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T H E O D O R W.

ADORNO A atualidade da Crítica


Vol.2
Comitê Científico

Bruno Pucci – Universidade Metodista de Piracicaba

Douglas Garcia Alves Júnior – Universidade Federal de Ouro Preto.

Eduardo Soares Neves Silva – Universidade Federal de Minas Gerais

Fábio Akcelrud Durão – Universidade Estadual de Campinas

Hans-Georg Flickinger - Universidade de Kassel

Imaculada Maria Guimaraes Kangussu – Universidade Federal de Ouro Preto

Luiz Roberto Gomes – Universidade Federal de São Carlos

Marcelo Leandro dos Santos - Centro Universitário Univates

Martin Niederauer – Fakultät Gestaltung Würzburg

Oneide Perius – Universidade Federal do Tocantins, Campus de Palmas

Ricardo Timm de Souza – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte – Universidade Federal de Minas Gerais

Silvio César Camargo – Universidade Estadual de Campinas

Verlaine Freitas – Universidade Federal de Minas Gerais

Vladimir Pinheiro Safatle – Universidade de São Paulo

José Antônio Zamora Zaragoza – Centro de Ciencias Humanas y Sociales (CSIC/Madrid)


T H E O D O R W.

ADORNO A atualidade da Crítica


Vol.2

Ricardo Timm de Souza . Fábio Caires . Marcos Messerschmidt


Renata Guadagnin . Pedro Savi Neto . Marcelo Leandro dos Santos
Oneide Perius (Orgs.)

φ
Diagramação e capa: Lucas Fontella Margoni
Arte da capa: Talins Pires de Souza

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


SOUZA, Ricardo Timm de; CAIRES, Fábio; MESSERSCHMIDT, Marcos; GUADAGNIN, Renata;
SAVI NETO, Pedro; SANTOS, Marcelo Leandro dos; PERIUS, Oneide (Orgs.).

Theodor W. Adorno: a atualidade da crítica: vol. 2[recurso eletrônico] / Ricardo Timm de


Souza; Fábio Caires; Marcos Messerschmidt; Renata Guadagnin; Pedro Savi Neto; Marcelo
Leandro dos Santos; Oneide Perius (Orgs.). - Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2017.

588 p.

ISBN - 978-85-5696-254-6

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Theodor W. Adorno; 2. Teoria crítica; 3. Congresso internacional; 4. Estética. 5. Escola


de Frankfurt I. Título.
CDD-100
Índices para catálogo sistemático:
1. Filosofia 100
Crítica do poder, less eligibility e
personalidade autoritária: o poder
punitivo e a primeira geração da Escola
de Frankfurt
Matheus Boni Bittencourt1
Robson Rocha de Souza Júnior2

Introdução

A teoria crítica parte de um pressuposto fundamental que


visa evitar a hipostaziação dos conceitos a serem empregados na
análise, tendo em vista a natureza processual da realidade humana,
o que também determinará, de forma decisiva, sua orientação
metodológica fundamental. Essa premissa básica da dialética
negativa supõe a impossibilidade de uma síntese entre conceito e
realidade, em função do princípio da não-identidade, tendo como
pressuposto a impossibilidade de superar a tensão entre conceito e
objeto, sendo preferível, na verdade, optar por se valer dessa
tensão para aperfeiçoar a análise através de um procedimento
circular entre conceito e objeto, na medida em que são os conceitos
que precisam se moldar aos objetos e não o contrário. Como
afirma Adorno, “O não-conceitual, indispensável para o conceito,

1 Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio


Grande do Sul e bolsista CAPES. E-mail: matheusb2@yandex.com
2 Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul e bolsista CAPES. E-mail: robson.rocha.jr@hotmail.com
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desmente o seu em-si e o altera.”3. Logo, ainda que não seja


possível analisar qualquer realidade sem lançar mão de conceitos,
esses conceitos prévios precisam ser relativizados, para que se
tornem capazes de depreender os significados dos objetos visados
na análise. O que se deve evitar é a petrificação desse aporte
epistemológico, objetivo a ser alcançado pela relativização dos
conceitos em função de sua aplicação prática, tornando a
perspectiva teórica adotada plástica e ajustável aos problemas
encontrados em campo. Com esse precaução em mente,
elaboramos, neste artigo, uma leitura sobre a contribuição da
primeira geração da Escola de Frankfurt à compreensão do poder
punitivo. Selecionamos três autores – Walter Benjamin, Georg
Rusche e Theodor Adorno – e destes uma contribuição específica.
Em Benjamin, abordaremos o ensaio crítico sobre violência e
direito. Em Georg Rusche, a análise histórico-sociológica da
conexão entre sistema socioeconômico e aparelho punitivo. Em
Theodor Adorno, a constituição da personalidade autoritária como
base sociopsíquica da política extremista.

