Você está na página 1de 102

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA

Reitor
Prof. MSc. Pe. José Romualdo Desgaperi

Pró-Reitor de Graduação
Prof. MSc. José Leão

Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa


Prof. Dr. Pe. Geraldo Caliman

Pró Reitor de Graduação


Prof. Dr. Luiz Síveres

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA VIRTUAL

Diretor Geral
Prof. Dr. Francisco Villa Ulhôa Botelho

Diretoria de Pós Graduação e Extensão


Prof.ª MSc. Ana Paula Costa e Silva

Diretoria de Graduação
Prof.ª MSc. Bernadete Moreira Pessanha Cordeiro

Coordenação de Informática
Weslley Rodrigues Sepúlvida

Coordenação de Apoio ao Aluno


Prof. Esp. Núbia Rosa

Coordenação de Pólo e Relacionamento


Francisco Roberto Ferreira dos Santos

Coordenação de Produção
Maria Valéria Jacques de Medeiros da Silva

Equipe de Produção Técnica

Analista Conteudistas 1º Semestre


Profª Doutoranda Sheila da Costa Oliveira Luiz Carlos da Silva Tarouco
Profª Drª Wilsa Ramos Deis Elucy Siqueira
Denise de Aragão Costa Martins
Editoras de Conteúdo Christian Teófilo da Silva
Cynthia Rosa Daniel Schroeter Simião
Marilene de Freitas Edilberto Afanador Sastre
Rosa Maria Vicari
Web Designers Mac Cartaxo
Edleide Freitas
Marcelo Rodrigues Gonzaga
5
Sumário

Sumário

Sumário............................................................................................. 7
:: Unidade 01 :: Estudo do Fenômeno Religioso............................9
Proposições de Estudo .................................................................... 11
Ementa do curso.........................................................................................................................11
Objetivo geral do curso ..............................................................................................................11
Objetivos específicos .................................................................................................................11
DESVELANDO... ............................................................................... 13
Aula 01 - Importância do estudo do fenômeno religioso ................ 17
O estudo do Fenômeno Religioso ..............................................................................................17
O fenômeno religioso.................................................................................................................17
A condição humana e o fenômeno religioso.............................................................................18
A experiência religiosa...............................................................................................................19
Aula 02 - Possibilidades de uma Ciência da Religião (contradição
entre ciência e religião?)................................................................. 21
É possível uma Ciência da Religião?.........................................................................................21
Do que trata a Ciência da Religião?...........................................................................................21
Aula 03 - Especificidade do objeto e metodologia da Ciência da
Religião ........................................................................................... 27
Religião: uma primeira percepção “de fora” para dentro .......................................................27
Cultura, sociedade, arte e religião..............................................................................................27
Religião e Ideologia ...................................................................................................................29
Aula 04 - Elementos fundamentais para o estudo do fenômeno
religioso .......................................................................................... 33
Religião: uma primeira aproximação de “dentro para fora” ......................................................33
Religião, magia e seita: aproximações e distinções ..................................................................33
Politeísmo e monoteísmo: a religião, sua relação com as diversas estruturas sociais e suas
representações ............................................................................................................................36
Glossário ......................................................................................... 39
Referências Bibliográficas ............................................................... 41
:: Unidade 02 :: O Fenômeno Religioso e as Ciências Sociais......43
Proposições de Estudo .................................................................... 45
Ementa do curso.........................................................................................................................45
Objetivo geral do curso ..............................................................................................................45
Objetivos específicos .................................................................................................................45
DESVELANDO... ............................................................................... 47
Frei Tito, 30 anos do martírio ....................................................................................................47
Aula 01 - A Alienação e o Fenômeno Religioso na Modernidade ...... 51
Marx e a questão da alienação e o fenômeno religioso..............................................................51
Freud e a questão da alienação e o fenômeno religioso.............................................................53
Aula 02 - Religião e Coesão Social ................................................... 57
Durkheim e a sociologia ............................................................................................................57
A coesão social e o fenômeno religioso.....................................................................................58
Aula 03 - Religião e Capitalismo a partir de Max Weber ................. 61

7
Sumário

Max Weber e o processo de racionalização na vida moderna ...................................................61


O “espírito capitalista” e o fenômeno religioso ........................................................................63
Aula 04 - Religião e consciência ...................................................... 65
A questão da consciência e o fenômeno religioso .....................................................................65
Teologia da libertação................................................................................................................66
Glossário ......................................................................................... 69
Referências Bibliográficas ............................................................... 71
:: Unidade 03 :: Globalização, Pós-Modernidade e a Construção
de um Novo Paradigma ..............................................................73
Proposições de Estudo .................................................................... 75
Ementa do curso.........................................................................................................................75
Objetivo geral do curso ..............................................................................................................75
Objetivos específicos .................................................................................................................75
DESVELANDO... ............................................................................... 77
Aula 01 - Elementos fundamentais da crise de paradigmas da
ciência e da modernidade................................................................ 79
Mas, quais são os elementos fundamentais da crise do império da razão e da ciência?............80
Aula 02 - Elementos fundamentais do novo paradigma em construção
........................................................................................................ 85
A superação das fragmentações disciplinares (inter, multi e transdisciplinar) ..........................85
A transcendência das polaridades: fé e ciência; homem-natureza; profano-sagrado; razão-
emoção; sujeito-objeto. ..............................................................................................................86
A recuperação de outros saberes, além do científico (senso comum, intuição, sensibilidade),
frente à neutralidade científica. Maior preocupação com as questões éticas...........................87
Aula 03 - A busca por uma nova religiosidade no ocidente.............. 91
New Age e orientalização do Ocidente.......................................................................................92
Aula 04 - O fenômeno religioso, a juventude e a cidade de Brasília. 95
O sincretismo e a magia constituinte da religiosidade brasileira. Brasília, cidade mística?......97
Glossário ......................................................................................... 99
Referências Bibliográficas ............................................................. 101

8
Ciência da Religião

:: Unidade 01 ::
Estudo do Fenômeno
Religioso

9
Ciência da Religião
UNIDADE 01 – Proposições de Estudo

Proposições de Estudo

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos


regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as
religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos
completamos mutuamente. (...)

(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e
Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência
opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena
liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a
felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao
final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos,
como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta
Terra."

BOFF, Leonardo. Casamento entre o céu e a terra. Salamandra, Rio de Janeiro,


2001.pg09

Ementa do curso
O mundo globalizado e a nova consciência religiosa. Encontro e desencontro entre fé religiosa e razão
moderna. A reflexão das ciências humanas sobre o fenômeno religioso. Estudo comparado dos diferentes
itinerários religiosos.

Objetivo geral do curso


Analisar, a partir das ciências humanas, o fenômeno religioso e sua relação com o ser humano, com a
sociedade e com o Transcendente, buscando o diálogo inter-religioso, e intercultural a fim de
comprometer-se com os princípios éticos.

Objetivos específicos
Refletir sobre a relevância da ciência da religião na formação acadêmica e profissional.

Analisar as especificidades e a metodologia da ciência da religião.

Compreender a crítica feita ao fenômeno religioso pelas ciências sociais na modernidade e sua
relevância para os dias atuais.

11
Ciência da Religião
UNIDADE 01 – Proposições de Estudo

Analisar o fenômeno religioso contemporâneo, especialmente na região de Brasília, e sua


correspondência com as mudanças paradigmáticas vivenciadas na ciência.

12
Ciência da Religião
UNIDADE 01 – Desvelando

DESVELANDO...
Iniciaremos nosso curso com uma pergunta que, em muitas e muitas ocasiões, é considerada uma
heresia, uma blasfêmia, uma ofensa, uma loucura: Deus existe?

Cada um de nós, de acordo com nossas vivências e crenças pessoais, pode responder a essa pergunta de
modo diverso. No entanto, tomaremos como base o pensamento do escritor contemporâneo Rubem Alves
para iniciar nossas discussões a respeito do tema.

Depois de ler o texto, reflita sobre a resposta construída por Rubem Alves a respeito da existência de
Deus? O que mais chamou sua atenção no texto?

Como você responderia à questão sobre a existência de Deus?

Deus existe?

De vez em quando alguém me pergunta se eu acredito em Deus. E eu fico mudo, sem dar resposta,
porque qualquer resposta que desse seria mal entendida. O problema está nesse verbo simples, cujo
sentido todo mundo pensa entender: acreditar. Mesmo sem estar vendo, eu acredito que existe uma
montanha chamada Himalaia, e acredito na estrela Alfa Centauro, e acredito que dentro do armário há
uma réstia de cebolas... Se eu respondesse à pergunta dizendo que acredito em Deus, eu o estaria
colocando no mesmo rol em que estão a montanha, a estrela, a cebola, uma coisa entre outras, não
importando que seja a maior de todas.

Era assim que Casemiro de Abreu acreditava em Deus, e todo mundo decorou e recitou o seu poema
teológico: “Eu me lembro... Era pequeno... O mar bramia, e erguendo o dorso altivo sacudia a branca
espuma para o céu sereno. E eu disse à minha mãe naquele instante: ‘Que dura orquestra/ Que furor
insano/ Que pode haver maior que o oceano ou mais forte que o vento?‘ Minha mãe a sorrir olhou para
os céus e respondeu: ‘Um Ser que nós não vemos/ É maior que o mar que nós tememos, é mais forte
que o tufão, meu filho: é Deus.‘“

Ritmos e rimas são perigosos porque, com freqüência, nos levam a misturar razões ruins com música
ruim. Deixados de lado o ritmo e as rimas, o argumento do poeta se reduz a isso: Deus é uma “coisona“
que sopra qual ventania enorme, e um marzão que dá muito mais medo que esse mar que está aí. Ora,
admito até que coisona tal possa existir. Mas não há argumento que me faça amá-la. Pelo contrário, o
que realmente desejo é vê-la bem longe de mim. Quem é que gostaria de viver no meio da ventania
navegando num mar terrível? Eu não...

É preciso, de uma vez por todas, compreender que acreditar em Deus não vale um tostão furado. Não,
não fiquem bravos comigo. Fiquem bravos com o apóstolo Tiago, que deixou escrito em sua epístola
sagrada: “Tu acreditas que há um Deus. Fazes muito bem. Os demônios também acreditam. E
estremecem ao ouvir o Seu nome...“ (Tiago 2,19). Em resumo, o apóstolo está dizendo que os demônios

13
Ciência da Religião
UNIDADE 01 – Desvelando

estão melhor do que nós porque, além de acreditar, estremecem... Você estremece ao ouvir o nome de
Deus? Duvido. Se estremecesse, não o repetiria tanto, por medo de contrair malária...

Enquanto escrevo, estou ouvindo a sonata Appassionata , de Beethoven, a mesma que Lenin poderia
ouvir o dia inteiro, sem se cansar, e o seu efeito era tal que ele tinha medo de ser magicamente
transformado em alegria e amor, sentimentos incompatíveis com as necessidades revolucionárias (o que
explica as razões por que ativistas políticos geralmente não se dão bem com música clássica). Se eu
pudesse conversar com o meu cachorro e lhe perguntasse: Você acredita na Appassionata ? - ele me
responderia: Pois é claro. Acha que eu sou surdo? Estou ouvindo. E, por sinal, esse barulho está
perturbando o meu sono. Mas eu, ao contrário do meu cachorro, tive vontade de chorar por causa da
beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que ficou arrepiado: a beleza se fez carne.

Mas eu sei que a sonata tem uma existência efêmera. Dentro de poucos minutos só haverá o silêncio. Ela
viverá em mim como memória. Assim é a forma de existência dos objetos de amor: não como a
montanha, a estrela, a cebola, mas como saudade. E eu, então, pensarei que é preciso tomar
providências para que a sonata ressuscite de sua morte...

Leio e releio os poemas de Cecília Meireles. Por que releio, se já os li? Por que releio, se sei, de cor, as
palavras que vou ler? Porque a alma não se cansa da beleza. Beleza é aquilo que faz o corpo tremer. Há
cenas que ela descreve que, eu sei, existirão eternamente. Ou, inversamente, porque existiam
eternamente, ela as escreveu. “O crepúsculo é este sossego do céu/ com suas nuvens paralelas/ e uma
última cor penetrando nas árvores/ até os pássaros./ E esta curva de pombos, rente aos telhados,/ e este
cantar de galos e rolas, muito longe;/ e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,/ ainda sem luz.“

Que existência frágil tem um poema, mais frágil que a montanha, a estrela, a cebola. Poemas são meras
palavras, que dependem de que alguém as escreva, leia, recite. No entanto, as palavras fazem com o
meu corpo aquilo que universo inteiro não pode fazer.

Fui jantar com um rico empresário, que acredita em Deus, mas me disse não compreender as razões por
que puseram o retrato da Cecília Meireles, uma mulher velha e feia, numa cédula do nosso dinheiro.
Melhor teria sido retrato da Xuxa. Do ponto de vista da existência ele estava certo. A Xuxa tem mais
realidade que a Cecília. Ela tem uma densidade imagética e monetária que a Cecília não tem e nunca quis
ter. A Cecília é um ser etéreo, semelhante às nuvens do crepúsculo, à espuma do mar, ao vôo dos
pássaros. E, no entanto, eu sei que os seus poemas viverão eternamente. Porque são belos.

A Beleza é entidade volátil - toca a pele e rápido se vai. Pois isso a que nos referimos pelo nome de Deus
é assim mesmo: um grande, enorme Vazio, que contém toda a Beleza do universo. Se o vaso não fosse
vazio, nele não se plantariam as flores. Se o copo não fosse vazio, com ele não se beberia água. Se a
boca não fosse vazia, com ela não se comeria o fruto. Se o útero não fosse vazio, nele não cresceria a
vida. Se o céu não fosse vazio, nele não voariam os pássaros, nem as nuvens, nem as pipas...

14
Ciência da Religião
UNIDADE 01 – Desvelando

E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem
Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita,
que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá,
dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para
tranqüilizar a saudade.

Posso então responder à pergunta que me fizeram. É claro que acredito em Deus, do jeito como acredito
nas cores do crepúsculo, do jeito como acredito no perfume da murta, do jeito como acredito na beleza
da sonata, do jeito como acredito na alegria da criança que brinca, do jeito como acredito na beleza do
olhar que me contempla em silêncio. Tudo tão frágil, tão inexistente, mas me faz chorar. E se me faz
chorar, é sagrado. É um pedaço de Deus... Dizia o poeta Valéry: Que seria de nós sem o socorro daquilo
que não existe?

(Rubem Alves. Correio Popular, 13/04/1997) – Artigo retirado da página oficial do autor –
www.rubemalves.com.br

15
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 01

Aula 01 - Importância do
estudo do fenômeno religioso
O estudo do Fenômeno Religioso
Por que o fenômeno religioso está presente em todos os povos e culturas? Como podemos caracterizar
uma experiência religiosa, individual ou coletivamente falando?

Vamos começar nosso estudo de Ciência da Religião refletindo a respeito de questões como essas. Nossa
primeira aula será um aperitivo do prato principal que degustaremos durante o semestre.

Você é muito bem vindo(a)!

Esperamos que você tenha uma bela experiência com esse curso e se aproxime da temática instigante
que é objeto da Ciência da Religião.

O fenômeno religioso
A Terra formou-se há, aproximadamente, 4.600 milhões de anos. O ser humano viveu e evoluiu na
Europa entre 230.000 (achados mais antigos) e 30.000 anos. A partir dos restos encontrados em seus
sepultamentos mais antigos, que são conhecidos, realizados com algum tipo de rito, pode-se afirmar que
eles já manifestavam algum tipo de crença em algo que transcende o imediato, o cotidiano, em uma
vivência pós-morte.

A Religião e a religiosidade compõem uma temática bastante controversa, afinal, ser religioso pode
significar diferentes coisas, para pessoas diferentes, onde, freqüentemente encontramos contradições
entre si. Estas controvérsias cotidianas se reproduzem, em boa medida, quando se coloca a Religião
como objeto de estudo científico. Vários cientistas clássicos no século XIX e início do século XX, sobre a

Religião, fizeram uma leitura crítica e desqualificadora. A frase de Marx de que a Religião era “o ópio
do povo” é a mais conhecida das afirmações, mas tanto ele, quanto outros grandes sociólogos, e o pai da

psicanálise, Freud, estavam convencidos de que a religião desapareceria com o desenvolvimento da


ciência e da racionalidade moderna.

site sobre ciência da religião. Neste site você encontrará o conceito de


Ciência da Religião, a descrição de várias religiões e artigos sobre a temática.

Recentemente, há autores que se está diante de uma realidade que afirmando estaria apontando para
uma possível implosão do próprio conceito de Religião . Outros autores se referem a um processo de

17
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 01

decomposição do religioso. Entretanto parece-nos que a Religião e a religiosidade não desapareceram,


mas estão sim sendo revividas.

Estamos diante de um fenômeno que acompanha a humanidade. Cultura e culto derivam de uma mesma
palavra cultus , que quer dizer adoração ao divino, a um Ser Supremo, a Deusas e Deuses. Homens e
mulheres buscaram, desde sempre, compreender o mistério da vida e da morte. A crença em algum
poder superior, misterioso, desconhecido é o fundamento da cultura, ainda que a religiosidade e a
Religião sejam produtos históricos, variem no tempo e no espaço. Afinal, diria M. Zambrano, (1993, P.
13) : Uma cultura depende da qualidade de seus Deuses...tudo indica que a vida humana sentiu-se,
sempre, “diante de algo”, melhor dito, “sob algo”.

A condição humana e o
fenômeno religioso
Mesmo que se parta do princípio, como o faz a maioria dos cientistas sociais, de que Deus é uma criação
humana, a busca pelo misterioso, pelo divino, isto é, a religiosidade, é parte da condição humana.
Homens e mulheres, desde sempre, se voltaram para uma dimensão ou instância superior, não-humana.
Aqui se pode afirmar que não inventaram esta instância, e que, de alguma maneira, eles a encontraram.
Porque os Deuses podem ter sido inventados, mas a matriz, o berço de onde eles surgiram, este fundo
último, só foi pensado, representado, enquanto tal, posteriormente. De alguma maneira, a matriz (a
busca) já estava presente, desde sempre.

A questão da religiosidade, afirmativa ou negativamente, está sempre posta à condição humana. Sejam
as pessoas crentes em Deus (teístas); não crentes em Deus ou Deuses, mas em uma causa ou um poder
“original” (deístas); céticas, que não crêem em Deus e não acreditam “em nada”, ou pessoas que não
acreditam em Deus e o perseguem, como, por exemplo, os satanistas (anti-teístas). Na atualidade, mais
de três quartos da população mundial considera-se pertencente a uma (ou a mais de uma) Religião.

as religiões no mundo. Neste site você encontrará um mapa da distribuição


das principais religiões no mundo.

São, portanto, muitos fatores que fazem da Religião e da religiosidade um objeto privilegiado de estudo.
Há uma infinidade de autores que afirmam, de uma ou de outra forma, que a religião parece ser quase
tão antiga quanto à humanidade.

Portanto, o ponto de partida para qualquer tentativa de compreensão da história das


religiões do mundo, tanto antigas quanto modernas, deve ser, obviamente, o pressuposto da, desde
sempre, “busca espiritual” da humanidade.

18
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 01

A experiência religiosa
Estudar as experiências já vivenciadas pela humanidade, passando ou não pelas instituições religiosas,
permite a todos uma maior possibilidade de escolha, de livre-arbítrio e de decisão. Inevitavelmente, o
estudo da Religião pode ser considerado importante na vida de todos, mesmo dos céticos e dos deístas.
Para se compreender, primeiro há que se conhecer.

Esse estudo permite, também, compreender a atual experiência religiosa que estamos vivendo em nossa
sociedade. Por experiência entendemos tudo aquilo que nos toca e nos transforma. Segundo Leonardo
Boff, teólogo, possivelmente uma das maiores transformações do nosso século será a volta da dimensão
espiritual em nossas sociedades. Tal retorno pode ou não se dar através das estruturas religiosas atuais.
Vejamos o que afirma o autor num trecho de seu artigo “Século XXI, Século da Espiritualidade?”:

“... O século XXI será um século espiritual que valorizará os muitos caminhos
espirituais e religiosos da humanidade ou criará novos. Essa espiritualidade
ajudará a humanidade a ser mais co-responsável com seu destino e com o
destino da Terra, mais reverente face ao mistério do mundo e mais solidária
para com aqueles que sofrem. A espiritualidade dará leveza à vida e fará que os
seres humanos não se sintam condenados a um vale de lágrimas mas se sintam
filhos e filhas da alegria de viver juntos nesse mundo...” (Século XXI, Século da
Espiritualidade?

www.leonardoboff.com ).

