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A Ilha do

Conhecimento
MA RCE L O
GLEISER

A Ilha do
Conhecimento
OS LIMITES DA CIÊNCIA
E A PROCURA
DE SIGNIFICADO
PRÓLOGO

A   I L HA 
DO   C O N HE C I MENTO

Aquilo que vejo na Natureza é uma estrutura


magnífica que só podemos compreender de uma
forma muito imperfeita e que deve provocar
num ser pensante um sentimento de humildade.
Albert Einstein

Aquilo que observamos não é a própria


Natureza mas a Natureza exposta ao nosso
método de investigação.
Werner Heisenberg

O
que podemos saber acerca do mundo? Podemos sa-
ber tudo? Ou aquilo que a ciência pode explicar tem
limites fundamentais? A existirem tais limites, em
que medida podemos compreender a natureza da realidade
física? Estas perguntas e as suas surpreendentes consequências
constituem o cerne deste livro, uma exploração de como enten-
demos o universo e nos entendemos a nós próprios.
Aquilo que vemos do mundo é apenas um fragmento ínfi-
mo do que existe «lá fora». Uma grande parte é invisível para
o olho humano, mesmo quando aumentamos a nossa perceção
sensorial com telescópios, microscópios e outros instrumentos

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de exploração. Tal como os nossos sentidos, cada instrumen-


to tem um alcance determinado. Como uma grande parte da
Natureza continua a estar oculta para nós, a nossa conceção
do mundo baseia-se apenas na parcela da realidade que somos
capazes de medir e analisar. A ciência, como narrativa que des-
creve o que vemos e que conjeturamos que existe no mundo
natural, é, assim, necessariamente limitada, só contando uma
parte da história. E a outra parte, aquela que está fora do nosso
alcance? Não a conhecemos. No entanto, com base nos êxitos
alcançados no passado, confiamos em que, com o tempo, uma
parte do que está atualmente oculto será integrada na narrativa
científica, em que o que agora se desconhece passará a ser co-
nhecido. Mas, como sustentarei neste livro, outras partes per-
manecerão ocultas, como algo que é inevitavelmente impossí-
vel de conhecer, ainda que aquilo que não possa ser conhecido
num período, possa vir a sê-lo no seguinte. Esforçamo-nos por
alcançar o conhecimento, cada vez mais conhecimento, mas te-
mos de compreender que estamos, e continuaremos a estar,
rodeados de mistério.
Esta maneira de ver não é anticientífica nem derrotista.
Também não é uma proposta para sucumbir ao obscurantis-
mo religioso. Pelo contrário, é esse brincar com o mistério,
essa necessidade de ir mais além dos limites do conhecido,
que alimenta o nosso impulso criador, que nos leva a querer
saber mais.
O mapa daquilo a que chamamos realidade é um mosaico de
ideias em perpétua mutação. Seguiremos este mosaico ao lon-
go da história do pensamento ocidental, reconstituindo a evo-
lução da nossa mundivisão científica, desde o passado até aos
nossos dias, em três partes distintas mas complementares. Em
cada parte, procuro explicar vários pontos de vista científicos e
filosóficos, sempre com a intenção de analisar como as mudan-
ças conceptuais dão forma à nossa procura de conhecimento

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e de significado. Na Parte I centrar-nos-emos no Universo, na


sua origem e natureza física, nas formas como a nossa narrativa
cósmica moldou a nossa compreensão de nós próprios e da na-
tureza do espaço, do tempo e da energia. A Parte II incidirá so-
bre a natureza da matéria e a composição material do mundo,
desde as antigas reflexões da alquimia até às ideias mais mo-
dernas sobre o mundo quântico e aquilo que nos dizem sobre a
essência da realidade física e o nosso papel na definição da mes-
ma. Na Parte III exploramos o mundo da mente, computado-
res e matemática, prestando especial atenção a como moldam
o nosso debate sobre os limites do conhecimento e a natureza
da realidade. Como veremos, a incompletude do conhecimen-
to e os limites da nossa mundivisão científica só enriquecem
a nossa procura de significado, na medida em que ajustam a
ciência à nossa falibilidade e aspirações humanas.

