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FICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA 2 1

Poesia trovadoresca
NOME:   N.O:   TURMA:   DATA:

GRUPO I

Parte A
Leia a composição lírica de Pai Soares de Taveirós que se apresenta.

Como morreu quem nunca bem


ouve da rem1 que mais amou,
e quem viu quanto receou
d’ela,2 e foi morto por ém:3
5 Ai mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quem foi amar


quem lhe nunca quis bem fazer4
e de quem lhe fez Deus veer
de que foi morto com pesar:5
10 Ai mia senhor, assi moir’eu!

Com’ ome que ensandeceu,6


senhor, com gram pesar que viu,
e nom foi ledo7 nem dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
15 Ai mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quem amou tal


dona que lhe nunca fez bem,
e quem a viu levar a quem
a nom valia,8 nem a val:
Ai mia senhor, assi moir’eu!

(1) rem: pessoa (o vocábulo rem significa coisa mas nesta cantiga pode adotar-se o significado apresentado).
(2) e quem viu quanto receou/ d’ela,: e quem viu acontecer aquilo que receou acerca dela.
(3) por ém: por isso.
(4) bem fazer: corresponder ao amor.
(5) e de quem lhe fez Deus veer / de que foi morto com pesar: e acerca de quem Deus lhe fez ver alguma coisa
que o fez morrer com desgosto.
(6) ensandeceu: enlouqueceu.
(7) ledo: alegre.
(8) quem a viu levar a quem/ a nom valia: quem a viu ficar com quem a não merecia.

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1 Identifique o género da cantiga trovadoresca, justificando a sua resposta.

2 
Esta cantiga evoca o tema da coita de amor, apresentando-se um paralelismo entre alguém
que morreu de amor e a situação em que se encontra o sujeito poético.

3 
Explique de que forma este paralelismo estrutura a cantiga, fundamentando a sua resposta
com transcrições textuais.

4 
Refira-se ao campo semântico (relacionado com a morte e o lamento) e ao refrão da cantiga,
explicando como contribuem para concretizar a noção de coita de amor.

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Parte B
Leia a composição lírica de Pero Gomes Barroso.1
Poesia trovadoresca

Moir’eu aqui de dessoriam2


e dizem ca3 moiro d’amor;
e haveria gram sabor4
de comer, se tevesse pam;
5 e, amigos, direi-vos al:5
moir’eu do que em Portugal
morreu Dom Ponço de Baiam.6

E quantos m’ est’ a mi dirám7


que nom posso comer d’amor,
10 dê-lhis Deus [a]tam gram sabor
com’ end’ eu hei;8 e v[e]erám
que há gram coita9 de comer
quem dinheiros nom pod’ haver
de que o compr’ e nom lho dam.

(1) Esta cantiga segue a transcrição feita por Graça Videira Lopes na obra Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores
e Jograis Galego-Portugueses, Lisboa, Editorial Estampa, julho de 2002, p. 422.
(2) de dessoriam: de fraqueza, de esvaziamento (de fome).
(3) ca: que.
(4) gram sabor: ter vontade, ter gosto.
(5) al: outra coisa.
(6) Dom Poço de Baiam: fidalgo português, rico-homem das cortes de D. Sancho I, D. Afonso II e D. Sancho II;
possível referência irónica.
(7) m’est’a mi dirám: me dizem.
(8) e nd’eu hei: disso tenho eu.
(9) coita: sofrimento; ânsia.

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1 Identifique o género da cantiga trovadoresca, justificando a sua resposta.

2 
Explique de que forma se pode considerar esta cantiga como uma crítica à noção de coita
de amor presente na lírica trovadoresca.

GRUPO II
Leia o texto seguinte. Em caso de necessidade, consulte as notas.

A poesia de corte compilada no Cancioneiro da Ajuda e nos que se lhe seguem é, naturalmente, muito
diversa da dos cantores rústicos, que correspondem aos gostos e interesses da gente rural, conquanto fossem
também cantados nas vilas e cidades.
Ao contrário da cantiga de amigo, o cantar de amor não sugere ambientes, sejam físicos, determinados
5 por referências ao mundo exterior, ou sociais, resultantes da presença de personagens interessadas no enredo
amoroso; não se refere à mãe, ao santo da romaria, às ondas do mar ou às árvores em flor. Isto resulta de, ao
contrário da poesia popular, esta não ser dramática. Só duas ou três vezes respigamos alusões ao mundo
ambiente: um poeta admirou uma dama por entre as ameias de um castelo; outro perdeu-se por uma mulher
que viu em cabelo entoando um cantar. Estar «em cabelo», nesta época, era uma antecipação de estar nua.
10 Não há espaço à volta nos cantares de amor, se excetuarmos as pastorelas, que imitam de perto as
provençais, mas só a voz que canta na solidão: uma súplica do apaixonado para que a «senhor» reconheça
e premeie o seu «serviço»; ou um elogio abstrato da beleza dela; ou uma descrição dos tormentos do poeta
dirigida à piedade ou «mesura»1 da «senhor».

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1
O amor era concebido à maneira cavaleiresca, como um «serviço». O cavaleiro «servia» a dama pelo
15 tempo que fosse necessário para merecer o seu galardão. Consistia esse serviço em dedicar-lhe os pensa-

mentos, os versos e os atos; em estar presente em certas ocasiões; em não se ausentar sem licença, etc.