A experiência religiosa pode dar respostas a perguntas complexas e fundamentais, tal como o mistério da
morte. A ciência nos introduz à lógica do vivo, do real, do que se toca, do que se pesquisa
empiricamente. Porém, além, mais adiante da ciência, continua sendo necessário nos descobrirmos como
parte da vida secreta ou misteriosa do mundo. Esta descoberta é necessária para não cairmos em um
egoísmo e em uma filosofia que nega o sentido ou os sentidos da vida.

19
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 02

Aula 02 - Possibilidades
de uma Ciência da Religião
(contradição entre ciência e religião?)

É possível uma Ciência da Religião?


É possível tratar do fenômeno religioso com as categorias da ciência? Como refletir sobre a questão das
religiões dentro do ambiente da Universidade? Considerando os aspectos que estudamos ou estamos
estudando na disciplina de metodologia científica, seria possível declararmos a existência de uma Ciência
da Religião?

Em nossa segunda aula começaremos a aprofundar essas questões e construir alguns pressupostos para
avançarmos na análise do fenômeno religioso contemporâneo e nossa própria experiência.

O historiador das religiões E. O. James(1995, P.04), adverte que para se fazer Ciência da Religião, há
que se tentar encaixar entre si, diversos fragmentos. Algo muito parecido a um quebra-cabeças. Porque
se trata de um tema amplo e complexo.

Há vários problemas de definição do objeto de estudo. Por exemplo, Ciência da Religião, ou Ciência das
Religiões?

A ciência se baseia na autonomia de um método reconhecido e legitimado como método científico. Assim
como qualquer realidade humana, também a realidade das religiões indica a persistência de estruturas e
de comportamentos que podem ser cientificamente estudados. Apesar das mudanças histórico-sociais,há
um processo repetitivo, em termos de comportamentos e respostas: há uma constância em termos de
normas internas, de formas de funcionamento, de auto-regulação. Simultaneamente, muda e se repete.

Há uma dimensão histórica e uma dimensão que é trans-histórica. Daí que as religiões não podem ser
explicadas apenas por variáveis externas ao mundo das religiões. As religiões têm uma lógica própria.
Portanto, a religião teria uma autonomia relativa. Tal autonomia não parece ser um impeditivo que se
faça Ciência da Religião, guardando a rigorosidade metódica exigida em todos os segmentos da ciência.

Do que trata a Ciência da Religião?


Rodolf Otto (1992) refere-se ao sagrado como um princípio vivo, presente em todas as religiões.
Portanto, como algo que não pode ser um objeto de estudo, propriamente dito, porque o sagrado só
poderia ser... excitado, despertado, como tudo o que procede do espírito . (OTTO, 1992, P. 15) . Daí que
o autor convida o leitor para fixar a atenção em um momento em que tenha experimentado uma emoção
religiosa profunda (“o tremendo e o fascinante”), essa experiência seria o objeto da Ciência da
Religião.

21
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 02

Uma postura cética diante da questão do sagrado, colocando-a de vez fora da discussão da ciência,
parece não resolver a questão. Matar, matematicamente a Deus, não elimina a busca e a presença do
divino no cotidiano humano. Eis que, depois de Nietzsche (1844-1900), com sua famosa frase, “Deus
está morto”, que profetizou e anunciou o que estaria acontecendo na modernidade, nos coloca diante de
um re-encantamento do mundo, ou de um re-avivamento do religioso na atualidade.

O desprezo e o preconceito com relação aos estudos da Religião são antigos. Sobretudo a partir do
Iluminismo, estes tenderam a crescer. O Iluminismo criticou a Religião em geral e o cristianismo, em
particular, porque o papel que ela desempenhava na sociedade foi interpretado como imposição,
impostura, dominação. E também cresceu a certeza de que a Religião seria abandonada na vida

moderna. Mas esta postura já se encontra em Lucrécio, no século I a. C.. Para ele, o modelo de
Religião era o seguinte: ela nasce do medo do incontrolável; sua função é induzir os homens a realizar
até mesmo coisas ruins e está destinada a desaparecer.

Na metade do século XIX nasce, como disciplina, a História das Religiões. Ela pretendia realizar o estudo
comparado das diferentes tradições religiosas da humanidade, com o objetivo de reconstruir a história de
sua evolução. Durante a segunda metade deste século, graças ao desenvolvimento de outras disciplinas
das Ciências Humanas, tais como a Lingüística, a Sociologia, a Antropologia, foi-se impondo a
necessidade de uma Ciência da Religião.

Deve-se lembrar que no início do século XX coloca-se uma questão básica (em termos do que é a origem
e as âncoras do conhecimento) da Ciência da Religião: compreender ou explicar a Religião e a
religiosidade. Nesse momento, colocava-se dois modelos: o modelo explicativo válido para o estudo dos
fenômenos da natureza e o modelo compreensivo seria o modelo relativo aos fenômenos do espírito.

O modelo explicativo parte do princípio de que a Religião, enquanto objeto de estudo, distinto do objeto
de fé e da crença, seria, por sua própria natureza, inacessível à pesquisa empírica.

Entretanto, a Religião pode ser objeto de estudo das Ciências Humanas, desde que se sujeite às regras
do método científico.

O objeto de estudo, submetido à pesquisa, possuiria, como qualquer outro, uma estrutura própria. Esta
pode ser decomposta e recomposta em subestruturas e níveis mais elementares, para serem analisados.
A “verdade” do dado religioso pode, portanto, ser descoberta. Pode-se utilizar neutralidade e
objetividade, típicas da postura científica, eliminando-se, dentro do possível, o envolvimento, a
subjetividade, típica da condição humana. Assim, um estudo sobre a temática é facilmente verificável: é
ou não é científico. Cumpre ou não cumpre as regras da metodologia científica.

Por sua vez, o modelo compreensivo se propõe a perceber as experiências livres e criativas, nas quais se
ancoram as produções culturais e espirituais da humanidade. Aqui, o pressuposto é o da autonomia
absoluta da Religião. A postura crítica de Rudolf Otto, acima indicada, materializa esta corrente. Nestes
termos, impõe-se a impossibilidade da neutralidade e da objetividade científica, tal como demandadas

22
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 02

pelo modelo explicativo. O estudioso, aquele que interpreta, não poderia se colocar diante do objeto de
estudo de uma maneira imparcial, pois se trataria de uma relação de compreensão.

Ciência e Fé. Este site divulga debates, textos, do Instituto Ciência e Fé,
criado em 1995 por profissionais liberais e intelectuais de Curitiba. As
discussões apresentadas procuram estabelecer uma relação “ciência e fé”.
Originalmente composto por maioria católica, hoje o instituto prega o
ecumenismo.

A dualidade e oposição existente entre estes modelos, estariam, na atualidade, sendo superadas,
segundo G. Filoramo e C. Prandi(1999). Estaríamos caminhando para uma nova postura, mais flexível e
pluralista, onde a intuição e a criação do pesquisador ganham espaço. E os rígidos pressupostos básicos
do procedimento científico tendem a não incorporá-las. Resumidamente, tem-se que as premissas das
Ciências Sociais, cada vez mais, invadem o campo das Ciências da Natureza e as generalizações destas
influenciam, crescentemente, as Ciências Sociais. Trata-se de agregar os ganhos do procedimento
científico com os aspectos subjetivos da investigação, que, não há como serem eliminados.

De qualquer forma, na atualidade, é óbvio que se pode fazer Ciência da Religião ou Ciência das Religiões.
Para muitos estudiosos, o pressuposto de que a Religião seja uma realidade que transcende, que vai
além da histórica, das evidências empíricas, os leva a pensar que a Religião transgride os limites da
ciência, e que não poderia ser objeto de estudo científico. Dessa forma, só poderia estudar Religião quem
a vivencia. Aqui, estaríamos diante de um paradoxo: só poderia estudar arte, quem fosse artista, a
guerra, quem tivesse tido uma experiência militar.

Ao contrário, para se fazer ciência, o fundamental são os instrumentos teórico-metodológicos, não as


crenças ou posturas políticas pessoais do investigador (neutralidade e objetividade científica). E então, a
Religião, as religiões e a religiosidade, são um objeto passível de ser conhecido pela ciência, como
qualquer outro objeto da realidade. O que não desqualifica e nega a possibilidade de diálogo com outras
formas de conhecimento, assim como é o caso do conhecimento teológico, ancorado na revelação, e do
conhecimento filosófico, baseado em valores e significados. Assim o conhecimento científico tem muito a
oferecer à teologia (dados, materiais empíricos, pesquisas), esta indica para a Ciência da Religião, como
se explicitam, no nível teórico, as experiências religiosas vivenciadas historicamente, o que pode ser um
objeto de estudo privilegiado para esta ciência. Por sua vez, a teologia questiona se a própria ciência não
necessita também de mitos.

Assim, há também dificuldades para se vivenciar e enfrentar a ciência, como objeto de estudo, de forma
neutra e objetiva, porque nenhuma ciência é neutra e todas elas são produtos sociais.

23
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 02

Alma e Ciência. Neste site encontraremos publicações de textos religiosos,


em particular, centrados em tentar provar a existência da alma
(estabelecendo relações entre conhecimento científico e conhecimento
religioso). Oferece ainda um link que permite ir direto a outros sites que
tratam de assuntos semelhantes.

Alguns pressupostos para o estudo científico do fenômeno religioso.

Estudar a Religião e a religiosidade, cientificamente, aponta para a necessidade de que sejam


explicitados alguns pressupostos:

a) O termo Religião e religioso , de matriz latina, é estranho à linguagem das culturas antigas
(excluída a romano-latina) e das culturas não européias. E as interpretações que se fizeram,
historicamente, do termo, são muitas: escrúpulo, consciência, exatidão, lealdade; um estilo de

comportamento marcado pela rigidez e precisão. A partir de Agostinho (354-430), enfatiza-se a


exortação do homem para Deus, articulando-se religio a religando . Abrindo o caminho para a idéia de
ligação baseada na submissão e no amor entre o homem e Deus. Na atualidade, a idéia mais corrente é a
de religare , que não, necessariamente, significa religação com um Deus, mas sim com a Existência, com
o Cosmos, com as dimensões invisíveis, com o divino. Qualquer cientista trabalha com pressupostos
teórico-metodológicos, mais ou menos implícitos. É fundamental explicitar com qual concepção, ou
definição de Religião se estará trabalhando.

b) A religião faz parte do mundo das idéias , das representações, que as pessoas fazem de si
mesmas, das relações sociais, do mundo. Estas representações são a maneira de se olhar, construir a
realidade. Afinal, a realidade, primeiramente é representada no campo das idéias (passando pelos filtros
dados pela condição de classe social, história familiar e pessoal, nível educacional), para depois se
apresentar, para ter um sentido para os seres humanos. Um eterno processo de representação. Aqui, se
está referindo às representações construídas sobre o misterioso, o sobrenatural, o transcendental, o
sagrado, o divino, ou como se denomine esta dimensão. Porque não se trata de definir, de precisar,
explicar este misterioso, sobrenatural, sagrado. Isto o fazem as religiões. Esta não é competência
específica daquele que faz Ciência da Religião. Todo grupo, comunidade, sociedade, definem, à sua
maneira, o sobrenatural , ou como o denomina esta dimensão, o sobre-social.

c) Além de a Religião fazer parte das representações sociais, ela é também um produto dos
atores sociais e exerce influência nas ações sociais e culturais. Deve-se ter presente que interações se
dão entre ela e outras dimensões da sociedade e da cultura: ética, poder, política, economia. Um
estudioso da religiosidade e da Religião pode investigar a mudança e o sincretismo religioso de uma
sociedade, as formas específicas de como se deu a imposição religiosa a populações colonizadas, os

24
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 02

discursos produzidos por grupos sociais ou discursos mais elaborados, de tipo mais teológico, com maior
ênfase na instituição. Como a Religião está bastante imbricada com estas outras dimensões, há que se
estar atento às funções de atribuição de significado em suas conexões com os mecanismos de agregação,
desagregação, legitimação, conflito humano. Afinal, há que se estar atento aos elementos constituintes
dos sistemas religiosos: significações religiosas, expressões religiosas, a ética enquanto referência
religiosa, as organizações religiosas.

d) Como assinalado no subitem anterior, a busca pelo religioso é parte constituinte da condição
humana . E compreender as formas de buscá-la, de ritualizá-la, de praticá-la, são fundamentais para
quem quer, de fato, decifrar o social, o psicológico, o cultural, ou seja, o ser humano que é mais do que o
indivíduo, inserido em uma sociedade e em uma cultura.

e) Deusas e Deuses, em toda a história humana, nasceram e morreram. A busca humana pelo divino, o
irredutível da condição humana, sofre pontos altos e baixos. O divino também se humaniza: elas e
eles nascem, passam e morrem . Porque, acreditando ou não, em uma dimensão sobrenatural, em
Deus ou Deuses, são os homens que os constroem. Junto com as epopéias e as decadências de todas as
culturas, eles brilharam e morreram. Entretanto, este ponto de partida é fundamental para se fazer
Ciência da Religião: a humanidade foi sempre, paciente e escultora do divino, mas nunca o abandonou,
como uma matriz fundante de sua constituição. Compreender isto esvazia a discussão de que a crença ou
não em Deus, pelo investigador, é importante para se fazer Ciência da Religião.

f) Por sua vez, tendo esta constituição de buscante religioso do ser humano como princípio, como o
demonstra a história escrita e não-escrita, estudar a temática permite, ainda, a todos, cientistas e não
cientistas, fiéis ou não fiéis, uma melhor compreensão de si mesmos, como seres buscantes, ou como
parte de uma humanidade buscante de sentido para sua própria história que está em contínua
construção.

Os pressupostos sinalizados demonstram como é possível pensar o fenômeno religioso a partir dos
critérios da ciência e apontam para um conjunto de necessidades de rigor metodológico e de interfaces
com outras áreas do conhecimento para que o fenômeno religioso seja satisfatoriamente compreendido.

25
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 03

Aula 03 - Especificidade
do objeto e metodologia da
Ciência da Religião

Religião:
uma primeira percepção
“de fora” para dentro
O fenômeno religioso não está restrito às catedrais, paróquias, terreiros e templos. Na arte, na
linguagem, nos costumes podemos conhecer as experiências religiosas de um povo. Na ideologia também
percebemos as relações com o fenômeno religioso. São essas questões que permeiam nossa terceira
aula.

Mergulhe nessas questões, pois aprender não é correr contra um muro, e sim, mergulhar no mistério
envolvente do mar. Portanto, busque fazer uma experiência, relacione-se com as questões que serão
apontadas durante a aula e nos espaços de troca com seus colegas e professor.

Aproveite os textos complementares, links e participe ativamente das atividades propostas, para que esta
aula nos instigue a pensar nesse tema.

Cultura, sociedade, arte e religião


O que hoje se conhece, genericamente, como “arte pré-histórica” é a concretização de um dos produtos
das primeiras etapas do pensamento mágico. A expressão artística, no seu sentido mais amplo, constitui
uma afirmação criativa e estética, além de ser uma clara representação simbólica do universo, tanto em
termos objetivos, quanto subjetivo ou psíquico.

Tomando como marco de referência provas documentais encontradas até o momento, pode-se afirmar
que as manifestações artísticas e simbólicas do ser humano são relativamente recentes. Na Europa, as
evidências de “arte” mais antigas foram datadas em aproximadamente 35.000 anos, procedentes do
homem autor de pinturas em grutas, covas ou pedras ao ar livre e de uma diversidade de figuras e
objetos de decoração claramente distanciada das necessidades relacionadas com as atividades básicas da
sobrevivência física. O pensamento mágico do homem primitivo lhe permitiu iluminar sua arte, ao mesmo
tempo em que esta reforçava aquele, formalizando o universo além da experiência material, o mundo das
forças sobrenaturais, misteriosas, desconhecidas, transformando o universo em algo real, tangível e
acessível.

Ampliando o olhar, não seria exagerado afirmar que o início da expressão simbólica e artística humana
pode retroceder até mais ou menos uns 90.000 anos, época em que os homens e mulheres já realizavam
cuidadosos sepultamentos de seus adultos e crianças. As sepulturas mais antigas que são conhecidas

27
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 03

continham vários esqueletos humanos de quase 100.000 anos, ainda que não se tenha documentado a
presença de ritos em tais enterros. Mas em diversos destes enterros, datados entre 85.000 e 50.000
anos, aparecem várias marcas de ritos funerários específicos.

De qualquer forma, seguramente pode-se afirmar que antes da aparição do homem a partir de 35.000
a.C., já havia capacidade de se abstrair dos objetos algumas de suas qualidades, separando uma parte
do todo, o que possibilitou o processo de simbolização que parece ter se iniciado no período entre
100.000 a 35.000 a. C. Os objetos não apenas possuíam uma função primária, mas também estavam
dotados de uma função simbólica. Mas o pensamento simbólico e a atividade artística parecem ter tido,
de fato, uma concretização significativa somente com o surgimento da cultura funerária (90.000 anos) e
alcançaram maturidade e expressividade plena por volta de 35.000 anos.

Nessa época, o ser humano já devia ser consciente de sua própria existência, das características que o
faziam diferente do resto dos seres vivos e, sobretudo, de sua localização num universo pleno de
perguntas sem respostas. Ele deve, então, ter sido impulsionado a incrementar a complexidade de sua
organização social e ampliar seus marcos de referência, elaborando uma comunicação de tipo simbólico
que lhe permitiu construir conceitos altamente operativos para a vida cotidiana, além de abrir-lhe a
mente para explicações ancoradas no pensamento mágico, mãe e pai do comportamento religioso
posterior.

Porque, por muito tempo, pode-se mesmo afirmar que durante a maior parte da história da humanidade,
as certezas sobre o mundo foram dominantemente dadas pela fé, pela crença mágica ou religiosa. Dentro
desta visão, a leitura unificadora do mundo, ainda presente na Idade Média é uma constante nas
sociedades tradicionais e/ou primitivas, de que se tem algum registro. Nestas, o Cosmos representa o
começo de tudo, por excelência.

O início do mundo, imaginado como algo em vias de criação, era percebido como uma enorme fonte de

forças sagradas. As primeiras formas de explicação do mundo e da vida, os mitos, revelam que havia
uma totalidade compacta, que foi seccionada ou partida, para que o mundo ou a humanidade pudesse
nascer.

No princípio havia, sempre, uma totalidade. O ser humano nunca deixou de se sentir separado, sempre
ancorado em um tempo perdido, um estado primordial em que desfrutava do tempo, antes do Tempo da
História, da história da humanidade. Daí a recorrência à nostalgia de um Paraíso Perdido em tantas
culturas, em tantos tempos diversos: um eterno desejo de recuperar a unidade original.

Daí, também, a centralidade da arte. Ela sempre deu expressão à vida religiosa, por meio de ritos, da
música, da figuração. Ela acompanhou a evolução religiosa em toda a história humana, porque sempre se
deu um entrelaçamento da história e da Religião, sendo a arte seu elemento unificador. Segundo V.
Knoll, (1996, P. 111) o grande filósofo Hegel se deu conta de que a arte se constituía como... o veículo

28
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 03

da história sobre os trilhos da Religião. A arte tem por “tarefa” manter o homem aderido ao real. Porque
manifestação sensível da História e da Religião.

Conseqüentemente, segundo este mesmo autor, a arte pode ser vista como um “estado de
religiosidade”: a celebração, o culto, as oferendas. Pois ela confere, atribui materialidade aos ritos. Pode-
se dizer que todas as artes convergem para o drama. De modo radical, para o “espetáculo” – um ritual,
uma manifestação religiosa. Proveniente da Religião, a arte caminha para a Religião...e a história tem na
arte o seu “instrumento” (KNOLL, 1996, P. 115).

Religião e Ideologia
Abundam estudos que indicam como as instituições religiosas podem manipular, cooptar, enganar,
mentir, para seus fiéis ou membros. Esta questão tem tido lugar de destaque na imprensa e mesmo na
Sociologia. Entretanto, as instituições religiosas não se resumem a isto, ainda que, eventualmente,
algumas o façam.

Ideologia é um dos termos que tem uma das maiores variedades de usos e interpretações. O sentido
usual mais forte vem da tradição marxista, ou seja, falsa consciência sobre as relações de dominação e
exploração entre as classes sociais. Assenta-se na idéia de uma falsa crença.