Walter Benjamin e a crítica da violência/poder

A contribuição de Walter Benjamin se concentra


primordialmente no ensaio Para uma crítica da violência4, de
1921. Neste ensaio, Benjamin pretende realizar uma crítica, no
sentido kantiano de delimitação, fundamento e elucidação, sobre a
violência, ao pretender relacioná-la com as questões de justiça.
Toda violência utilizada como meio para fins, segundo Benjamin,
suscita questões morais e jurídicas. É, sempre, uma violência que
tende à negação ou afirmação do Direito, à sua instauração ou

3 ADORNO, T.W. Dialética negativa. Tradução de Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2009, p. 121.
4 BENJAMIN, W. “Para uma crítica da violência”. In: BENJAMIN, W. Escritos sobre mito e
linguagem. Tradução de Ernani Chaves. Organização de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Editora
34; Duas Cidades, 2011. p. 121-156.
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defesa da lei.
Segundo Benjamin, há duas posturas tradicionais pelas quais
se aborda a relação entre meios e fins da violência e do Direito. A
primeira é a doutrina dos direitos naturais. Esta afirma que o
critério fundamental para a distinção da justiça é o dos fins. Toda
violência é justa quando serve aos fins de realização dos direitos
naturais, e tudo o que não serve para tais fins é injusto. A
perseguição dos fins naturais que exigem do uso da violência pelo
indivíduo é considerada inadequada, e por isso a violência deve ser
monopolizada pelo Estado, a fim de que a violência estatal, única
eficiente para a defesa dos direitos naturais, seja utilizada para fins
justos. A segunda é o chamado positivismo jurídico, que se
fundamenta no reconhecimento do caráter historico do Direito
realmente existente. Partindo daí, o positivismo jurídico se
preocupa com a justeza dos meios para a obtenção dos fins
jurídicos historicamente sancionados. É, de alguma maneira, do
positivismo jurídico que parte Walter Benjamin para a realização
da sua crítica da violência e do Direito, mas com uma importante
ressalva: ele via, tanto no naturalismo jurídico quanto no
positivismo jurídico, uma concepção dogmática que em última
análise convergia em um ponto essencial. Fins justos exigem meios
justos para serem alcançados, e os meios justos são adequados
para a obtenção de fins justos. Os critérios de justiça não podem
ser reduzidos ao Direito, pois a sua própria justeza do é que está
em questão. A legalidade não pode servir de critério para si
mesma, precisa ser avaliada.
A relação entre Direito e violência segue duas vias distintas
como relação entre meios e fins. Porque não basta saber se a
violência serve a fins jurídicos, é preciso ainda saber se a violência
tem produtos jurídicos. Daí a distinção entre uma violência que
instaura legalidades, e uma violência que impõe e defende as
normas jurídicas existentes. Essa distinção entre a violência como
instauradora ou como reforçadora do Direito é fundamental na
reflexão de Walter Benjamin. Porém não pode ser considerada
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estanque, nem como resumidora da sua teoria da violência.


Os casos problemáticos, levantados pelo ensaísta, são
demonstrativos de como a distinção entre a violência como
instauração e como imposição do Direito é fluída. São estes o
grande criminoso, a greve, a guerra e a polícia.
O grande criminoso, segundo Benjamin, é uma figura que, à
despeito de utilizar a violência para fins injustos (ética e
juridicamente), acaba por merecer uma secreta admiração por
parte do povo. Esta admiração secreta provém de sua atitude de
desafio às leis vigentes. Na medida em que usa da violência para
fins pessoais, desafia a violência legalmente sencionada ou
instauradora do Direito, constituindo, ainda que de maneira
episódica e precária, uma negação da violência que instaura ou que
defende ordens jurídicas.
A greve é uma forma de violência coletiva que o Estado
concede ao operariado de maneira legal, porém dentro de limites
muito bem definidos. É considerada um tipo de violência porque se
trata, afinal de contas, de uma tentativa de chantagem dos que só
possuem a força de trabalho contra os que são donos e gerentes do
capital. É importante notar que “violência”, em Benjamin, não é
necessariamente agressão direta e potencialmente letal, embora
esta esteja entre as modalidades de violência. Se refere, sobretudo,
ao exercício do poder coercitivo. E, nessa medida, o Estado tolera
dentro de rígidos limites a violência coletiva do operariado: dentro
de um uso parcial, autolimitado, excepcional. E dentro de tais
limites, os trabalhadores podem utilizar a violência coletiva, a
chantagem da greve, para forçar a instauração ou defesa de
direitos e garantias sociais para quem vive do trabalho.
Ultrapassados tais limites, a greve (e os grevistas) tornam-se alvo
da violência de imposição do Direito.
De maneira análoga à greve, uma violência legítima tolerada
pelo Estado, dentro de limites precisos, no âmbito interno, e por
pressão da classe operária, a guerra é uma forma de violência
instauradora do Direito num plano interno que se origina da
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pressão externa mútua entre os Estados. Porém, a violência da


