com ele com tanta maldade?
de mim: queria ela fazer de mim um bruxo e me dar seus poderes? Ou — Não vês, Adelaide, que te amo tanto que nada vejo, senão o
algum amuleto mágico? Ai de mim, meu Deus! lugar onde moras? Disse então Adelaide:
De volta à caserna e a rotina da formação para o hasteamento da — Se for verdade o que me dizes, faze de conta que de hoje em
Bandeira Nacional, com pompa e circunstância devidas, para a manu- diante sou tua escrava, mas não tua mulher, pois não sou digna
tenção das armas, testes de aptidão física, serviço de guarda, a faxina e de ser desposada por ti.
noites mal dormidas. Aos pesadelos noturnos, suor e calafrios. Uma noi- — Por que razão tu dizes que não és digna de ser minha espo-
sa?
8Nicolas Flamel (Pontoise, 1330 - Paris, 22 de março de 1418) foi um escrivão, copista e vendedor Esclareceu Adelaide:
de livros de sucesso francês que ganhou fama de alquimista após seus supostos trabalhos de criação
da pedra filosofal. Casado com Dame Pernelle Flamel, segundo a lenda teria fabricado a pedra
— Sendo tu um santo, como vou ser tua mulher, se sou a maior
filosofal, o elixir da longa vida e realizado a transmutação de metais em ouro por meio de um livro pecadora do mundo?
misterioso. Voltando-se para Adelaide, respondi:
9 Cabala substantivo feminino 1. FILOSOFIA•RELIGIĀO - sistema filosófico-religioso judaico de
origem medieval (sXII-XIII), mas que integra elementos que remontam ao início da era cristã
[Compreende preceitos práticos, especulações de natureza mística, esotérica e taumatúrgica; afir-
ma que o universo é uma emanação divina, tendo grande importância a interpretação e decifra- 10 Parafrase de uma das aventuras de São Cipriano antes da conversão – São Cipriano – O Legí-
mento dos textos bíblicos (Antigo Testamento).]. timo Capa Preta.

34 35
Mordi as favas mágicas e de seu veio enegrecido escorreu uma
seiva amarga como fel. Imediatamente senti o corpo todo for-
migar e os olhos arderem terrivelmente. Uma visão incrível do
— Menina, pois se tu adoras tanto a Deus, e ainda assim dizes mundo invisível se descortinou e meu corpo parecias esvanecer
que és a maior pecadora do mundo, que Deus vingativo tu ad- como uma desmolecularização, e fragmentar em um milhão de
miras? partículas. Decorridos cinco minutos, já tinha feito amor com
Ouvindo estas palavras, Adelaide ficou como pasmada e duvi- Adelaide. Estavam satisfeitos meus lúbricos desejos.”
dando do que tinha ouvido, disse consigo mesma:
“Que Deus será o que adora este homem? Porventura haverá
outro Deus, sem ser o meu? Não é possível!”
Tomou coragem e disse:
— Homem, obrigo-te, da parte de Deus, a quem adoro, que me
digas que Deus estranho é esse que tu adoras e que te obriga a Acordei atordoado, mas decidido. Iria ter com Dona Clarice e
renegar o meu! acabar com essa expectativa delirante. O pesadelo terrível, poderia sig-
- O Deus que adoro é Lúcifer dos infernos! nificar parte com o demônio? Cipriano11, não convertido, e suas artes
Ouvindo isto, Adelaide benzeu-se três vezes e falou: maléficas. Qual a relação de tudo isso com Dona Clarice? Teria ela me
— Esconjuro-te e obrigo-te da parte de Deus, a quem adoro, a induzido a essa visão demoníaca por algum feitiço ou encantamento?
que me restituas os meus haveres, tal e qual eles estavam. Naquela Sexta feira mal pude conter a ansiedade de ver terminar
Obrigado pela força de Deus Onipotente, restitui os bens aos o expediente militar. Pensava em ir para a casa da mãe e conversar com
pais de Adelaide e, no fim de tudo isso, retirei-me sem gozar o Dona Clarice no sábado, mas mudei de ideia durante a viagem. Iria as-
amor de da bela jovem. Lúcifer aparecendo falou neste tom: sim que lá chegasse. Ao desembarcar do ônibus, tomei a direção da casa.
— Meu amigo Cipriano, não estejas sempre a incomodar-me. Era por volta de oito horas da noite, de uma noite de verão. A lua cheia
Já te ensinei todos os feitiços e toda a arte mágica. Já tens todo o iluminava o céu estrelado como a celebrar com júbilo o esplendor da
poder que eu tenho. Porém, como teu amigo que sempre fui, sou criação divina. “A bruxa” recebeu-me na porta. Estava como em minhas
e serei, vou dar-te um conselho para gozares o amor de Adelai- reminiscências do passado, quase nada envelhecera. Simpática, convi-
de. dou-me a entrar. Passando pela cozinha onde em um fogão de lenha
— Tu, meu amigo, a quem amo de todo o coração, corpo e alma, crepitavam as labaredas amarelas de fogo aquecendo uma ou duas pa-
dize o que tenho de fazer neste caso. nelas, uma chaleira e um bule de chá, conduziu-me ao salão do bar que
— Pega na tua garrafa mágica, mete a tua fava na boca e tor- estava vazio. Cadeiras empilhadas, um gato preto passou me por entre as
na-te invisível. Agora mesmo vai à casa de Adelaide. Logo que pernas. Ao passar pelo corredor, através da porta semiaberta, vi o velho
chegares lá, deita um pouco de azeite da tua garrafa em uma cunhado de dona Clarice. Parecia entorpecido, catatônico e imóvel, com
das luzes que vires. Tanto Adelaide como seus pais se assustarão olhar perdido para o infinito, como que enfeitiçado.
e tu, Cipriano, aproveita essa ocasião para gozar o amor de Minha anfitriã moveu uma cadeira e deu-me a para sentar. Tomou
Adelaide. outra para si e perguntou-me se estava confortável. Foi direto ao assun-
11 São Cipriano era filho de pais pagãos muito ricos. Nasceu em 250. na Antioquia, região situada
entre a Síria e Arábia, pertencente ao governo da Fenícia. Desde a infância, Cipriano foi induzido
aos estudos da feitiçaria e das ciências ocultas como a alquimia, astrologia, adivinhação e as di-
versas modalidades de magia.

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to: “queres saber sobre magia?”. De modo automático, quase letárgico
acenei que sim. Revelei sobre o estranho sonho que tivera com o pode-
roso bruxo Cipriano. Expliquei que no sonho sentia como se fosse eu. O
poder, a força e a liberdade que senti. Era estranho, porém irresistível. O
que havia comigo que me possibilitava presenciar, sentir e sonhar o que
ninguém mais a minha volta podia? Dona Clarice disse-me, de modo
sereno e direto, que tinha uma suspeita e que se eu concordasse pode-
ríamos confirmar. Dizia achar ter sido eu Cipriano ou Simão Mago em
outra vida. Ou os dois, não sabia ao certo. — Que pregação está fazendo aquele impostor?
- Querido leitor. Até esse ponto não me identifiquei com meu Um dos ouvintes me disse:
nome cristão, não por medo ou vergonha, mas por cautela. Por preven- — É Gregório.
ção contra o fanatismo e a ignorância. E não o farei, ao menos até contar — Ai, ai, que tolice! Que Deus adora este judeu? Em vez de
a minha história. estardes a escutar esse impostor, melhor fora que estivésseis em
Para esclarecer de vez nossas dúvidas, faríamos uma sessão de re- vossas casas, ocupando-vos em vossos serviços.
gressão por indução hipnótica. Para tanto, Dona Clarice pediu-me que S. Gregório, que observou a conversa, sorriu e continuou sua
tirasse os coturnos e colocasse os pés em uma bacia de água. Deu-me retórica. Quando acabou de falar, S. Gregório foi ao meu en-
para segurar um pequeno cristal e começou a induzir a hipnose, pro- contro e disse:
ferindo palavras de calmaria e conforto, cantando suavemente. A voz
melodiosa parecia uma canção antiga de ninar, acalmando meus pen- — Homem falto de fé e de temor a Deus, não acabas com essa
samentos e reduzindo-me a pulsação. O cristal parecia esvanecer em vida de pecado?
minhas mãos, enquanto o pensamento viajava de volta no tempo, indu- — Ai, com a vida de pecado! — falei às gargalhadas.
zido segura e constantemente por Dona Clarice. O corpo mole, as mãos — Sim, com a vida de pecado — afirmou S. Gregório.
relaxadas, não sei se ouvi ou imaginei, o cristal estatelar-se num abismo — Tu, Cipriano, andas iludido com essa arte do demônio, e não
profundo. a queres deixar!
Vozes alteradas me fizeram abrir os olhos. Estou no século III, a — Diga-me, amigo Gregório, que Deus é o dos cristãos que são
caminhar soberbo e desdenhoso pelas ruas de um pobre vilarejo. Sou tantas as maravilhas que tenho ouvido contar?
Cipriano de Antióquia e todos se curvam às minhas vontades. Eis que — O Deus que tu adoras é Lúcifer. Aquele que eu adoro é o
um tumulto se forma em frente a um templo. Abro caminho entre os Deus todo poderoso, que criou o céu e a terra e tudo mais que o
gentios com um sopro, e com meu cajado arrombo a porta. Eis o que sol domina — respondeu S. Gregório.
vejo: um pregador arrebatando a multidão. Digo em voz alta12:
Retruquei logo, com um semblante cheio de indignação:
— Pois se tu, Gregório, adoras um Deus mais poderoso do que o
meu, defende-te lá com ele das minhas astúcias. Se tu saíres vi-
torioso, acreditarei no teu Deus. Porém, se eu for vencedor, serás
vitima nesse mesmo instante.
12 Parafrase do enfrentamento de São Gregório por São Cipriano – São Cipriano – O legitimo
Capa Preta.

