Você está na página 1de 39

Tradução do texto dramático

para encenação
aula 1

Cláudia Soares Cruz


texto dramático e texto teatral

debate que “coloca em quase oposição autores


como Pavis ou Übersfeld e Veltrusky, Susan
Bassnett ou Sirkku Aaltonen”
Sara Ramos Pinto
Patrice Pavis
 ‘script’ incompleto à espera de um palco
 só adquire sentido na representação
 só é compreendido quando proferido pelos
atores no contexto de enunciação escolhido
pelo encenador

“O texto de teatro tem o bizarro estatuto de


uma escrita destinada a ser falada, de uma
fala escrita que espera uma voz, um sopro,
um ritmo.” Jean-Pierre Ryngaert

“o texto é apenas um elemento na


totalidade do discurso teatral”
Susan Bassnett, 1980
Jirí Veltrusky
“aqueles que afirmam que a característica
específica do drama consiste em seu vínculo
com a representação estão equivocados.”

 escritas não para ser encenadas, mas para ser lidas


 são lidas pelo público da mesma forma que os poemas e os romances
 o leitor não tem diante de si os atores, nem o cenário
 só a linguagem

[precisamos desenvolver] “o trabalho proposto


por Veltrusky de olhar o texto dramático como
literatura” Susan Bassnett, 1998
Sirkku Aaltonen

dramas de gabinete → destinados fundamentalmente à leitura


textos dramáticos obsoletos → elementos do sistema literário

o teatro não usa necessariamente textos dramáticos


os textos dramáticos também podem existir fora do sistema teatral

algumas encenações
 não têm como base nenhuma obra escrita
 não são acompanhados pela publicação de texto

texto pode ser o resultado de uma encenação


[são essas características que fazem com que possamos assistir a]
“duas produções radicalmente diferentes – mesmo em mídias
diferentes ou línguas diferentes –, [...] e ainda assim reconhecer que
estamos diante da mesma peça”, pois “o texto é o único denominador
comum em todas as encenações da peça em questão”
Egil Törnqvist

“é muito problemático propor uma definição de texto


dramático que o diferencie dos outros tipos de textos, pois a
tendência atual da escritura dramática é reivindicar não
importa qual texto para uma eventual encenação”
Patrice Pavis
estrutura do texto dramático
texto principal → a ser dito
texto secundário → rubricas / didascálias

relação de complementaridade
texto principal → completa as indicações cênicas
texto secundário → esclarece a situação / motivação
→ dá sentido aos discursos
propósitos
“diferentes traduções servem a diferentes propósitos”
Gunilla Anderman

 análise
 publicação / estudo
 encenação
traduzir para a página, traduzir para o palco

traduzir para a página


leitor  ativo
 controla o ritmo
 esclarece dúvidas

traduzir para o palco

espectador  “passivo”
 deve compreender e assimilar o
texto no momento da encenação
Tradução do texto dramático
para encenação
aula 2

Cláudia Soares Cruz


três versões
 Primeiro in-quarto (Q1)

 Segundo in-quarto (Q2)

 Primeiro in-fólio ou simplesmente Fólio (F1)

“A atual [...] funde no texto-base de Q2 as 85 linhas presentes


apenas em F1.”
“Há uma tendência acadêmica editorial de língua inglesa de
editar textos baseando-se em uma ou outra versão de Hamlet.
Mesmo assim, a familiaridade da linhagem de Q2 e F1 é grande o
bastante para merecer, no Brasil, uma edição fundida. Ao
público e ao diretor de teatro ficam o direito e a oportunidade
de editar o seu próprio texto, desfrutando dessa liberdade.”

passagens presentes apenas no Q2


 indicação sobrescrita Q

passagens presentes apenas no F1


 indicação sobrescrita F
tradução:
Lawrence Flores Pereira
LIZA: Y-e-e-e-es, Lord love you! Why should she die of influenza?
She come through diphtheria right enough the year before.
I saw her with my own eyes. Fairly blue with it, she was.
They all thought she was dead; but my father he kept
ladling gin down her throat til she came to so sudden that
she bit the bowl off the spoon.

