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Entrevistas

Matilde Campilho
6 de Junho de 2014
Ana Dias Ferreira

Até há umas três semanas eu nunca tinha ouvido o nome Matilde Campilho. Não sabia que a
Matilde andava entre o Rio de Janeiro e Lisboa a encher cadernos de versos e observações. Mas
depois aterrou-me na secretária um livro chamado Jóquei, e os poemas lá dentro atropelaram-me os
dias como um cavalo de corrida.
Porque a Matilde escreve com urgência, com um ritmo que encontrou o seu lugar numa
língua transatlântica que está algures no meio do oceano, e escreve uma poesia, nessa mistura de
Portugal e Brasil, que tanto serve para falar de amor como da torcida do Flamengo. Nestes poemas,
reunidos em livro na colecção de poesia coordenada por Pedro Mexia, o Inverno que quer “encher a
cabeça de domingos” é arrasado em seis linhas e acredita-se profundamente que “esta coisa da
alegria ainda vai dar muito certo”. Nunca tinha encontrado assim uma maturidade dos 30 com uma
energia tão adolescente, mas se calhar é como a Matilde escreve e os poetas são os novos roqueiros.
Encontrámos-nos para conversar sobre o livro num café no Chiado, e aqui fica a versão completa da
entrevista que saiu na Time Out Lisboa de 28 de Maio.
Jóquei é apresentado por Pedro Mexia como um álbum de Verão e de facto é como se o
Inverno aqui não tivesse grandes hipóteses. Já eras uma pessoa do sol, ou o Rio de Janeiro
teve alguma coisa a ver com isto?
Já era, totalmente. Aliás, essa foi uma das razões porque fiquei tão encantada com o Rio.
Sempre fui sol. Inverno para mim, quase fingia que não existia. Passei sempre metade dos meus
anos em negação, até que apareceu o Rio de Janeiro.
Como é que apareceu?
Foi quase por acaso. Eu andava sempre para trás e para a frente, nunca parava muito em
Portugal mas também nunca ficava muito tempo nos sítios para onde ia. E quando apareceu um
projecto no Rio, eu fui, e uma coisa que era para ser 15 dias ficou. Na pele.
Dirias que o Verão do livro é também metafórico? Porque há aqui um certo maravilhamento:
a raça humana brilha, as palmeiras brilham, há muita alegria.
Tem muito a ver com o espanto. Quase a defender-me do Inverno, a defender-me de uma
certa tristeza que há no país, procurei sempre o lado claro. É engraçado porque foi muito a poesia
que me ensinou a procurar o lado claro. As histórias, o cinema, tudo aquilo… Tudo é uma
possibilidade de brilho. E eu procurei isso, no Brasil, no que estava a ler, e tentei trazê-lo não só
para o livro mas para a vida.
Porque é que dizes que foi a poesia que te ensinou? Ou melhor, porque é que achas que mais
naturalmente a tua forma de dizer as coisas é a poesia?
Foi por um conjunto de coisas. Comecei a ler muita poesia, que não era uma coisa muito
normal aos 20 e tal anos. No Rio tinha muitos amigos que escreviam e comecei a olhar para a
poesia também com um olhar diferente, sem distanciamento. Aquilo estava ali, e a partir dali era
uma ponte para os outros também não estarem tão distantes, mesmo os que já estavam mortos. E eu
já escrevia, escrevia sempre, e aquela forma, que afinal não é uma forma nem uma fórmula, porque
fui percebendo ao longo do caminho que há mil dentro daquela, pareceu-me estranhamente a mais
livre. Apesar de parecer que tem um esquema, a poesia fazia-me muito mais sentido, principalmente
pelo ritmo. A minha escrita tinha muito ritmo e encaixava na poesia.
É curioso dizeres que é a forma mais livre porque no livro tanto temos poemas que têm três
versos como são escritos em prosa, em avalanche.