38 39
— Ainda não te arrependes, Cipriano, dessa vida de pecado?
S. Gregório treme e disse para consigo, em pensamento, porém É preciso que um homem seja muito malvado, vendo a mão de
balbuciando: “Se Deus me desampara, que será de mim! Mal- Deus a querer salvá-lo e continuar no caminho da perdição!
dita seja a hora em que vim encontrar-me com Cipriano. Meu Respondi:
Deus, meu Deus, se agora não me valeis, que será de mim?” — E tu, Gregório, não sabes que eu pertenço a Lúcifer, porque
Indignado com S. Gregório pelas súplicas que estava fazendo, tomei pacto com ele? Por isso não posso entrar no céu onde en-
gritei em alta voz por todos os demônios do inferno e, em poucos tram só os justos e aqueles que não seguem o caminho do infer-
instantes eram tantos, que cobriam a região a uma distância de no! Retira-te então da minha frente. Do contrário, usarei dos
um quarto de légua enquadrado. S. Gregório levantou os olhos meus poderes e das minhas artes diabólicas.
ao céu e bradou em voz alta: S. Gregório irou-se contra mim e falou palavras mui severas:
—Jesus! Jesus! Sede comigo neste momento de aflição! — Homem indigno, retira-te da minha presença! Do contrário
Instantaneamente se ouviu um forte trovão, que fez com que se usarei também dos meus meios.
abrissem as portas do inferno. E, imediatamente, todos os de- A estas palavras, fiquei possesso. De repente se cobriu o céu de
mônios se precipitaram nas profundezas do medonho abismo. nuvens, turbaram-se os ares, tremeu a terra e sobre o solo caí-
Ante a surpresa do acontecido, tão lívido de espanto, cai por ram grandes raios, parecendo que o mundo estava se incendian-
terra e assim estive prostrado durante quanto tempo não sei. do. Porém, Gregório, em nome de Jesus, pisava e destruía as
No fim de alguns minutos sentiu Gregório um grande tremor minhas astúcias. Vendo o que acontecia, injuriei Lúcifer, o qual
de terra, que o fez admirar. Era Lúcifer, saindo da terra, com apareceu e disse:
um caixão de fogo e quatro leões carregando-o. A vista deste — Amigo meu, que queres tu de mim, que estás tão irado contra
espetáculo, ficou S. Gregório estupefato. Porém, com a ajuda do o teu senhor?
Senhor, animou-se a dizer a Lúcifer:
Respondi:
— Eu te esconjuro, maldito, da parte de Deus! Dize o que que-
— Tu, Demônio, que poder tens, que não podemos destruir
res aqui?
Gregório?
— Venho buscar Cipriano, respondeu Lúcifer.
A estas palavras, acudiu Demônio dizendo-me assim:
— Porventura, maldito, tens poder de te apossares das criatu-
— Não sabes que Gregório me garantiu que se eu não questio-
ras viventes?
nasse com ele, daqui a um ano me daria a sua alma? Por isso,
Respondeu Lúcifer: amigo Cipriano, não me apraz combatê-lo desta forma. Retira-
— Eu me aposso de Cipriano, que já morreu. Ele é meu em cor- -te, e deixa Gregório.
po e alma, assim o temos ajustado. Ouvindo o que disse Lúcifer, Meti as favas na boca. Ao morder, sorvi a seiva negra e amarga
S. Gregório orou ao Senhor e falou: e retirei-me para a cidade onde morava.
— Eu te esconjuro para as profundas do inferno, que Cipriano
não morreu!
S. Gregório tocou nos meus ombros e disse: “Levanta-te, Ci-
priano!” Levantei-me logo e falou Gregório:

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Mas, como cressem em Filipe que lhes pregava acerca do Reino
Desperto do transe hipnótico, trêmulo e aturdido, disse à Dona
de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens
Clarice tudo o que passara. No século Terceiro eu era o poderoso Mago
como mulheres. E prometeu-me também o Reino de Deus aque-
Cipriano de Antióquia, não convertido, e enfrentava São Gregório, o
le homem iluminado. Eu o segui, pois dele emanava o Espírito
Santo Papa da Santa Igreja. Blasfêmia! Experimentara um poder jamais
Santo. E fui também batizado.
visto. Uma força sinistra, um desejo insatisfeito, uma sede eterna. O que
haveria de ser? Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que
Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro
Dona Clarice pediu que me acalmasse, que ela tudo me explica-
e João. Os quais, tendo descido, oraram por eles para que re-
ria em tempo e que voltasse ao transe para uma nova experiência. Que
cebessem o Espírito Santo. (Porque sobre nenhum deles tinha
ficasse tranquilo. Que me levaria para o século I Depois de Cristo. Dos
ainda descido; mas somente eram batizados em nome do Senhor
santos apóstolos, na Samaria. E assim o fez13.
Jesus.)
Então, lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo.
E eu, Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apóstolos
era dado o Espírito Santo, lhes ofereci muito dinheiro, dizendo:
-Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre
quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo.
Mas disse-me Pedro:
No exato instante em que minha consciência permitiu a percep-
ção do universo ao meu redor, estava eu na cidade de Samaria. -O teu dinheiro esteja contigo para perdição, pois cuidaste que
Investido de um poder sobrenatural, podia ver ao longe e sen- o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem
tir a presença de um Espírito Santo. Tinha que ver o que era. sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de
Estava um apóstolo de Jesus de Nazaré que lhes pregava. Seu Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua iniquidade e ora a Deus,
nome era Filipe e as multidões prestavam atenção ao que ele para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu
dizia. Expulsava-lhes os espíritos imundos, que saíam de mui- coração; pois vejo que estás em fel de amargura e em laço de ini-
tos que os possuíam. E muitos paralíticos e coxos eram curados. quidade.
Havia enorme alegria na beatitude daquele homem santo. Respondendo, porém, eu disse:
Também eu me encontrava cercado pela multidão. Atendia - Orai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes
pelo nome de Simão Mago, e a mim recorriam muitos necessi- venha sobre mim.
tados de graças. Com meus poderes e a grande virtude de Deus,
curava-lhes as doenças, dava-lhes conforto para suas almas e
os entretinha. Eles ficavam encantados com minhas aparições e
voos sobre suas cabeças estupefatas de admiração, porque queria
Deus assim. Não podiam compreender a essência da Gnose, pois
eram escravos da própria idolatria e fanatismo. A voz suave de dona Clarice me fez lembrar de onde estava. O
corpo entorpecido se recusava a obedecer aos meus comandos. Pela ja-
nela entreaberta a brisa noturna soprava, trazendo consigo o piar lúgu-
13 Este trecho é uma paráfrase bíblica. Sua versão oficial pode ser encontrada em (Atos 8:9-24) bre de um corvo. Fiz um esforço para sentar-me ereto. Só então percebi

42 43
que dona Clarice segurava-me as mãos, sacudindo levemente meus bra-
ços. Mal me recompus, coloquei-a a par de tudo que havia presenciado.
Sem demonstrar espanto, ela estabeleceu ligação entre meu pesadelo, a
primeira regressão hipnótica e esta última.
- Em outra vida você foi Simão, discípulo de São João Batista.
Capítulo V
Teve por companheira Helena, a reencarnação da bela Helena de Tróia.
Foi proclamador da Gnose, o conhecimento científico, filosófico e reli- Iniciação a Magia Negra
gioso do mundo antigo. Demonstrou ser o conhecimento a única forma
de ascender a Deus, pois o Deus Supremo criou o mundo da matéria
e colocou a centelha divina no ser humano. Esta centelha pode ser li-
berada através da Gnose, Conhecimento. E por fazer demonstrações
públicas de levitação, foste muito combatido pelos apóstolos de Cristo.
Foi o que me dissera Dona Clarice. Afirmou também que Cipria-
no era reencarnação de Simão Mago, e eu, nesta vida, a reencarnação de
Cipriano.
A noite passava. Lá fora passeavam as aves noturnas. Uma coruja
piava ao longe. As revelações, como torrentes de uma enxurrada, inun-
davam-me a mente. Desejava saber tudo sobre Simão Mago e porque
era incompreendido pela igreja de Cristo. Todo seu poder era usado
para o bem e a tarefa de sua existência era compartilhar com os gentios.
Graças a ele, a sabedoria Gnóstica que espalhou no mundo antigo, che-
gando até a Pérsia, indo até à China, e ao Iraque. Não tinha Jesus por
inimigo, pois Jesus era a encarnação do Supremo Arquiteto dos mundos
para trazer a gnōsis para a terra. O Criador ou Demiurgo ensina que o
conhecimento não é apenas o meio de salvação, é a única e real salvação.
- Mas e a senhora? Como pode saber de tudo isso? E porque está
me ajudando?
- Eu sou a reencarnação da feiticeira de Évora, a bruxa de Évora!
Exclamou.
Conhecedor dos mistérios da magia, eu soube no mesmo instante
que dona Clarice se referia à grande feiticeira de Évora, uma bruxa que
convivia pacificamente com os Mouros em uma pequena aldeia Portu-
guesa na região de Évora e de quem Cipriano aprendeu as artes místicas.
Superstição? Sabemos apenas, como Shakespeare, “não creio em
bruxas, mas que elas existem, lá isto existem...”

44 45
E
ra quase meia noite. A conversa com Dona Clarice fluía qual o
rio santo e a magia fecunda quais as margens do Nilo. Ela me
fez compreender que, para um perfeito entendimento das forças
esotéricas, eu deveria ser iniciado e um ritual teria início. E ela mesma o
conduziria. Devo confessar que estar na presença de uma bruxa só não
era mais aterrorizante do que as incríveis revelações que me foram feitas.
Porém, de um modo estranho e sinistro, não estava apavorado. Sua voz
serena e firme conduzia o ritual e eu sentia que poderia interromper e
fugir. Se quisesse!
Um grande círculo foi traçado no assoalho de madeira, com um
pentagrama em seu interior. Dona Clarice, que preferia ser chamada
sacerdotisa, pediu-me que fosse a outro quarto e que me banhasse na
água quente em uma velha banheira. Deu-me para vestir uma túnica
branca que chamava “Dalmática”, como a que usavam os sacerdotes e os
legisladores Romanos. Fez ela exatamente o mesmo, depois de mim. Ao
retornarmos, estava tudo preparado.
A sacerdotisa entrou no grande círculo mágico sozinha, deixando
a mim, o noviço, do lado de fora. Retraçou o círculo usando seu athame
(espada ritual) e deixando uma entrada. A seguir, aproximando-se da
entrada, ergueu seu Athame em arco e completou o círculo. Serpenteou
em torno do círculo três vezes, na direção dos ponteiros do relógio, com
um passo de dança chamando os Poderosos do LESTE, SUL OESTE
e NORTE, para se apresentar. Então, dançando em torno várias vezes,
em silêncio, clama:

“Eko, Eko, Azarak, Eko, Zomelak.


Bagabi Lacha bachabe Lamac Lacha achababe Karrellyos.
Lamac Lamac Bachlyas Cabahagy sabalyos Baryolos
Lagoz atha cabyo las Samahac atha famo las Hurrahya.”

