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INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO

PROFESSOR ALDO MUYLAERT


CURSO DE LICENCIATURA EM
PEDAGOGIA

GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Disciplina: Mídia e Educação Professora: Valéria Crespo Data: 09/10/2020.
FUNDAÇÃO DE APOIO À ESCOLA TÉCNICA
Aluno (a): Eder Soares, Heraldo Luiz Período: segundo Turma: 202 A Atividade: Texto
referente ao vídeo “Mídia e educação – O uso das mídias na sala de aula.

O USO DAS MÍDIAS NAS AULAS DE LITERATURA:


Ensinando a geração do hipertexto

O ensino de literatura possui uma importância significativa ao desenvolvimento do


educando, preparando-o para a vida em sociedade, pois lhe possibilita o desenvolvimento da
linguagem. De acordo com Roland Barthes, a língua é “o objeto em que se inscreve o poder”
(BARTHES, 2013, p.12). No uso da língua se constitui as hierarquizações, se nomeiam os graus
de importância e relevância de assuntos que serão abordados nos discursos sociais. O indivíduo
se sujeita à língua, e ao mesmo tempo se sujeita a quem mais eficazmente faz uso dela.
Portanto, é na Literatura que se encontra a possibilidade de libertação, pois sendo a língua a
maior constituinte da literatura, ao levar os alunos ao conhecimento da arte literária, os possibilita
dominar a língua e assim se libertarem, gerando um pensamento crítico frente ao mundo que os
cerca. Contudo, devido ao avanço das novas tecnologias, o uso das novas mídias tem
demandado uma necessidade de uma nova abordagem ao ensino de literatura que vá de
encontro às atuais necessidades dos educandos.

A Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9394/96) traz como um dos princípios da educação, a
vinculação entre educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. Ao se pensar na relação de
poder que há no uso da linguagem, enquanto prática social, a escola deve se atentar para essa
realidade e enxergar na literatura a forma mais eficaz de domínio do uso da língua. A grande
questão é que ensinar a literatura na atualidade é deparar-se com a realidade de que hoje se
convergem, por causa da mídia digital, uma variedade de linguagens além das verbais. O ensino
de literatura precisa estar associado a uma concepção de sociedade hipertextual, onde sons,
imagens, palavras podem aparecer de forma simultânea. Assim, o ensino dará conta de cumprir a
vinculação prevista na LDB (Lei 9394/96). Na realidade, a relação das mídias e a literatura é de
conexão. O ensino de Literatura continuará sendo libertador, no sentido de possibilitar o domínio
da linguagem pelo aluno, porém com o uso das mídias esse ensino se expandirá e tornará o
aluno apto a entender as linguagens que o cerca. É de suma importância para a escola entender
que as novas tecnologias expandiram o conceito de texto para além do texto escrito e rígido.
Ensinar textos literários fechados em uma única forma “contexto histórico/fragmento escrito” é
estranho a alunos imersos na era digital, que possuem em suas mãos o acesso a várias
linguagens ao mesmo tempo. O ensino de literatura não atenderá seu principal objetivo proposto
que é o de torná-los leitores aptos ao uso da língua pois usa de ferramentas arcaicas enquanto a
internet na tela de seus computadores, e celulares os possibilita o acesso ao hipertexto.

De acordo com o linguista Luiz Antônio Marcuschi (2001, p.86) “o hipertexto caracteriza-se,
pois, como um processo de escrita/leitura eletrônica multilinearizado, multisequencial (...),
realizado em um novo espaço de escrita. " Ou seja, há um novo espaço. Uma nova abordagem e
o processo de ensino-aprendizagem precisa se adaptar a esse recurso. Esse processo de
escrita/leitura, de acordo com o autor, é eletrônico. Está no acesso às tecnologias. No hipertexto
não há mais uma linearidade rígida, pois é flexível ao permitir ligações com outros links para a
construção de um sentido. Ao se ler uma obra como Odisseia ou Ilíada, no hipertexto há a
possibilidade de ver um vídeo de filmes, acessar outros sites, documentário, etc. para se entender
tal obra. O aluno aprenderá, por meio dessa prática a navegar da melhor forma pelo grande
hipertexto da internet, usar os recursos audiovisuais que dispõe, enquanto capta os sentidos do
texto literário expressos de diversas formas. Por isso, dentre as características do hipertexto,
Marcuschi (2001 p.91-93) escreve sobre o fato dele ser multisemiótico. Em uma mesma
experiencia literária se tem uma variedade de signos presentes: palavras, sons, símbolos,
desenhos.

Uma das tarefas fundamentais do uso do hipertexto em sala de aula, é possibilitar ao aluno
agir ativamente sobre o objeto de estudo. O aluno, ao se aprofundar nas variadas informações e
forma de manifestação da literatura estudada, criará um tipo de associação que o fará agir sobre
o texto literário e não somente receber uma informação sobre conteúdo, contexto histórico, etc.
Com o uso do hipertexto, há a possibilidade de criar conteúdo a partir do objeto estudado. Afinal,
de acordo com Levy:

Todo aquele que participa da estruturação do hipertexto, do traçado pontilhado


das possíveis dobras do sentido, já é um leitor. Simetricamente, quem atualiza
um percurso ou manifesta este ou aquele aspecto da reserva documental
contribui para a redação, conclui momentaneamente uma escrita interminável.
As costuras e remissões, os caminhos de sentido originais que o leitor inventa,
podem ser incorporados à estrutura mesma do corpus. A partir do hipertexto,
toda leitura tornou-se um ato de escrita (1993, p. 46).