Mas o sentido mais geral de ideologia remete a sistemas de crenças: um conjunto de idéias e valores
concernentes à ordem político-econômico-cultural-social-religiosa que guia comportamentos pessoais e
coletivos. A ênfase aqui não é posta na idéia de falsidade. Encontram-se, dentro desta corrente de
interpretação, definições tais como sistemas de idéias conectadas com a ação, compreendendo um
programa e uma estratégia para sua atuação, estando dirigidos a mudar ou manter a ordem política
existente. Também pode ser entendida como interpretações e princípios éticos que definem os objetivos,
a organização e os limites da vida, oferecendo interpretações do passado, explicação do presente e uma
visão do futuro.

Outras leituras pensam a ideologia como sistemas de crenças integradas e coerentes, que justificam o
exercício do poder, explicam e julgam os acontecimentos históricos, definem relações entre a política e
outros campos da vida, e oferecem um guia para a ação. De qualquer maneira, identifica-se um núcleo
nas diversas definições existentes: um conjunto relativamente organizado de idéias, crenças, explicações,
sentidos, que funcionam como um norte, direção, guia para as ações individuais e coletivas.

Como a sociedade se estrutura em relações de poder (entre classes sociais, entre homens e mulheres,
entre etnias, entre regiões geográficas), obviamente as ideologias fazem parte dos mecanismos de
manutenção, de justificativas, destas relações, mas também funcionam como alavancas para mudanças.
Para o que toca neste momento, é importante reter que a inserção da ideologia enquanto parte das
estruturas de poder, ainda que real, não resume toda sua força, enquanto guia para a ação e a
compreensão humana do mundo, das relações sociais, da organização da vida. Seja para justificar o
mundo, seja para transformá-lo.

29
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 03

Um bom exemplo de produção ideológica é o que fez a Ciência com a Religião a partir do
Iluminismo.Também pode ser tomado como exemplo o que a ciência e as religiões cristãs dominantes
nos últimos séculos no Ocidente, fizeram com relação às práticas, às crenças, dos primeiros homens e
mulheres, em suas tentativas de explicar a Natureza e suas existências. Afinal, elas foram e ainda são,
em boa medida, denominadas superstições. Estas se caracterizariam, sobretudo, pela “ignorância” e pelo
“medo irracional”. Ou seja, cria-se uma série de novos valores, de novas crenças, de novos
conhecimentos (ideologia) que negam, desqualificando, os valores anteriores, com uma função, que é
manipulação ideológica: que se imponham os novos valores, crenças e conhecimentos.

O mesmo se dá com relação à alquimia: antiga organização de conhecimentos que tinha por objeto a
análise dos fenômenos da natureza. Foi mitológica e sacerdotal no Egito e filosófica em outras regiões.
São inúmeros os autores que a indicam como a etapa embrionária da química. Foi perseguida (sobretudo
pelos romanos e pelos cristãos, no século IV), mas sobreviveu devido à utilidade que sempre teve para a
vida cotidiana (cerâmicas, tintureiras, metalurgias). Porém, como associada à espiritualidade, ao
mistério, à magia, foi desqualificada na modernidade, classificada como superstição e associada apenas à
obtenção de ouro.

Um outro exemplo de manipulação ideológica é a leitura dominante que se faz, no Ocidente, sobre o
Islamismo. Os europeus, e os americanos, por herança, não o valorizam, ao contrário, tendem a
desvalorizar a importância da contribuição da civilização islâmica ao Ocidente. Nem nas universidades o
assunto é devidamente tratado. Os islâmicos dominaram a Espanha, e outras partes da Europa, como
Portugal, Sicília, e a parte sul da França, durante séculos. Há um silêncio dos historiadores a respeito. Há
uma super valorização a herança ocidental dos gregos e uma desvalorização à herança dos islâmicos.
Porém, à herança grega foi transmitida aos europeus via muçulmanos: o Oriente Próximo havia estudado
seriamente este patrimônio intelectual e o repassou à Europa. E a influência islâmica se estendeu a
muitos domínios: Ciências, Artes, Filosofia, Literatura, Arquitetura. Por que este silêncio sobre a
influência islâmica no Ocidente?

Separamos, recortamos a realidade, auxiliados pelos conceitos que construímos, em nossa eterna
tentativa de compreendê-la. Entretanto, cultura, sociedade, arte, religião são instrumentos de análise, de
compreensão. Porque eles estão e sempre estiveram, de fato, na realidade, articulados, entrecruzados.

Cada um de nós, na sociedade na qual nascemos, nos ancoramos em crenças, valores, verdades, que
cumprem a função de atribuir sentido à vida em geral e à nossa vida, fazendo-nos uma família
(tradicional, libertária), uma cidade (civilizada, bela, histórica), uma sociedade (tradicional, resistente,
alegre, musical) e uma Nação (guerreira, anti-guerreira, autoritária, democrática). Ou seja, neste
processo de construção de identidades, estamos exercitando ideologias: valores de referência que
justificam e motivam nossas ações (que incluem, de forma mesclada, elementos da cultura, da
sociedade, da religião, da arte). Ainda que provisória, a ideologia, é um resumo do passado, uma
interpretação do presente e uma orientação ou previsão do futuro. Assim, os valores em que se assenta a

30
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 03

ideologia também podem ser libertários, revolucionários: valores que justificam e orientam mudanças
pessoais de vida, reformas e revoluções pretendidas da sociedade.

A questão fundamental aqui é admitir a presença histórica da ideologia, ou seja, reconhecê-la como uma
dimensão constituinte da condição humana, dada sua importância em termos de justificativa e de
atribuição de sentido à vida, sem que nela nos armadilhemos. Ou seja, minha verdade é uma produção
histórica, provisória, relativa. Diferente das outras. Mas não necessariamente superior às outras. Porque
elites, dirigentes, líderes e classes sociais que se favorecem (em termos políticos, sociais, econômicos)
das ideologias lidas como únicas verdades, ou verdades superiores, estão tratando de nos convencer
disto sempre. Tornar minha verdade como única ou superior é uma prática fundamentalista. E o Ocidente
vem construindo uma ideologia de sua superioridade sobre o Oriente, sobre os Muçulmanos, sobre os
Árabes, há muitos séculos, justamente, utilizando-se de um argumento central: “eles” são
fundamentalistas. Nós somos superiores. Nestes termos, pode-se levantar a hipótese de que talvez, há
vários séculos, temos sido, os ocidentais mais fundamentalistas, do que estes “outros” bárbaros,
selvagens, fundamentalistas...

31
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 04

Aula 04 - Elementos fundamentais para o estudo do fenômeno


religioso
Religião: uma primeira aproximação de “dentro para fora”
Nas três primeiras aulas verificamos questões que permeiam o fenômeno religioso, verificamos sua
relação com a cultura, com as artes e tantos outros aspectos. Em nossa quarta aula, nos aproximaremos
do fenômeno religioso por um outro caminho. Até o momento, buscamos compreendê-lo de “fora para
dentro”. Agora, buscaremos compreender algumas de suas particularidades. Daremos um passo
importantíssimo nessa aula na busca da compreensão de elementos que demarcam a compreensão do
fenômeno religioso.

Vamos seguir adiante!

Religião, magia e seita:


aproximações e distinções
Na definição de Religião, há várias tendências interpretativas. O conceito de seita também é
compreendido de muitas maneiras. Etimologicamente, ele surgiu por volta dos séculos XIII-XIV, e parece
ter como referência fundante, “andar atrás de”, “tomar por guia a”, “separar-se”, “distanciar-se”, ou
ainda, em outra derivação, “cortar”, “partir”, “amputar” ou “mutilar”.

Max Weber, sociólogo que contribui muito para análise do fenômeno da religião, analisando as seitas
protestantes e o espírito do capitalismo, ressalta uma diferença importante entre Religião e seita.
Segundo este autor:

Uma igreja é uma corporação que organiza e administra os dons


religiosos da graça, como uma fundação. A filiação a uma igreja
é, em princípio, obrigatória e, portanto, nada prova quanto às
qualidades dos membros. A seita é, porém, uma associação
voluntária apenas daqueles que, segundo o princípio, são
religiosa e moralmente qualificados. (WEBER, 1982, P. 351).

Weber também destaca o caráter quase herdado do lugar de fiel em relação a uma igreja. Para ser
membro, não há a necessidade de uma rigidez de comportamentos, de valores, de práticas, como é o
caso do membro de uma seita. Afinal, a exclusão de uma pessoa de uma seita, por motivos morais,
implicaria em perda de crédito social. Por sua vez, ao se associar uma pessoa a uma seita, a este
pertencimento se associa uma determinada conduta ética e moral. Ou seja, a membresia (ser membro
de) é mais significativa na seita do que na Religião.

33
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 04

Troeltsch (1987) , por sua vez, destaca na igreja, seu conservadorismo, seu domínio das massas e seu
desejo de abarcar a totalidade da vida da humanidade, porque se pretende universal. Quando
plenamente desenvolvidas, as igrejas utilizam o aparato estatal e as elites, tornando-se parte integrante
da ordem social vigente. Sua essência seria seu caráter institucional objetivo. Nas seitas, ele enfatiza o
companheirismo pessoal e direto entre os membros do grupo, geralmente pequenos. Elas tenderiam a
evitar as relações com o aparato estatal, pois sua meta seria mais de tolerância ou mesmo indiferença
com as instituições sociais e a viver à margem da igreja oficial, porque estariam mais voltadas ao
ascetismo e ao misticismo . Entre a igreja e a seita, este autor fala de uma terceira possibilidade,
intermediária, de mediação entre as duas: a organização ou a experiência mística. Esta se caracterizaria
pela defesa da liberdade pessoal, fugindo do radicalismo da seita e do caráter institucional da igreja.

Por sua vez, a magia é a arte ou Ciência Oculta em que são utilizados poderes invisíveis (mentalização de
cores, visualização da aura, comunicação com as plantas, com os animais, os duendes, as fadas,
oferendas, sacrifícios) para se obter fins visíveis. Instrumento ou signo humano utilizado com o intuito e
a esperança de se obter influência ou poder sobre o mundo. Ela pode ser considerada o privilégio
daqueles que sabem e que podem, utilizando-se destes poderes, a força vital que está em Deus, no
divino, nas pessoas, e é inerente ao Cosmos, para interesses benéficos próprios, de outra pessoa ou da
comunidade. Também pode manejar forças com fins maléficos (magia branca, negra, natural, divina,
simpática).

A magia é composta de uma mesma substância (imaginária ou não): ambiciona o mesmo, ou seja, aliviar
o sentimento de impotência ou insuficiência de compreensão que se experimenta diante dos mistérios do
mundo, do universo e da vida.

A magia foi, desde sempre, associada ao mistério. A palavra mistério nos remete ao fascínio do que é
secreto e a promessa de revelações emocionantes. Por sua vez, mistério se associa, diretamente, a
misticismo. Misticismo é, normalmente, definido como a atitude humana que visa a união das pessoas
com as forças sagradas, transcendentais, o mistério fascinante. A palavra se origina do verbo grego myo
, que pode ser traduzido por “fechar a boca”. Aí também se localiza a origem da palavra mistério,
significando algo que se percebe íntima e profundamente, estando, no geral, envolto pelo silêncio. A
realidade é, em princípio, transcendente e oculta.

O misticismo nasce do esforço que se faz para se alcançar uma realidade divina. Envolve um conjunto de
disposições afetivas, intelectuais, morais, onde a meta é a comunhão com o Todo-poderoso, o mistério, o
transcendente, o sagrado ou o numinoso. Implica em esforço para se obter uma visão compreensiva de
tudo em Deus (ou no divino), o qual deixa de ser um objeto e se torna uma experiência. A passagem
para um misticismo filosófico, no sentido de forte dedicação a Deus ou às coisas espirituais, é encontrada
em várias correntes de pensamento, tal como no platonismo e na filosofia hindu.

Esoterismo deriva do alemão esoterisch , bastante semelhante a esoteric , esotérico , ésoterique . Esta
semelhança se deve à antiga origem grega ( exotérikos e esotérikos) , sendo estes termos encontrados

34
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 04

em escritos de Aristóteles (século IV a. C.) e em outros, mais antigos. Entrou em moda entre os
intelectuais europeus, a partir do Renascimento. Esoterismo diferenciava, qualificando, o nível das
conversações entre os nobres, em relação ao termo a eles tão próximo de ocultismo.

Entretanto, não há muito consenso em torno de definições precisas, que diferenciem esoterismo de
ocultismo, até a atualidade. Encontra-se a definição de ocultismo como uma doutrina esotérica. Ou do
esoterismo como ocultismo ocidental, como uma ramificação do ocultismo universal. Mas também há
suspeitas sobre o ocultismo. Assim, René Guénon, tratou de dissociar o “verdadeiro” esoterismo, que
comportaria uma verdadeira dimensão espiritual, de práticas duvidosas das Ciências Ocultas. Estas
buscariam poderes e heranças da antiga magia.

Esoterismo designa ensinamentos reservados, no interior de um grupo, de uma escola, para discípulos
escolhidos. Ou seja, ele se remete, em geral, a ensinamentos sobre a verdade religiosa reservados a
poucos iniciados. Conhecimento direto da verdade, sendo acessível àqueles que são moral e
intelectualmente preparados, adquirível por meio de estudo de alegorias e de símbolos, de meditação, de
intuição, de cumprimento de instruções. Mais do que um conjunto estruturado de conhecimentos, o
esoterismo se articula com várias outras formas de conhecimento e de se relacionar com o mundo:
astrologia, alquimia, iniciação, hermetismo, iniciação. Mais do que uma palavra-chave, o termo lembra
uma palavra-guarda-chuva, onde cabem muitos conceitos, lugares. Normalmente referido à transmissão,
para poucos, de antigos saberes, tradições, se articula com as ciências, com a teologia, com a Filosofia,
com as artes.

De qualquer forma, a influência do pensamento medieval e de sua visão unificadora ou unitária sobre o
mundo exerceu grande influência sobre as correntes esotéricas posteriores, as quais vão continuar vivas
na modernidade.

O adjetivo esoterismo surgiu, por primeira vez em 1742, na obra de um autor maçom, diferenciando-se
de exoterismo que é o ensino de conhecimentos prováveis e verossímeis, de forma acessível, a um
público aberto.

Ainda que, inicialmente, o esoterismo fosse associado ao ensinamento reservado, apanágio de um


círculo, cujo acesso dependia da decisão do mestre, com o tempo, ligou-se à idéia do secreto, no sentido
do oculto. Trata-se de ensinamentos secretos de caráter imemorial, verdades fundamentais que se
transmitem em cadeias de mestres e de discípulos. Haveria aqui uma diferença razoável com o
misticismo.

Na experiência mística, o divino “desce” às pessoas, ao passo que no processo esotérico toda a iniciativa
advém dos esforços pessoais. O místico teria um caráter mais passivo, enquanto o esotérico, um caráter
mais ativo. Assim, tanto o misticismo quanto o esoterismo estiveram marcados pelo segredo e por um
certo elitismo. Poucos podem ter acesso.

35
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 04

Estas características não deixam, também, de serem características das Sociedades Secretas. É bastante
antiga a prática de grupos (privilegiados, iniciados) se reunirem, em torno de segredos, mistérios, ainda
que não sejam, necessariamente, clandestinos. Como exemplo, podem ser citadas as classes sacerdotais
no Egito, na China, na Babilônia, na Grécia, na Roma antiga, no México. A maçonaria é um exemplo

bastante atual de uma Sociedade Secreta.

Politeísmo e monoteísmo:
a religião, sua relação com as diversas estruturas sociais e suas
representações
Monoteísmo é um sistema de crença, de fé, de doutrina, que admite a existência de apenas um Deus. As
religiões que conhecemos, na atualidade, são, em sua esmagadora maioria, monoteístas. Entretanto, na
maior parte da história da humanidade, predominou o politeísmo. O politeísmo é um fenômeno religioso
que se encontra em quase todos os povos e civilizações do mundo. Trata-se da crença na existência de
várias deusas e-ou vários deuses, mesmo que um ou uma delas tivesse proeminência sobre os (as)
demais.

Se tomarmos como referência a integração arte-cultura-religião-sociedade, tem-se que os elementos que


conformam qualquer universo centrado em torno do iconográfico (representação por imagens, gravuras,
fotografias, visual) e dos mitos se referem a modelos de estrutura familiar, social e produtiva, próprios da
cultura que os elabora.

Percorrendo as produções artísticas da pré-histórica, a partir do que foi encontrado até o momento,
durante o período compreendido entre 100.000 e 35.000 a. C. encontra-se uma boa quantidade de
artefatos com desenhos simples e geométricos. Não havia ainda a expressão de um psiquismo coletivo
através de representações figurativas ao enterrarem seus mortos ritualisticamente e manifestarem
sentido estético e simbólico.

Na fase seguinte, 30.000-27.000 a. C., encontram-se alguns poucos tipos de animais nas paredes das
cavernas, mas o essencial desse novo caminho artístico foram as figurações de vulvas femininas
esculpidas sobre as pedras, um tipo de expressão que sobreviverá quase todo o Paleolítico superior
(35.000 a 9.000 a. C.).

A primeira alusão conhecida às funções divinas da Deusa, antes que ela tomasse formas humanas,
simbolizou suas potencialidades mediante a figuração de uma vulva feminina, atuando como parte
simbolizando o todo. Assim, a idéia do útero cósmico da Deusa, origem de toda vida, se expressou
através da imagem, realista ou esquemática, de uma vulva feminina com pretensão sobrenatural. Não se
pode esquecer que as partes femininas singulares – seios, nádegas, ventre e vulva, dentro de um
contexto, sem dúvida religioso, surgiu em um tempo que se desconheciam os fundamentos biológicos da
fecundação, e provavelmente, ainda não se relacionasse cópula com a gravidez, ou ao menos, não cabia
atribuir-lhe nenhuma causalidade.

36
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 04

Entre 27.000 e 20.000 a. C, as culturas européias ampliaram seu leque artístico e começaram a produzir
estatuetas femininas significativas. Elas, em sua maioria, à diferença dos animais, apresentam traços
morfológicos deformados, ou então exagerados, em particular, quadris, seios, nádegas e triângulo
pubiano. Seus braços tendem a descansar sobre o ventre grávido (tocando o púbis) ou sobre os seios, ou
não existem, sendo que muitas carecem de cabeça ou seu rosto não tem detalhes, coberto por uma
máscara de animal, ou toma dos animais seus traços fundamentais, em particular de aves.

Em todas as culturas pré-históricas euro-asiáticas de que se tem informação, destaca-se o fato, bastante
significativo, de que a figura central, a potência ou força criadora do Universo, foi personalizada na figura
da mulher e seu poder gerador e protetor simbolizado mediante atributos femininos. Esta Deusa presidiu
com exclusividade a expressão religiosa da humanidade desde muitos milênios antes que aparecesse em
cena o primeiro Deus homem e que se começasse a desenhar o monoteísmo judeu-cristão, que nos é tão
familiar, no Ocidente. A Grande Deusa era parte engendradora da vida não-genética, ou seja, a partir de
si mesma, que é a máxima expressão de poder dentro da função divina.

Podemos ler as estatuetas pré-históricas como “arte”, mas, seguramente sua importância crucial radica
em sua qualidade de testemunhas mudas, ao mesmo tempo símbolos centrais, do primeiro sistema de
crenças religiosas estruturado, que modelou o psiquismo humano (a matriz fundante tratada
anteriormente). Os conceitos, signos e símbolos que a humanidade paleolítica relacionou com a
fecundidade, a geração e o feminino, parecem ter posto a base que permitiu idealizar as primeiras
formulações sobre a existência de uma divindade doadora de vida e protetora. Durante mais de vinte
milênios não houve outro Deus que a Deusa paleolítica. E ela seguiu dominando, ainda durante vários
milênios, a expressão religiosa das diferentes culturas do continente euro-asiático e do Oriente Próximo.

Parece, portanto, indiscutível que a primeira deidade que governou o mundo foi uma figura feminina,
vinculada, de maneira direta e íntima com os elementos e acontecimentos básicos que sustentavam a
vida. O princípio gerador do universo foi concebido a partir de uma personificação da mulher. E feminina
foi também a força divina que controlava o ciclo da vida, morte e regeneração. De qualquer forma, as
definições de Politeísmo referem-se, em sua maioria, à adoração ou crença em vários Deuses. Na
Babilônia e na Índia, teria havido três; no Egito antigo, nove; no mundo greco-romano, doze. A
referência é colocada no masculino, ainda que sejam vários deuses, assim como o faz, por exemplo, o
Dicionário Enciclopédico das Religiões (SCHLESINGER, H. e PORTO, H., 1995).