O livro foi escrito ao longo de vários anos e por isso corresponde a alturas e a leituras
diferentes. É inevitável haver alguma contaminação com o que se lê, e se eu estava a ler os poetas
beat, por exemplo, naturalmente vinham-me textos mais compridos, enquanto se estivesse a ler
haikus, acontecia o inverso. Também tinha a ver com o que via lá fora. Às vezes era uma enxurrada
de coisas, às vezes era mais calmo.
Outra forma de liberdade é o que pode estar dentro de um poema, e tu brincas logo com isso
no início. Aqui tanto temos os grandes temas, como um Black & Decker ou o ácido
desoxirribonucleico. Como é que tu encaras um poema, de forma a que ele possa abrigar essas
coisas todas?
Com o respeito devido mas sem cerimónia. Um poema pode muito bem ser sobre um Black
& Decker ou uma Coca-Cola porque a vida tem isso. Apesar de haver respeito, não havia
distanciamento entre os poemas e eu no processo de trabalho. Então porque não aparecerem os
gestos do dia-a-dia, os corredores do supermercado, os mergulhos na praia, misturados com tudo
aquilo que eu estava a aprender de mais metafísico? No Brasil há muito isso, e eu lembro-me de
ficar surpreendida no começo: então mas ele está a fazer um poema a um suco de abacaxi? Isso
pode?
Sobretudo porque há uma certa seriedade quando se fala em poesia.
A palavra poesia é aquela coisa que ouvimos na escola desde pequenos como algo solene.
[Faz uma voz grave]: agora vamos estudar Os Poetas. Que longe! Então nós, que temos uma
tradição de grandes poetas, muitos deles muito clássicos. Eu conseguia-me aproximar mais depressa
d’Os Maias, parecia que me diziam mais respeito. E de repente, lendo outras coisas, fora da escola,
tu percebes que tudo aquilo se pode, porque a poesia é tudo isso lá fora. Quando as pessoas me
perguntam: mas tu és o quê? Poeta, poetisa, escritora?
O que é que respondes?
Poeta.
E o que é que te provoca essa resposta?
Era uma coisa que no princípio… Teve muito a ver com o Brasil, lá está. Tenho muitos
amigos que são músicos ou poetas, e aquilo era muito natural. Em conversa, estamos no boteco,
alguém pergunta “o que é que fazes?”, alguém diz “eu sou poeta”, e a conversa anda. Aqui já era
um bocadinho diferente. Se me perguntam “o que é que fazes?” e eu digo “eu sou poeta”,
perguntam de novo: “sim, está bem, mas…” Hoje em dia digo tranquila, mas foi uma coisa que
demorei a mastigar porque se calhar é mais fácil dar uma profissão que possa vir num cartão. É
aquela coisa de ligar a marcar uma consulta e perguntarem: “Nome? Telefone? Profissão?”. Eu
respiro sempre antes. Depois digo, já digo sem medo, mas respiro. Sempre à espera da reacção.
Há reacção?
Às vezes há uma gargalhadinha. Mas isso é bom, rir é bom, a ideia também é essa.
Brincar com a poesia?
Sim, sempre com respeito, como eu dizia, como nas boas relações.
Há um poema, logo o primeiro, que tem “cara de Whitman”.
Há muitos nomes de outros poetas lá no meio e é sempre uma coisa meio de “oi mestre”.
Mas é isso, é “oi mestre” e não [faz uma voz séria]: “boa tarde mestre, como está?”. É com respeito
e com amor.
Geralmente o que é que está na origem de um poema?
Eu tinha um amigo que dizia que eu escrevia tanto o tempo todo que era impossível não sair
pelo menos um poema. Como aqueles rolos de 36 fotografias em que pelo menos uma tinha que sair
boa. Porque eu sempre andei, desde que me lembro, com um caderninho no bolso e a reparar. E esta
mistura de rua – porque eu ando muito na rua, vou a casa para dormir –, com muita leitura, era
quase inevitável que não desse alguma coisa escrita.