Enquanto escrevo estas linhas, uma coreografia desconhe-


cida organiza a ativação de milhões de neurónios do meu cére-
bro; os pensamentos surgem e são expressos em palavras, te-
cladas no meu computador portátil, graças a uma coordenação
minuciosa dos olhos e dos músculos da mão. Há algo que é
responsável pelo processo, uma entidade a que chamaremos,
de uma forma pouco precisa, «mente». Estou voar a 30 mil pés
de altitude e a regressar a casa, após a filmagem de um docu-
mentário em Los Angeles. O tema era o universo conhecido,
um novo relato das maravilhosas conquistas da ciência moder-
na, em particular da astronomia e da cosmologia. Vejo as nu-
vens brancas que flutuam mais abaixo, o céu azul lá em cima,
ouço os motores do avião a jato zumbir e sinto as batidas le-
ves, mas irritantes, dos dedos do passageiro do lado, enquanto
ouve música no seu iPod.
Como a neurociência nos ensina, a minha perceção do mun-
do que me rodeia é sintetizada em diferentes regiões do meu

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cérebro. Aquilo a que chamo «realidade» é o resultado da soma


integrada de inúmeros estímulos recebidos através dos cinco
sentidos, trazidos do exterior para a minha cabeça pelo sistema
nervoso. A cognição, a consciência de existirmos aqui e agora, é
o produto de inúmeras substâncias químicas que fluem através
de miríades de ligações sinápticas entre os meus neurónios. Eu,
tal como o leitor, sou uma rede eletroquímica autossustentável
que atua num conjunto de células biológicas. E, no entanto,
somos muito mais do que isso. Eu sou eu e o leitor é o leitor
e somos diferentes, ainda que sejamos feitos da mesma matéria.
A ciência moderna substituiu o velho dualismo cartesiano da
matéria e da alma por um materialismo estrito: o teatro do eu
passa-se no cérebro e o cérebro é um conjunto de neurónios
que interagem, acendendo-se e apagando-se como as luzes de
uma árvore de Natal.
Ainda sabemos pouco acerca de como essa coreografia
neuronal gera a nossa sensação de existirmos como indivíduos.
Realizamos as atividades quotidianas da nossa vida como se pu-
déssemos separar-nos do mundo que nos rodeia e construir
uma visão objetiva da realidade. Sei que não sou o leitor e sei
que não sou a cadeira em que estou sentado. Posso afastar-me
de si e da cadeira, mas não posso separar-me do meu próprio
corpo (a não ser que esteja em estado de transe). Também sa-
bemos que a nossa perceção da realidade, na qual baseamos
a nossa sensação de existir como indivíduos, é incompleta.
Os nossos sentidos captam apenas um pequeno fragmento
do que acontece à nossa volta. O cérebro não tem consciência
de grande parte do que acontece, é surdo e cego perante uma
quantidade enorme de informação que não se revelou espe-
cialmente útil para aumentar as hipóteses de sobrevivência dos
nossos antepassados em ambientes hostis. Por exemplo, biliões
de neutrinos vindos diretamente do centro do Sol atravessam
os nossos corpos em cada segundo que passa; ondas eletromag-

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néticas de todos os tipos – micro-ondas, ondas de rádio, raios


ultravioletas, raios infravermelhos – transportam informações
que não podemos captar com os nossos olhos; os sons que estão
para além de alcance da audição dos seres humanos escapam
aos nossos ouvidos; as partículas de pó e as bactérias são invi-
síveis aos nossos olhos. Como a Raposa disse ao Principezinho,
na fábula de Antoine de Saint-Exupéry: «O que é essencial é in-
visível aos olhos.»
Instrumentos de medida e ferramentas ampliam significa-
tivamente a nossa visão, quer do que é muito pequeno quer do
que está muito longe. Permitem-nos «ver» bactérias invisíveis,
radiações eletromagnéticas, partículas subatómicas e estrelas
que explodem a milhares de milhões de anos-luz de distân-
cia. Os dispositivos de alta tecnologia permitem que os médicos
visualizem tumores no interior dos pulmões e dos cérebros e
que os geólogos detetem as jazidas subterrâneas de petróleo.
Contudo, todas as tecnologias de deteção ou medição têm uma
precisão e alcance limitados. Uma balança só mede com exati-
dão pesos até metade da sua menor graduação: se o intervalo
entre duas unidades consecutivas de uma escala corresponder
a uma onça, os pesos só podem ser indicados com uma precisão
até meia onça. Uma medição exata é algo que não existe: todas as
medidas devem ser indicadas dentro da sua escala de preci-
são e citadas juntamente com «barras de erro», que calculem
a dimensão dos erros. As medidas de alta precisão são apenas
medidas com pequenas barras de erro ou níveis de confiança
elevados.
Consideremos agora um exemplo menos prosaico do que
as balanças: aceleradores de partículas. Estas máquinas desti-
nam-se a estudar a composição fundamental da matéria, pois
procuram os elementos mais pequenos de matéria que forma
tudo o que existe no mundo1. Os aceleradores de partículas
utilizam plenamente a famosa fórmula de Einstein E=mc2,