Esse mesmo dicionário afirma que o politeísmo é um fenômeno religioso, que se encontra em quase
todos os povos e civilizações do mundo. Mas os dados históricos tendem a nos direcionar a hipótese de
que o feminino compôs a Deusa primeira. Depois, elas foram se tornando auxiliares de Deuses-
masculinos. Por milênios os homens se relacionaram com Deuses e Deusas. Afinal, a assimilação da
Deusa persistirá até a entrada da época histórica (Deusas egípcias, germânicas, irlandesas, bascas). Tal
como deixou registrado o historiador romano Tácito, no ano 98 d.C., os povos bálticos ainda adoravam a
uma “Mãe de Deus”, representada por um javali.

37
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Aula 04

As deusas femininas dominaram os panteões religiosos durante milênios, mas foram relegadas a um
segundo plano, sendo progressivamente substituídas por diversas elaborações de deuses masculinos que
se encaixam melhor com as necessidades de culturas centradas na figura do homem, do pai que, durante
seu processo de desenvolvimento, geraram novas estruturas familiares, sociais, produtivas e políticas,
distintas das anteriores, que demandaram também visões de mundo que se fundamentarem, se
justificarem e se prestigiarem.

Finalmente, a crença simultânea em Deuses, o politeísmo, foi substituída pelo monoteísmo, ou seja, por
um Deus único e masculino, que vai dominar não apenas a Religião judaico-cristã, mas outras religiões,
como a Islâmica. Assim, encontram-se referências a um Monoteísmo ético (afirmação de um só Deus
com base ética); Monoteísmo Místico (por razões místicas); Monárquico (com soberania absoluta);
Trinitário (em três pessoas distintas: afirmação de um Deus vivo).

Há, em princípio, segundo os registros arqueológicos e históricos disponíveis, uma certa evolução das
culturas humanas do politeísmo em direção ao monoteísmo. Entretanto, convivemos na atualidade com
crenças monoteístas e politeístas. A questão fundamental parece não ser a maior ou menor validade
(critério de verdade) de um ou outro: Deus, Deuses, Deusa ou Deusas. Enquanto um estudioso da
Ciência da Religião ou uma pessoa interessada em compreender esta dimensão tão fundamental da vida,
o elemento fundamental, que persiste, é a eterna busca do ser humano pela religiosidade, pelo
transcendente, pelo sagrado.

Admitir essa busca parece ser mais instigante do que qualquer outro critério de julgamento ou de busca
“da verdade”. As diferentes formas de busca “da verdade” são ideológicas, transitórias, relativas, sociais,
culturais, têm datas marcadas. A busca pelo sagrado, transcendente, misterioso, ou o nome que se dê a
ela se faz presente “recorta” toda a história da humanidade. E, ademais, ultimamente, se encontra em
fase de crescimento.

38
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Glossário

Glossário

Ascese - exercício prático que leva à realização da virtude e à plenitude moral. Em todas as grandes
religiões a procura de perfeição moral sugere, muitas vezes, a adoção de práticas ascéticas de desapego
das coisas do mundo e da vida profana, cotidiana.

Horda - é o nome dado aos clãs ou tribos nômades de povos primitivos da Austrália ou de outras regiões
indígenas.

Positivismo - designa a doutrina e a escola fundadas por A. Comte. Esta doutrina compreende tanto
uma teoria da ciência, como também uma reforma da sociedade. Como forma de conhecimento, não
admite outra realidade que não sejam os fatos e as relações entre eles. Há que se ater ao dado, por se
tratar de uma doutrina da “verificação” e não da especulação .

Totem - Em diversos povos e sociedades é a representação de um animal, de um vegetal ou de qualquer


entidade ou objeto com o qual o grupo sente algum tipo de parentesco ou semelhança e do qual deseja
copiar seus dons e qualidades. O Totem envolve o grupo em crenças e práticas específicas de culto.

Totemismo - é o termo com o qual se designa a associação simbólica que certos povos e culturas fazem
com determinados objetos ou seres não humanos e que se apresenta como um sistema de práticas e
crenças institucionalizadas. Sua característica mais marcante é a existência de algum tipo de vínculo
entre a espécie natural e um clã, ou seja, a afirmação de que os indivíduos desse clã pertencem àquela
espécie ou têm com ela um ancestral comum e estão, por isso, obrigados a demonstrar respeito e
cumprir certas obrigações para com o totem.

39
Ciência da Religião
UNIDADE 01 - Referências

Referências Bibliográficas

G. FILORAMO, G. e PRANDI, C. As ciências da Religião. São Paulo: Paulus, 1999.

JAMES, E. O. Historia de las Religiones. Madrid: E. Alianza, 1995.

KNOLL, V. História, Religião e arte, in Tempo Social. Revista de Sociologia da USP, S. Paulo, 8(2),
outubro de 1996.

OTTO, R. O sagrado. Lisboa: Ed. 70, 1992.

SCHLESINGER, H. e PORTO, H. Dicionário Enciclopédico das Religiões, Petrópolis: Vozes, 1995.

TEIXEIRA, Faustino (Org.). Sociologia da religião – enfoques teóricos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

TROELTSCH, E., Igreja e seitas, in Religião e Sociedade, 14/3. Rio de Janeiro: ISER, 1987.

ZAMBRANO, M. El hombre y el divino. México: Fondo de Cultura Económica, 1993, PGs. 27 e 31.

WEBER, Max. As seitas protestantes e o espírito do capitalismo, in Ensaios de Sociologia. Rio de


Janeiro: Guanabara, 1982.

41
Ciência da Religião

:: Unidade 02 ::
O Fenômeno Religioso e as
Ciências Sociais

43
Ciência da Religião
UNIDADE 02 – Proposições de Estudo

Proposições de Estudo

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos


regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as
religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos
completamos mutuamente. (...)

(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e
Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência
opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena
liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a
felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao
final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos,
como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta
Terra."

BOFF, Leonardo. Casamento entre o céu e a terra. Salamandra, Rio de Janeiro,


2001.pg09

Ementa do curso
O mundo globalizado e a nova consciência religiosa. Encontro e desencontro entre fé religiosa e razão
moderna. A reflexão das ciências humanas sobre o fenômeno religioso. Estudo comparado dos diferentes
itinerários religiosos.

Objetivo geral do curso


Analisar, a partir das ciências humanas, o fenômeno religioso e sua relação com o ser humano, com a
sociedade e com o Transcendente, buscando o diálogo inter-religioso, e intercultural a fim de
comprometer-se com os princípios éticos.

Objetivos específicos
Refletir sobre a relevância da ciência da religião na formação acadêmica e profissional.

Analisar as especificidades e a metodologia da ciência da religião.

Compreender a crítica feita ao fenômeno religioso pelas ciências sociais na modernidade e sua
relevância para os dias atuais.

45
Ciência da Religião
UNIDADE 02 – Proposições de Estudo

Analisar o fenômeno religioso contemporâneo, especialmente na região de Brasília, e sua


correspondência com as mudanças paradigmáticas vivenciadas na ciência.

46
Ciência da Religião
UNIDADE 02 – Desvelando

DESVELANDO...
Iniciaremos nossa segunda unidade com uma reflexão sobre um fato recente da história brasileira que
mescla aspectos religiosos e políticos.

Durante a unidade 02, com a ajuda de vários teóricos da modernidade, buscaremos compreender o
fenômeno religioso e suas interfaces com as outras dimensões da nossa vida.

Antes de começar suas aulas, leia atentamente o artigo escrito por Frei Betto. O texto mostra que p or
várias vezes encontramos pessoas que modificam suas vidas a partir de uma opção religiosa.

Perceba, também, que tanto o autor como o protagonista do artigo (Frei Tito) recorreram a
argumentos/motivações religiosos para referendar sua prática política. Como você percebe esse tipo de
relação?

Você acredita que a adesão a uma religião nos ajuda a compreender melhor a realidade (ou dimensões
da realidade) em que vivemos? Para você, a religião é uma fonte de alienação ou de esclarecimento? Leia
o texto e reflita sobre essas questões.

Frei Tito, 30 anos do martírio


Quando secar o rio de minha infância,
Secará toda dor.
Tito de Alencar Lima

A 10 de agosto completam-se trinta anos da trágica morte de Frei Tito de Alencar Lima, em L'Arbresle,
no Sul da França. Em sua dor gravou-se o que de mais hediondo produziu o militarismo brasileiro e, nele,
reflete-se a venerável indignação de quantos acreditam na política como expressão coletiva de princípios
éticos.

No sofrimento de Tito, tornado símbolo das vítimas de torturas elencadas no livro Brasil, Nunca Mais
(Vozes), inscreve-se a esperança de quantos acreditam na política como mediação de utopias libertárias.
Preso em novembro de 1969, em São Paulo, acusado de oferecer infra-estrutura a Carlos Marighella, Tito
é submetido à palmatória e choques elétricos, no DOPS, em companhia de seus confrades.

Em fevereiro do ano seguinte, quando já se encontra em mãos da Justiça Militar, é retirado do Presídio
Tiradentes e levado para a Operação Bandeirantes, mais tarde conhecida como DOI-CODI, na rua Tutóia.
Durante três dias, batem sua cabeça na parede, queimam sua pele com brasa de cigarros e dão-lhe
choques por todo o corpo, em especial na boca, "para receber a hóstia", gritam os algozes.

Fernando Gabeira, preso ao lado, tudo acompanha. Querem que Tito denuncie quem o ajudou a
conseguir o sítio de Ibiúna para o congresso da UNE, em 1968, e assine depoimento atestando que
dominicanos participaram de assaltos a bancos. No limite de sua resistência, Tito corta, com a gilete que

47
Ciência da Religião
UNIDADE 02 – Desvelando

lhe emprestam para fazer a barba, a artéria interna do cotovelo esquerdo. É socorrido a tempo no
hospital militar, no Cambuci.

As incessantes torturas não abrem a boca do frade dominicano de 28 anos, mas lhe cindem a alma.
Cumpre-se a profecia do capitão Albernaz, da Oban: “se não falar, será quebrado por dentro, pois
sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de seu
silêncio”.

Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni
Bucher, seqüestrado pela VPR de Lamarca, Tito é banido do Brasil pelo governo Médici.

De Santiago do Chile ruma para Paris, sem jamais recuperar sua harmonia interior. Nas ruas da capital
francesa, ele “vê” o espectro de seus torturadores. Transferido para L'Arbresle, próximo a Lyon, em seu
estreito quarto no convento construído por Le Corbusier, Tito estremece aos gritos do pai espancado no
DOPS, geme aos berros da mãe dependurada no pau-de-arara, arrepia-se de pavor aos espasmos de
seus irmãos eletrocutados, contorce-se em calafrios sob o fantasma do delegado Fleury. Sua mente
naufraga em delírios.

Tito não recupera, no exílio, a paz que lhe fora seqüestrada. No dia 10 de agosto de 1974, um estranho
silêncio paira sob o céu azul do verão francês, envolvendo folhas, ventos, flores e pássaros. Nada se
move. Entre o céu e a terra, sob a copa de um álamo, balança o corpo de Frei Tito, dependurado numa
corda.

O suicídio foi o seu gesto de protesto e de reencontro, do outro lado da vida, da unidade perdida. Deixara
registrado nas páginas de sua Bíblia que “é melhor morrer do que perder a vida”.

De retorno ao Brasil, em março de 1983, os restos mortais de Frei Tito tiveram solene acolhida na
catedral da Sé, em celebração presidida pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns. Repousam agora em
Fortaleza. Não se apagou, todavia, a luz de seu exemplo.

A criatividade artística captou o rastro de sangue que se faz caminho. O curta-metragem Frei Tito,
dirigido por Marlene França, recebeu aplausos em festivais do exterior, conquistou em Cuba o prêmio de
melhor curta-metragem, no Festival Latino-Americano de Cinema, e, no Brasil, o prêmio Margarida de
Prata, da CNBB.

Premiada pelo Serviço Nacional de Teatro, a peça de Licínio Rios Neto, Não Seria o Arco do Triunfo um
Monumento ao Pau de Arara?, em memória de Tito, foi proibida pela Censura Federal durante o regime
militar, impedindo Ricardo Guilherme de montá-la para percorrer o país.

Adélia Prado homenageou-o num comovente poema. Oriana Fallaci dedicou a ele o livro - Um Homem -
em que narra a paixão dela por Panagoulis, líder da resistência à ditadura grega. O senador italiano

48
Ciência da Religião
UNIDADE 02 – Desvelando

Raniero La Valle escreveu, sobre Tito, Fora do Campo, editado no Brasil pela Civilização Brasileira. Clara
de Góes encontrou em Tito a força de inspiração para um de seus livros de poesia.

Frei Tito é venerado por muitas pessoas de fé, que recorrem à sua intercessão em busca de graças.
Recordá-lo é resgatar o sacrifício de todos que, no Brasil, lutaram pela restauração da ordem
democrática. Ela ainda é frágil, porém promissora, considerando que a sociedade civil prossegue se
organizando e mobilizando na conquista de cidadania e na consolidação da democracia.

Celebrar neste ano a memória de Frei Tito é homenagear o sacrifício de todos que, no Brasil, viveram na
bem-aventurança da sede de justiça e da fome de liberdade. E não temeram dar a vida para que todos
tivessem vida, e vida em plenitude (João 10, 10).

Autor: Frei Betto – Artigo retirado da página do Correio da Cidadania (www.correiocidadania.com.br ),


edição nº 407, de 24 a 31 de julho de 2004.

49
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 01

Aula 01 - A Alienação e o Fenômeno Religioso na Modernidade


Bem vindo(a) à primeira aula da segunda unidade!

Nessa unidade faremos uma rápida volta ao passado, com ajuda de alguns pensadores da modernidade,
para entendermos melhor o fenômeno religioso em nosso presente.

Nessa primeira aula trataremos, a partir do posicionamento de Marx e Freud, sobre uma questão central
para o estudo do fenômeno religioso no ocidente: a relação entre alienação e religião.

O que você pensa sobre a questão? A alienação e a experiência religiosa já caminharam de mãos dadas?
As críticas reflexões construídas por Marx e Freud ainda são sustentáveis nos dias atuais?

Marx e a questão da alienação e o fenômeno religioso


A questão da alienação é uma temática muito presente em nossos dias. Cotidianamente escutamos
frases que incluem o aspecto da alienação, geralmente vinculadas a uma impressão equivocada de
alguma coisa, a um olhar nebuloso sobre algum acontecimento. Para refletir a questão da alienação
ligada ao fenômeno religioso e aprofundarmos a questão para além das impressões cotidianas, estaremos
dialogando com três pensadores: Marx, Engels e Freud.

O sentido usual mais forte do termo alienação vem da tradição marxista. Ou seja, “falsa consciência”
sobre o mundo, a vida, tendo como função principal, justificar as relações de dominação e exploração
entre as classes sociais. Assenta-se na idéia de falsas crenças. De maneira semelhante, também no que

toca às distintas interpretações sobre a religião na modernidade, a concepção mais conhecida é a de


Marx, de que esta seria o ópio do povo, ou seja, uma falsa e ilusória representação do mundo.

51
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 01

A angustia religiosa é, por um lado, a “expressão” da angustia real e, por outro,


o “protesto” contra a angustia real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, a
alma de um mundo sem coração, tal como é o espírito de condições sociais de
que o espírito está excluído. Ela é o “opium” do povo (MARX - 1976,
p. 40).

Para ele, era óbvio, como escreveu em 1842, que A religião não vive no céu, mas sim na terra .( MARX -
1976 p. 27).

São inúmeras as citações que são encontradas nos escritos de Marx e Engels criticando duramente a
religião: ...(o cristianismo) ensina, como compete à religião: sejam submissos à autoridade, porque “toda
a autoridade” emana de Deus (MARX - 1976. p. 41).

Considerando a crítica da religião como a condição preliminar de todo posicionamento crítico, Marx
insistia na possibilidade da humanidade libertar-se de todas as condições de submissão.
Conseqüentemente, o homem deveria procurar, necessariamente, a sua verdadeira realidade , em lugar
de buscar no céu um super-homem, apenas reflexo de si mesmo. O fundamento de sua crítica a respeito
da questão religiosa naquele contexto está baseado na seguinte questão:

“foi o homem quem fez a religião”, não foi a religião que fez o homem.
Realmente, a religião é a consciência de si e o sentimento de si que possui o
homem que ainda se não encontrou ou que se tornou a perder. Mas o “homem”
não é um ser abstrato escondido algures fora do mundo. O homem é o “mundo
do homem”, o Estado, a sociedade. Este Estado, esta sociedade, produzem a
religião, “consciência invertida do mundo”...

A abolição da religião enquanto felicidade “ilusória” do povo é uma exigência que


a felicidade “real” formula...A critica da religião destruiu as ilusões do homem
para que ele pense, aja, construa a sua realidade como homem sem ilusões
chegado à idade da razão, para que gravite em volta de si mesmo, isto é, do seu
sol real. A religião não passa do sol ilusório que gravita em volta do homem

52
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 01

enquanto o homem não gravita em volta de si próprio. ( MARX e ENGELS –


1976, p. 79).

Caberia então à filosofia, que estaria a serviço da história, segundo Marx, denunciar a auto-alienação
radical do homem, estabelecendo, portanto, a verdade “deste mundo”. E ser radical seria tomar as coisas
em sua raiz. E para o homem, sua raiz seria o próprio homem. Daí a necessidade de abolição da religião.
Como o homem seria o ser supremo para o homem , ele teria que transformar todas as relações sociais
para que não seja um ser humilhado, servil e abandonado.

Segundo Ivo Lesaupin, sociólogo e professor da UFRJ, no livro “Sociologia da religião” (TEXEIRA, 2003), a
questão religiosa ocupa dois momentos distintos dentro da produção intelectual de Marx. Num primeiro
momento percebendo a religião como uma projeção do homem, daquilo que lhe falta. Marx, ainda
segundo o mesmo autor, analisa que a religião não é uma projeção isolada do homem, mas cumpre um
papel dentro da estrutura de organização dos homens através do Estado e da sociedade. A religião seria
resultado da estrutura da sociedade e de alguma forma tende a reforçá-la. “É o mundo, o homem
alienado que gera a necessidade da religião. O homem busca a religião como um ópio de que precisa
para suportar a divisão, a miséria real...” ( TEXEIRA - 2003).

Numa segunda fase, ainda segundo Ivo Lesaupin, Marx faz a passagem da religião sendo tratada como
alienação para tratá-la como ideologia. Marx, com a ajuda de Engels, utiliza a imagem da câmara
invertida de uma “máquina fotográfica” para sinalizar que a ideologia inverte a imagem do real. Lesaupin
busca sintetizar esta questão da seguinte forma: “a religião é então o refluxo ilusório, fantástico, das
relações de dominação de classe, de exploração: as idéias religiosas exprimem, justificam e escondem a
realidade da dominação. A religião é ideologia, falsa consciência” (TEXEIRA, 2003).

A relação do marxismo e as religiões no ocidente, especialmente as cristãs, no decorrer dos anos foi
ganhando outros contornos. Em determinados momentos históricos marxistas ateus e cristãos se
encontram do mesmo lado na luta contra injustiças sociais, onde as igrejas cristãs cumpriram um papel
importante no processo de luta por libertação com os oprimidos. Perceberemos esta questão com mais
calma quando estudarmos a Teologia da Libertação.

Freud e a questão da alienação e o fenômeno religioso

Freud foi outro autor que desenvolveu uma perspectiva crítica com relação à
religião. Se Marx a batizou como ópio do povo, Freud a batizou como uma ilusão.
Afirmou sempre sua condição de ateu. Sendo judeu, e perseguido pelo nazismo,
escreveu, entre 1934 e 1938, Moisés e o monoteísmo , que segundo Filoramo e Prandi,
...é a extrema tentativa de Freud de acertar contas, em anos trágicos para o judaísmo,
com o problema da própria identidade judaica . ( FILORAMO e PRANDI - 1999, P.173).

53
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 01

Apesar de crítico com relação à religião, seus aportes, a partir da psicanálise, contribuíram muito para a
Ciência da Religião. Nesta área destacam-se suas obras Totem e Tabu ( FREUD - 1974) , escrita entre
1912 e 1913, e O futuro de uma ilusão (FREUD - 1974) , escrita em 1927.

Um dos elementos fundamentais de sua análise se centra em torno das correspondências entre religião e
neurose e, sobretudo, entre as semelhanças do pensamento neurótico com as representações dos povos
primitivos. Assim, afirma:

Porque para os pacientes neuróticos - sua ...conduta, bem como as superstições


que pratica na vida comum, revela a semelhança dele com os selvagens que
acreditam poderem alterar o mundo externo pelo simples pensamento. Os atos
obsessivos primários desses neuróticos são de um caráter inteiramente mágico.
Se não são encantamentos, são, no mínimo, contra-encantamentos, destinados
a manter afastadas as expectativas de desgraça com que a neurose geralmente
começa . ...Também as fórmulas protetoras das neuroses obsessivas encontram
sua contrapartida nas fórmulas da magia. (FREUD - 1974, p. 110).