A sacerdotisa deixou o círculo mágico por meio da porta e se apro-


ximou, dizendo:

46 47
Athame três vezes. O fechamento de todos os círculos. Senti algo
quase inexplicável, como se fosse invulnerável, todo-poderoso
ou imortal. Agora me conduziu para o altar do Sul, dizendo:
- Agora é a prova.
Tomou um pedaço pequeno de corda do altar, amarrou no meu
- Como não há aqui outro irmão, devo ser sua madrinha, além tornozelo direito, deixando uma ponta livre, dizendo:
de sacerdotisa. É o momento de lhe dar um aviso. Se você ainda - Pés nem amarrados, nem livres.
mantiver a mesma opinião responda com estas palavras: A seguir, com uma corda grande, também no altar, amarrou
- Amor Perfeito e Confiança Perfeita. minhas mãos firmemente às costas, passando pelo pescoço. As-
A sacerdotisa encostou a ponta do Athame no meu peito, dizen- sim, os braços formavam um triângulo, deixando a ponta da
do as palavras: corda pendurada em um cabo virado para frente. Com a ponta
em sua mão esquerda e o Athame na outra, fui conduzido na
- O tu, que estás no limiar, entre o mundo dos prazeres do ho-
direção do movimento dos ponteiros do relógio em volta do cír-
mem e os domínios do terror do senhor do mal, tens a coragem
culo para leste, onde se deu com o Athame, proclamando:
de fazer esta prova? Por que em verdade eu digo que seria me-
lhor lançar-se contra a minha faca e morrer miseravelmente do - Preste atenção, Ó espírito das trevas (disse meu nome cristão),
que aventurar-se com medo no coração. adequadamente preparado, devidamente recomendado, será
feito sacerdote e feiticeiro.
Respondi com a convicção da vívida experiência. Após o sonho
e a regressão, tive a certeza de que o ritual era inevitável. E ela Conduzindo-me agora uma volta em direção Sul, Oeste e Nor-
continua: te, onde foram feitas proclamações semelhantes. Então, abra-
çou-me com seu braço esquerdo, o Athame ereto na mão direita,
- Tenho duas senhas: Amor Perfeito e Confiança Perfeita.
fazendo-me perambular em volta do círculo três vezes, com um
Agora, deixando cair a ponta do Athame, diz: passo meio correndo, meio dançando. Obrigou-me a parar do
- Todos os que trazem estas palavras são duplamente bem-vin- lado sul do altar, deu onze pancadas num sino e ajoelhou-se aos
dos. meus pés, dizendo:
Então, passando por trás de mim, vendou meus olhos, juntou as - Em outras religiões o postulante ajoelha, enquanto o sacerdote
mãos para trás, com o próprio braço esquerdo em volta da cin- clama o supremo poder. Mas na Magia Negra somos ensinados
tura e, puxando o braço direto em volta do pescoço e meus lábios a ser humildes
para os dela, disse: Então disse:
- Dou-lhe a terceira senha: Um beijo! - Abençoados sejam seus pés que te trouxeram por estes cami-
Senti um bafejo morno e úmido. E uma substância intoxicante nhos. (Beijou-me os pés)
invadiu meus pulmões, causando uma sensação de enorme po- - Abençoados sejam seus joelhos que se ajoelharão ante o altar o
der e lucidez mental. Empurrando-me através da entrada para sagrado.
o grande círculo, encostou-se peito com peito, joelho com joelho,
(Beijou-me os joelhos)
pé com pé. Ela fechou a entrada atrás de si, riscando com o
- Abençoado seja seu ventre, sem o qual não existiríamos.

48 49
(Beijou-me o ventre) Tiradas as cordas dos seus pés, a venda removida, mas ainda
- Abençoado seja seu peito, formado de beleza e força. com as mãos atadas, ajoelhando-se em frente a mim, disse:
(Beijou-me o peito) - Por este meio eu te consagro com óleo.
- Abençoados sejam seus lábios, que repetiram os nomes sagra- Tocou-me o ventre, o mamilo esquerdo, o direito e o ventre de
dos. (Beijou-me os lábios) novo. Formava-se um triângulo.
A seguir, me ajoelhei ante o altar e fui amarrado pela corda que - Por este meio te consagro com o vinho.
formava um anel, de modo que fiquei inclinado para frente. Desta vez tocou com o vinho o ventre, então o mamilo direito
Meus tornozelos foram amarrados. Então, a sacerdotisa bateu o e o esquerdo e o ventre outra vez. Novamente se formava um
sino três vezes, dizendo: triângulo.
- Estás pronto a jurar que serás fiel à arte satânica para sem- - Por este meio te consagro com meus lábios.
pre? Tocando com os lábios os mesmos pontos anteriormente citados,
Respondi: e na mesma direção, ela completou mais uma vez o sinal trian-
- Sim. gular. Levantou-se e libertou finalmente as minhas mãos.
A sacerdotisa bateu o sino sete vezes e disse: Continuava:
- Primeiro deve ser purificado. - Agora te presenteio com os instrumentos de trabalho de um
Tomando um açoite do altar bateu-me nas costas, primeiro três, feiticeiro.
sete, nove e então vinte e um golpes ao todo, dizendo ao fim das Ela apanhou a espada do altar e, movendo-a para tocar meu
pancadas: ombro esquerdo, disse:
- Estás sempre pronto a proteger, ajudar e defender seus irmãos - Primeiro a espada mágica. Tal qual o Athame, esta será usada
da Arte Negra? para formar os círculos mágicos, dominando, subjugando e pu-
Respondi: nindo todos os espíritos rebeldes e demônios. Com isto em tuas
mãos, és o chefe do círculo mágico.
- Sim.
Beijou-me e disse:
Sacerdotisa:
- A seguir, apresento o Athame. Esta é a verdadeira arma do
- Então, repita depois de mim: feiticeiro. Tem todos os poderes da espada mágica.
- Eu (meu nome cristão) na presença do maligno, faço de livre Beijou-me de novo:
vontade o mais solene juramento de que manterei para sempre
e nunca revelarei os segredos da Arte, exceto a uma pessoa de - Agora apresento a faca de cabo branco. E usada para formar
confiança, especialmente preparada, dentro do círculo como todos os instrumentos usados na Arte. Pode ser usada apropria-
estou agora, e que jamais negarei os segredos a outra pessoa, se damente dentro do círculo mágico.
um irmão ou irmão da mesma seita de Satã responder por ele. Beija-o me ainda uma vez e disse: - Agora apresento o incensó-
Tudo isto eu juro e que minhas armas se voltem contra mim se rio. Isto é para encorajar e dar boas-vindas a todos os espíritos.
eu quebrar este juramento solene. Um beijo a mais.

50 51
“Segue-se o açoite, que é um símbolo de poder e dominação, é
também para causar sofrimento e purificação, por isto está es-
crito: ‘Para aprender deves sofrer e ser purificado”.
- Desejas sofrer para aprender?
Respondo: Capítulo VI
- Sim.
Mais um beijo.
- Agora e finalmente, apresento as cordas usadas para amarrar
Tentação de Simão
e reforçar sua vontade. São também necessárias ao juramento.
Beijou-me outra vez, dizendo:
- Saúdo-te em nome de Satã, recém-formado sacerdote e feiti-
ceiro.
Ambos perambulamos pelo círculo e ela proclamou aos quatro
cantos:
-Ouça, maligno, (meu nome cristão, recém-formado sacerdote
ou neófito), foste consagrado sacerdote e feiticeiro14.

Era o fim da cerimônia e eu fora devidamente transformado em


um sacerdote do culto. É costume que o noviço ou neófito tenha rela-
ções sexuais com a sacerdotisa que o iniciou. Porém Dona Clarice con-
sagrou sua pureza e castidade ao Supremo e não era conveniente fazê-lo.
Advirto! Esta cerimônia só pode ser efetuada por um sacerdote
ou sacerdotisa, e o candidato deve estar devidamente recomendado e
preparado no interior do círculo. Realizá-la em outras circunstâncias é
arriscar-se a ser lançado as mais negras profundezas do inferno.

Senti uma forte conexão com meu passado, como que incorpo-
rando um conhecimento antigo e poderoso. Algo como deve sentir um
filho bastardo quando é reconhecido pelo pai.

14 Ritual baseado no Livro de São Cipriano – O Legítimo Capa Preta.

52 53
E
ntediado da rotina da caserna e antevendo um futuro limitado,
determinado pelo rigor hierárquico, decidi deixar o quartel. Dei
baixa do serviço militar contrariando meu pai e meu irmão, que
era sargento, e que fazia muito gosto que seguisse carreira. Iria para a
capital, Florianópolis.
Alguém poderia imaginar que algo teria a ver com as superstições,
crendices e estórias de Sabás das feiticeiras, que supostamente ocorriam
no Sul Da Ilha de Florianópolis, a Ilha da Magia, mas o objetivo era ir
em busca de melhores condições de vida e estudos. Partia somente com
o dinheiro da passagem e o endereço de um irmão que trabalhava em
um famoso restaurante da capital e que me arrumara um emprego como
garçom em um quiosque, na linda e maravilhosa praia de Canasvieiras.
Estava muito feliz trabalhando em um quiosque de praia onde apren-
di a cozinhar e a preparar bebidas e lanches. Cozinhava moquecas de pei-
xe, camarões preparados de todas as formas, caldeiradas de frutos do mar,
lanches e porções de batatas fritas, calabresas com cebolas, anéis de lulas,
marisco, bolinhos de siri e tantas outras coisas. E a vida era bela e tranquila.
Ao final de tarde fechávamos o quiosque, e eu ficava sozinho a
admirar o imenso oceano. Às vezes nadava até uma embarcação que cos-
tumava ficar atracada a menos de cem metros da praia. Era um mundo
novo que se descortinava para mim. Outras vezes aventurava um passeio
ao centro de Canasvieiras para vislumbrar as vitrines das lojas e o movi-
mento dos restaurantes abarrotado de turistas.
Não possuía bens materiais, nem dinheiro. Tudo que tinha cabia
em uma mochila: um par de tênis e um par de sapatos, algumas cami-
setas, duas calças jeans, uma bermuda, um par de chinelos, material de
higiene e claro, as “ferramentas de trabalho de um feiticeiro”. Acho que
acreditava ser aquilo tudo tolice de uma senhora solitária, paranoica e
delirante. Contudo, tinha por ela muita consideração e respeito.
Tudo ia bem até que o português para quem eu trabalhava no
quiosque resolveu contratar um ajudante. Um moleque, de nome Jean,
eu acho. Malandro, possuía a ardileza das ruas de São Paulo, de onde
viera, e dormia no quiosque comigo, cada qual em um colchonete es-
tendido no chão entre as geladeiras e fogões. Passou a me incentivar a