LIZA: Siim seeenhora! Como é que ela ia morrer de gripe? Uma


velha forte daquele jeito? Um ano antes ela tinha tido
uma difteria daquelas e saiu novinha como se não fosse
nada. Vi com estes olhos. Chegou a ficar azul assim, oh!
(Pega qualquer fazenda e mostra um azul berrante) Todo
mundo pensou que estava morta; mas meu pai não
desistiu, continuou enfiando gin pela goela dela abaixo e
de repente a velha reviveu com tal força que mordeu a
concha da colher.
“[...] uma tradução de teatro encenável é o produto não de um
ato linguístico, mas de um ato dramatúrgico – se não, como disse
Mérimée sobre a tradução de O Inspetor Geral, ‘se traduz a
linguagem muito bem, sem traduzir a peça’.” Georges Mounin

“Traduzir para o palco [...] não significa antecipar,


prever ou propor uma mise en scène: significa
torná-la possível.” Jean-Michel Déprats apud Pavis
fidelidade liberdade

“É difícil definir a fronteira que separa ‘livre’ de ‘fiel’ ou


onde uma coisa se transforma na outra. Uma tradução
nunca pode ser inteiramente ‘fiel’ a outro texto, porque
ela sempre, por sua própria natureza, cria um novo
texto.” Sirkku Aaltonen
source-oriented target-oriented
estranhamento aclimatação
aceitabilidade adequação
estrangeirização domesticação

“(...) dada uma tradução de Homero, o tradutor deveria


transformar os próprios leitores em leitores gregos dos
tempos homéricos ou obrigar Homero a escrever como
se fosse um autor dos nossos tempos?” Umberto Eco
“No continuum das soluções possíveis, também as
dicotomias demasiado rígidas entre traduções target e
source oriented devem dissolver-se em uma pluralidade
de soluções negociadas caso a caso.” Umberto Eco

“As falas devem ser idiomáticas, interpretáveis e estar


significativamente relacionadas ao ambiente visual. [...]
O texto meta deve ser fácil de absorver já que temos
pouco tempo para refletir.” Egil Törnqvist

precisamos “[d]aquele tanto de


domesticação que torna o texto fluente”
Umberto Eco
tradução adaptação

“As discussões a respeito de quando uma tradução


deixa de ser tradução e se torna uma adaptação vêm
se estendendo há décadas, mas ainda não encontrei
ninguém que consiga me dar uma definição adequada
da diferença entre as duas.” Susan Bassnett
“A tradução para teatro [para a cena] pareceu sempre assumir uma maior
liberdade no tratamento do texto, levando a que muitas vezes lhe seja atribuída a
etiqueta de ‘adaptação’ ou ‘versão’. Estudos feitos relativamente à tradução de
textos dramáticos orientada para publicação mostram uma clara tendência de
aproximação ao texto de partida.” Sara Ramos Pinto

“O tradutor de teatro, diferente de quem traduz romance ou poesia, lida não só com duas
línguas, mas também com duas plateias. Pensando o texto teatral como um texto para um
leitor, uma peça não é muito diferente de um romance.
Como uma partitura para uma encenação, uma peça é radicalmente diferente de um
romance. A tradução feita para o espectador – a tradução audiovisual, por assim dizer –
deve levar em consideração questões muito específicas.” Egil Törnqvist
sonoridade
o tradutor “deve confiar também no juízo do ouvido para
não arruinar e alterar aquilo que (em um texto) é expresso
como elegância e sentido de ritmo” Leonardo Bruni apud Eco
1420, De Interpretatione Recta

 cacofonia
 trava-línguas
 onomatopeias
 ritmo / equilíbrio
tamanho
“[...] é preciso levar em consideração a forma da mensagem
traduzida, já que a duração per se de um enunciado no palco
é parte do seu significado.” Robert Corrigan apud Pavis

 paráfrases
 tamanho das palavras
 supressões
 tempo de emissão
Tradução do texto dramático
para encenação
aula 3

Cláudia Soares Cruz


oralidade

 repetições
 contrações
 marcadores do discurso
 “erros” / desvios da norma-padrão
registro

 coloquialidade / formalidade
 “erros” / desvios da norma-padrão
 gírias / expressões idiomáticas
 palavras ofensivas / palavrões
cultura

Para fazer uma tradução para a cena,


“não basta simplesmente traduzir o texto linguisticamente”
Precisamos lembrar que
“estamos colocando frente à frente culturas heterogêneas”
Patrice Pavis
notas do tradutor

“Diferenças étnicas nos colocam um problema. O tradutor


pode ajudar o leitor de uma peça com uma nota de pé de
página. O espectador ficará perdido, a não ser que o tradutor,
ou o diretor, consiga de alguma forma incorporar a informação
necessária na encenação.” Egil Törnqvist
peculiaridades da fala

“cada personagem tem uma ‘entonação’ própria e


para isso precisamos das palavras e do tom
apropriados” Clarice Lispector
nomes

“Uma personagem não se constrói apenas a


partir de seu nome, mas não podemos ignorar
o modo como os autores as nomeiam.”
Jean-Pierre Ryngaert
Tradução do texto dramático
para encenação
aula 4

Cláudia Soares Cruz


palavras ofensivas

“O peso de um insulto é uma das coisas mais difíceis de


compreender para um falante não-nativo, e é crucial tanto
para quem insulta quanto para quem é insultado.”