Quando olhas para esses cadernos, onde escreves de forma imediata, encontras poemas
prontos a publicar ou há muito um trabalho de limar as coisas em casa?
Há. Os cadernos são diários de viagem, depois aquilo passa por um garimpo: olhar, ver,
riscar. Muitos deles são só observação, o que não deixam de ser alguns dos poemas.
Era para tentar perceber o teu processo de escrita. Porque quem lê…
Acha que é imediato.
Não sei se imediato, mas rápido. Urgente.
Muitas vezes os poemas são escritos muito em cima do acontecimento, porque como estou
sempre lá fora e passo muito tempo nos cafés, a coisa acontece aí. Das 50 coisas que estão no
caderno, há um poema que nasce ali, naquele ônibus, com a letra tremida. Por isso sim, muitos deles
são aqui e agora, e eu acho que isso se vê. Embora o aqui e agora seja traiçoeiro. Porque está
bem, eu escrevi aqui e agora mas há quanto tempo ele estava a acontecer, com as leituras que estava
a fazer e as influências que recebo sem perceber?
Dirias que o português do Rio ajudou à alegria do livro? Agora disseste ônibus em vez de
autocarro, que é uma palavra mais leve.
Pelo menos é mais curta (risos).
Mas ajudou?
Sim… É a mesma língua, mas realmente aquele sotaque deles é mais solar. Tem mais ginga,
é mais húmido. É mais tudo o que a cidade é. Nós somos um bocadinho mais sérios, mas não
deixamos de ter palavras mais bonitas, que parecem ter sido pensadas com mais tempo. Ambas têm
coisas incríveis. Agora se ajudou à alegria? Ajudou, como tudo o resto que o Rio de Janeiro tem.
Pegando numa palavra, porque é que o livro se chama Jóquei? Porque é que não se chama
por exemplo astronauta, que às tantas escreves que é “a palavra mais incrível de todas”?
Eu andei muito tempo com o título para trás e para a frente, porque o livro fala de várias coisas, e eu
podia ter puxado uma delas mas isso ia reduzi-lo um bocadinho. Se eu lhe chamasse Verão,
as pessoas iam esperar isso. E uma vez, estava a falar sobre cavalos e houve um amigo que me
disse: “todo o poema é um poema sobre um cavalo”. E aquela frase, que na altura nem me fez muito
sentido, ficou aqui atrás da orelha. Até que um dia apareceu-me a palavra jóquei e eu gostei
imediatamente dela, mesmo que não quisesse dizer nada. Primeiro que tudo, achei bonito
apaixonar-me pela palavra, antes de qualquer coisa. É como apaixonares-te por uma pessoa só
porque ela é bonita e depois logo se vê. E fui andando naquilo e comecei a pensar no próprio do
jóquei. A ideia que eu tenho das corridas de cavalos, que conheço pouco, é que eles em princípio
quando se metem naquilo querem muito ganhar, chegar ao fim da corrida e ser o melhor, se calhar
não prestando assim tanta atenção ao cavalo. Mas com o passar do tempo eles vão-se apaixonando é
pelo cavalo, e chega uma altura em que ganhar ou perder já não importa, já não é uma corrida, não
há corrida nenhuma. Sou eu e o cavalo, e vamos embora. E aquilo tudo fez sentido. Quando ele diz
“todo o poema é um poema sobre um cavalo”… Um poema é um cavalo. E isto não é corrida
nenhuma, não é para ser melhor do que aquele que eu li, isto é para ir andando, no ritmo dos
poemas, atrás dos poemas, e se eles quiserem chegar à meta chegam, se não quiserem não chegam.
Achei que aquilo fazia sentido para mim e então disse: olá Jóquei.