54 55
consumir as bebidas que ali se encontravam e a fazer refeições não au- Era meio dia. Voltaria a procurar em outros lugares. Fui a Lancho-
torizadas pelo proprietário, durante a noite. Comíamos camarões fritos, nete Caiçara. Não havia vagas. Ficava em longas filas, preenchia fichas
ostras e mariscos. Preparávamos lanches fartos e tomávamos sorvetes. de emprego e deixava currículo. Cansado, desiludido, pensei em invocar
Certa noite, após nos fartarmos da melhor comida e bebida, dor- os poderes da bruxa, pois que todos que suplicavam junto à Bruxa de
mimos. Ao acordar, pela manhã, percebi que Jean não estava e que mi- Èvora alcançaram grandes fortunas. Porém, morreram desgraçadamen-
nha mochila havia sido revirada. Receei por meus pertences, mas nada te. Meu objetivo não era a fortuna, mas alcançar a palma da glória por
havia sumido. Exceto um punhado de dólares que havia trocado com os obras meritórias.
“gringos” que frequentavam o quiosque e com os quais pretendia fazer Peguei um “latão” que era como os nativos (manezinhos) chama-
uma reserva para uma emergência. Era tudo o que possuía e a tempo-
vam o ônibus circular e fui a uma das praias mais Setentrionais da Ilha
rada de verão estava chegando ao fim. Iria ficar sem emprego e sem
dinheiro. O que seria de mim? da Magia, praia do Santinho. Caminhava pela praia deixando para trás
a impressão das pisadas na areia. Aproximava-se a segunda hora mágica:
A temporada de verão acabou e meus serviços no quiosque não Eram Três da tarde. De joelhos na areia fria rezei:
eram mais necessários. Fui passar uns dias no sitio do tio de um amigo
de meu irmão, enquanto procurava por emprego. Perambulando pelo
centro de Florianópolis procurava trabalho em bares e restaurantes.
Nada! Dias se passavam sem que minha sorte mudasse. Procurei a Le-
gião da Boa Vontade em busca de ajuda, ou até mesmo uma passagem
de volta para o interior, para casa de meus pais. Procurei políticos na Santíssima Trindade me acompanhe
Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina e não obtive re- Em toda a vida na Terra, Sempre me guarde do mal, De mim
sultado. Era quase meio dia e me encontrava desalentado em frente à tenha piedade.
Catedral Metropolitana. Entrei, mergulhei a ponta dos dedos na água Pai Eterno, me ajude,
benta, prostrei-me de joelhos e rezei: Filho a bênção me lance,
Espirito Santo me alcance,
Proteção, honra e virtude,
Em vez do mal, faça-se em mim,
Ó Virgem dos céus sagrados, Santíssima Trindade me ilumine e acompanhe nesta hora e
Mãe do Nosso Redentor, sempre
Que entre as mulheres tens a palma, — AMÉM.
Traze alegria à minha alma,
Que geme cheia de dor.
E vem depor nos meus lábios
Palavras de puro amor, Por horas vaguei descalço, mochila nas costas, pés na areia, o pen-
Em nome do Deus dos Mundos samento no altíssimo. Sabia que para aprender precisava sofrer, precisa-
E também do Filho Amado, va superar as concupiscências para me conectar com o Todo, expandir a
Onde existe o sumo bem. mente. A ganância, o fanatismo e a ambição não eram inimigos fáceis
Sê para sempre louvada de serem combatidos.
Nesta hora bendita — AMÉM. A terceira hora sagrada se aproximava. Eram seis horas, empunhei
o Athame e o elevei ao altíssimo com o braço esticado o mais alto que
podia, em pé com os pés banhados pelo oceano azul, a mão esquerda

56 57
ligando o ínfimo universo abaixo, ao altíssimo e diviníssimo firmamen- - Sabeis que sendo um sacerdote do meu culto podeis invocar
to pelo sagrado sinal hermético (o que está encima é igual ao que está meus poderes para resolver os vossos problemas? Perdeis vosso tempo
embaixo) rezei: buscando a perfeição.
- Pobre Satanás! Andas pelas trevas metido com seus bruxedos e
artimanhas. Conheço tuas artes e delas posso usufruir. Porém não o farei
em prejuízo do Altíssimo, se isto a alguém for prejudicar, especialmente
se esse alguém for eu. Não farei poções nem atentarei contra a vontade
de um irmão ou irmã forçando sobre este ou esta minha vontade. Se é o
Nesta hora de grande vibração, que desejas de mim, perdes o teu tempo, Satanás.
Quando os pássaros cantam, procurando os ninhos, - Mago Simão! Venho como seu senhor e amigo. Amo-te como
Quando os trabalhadores deixam o arado e os campos te amei por muitos séculos, através do tempo e das vidas passadas. Seu
E o homem da cidade volta também para casa, Deus lhe faltou na Samaria quando Pedro o humilhou em praça públi-
Minha Mãe, SUBLIME MISTÉRIO, ca. A igreja de seu Deus obliterou Simão Mago das escrituras. E ainda
Sê a minha Medianeira; assim o adoras? Eu, seu senhor e amigo, nunca faltei a Cipriano que me
Sê a minha Esperança, traiu e se converteu a Deus. Podemos reparar essas grandes injustiças e
E mostra-me o caminho da Verdade, restabelecer o seu grande nome, Simão.
Maria, SUBLIME MISTÉRIO,
Ajuda-me a ser bom, - Não Satanás! Respondi sem hesitação.
Protege-me na hora das aflições, da rotina, das lutas, Sem esboçar reação pela minha recusa, Satanás apenas me disse
Pela força da TRINDADE, Ó Mãe, Maria Medianeira. que queria dar-me presentes em nome das reminiscências de nosso pas-
sado, e que sendo um alto sacerdote do culto eu não poderia me negar
a recebê-los.
- Pois bem - disse eu - O que queres me dar Satanás?
Todas as maravilhas da criação divina eu contemplei. O imenso Disse ele:
Oceano, as ondas do mar, as areias, o pôr do sol. Infinita beatitude con- - Este óleo mágico e estas favas, que na verdade pertenceram a Ci-
templativa tomou conta de mim e os inimigos da virtude aos pouco se priano e lhe estão sendo restituídas por testamento, que trago aqui assi-
desapegavam do meu ser. Eu estava em paz. nado. Desenrolou um pergaminho em lã de carneiro escrito em sangue:
Foi quase como uma miragem espelhada sobre as ondas que eu o
vi. Ao longe, como uma sombra refletida, divisei a figura do Aristocrata.
Uma lufada gélida de vento marinho arrepiou meu corpo, seguida do
odor inconfundível de enxofre. Um calafrio seguido da percepção de Satanás,
uma presença maligna. Eis que me aparece Satanás e, sem cerimônia, Imperador do Inferno, guarde estas poções que me custaram a
caminhava ao meu lado. alma e entregue ao meu sucessor. Eis meu testamento e minha
- Sabeis quem eu sou, Mago Simão? – Inquiriu como quem sabia vontade.
a resposta. Assina: Cipriano de Antióquia.
- Por certo que sei. Sois Satanás. Conheço-te! Há muito que vagas
pelo tempo admoestando as almas e tentando os homens.

58 59
A estranha herança, legado do meu passado, era composta de um
frasco de óleo mágico feito da alma de animais diversos, cozidos vivos
em um ritual perverso feito por Cipriano com a presença de Satanás,
Capítulo VII
cuja fórmula exata não ensinarei neste livro, e de alguns maços de favas
mágicas feitas em ritual de Magia Negra, as quais tinham sido enterra- Mago Adormecido
das junto com um gato morto e regadas à meia noite até que tivessem
brotado novas e frescas, para serem cortadas pelas raízes na primeira lua
cheia seguinte ao seu nascimento.
A noite passava, nesta vigília. Conversava com Satanás. Não o
temia, nem adorava. Era indiferente a ele. Conhecia suas artimanhas e
ele certamente conhecia minhas fraquezas. O fanatismo estava vencido.
A ganância, a ambição e a ignorância porfiavam sorrateiro combate e
eu, pobre criatura mortal, ambicionava vencer os inimigos imateriais,
para vencer no mundo físico. Durante a conversa, o maligno tentou me
convencer uma ou duas vezes de meter uma fava na boca e desaparecer
para onde eu quisesse. Preferia sofrer e aprender. Caminhamos e fala-
mos. Imaginamos e engenhamos juntos fantasiosas realidades paralelas,
supondo que a humanidade evoluísse.
Dormi na areia e, ao acordar meu companheiro havia sumido. Sa-
cudi a areia da praia e sai caminhando novamente. Encontrei o tio do
amigo de meu irmão, que sabia que eu procurava por emprego e ele me
disse:
- O Iate Clube na Lagoa Da Conceição está contratando auxiliar
de cozinheiro.

60 61
E
ncontrei trabalho no Iate Clube como auxiliar de cozinheiro e
estava muito feliz, pois tinha novamente emprego e uma cama
para dormir no alojamento dos funcionários. Trabalhava na cozi-
nha, lavava louças, fazia faxina e ia ao CEASA, uma espécie de feira de
frutas, legumes e temperos, com o gerente do restaurante, para escolher
os melhores produtos para a cozinha. Aprendi a dirigir uma VW Kombi
e a cozinhar para grandes eventos.
Com o tempo, e por mérito de meu esforço, passei a ser o Ge-
rente de Compras para o restaurante. Também ganhei uma bolsa de
estudos, destinada aos melhores funcionários do ano. Frequentei o curso
de Gerencia de Alimentos e Bebidas do SENAC (Serviço Nacional de
Aprendizagem Comercial). Alguns anos depois trabalhei para o Hotel
Costa Do Mar no Santinho como Gerente de restaurante. Além disso
estudava Inglês duas vezes por semana e em todas as noites e folgas,
sozinho. Já tinha apartamento alugado e possuía uma moto nova e po-
tente.
Há esse tempo havia deixado de lado o interesse pelas coisas ocul-
tas. Em minha mente, como que trancadas a sete chaves, as lembranças
da infância e da adolescência. Sabia que para Deus onipotente o tempo,
o passar dos anos, era irrelevante. Assim como para Satanás. Por isso
preferia deixar esses assuntos adormecidos. Também as ferramentas do
culto em um baú jaziam, empoeiradas, debaixo de um armário.
Deixei o emprego e decidi estudar Inglês na Inglaterra. O menino
tísico da roça iria para o velho mundo estudar a língua universal dos
homens, a língua inglesa. A emoção era indescritível. Embarquei em
Florianópolis em um voo curto até São Paulo. A sensação tão humana,
frágil e pequena, deslumbrava-me a mente. Viajar em uma aeronave fei-
ta por engenharia humana era quase uma demonstração inequívoca do
poder divino.
De São Paulo fiz conexão em Paris, em Airbus A-350 da Air-
-France, na classe executiva. Tive a companhia de uma jovem que se ves-
tia toda de preto, com piercings, tatuagens e um lindo cabelo vermelho