Elaborando uma análise histórica, evolutiva, sobre a maneira de a humanidade visualizar o universo,
Freud sugere que nos primórdios do totemismo, na horda primitiva de Darwin, há um pai violento e
ciumento que guardas as fêmeas para si próprio e expulsa os filhos quando crescidos. Os irmãos expulsos
retornam certo dia e juntos matam e devoram o pai - a celebração totêmica - dando fim à ordem e à
horda patriarcal. Que eles o tenham devorado, seria óbvio, porque eram selvagens canibais. Ao devorá-
lo, identificam-se com ele, cada um adquirindo parte de sua força. Alude que u m animal poderoso, a
princípio, talvez, sempre algum que fosse temido, teria sido escolhido como substituto do pai.

O totem é identificado como seu ancestral comum e pai primeiro. Este aspecto, segundo Freud, não era
enfatizado pelos antropólogos. As duas primeiras ordenanças do totemismo ou as duas proibições de tabu
– não matar o totem e não ter relações sexuais com a mãe -, seriam iguais aos desejos primários das
crianças. E analisando as festividades, com o sacrifício de animais totêmicos, sugere que o alimento
totêmico talvez tenha sido a primeira festa da humanidade, repetindo e comemorando a ação criminosa
que teria marcado o início das organizações sociais, das restrições morais e da religião.

Centraliza, portanto, em suas análises, a complexidade da relação da humanidade com o pai, o complexo
de Édipo. Depois de morto, o pai ficou mais poderoso do que quando vivo. A história da humanidade
estará marcada pela culpa dos filhos. Portanto, Deus não seria mais do que um pai glorificado. Pois o
Deus dos seres humanos, “... é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende
da relação com o pai em carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo,
Deus nada mais é que um pai glorificado”. (FREUD - 1974, p. 175).

Daí que o ato de sacrifício sempre teria sido o mesmo: trata-se do que é adorado como um Deus, o que
seria, na realidade, o pai. E Freud parte da hipótese de que os dois elementos propulsores das religiões

54
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 01

posteriores, o sentimento de culpa do filho e sua rebeldia, nunca se tenham extinguido. Depois do
totetismo, teria se dado uma humanização do ser que era adorado.

Conclui, então que a religião seria a neurose obsessiva universal dos homens. Fazendo a analogia entre
neurose obsessiva e religião, pensa que os devotos estariam salvaguardados do risco de certas
enfermidades neuróticas, pois a aceitação da neurose universal lhes pouparia o trabalho de elaborar uma
neurose pessoal. E, em sua obra Atos obsessivos e práticas religiosas, escrita em 1907, acrescenta: “
Diante desses paralelos e analogias podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva como o
correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade
individual e a religião como uma neurose obsessiva universal” (FREUD - 1974, p. 116).

O autor reconhece que a religião contribuiu para civilização humana, mas sua crítica à religião é
reafirmada quando caracteriza como uma ilusão as idéias religiosas proclamadas como ensinamentos.

Dentre as várias contribuições de Freud à Ciência da Religião, destaca-se a inclusão da dimensão


psicológica ou psicanalítica a estes estudos. Ele não partiu da desqualificação da religião como o fizeram
os iluministas. Ao contrário, admite a importância da mesma na história da humanidade. E trata de
compreendê-la, ancorado na necessidade histórica da mesma. Porque reconhece que,

... em tempos passados, as idéias religiosas, a despeito de sua incontrovertível


falta de autenticidade, exerceram a mais forte influência possível sobre a
humanidade. Trata-se de um novo problema psicológico. Devemos perguntar
onde reside a força interior dessas doutrinas e a que devem sua eficácia,
independente, como é, do reconhecimento pela razão. (FREUD - 1974, P. 111).

Site Católico: Nesta página você vai ler um artigo no qual a igreja faz um
contraponto dos elementos teológicos sobre as idéias iluministas.

Na atualidade, ainda há muitos cientistas sociais que estudam a religião a partir desta linha “alienante”
de compreensão. Entretanto, no século XX surgiram, com força, leituras e práticas conscientizadoras da
religião. Ou seja, compreensões contrárias à alienante. Ademais, o crescimento da busca por novos
movimentos religiosos e novas formas de religiosidade fez com que a perspectiva alienante deixasse de
ser dominante nas Ciências Sociais. A aproximação entre fé e ciência, por exemplo, é um dos indicadores
de novas leituras sobre a questão.

55
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 02

Aula 02 - Religião e Coesão Social

Bem vindo(a) à segunda aula da segunda unidade!

Continuaremos nesta aula nosso diálogo com alguns pensadores da modernidade que refletiram o
fenômeno religioso sob vários aspectos. Agora faremos um mergulho sobre parte do pensamento de
Durkheim, especialmente nos aproximaremos de sua reflexão sobre a religião como fenômeno de coesão
social.

Como seria o mundo sem religião? Pense um pouco e verifique o que o pensamento de Durkheim tem a
nos dizer.

Durkheim e a sociologia
O termo “sociologia” foi utilizado, por primeira vez por Augusto Comte (1789-1857), considerado o
fundador oficial desta ciência. A Sociologia constituiria uma nova ciência, a “física social”. Esta teria a
função de analisar as estruturas e os mecanismos da sociedade com os mesmos critérios e
procedimentos das ciências da natureza. Postura que caracteriza o positivismo. Para Comte, a fórmula
sagrada do positivismo seria o amor como princípio, a ordem como fundamento e o progresso como fim.
Diretrizes que se encontram na bandeira brasileira.

Segundo Comte, a religião seria uma unidade completa constituída por motores internos coordenados
entre si, e submetida, em seu conjunto, à fatalidade exterior. Seu papel principal seria de integradora do
sistema social, funcionando no sentido de consolidação e estabilização da relação homem-sociedade.
Afinal, ela coordenaria cada uma das partes deste sistema e, simultaneamente, consolidaria as relações
interpessoais.

Por um lado, Comte admite que a dimensão religiosa possibilitou a primeira representação que os
homens fizeram sobre os significados do cosmo, tendo sido a saída segura para a humanidade em seus

57
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 02

primórdios. Por outro lado, este estágio seria passageiro. As religiões tradicionais estariam se esgotando.
Elas não teriam nenhum lugar importante nas sociedades modernas, fundadas no progresso técnico-
científico.

Já Durkheim (1853-1917) é considerado o pai da Sociologia,


porque, desenvolvendo algumas idéias de Comte, a organizou como
disciplina. Ele fez uma Sociologia que pode ser lida como uma ciência
da ordem social, centralizando a questão: o que mantém a sociedade
unida? Em linhas gerais, ele acreditava que a sociedade é
determinante sobre o indivíduo. O fato chave para Durkheim seria as
relações estruturais existentes entre as pessoas e não os indivíduos
mesmos. Portanto, ele deu particular importância aos fatos sociais e
suas funções como condições necessárias da vida social.

Desse modo, as instituições religiosas funcionariam dentro da


estrutura da sociedade. As crenças e práticas serviriam como meios culturalmente determinados de
manter e regular relações e ajustes humanos, propiciando estabilidade às sociedades.

A coesão social e o fenômeno religioso


Durkheim publicou, em 1912, o livro “As formas elementares da vida religiosa”, que se tornou um
clássico da Sociologia. Neste, busca identificar a reciprocidade entre religião e sociedade. Fazer sociologia
da religião implica examiná-la como uma coisa, ou um fato social. Reafirmando sua percepção da
determinação do social sobre os indivíduos, ele pensa a religião como um fato social que tem o poder de
exercer coação externa sobre os mesmos.

A religião tomaria conta das pessoas, sendo estas submissas (a oração e o rito , por exemplo, seriam
expressões desta submissão). A ênfase de sua análise recai sobre o coletivo, a sociedade, a força
religiosa. Ainda que admita um componente psicológico na experiência religiosa, a religião seria algo
eminentemente social e corresponderia a determinadas condições históricas das sociedades. Como a
sociedade seria a fonte única do sagrado, a religiosidade individual seria marcada por movimentos
originados nas relações estabelecidas entre as pessoas e com o ambiente envolvente. Daí que o autor
enfatize o aspecto consensual da religião, e a igreja como o espaço onde as crenças, as práticas
religiosas se articulam, formando uma comunidade moral.

O autor reconhece que a existência e a importância da religião é um universo simbólico rico e que esteve
sempre presente na história da humanidade. Também admite que as grandes instituições se originaram
da religião, que esta teria gerado, historicamente, tudo o que há de essencial na sociedade. Mas afirma
que se isto é verdade, é porque a idéia de sociedade é a alma da religião. Portanto, a concepção de
religião como submissão à sociedade é central em suas análises.

58
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 02

A religião deixa de ser inexplicável alucinação qualquer, para fundar-se na


realidade...o fiel não se engana quando acredita na existência de força moral da
qual depende e da qual lhe vem o melhor de si mesmo; essa força existe: é a
sociedade...ela é, antes de mais nada, um sistema de noções através das quais
os indivíduos compreendem a sociedade de que são membros, e as relações,
obscuras mais íntimas que mantêm com ela ( DURKHEIM - 1989, p. 281).

Neste sentido, se pode dizer que Durkheim, de alguma maneira, pensa que a sociedade se autodiviniza:

...as práticas do culto...já pelo simples fato de terem por função evidente
estreitar os laços que unem o fiel ao seu Deus, elas estreitam realmente os laços
que unem o individuo à sociedade de que é membro, já que o deus é apenas a
expressão figurada da sociedade. ( DURKHEIM - 1989, 2ª ed. p. 282).

Em sua análise sobre religião, Durkheim toma como elemento fundamental de análise, a distinção entre
profano e sagrado. Partindo de que haveria entre eles uma espécie de vazio lógico, afirma a existência de
uma “ ... dualidade essencial dos dois reinos... o sagrado e o profano foram sempre e por toda parte
concebidos pelo espírito humano como gêneros separados, como dois mundos entre os quais não há
nada em comum” (DURKHEIM - 1989, p. 70). E esta referência teórica constitutiva vai ser incorporada
pela maioria dos estudos e pesquisas que se seguiram, até o momento.

Segundo o autor, todas as crenças religiosas têm algo em comum: organizar as coisas, os fenômenos em
dois tipos opostos, ou seja, como sagradas ou profanas: A divisão do mundo em dois domínios,
compreendendo, um tudo o que é sagrado, outro tudo que é profano, tal é o traço distintivo do
pensamento religioso... (DURKHEIM - 1989, p. 68).

As coisas sagradas são especiais, protegidas, separadas, e devem ficar longe das profanas. As crenças
religiosas seriam representações que dizem respeito às coisas sagradas, assim como às relações que as
conectam entre si e com as coisas profanas. Esta divisão, por sua vez, é constituinte de sua definição de
religião: ...um sistema solidário de crenças seguintes e de práticas relativas a coisas sagradas, ou seja,
separadas, proibidas; crenças e práticas que unem na mesma comunidade moral, chamada igreja, todos
os que a ela aderem ( DURKHEIM - 1989, p.79).

Mas o sagrado não seria algo intrínseco às coisas sagradas. A qualquer coisa pode ser acrescentado este
valor, este lugar, esta reverência. Porque, a força religiosa seria apenas o sentimento que a coletividade
inspira a seus membros, projetando-o para fora das consciências individuais, objetivando-o. Para ser
objetivado, elegem-se objetos que então se tornam sagrados.

Podemos resumir, na concepção durkheimiana, alguns componentes fundamentais para se pensar a


religião. Primeiro, o conjunto de crenças e práticas capazes de aglutinar um número de pessoas, que cria,
a partir de então, uma solidariedade em virtude de práticas e crenças comuns. Segundo, a separação

59
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 02

entre sagrado e profano. O crente deve ter noção relativamente clara, e mais ou menos precisa, das
coisas que lhes são permitidas, bem como daquelas que lhes são proibidas.

Ignorar o que é sagrado e profano constitui-se numa forte ofensa ao divino ou à divindade cultuada. Por
fim, o aspecto relacional é um elemento muito forte, ou seja, a fidelidade do crente à sua igreja constitui-
se um elemento identitário e orientador de conduta. Produz-se uma ética, verificada no comportamento
do indivíduo, capaz de vinculá-lo ao grupo religioso.

Uma das principais críticas que se faz a este autor é por sua exagerada ênfase no coletivo, no social, em
sua dimensão de coação, não criando espaço analítico para a dimensão do indivíduo ou da religiosidade
individual, reduzindo, em boa medida, a análise da religião em sua função integradora da sociedade.
Também a dualidade essencial entre profano e sagrado seria exagerada.

Mas, em concordância com Comte, seu inspirador intelectual, as crenças religiosas deixariam de ter
importância nas sociedades modernas, devido ao progresso do pensamento científico.

1. Qual o papel da coesão social atribuído à religião segundo Durkheim?

2. Quais foram as influências do pensamento de Augusto Comte na política e


na cultura brasileira?

3. Pesquise sobre o “Totemismo” e faça um resumo do que você


compreendeu sobre o assunto.

4. Envie para o seu professor e para os seus colegas.

60
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 03

Aula 03 - Religião e Capitalismo


a partir de Max Weber
Bem vindo(a) à terceira aula da segunda unidade!

Estamos na metade da nossa segunda unidade e até o momento verificamos a relação de dois
importantes conceitos com o fenômeno religioso: a alienação e a coesão social.

Nesta terceira aula, com a ajuda de Max Weber, faremos uma reflexão sobre o fenômeno religioso e o
“espírito capitalista”. Que relações podem haver entre essas duas questões? As religiões favorecem o
“espírito capitalista”? Max Weber (1864-1920), a partir de sua análise, enfatizará a sociedade moderna,
destacando a fragmentação das visões de mundo, onde o secular havia tomado o lugar dos deuses e dos
profetas.

Continue seu estudo e lembre-se que é muito importante que você sistematize seu aprendizado a
respeito de cada assunto abordado. Reflita: o que você tem a dizer sobre cada temática, sobre cada
autor estudado até o momento?

Max Weber e o processo de racionalização na vida moderna

Weber percebe a presença de ordens plurais de valores e de éticas competindo entre si, gerando uma
situação onde se tornava cada vez mais difícil para o homem encontrar um significado para a vida.
Cabendo a cada um, crescentemente, a escolha e a combinação destas. Weber deu um grande peso à
ação e ao indivíduo, à diferença de Marx (ênfase nas categorias estruturais) e Durkheim (independência
dos fatos sociais em relação ao indivíduo). Assim, indica o direcionamento da religião para a vida privada,
aspecto que é central na reflexão posterior, na segunda metade do século XX.

A ação religiosa magicamente orientada, para Weber, seria um produto histórico, como um mecanismo
para se viver melhor neste mundo. Porque também afirma que a vida não tem sentido.

61
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 03

Identifica, portanto, uma tensão constante entre o pensamento religioso e a racionalidade instrumental
da ciência, entre o domínio da crença na ciência e o domínio da salvação religiosa. Em seu livro A ciência
como vocação , referindo-se à crescente intelectualização e racionalização, Weber afirma:

...significa que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos,


bastando que o quiséssemos, provar que não existe, em princípio, nenhum
poder misterioso e imprevisível no decurso de nossa vida, ou, em outras
palavras, que podemos dominar tudo por meio de cálculo. Isto significa que o
mundo foi desencantado. Já não precisamos recorrer aos meios mágicos para
dominar os espíritos ou exorcizá-los, como fazia o selvagem que acreditava na
existência de poderes misteriosos. Podemos recorrer à técnica e ao cálculo. Isto,
acima de tudo, é o que significa a intelectualização. ( WEBER - 1992, p. 439)

Este desencantamento, na modernidade, implica que o homem não pode se sentir pleno, porque, nesta,
ele só pode captar o provisório e nunca o definitivo. E porque a morte não tem sentido, também a vida
do civilizado não a tem: o despojamento de significado faz da vida, também, um acontecimento sem
significado.

A centralidade de sua reflexão em torno do processo de racionalização, intelectualização da vida moderna


o leva a questionar-se: “ A ciência não tem sentido porque não responde à nossa pergunta, à única
pergunta importante para nós: o que devemos fazer e como devemos viver” ( WEBER - 1992, P. 443). E
a racionalização da vida, no crescente processo de burocratização, estaria criando uma gaiola de aço ,
restringindo, progressivamente, a liberdade dos indivíduos.

Weber sugere que o destino de nosso tempo, caracterizado pela racionalização, pela intelectualização e,
sobretudo pelo desencantamento do mundo, levou os homens a banirem de suas vidas públicas os
valores supremos e mais sublimes. Portanto, conclui... tais valores encontram refúgio na transcendência
da vida mística ou na fraternidade das relações diretas ou recíprocas entre indivíduos isolados. (WEBER -
1992, p. 451).

62
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 03

O “espírito capitalista”
e o fenômeno religioso
Uma das obras que tem maior destaque em seus estudos sociológicos sobre o fenômeno religioso na
sociedade capitalista, é A ética protestante e o espírito do capitalismo , publicado em 1905. Nesse livro, o
autor analisa o papel desenvolvido pelo protestantismo, no desenvolvimento do capitalismo, baseando-se
em conceitos como predestinação, vocação, ascese e ética.

Seu objetivo foi compreender as implicações das orientações religiosas, sobretudo a protestante-
calvinista na conduta econômica das pessoas. O capitalismo foi fruto, também, ainda que não apenas, de
uma nova mentalidade diante da dimensão econômica. Nenhuma ética econômica é determinada só pela
religião. Outros fatores intervêm.

Web Page com artigo sobre sobre a ética protestante e trabalho. Aqui você
vai encontrar uma análise crítica sobre a relação entre o protestantismos e a
exaltação do trabalho.

A formação puritana (valores rígidos de vida) de muitos dos pioneiros do capitalismo e o fato de eles
considerarem o êxito econômico como indicador da benção de Deus, teria contribuído para o seu
desenvolvimento, sobretudo em termos de acumulação. Afinal, a avaliação religiosa do trabalho,
incansável, contínuo, sistemático (reconhecido e valorizado como o mais importante caminho ascético),
seria a maior alavanca para o que foi definido como espírito do capitalismo.

63
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 04

Aula 04 - Religião e consciência


Bem vindo(a) à quarta aula da segunda unidade!

Chegamos a nossa última aula da unidade 02. Nosso objetivo nesta unidade foi o de estudarmos os
vários aspectos do fenômeno religioso, segundo a análise de alguns dos mais importantes pensadores do
mundo moderno ocidental. Em nossa quarta aula estudaremos a questão da religião e a consciência a
partir de um fenômeno vivido e construído a partir de países como o Brasil.

Você encontrará nesta aula elementos sobre a teologia da libertação e da possível relação entre o
fenômeno religioso e o processo de tomada de consciência da realidade que nos cerca. Você já ouviu
falar em Teologia da Libertação? O que pensa sobre o assunto? As religiões podem contribuir na melhoria
concreta das condições de vida das pessoas, especialmente das mais empobrecidas? O que você pensa
sobre a relação entre religião e política?

Aproveite este fechamento de mais uma unidade do nosso curso para aprofundar suas reflexões sobre
tudo o que foi estudado.

Vamos em frente!

A questão da consciência e o fenômeno religioso


Como foi visto, a importância histórica da religião foi reconhecida pelos vários teóricos. Não obstante, ela
foi criticada por todos esses expoentes das Ciências Sociais, que ressaltaram seus vários aspectos
(alienante, uma construção puramente social, neurose, ópio, ilusória). Uma leitura crítica destes autores
e uma postura, em certa medida, positivada da religião, podem ser encontradas em alguns outros
autores e movimentos sociais mais recentes.

A Teologia da Libertação é um dos exemplos mais evidentes da religião tomada sob o ponto de vista
da consciência da realidade que nos cerca. Ela nasce e se desenvolve a partir de uma problematização da
realidade social latino-americana e objetiva à construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

65
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 04

Trata-se de uma nova visão do papel da igreja, da prática cristã e da reflexão teológica, enquanto
potencialmente libertária para nossos países.

Ancorada em uma leitura científica do mundo e na luz da fé cristã, esta teologia buscou uma
interpretação que denunciasse as estruturas de dependência e de dominação, tendo como referência a
libertação de Jesus Cristo. Ela construiu uma leitura prática da ideologia cristã, buscando harmonizar a
teoria e a prática. E escapar das manipulações ideológicas feitas pelas elites da fé cristã. Como
movimento, partiu da América Latina e se difundiu por amplos setores da igreja católica no terceiro
mundo.