Matilde Campilho, encantada com espetáculo do mundo, http://www.cesarea.com.br/sem-


categoria/quem-briga-com-bicho-perde/
Por Ricardo Viel

Faço uma pregunta e faz-se um silêncio. E percebo que Matilde olha por cima dos meus ombros em
direção ao Tejo. “Barcalhão ali, incrível”, diz com ar de satisfação. “Estava a vê-lo e me distraí,
desculpa”, completa. Alguém escuta o comentário, aproxima-se e diz que é realmente bonito o
barco a passar. E ela reforça, pronunciando bem as sílabas: “É lindo”. Volta a olhar para mim,
ameaça responder sobre suas influências literárias, mas desiste. Prefere voltar a um assunto mais
interessante: o encantamento diário que tem com a vida, e que transparece em seus poemas. “Tá
vendo como a paisagem muda? É disso que eu estava falando. Não tem jeito. E a quantidade de
paisagens que aquilo [o barco] transporta, a quantidade de pessoas de países diferentes que vão
ali?”, diz apontando para o rio. É por isso, porque o espetáculo do mundo – pegando emprestado a
frase de Ricardo Reis – é sempre algo novo e poderoso, que essa portuguesa de 31 anos anda alerta,
como se lê em “Primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos”, poema publicado
em Jóquei, seu livro de estreia:

“Meu querido, às árvores falam. Os tigres correm olimpíadas em pistas muito mais incríveis do que
aquelas feitas de cimento laranja. Usain Bolt vezes cem, o sorriso de Usain Bolt vezes mil. A
matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de cardume. Alguns frutos nasce
no chão, outros caem dos ramos. É preciso estar atento.”

Seja no Rio de Janeiro ou em Lisboa, cidades aonde nos últimos quatro anos tem dividido seu
tempo, Matilde Campilho estará atenta. Levará consigo um caderno para anotar o que para muitos é
a rotina, mas que para ela é deslumbrante cotidiano. “Às vezes os meus amigos até ficam irritados.
Pá, já tá bom de se espantar, não? Mas é que isto muda todos os dias”, argumenta. “Também tem a
ver com ter saído muito de alguns lugares, de sentir saudade de alguns lugares. O mundo não me
cansa, e não é uma coisa de criança. O mundo não cansa as crianças porque elas não tem
consciência dele. Vou tendo um pouquinho de consciência do mundo, já tenho 31 anos. Já andei
pelo mundo um pouquinho”, diz, e diverte-se com a frase que acaba de pronunciar. “Sim, um
pouquinho, porque o mundo é grande demais”, acrescenta.
Para essa portuguesa acariocada que já morou na Itália, na Espanha e em Moçambique, ver o
mundo com olhos de espanto é algo natural, faz parte de seu DNA (e foi potencializado com o
encontro com o Rio), mas também é um opção. “Acho que é uma escolha. O mundo é obviamente
bom e mal, há dias que a gente consegue ver mais o bom, e outros mais o mal”. E mesmo quando as
coisas não saem bem, quando parece que a vida conspira contra, trata-se de escolher a lente que será
usada na câmera. “Graficamente o mundo não ficou mais feio. É minha vida que está mais foda. É
uma escolha. Escolher o mais bonito ou o mais feio, sabendo que eles estão lá os dois, eles estão
sempre lá, no mesmo lugar. Na paisagem ou nos seremos humanos. Eu tenho coisas boas e más
exatamente a abitarem aqui ao mesmo tempo, o que deito pra fora, e como ajo, é uma escolha
diária.”