guerra, no período de serviço militar obrigatório, se torna também
preservadora do Direito, uma vez que a utilização universal dos
indivíduos para os objetivos militares tornou-se uma finalidade
juridicamente legitimada. De fato, o militarismo pode ser resumido
como uso da violência como meio universal para fins estatais,
segundo Benjamin.
Se na guerra, na violência militar, Benjamin via uma
dualidade entre a violência como instauradora e conservadora do
Direito, na polícia ele via uma verdadeira fusão entre as duas
dimensões da violência. Na polícia estaria suspensa a distinção
entre a violência que instaura e a violência que preserva o Direito,
a partir do poder de vigiar, decidir, ordenar e intervir “por razões
de segurança”, ou seja, por força dos fatos (e pelos fatos de força)
mais do que por razões de direito propriamente ditas, constituindo
uma espécie de anomalia sob os regimes democráticos.
Estas distinções conceituais, no entando, se referem todas à
violência enquanto instrumento, e, portanto, à problemática ética e
jurídica da relação entre os meios e fins do direito, sobre a
adequação dos fins e a adequação dos meios. Tanto a violência
instauradora quanto a violência reforçadora do direito participam,
de uma maneira ou de outra, da chamada violência mítica, aquela
que consiste num ciclo entre instauração e conservação da ordem
jurídica. Benjamin rejeita o discurso pacifista, segundo o qual a
solução para a quebra do círculo vicioso de instauração e imposição
da lei pela violência seria apenas a rejeição da violência enquanto
tal, a sacralização da vida.
Pelo contrário, Benjamin insiste que a vida em si não é
sagrada, pois o que importa é a vida justa. O que o ser humano “é”,
atualmente, num estado de miséria e injustiça, é menos importante
do que aquilo que ele “pode ser” num mundo justo, uma vida justa.
A vida em si, ou “mera vida”, na verdade, é o objeto da violência
mítica, não podendo ser-lhe oposta, pois é a sua própria condição.
Benjamin imagina, então, que o ciclo vicioso da violência
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mítica só poderia ser quebrado por uma violência originária, pura,


desprovida de finalidades que pudessem produzir e reforçar o
direito. Encontra um arquétipo desse tipo de violência no mito de
greve geral, de Georges Sorel. Uma ação coletiva que não teria um
objetivo ou projeto específico, não visaria à conquista ou defesa de
direitos para os trabalhadores, apenas a pura e simples violência
negadora do Estado capitalista. A greve geral imaginada por Sorel
pertenceria a um tipo de violência aniquiladora do direito,
chamada de “violência divina” ou “violência que reina”, que de fato
tem como único exemplo algumas narrativas da Torá judaica. Para
Benjamin, a crítica da violência coincide com a filosofia da história
da violência.
Este ensaio, bastante conciso e denso, mas ainda assim
relativamente claro nas suas conceituações, expôs algumas
problemáticas que foram retomadas por teorizações
contemporâneas. Uma delas é a de Georgio Agamben5 6, que
buscou aproximar a ideia de “mera vida”, que aparece no ensaio de
Benjamin como objeto da violência mítica, ao conceito de biopoder
elaborado por Michel Foucault. Constrói, daí, a ideia de “vida nua”
como objeto do poder soberano, retomando assim a problemática
benjaminiana do estado de exceção, que está implícito, por
exemplo, na sua conceituação da guerra e da polícia, mas se tornou
explícita nas Teses sobre a história7. Outra reflexão que muito
deve a Benjamin é a de Slavoj Zizek no ensaio Violence8, cuja
argumentação é construída em torno da distinção entre violência
subjetiva e violência objetiva e simbólica. Enquanto a violência