O próprio celular possibilita ao aluno criar uma narrativa em cima do texto literário
estudado, ao mesmo tempo que o permite pesquisar músicas relacionadas. Permite apresentar
um trabalho usando os recursos para realizar uma literatura comparada. A leitura não é passiva,
pois permite vasta possibilidade de agir sobre a história. O ensino de literatura que incentiva a
estruturação de um hipertexto pelo aluno, estará contribuindo para torná-lo apto a fazer bom uso
da mídia contemporânea ao mesmo tempo que o ensina sobre obras literárias essenciais. De
igual forma o instrui a fazer uso das diversas manifestações da linguagem e o ensina a ser um
cidadão crítico frente ás diversas informações que o cerca. Portanto é de suma importância que a
escola se atente para os recursos que são necessários: computador, acesso a uma rede wi-fi, etc.
para que os alunos tenham as ferramentas necessárias para a construção de seus saberes. As
tecnologias empregadas possibilitam um tipo de ensino amplo, conforme Moran afirma em sua
obra intitulada Novas Tecnologias e mediações pedagógicas (2012):

Assim, o uso das TIC na escola auxilia na promoção social da cultura, das
normas e tradições do grupo, ao mesmo tempo, é desenvolvido um
processo pessoal que envolve estilo, aptidão, motivação. A exploração das
imagens, sons e movimentos simultâneos ensejam aos alunos e
professores oportunidades de interação e produção de saberes (MORAN,
2012.p.13).

Dentre o período de pesquisas realizadas para a confecção desse texto, uma abordagem
prática do tema foi encontrada em meio aos materiais lidos. O professor e pesquisador Francisco
Pereira em seu artigo “Novas tecnologias, mídia e a prática de leitura do cânone em sala de aula”
anexara ao final um plano de aula para alunos do segundo ano do ensino médio. A aula teria
como tema a leitura do poema O Corvo de Edgar Allan Poe, objetivando o domínio desse tipo de
linguagem pelos alunos. Para a aula ele propõe o uso de mídia para o ensino de literatura.
Dividida em 6 etapas, a aula necessitaria dos recursos de reprodução audiovisual, pois, além de
documentário assistido, os alunos reproduziriam seus trabalhos para a turma assistir. Na primeira
etapa haveria a apresentação do curta-metragem Vincent de Tim Burton, seguido de uma
contextualização da época de Edgar Allan Poe por meio de trechos de um documentário
chamado Contos de Terror. O intuito é relacionar o contexto histórico com a vida e obra de Poe.
Ao final é entregue uma cópia do poema a cada aluno. Na parte 2/3 é proposto uma discussão
sobre a impressão que os alunos tiveram do texto durante a leitura. Em seguida, trabalhando com
aspectos sensoriais, a luz é apagada e usa-se o recurso do áudio numa narração do poema
(traduzido por Fernando Pessoa) feita por José Augusto de Almeida. Logo após ouvirem a
narração, é perguntado aos alunos sobre o tom do poema. Pede-se aos alunos para pesquisarem
sobre a figura do corvo e uma nova leitura do poema em casa. Nas partes 4 é solicitado aos
alunos uma gravação audiovisual da leitura do poema feita por eles. Ao final da aula, são exibidas
ilustrações feitas por Gustave Doré para o poema, disponíveis on-line. A parte 5/6 é o fechamento
do tema, sendo que, ao final, são apresentadas as produções feitas pelos alunos. Observa-se na
aula proposta por Pereira o uso de imagens, sons, pesquisas on-line. Ele fez uso das mídias
tendo a consciência da geração hipertextual contemporânea.

Os desafios em se formar cidadãos aptos a agirem de forma crítica na sociedade são


inúmeros. A escola precisa se contextualizar para que ela se vincule às atuais práticas sociais e
assim oferecer uma educação relevante. O ensino de literatura é rico em seus benefícios,
principalmente o de capacitar aos alunos a fazer uso das linguagens que o cerca, pois se o texto
literário é constituído pela língua, na contemporaneidade isso se expande, visto que a linguagem
hoje é hipertextual, e a apresentação da arte literária aos alunos deve abranger todos os recursos
midiáticos necessários para que haja a construção de sentido. Assim os alunos verão a riqueza
da literatura e o quanto ela está difundida na mídia, gerando filmes, músicas, ilustrações, etc.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCACÁO NACIONAL – LEI 9394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996 in


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acessado em 08/10/2020.

BARTHES, Roland. Aula (trad. Leyla Perrone-Moisés). São Paulo : Cultrix, 2013

MARCUSCHI, Luiz Antônio. O hipertexto como um novo espaço de escrita em sala de aula.
Linguagem e Ensino, Vol. 4, nº. 1, p. 79-111, 2001 .

MORAN, José Manuel, MASSETTO, Marcos T., BEHRENS Marilda Aparecida. Novas
tecnologias e mediações pedagógicas. Campinas, SP. Papirus, 2012.

PEREIRA, Pedro Henrique. Novas tecnologias, mídias e a prática de leitura do cânone em


sala de aula. In Cadernos de Letras da UFF Dossiê: Línguas e Culturas em contato. p. 589-607.
In: file:///D:/Arquivos/Downloads/43531-146760-1-PB.pdf acessado em 08/10/2020.