62 63
fogo. Usava jeans rasgado, coturnos militares e anéis diversos nos dedos. das, porém frias e apáticas.
Era francesa, mas falava inglês. Conversamos durante o longo voo de Visitei museus em Londres e arredores e, é claro, o famoso e an-
doze horas. Bebemos vinho e comemos o “pulet pané”, que era frango tigo templo e oráculo de Stonehenge. Quase podia imaginar os Saxões
empanado. Porém, dito em francês, soava como alta gastronomia. ancestrais contemplarem o último pôr do sol do último dia do inverno
Como o vinho fluía das garrafas, assim fluía a conversa. A moça alinhado ao círculo formado pelas Hangging Stones. Lamentei profun-
me dizia que era “gótica” e que cultuava as forças das trevas, que ouvia damente o desprezo que a humanidade tem por sua história.
heavy metal e lia Lord Byron. Suas influências ocultistas, segundo ela. Ao retornar para o Brasil passei a ensinar a língua inglesa a pilotos
Há muito que não me divertia tanto dando vazão àquela criatura ingê- e comissários de bordo. E a todo o pessoal da indústria da aviação. O
nua e pálida que flertava com o oculto. Disse-lhe que estava indo para curso foi crescendo. Então fundei uma escola livre de idiomas, chamada
Inglaterra e lhe perguntei se conhecia Mr. Crowley. Respondeu que sim, The Way. Ensinava inglês e empregava professores de Espanhol e Fran-
a música de Ozzy Osbourne. Sim, ela a conhecia. Insisti educadamente ces. Ensinei inglês a centenas, talvez milhares de pessoas que hoje estão
e disse que me referia a Aleister Crowley, o mago filósofo fundador do nas mais diversas profissões espalhadas pelo Brasil e o mundo.
Thelema, grão mestre da Ordem hermética Aurora Dourada. Notei que Também entrei para a Universidade Federal de Santa Catarina
seu interesse pelas ciências ocultas não passava de estética e modismo, para o curso de Inglês e Literaturas de Língua Inglesa. Período particu-
que arranhava apenas a superfície e que certamente cairia desmaiada se larmente interessante em que tomei conhecimento de Lord Byron, Ed-
soubesse que na verdade viajava ao lado de Simão Mago. gar Allan Poe, William Shakespeare, Jane Austen e tantos que escreve-
No Aeroporto de Paris-Charles de Gaulle, nos despedimos. Fui ram lindamente a literatura. Li Dante e sua belíssima poesia dogmática,
interpelado pela polícia local e pediram-me para acompanhá-los. Soli- Virgílio e outros tantos imortais. Queria ser como Dante que deixou um
citaram meu passaporte, revistaram minha mala, pediram para tirar os legado cruel, porém com significação profunda ao descrever vividamente
sapatos e perfuraram as solas. Fizeram-me mil perguntas. Ainda não sua viagem espiritual ao inferno, ao purgatório e ao paraíso para expiar
satisfeitos, me solicitaram fazer exames de raio x e de urina. Pediram seus pecados e merecer o favor do Altíssimo e o amor eterno da beatís-
para me despir e revistaram minhas roupas. Depois de quatro longas sima Beatriz. Queria ser como Goethe que poetizou lindamente em sua
horas me liberaram. Confesso que me senti ultrajado e com vontade obra prima, O Fausto, as vantagens e desvantagens de se fazer um pacto
de vingar-me daquela gente. Mas lembrei-me das escrituras sagradas e com o demônio. Queria deixar meu legado. Queria ser imortal.
exercitei, com muita dificuldade, a tolerância, o perdoar. Mais uma perna Longos anos de uma vida ordinária levei assim, anonimamente,
até Londres. Quarenta minutos. Porém, com fuso horário, chegaria no aproveitando a vida e os prazeres mundanos. Meu amado filho nas-
mesmo horário da partida no Aeroporto de Londres-Heathrow. ceu na virada deste século, a quem apenas consagrei o místico número
Fiquei hospedado em uma casa de família inglesa como parte de sete e cuidei para que cultivasse elevada auto estima. Meu amadinho, é
programa de imersão na língua e cultura daquele país. Frequentei um como ainda o chamo. Desde menino sempre cuidei para que soubesse
curso livre de inglês como língua estrangeira da Cambridge University que era muito amado e querido e que sempre poderia contar com seu
e ao final obtive um certificado de proficiência chamado First Certifi- pai. Nenhuma magia foi usada, nenhuma poção, nem unguentos nem
cate of Cambridge. A experiência toda foi fantástica. O breackfast com feitiços, nem bruxedos, nem coisa alguma de outro mundo. Apenas o
Sausage and potato, o almoço ou melhor, o “lunch” de fish-and-chips ou amor incondicional de pai, o batismo pela Santa Igreja Católica e a co-
pork-and-chips, ou sausage-and-chips, não parecia ser enjoativo, embo- munhão com os santos e mártires da Santa Igreja. E cresceu lindo, forte
ra pouco variado. A cultura, a educação, a história eram fascinantes para e saudável. E com a belíssima capacidade humana de criar, de perdoar
mim. A convivência com Mr and Mrs Phelps era “polite”, educada, mas e de amar.
não calorosa. Assim como o frio na Inglaterra eram as pessoas. Educa- Cansado desta vida corriqueira de ensinar idiomas, larguei tudo

64 65
e fiz um novo começo. Fui trabalhar em um banco de investimentos e perguntas. O famoso elixir do alquimista não conseguira, contudo, sal-
descontos e depois em outro, e em outro. Fiz carreira como bancário. var da morte sua fiel companheira. Por isso tornou-se um viajante soli-
Ascendi ao cargo de Gerente Regional de um importante banco com tário e nômade. Ron confessou a mim, Simão Mago, que esta seria sua
sede em Londres. Conheci o Canadá em um intercâmbio profissional última existência terrena e que por isso vivia intensamente. Quanto ao
e fiz lá muitos amigos, dentre os quais o velho Ron que era Ministro da que os Amentibus chamam pedra filosofal, perguntei indiscreto, porém
Igreja Anglicana canadense, Presidente do clube de Rotary e Venerável temeroso.
Mestre da Grande loja maçônica. Todo isso aos oitenta e três anos de - Deve estar acabando. - Respondeu Ron, mostrando uma velha
idade; o que me impressionou bastante. garrafa comum, onde se lia em relevo:” Parfum Botique Paris”. Olhei e
Ron era Egiptólogo de profissão e era ainda requisitado para mui- inclinei cuidadosamente a garrafa. Um liquido espesso como mel, vaga-
tas palestras. Em seu porão guardava muitos utensílios curiosos, dentre rosamente, deslizou do fundo da garrafa. Mal podia conter o êxtase da
eles uma gaita de fole escocesa e muitos quadros e porcelanas decora- descoberta. Admirado, olhei para meu anfitrião que disse:
vam as paredes. O anfitrião jamais me recomendara não xeretar em seus -Tome Simão. Faça bom uso.
pertences e a curiosidade me impeliu a verificar o que mais havia lá. Em Antes que o leitor possa se indagar por que eu, diante de Nicolas
uma pilha de documentos antigos encontrei o que parecia ser uma certi- Flamel, não indaguei sobre a transmutação de metais para fabricação de
dão de nascimento em nome de Aurélio Filipe, datado de 1493 e regis- ouro, eu o digo: Pelo óbvio. O próprio Flamel deixou a fórmula em tes-
trado na Suíça. Em um baú de madeira muito antigo encontrei uma foto tamento para o sobrinho. E, de heranças malditas, eu entendo melhor.
de um monumento em que havia uma epigrama. Olhei sob a lupa e se
lia: “A Magia é uma Grande Sabedoria Oculta – A Razão é uma Grande Voltei ao Brasil com as inestimáveis lições apreendidas com Ron,
Loucura Pública”. Paracelso – Áustria (1493-1541). A lupa caiu-me das no Canadá, e com o preciosíssimo elixir. Estava mesmo decidido a levar
mãos trêmulas e espatifou-se no chão. Ron seria o poderoso Alquimista uma vida pacata. Porém, com a vida humana vêm as concupiscências,
conhecido pelos Amentibus como Paracelso? os vícios, as fraquezas comuns aos mortais. A competição no mundo
corporativo, por ascensão e carreira, traz consigo a inveja e o despeito,
É claro que como mago eu conhecia o grande Paracelso15, também a ganância e a ambição. As chantagens e o assédio eram comuns, assim
conhecido na comunidade esotérica como Teofrasto Bombast. Apesar como a deslealdade com os colegas. Remoendo esses sentimentos mun-
de ser muito poderoso, ele desprezava o mundo do poder, dos dogmas danos é que tomei em mãos, para ler, o mais divino dos poetas: Dante
e dos valores estabelecidos. Morreu misteriosamente na Áustria e sua Alighieri, A Divina Comedia. E me senti fatidicamente como Dante,
tumba foi encontrada vazia anos depois. aos trinta e cinco anos, tendo me desviado do caminho reto. E no meio
Ainda movido pela curiosidade fui ter com Ron que negou tudo da selva escura e selvagem divisei uma besta, como se lê nos primeiros
e disse que eram documentos históricos raríssimos. Que eu não deveria versos de Inferno Canto I:
mexer. Disse a ele que eu mesmo tinha consciência de ter sido Simão
Mago em outra vida e que estava convencido de que ele, Ron, era nin-
guém menos que Nicolas Flamel que viveu até 1418, pouco tempo em “Nel mezzo del cammin di mostra vita
termos esotéricos, antes do nascimento de Teofrasto Bombast. E o que (Ao caminhar de nossa vida)
havia sido feito de Dame Perrenele Flamel, sua esposa e companheira? Mi ritrovai per uma selva oscura,
Os olhos marejados do velho Ron eram resposta bastante para minhas (fui me encontrar em uma selva escura)
15 Paracelso, pseudônimo de Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, (Ein- Ché la diritta via era smarrita.”
siedeln, 17 de dezembro de 1493 — Salzburgo, 24 de setembro de 1541) foi um médico, alquimista,
físico, astrólogo e ocultista[1] suíço-alemão.[2] A ele também é creditado a criação do nome do (estava a reta minha via perdida)
elemento zinco, chamando-o de zincum.

66 67
A ganância, o fanatismo e a superstição, como as três feras de
Dante, fustigavam-me o gênio e turbavam-me as virtudes, tendo cedido
aos vícios e a iniquidade, a besta assim avançava:

“ Questi parea ache contra me venisse


Capítulo VIII
(que parecia que contra mim viesse)
Com la test’alta e com rabbiosa fame, O Mago Visita o Passado
(com a fronte erguida e fome raivosa)
Si che parea ache l’acre ne tremesse.
(parecendo que o próprio ar a temesse)

Ed uma lupa, che di tute brame


(e de uma loba de cobiça ansiosa)
Sembiava carca ne la sua magreza,
(em sua torpe magreza carregada)
E molte genti fé giá viver grame”.
(que a muita gente a vida fez penosa)

Não obtive, no entanto, como Dante, o auxílio da razão personifi-


cada em Virgílio para socorrer-me neste momento de fraqueza humana.
Tudo parecia desmoronar. O casamento fracassou, os estudos dizima-
ram á parcas e superficiais leituras de literaturas fáceis, a faculdade inter-
rompida, os amigos se afastaram. Dor e tristeza profunda se instalaram e
me abateram o ânimo. Uma briga familiar foi a gota d’água para desen-
cadear um amargor profundo e desalentador.
Sai sem rumo, não sem antes arrancar do soturno sótão a maleta
contendo as ferramentas, favas e poções. Meti as favas secas na boca e
transportei-me para a praia onde há muitos anos me encontrava em
semelhante aflição.