“Quando os personagens de um romance ou de uma peça se


insultam, o tradutor precisa encontrar algo que funcione na
língua alvo e que também reproduza o grau de ofensividade
com alguma precisão.”

Susan Bassnett
“se, por um lado, existe apenas um texto teatral, por outro, o
número de encenações é potencialmente infinito”

o texto é o único denominador comum em todas as encenações


de uma peça - isso explica porque assistimos a
“duas produções radicalmente diferentes – mesmo em mídias
diferentes ou línguas diferentes –, [...] e ainda assim
reconhecemos estar diante da mesma peça”
Egil Törnqvist
“Entre duas execuções de uma sonata para violino ou duas
interpretações de uma peça teatral, seguem-se as indicações da
‘partitura’ – e, em poucas palavras, a melodia e o timbre desejados pelo
musicista ou as palavras desejadas pelo dramaturgo permanecem as
mesmas. Porém não só podem existir variações tímbricas [...], mas
sabemos quantas variações um bom intérprete pode introduzir em
termos de dinâmica [...], ou, no teatro, pronunciando a mesma fala com
raiva ou com sarcasmo, ou em tom ambiguamente neutro.”
Umberto Eco
tradução e intertextualidade
 mínimo de intertextualidade com o texto fonte
 de alguma forma, “representa” o texto fonte

“como sabemos, duas traduções nunca serão iguais porque


fragmentos de nossas leituras individuais estarão sempre
presentes em nossa leitura e nossa tradução”
Susan Bassnett

“O olho que vê faz diferença, pois o texto por si


mesmo não tem o poder de produzir significados”
Sirkku Aaltonen
qualidade tradutória
qualidade textual

 permite reconhecer a equivalência entre


texto fonte e texto meta

 faz com que o texto alvo seja compreensível


 respeita as características da língua de chegada
 utiliza seus recursos da melhor maneira possível
FIDELIDADE EM TRADUÇÃO POÉTICA: O CASO DONNE
Paulo Henriques Britto

 não temos acesso direto ao real “Pelo contrário, é precisamente porque não temos
 nossas opiniões são qualificadas pelos esse acesso direto ao real que é necessário analisar,
nossos pressupostos discutir e tentar estabelecer consensos, ainda que
parciais – pois se o real se oferecesse diretamente
 constatação não leva à conclusão de que
como evidência à inteligência humana, o que
todas as traduções, ou todas as teorias,
haveria para discutir?”
são igualmente “legítimas e
competentes”

 formulação de hipóteses “para se chegar a uma conclusão baseada em fatos


(não em impressões subjetivas e conceitos vagos, do
 análise de dados concretos
tipo “A flui mais que B” ou “A capta melhor o espírito
 argumentos racionais do original que B”)”

“Do fato inegável de que é impossível haver a concordância de todos em relação a tudo
não se segue que não possa haver nenhuma concordância em torno de nada”
tradução e encenação

“Tradução ou encenação – a atividade é a mesma; é a arte de


selecionar dentre a hierarquia de signos.” Antoine Vitez

tradução interlingual (ou tradução propriamente dita)


“interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua”

tradução intersemiótica (ou transmutação)


“interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais”

Roman Jakobson
tradutor = encenador
 transformam o texto original em algo novo
 caminhos infinitos, inúmeras variáveis
 etapas semelhantes

tradutor ≠ encenador
tradutor → tradutor interlingual
encenador → tradutor intersemiótico
 tradutor → recria o texto original utilizando palavras
 encenador → traduz o texto em signos teatrais
“o texto teatral, e a tarefa de traduzir para o
teatro, é muitíssimo complicado, e o resultado
pode ser mais promissor se ao tradutor for
dado o escopo de um artista criativo que
trabalhe junto com toda a equipe.”
Mary Snell-Hornby

tradução encenação
felicidade de traduzir
“quando aceitamos que não vamos fazer uma réplica do
original, começamos a desfrutar do prazer de traduzir”
Paul Ricoeur

 “traduzir pode ser divertido”


 “nos obriga a ser criativos com a linguagem e nos dispor a brincar”
 “adquirir novas formas de ver o mundo”
 pensar fora da caixinha
 entrar em contato com a nossa autonomia de (co)autor e (re)criador
 realizar experimentações com os idiomas
 explorar nuances e riquezas dos idiomas Susan Bassnett
ponto final

“traduzir pode correr o risco de não parar


nunca: quanto mais se revê, mais se tem que
mexer e remexer nos diálogos” Clarice Lispector

Você também pode gostar