5 AGAMBEN, G. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Trad. Henrique Burigo, Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2002.
6 AGAMBEN, G. Estado de Exceção. Trad. Iraci D. Poleti, São Paulo: Boitempo Editorial , 2004.
7 BENJAMIN, W. “Teses sobre o conceito de história”. Tradução de Jeanne Marie Gagnebin e
Marcos L. Müller. In: LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio – uma leitura das teses “sobre o
conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 41-142.
8 ŽIŽEK, S. 2009. Violência: seis notas à margem. Tradução de Miguel Serras Pereira. Lisboa:
Relógio D’Água.
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subjetiva é aquela que possui culpados personalizáveis (indivíduos,


grupos e até governos), a violência objetiva é aquela
necessariamente produzida pela reprodução do sistema político-
econômico dominante, sem culpados claramente identificáveis e,
mais ainda, sequer percebida como violência. E a violência
simbólica é aquela inerente à imposição de significados
consensuais pela linguagem, fundando os universos culturais que
referenciam os sentidos das práticas sociais.

Georg Rusche e a less elegibility

A conexão entre as instituições penais e a organização do


trabalho foi ressaltada por Georg Rusche9 e Otto Kirschheimer10. A
conexão se daria não apenas no nível de diferenciação funcional,
embora a este remetesse também, de maneira indireta e
subordinada, pois o principal seria a correspondência entre os
mecanismos punitivos e o modo de produção. A ideia de modo de
produção é mais complexa que a de divisão do trabalho, pois inclui
a capacidade social de trabalho e a estrutura de propriedade dos
meios de produção. Em outras palavras, a divisão do trabalho não
teria apenas um caráter de “integração social”, contribuindo para
difundir a interdependência universal por meio da diferenciação
social, como também um caráter de relação de poder e conflito, na
medida em que permitiria a apropriação parcial dos produtos do
trabalho alheio. Inicialmente por meio da coerção direta, pessoal
ou religiosa (impostos, trabalhos forçados etc), e posteriormente
disfarçada por meio do contrato de trabalho assalariado,
formalmente livre e igualitário. Assim, o aprofundamento da
divisão do trabalho não teria necessariamente o caráter de uma
pacífica progressão rumo à diferenciação funcional e

9 RUSCHE, G; DINWIDDIE, G. Labor market and penal sanction: Thoughts on the sociology of
criminal justice. Crime and Social Justice, n. 10, p. 2-8, 1978
10 RUSCHE, G; KIRCHHEIMER, O. Punição e estrutura social. Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1999.
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interdependência universal, porém assumindo um caráter muitas


vezes estratégico, quando observado num nível da unidade de
produção, como as fábricas. A história da divisão intraempresarial
do trabalho mostra como essa nem sempre obedeceu a critérios de
pura eficiência tecnológica, e menos ainda de integração social dos
empregados, havendo, na verdade, uma utilização da divisão do
trabalho como instrumento organizacional de subjugação do
trabalho ao capital11. O mesmo é observável em relação ao emprego
extensivo e intensivo da maquinaria e do controle do tempo de
trabalho, e até do tempo de lazer, dos operários assalariados12 13.
Fica assim questionado o suposto estatuto científico e neutralidade
de uma “ciência da administração” que busca aumentar a
produtividade, mas também estimular a submissão disciplinada e
obediente dos trabalhadores empregados no interior de cada
empresa, e em um nível nacional a colaboração de classes sob a
supremacia do empresariado capitalista14. No entanto, essa
disciplina no interior do processo de trabalho jamais prescindiu de
uma disciplina externa ao trabalho, imposta por meio de processos
de penalização seletiva, mobilizando um aparato estatal cujas bases
eram recrutadas entre a própria classe trabalhadora (exército e
polícia) e subordinado à alta burocracia do Estado (esta sim
recrutada entre as classes privilegiadas). A vinculação entre a
estrutura econômico-social e os mecanismos jurídicos e punitivos
não deixou de ser notada pelo próprio Marx, tanto na sua
juventude (Crítica da filosofia do direito de Hegel) quanto na sua
maturidade, quando observou o importante papel que os exércitos,

11 MARGLIN, S. “Origem e funções do parcelamento de tarefas. Para que servem os patrões?” In


André Gorz (org.). Crítica da Divisão do Trabalho. Tradução: Estela dos Santos Abreu. 2ª ed. São
Paulo: Martins Fontes, 1989, pp.37-77
12 THOMPSON, E. P. “Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial”. In: Costumes em
comum. Trad. Rosaura Eichemberg. Editora Schwarcz, São Paulo:1998.p. 267 – 304.
13 MARX, K. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
14 NEFFA, J.C. El proceso de trabajo y la economia del tiempo: contribuición al analisis crítico de K.
Marx, F.W. Taylor y H. Ford. Buenos Aires: Humanitas, 1990.
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tribunais e punições tiveram no processo de acumulação primitiva