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convertendo a energia do movimento de partículas a alta ve-


locidade em novos pedaços de matéria. Assim, funcionam de
uma maneira brutal – partículas que se movem a uma veloci-
dade próxima da da luz colidem frontalmente. Haveria outra
maneira de os cientistas estudarem, por exemplo, o que existe
no interior de um protão? Ao contrário do que acontece com
as laranjas, é impossível cortar um protão. A solução consiste
em lançar os protões uns contra os outros a altas velocidades e
estudar os pequenos fragmentos que se desprendem depois de
uma colisão. Se não se dispusesse de uma faca afiada, a compo-
sição interna das laranjas poderia também ser estudada desse
modo, atirando um fruto contra o outro, a uma velocidade ele-
vada, e observando os caroços, o sumo e os pedaços de polpa
que são lançados fora depois da colisão. Levando a analogia
um pouco mais longe, quanto mais velozes forem as laranjas
mais reveladora é a experiência: por exemplo, só as colisões a
alta velocidade revelariam a existência de caroços. Algumas das
colisões a uma velocidade mais elevada podem mesmo fazer
rebentar os caroços, expondo o interior dos mesmos. Isto é um
aspeto essencial: quanto maior for a energia da colisão, mais
profundamente podemos investigar a matéria2.
Durante os últimos 50 anos, os aceleradores de partículas
conheceram um aumento enorme de energia. As partículas ra-
dioativas que Ernest Rutherford utilizou em 1911 para inves-
tigar a estrutura do núcleo atómico tinham energias cerca de
um milhão de vezes menores do que as atingidas atualmente
no Grande Colisionador de Hadrões (LHC – Large Hadron
Collider), o gigantesco acelerador de partículas que se encon-
tra em Genebra, Suíça. Graças a ele, os que hoje se dedicam
ao estudo da Física das Partículas podem investigar com maior
profundidade a natureza da matéria, «vendo» coisas que Ru-
therford não poderia sequer ter sonhado, como partículas
«elementares» cem vezes mais pesadas do que o protão, como

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o famoso bosão de Higgs, descoberto em julho de 20123. Se for


assegurado o financiamento de futuros aceleradores – o que é
uma grande incógnita, devido ao elevadíssimo custo destas má-
quinas – há boas razões para esperar que as novas tecnologias
permitam estudar os processos que exigem um nível cada vez
mais elevado de energia e produzam descobertas fascinantes,
talvez mesmo revolucionárias.
Contudo, e trata-se de um aspeto fundamental, a tecnolo-
gia impõe limites ao aprofundamento da investigação da rea-
lidade física. Isto significa que as máquinas determinam o que
podemos medir e, por conseguinte, o que os cientistas podem
vir a descobrir sobre o Universo e sobre nós próprios. Dado
que são invenções humanas, as máquinas dependem da nossa
criatividade e dos recursos disponíveis. Quando são muito bem-
-sucedidas, fazem medições que se caracterizam por um rigor
crescente e, por vezes, chegam mesmo a revelar o inesperado.
Um exemplo disso foi a surpresa manifestada por Rutherford
e os cientistas seus colegas quando as experiências revelaram
que, embora o núcleo atómico ocupe uma fração minúscula do
volume de um átomo, contém a maior parte da massa do mes-
mo. Para Rutherford e os seus colegas que trabalharam duran-
te os princípios do século xx, o mundo dos átomos e partículas
subatómicas parecia muito diferente daquilo que parece hoje.
Podemos estar igualmente certos de que, daqui a cem anos,
o nosso conhecimento da física subatómica será de novo muito
diferente. Restringindo, para já, o meu argumento a uma pers-
petiva puramente empírica, os cientistas só podem apreender
o que ocorre em energias que se situem dentro do alcance das
suas experiências.
Sendo assim, que poderíamos dizer com certeza acerca das
propriedades da matéria em energias milhares ou milhões de
vezes superiores aos limites atuais? As teorias podem especular
sobre as propriedades da matéria nessas energias e podem

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apresentar argumentos convincentes baseados na sagacidade


e na simplicidade sobre as razões pelas quais as coisas se passa-
riam desta maneira e não de outra. Mas a essência da ciência
empírica é que a Natureza tem sempre a última palavra: os da-
dos importam-se pouco com os nossos anseios de beleza estéti-
ca, um ponto que analisei em pormenor em A Tear at the Edge of
Creation. Daí decorre que, se só temos um acesso limitado à Na-
tureza por meio dos instrumentos de que dispomos e, de uma
forma mais subtil, graças aos nossos métodos restritos de inves-
tigação, o nosso conhecimento do mundo é necessariamente
limitado.
Juntamente com esta limitação que a tecnologia impõe à
maneira como investigamos o mundo, os avanços em domínios
como a física, a matemática e o cálculo, registados durante os
dois últimos séculos, deram-nos uma ou duas lições sobre a
intangibilidade da Natureza. Como veremos pormenorizada-
mente, o nosso conhecimento do mundo está sujeito a limites
fundamentais, não só devido aos nossos instrumentos de ex-
ploração mas também porque a própria Natureza – pelo me-
nos tal como nós, os seres humanos, a percecionamos – opera
dentro de certos limites. O filósofo grego Heraclito já se aper-
cebera disso há 25 séculos, quando afirmou que «a Natureza
gosta de se esconder». Através de inúmeros casos de tribulação
e êxito, descobrimos que não é possível ganhar à Natureza
nesse jogo às escondidas. Parafraseando a frustração de Sa-
muel Johnson ao tentar definir certos verbos ingleses, é como
se tentássemos pintar o reflexo de uma floresta na superfície
de um lago revolto.
Assim e apesar da nossa crescente eficiência, em cada mo-
mento, uma grande parte do mundo natural continua a não
ser vista por nós ou, para ser mais preciso, a não ser deteta-
da. Esta falta de visão é, no entanto, uma provocação para a
nossa imaginação: os limites não deveriam ser considerados