68 69
P
oderia nestas horas, diante de tamanha aflição, meter as favas na
boca e me transportar no espaço e tempo para remover as aflições,
ou consertar os malfeitos. Mas não seria assim que iria reescrever
minha história. Poderia usar a garrafa de óleos dos animais que morre-
ram por Cipriano e criar uma ilusão, ou seduzir uma bela donzela, ou
morder as favas e fazer-me invisível. Esta última ideia era a mais ten-
tadora. Queria fazer-me invisível. A última companhia que pretendia
era a de Satanás. Por isso, preveni-me de sua visita benzendo-me três
vezes com o Sinal da Cruz. Aproximava-se a hora perigosa, mais uma
vez rezei:

Nesta hora perigosa,


Ó Anjo de minha guarda,
Gênio Protetor que me acompanha,
Me livre das visões
Do mal, sonho aterrador,
Com Deus eu me deito,
Com Deus me levanto,
Com a graça de Deus
E do ESPÍRITO SANTO — AMÉM.16

Era meia noite. A realidade tornou-se insuportável. Tomei as


favas na boca e visitei meu passado. Das tentações, a menos perigosa.
Transportei-me no tempo, pra quando era menino, na casa de meus pais.
Visitava em espírito, cada uma de minhas lembranças, mesmo aquelas
que feneceram na memória, no tempo de minhas travessuras do passado.
Eis a primeira estória:
Meu irmão mais velho criava coelhos. Um deles, o mais belo

16 Orações baseadas no Livro de São Cipriano

70 71
de todos, tinha olhos vermelhos e um pelo sedoso e branquinho. Era o casa abandonada na vizinhança e uma ideia perversa me ocorreu. Como
mais amado. Andava solto pelo gramado, corria e saltitava. Era arisco. quase todos, adultos e crianças, eram supersticiosos e temerosos das coi-
Não se deixava pegar e tocar. Mas eu o queria para mim. Secretamente sas ocultas, assombraríamos a casa. Estava decido e nós sabíamos como
o invejava e queria tê-lo. Queria ser o seu dono. iríamos fazê-lo.
Certa manhã o belo coelho estava ditoso comendo a relva macia e Tomamos o crânio da mula no cabo da vassoura e preenchemos
verde e eu o via ao longe. Sabia que não podia pegá-lo. Com o estilingue as cavidades oculares com tocos de velas. Arrancamos-lhe os arreios e
lançava pedras em sua direção, em princípio sem querer acertá-lo. As as rodas de lata e fincamos o cabo de vassoura no chão em frente à casa,
pedras caiam-lhe ora a esquerda, ora a direita, ora por sobre as orelhas. cabeça voltada para a rua. Acendemos as velas e desenhamos uma larga
Até que uma pedra certeira atingiu-o na cabeça e ele caiu desfaleci- cruz em giz na porta. De longe jogamos pedras na casa, para provocar o
do. Estava morto. Perplexo diante do que fizera, coração sobressaltado, latido dos cachorros na vizinhança, e para que alguém desejoso de des-
medo e o terror de ser descoberto e compaixão pela pobre criatura mis- cobrir o motivo do alarido avistasse o preparo macabro. Não demorou
turavam-se, formando um frenesi febril em minha mente, que maqui- para que um vizinho iluminasse com a lanterna os estranhos pequenos
nava uma solução. Tinha que ocultar o cadáver. Era isso. O que seria fachos de luz que se viam ao longe como que pairando no ar. Eram as
uma mentira se comparada ao assassinato? Despojei a carcaça em uma velas dentro da caveira. A visão aterradora provocou tamanho frene-
vala rasa no mato e tratei de me acalmar e engenhar uma resposta, caso si que os adultos trancaram portas e janelas, as crianças lançavam-se
alguém me perguntasse se o havia visto. Diria que a última vez que o vi para fora pelas portas e janelas dos fundos da casa e gritos de horror
estava a comer a relva e que talvez pudesse ter fugido. ecoavam na noite escura. Corremos para resgatar a mula fantasma an-
A dor do remorso só não era mais penosa que a de ver o sofrimen- tes que pudéssemos ser vistos. Eufóricos e assustados com a peça que
to de um irmão sem poder ajudá-lo. Seria essa talvez a primeira vez que pregamos, voltamos secretamente para nossas camas, comemorando o
eu via sofrer um irmão sem nada fazer para serenar a dor. Mas, não seria sucesso triunfante de nosso plano. Essa travessura rendeu uma lenda de
a última. assombração contada por muitos e muitos anos.
Outra vez, em meu passado, brincava com minha irmãzinha e Outra lembrança que esta viagem ao passado vivificou em minha
meu irmãozinho. Voávamos imaginariamente em tapetes mágicos sobre mente foi um incidente terrível. Este fora involuntário e me mortificou
as campinas, sobre as relvas e as brancas nuvens. Íamos para Arábia e por muitos anos. Estávamos eu e um dos meus irmãos no pasto com
para Constantinopla, aos templos dos Sultões e Marajás, onde com- uma parelha de bois a puxar o arado. Os bois estavam terrivelmente
partilhávamos com os monarcas de grandiosos banquetes. A todos os indolentes e pareciam não querer cooperar com o trabalho. O açoite
nossos desejos, limitados apenas pela imaginação, atendia-os o gênio quebrou, as rédeas não funcionavam e eles simplesmente não queriam
da lâmpada. Minha irmãzinha era linda. Graciosa como uma prince- obedecer. Tomado de uma fúria incontrolável e armado com uma foi-
sa. E eu sempre me soube desengonçado. Maldosamente, por inveja ou ce muitíssimo afiada avancei para a parelha de bois com a intenção de
por ciúmes, coloquei um punhado de urtigas dentro do vestido de seu golpear de prancha no lombo do Cigano, um velho e querido boi pardo
vestido. Agi traiçoeiramente, iludindo-a de que a venenosa erva era ne- que estava conosco há anos, na lida do campo. Golpeei com força e a
cessária para realização de uma magia. Não seria essa a única vez que foice escorregou, ferindo o pobre animal profundamente no dorso. O
utilizava de um ardil para iludir uma irmã ou irmão. sangue começou a jorrar de um ferimento profundo, de pelo menos dez
Com o poder das favas de Cipriano o tempo e o espaço curvavam centímetros.
se ante a minha vontade e, como expectador de minha realidade passada, Nada podia estancar a hemorragia. Levamos o Cigano para casa
como se fosse um filme, eu espiava. e tentamos de tudo: Borra de café, banha de porco, panos e estopas. O
Mais uma vez meu irmãozinho e eu iríamos aprontar. Havia uma animal agonizando e eu sentindo um terrível remorso. E foi assim noite

72 73
adentro. Eu sendo acusado e repreendido severamente por meus pais e começo.
irmãos, não conseguia dormir. Visitava o agonizante Cigano de meia em Não sem antes corrigir uma injustiça da natureza, mais precisa-
meia hora e no mais profundo desespero e devoção rezei: mente da genética familiar de minha linhagem: A calvície. Era tudo
o que eu queria naquele momento. Usar do óleo mágico da garrafa de
Cipriano para evitar que meus cabelos caíssem e assim o fiz. Besuntei
meu cabelo com o poderoso óleo e conjurei o feitiço com uma poderosa
Deus misericordioso, Deus clemente, Deus que segundo a gran- oração. E, como último ato de feitiçaria, herança de Cipriano, tomei as
deza de vossa infinita misericórdia perdoai os pecados deste favas na boca e me transportei para a praia de Canasvieiras.
espírito que tem dor de os haver cometido, e lhe dai literal ab- Estava feliz, pois havia me mudado para uma charmosa pousada
solvição das culpas e ofensas passadas; ponde os olhos da vossa à beira-mar. Lamentava apenas a separação de meu filho. Doía muito a
piedade neste vosso servo que anda neste mundo a penar; abri- saudade, mas era necessário iniciar uma nova fase da vida. Haveria de
-lhe, Senhor, as portas do céu, ouvi-o propicio e concedei-lhe o conhecer a minha futura esposa e refazer o meu lar. O que não demorou
perdão de todos os seus pecados, pois de todo o coração vo-lo pede muito. Encontrei minha alma gêmea. Fiel e amantíssima companheira
por meio de sua humilde confissão: Curai esta pobre criatura. que me deu, além de amor e carinho, um lar e muito apoio para prosse-
Isto vos peço em nome do Pai, do Filho e do espírito Santo. guir na vida mortal e imperfeita, porém bela e surpreendente, que pas-
Amém. samos a compartilhar desde então.
Casado e feliz decidi recomeçar. Mudei-me para a bela e formosa
cidade de Blumenau e empreendi em um novo negócio. Como empresá-
No dia seguinte, antes de nascer o sol, fui ver como estava o Ci- rio, poderia talvez deixar um legado e quem sabe eternizar o meu nome
gano. Encontrei o pobre animal mergulhado em uma poça de sangue por feitos, tais quais aos dos homens comuns, sem magia, nem bruxedos.
em agonia, muito fraco e abatido, porém a hemorragia havia cessado. Talvez apenas utilizando os recursos da Alta Magia, a magia da men-
Ainda estava vivo. Eufórico e esperançoso, corri para pegar um balde de talização, da criação. Sem a necessidade de firmar pacto com satanás. A
leite fresco, recém-ordenhado da vaca. Misturei ao farelo de milho que Magia Hermética que está ao alcance de todos, interposta por apenas
ele adorava e o alimentei. Para minha felicidade ele aceitou o alimento, uma única barreira: a do fanatismo e da ambição, que eu haveria de
aos poucos, e se recuperou gradativamente. Minha tarefa nos próximos transpor com muita humildade, estudo e dedicação.
meses foi de cuidar e alimentá-lo bem. Minhas preces haviam sido aten- Estava eu certa vez em meu escritório, sozinho, analisando pla-
didas. nilhas com os dados do meu negócio e eis que aparece um senhor com
Visitando meu passado, voltei fortalecido. Ciente das fraquezas semblante bondoso, muito educado. Perguntou se poderia ter uma con-
humanas, compreendi a insignificância de meus atos. Mastigando as sa- versa comigo. Ao que respondi que sim, tomado pela curiosidade. Ele
lientes favas regressei de minha viagem. se apresentou dizendo que era o administrador do staff do condomínio
onde minha empresa estava estabelecida e notava minha simplicidade
De volta à praia do Santinho, física e espiritualmente, contemplei
e atenção, cumprimentando educadamente a todos, desde as faxinei-
o oceano e suas ondas que quebravam na praia, o céu estrelado, as cons-
ras e faxineiros até os diretores do condomínio empresarial. Disse-me
telações e as galáxias. Como era perfeita a criação de Deus. Nesta via-
que havia chegado a ele histórias de que eu havia me interessado pela
gem aprendi que a Deus nada é impossível. Tudo é possível para aquele
tragédia ocorrida com o neto, ainda bebê, de uma das faxineiras que
que tem seu poder. O poder da mentalização e o poder da criação. A
havia morrido queimado em um terrível incêndio na humilde casa de
este é permitido acessar a inteligência universal e suplantar as fraquezas
madeira em que moravam pai, mãe e o bebê. Não poderia ter agido de
humanas, que são muitas. E evoluir. Estava decidido. Faria um novo