de capital, como também na estabilização da dominação burguesa
quando esta classe logrou conquistar a hegemonia social. Marx,
porém, não sistematizou essa ideia.
Rusche e Kirchheimer rechaçavam as funções oficiais da
pena como dissuasão e controle sobre os criminosos, com vistas à
redução do crime violento. Porém, aceitavam outro tipo de
instrumentalidade do direito penal: a política. A lei criminal passa a
ser vista, então, como um recurso estratégico das classes
dominantes para o controle coercitivo da força de trabalho. De fato,
para Rusche (no que Kirschheimer o seguiu) a penalidade não era
uma técnica de controle do crime, e sim uma técnica de sujeição
dos trabalhadores, com o objetivo de assegurar a exploração do
trabalho e suprimir tanto os efeitos indesejados quanto as
tentativas conscientes de subversão da ordem dominante. Teria
sido assim no feudalismo, quando o direito tradicional fora
utilizado pela nobreza feudal para a sujeição do campesinato. E
persistia assim, sob o capitalismo, com a maior centralidade do
encarceramento como medida punitiva (e não apenas cautelar).
Inicialmente, dada a relativa escasses de força de trabalho livre,
uma das principais funções do cárcere era fornecer trabalho
escravo à indústria, mediante o encarceramento de vadios e
pequenos criminosos. Com a consolidação do capitalismo, o
cárcere tornou-se a punição padrão e oscila entre funções de
“controle e ressocialização” e funções “terroristas”. A distinção
entre ambas se daria por grau, já que são apenas variações do
mesmo dispositivo, o encarceramento. O princípio regulador da
dureza do cárcere seria a “less elegibility”, segundo o qual as
condições de vida dentro da prisão serão sempre inferiores às
piores condições de vida fora da prisão. Assim, no contexto de uma
superpopulação relativa, a repressão assume um caráter
abertamente terrorista, de maior desprezo pela vida, no sentido de
eliminar ou incapacitar indivíduos considerados supérfluos ou
ameaçadores para a manutenção da ordem política, da propriedade
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privada e da acumulação de capital. Este funcionamento das


instituições penais não seria uma “expressão” ou epifenômeno,
mas um mecanismo que de fato teria contribuído para a ascensão e
a reprodução do capitalismo. Não expressaria a penalidade a
integração social, e sim a lógica implacável da dominação e
exploração, aplicada não a todos os cidadãos, e sim àqueles mais
marginalizados ou rebeldes dentre os explorados como força de
trabalho pelas classes dominantes e proprietárias. Apesar das suas
evidentes virtudes, essa análise deixa de fora especificamente dois
aspectos: primeiramente, as dimensões simbólicas e
organizacionais da punição, que apesar de muitas vezes violenta,
não pode ser reduzida a simples coerção física direta, pois encerra
conteúdos culturais. E o caráter crescentemente formalizado,
especializado e estatizado da coerção punitiva. Essas lacunas
derivam da menor atenção dada à organização interna das
instituições carcerárias e sua relação com a organização do
processo de trabalho15.
Coube a Michel Foucault16 a atenção a estes aspectos e uma
análise capaz de conjugar os elementos: uma análise dos conteúdos
culturais e funções políticas da punição, pensada como ritual
simbólico sobre o corpo e a alma, e como instrumento quase
técnico e organizacional de controle sobre uma força de trabalho
explorável para fins de acumulação de capital. Apesar do
pioneirismo de Rusche ao analisar a relação externa entre a
organização econômica e as instituições punitivas, foi Foucault
quem primeiro se deteve sobre a organização interna das formas
de castigo com a mesma atenção e detalhe que Marx dispensara à
organização fabril, encontrando até mesmo uma analogia profunda
entre a prisão e a fábrica. Assim, se a fábrica, como protótipo da
organização capitalista do trabalho em geral, tendia a esvaziar e