A poeta
Matilde Campilho nasceu em Lisboa em 1982, estudou literatura e foi a Florença para aprender
pintura quando ainda estava “à procura de uma voz”. Viajou, conheceu muitos lugares, mas foi pelo
Rio que se encantou. Um amor um tanto quanto previsível – os amigos diziam que eles tinham tudo
a ver, que eram a cara um do outro – , mas que demorou para acontecer. Foi só em 2010 que a
portuguesa conheceu a tal cidade maravilhosa. Ia para ficar só duas semanas, foi ficando. Desde
então, tem um pé cá e outro lá, divide-se entre a o pôr do sol de Lisboa e o amanhecer do Rio. Foi
no Brasil que começou a levar mesmo a sério essa coisa da escrita. Foi onde descobriu-se (ou
assumiu-se) poeta. Durante anos pensou que o que escrevia em seu caderno fossem apenas “notas
distraídas sobre o mundo”, mas pouco a pouco foi percebendo que ali estava o embrião de sua
poesia, que ali estava sendo forjado seu estilo. Os vários amigos escritores serviram de incentivo, e
Matilde começou a frequentar sessões de leitura nas noites do Rio, até que um dia atreveu-se a ler
algo seu. Foi também nesse época que começou a lançar no Facebook seus versos. Fazia, sobretudo,
para os amigos, porque o correio demorava, e mandar postais a todo o tempo era caro, e havia a
urgência de comunicar-se. Depois vieram os vídeo-poemas (narrados por ela e com imagens, e às
vezes algum som de fundo), que eram como recados que ela lançava aos mais próximos, sem o
problema do fuso horário e do custo das chamadas. Os vídeos colocados no Youtube extrapolaram o
círculo dos amigos e o nome Matilde Campilho começou a soar entre os fazedores e os leitores de
poesia. Até que chegou o momento de fazer um livro. Sentou-se diante do computador e um ano
depois nasceu o Jóquei, publicado em Portugal pela Tinta da China em maio e ainda sem previsão
de chegar ao Brasil. “Briguei com ele, zanguei-me com ele. Lembro da primeira vez que vi o
Jóquei, que peguei ele na mão, na editora, que pensei: caramba, foste um filho da mãe. Foste
incrível, fizeste-me companhia para não sei quantos lugares, mas agora paz. É como quando você
encontra um ex-amante. Encontram-se, que bom, mas agora vai.”
Mas antes de parir o livro, Matilde passou por outro processo, o de assumir-se poeta. “Eu tinha
muito medo dessa coisa de estar acima, num patamar”, conta. “Não conseguia dizer que era poeta
enquanto eu própria achava que aquilo estava ligado a um mito, a uma criatura maior. Sou só a
Matilde que também bebe Coca-Cola e também vai à praia e dá mergulhos”. A sombra de Camões e
de Pessoa eram, por vezes, fantasmas que assustavam. Como para uma jovem escritora inglesa é
Shakspeare, exemplifica. Por isso, Matilde optou por respeitar aos grandes nomes da poesia
portuguesa, mas não venerar em demasia os grandes. “Algo como entra aí, senta-te ao meu lado e
toma um café comigo.” Foi só quando o Jóquei já ia em fase muito avançada que ela teve coragem
de dizer: sou poeta. “Esse trabalho foi o eixo constante dos últimos anos, então achei que era justo
dizer sou poeta. Não sei se é a minha profissão, se é mais ou menos do que isso, sei que preenche o
eu sou”. Emprego teve (e tem) vários: editora, produtora, jornalista. Mas seu trabalho é, agora tem
claro, a poesia.

A poesia
Jóquei é um álbum de verão, define Pedro Mexia, o editor da Tinta da China que publica Matilde.
São dezenas de poemas divididos em capítulos (alguns em prosa) sem uma temática dominante.
Talvez haja, isso sim, um otimismo e uma esperança que paira sobre (quase) todos os versos. “Há
milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do
desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do
jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no
peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a
manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a profecia de Eliot.
Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito
certo”, escreve Matilde num poema em prosa. Em “Eu já escuto os teus sinais”, outro poema do
livro, ela diz: “Hoje se eu pudesse/ eu voltava à cidade. /Só para beijar/ a cidade na boca.”