Teologia da libertação
Segundo Ilse Scherer-Warren, os princípios básicos da Teologia da Libertação seriam os seguintes:

Valorizando-se o compromisso com a realidade histórica presente, a igreja pode exercer sua
missão. Como no nosso caso, a maioria da população se encontrava e se encontra em situação de
opressão e de miséria, a meta fundamental desta teologia seria a busca de mecanismos que
possibilitassem a libertação das diversas formas de opressão. Portanto, a Teologia da Libertação,
partindo de sua opção pelos pobres, poderia desencadear um processo de libertação dos povos
latino-americanos;

O homem deve ser o sujeito de seu destino pessoal e da história. O cristão, assim, engajado nos
movimentos sociais, pode reconstruir sua dignidade humana. A libertação histórica, através
destes movimentos, seria condição necessária para que os oprimidos latino-americanos
caminhem em direção a uma libertação integral (cristã).

Com a Teologia da Libertação, a velha aliança entre a igreja católica e elites


latino-americanas, foi desafiada. Pelo menos, por parte de um grande número
de padres, freiras e leigos, a partir de sua orientação teológica e de suas
práticas pastorais direcionadas aos pobres, às mulheres, às crianças, aos
índios. Ou seja, os oprimidos em termos econômicos, étnicos, sexuais,
geracionais, de gênero (a opressão feminina).

Estas práticas deveriam facilitar a esses segmentos da população seus processos de organização, a partir
de conscientização e de luta (movimentos sociais).

Em termos espirituais, estas orientações possibilitariam a libertação das pessoas nas dimensões da
alienação, da falsa consciência, na busca de auto-determinação e da dignidade humana. A fé em Deus
funcionaria como apoio para transformar oprimidos em agentes da própria história. Seus fundamentos se
alinham, de alguma forma, tanto com o movimento feminista, quanto com o ecopacifismo. Assim, o frade
dominicano, Frei Betto, escreveu Física, cosmologia, teologia e espiritualidade (2001) , onde tenta

66
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 04

rearticular a fé e a espiritualidade cristãs a algumas cosmovisões atuais, provenientes de teorias físicas


sobre o universo.

Nesta mesma direção de recuperação da religião, pode ser lembrado Rubem Alves. Ao se perguntar o que
é religião, centraliza a lealdade das pessoas envolvidas:

A condenação do sagrado era exigida pelos interesses da burguesia e o avanço


da secularização. Este conflito ressurge e se mantém vivo nas fronteiras da
expansão do capitalismo e onde quer que a dinâmica da produção dos lucros
colida com os mundos sacrais. Basta abrir os nossos jornais e tomar ciência das
tensões entre Igreja e Estado, Igreja e interesses econômicos. As idéias se
repetem. Que a religião cuide das realidades espirituais, que das coisas
materiais a espada e o dinheiro se encarregam!

Além do que, este autor resgata o papel fundamental da religião: atribuição de sentido à vida. E isto é
algo que se experimenta emocionalmente, não demanda explicações, justificativas, comprovações,
experiências em laboratório. Segundo ele, o sentido da vida é um sentimento. E para a religião o
universo faz sentido. A ciência, incomodada, retruca: as pessoas que são religiosas pensam que o
universo faz sentido. Voltamos à ilusão, à falsa consciência.

Para Rubem Alves, no entanto, a firmar que a vida tem sentido é propor a fantástica hipótese de que o
universo vibra com os nossos sentimentos...Tudo está ligado . E termina seu livro com as seguintes
palavras:

“Mas, e Deus existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte é
minha irmã?” Ao que a alma religiosa só poderia responder: “Não sei. Mas eu
desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteira. Porque é mais belo o
risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem
sentido. ( ALVES - 1984, p. 128).

Há momentos históricos em que a religião é tomada, por alguns autores,


como falsa consciência, ou negação da realidade. A Teologia da Libertação
busca, dentro do contexto em que foi constituída, ser uma prática de
tomada de consciência. Aqui cabe fazer uma ressalva sobre a delicada
questão da consciência.

Consciência é um termo que se usa cotidianamente. Parece ser consensual,


mas, definitivamente, não se identifica uma harmonia no que toca à
compreensão do mesmo. Na perspectiva dos clássicos das Ciências Sociais trabalhados, o conceito de
consciência instiga perguntas centradas em torno de quais são os mecanismos sociais, culturais,

67
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Aula 04

psicanalíticos, políticos, que justificam as dificuldades, a exploração, a dominação, a submissão que é


exercida por parte de alguns homens sobre muitos outros homens e mulheres (elites, classes sociais,
relações de gênero, étnicas e raciais).

E a consciência pode ser adquirida, desenvolvida, a depender de situações históricas, culturais, ora mais
propícias, ora menos. Para os clássicos trabalhados, a consciência seria, sobretudo, aquisição,
esclarecimento, discernimento, quer seja das origens dos mitos de origem da humanidade, quer seja dos
mecanismos sociais, ideológicos, religiosos, de dominação e de exploração de alguns sobre outros.
Adquirir consciência seria, então, segundo Marx, Engels, Freud, dentre outros, romper com as
explicações religiosas do mundo e “racionalizar”, “tomar ciência”, das várias “ilusões”, das “falsas crenças
e valores” que nos envolvem, que nos formam, para nos aproximarmos da “verdadeira consciência” de
nosso “mundo real”.

Site Idéias Religiosas. Neste site existem diversos artigos que ajudarão
você a apurar seus conhecimentos.

Por outro lado, consciência pode significar, também, o sentimento interior que impele cada um de nós a
ter um julgamento de valor sobre nossos atos. Seria algo equivalente a uma “voz interior”, ou mesmo a
um “instinto divino”, que poderia ser inato, nos incitando a que nos perguntemos qual é a compreensão
individual, qual é o conceito, que cada um de nós tem sobre as relações sociais, sobre o mundo, sobre a
vida, sobre a morte. Desde esta perspectiva mais religiosa ou de conexão com o mundo transcendental,
consciência se remete, sobretudo, à escuta da “voz interior”. O encontro do indivíduo com o seu “Ser”
seria o ponto fundamental de busca.

Está posto o dilema, por um lado, entre a “tomada de consciência” sobre as inúmeras formas de
exploração, dominação, de uns sobre outros, que são sociais, culturais, históricas, e, conseqüentemente,
nosso papel, como atores sociais e políticos que somos, na sociedade, nas instituições, em nosso
cotidiano e, por outro lado, nossa “escuta da voz interior”, que seria mais religiosa, transcendental, mais
individual. Como agregar estas duas dimensões?

O crescimento da busca por religiosidade no final do século passado está indicando um caminho de
integração entre ambas. Mas esta ainda não é muito legível, cabendo a cada um de nós, que vivemos a
crise da rigidez da leitura dos clássicos trabalhados, buscar, individualmente, a conexão entre a tomada
de consciência da dimensão exploradora, dominadora, preconceituosa, da sociedade em que vivemos e,
simultaneamente, “escutar a voz interior”, a “voz divina” que carregamos.

68
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Glossário

Glossário

Ascetismo - Vem de ascese, que é o exercício prático que leva à realização da virtude e à plenitude
moral. Em todas as grandes religiões a procura de perfeição moral sugere, muitas vezes, a adoção de
práticas ascéticas de desapego das coisas do mundo e da vida profana, cotidiana. Weber enfatiza a idéia
de renúncia do mundo.

Iluminismo - Movimento de idéias difundido no século XVIII, e que, por isto, ficou conhecido como O
século das Luzes, ainda que tenha se originado no século anterior. O ponto principal deste movimento foi
desenvolver uma luta da razão contra a autoridade, ou das “luzes” contra as “trevas”: luta contra a
tradição cultural e institucional, sobretudo, à Igreja Católica. Tratava de se utilizar a razão para dirigir o
progresso da vida para todos e em todos os seus aspectos.

Hermetismo - doutrina que reunia, no mundo greco-romano, as mais diversas correntes filosóficas e
religiosas. É atribuída à inspiração do Deus Thot, ou Hermes Trimegisto, e associa elementos doutrinários
orientais e neoplatônicos. O termo nasce da análise das doutrinas presentes nas revelações de Hermes
Trismegisto. Ele teria iniciado os humanos nas práticas das Ciências Ocultas, através da correspondência
e conexão existente entre os números e a física, a medicina, a alquimia. A literatura hermética é vasta,
podendo-se localizar, por exemplo, os sete tratados do Corpus Hermeticum, redigidos em grego, nos
século II e III e traduzido em Florença, em 1460. Posteriormente, seu sentido se ampliou, tendendo a se
confundir com o esoterismo. Trata-se da revelação da unidade do cosmo e da harmonia existente entre
suas dimensões, através das quais emanam energias divinas até o microcosmo, onde habita o ser
humano inconsciente. Acabou se transformando em um ensinamento secreto onde se misturam filosofia e
alquimia. A este respeito, consultar LAURANT, 1995, op. cit.

Islamismo - religião fundada por Maomé, nascido em Meca (Arábia Saudita), no século VI d. C. O
“Corão” é o livro que conteria as revelações feitas pelo Arcanjo Gabriel a este profeta. Ensina preceitos
religiosos, morais e dogmas. Assenta-se em um monoteísmo rígido: “Alá” (Deus) é único. Islã significa
submissão à vontade de Deus que criou todas as coisas.

Mitos - Palavra originária do grego mythos . Forma simbólica de expressão, presente em todas as
civilizações, em geral explicando a “criação” de algo. Tem um caráter cósmico para explicar o mundo,
sobretudo sua origem, a origem da humanidade e os fatos importantes de sua história. Ele sempre é
colocado fora do tempo (meta-histórico). Pode explicar a origem do todo (o Cosmo), ou partes dele:
como se originou uma ilha, um comportamento humano. O pensamento religioso está estritamente
marcado pelos mitos, ou pelo mítico. Porque se comunicam, sempre, com a dimensão sagrada ou
sobrenatural; é a irrupção do sagrado que funda o mundo. Daí a presença de seres poderosos, Deuses,
na origem dos mitos. Muitos autores o consideraram como a fase infantil do pensamento humano,
sobretudo no início do século XX. Mas na atualidade, sua importância vem sendo redimensionada e
valorizada. Afinal, o mito tende a explicar e a conhecer aquilo que é incognoscível à condição humana.

69
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Glossário

Narcisimo - preocupação excessiva consigo mesmo, com sua aparência física e seus próprios interesses.

Rito - Todas as religiões, religiosidades, implicam em ritos, ou seja, uma série de práticas,
comportamentos, posturas (orações, sacrifícios, purificações, oferendas, cultos, danças). No geral, em
sentido amplo, é identificado com culto, e abrange o conjunto de práticas, de regras, de cerimônias,
existentes presentes nas religiões e em outras formas de religiosidade.

Ocultismo - Não há muito consenso em torno a uma definição precisa, que diferencie esoterismo de
ocultismo, até a atualidade. Segundo LAURANT, Jean Pierre. O esoterismo . São Paulo: Paulus, 1995, P.
12) encontra-se a definição de ocultismo como uma doutrina esotérica. Ou do esoterismo lido como
ocultismo ocidental, como uma ramificação do ocultismo universal. Mas há suspeitas sobre o ocultismo.
Assim, René Guénon (1886-1951), tratou de dissociar o verdadeiro esoterismo, que comportaria uma
verdadeira dimensão espiritual, de práticas duvidosas das Ciências Ocultas. Estas buscariam poderes e
heranças da antiga magia. Segundo o autor acima citado, esta postura diferencial seria a que prevalece
em nossos dias.

Sagrado - misterioso, fascinante, divino, religioso. Remete-se, normalmente, a coisas proibidas,


separadas do cotidiano (profano). Daí que sua interpretação está diretamente relacionada, quase sempre
em oposição, a profano.

Sincretismo Religioso - fusão, interpenetração, de religiões, de ritos, de crenças, de personagens


cultuados ou referenciados.

Teologia - Ciência ou estudo de Deus, das questões relativas à existência, à natureza e à ação de Deus
no mundo. Na classificação realizada pelo CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico, está classificada como uma das ciências que compõem as Ciências Humanas.

Transcendente - Aquilo que vai além da histórica, das evidências empíricas, que rompe com a realidade
material.

70
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Referências

Referências Bibliográficas

ALVES, R. O que é religião . São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1984.

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico . 6ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BETTO, Frei. Física, cosmologia, teologia e espiritualidade , in Fragmentos de Cultura , v. 11, n. 06.
Goiânia: UCG, novembro/dezembro de 2001.

DENCKER, A., F. M. Pesquisas e Interdisciplinaridade no Ensino Superior: Uma experiência no


Curso de Turismo. 1º ed., São Paulo: ALEPH, 2002, p. 19.

CARVALHO., J. J. O encontro de velhas e novas religiões: esboço de uma teoria dos estilos de
espiritualidade , in Religião e Sociedade . vol. 15, n. 02, Rio de Janeiro: ISER, 1993.

Durkheim , E (1989), As Formas Elementares de Vida Religiosa ( publicado pela primeira vez em
1912). São Paulo: Paulinas, 1989.

ENGELS, F. Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã , in MARX, K, ENGELS, F . (1976, p.
291).

FILORAMO, F., PRANDI, C. As ciências das Religiões . São Paulo: Paulus, 1999, p.173 .

FREUD, S., Vol. XXIII, Moisés e o monoteísmo. Três ensaios (1937-1938), in Obras Completas – Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

FREUD, S., Vol. XII, Totem e Tabu. Alguns Pontos de Concordância Entre a Vida Mental dos
Selvagens e dos Neuróticos (1912-1913), in FREUD (1974).

FREUD, S., Vol. XXI, O Futuro de uma ilusão (1927), in FREUD (1974).

FREUD, S. , Vol IX, Atos obsessivos e práticas religiosas , in FREUD (1974).

FREUD, S., Vol XXI, O Mal-estar na civilização (1930), in FREUD (1974).

MARX, K. Crítica da Filosofia do Direito De Hegel (1843-1844), in MARX, K. ENGELS, F . 1976.

MARX, K., Teses sobre Feuerbach (escrito em 1845 – publicado pela primeira vez em 1888), in MARX,
K., ENGELS, F . (1976, p. 79).

OFFE, C. Trabalho: a categoria sociológica chave? in Capitalismo desorganizado , C. Offe (org.), São
Paulo: Brasiliense, 1989.

71
Ciência da Religião
UNIDADE 02 - Referências

SANTOS, B. de S. Pela Mão de Alice. O social e o Político na Pós-modernidade . Porto:


Afrontamento , 1994.

SANTOS, B. de S. A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência . 3ª ed., São


Paulo: Cortez, 2001.

SIQUEIRA, D. BANDEIRA, L. RIBEIRO, P., OSÓRIO, R. Carisma e narcisismo: as lideranças das novas
religiosidades , in Política, ciência e cultura em Max Weber . COELHO, M. F. P., BANDEIRA, L.
MENEZES, M. L. (orgs). Brasília: Universidade de Brasília, 2000, P. 355.

SCHERER-WAREN, I. Redescobrindo a nossa dignidade: uma avaliação da utopia da libertação para a


América Latina , in Religião e Sociedade , 15/2-3. Rio de Janeiro: ISER, 1990.

SIQUEIRA, D. As novas religiosidades no Ocidente. Brasília, cidade mística . Brasília: Editora da


UnB, 2003.

TEXEIRA, Faustino (org). Sociologia da religião: enfoques teóricos . Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

VALLE- HOLLINGER, A., SIQUEIRA, D., HOLLINGER, F. Religião e Esoterismo entre estudantes. Um
estudo comparado internacional , in Religião e Sociedade , vol. 22. n. 02, 2002. p. 47.

WEBER, M. A ciência como vocação , in Metodologia das ciências sociais , v. 02, Campinas:
Unicamp/São Paulo: Cortez, 1992.

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo . São Paulo: Pioneira, 1985.

72
Ciência da Religião

:: Unidade 03 ::
Globalização,
Pós-Modernidade e a
Construção de um Novo
Paradigma

73
Ciência da Religião
UNIDADE 03 – Proposições de Estudo

Proposições de Estudo

Ementa do curso
O mundo globalizado e a nova consciência religiosa. Encontro e desencontro entre fé religiosa e razão
moderna. A reflexão das ciências humanas sobre o fenômeno religioso. Estudo comparado dos diferentes
itinerários religiosos.

Objetivo geral do curso


Analisar, a partir das ciências humanas, o fenômeno religioso e sua relação com o ser humano, com a
sociedade e com o Transcendente, buscando o diálogo inter-religioso, e intercultural a fim de
comprometer-se com os princípios éticos.

Objetivos específicos
Refletir sobre a relevância da ciência da religião na formação acadêmica e profissional.

Analisar as especificidades e a metodologia da ciência da religião.

Compreender a crítica feita ao fenômeno religioso pelas ciências sociais na modernidade e sua
relevância para os dias atuais.

Analisar o fenômeno religioso contemporâneo, especialmente na região de Brasília, e sua


correspondência com as mudanças paradigmáticas vivenciadas na ciência.

75
Ciência da Religião
UNIDADE 03 – Desvelando

DESVELANDO...

Em nossa terceira unidade buscaremos, considerando a experiência nas unidades anteriores, aprofundar
nossa compreensão sobre o fenômeno religioso na atualidade e, em especial, em nossa cidade. Para
tanto buscaremos compreender a crise do paradigma de ciência construído na modernidade; os
elementos de um novo possível paradigma; o fenômeno de busca religiosa hoje no ocidente; além de
refletir sobre a idéia de que Brasília é uma cidade mística.

Nossa unidade foi construída com a intenção que você e sua turma façam um mergulho sobre a realidade
religiosa que estamos vivemos. Esperamos que aproveite bem e ajude sua turma a construir um belo
caminho no final do semestre.

Antes de iniciar suas aulas, convidamos você a verificar as letras e músicas do CD Quanta, de Gilberto
Gil, lançado pela Warner Music, em 1997. Preste atenção especialmente na letra de "Dança de Shiva".

"Quanta"

“Dança de Shiva
Repare a dança de Shiva
Enquanto a reta se curva
Cai chuva da nuvem de pó
Fraude do Thomas
Repare a fraude do Thomas
Os deuses todos em coma
Enquanto Exú não dá o nó”

(trecho da música “Dança de Shiva”)

O CD “Quanta” parece retratar o contexto dos nossos estudos nesta terceira unidade. Várias músicas do
CD, entre elas, Quanta, Dança de Shiva, Graça Divina e Guerra Santa denotam uma visão de mundo e do
fenômeno religioso que tentaremos aprofundar.

Ao ouvir o CD ou ler as letras procure identificar que concepção de mundo, sentido de vida, percepção de
Deus encontramos nas músicas cantadas por Gilberto Gil. O que você pensa sobre a compreensão do
cantor? Como percebe a relação entre ciência e fenômeno religioso presente no CD?

77
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 01

Aula 01 - Elementos fundamentais


da crise de paradigmas
da ciência e da modernidade

Bem vindo(a) a nossa primeira aula da Unidade 03. Vamos, inicialmente, refletir sobre a crise da
modernidade. O que você entende por modernidade? Existe uma relação entre ciência moderna, suas
transformações e fenômeno religioso?

No cenário anterior a modernidade, a Igreja perpassava todas as dimensões da vida, além de ser a fonte
de conhecimento e de explicação de tudo. Esta perspectiva teórica, com caráter mais propriamente
organizacional e político da sociedade e da vida se articulava, inevitavelmente, com a crescente
dominação das explicações racionais, científicas. As explicações religiosas, teológicas, mágicas, perderam
espaço para as científicas. Portanto, o conceito de secularização se conecta, diretamente com o de
desencantamento do mundo, na medida em que as explicações e práticas mágicas, místicas, religiosas,
perderiam, crescentemente, espaço e credibilidade.

Em relação à natureza o desafio central era dominá-la e transformá-la. O universo religioso e a forma de
compreensão do mundo eram encantados: com características, poderes, que não podemos compreender
ou controlar. Com a possibilidade explicativa da ciência, a natureza veio perdendo sua dimensão divina,
sagrada. Deus, o divino, o sagrado, a magia, foram expulsos para fora deste mundo, confinado aos céus,
à dimensão de cura dos desesperados, à salvação das almas, para que os
homens pudessem dominar a terra, a água, os animais, o ar.

De qualquer maneira, a questão fundamental parece ser a seguinte: a


secularização criou uma separação das esferas da vida, e uma crescente
racionalização. Entretanto, nas últimas décadas, é inevitável o
reconhecimento de um crescimento da busca por explicações e por
práticas religiosas. Seria um re-encantamento do mundo?