Poesia trovadoresca
O servidor está para com a «senhor» como o vassalo feudal para com o suserano.
A regra principal deste «serviço» era, além da fidelidade, o segredo. O cavaleiro devia fazer os possíveis
para que ninguém sequer suspeitasse do nome da sua senhora, indo até ao sacrifício de se privar do seu
20 convívio, ou de se fingir apaixonado por outra. O disfarce, que consistia em dedicar versos a uma dama para

ocultar a verdadeira amada, era frequente.


Na grande maioria das cantigas de amor, os requerimentos assíduos de «servidor» visam conseguir da
«senhor» uma coisa que se designa pela expressão «fazer bem». É fácil compreender o que significa este
eufemismo: um poeta, referindo-se a uma soldadeira venal2, conta que ela não lhe quer «fazer bem» sem
25 que primeiro o pretendente lhe pague um maravedi3. O rei D. Dinis, tendo conseguido da «senhor» dos seus

cantares de amor que ela fizesse todo o «ben» sem faltar nada, pede-lhe, no fim, segredo mútuo, porque,
diz, se este «preito»4 for sabido, nem ele nem ela tirarão daí estima nem louvor.
Mas o que é próprio das cantigas de amor e do seu modelo provençal é a distância a que o amante se
coloca em relação à sua amada, a que chama senhor, tornando-a um objeto quase inacessível; a atitude é a
30 de uma espécie de ascese abstinente, seja qual for a realidade a que as palavras servem de cortina. A regra

do segredo não é só, porventura, uma precaução exigida por amores clandestinos, numa sociedade em
que o adultério era punido por lei constantemente transgredida, mas uma regra ascética que tornava o amor
mais intenso quanto mais solitário e à margem da sociedade. O amor trovadoresco e cavaleiresco é, por
ideal, secreto, clandestino e impossível.
António José Saraiva, O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, Lisboa, Gradiva Publicações Lda., s.d. (com adaptações).

1
Mesura: reverência, cortesia
2
Soldadeira venal: mulher que atuava nas festas a troco de um pagamento em dinheiro
3
Maravedi: moeda antiga
4
Preito: pacto

1 
Para responder a cada um dos itens de 1.1 a 1.7, selecione a opção correta. Escreva, na folha
de respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.
1.1 O excerto apresentado centra-se na aceção de que o amor cortês é
(A) a base da poesia criada pelos trovadores.
(B) uma das temáticas da poesia feminina peninsular.
(C) a base em que assentam as cantigas de amor peninsulares.
(D) um reflexo da relação entre o trovador e os suseranos.
1.2 A expressão «o cantar de amor não sugere ambientes» (linha 4) refere-se ao facto de
(A) as cantigas de amor serem sem exceção, reflexões do eu sobre o amor.
(B) as cantigas de amor, normalmente, não mencionarem cenários nem personagens.
(C) as cantigas de amor serem, sem exceção, reflexões do eu sobre a sua «senhor».
(D) as pastorelas não terem qualquer cenário.
1.3 N
 o trecho «o servidor está para com a “senhor” como o vassalo feudal para com o suserano»
(linha 17), compara-se
(A) o trovador com um cavaleiro que presta um serviço essencial ao seu senhor feudal.
(B) a «senhor» amada a um senhor feudal a quem se deve vassalagem e a quem se prestam
serviços.
(C) a «senhor» a uma dama que tem o direito de governar e atribuir sentenças.
(D) o trovador a um vassalo que cumpre as tarefas para ser recompensado.
1.4 O preceito fundamental do amor cortês consistia
(A) em ser leal à «senhor» de forma discreta.
(B) em divulgar o amor pela «senhor».
(C) na dedicação exclusiva à amada.
(D) no sigilo acerca da identidade da «senhor».

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1
1.5 N
 a frase «É fácil compreender o que significa este eufemismo» (linhas 23-24), o vocábulo
«eufemismo» indica que «fazer bem» é uma forma de
(A) enfatizar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».
Poesia trovadoresca

(B) exagerar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».


(C) atenuar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».
(D) disfarçar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».
1.6 O
 valor aspetual presente na frase «O amor trovadoresco e cavaleiresco é, por ideal, secreto,
clandestino e impossível» (linhas 33-34) é
(A) genérico.
(B) habitual.
(C) iterativo.
(D) imperfetivo.
1.7 O texto apresentado pode enquadrar-se no género
(A) narrativo.
(B) descritivo.
(C) argumentativo.
(D) expositivo.

2 
Identifique a função sintática desempenhada pelos constituintes indicados.
a) «de corte» (linha 1)
b) «o cantar de amor» (linha 4)
c) «as provençais» (linhas 10-11)

3 
Identifique os processos fonológicos envolvidos na evolução dos seguintes termos do latim
para o português contemporâneo.
a) gram > grande
b) moiro > morro
c) veer > ver

4 
Classifique as orações subordinadas presentes nas expressões seguintes.
a) «que viu em cabelo» (linha 9)
b) «se excetuarmos as pastorelas» (linha 10)
c) «para que ninguém sequer suspeitasse do nome da sua senhora» (linha 19)

GRUPO III
A partir do texto de António José Saraiva apresentado no Grupo II, construa uma síntese bem estruturada
do mesmo texto, com um mínimo de cento e oitenta e um máximo de duzentas e dez palavras.

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