Numa primeira leitura já evidente que para Matilde não há fronteiras, não há a divisão do português
que se fala em Portugal e no Brasil. Não há espaço para o purismo, nem assunto proibido, nem
estrutura ou forma a ser seguida. Num mesmo poema convivem línguas (“The roses are lovely.
Fazes falta, meu chapa” ou “You are the Sunshine/ of my life/ e conversar contigo de manhã é tão
bom”) e sotaques (“O brasileiro acha que o amor é importante porra, eu cá não acho nada, só fui
arranhando poemas, alinhando conchas) e podem figurar armas, ou a torcida do Flamengo, ou a
roda gigante de Coney Island; ou glóbulos vermelhos, o pebolim, a Federación Uruguaya de
Esgrima, tudo isso numa atmosfera de certa insolência, otimista e atrevida (“Era capaz de atravessar
a cidade em bicicleta para te ver dançar./E isso/ diz muito sobre minha caixa toráxica.”)
Essa aparente espontaneidade dos escritos da portuguesa podem deixar uma imagem de que são
versos que nascem com facilidade, frutos de um flash, que a beleza deles é bruta e natural e que não
necessitam de polimento. Mas Matilde desmente essa versão. “Você não imagina quanto tempo eu
passei em bibliotecas, quanto trabalho deu fazer esse livro”, conta a poeta, que recordar “brigas”
que teve com os versos. “Teve uma altura que até me zanguei com o livro, e lhe disse: acho que tu
nem sequer mereces estar no mundo”, ri.
Portanto, a poesia de Matilde é muito mais estudada e cerebral do que uma primeira imagem pode
passar. “Tento que o aleatório, no trabalho, aconteça pouco. Na vida sim, muito. Mas no trabalho,
isto não é de todo uma coisa despreocupada, aleatória. Tudo isso tinha um sentido, um momento. A
poesia é feita um monte de coisas, de leituras, mas muito de vida lá fora. E na minha vida lá fora
sim eu permito, absolutamente, o aleatório. Mas no trabalho não, é uma coisa super pensada.”
O surgimento de Matilde Campilho foi um pequeno terremoto, sem vítimas, mas com estruturas
abaladas, no mundo literário português. A crítica ao seu livro de estreia foi favorabilíssima. Foi
classificado por um acadêmico que escreve no jornal Público como um “acontecimento precioso em
língua portuguesa”. Fala-se em desconstrução do poema, em um “mergulho numa nova dicção”, em
ruptura, na descoberta de “um novo mundo numa antiga língua comum” e até em inauguração de
um novo momento. Mas mais importante do que isso é o fato de o livro ter esgotado em menos de
dois meses e já estar na segunda edição. Mesmo sem ter sido ainda publicado no Brasil, também
desse lado do Atlântico os versos da portuguesa já ecoam: foram publicados na Folha de S. Paulo e
no Globo, e celebrados pela crítica.
Leio seu Jóquei e, não sei bem por que (mas talvez intuo) me vem à cabeça o Tropicalismo, e penso
que possivelmente ela seja só uma entre várias pessoas, que pode ser – e oxalá seja – que em
Portugal e no Brasil neste momento esteja a ser fermentado algo novo, rompedor, desafiador dos
cânones, que em breve explodirá bem diante de nossos olhos; algo que no começo será
incompreendido, depois, celebrado. Penso nisso tudo e recordo uma frase que Caetano deixou
gravada em Verdade Tropical: “Eu sentia alegria por [Gilberto] Gil existir, por ele ser preto, por ele
ser ele, e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente. Era
evidentemente um grande acontecimento a aparição dessa pessoa, e minha mãe festejava comigo a
descoberta”. A aparição de Matilde Campilho também a mim me parece um grande acontecimento,
e sinto alegria por ela ser mulher, e portuguesa, e por ter amado e deixado-se amar tanto pelo Brasil.
É uma pessoa tão bonita, viva e autêntica quanto seus poemas (o que não é pouca coisa), e creio
sinceramente que vale a pena festejar essa descoberta.