Essa não é uma resposta fácil, de qualquer maneira, apesar das


discussões, há um certo consenso em torno de que se vive, hoje, no
Ocidente, um deslocamento do império da razão e da racionalidade
instrumental, algumas das marcas fundamentais da modernidade. Com base em uma crítica afirmativa
anti-utilitarista (das coisas, das pessoas, da natureza), a pós-modernidade trata de recuperar valores
pré-modernos e outras formas de conhecimento, de saber, de relacionar-se com a realidade, ainda que
em novas bases.

Este deslocamento da razão tem permitido reflexos de temas antes secundarizados ou desqualificados. É
o caso da religião, das vivências religiosas, do sagrado. Porque a modernidade sempre foi pensada em

79
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 01

oposição a valores tais como tradição e religião. Considerando a dimensão da secularização como
privatização da fé, a racionalidade moderna pressupôs uma exclusão recíproca entre fé e razão. E os
questionamentos levantados pela discussão sobre a pós-modernidade vêm gerando novas perspectivas
de análise e de compreensão do mundo. Mas há que se estar atento. Ainda há autores que continuam
afirmando o contínuo declínio da religião e o crescente processo de secularização.

Outros sugerem que o movimento de privatização da religiosidade não anula a importância da influência
pública da Igreja. Não se poderia, então, declarar, acriticamente, um reavivamento religioso. Neste
furacão de idéias, há, pelo menos, um certo consenso em torno da necessidade de ser reavaliar a teoria
da secularização.

Mas, quais são os elementos fundamentais da crise do império da razão e


da ciência?
A resposta a essa questão não é simples, nossa maneira de pensar é fruto do que ora estamos chamando
de império da razão e da ciência. Como então refletir criticamente algo que marcou profundamente nossa
maneira de pensar? Vamos, a seguir, sinalizar três pontos que podem nos ajudar a pensar os elementos
fundamentais da crise que estamos vivendo:

1) A não realização do progresso e o acirramento das desigualdades sociais

Ciência pode ser definida como conhecimento. Mas a forma de se conhecer a realidade nem sempre foi a
mesma. E continua não sendo. A ciência é uma forma de compreender a realidade, tanto quanto outras,
tais como a arte. Assim, diante de qualquer objeto, o pintor, o poeta ou o músico tentará traduzir sua
forma de conhecimento pintando um quadro, escrevendo um poema ou compondo uma música.

O cientista vai tentar “decifrar”, “explicar” a realidade a partir de sua área de conhecimento,
fragmentada, a disciplina científica. Mas sempre houve dúvidas e questionamentos sobre a possibilidade
de se conhecer a realidade. Tanto assim que surge a chamada Teoria do Conhecimento.

F oi através da evolução das formas de pensar geradas a partir do século XVI - com a emergência, ainda
que frágil, do pensamento propriamente científico e a progressiva desmoralização dos sistemas filosóficos
e religiosos diante da implantação do chamado método científico (ancorado na experimentação e no
raciocínio) - que este processo de fragmentação se implanta. E o que se chamava de sistemas filosóficos
passam a se chamar, crescentemente, de modelos.

80
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 01

Assim, os objetivos do homem racional seriam a liberdade, o conhecimento e a felicidade. A afirmação "
Penso, logo existo ", de Descartes, foi decisiva para a construção deste império da razão, que passaria a
definir os tempos modernos. As reflexões de Descartes foram tão importantes, que nos referimos ao
cartesianismo quase como sinônimo de modernidade-racionalismo.

E assim as ciências, progressivamente, se fragmentaram. Especializaram-


se. A realidade tinha que ser explicada por princípios cada vez mais
próprios, de cada área do conhecimento. E as necessidades de inovações
tecnológicas ininterruptas do capitalismo aceleraram este processo.
Conseqüentemente, ainda que a tecnologia possa ser definida como a
história milenar do esforço humano para dominar, em seu proveito, a
natureza, sabe-se que foi apenas a partir do final do século XVIII que a
tecnologia tornou-se, como definiria qualquer Enciclopédia, “uma ciência
aplicada”. Afinal, nos séculos XVII e XVIII o ferro, o carvão e o vapor
foram fundamentais para a Revolução Industrial. E foram notáveis os avanços que se deram na indústria
têxtil, motor da revolução industrial inglesa, com o objetivo de se substituir força humana e animal por
“mecanismos”.

E o processo de fragmentação seguiu. E as necessidades do capital e do capitalismo também. Tanto


assim que nascem, e continuam a surgir, várias áreas específicas do conhecimento. Contudo, as
promessas do progresso científico e industrial assentadas no império da razão e da ciência fragmentada,
especializada, não se realizaram. Depois do fim da segunda guerra mundial (1945), viveu-se, no
Ocidente, um período de fé neste desenvolvimento. Mas a partir do final da década de sessenta
tornaram-se evidentes as críticas ao capitalismo e à modernidade (vários movimentos sociais, tais como
os estudantis, o movimento hippie , a Teologia da Libertação indicam estas críticas).

Resumidamente, na atualidade é óbvio o não cumprimento da promessa da modernidade, do triunfo do


homo tecnicus , do império da razão e da razão instrumental, do progresso e da expansão industrial-
capitalista ilimitados, do controle infinito de uma natureza silenciosa (esgotamento dos recursos naturais,
possíveis rupturas ecológicas).

2) A perda de legitimidade da racionalidade e da verdade científica

A crise dos valores dominantes na sociedade moderna pode ser referenciada como uma crise de
paradigmas das ciências em geral, e em particular as humanas. Este movimento espelha a sensação,
bastante generalizada, de que a realidade caminha muito mais rapidamente do que nossos conceitos e
teorias, dentre outros motivos, devido à rapidez e imprevisibilidade de muitas das transformações que
vem se dando nas últimas décadas. Como diria Boaventura de Sousa Santos, os desafios nascem sempre
de perplexidades produtivas. E (...) a realidade parece ter tomado definitivamente a dianteira sobre a
teoria. Com isto, a realidade torna-se hiper real e parece teorizar-se a si mesma...auto-teorização da
realidade (SANTOS , 1984, p. 20).

81
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 01

Os intelectuais não dão conta de acompanhar tamanha rapidez de transformações da realidade. Ou seja,
o instrumental teórico-metodológico disponível não vem permitindo conhecer e decifrar a realidade. Ou
os conceitos disponíveis e as distinções disciplinares em que se ancoram (Economia, Sociologia,
Antropologia), não são suficientes e estão exigindo uma reconstrução teórica radical?

No caso da religião, assiste-se a uma tendência à busca por uma religiosidade, transcendendo a
unilateralidade de “ser membro” de uma instituição religiosa, em direção a uma religiosidade cada vez
mais marcada pelo trânsito, pela bricolagem, pela adesão em lugar de membresia (ser membro de tal
religião ou denominação religiosa) e de “conversão” (a uma religião ou denominação religiosa), por uma
religiosidade orquestrada por conta própria. E novas categorias e instrumentos analíticos vão se
impondo, o que será tratado nas partes finais do texto.

Pode-se afirmar que a mudança de paradigma indica novas perspectivas, tal como, por exemplo, o
reconhecimento de que a percepção intuitiva permite integrar a informação em novas formas de modelos
ou estruturas. O que pressupõe abrir mão de muitas certezas e ser mais capaz de conviver, tolerar e
mesmo transitar por diferentes interpretações e perspectivas (do mundo, da vida, da morte, do
trabalho). O momento parece nos impor uma grande encruzilhada: negarmo-nos a ver o processo ou nos
abrirmos à transformação. Há que se posicionar nesta encruzilhada, ou ao menos tomar consciência dela.

Sem dúvida, vivenciam-se conflitos, ainda que fecundos e desafiantes, no que toca aos paradigmas das
ciências e não apenas das Ciências Humanas. Trata-se de uma crise que indica, simultaneamente,
algumas marcas de um novo tempo (Pós-moderno? Pós-secular? Complexo?). Porque o espírito de nosso
tempo se encontra carregado de paradoxos.

3) Mudanças geracionais, nos papéis sociais e nas relações de gênero

Por um lado, as promessas do capitalismo-modernidade-império da razão-cientificidade não se


cumpriram. Entretanto, nas últimas décadas, em particular, deram-se transformações que, em maior ou
menor grau, destroem referências fundamentais, significados de valores, de certezas, que orientam a
vida das pessoas.

Dentre estas, podem ser lembradas as mudanças geracionais. A determinação incontestável da


autoridade paterna já não se sustenta, como acontecia, dominantemente, até a metade do século
passado.

Deu-se, simultaneamente, uma revolução nos papéis sexuais e nas relações de gênero, ou seja, nas
relações entre homens e mulheres. E esta é fundamental. Assim, se fala, por exemplo, de uma
feminização da força de trabalho. E o número de lares chefiados por mulheres não parou de crescer.
Houve uma ascensão feminina a postos com maior poder de decisão, alteração das relações familiares,
das opções e das práticas sexuais. Os lugares clássicos da modernidade atribuídos ao homem (o espaço
público, o trabalho, a chefia do lar) e à mulher (o espaço privado, a reprodução da família) já não

82
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 01

funcionam como referências claras e determinadas para a construção do cotidiano, dos projetos, das
relações sociais das pessoas.

Ao mesmo tempo em que ocorre um aceleramento da globalização, dos deslocamentos, da


desterritorialização, tem se dado uma diminuição do papel e do poder dos Estados nacionais, ainda que
eles continuem centrais em nosso cotidiano (aposentadorias, acesso à saúde e à educação, processos
judiciais, burocracia).

Trata-se de contradições, dilemas que demandam de cada um de nós escolhas, decisões quase cotidianas
de como queremos construir nossas famílias, qual é nossa opção sexual, qual é o nosso posicionamento
frente ao mundo. Ao mesmo tempo em que vários elementos apontam para novos tempos e formas de
pensar, alguns acontecimentos ligados à intolerância religiosa, política ou cultural nos remete a questões
que aparentemente estão caminhando para sua superação. Vivemos um tempo de passagem, onde as
contradições e possibilidades caminham de mãos dadas.

Revista Espaço Acadêmico: Neste editorial você vai ler uma reflexão sobre
os fenômenos que marcam a relação tolerância-intolerância.

83
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 02

Aula 02 - Elementos fundamentais do novo paradigma em


construção

O que você entende por mudanças paradigmáticas? Estamos vivendo um momento de mudança de
paradigmas? Em nossa segunda aula aprofundaremos essas e outras questões. Que você faça uma ótima
navegação no texto base, links, textos complementares e enriqueça nossa aula com seu posicionamento!

No que se refere à construção atual de um modelo, de uma visão de mundo, ou de um novo paradigma
(holístico, complexo, pós-secular?), há muitas polêmicas. Entretanto, alguns de seus elementos principais
podem ser identificados. Assim, pode-se afirmar que não se trata apenas de recuperar valores e saberes
pré-modernos. Porque depois de todo o desenvolvimento da modernidade (racionalidade, cientificidade),
trata-se de identificar novas posturas, que ressignifiquem os criados e recriados pela modernidade ainda
dominantes na contemporaneidade. (SANTOS , 2001).

A superação das fragmentações disciplinares (inter, multi e


transdisciplinar)
Identifica-se uma incapacidade por parte dos conceitos e das disciplinas
científicas, tal como construídos na modernidade, para teorizarem o real,
marcado por profundas e rápidas transformações. O que seria da Biologia,
na atualidade, sem as conexões e mediações com a Química, por exemplo?
E da Geografia sem a Ecologia? Da Administração sem a Psicologia? Assim,
se assiste a um processo de busca intelectual pelo inter, multi e
transdisciplinar.

Centro de Educação Transdisciplinar: neste site, além de conhecer o


CETRANS, você vai aprender mais sobre a epistemologia transdisciplinar.

Partindo-se, por exemplo, dos conceitos de Edgar Morin, de simplicidade e de complexidade, pode-se
afirmar a existência da tendência a uma evolução do paradigma mecanicista e simplificador (cartesiano),,
dominante na modernidade, para um outro de caráter mais complexo e integrador. Ou mesmo holístico

85
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 02

(que visa o todo). Este movimento pode ser identificado inclusive nas organizações do trabalho,
objetivando uma reestruturação produtiva-competitiva.

A busca por novas alternativas frente à crise, ou transformação, do paradigma hegemônico (mecanicista,
fragmentário e disciplinar) se visibiliza, de maneira mais evidente, nas chamadas novas áreas do
conhecimento, que surgiram, elas mesmas, como indicadores desta crise, como é o caso do Turismo, da
Hospitalidade, do Desenvolvimento Sustentável ou Sustentado, da Ecologia, das novas religiosidades. Daí
a centralidade, nestas, das discussões em torno do que possa transcender o disciplinar. Multi, pluri, inter
e transdisciplinar são os termos-chave destas discussões.

As discussões em torno da interdisciplinaridade (e derivações) surge na Europa na década de 1960 e


chegam ao Brasil ainda no final daquela década, embora se consolide somente a partir de meados da
década seguinte. A interdisciplinaridade surge como "resposta às necessidades de uma abordagem mais
integradora da realidade (....) ela nasce da hipótese de que, por seu intermédio, é possível superar os
problemas decorrentes da excessiva especialização, contribuindo para vincular o conhecimento à prática."
(DENCKER , 2002).

A transcendência das polaridades:


fé e ciência; homem-natureza; profano-sagrado; razão-emoção; sujeito-
objeto.
Dentro deste processo de superação das fragmentações disciplinares,
localiza-se uma tendência a se romper ou diluir a polarização sujeito
(conhecedor) e o objeto (a ser investigado, conhecido, interpretado). Na
medida em que a realidade parece se impor, se auto-teorizar, o cientista
é forçado a reconhecer sua humildade antes de decifrá-lo. Afinal, as
teorias existentes são insuficientes para se delimitar e se definir, de
antemão, a realidade. Como exemplo, as teorias clássicas sobre religião
nas Ciências Humanas são bastante frágeis diante do movimento de
busca por novas religiosidades, acelerado a partir das últimas décadas
do século passado. Dá-se uma diminuição crescente de outras
polaridades, como, por exemplo, entre fé e ciência, entre razão e paixão, entre objetivo e subjetivo.
Estamos assistindo a uma busca unificadora, de aproximação entre Ciência, Arte, Tradição, Filosofia,
Ciências Naturais e Ciências Humanas, num movimento de integração entre ciência e existência humana.

86
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 02

A recuperação de outros saberes,


além do científico (senso comum, intuição, sensibilidade), frente à
neutralidade científica.
Maior preocupação com as
questões éticas
Frente à neutralidade científica, básica no conhecimento científico da modernidade, surgem
convergências, a partir do novo paradigma, em torno a uma maior preocupação com as questões éticas
envolvidas na produção e aplicação de conhecimentos técnico-científicos. O cientista não está, nunca,
apenas produzindo, de uma maneira neutra, ciência. Seus conhecimentos, seus produtos, têm
desdobramentos para a sociedade.

Revista Eletrônica "Os Urbanistas": Leia, neste site, um estudo sobre


festas populares e sincretismo religioso.

A segurança da neutralidade científica (o conhecimento se justifica em si mesmo), perde espaço. Por


detrás de qualquer investigação científica, há posicionamentos políticos e ideológicos (interesses
econômicos, sociais, étnicos). Porque um engenheiro civil se especializa em pontes e outros em descobrir
formas de controle de evaporação de água em regiões áridas ou semi-áridas, ou de materiais de
construção de casas que diminuam a presença do mosquito barbeiro e, conseqüentemente, a incidência
da doença de Chagas?

Assim, juntamente com a crítica da neutralidade científica, anuncia-se uma possibilidade de


descentralização da razão e da razão instrumental e a recuperação de outros saberes além dos
científicos, sobretudo os saberes pré-modernos, ou seja, outras formas de conhecimento desconsideradas
e desqualificadas pelo conhecimento moderno-científico como conhecimentos inferiores, superstições,
fantasias (como o senso comum, a intuição, os sonhos).

Vive-se, de fato, uma crise ou intenso processo de transformação da modernidade e de seu paradigma
científico dominante (mecanicista, simplificador e reducionista) . O novo modelo, em construção
(complexo, holístico, ou o nome que se utilize), que acompanharia esta nova fase de desenvolvimento da
sociedade ocidental (pós-moderna, pós-secular, super-industrial, pós-capitalista, sociedade de classe de
serviços, era tecnotrônica, terceira revolução industrial , ou como seja denominado), não se ancora em
uma desqualificação ou negação dos modelos e referenciais anteriores, como fez historicamente o modelo
científico-mecanicista-simplificador com relação aos que o precederam e como, de alguma maneira,
fizeram grandes pensadores críticos da modernidade no século passado. Ao contrário, trata-se de
recuperar valores e saberes pré-modernos, ainda que em novas bases, ressignificando (e não negando)
os criados e recriados pela modernidade ainda dominantes na contemporaneidade.

87
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 02

Impõe-se a necessidade de se compreender a condição humana, em toda a sua complexidade. Como


bem argumentou Santos (1994), o processo globalizante (ou mundializante, segundo outros sociólogos)
é acompanhado pelo movimento de valorização do local e do regional.

Dentro de uma postura complexa, transdisciplinar, pode-se identificar alguns elementos instigantes no
processo de produção do conhecimento científico:

a) Considerar, com o mesmo estatuto, tanto as intuições quanto questões postas pela
teoria, ou pelas teorias que os diferentes campos científicos (disciplinares) oferecem.
Porque não se trata, na construção deste novo paradigma, de desqualificar o velho, mas
se trata de transmutá-lo. Caso as intuições sejam confusas, certamente estas não podem
ser consideradas menos confusas do que as “teorias” existentes para explicar um real que
parece escapar de nossas possibilidades de entendimento e de compreensão.

b) As teorias não resolvem as contradições da realidade, ainda que elas tenham tentado
nos últimos séculos, marcados pela modernidade científica, aquietá-las, fazendo crer que
o conhecimento científico (separação sujeito-objeto, com o predomínio da razão
mecanicista sobre o real confuso, ilimitado, indefinível) era mais competente que as
formas de conhecimento pré-modernos, incluindo a intuição. Nas ciências constituídas,
não se encontram referências à intuição, ao afeto, às trajetórias pessoais. Parece que
alguma “mão invisível” se encarrega de distribuir “milagrosamente” os intelectuais entre
a Sociologia (rural, urbana), ou Economia, Antropologia, ou entre os que estudam e que
pesquisam a Biologia, a Química, a Arquitetura. As análises das condições sócio-
econômicas-históricas (mercado, salários, prestígio, status ) não são suficientes para
explicar as opções disciplinares. Trata-se, portanto, de se reconhecer e valorizar a
intuição, que envolve a trajetória de vida, a classe social, o sexo, na escolha e no
tratamento do “objeto de estudo”.

c) O reconhecimento desta dimensão fundamental pode abrir, certamente, caminhos


bastante ricos para questões, problemas e hipóteses subseqüentes a serem arquitetadas
no processo de aproximação e de compreensão da realidade. E esta é uma dimensão, a
intuição que, desde sempre, foi fundamental à relação religiosa com o mundo.

d) O conhecimento intuitivo parece vir se impondo como fundamental à compreensão. Ele


permite, com maior riqueza, que a pessoa experimente, depure e submeta a prova suas
idéias, agitando-as, expandindo-as. Porque a intuição possibilita um lugar de
conhecimento mais “im-plicado”, do que “ex-plicado”.

A especialização e conseqüente fragmentação das disciplinas não é, de fato, uma distorção. Elas foram
fundamentais para o desenvolvimento da sociedade capitalista e da modernidade. São frutos das
condições e das necessidades históricas e sociais de um tempo que exige, na atualidade, mudanças,

88
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 02

transformações. E como diria Dencker (2002) "(...) O mundo globalizado requer uma ética de respeito e
solidariedade para garantir a sobrevivência das sociedades humanas."

89
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 03

Aula 03 - A busca por uma nova religiosidade no ocidente

Em nossa terceira aula enfocaremos a questão da busca atual de uma nova religiosidade. Por que cresce
tanto a busca por religiosidade na atualidade, ainda que muitos falem e escrevam sobre o fim da religião?
Sua experiência pessoal demonstra que o apelo a religiosidade tem aumentado?

Vamos à aula!

Por que atualmente percebemos um aumento na busca por novas


religiosidades? Diante desta pergunta, muitos autores afirmam: porque a
sociedade atual é problemática, descontínua, heterogênea, fragmentária.
Afinal, a modernidade ancora-se nesta fragmentação e, sobretudo, a partir
da recente expansão da globalização ou mundialização.