15 RUSCHE, G; KIRCHHEIMER, O. Punição e estrutura social. Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1999.
16 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2009. E também FOUCAULT, M. A verdade e
as forças jurídicas. Rio de Janeiro: NAU editora, 2003.
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desarticular o controle do trabalhador sobre o processo de


produção, reduzindo cada produtor individual a um “órgão” da
maquinaria tecnológica e econômica de acumulação de capital,
também o prisioneiro era cada vez mais submetido a uma estrita
disciplina organizacional e judiciária que regulava seus horários,
deslocamentos, atividades e interações sob uma estrita vigilância,
até o ponto em que a internalização do olhar que tudo vigia
dispensasse até mesmo a existência de um vigia real, como no
panopticon de Bentham. A prisão e a fábrica passam a ser
consideradas, ao lado ainda das instituições educacionais, militares
e medicinais, como mecanismos institucionais de uma rede
descentralizada de micropoderes que são operados no cotidiano,
modelando subjetividades disciplinadas, chegando ao ponto de
tornar útil e funcional ao exercício do poder burguês a própria
criminalidade, incorporada às estratégicas e táticas micropolíticas
mediante a gestão de ilegalismos. A relação entre o cárcere e a
fábrica foi aprofundada, pouco depois, por Melossi e Pavarini17, que
compararam os diferentes modelos penitenciários existentes na
Itália e nos Estados Unidos no século XIX.

Theodor Adorno e a “personalidade autoritária”

A contribuição de Adorno acerca da formação de


personalidades autoritárias representa de forma paradigmática o
esforço deste autor de associar a análise materialista da história
aos princípios da psicanálise freudiana, esforço cristalizado na obra
The authoritarian Personality18. O principal fundamento de sua
análise a formação da personalidade está em função da situação
histórica da estrutura social onde emergiu, tendo como base
fundamental a constituição do Ego, já que essa instância psíquica é

17 MELOSSI, D & PAVARINI, M. Cárcere e fábrica: As origens do sistema penitenciário (séculos


XVI-XIX). Rio de Janeiro, Revan/ICC, 2006.
18 ADORNO, T.; Frenkel-Brunswik; E, Levinson, D.J e Sanford, R. N. The Authoritarian
Personality. Nova Iorque: Harper and Row, 1950
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responsável por integrar a personalidade e regular a relação do


indivíduo com a realidade e com suas pulsões libidinais.
A complexidade dessa análise logo se tornou evidente, pois
não se verificou um paralelismo direto entre a adesão explícita às
ideologias conservadoras e a assunção de traços autoritários nas
personalidades. Os resultados indicavam, na verdade, a
possibilidade de indivíduos com personalidades autoritárias
assumirem racionalizações ideológicas com aspectos conservadores
ou liberais, o que evidenciava a constituição de uma relação
dialética entre ideologia e personalidade. Esses resultados
descontínuos se mostraram especialmente profícuos, tendo em
vista a possibilidade de evidenciar a padronização de perfis
autoritários justificados por racionalizações diametralmente
opostas, o que constitui a grande inovação desse trabalho de
Adorno.
Essa padronização atuaria num nível que antecede a
racionalização levada a cabo na assunção explícita de uma
ideologia justificadora, o que indica uma determinação prévia que
atua no inconsciente e modela o caráter dessas personalidades.
Sendo assim, o processo de racionalização ideológica não indica
diretamente o caráter autoritário das personalidades, pois essa
constituição se forma antes, na determinação caracteriológica da
personalidade. Haveria duas possibilidades: indivíduos que
assumem uma posição conservadora ou liberal através de um
cálculo racional condizente com a realidade, permitindo, assim,
uma adequação bem orientada a ela; e indivíduos que assumem
essas posições por motivações irracionais, deformando sua
adequação à situação presente por uma má formação de sua
personalidade no passado. Essa última possibilidade se justificaria
por uma dissolução incompleta do complexo de Édipo, o que
permitiu a Adorno a formulação de uma classificação tipológica
complexa da personalidade autoritária.
Matheus Boni Bittencourt; Robson Rocha de Souza Júnior | 391

Segundo a argumentação de Rouanet19, a formulação mais


geral da formação de personalidades autoritárias no pensamento
de Adorno, tem como princípio fundamental o papel do pai na
formação do Ego20, o que implica na consideração da superação ou
não do complexo de Édipo, e ao tema correlato da manipulação de
dois mecanismos psicológicos fundamentais para a formação, no
capitalismo tardio, das personalidades débeis que, em virtude de
sua má formação, se tornam susceptíveis a assunção de traços
autoritários: a identificação21 e a projeção22. Temas esses que serão
teorizados por Adorno a partir da formulação anterior de Erich
Fromm.
De acordo com Rouanet23, a formulação de Fromm sustenta
que é a partir da relação com o pai que o Ego alcança sua forma
típica. Para ele o conflito edipiano representaria a forma da