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obstáculos insuperáveis mas desafios. Como o presciente es-


critor francês Bernard le Bovier de Fontenelle escreveu, em
1686: «Queremos saber mais do que aquilo que podemos ver.4»
O telescópio construído por Galileu em 1609 mal distinguia
os anéis de Saturno, algo que os telescópios para uso domés-
tico conseguem hoje fazer. Aquilo que sabemos do mundo é
apenas o que podemos detetar e medir. Vemos muito mais do
que Galileu, mas continuamos a não ver tudo. E esta restrição
não se aplica apenas a medidas: as teorias e modelos especula-
tivos que fazem extrapolações para os mundos desconhecidos
da realidade física dependem também do conhecimento atual.
Quando não existem dados que possam orientar a intuição,
os cientistas impõem um critério de «compatibilidade»: qual-
quer teoria nova que tente extrapolar para além do terreno
já testado deveria, dentro dos limites apropriados, reproduzir
o conhecimento atual. Por exemplo, a teoria da relatividade
geral de Einstein, que descreve a gravidade como a curvatura
do espaço-tempo devido à presença de matéria (e de energia),
reduz-se à velha teoria de Newton sobre a gravitação universal
no limite dos campos gravitacionais fracos: para enviar naves
espaciais para Júpiter não precisamos da teoria de Einstein,
que, no entanto, é necessária para descrever os buracos negros.
Se grandes partes do mundo continuam a não ser vistas
por nós ou a ser-nos inacessíveis, então devemos considerar o
significado da palavra «realidade» com muita precaução. De-
vemos pensar se há algo a que possamos chamar «realidade
última» – o substrato final de tudo o que existe – e, no caso de
haver, se podemos esperar captar esse algo na sua totalidade.
Convém notar que me abstenho de chamar Deus a esta reali-
dade última, pois a Sua natureza, como a maioria das religiões
propõe, é inapreensível. Abstenho-me também de identificar
a realidade última com qualquer das várias noções filosóficas
orientais de realidade transcendente, como num estado seme-

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lhante ao nirvana alcançável através da meditação, a bramân


da filosofia vedanta hindu, ou num Tau que abarca tudo. Por
agora, estou apenas a considerar a natureza mais «concreta»
da realidade física, que podemos inferir através da aplicação
diligente da ciência. Devemos, pois, perguntar se apreender
a natureza fundamental da realidade tem apenas que ver com
alargar os limites da ciência ou se estamos a ser muito ingénuos
em relação ao que a ciência pode e não pode fazer.
Eis outra maneira de pensar sobre isto: se alguém percecio-
na o mundo apenas através dos seus sentidos (como acontece
com a maioria das pessoas) e outra pessoa amplia a sua perce-
ção graças ao uso de instrumentos, quem pode legitimamen-
te afirmar que tem um sentido mais verdadeiro da realidade?
Uma pessoa «vê» bactérias microscópicas, galáxias distantes
e partículas subatómicas, enquanto a outra é completamente
cega a essas entidades. É óbvio que «veem» coisas diferentes
e – se tomarem à letra o que veem – concluirão que o mundo,
ou pelo menos a natureza da realidade física, é muito diferente.
Qual delas está certa?
Perguntar quem está certo significa não compreender a
questão principal, embora uma pessoa que utilize instrumen-
tos possa penetrar mais na natureza das coisas. De facto, ver
com maior clareza aquilo que constitui o mundo e, desse modo,
compreendê-lo e compreendermo-nos melhor é a principal
motivação para alargar os limites da ciência, como Fontenelle
sabia quando escreveu: «Toda a filosofia se baseia apenas em
duas coisas: curiosidade e visão deficiente.5» Uma grande parte
do que fazemos pode ser resumido como diferentes tentativas
de atenuar o nosso olhar míope.
Aquilo a que chamamos «real» depende da profundidade
com que conseguimos investigar a realidade. Mesmo que exis-
ta algo como a natureza verdadeira ou última da realidade, a
única coisa que temos é aquilo que podemos saber disso. A tí-

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