Esta busca crescente por religiosidade se traduz, por um lado, na crise de


autoridade das instituições religiosas no mundo ocidental. E a efervescência
religiosa é tão grande, que dentro das Religiões Tradicionais (o Catolicismo
e o Protestantismo) surgem Novos Movimentos Religiosos. Os exemplos
mais evidentes deste processo, na atualidade, são o Movimento
Carismático e a Igreja Universal do Reino de Deus.

Por outro lado, acompanhando esta crise de autoridade religiosa, identifica-se uma crescente procura por
novas formas de religiosidade, ou por uma nova consciência religiosa que é anti-clerical, anti-dogmática,
anti-institucional e anti-hierárquica. Também na esfera religiosa transita-se, cada vez mais, por caminhos
diversos, fragmentados, plurais, típicos da modernidade, ainda que este trânsito esteja, paradoxalmente,
ancorado na busca de uma dimensão holística ou totalizante de ser e de estar no mundo, a partir,
sobretudo, do esforço individual: religião como parte da vida privada. Assim, na falta de um conceito
mais preciso, porque a expansão do fenômeno é bastante recente, pode-se falar em Novas
Religiosidades. Na verdade, religiões mais antigas do que o Cristianismo (Budismo, por exemplo), estão
sendo vivenciadas como novas religiosidades no Ocidente. Porque a expectativa é de romper com o
clericalismo das religiões ocidentais tradicionais conhecidas (cristãs), identificadas como excessivamente
doutrinárias, hierárquicas, dogmáticas.

Religiosidade pode ser entendida como a procura humana, seja pelo sagrado, pelo divino, pelo
transcendente, pelo misterioso, pelo numinoso. Religião se refere, particularmente, à dimensão
institucional do religioso: dogmas, hierarquias, estruturas, templos, ritos, sacerdócio. Historicamente, a
primeira (a religiosidade) teria sido, paulatinamente, apropriada pela segunda (religião:
institucionalização da religiosidade).

91
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 03

O movimento seria tão contundente que se fala, inclusive, na possibilidade de uma implosão do conceito
de religião . Identifica-se a influência crescente de uma forma de religião difusa, em vários países latino-
americanos, que inclui o movimento New Age , mas não se reduz a ele , à medida que essa influência
englobaria um leque muito mais amplo que abarcaria formas tradicionais de catolicismo popular que se
dão à margem do institucional.

Esotérico: nesta web page você vai encontrar indicações para diversos
sites místicos.

Merece ser refletida uma nova concepção de religião, à medida que a nova espiritualidade em construção
não seria apenas a religião institucionalizada e especializada, mas uma experiência que recorreria tanto
às dimensões da secularidade do nosso tempo quanto aos caminhos religiosos tradicionais.

Há autores que destacam a idéia de mercado religioso e a existência de um pluralismo religioso. Haveria,
então, estruturas religiosas e pessoas que acreditam. O religioso e a religião seriam formas, ritos,
crenças, práticas e tudo aquilo em que cada pessoa acreditar.

Estamos diante de um dos fenômenos mais significativos da atualidade: uma tendência a que o indivíduo
componha sua própria religiosidade. Esta seria uma passagem de religião para religiosidade, ou
religiosidades, no plural. Assim uma religiosidade deste tipo parece estar assentada, ela mesma, no
pluralismo cultural da modernidade. Pluralismo que possibilitaria, para o indivíduo, uma contínua
exploração de sentido. As crenças e as práticas religiosas passam a ser cada vez mais transitórias,
provisórias e fluidas, não respondendo mais às diretrizes de uma instituição religiosa.

Essa religiosidade no plural lembra, num primeiro momento, superficialidade, mercado, inconsistência ,
pois há a possibilidade de que a existência de grupos ou de novas religiosidades possa ser pensada como
indicativa de um fenômeno emergente que problematiza princípios básicos da modernidade, já que se
trata de movimentos também culturais, criativos, de experimentação e que propõem, ademais, novos
estilos de vida.

New Age e orientalização do Ocidente


Uma importante dimensão da mudança religiosa nas sociedades ocidentais contemporâneas diz respeito à
incorporação de crenças, práticas e métodos mágicos, místicos, espiritualistas, esotéricos, que se incluem
ou se correlacionam com o Movimento New Age.

92
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 03

Um Sincretismo gracioso: Consultar o artigo de Paulo Henrique Martins


sobre a religiosidade dos terapeutas alternativos.

Este movimento se iniciou na década de sessenta, nos EUA, como pequeno movimento contra-cultural,
que propunha uma reação às condições e a organização de vida das sociedades industrializadas. Fez
parte de um movimento mais amplo de contestação, incluindo o movimento estudantil. O ano de 1968 é
um ano de referência para o movimento contestatório, que eclodiu na Europa e também na América
Latina.

93
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 04

Aula 04 - O fenômeno religioso, a juventude e a cidade de


Brasília

Em nossa última aula vamos construir uma reflexão sobre a relação de Brasília com o fenômeno religioso.
Brasília de fato está numa região mística? O que caracteriza essa afirmação? A juventude de Brasília é
mais mística do que a juventude de outras regiões do país? Vamos fechar nosso semestre pensando o
fenômeno religioso bem próximo de nós. Esperamos que você aproveite bastante esta aula e que faça um
belo fechamento de semestre.

Vamos lá!

A autoridade das instituições, os referenciais sociais básicos em termos de valores, regras estão em crise.
Estamos diante de um processo de anomia, que podemos compreender como perda de sentido e de
referenciais. E a tendência é que esta seja sentida mais de perto pelos jovens. Afinal, trata-se do
momento da vida em estão se delineando a definição de opção sexual, de profissão a ser escolhida, a
demanda da sociedade para que se curse uma universidade, o desemprego estrutural.

Assim, os jovens, em particular, também estão buscando religiões e novas formas de religiosidade, de
acordo com o que está indicado em uma pesquisa realizada recentemente, envolvendo quase 4.000
estudantes de 16 universidades, em 10 países europeus e americanos, sobre religião e esoterismo. (
HOLLINGER , 2002).

Segundo esta investigação, entre 15% e 30% dos estudantes dos 16


países investigados acreditam em espíritos, em contato com mortos e em
astrologia. Um número considerável (entre 25% e 50% por país),
apresenta-se indeciso quanto à existência destes fenômenos. A existência
da telepatia é um fenômeno reconhecido por cerca da metade dos
estudantes em todos os países, sendo que apenas de 20% a 25%
contestam sua existência.

Contrastando totalmente com a tese sociológica clássica de que a ciência


moderna iria enfraquecer as crenças religiosas, observa-se que estudantes
universitários – pessoas que estão sendo treinadas a pensar de acordo
com as leis da ciência moderna e da racionalidade – têm, mais ou menos, o mesmo nível de religiosidade
que o resto da sociedade em que vivem.

Ainda de acordo com a pesquisa, nos EUA e na América Latina (Argentina, Brasil, Colômbia e Uruguai), a
porcentagem de estudantes que acreditam no cosmo cristão tradicional (Deus, anjos, santos, céu,
inferno) é muito maior do que na Europa norte-ocidental (Alemanha, Áustria e Grã-Bretanha). Estudantes
do sul da Europa (Itália e Portugal) encontram-se em uma posição intermediária. Os estudantes latino-
americanos e norte-americanos são também mais propensos a acreditar em fenômenos mágicos e

95
UNIDADE 03 - Aula 04

métodos esotéricos (espíritos, clarividência, curandeiros, astrologia) do que os estudantes do noroeste da


Europa.

A religiosidade na América Latina, que tem se tornado mais efervescente nas últimas décadas, parece ser
motivada pela extensão considerável da instabilidade e da insegurança das condições de vida neste
continente. Porque, como argumentam vários autores, situações sociais anômicas geram espaços para o
retorno à religião, às crenças e práticas místico-esotéricas ou outras formas de religiosidade a fim de
tornar problemas existenciais mais facilmente suportáveis.

Neste sentido afirmam VALLE-HOLLINGER, SIQUEIRA e HOLLINGER (2002): "A religiosidade


efervescente...nos lembra que a religião, tanto em suas formas mais tradicionais quanto em suas formas
mais modernas, pode ser uma grande fonte de energia e de vitalidade."

De qualquer modo, o movimento se dá em todo o Ocidente. No que se refere ao processo de


psicologização da religião, esta investigação mostrou que a maioria dos estudantes teve algumas
experiências com as práticas não convencionais ou New Age. Um número considerável de estudantes
teve um contato mais próximo com o mercado esotérico: entre 20%e 30% em cada país praticou ou
tentou ao menos cinco (de uma lista de 12) diferentes técnicas, ainda que uma pequena parcela os
pratique regularmente.

Fora da Europa, estes métodos têm um maior grau de disseminação nos centros metropolitanos (como
Brasília, Montevidéo e Medellin) do que em cidades menores e mais conservadoras. Os métodos
esotéricos que já tinham uma longa tradição nas sociedades ocidentais (curandeirismo, cartomancia) são
praticados mais freqüentemente pelos estudantes latino-americanos, mas também pelos norte-
americanos.

Examinando os resultados internacionais das atividades New Age juntamente com os resultados da
religiosidade e das crenças mágico-esotéricas, se pode afirmar que a prática esotérica na Europa norte-
ocidental tem um caráter bastante secularizado: os métodos espirituais e esotéricos têm sido usados
para obter experiências holísticas (emocionais, sensuais, cognitivas), e para explorar a própria
personalidade, sem que isto implique necessariamente uma adesão às crenças associadas a estas
práticas em seu contexto original.

Contrariamente, parece que os métodos espirituais e esotéricos na América Latina e também nos EUA
têm sido vistos mais na sua forma original, isto é, ligados a um cosmo sagrado de entidades espirituais e
divinas.

De qualquer forma os resultados desta pesquisa confirmam o privilégio da capital do Brasil. Ao mesmo
tempo em que nela se fazem presentes crenças e práticas mágicas, tradicionais, da sociedade, o padrão
de consumo de práticas New Age e não convencionais é semelhante aos da Europa (mais secularizada).
Portanto, Brasília é um laboratório vivo privilegiado no que toca à religiosidade no Ocidente e na
atualidade.

96
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 04

O sincretismo e a magia constituinte da religiosidade brasileira. Brasília,


cidade mística?
Brasília, inaugurada em 1960, nasceu a partir de dois grandes mitos de criação: a Cidade Utópica e a
Terra Prometida. O primeiro está inscrito no planejamento urbano e na arquitetura futurista do Plano
Piloto. Os fundadores da cidade estavam imbuídos do sonho e da missão de inaugurar um novo tempo
para o Brasil, que seria fundada no belo, na igualdade e na universalidade. Este mito converge com um
outro, o místico, referenciado nas profecias de Dom Bosco, que se tornou, inclusive, no imaginário
popular, o padroeiro da cidade, ainda que a padroeira formal seja N. S. Aparecida.

Coincidência ou não, estes dois mitos estão na base do fenômeno místico-esotérico que designa Brasília
como Cidade Mística, a Capital do Terceiro Milênio ou da Nova Era. É fato que a profecia do Santo foi se
materializando. Na capital e na região, há um número cada vez maior de pessoas e de grupos que estão
tentando construir uma nova consciência religiosa, ancorada na busca do auto-conhecimento e do auto-
aperfeiçoamento, na construção de uma nova visão, holística, do mundo.

Não apenas surgiram alguns grupos juntamente com a capital, como é o caso da Cidade Eclética, do Vale
do Amanhecer e da Cidade da Fraternidade (em Alto Paraíso, a 250 Km de Brasília), mas o número
continua a crescer, tendo sido ou criados, ou transferidos de outros locais ou fundados a partir de sonhos
e de premonições de pessoas e grupos que continuam a chegar, certos de que Brasília é uma cidade
mística (e/ou a região é especial).

Vale do Amanhecer: conheça a estrutura, os eventos e os princípios deste


que é um dos maiores espaços místicos do Distrito Federal.

Não se pode discutir ou comprovar se os argumentos místicos e esotéricos a respeito da cidade e da


região são verdadeiros ou não. Mas como cientista social se pode afirmar que o mito foi se transformando
em lenda e esta em realidade. As percentagens dos brasilienses que acreditam que a capital é uma
cidade mística são significativas.

De qualquer forma, esta particularidade que marca a cidade e região se ancora em uma particularidade
da sociedade brasileira. A magia é uma marca de nossa religiosidade. A prática religiosa no Brasil sempre
esteve mais voltada à solução de questões cotidianas, amorosas, financeiras, de problemas de saúde
(promessas, votos, peregrinações) do que à salvação.

E o Brasil é, sem dúvidas, o país mais sincrético do mundo. Já no século XV, os portugueses que aqui
viviam, vivenciavam uma mistura de credos e de práticas, incluindo as indígenas, mesclando catolicismo
formal com festas pagãs e forças anímicas (da natureza), além de outras influências tais como a judaica

97
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Aula 04

e a moura (árabe). Ainda na primeira metade do século XVI agregaram-se crenças e práticas dos
africanos, importados como escravos.

O misticismo indígena marcado pela magia encontrou-se com a religiosidade africana. Dos roçados
indígenas nascem os “terreiros” dos rituais negros. A partir desse contato, surgiram os candomblés de
caboclos e os candomblés de Angola, que futuramente serviram de base à umbanda, integrando
elementos do espiritismo cardecista, em um contexto mais urbanizado da sociedade brasileira. Também
com o catolicismo se dá uma fusão de crenças e divindades, ou seja, os santos católicos-orixás: S.
Bárbara e Yansã; S. Jorge e Ogum; N. Senhora e Yemanjá.

O Brasil Colônia teria sido marcado por práticas mágicas sincréticas, adivinhações, orações, benzeduras,
curas, exorcismos, ocultismos, satanismo, feitiçarias, curandeiros que podiam tanto fazer quanto
desfazer malefícios para resolver problemas.

Para explicar a efervescência religiosa brasileira, na atualidade, Carvalho (1993) identifica três momentos
da formação de sua matriz religiosa: catolicismo oficial, cardecismo (que chegou ao país na segunda
metade do século XIX), as tradições esotéricas e a teosofia (que aqui chegaram no final no século XIX e
início do século XX, respectivamente).

Brasília apresenta ainda outras particulares, já que nela convivem pessoas de todas as partes do país. Os
não nascidos na capital continuam a ser maioria, e mesmo os brasilienses natos continuam a ter suas
famílias extensas em outros locais do país. Ademais, na capital do país convivem os representantes das
Embaixadas e organismos internacionais, pessoas de várias partes do mundo. Há ainda igrejas
representantes de muitas religiões, como, por exemplo, uma Mesquita.

Brasília Cidade Mística: Site com uma leitura mística sobre alguns
monumentos de Brasília.

A cidade permitiu um democratismo fundiário pouco usual no país. Religiões tiveram acesso, já na
criação da cidade, a locais privilegiados do Plano Piloto, para a construção de seus templos. É o caso do
Templo da Boa Vontade, Budismo Terra Pura, Igreja Messiânica, dentre outras, ainda que a Catedral
(católica) esteja mais próxima aos monumentos mais importantes dos poderes constituídos (a Praça dos
Três Poderes). Portanto, Brasília é, de fato, um local privilegiado para se investigar e refletir a
religiosidade brasileira.

98
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Glossário

Glossário

Anomia: significa perda de referenciais, de regras, de valores, de sentido à vida. É uma situação típica,
por exemplo, de migrantes rurais recém-chegados a uma metrópole. As regras, costumes, valores
orientadores do mundo anterior não servem para a nova situação e os migrantes ainda não incorporaram
os novos da cidade grande.

Astrologia: predição do futuro a partir da observação dos astros.

Bricolagem: termo de origem francesa que significa composição individual criativa, agregando partes,
componentes, de várias origens ou fontes.

Cartomancia: adivinhação por meio de cartas. É tão antiga quanto às cartas de jogar. Sua origem é
atribuída aos egípcios.

Curandeirismo: curas que são praticadas a partir de rezas, preces, ritos, feitiços, magias, simpatias.
Não se ancora em uma ortodoxia (a doutrina verdadeira).

Numinoso: Com a intenção de se referir ao sagrado, sem a carga da moral e de seu elemento racional,
R. Otto (1992) introduz o termo numinoso. Trata-se de uma categoria de valor e estado de ânimo e de
experiência espiritual única da consciência religiosa.

Rito: todas as religiões, religiosidades, implicam em ritos, ou seja, uma série de práticas,
comportamentos, posturas (orações, sacrifícios, purificações, oferendas, cultos, danças). No geral, em
sentido amplo, é identificado com culto e abrange o conjunto de práticas, de regras, de cerimônias
presentes nas religiões e em outras formas de religiosidade.

Sincretismo Religioso: fusão, interpenetração de religiões, de ritos, de crenças, de personagens


cultuados ou referenciados.

Teoria do Conhecimento ou Epistemologia: estudo reflexivo e crítico da origem, da natureza, dos


limites e do valor do conhecimento humano.

99
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Referências

Referências Bibliográficas
ALVES, R. O que é religião . São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1984.

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico . 6ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BETTO, Frei. Física, cosmologia, teologia e espiritualidade , in Fragmentos de Cultura , v. 11, n.


06. Goiânia: UCG, novembro/dezembro de 2001.

CARVALHO., J. J. O encontro de velhas e novas religiões: esboço de uma teoria dos estilos de
espiritualidade , in Religião e Sociedade . vol. 15, n. 02, Rio de Janeiro: ISER, 1993.

DENCKER, A., F. M. Pesquisas e Interdisciplinaridade no Ensino Superior: Uma experiência no


Curso de Turismo. 1º ed., São Paulo: ALEPH, 2002 .

Durkheim , E (1989), As Formas Elementares de Vida Religiosa ( publicado pela primeira vez em
1912). São Paulo: Paulinas, 1989.

ENGELS, F. Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã , in MARX, K, ENGELS, F . (1976).

FILORAMO, F., PRANDI, C. As ciências das Religiões . São Paulo: Paulus, 1999 .

FREUD, S., Vol. XXIII, Moisés e o monoteísmo. Três ensaios (1937-1938), in Obras Completas – Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

FREUD, S., Vol. XII, Totem e Tabu. Alguns Pontos de Concordância Entre a Vida Mental dos
Selvagens e dos Neuróticos (1912-1913), in FREUD (1974).

FREUD, S., Vol. XXI, O Futuro de uma ilusão (1927), in FREUD (1974).

FREUD, S. , Vol IX, Atos obsessivos e práticas religiosas , in FREUD (1974).

FREUD, S., Vol XXI, O Mal-estar na civilização (1930), in FREUD (1974).

MARX, K. Crítica da Filosofia do Direito De Hegel (1843-1844), in MARX, K. ENGELS, F . 1976.

MARX, K., Teses sobre Feuerbach (escrito em 1845 – publicado pela primeira vez em 1888), in MARX,
K., ENGELS, F . (1976).

OFFE, C. Trabalho: a categoria sociológica chave? in Capitalismo desorganizado , C. Offe (org.), São
Paulo: Brasiliense, 1989.

SANTOS, B. de S. Pela Mão de Alice. O social e o Político na Pós-modernidade . Porto:


Afrontamento , 1994.

101
Ciência da Religião
UNIDADE 03 - Referências

SANTOS, B. de S. A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência . 3ª ed., São


Paulo: Cortez, 2001.

SIQUEIRA, D. BANDEIRA, L. RIBEIRO, P., OSÓRIO, R . Carisma e narcisismo: as lideranças das


novas religiosidades , in Política, ciência e cultura em Max Weber . COELHO, M. F. P., BANDEIRA,
L. MENEZES, M. L. (orgs). Brasília: Universidade de Brasília, 2000.

SCHERER-WAREN, I. Redescobrindo a nossa dignidade: uma avaliação da utopia da libertação


para a América Latina , in Religião e Sociedade , 15/2-3. Rio de Janeiro: ISER, 1990.

SIQUEIRA, D. As novas religiosidades no Ocidente. Brasília, cidade mística . Brasília: Editora da


UnB, 2003.

TEXEIRA, Faustino (org). Sociologia da religião: enfoques teóricos . Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

VALLE- HOLLINGER, A., SIQUEIRA, D., HOLLINGER, F. Religião e Esoterismo entre estudantes. Um
estudo comparado internacional , in Religião e Sociedade , vol. 22. n. 02, 2002.

WEBER, M. A ciência como vocação , in Metodologia das ciências sociais , v. 02, Campinas:
Unicamp/São Paulo: Cortez, 1992.

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo . São Paulo: Pioneira, 1985.

102