19 ROUANET, S. P. Teoria Crítica e Psicanálise. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989.


20
A formação do Ego, instância central na constituição psíquica para Freud (“Formulações sobre
os dois princípios do funcionamento mental”. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.), depende da renúncia da mãe
como objeto de amor e da consequente identificação com o pai, o que ocorre com a introjeção da
autoridade e a criação do Superego que prescreve o que deve ser feito e proscreve o que não pode ser
feito. Como a imagem do pai corresponde aos valores sociais vigentes, essa identificação implica na
introjeção da normatividade social.
21
Para Freud (Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”. Edição Standart
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago,
1996.), a formação da individualidade depende deste mecanismo psicológico fundamental que atua
desde a superação do complexo de Édipo. Segundo sua concepção, a personalidade nada mais seria
do que uma síntese das identificações que o indivíduo estabelece ao longo da vida, tendo como base a
identificação com a figura do pai. A formação de um Ego forte está na base das personalidades
suficientemente autônomas.
22
Segundo Freud (Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”. Edição
Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro:
Imago, 1996.), todo sujeito identifica, desde cedo, duas fontes de desprazer: a externa e a interna. Em
relação às ameaças de fora a atitude assumida pelos indivíduos é a fuga. Já as ameaças internas
seriam pulsões indesejadas que precisam ser expulsas de si antes da fuga, o que é empreendido pelo
mecanismo da projeção, responsável pela atribuição do desprazer interno a algum agente ou objeto
externo. Em virtude desse movimento de dentro para fora a projeção contribui de maneira
fundamental para a formação da barreira que distingue o que é interno e externo à psique,
constituindo a noção de realidade e fortalecendo a formação do Ego, substrato constante dessa
projeção.
23 ROUANET, S. P. Teoria Crítica e Psicanálise. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989.
392 | Theodor W. Adorno: a atualidade da crítica: vol. 2 - Comunicações

ideologia, enquanto que a história concreta seria seu conteúdo.


Haveria, então, duas formas de lidar com esse conflito. O modo
subversivo teria como elemento chave o ódio pela figura paterna, o
que se manifestaria numa reação contra a autoridade, enquanto
que o modo conservador se sustentaria no amor pelo pai,
redundando numa identificação com a autoridade. Isso significa
que, apesar de a estrutura pulsional ser inexoravelmente modelada
pelas condições socioeconômicas, a personalidade que é
engendrada nessa formação pode reagir de forma conformista ou
contestadora. Segundo Fromm, há ainda uma relação de mútua
dependência entre o Superego e as autoridades externas. Por um
lado, porque o Superego nada mais é do que uma introjeção da
normatividade externa vigente, o que é possível através da
identificação com o pai, enquanto que, por outro lado, as
autoridades externas seriam legitimadas pela projeção dos
atributos da autoridade paterna. O Ego débil se caracteriza pela
sujeição à autoridade, em função de um enfraquecimento
provocado por uma imposição extrema do Superego, o que levaria
o sujeito a uma dependência em relação às autoridades sociais
vigentes.
Adorno e Horkheimer24 partem dessa formulação de
Fromm, mas alcançam uma formulação mais sofisticada, o que
fora possível por um processo de relativização dialética desta
relação. Fundamentalmente, esses autores buscarão demonstrar
que não há apenas uma forma de debilitação da personalidade, o
que implica numa multiplicidade de relações patológicas para com
a imagem paterna. O tipo autoritário seria a resultante de uma
relação ambígua com o pai, em parte amado e em parte odiado. A
classificação de Adorno acerca dos tipos de personalidade
autoritária é sofisticada o suficiente para permitir um mapeamento
bastante refinado dos diversos tipos débeis de personalidade que

24 HORKHEIMER, M & ADORNO, T.W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
Matheus Boni Bittencourt; Robson Rocha de Souza Júnior | 393

podem ser encontrados, o que foge dos objetivos desse trabalho.


Apesar dessa multiplicidade, porém, todos eles partem de
um pressuposto fundamental: a manipulação, no capitalismo
tardio, daqueles mecanismos psicológicos já salientados. O
primeiro desses mecanismos é a identificação que, para Adorno e
Horkheimer25, é manipulado nesta fase do capitalismo com a
finalidade de estabelecer uma relação direta de identidade entre o
inconsciente e o sistema vigente, sem a necessidade da mediação
de qualquer instância intrapsíquica. Nessa fase, então, o
mecanismo de identificação atua como fator de dissolução do Ego,
pois o indivíduo é levado a se identificar com a padronização26 do
sistema para se apagar nele, permitindo assim um controle
imediato das pulsões do Id. Assim, a individualidade é expropriada
e o indivíduo é levado a se identificar com padrões que o sistema
capitalista oferece através da Indústria Cultural. A meta dessa
padronização é a superação do risco da autonomia do indivíduo, o
que é possibilitado pela liberação completa do Id através da
deposição da função reguladora do Ego e da perda dos poderes de
representação social por parte do Superego. Com isso, o indivíduo
acaba por mergulhar no existente de modo irresistível,
promovendo a identificação com o mundo padronizado da
Indústria Cultural.
Essa identificação é complementada pelo mecanismo de
projeção. Para Adorno e Horkheimer27, assim como para Freud28,

25 HORKHEIMER, M & ADORNO, T.W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
26
(fragmentação – disposições autoritárias – Althemeyer – indivíduos se apropriam de
disposições autoritárias que por não possuírem coerência interna, incitam a fragmentação do ego, o
que acaba por dissolvê-la).