74 75
maneira diversa, se não providenciar o funeral, a reconstrução da casa e
a restituição dos bens àquela pobre família, já que palavras não poderiam
confortar a dor da terrível perda.
Capítulo IV
O homem disse pertencer a uma organização milenar de cunho
filosófico e filantrópico e que tinha por objetivo o aperfeiçoamento da Iniciação a Maçonaria
humanidade por meio do aperfeiçoamento do homem, ajudando o a
lapidar-se moral e intelectualmente e a edificar o seu templo interior em
base sólida: conhecimento e espiritualidade.
- Meu senhor – respondi - Sou católico e fui batizado na Santa
Igreja Católica, na Comunhão dos Santos, na ressurreição da carne e na
vida eterna. Não tenho interesse em mudar de religião. Se for isso perde
o seu tempo meu bom senhor. Já tenho firmado na fé católica minha
religião.
Serenamente o homem me disse:
- Não se trata de religião. Todas as religiões, nós as respeitamos.
Temos como pré-requisito para admissão em nossos arcanos, ser livre
e de boa reputação, acreditar em um ser superior, o criador de todos os
mundos: o Grande Arquiteto do Universo. O convite é para que junte a
nós na ordem de pedreiros livres e aceitos, a Maçonaria Universal.
Considerei que fazer parte de uma organização milenar filosófica
e filantrópica que cultiva e difunde entre seus membros todo o conheci-
mento filosófico, esotérico e cientifico de todos os tempos, poderia ser o
elemento que faltava em minha biografia humana. E talvez minha mais
significativa contribuição para esta existência terrena.
- Aceito. - Disse ao bom homem, que sorriu e se despediu com
um aperto de mãos.
– Nós entraremos em contato. Falou e saiu.

76 77
A
lguns dias depois o homem apareceu com um formulário de
admissão, que preenchi e assinei. O mesmo seria proposto à loja
maçônica a qual ele pertencia e, se aceito, seria conduzida uma
investigação sobre a minha vida pregressa, feitas sindicâncias sobre mi-
nha vida familiar e social. Então, se minha esposa desse a permissão, eu
seria admitido no quadro como aprendiz. O que achei particularmente
interessante, pois no culto satânico o noviço é iniciado à mestre e tem
seus poderes plenos conferidos na iniciação.
Dois longos anos se passaram desde a proposta de admissão. Se-
gundo meu padrinho, investigações internas corriam sobre meu passado.
Cheguei a suspeitar que pudessem ter descoberto a minha relação com
a Bruxa ou ainda que em seus quadros eles tivessem alguém que como
eu podia transitar acidentalmente ou intencionalmente entre as dimen-
sões invisíveis. Nunca havia me perguntado se havia outros magos, não
por arrogância ou prepotência, mas por puro desinteresse. E também
por admirar secretamente estes que os magos chamam Amentibus, os
não iniciados. Aqueles que vivem sua vida, dádiva divina, neste plano e
somente neste plano, tentando evoluir e se aperfeiçoar para, quem sabe,
alcançar a palma da glória e merecer o prêmio de ascender a Deus, cria-
dor do céu e da terra e de todas as coisas nela viventes.
Quando já não acreditava que fosse possível, o padrinho veio ter
comigo e trazer a boa nova: fora admitido! Após ser submetido à escru-
tínio secreto entre os irmãos da ordem, fora aprovado “limpo e puro”,
por unanimidade. Então minha iniciação dependeria apenas das sindi-
câncias sobre minha vida social, familiar e a aprovação de minha esposa.
As sindicâncias correram e uma entrevista comigo e com minha esposa
foi marcada. A ela foi exposto um breve resumo da finalidade da ordem
e do motivo da minha admissão, ao que ela respondeu e eu jamais es-
quecerei:
- Meu marido é um homem bom. Se for possível que se torne
melhor eu não sei. Mas confio em seu discernimento e ele deve fazer o
que o seu coração mandar.

78 79
Principiei meu ingresso na maçonaria pelo coração. Por acreditar porquê de esta belíssima criatura de Deus estar fadada a ser relacionada
em uma instituição que tem por natureza o aperfeiçoamento moral e com o mal. Deveria ter algo a ver com o bode expiatório que era apar-
intelectual para a evolução do homem e da sociedade. Os valores em tado do rebanho e deixado só, para crescer selvagem na natureza, como
que mais acredito e cuja posse confere ao seu depositário poderes que parte das cerimônias Hebraicas do Yom Kippur, ou o dia da expiação,
excedem em muito aos da Magia Negra, da Alta Magia ou da Bruxaria. como descrito em Levítico 1-2.
Pois nada esta acima da perfeição. A perfeição está em Deus. Ou então, talvez, estivesse associado à figura de Baphomet. Uma
A iniciação fora marcada e na semana que há antecedeu o tempo figura panteística que era um deus pagão da fertilidade, associado à força
foi dedicado à preparação. Com tarefas como ler versículos bíblicos, es- criativa da reprodução, representado com uma cabeça de carneiro ou de
tudar sobre a maçonaria, fazer caridade, perdoar alguém e comprar itens bode. Um símbolo comum de procriação e fecundidade, comumente as-
inusitados como: uma régua de vinte e quatro polegadas, um esquadro sociado à figura de Satanás. Crendice e fanatismo associavam e, incrivel-
e um compasso, uma trolha e um prumo, um maço e um cinzel, um mente em nosso tempo, por ignorância, ainda há pessoas que associam o
nível e uma prancheta e diversos instrumentos de traçar e edificar. Se bode, essa maravilhosa criatura divina, ao mal.
fosse edificar um templo, as ferramentas, já as tinha. No dia da iniciação
deveria estar preparado às seis horas da manhã. Vestido em terno preto,
camisa branca e gravata preta. Deveria também levar um saco de milho
em grãos. Um carro preto com três homens vestidos de ternos pretos en-
capuzados me apanhou em frente a minha casa, na hora marcada, e me
levou para a igreja Nossa Senhora Aparecida. Era para rezar e meditar.
Pensar sobre a vida mundana que levara até aquele momento e aguardar
novas instruções. Comparado aos horrores que presenciara até então a
cena não poderia me assustar mais.
Na capela da igreja, sozinho, lembrei-me da infância, da vida fa-
miliar, dos sonhos e esperanças, das tentativas de levar uma vida normal
e digna, dos percalços da vida e da sorte. De como era maravilhoso po-
der escolher meu destino, experimentar coisas novas e viver novas aven-
turas. Mudar meu destino quantas vezes fosse necessário, de acordo com
a grande dádiva de Deus: o livre arbítrio. Ao meu lado aproximou-se
uma pessoa e cochichou secretamente em meu ouvido:
- O sol alcançou o Zênite. A hora em que começam os aprendi-
zes de maçons os seus trabalhos. É meio dia. É mais que hora. Desejais
prosseguir? Confiais na maçonaria e em seus futuros irmãos?
- Sim, respondi. Fig. Baphomet.
- Então permita que te coloque esta venda nos olhos.
Vendado, me conduziu para o interior de um carro que arrancou
em alta velocidade. Em um carro em movimento, ao som de música gre- Conduzido em trevas para um lugar que diziam ser um templo, fui
goriana, fui instruído a contar os grãos de milho que seriam destinados á confortavelmente sentado em uma antessala ou átrio. Ainda vendado,
alimentar o bode, diziam. Lembrei-me do bode Aristocrata e pensei no fui preparado para a cerimônia. Despojado de metais e posses mate-

80 81
riais. Peito esquerdo, o lado do coração, nu. Os pés descalços, um laço
corrediço em volta do pescoço donde pendia uma corda, era conduzido
para a porta do templo. Pobre e desprovido de vaidades, com um punhal
apontado para o coração aguardando pela aprovação do Venerável Mes-
tre e dos irmãos para adentrar ao templo. Uma vez admitido, a coragem,
a determinação e a confiança no irmão que me conduzia foram testados,
seguidos de um juramento solene de fidelidade e segredo sobre os sinais
e palavras de passe e tudo que se passava no interior de um templo du-
rante as sessões maçônicas.
Tendo sido feito maçom, aprendi os segredos da maçonaria, suas
lendas e mitos, e ascendi aos graus de Companheiro Maçom e de Mes-
tre Maçom. Posteriormente ascendi aos diversos Graus da Perfeição
que alcançam o Grau 33. Aprendi que a maçonaria guarda a tradição
dos estudos sobre a numerologia, a astrologia, esoterismo, história, artes
e ciências. Um interesse que está se perdendo na sociedade moderna.
Milhares de anos da evolução da humanidade preservados através de

Capítulo X
alegorias e símbolos, lendas e mitos.
A instituição sobreviveu ao tempo, às diversas crises e aos regi-
mes de governo. Às guerras e ao fanatismo. À ignorância, que tem por
missão combater. Porque é democrática, aceita em seus quadros a todos,
dentro de certos pré-requisitos já mencionados, indiscriminadamente, O Simbolismo Maçonico
independentemente de raça, credo ou condição social.

82 83
A
maçonaria é uma sociedade secreta e filosófica, filantrópica, ini-
ciática e progressista. De caráter universal, seus membros cul-
tivam o aclassisismo, e a fraternidade, norteados pelos princí-
pios da liberdade, igualdade e fraternidade. É, portanto, uma sociedade
fraternal e seus membros tratam-se mutuamente por irmãos. Admite
homens livres e de bons costumes, sem distinção de raça, religião ou po-
sição social, com o firme propósito de ir em busca da perfeição, cavando
masmorras aos vícios e erguendo templos ás virtudes.
Organizada em ritos e potencias, subdividida em graus simbólicos
e filosóficos, a maçonaria preserva uma tradição simbólica como base do
seu método educativo. Explicarei a seguir o significado dos principais
símbolos maçônicos.