27 HORKHEIMER, M & ADORNO, T.W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
28 FREUD, S. “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”. In: Edição
Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro:
Imago, 1996.
394 | Theodor W. Adorno: a atualidade da crítica: vol. 2 - Comunicações

existem tanto projeções normais como projeções falsas. A projeção


normal estaria na base de processos epistemológicos
fundamentais, na medida em que empreende a estruturação
reflexiva das impressões do mundo exterior. Ela pode ser
considerada, então, uma estruturação da realidade externa a partir
de processos psíquicos internos, o que permite que o sujeito receba
informações caóticas da realidade para posteriormente devolvê-las
de forma estruturada. Mas o que os interessa, na verdade, são as
falsas projeções: a paranoia e o positivismo. Ambas promovem a
construção de uma realidade delirante, em que o objeto, ao invés
de ser compreendido, é cancelado. Na paranoia a realidade é
construída a partir da cega produtividade do sujeito, o que ocorre
quando o sujeito torna absoluta a estruturação reflexiva do real,
enquadrando-o numa sistematização lógica desvinculada da
realidade. Já o positivismo consiste na recepção não refletida do
material da realidade externa que posteriormente é devolvido
como um fato bruto, de tal forma que os dados são absorvidos
mecanicamente e devolvidos sem qualquer acréscimo.
Essas projeções falsas estão na base da Indústria Cultural,
pois nela o real se apresenta diretamente à percepção, sem que
haja qualquer colaboração do indivíduo na sua construção. Com
isso, o conhecimento perde seu caráter reflexivo, tornando-se um
reconhecimento do meramente existente, o que elimina outras
possibilidades que já não estejam consolidadas e põe fim ao risco
de o indivíduo devolver algo à realidade que já não esteja nela.
Além disso, também é através dessa padronização que a Indústria
Cultural prepara o caminho para a manipulação direta das pulsões
libidinais dos “indivíduos” agora reduzidos a uma explosão
manipulada de seus desejos constitutivos29.
Em síntese, pode-se dizer que com a falsa identificação o Ego
perde o controle da relação entre a realidade e o Id, permitindo
assim a manipulação direta das pulsões libidinais pelo sistema

29
Formas de subjetivação não reflexivas ao invés de dissolução do Ego – fragmentação.
Matheus Boni Bittencourt; Robson Rocha de Souza Júnior | 395

capitalista, enquanto que com a falsa projeção a realidade tal qual


está constituída é eternizada como sendo a única possível e efetiva,
na medida em que o processo cognitivo não está baseado numa
estruturação crítica.

Considerações finais

Discutimos as contribuições de integrantes da primeira


geração da Escola de Frankfurt para a compreensão do poder
punitivo sob o sistema capitalista. É possível observar que, apesar
de não haver uma unidade conceitual e teórica fechada, há um
conjunto de problemas e preocupações que perpassam as reflexões
e pesquisas dos autores tratados aqui – Walter Benjamin, Georg
Rusche e Theodor Adorno (e em menor medida Otto Kirschheimer
e Max Horkheimer). Os estilos também diferem: enquanto Walter
Benjamin se concentra primordialmente na reflexão filosófica e
polêmica política, em Georg Rusche há um esforço de
interpretação da história de longo prazo, e, enfim, em Theodor
Adorno, a conjugação da sociologia com a psicologia. As respectivas
contribuições tem, igualmente, repercussões importantes em
pesquisas e teorizações contemporâneas. Mais que isso, são obras
que ainda guardam uma certa relevância, principalmente nesta
conjuntura de Reação internacional que ameaça as muitas vezes
tímidas conquistas democráticas obtidas na década anterior, em
especial na América Latina. Sendo assim, a reflexão sobre a relação
entre Direito e violência, sobre sistema econômico e aparelho
penal, e sobre as raízes da cultura política autoritária, são cada vez
mais necessárias para subsidiar a resistência democrática.

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