O esquadro e o Compasso

84 85
O  Esquadro é um instrumento de desenho utilizado em obras A Letra G
civis e que também pode ser usado para fazer linhas retas verticais com A letra G significa a Gênese, Gnose, ou seja: A criação, o gênio,
precisão para 90°. Simbolicamente, demonstra retidão e também a ação Deus.
do Homem sobre a matéria e da ação do Homem sobre si mesmo. Sig-
nifica que a conduta deve ser guiada pela linha reta. Emite a ideia in-
flexível da imparcialidade e precisão de caráter. Simboliza a moralidade,
retidão e as coisas concretas.

A joia do Venerável de Honra.

O Avental
O Compasso é um instrumento de desenho que faz arcos de cir-
cunferência e também serve para tomar e transferir medidas. É o sím-
bolo do espírito, do pensamento nas diversas formas de raciocínio, e O maçom recebe o avental na iniciação, sendo peça obrigatória na
também do relativo. O símbolo mais básico alcançado pelo compasso é vestimenta maçônica. É proibida a permanência em loja sem estar de
o circulo com um ponto no centro, símbolo do Sol. avental. É o símbolo do trabalho maçônico. O avental é branco com a
Juntos, formam o símbolo mais característico da maçonaria. Re- aba levantada para os aprendizes e branco com a aba abaixada para com-
presentam que a ordem é pautada pela filosofia sobre os itens dos pe- panheiros, branco orlado de vermelho ou azul celeste (de acordo com
dreiros e antigos construtores. Nenhuma loja funciona sem o Esquadro a Potência da loja simbólica ou com o Rito praticado), É, geralmente,
e Compasso a mostra sobre o Livro da Lei, aberto. Por isso é um sím- composto por um retângulo a que se sobrepõe uma abeta triangular.
bolo tão emblemático da maçonaria. O esquadro e o Compasso simbo-
lizam também a materialidade do homem e sua espiritualidade. E seu
significado pode variar conforme a disposição das hastes do compasso.
Com as hastes sobre o esquadro representa a prevalência do espírito so-
bre a matéria. Condição somente alcançada no grau de Mestre maçom.

86 87
Utensílios de Pedreiro A  trolha, ou colher de pedreiro, é o símbolo da benevolência
e  tolerância. É utilizada para estender a  argamassa  e cobrir todas as
irregularidades. Faz parecer o edifício como formado por um único
bloco. Com isso, a trolha pode ser considerada como um emblema de
tolerância e de indulgência. A trolha é o símbolo do amor fraternal que
sugere a união de todos os maçons, como único cimento que cobre toda
a edificação do templo. Passar a trolha significa esquecer as injúrias ou as
injustiças, perdoar um agravo, dissimular um ressentimento e desculpar
uma falta. Na maçonaria operativa, o aprendiz ocupava-se do preparo
dos materiais brutos, pelo que necessitava unicamente do malho e do
cinzel. Estes materiais passavam depois às mãos dos companheiros ou
operários que os colocavam convenientemente, servindo-se do prumo,
Um malho egípcio de madeira datado de meados de 1550-1070 A.C.
do nível e do esquadro. Por último, o mestre verificava a exatidão com
que foi feito o trabalho, dando a última demão e estendendo com a
trolha o cimento que une definitivamente todos os materiais. Por isso,
O Maço ou Malhete e o Cinzel considera-se que a trolha é um instrumento do mestre maçom. Em
O Maço (maço, malhete ou martelo) e o Cinzel são duas ferra- certas lojas inglesas, porém, a trolha é a ferramenta de trabalho do mes-
mentas utilizadas por profissionais que trabalham em pedra, madeira e tre instalado (que foi Venerável Mestre).
diversos outros materiais até os dias de hoje. O maço pode ser feito de
diferentes materiais como ferro, madeira ou borracha. Diferem um pou- V.I.T.R.I.O.L
co entre alguns tipos, mas na maçonaria levam consigo o mesmo sentido
de força de vontade, da força em si e da iniciativa. O cinzel é feito de VITRIOL ou V.I.T.R.I.O.L. é a sigla da expressão, do latim “Vi-
ferro endurecido, ou aço, podendo ter vários tipos, a depender da ne- sita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem”, que
cessidade. Pode ter a cabeça pontiaguda, arredondada achatada e outros quer dizer: Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pe-
modelos mais. Numa extremidade toca a pedra (ou outro material) e na dra Oculta.  WikipediaHYPERLINK “https://pt.wikipedia.org/wiki/
extremidade oposta é atingido pelo malho por isso indica passividade. Vitriol”.

A Trolha , ou colher de Pedreiro

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O  pão e a água simbolizam simplicidade e humildade. Alguns O bode não é um símbolo maçônico. Alguns maçons acreditam
cristãos  jejuam  a pão e água, indicação da própria  Santa Maria, pela que são como bodes, pois podem guardar segredos. Muitos são discre-
tradição católica. Ao mesmo tempo em que é símbolo de humildade, é tos e até circunspectos. A maçonaria, assim como a Magia, permite ao
símbolo de força o suficiente que o ser humano precisa. A água é sím- iniciado que assuma um nome simbólico. O meu nome simbólico é Si-
bolo de vida e de pureza, indispensável para qualquer tipo de vida, além mão Mago. Na senda maçônica de aperfeiçoamento moral e intelectual,
de limpar e purificar. lapidando a pedra bruta e erigindo templos ás virtudes, desenvolvi em
O  enxofre, o sal  e o  mercúrio  também estão presentes na sala. alto grau a solidariedade e a fibra moral. Encontrei na ordem milenar
Estes elementos tomam o sentido  alquímico, referindo-se às  leis um porto seguro, onde há liberdade para falar de magia, esoterismo,
herméticas e a criação da Pedra Filosofal. O enxofre também simboliza filosofias, alquimia e fé, sem ser fervido em óleo como meu antecessor
o masculino, mercúrio o feminino e o sal é elemento neutro e de ligação Cipriano, ou ser obliterado e apagado da história como Simão Mago,
entre os dois anteriores. Diferentemente o mercúrio é representado ou torturado e obrigado a desmentir as verdades invisíveis aos olhos dos
pela figura do  galo, animal que representa o alvorecer e de vigilância. Amentibus como Galileu Galilei ou Giordano Bruno.
Também usado no topo das torres de igrejas, a figura do galo representa Nos altos graus da perfeição ou graus filosóficos encontrei ainda
a vontade de agir logo cedo e também o anúncio que trás o nascer do mais ciência, filosofia e valores éticos e morais. Sentia-me como Bayard,
Sol. Estes três elementos indicam que o iniciado precisará passar por “o cavaleiro sem mácula e sem medo”, (le Chevalier sans peur et sans
uma  transmutação  alquímica, a mudança de um metal pobre para o reproche) ou “le bom Chevalier” como preferia ser tratado. O bom ca-
metal valioso. valeiro. Neste espírito havia decidido que me bastava o conhecimento
Os símbolos fúnebres representam a finitude e a morte. Os os- esotérico e cientifico e que não mais faria uso das favas, do óleo de Ci-
sos, esqueletos, foice e ampulheta, são alguns deles. Tanto para lem- priano ou do elixir de Flamel.
brar ao iniciado que ele é finito quando para lembrar também que ele Viajaria a Florianópolis e destruiria os itens de Magia e os des-
morreu para o mundo profano (termo maçônico para o mundo fora da pojaria em uma fenda íngreme, tão íngreme e profunda como uma que
maçonaria). Os ossos indicam a finitude e igualdade na morte. A foice é existe apenas na ilha do Campeche. Estava decidido. Com o pretexto de
o símbolo da própria  morte e a  ampulheta  representa a marcação de uma viagem de negócios, dirigi pela sinuosa BR 470 antes, do nascer do
pequenos intervalos de tempo, como a própria vida. Os três símbolos sol, com os itens acondicionados em uma bolsa de viagem comum.
são bastante recorrente na arte fúnebre cristã e na decoração de cemitér Durante o caminho pensava e rezava ao N.S.J.C para iluminar
ios, túmulos e mausoléus. a minha mente, se era esta a coisa certa a se fazer. Repentinamente,
em uma curva, uma figura familiar de minha infância se materializou
no asfalto á frente. Era o bode Aristocrata, que empinando as patas
O Bode dianteiras, baliu assustadoramente. O balido assombroso ecoou em mi-
nha mente como um pesadelo noturno da infância, como nas muitas
noites em que o Aristocrata assombrava minhas noites infantis. Com
um reflexo involuntário, acionei os freios e meu corpo foi arremessado e
chicoteado à frente, quando as rodas travaram subitamente responden-
do ao moderno sistema de freios. Perdi o controle do veículo devido a
uma falha na pista. Um desnível no asfalto fez capotar o carro. Como
se estivesse em uma centrífuga, vi o mundo girar, em câmera lenta. E
uma segunda visão divisei, ao longe, iluminada pelos faróis. Era Dona

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Clarice, a Bruxa de Évora que, desta vez, pairava na noite escura sentada
sobre uma vassoura. Ela sobrevoou o veículo que despencava em uma ri-
banceira, rodopiando terrivelmente. Uma luz divina clareou a escuridão
tenebrosa e uma mão salvadora foi estendida através do para-brisa que
se espatifou durante a capotagem. Era ela que viera me salvar.
Acordei no hospital, um pouco atordoado e entorpecido, de certo
por efeito de alguma medicação. Exceto por alguns ferimentos leves,
estava bem. Eis que Dona Clarice se materializou bem na minha frente
e com a voz terna e maternal me confortou dizendo:
- Simão. Nada do que te aconteceu, pedistes ao Supremo Arqui-
teto do Universo que é Deus, ou a Satanás. Não carregues a culpa por
aquilo que te foi presenteado. Sois parte da maravilhosa criação de Deus
e com o propósito de evoluir e fazer evoluir os que não veem por si, e que
não creem sem ver, e que, mesmo vendo, duvidam. Sua missão é com-
partilhar seu conhecimento e instruir a humanidade pelo exemplo. Seus
pertences, sua herança e seus presentes estão guardados em seu nome,
em um cofre, protegidos por um segredo. E o segredo é a idade somada
das vidas do Alquimista Flamel.
E desapareceu, sem mais explicações.
Depois da partida da bruxa, pensei: Qual seria a idade de Ron?
Estaria vivo ainda? Jamais retornou minhas tentativas de contato. De
qualquer forma, seria fácil descobrir, mas nunca fui bom de cálculos
matemáticos e não me preocuparia com isso neste momento. Pensei em
escrever um livro contando minha história e assim o fiz.
Sou Marcos Staub, professor e estudioso da filosofia hermética,
Alquimia, Magia... E esta é minha história!

FIM.

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