Você está na página 1de 442

Affonso de E.

Taunay
Da Academia Brasileira

DNC
Subsídios para a Historia

do Café no Brasil Colonial

EDIÇÃO DO
DEPARTAMENTO NACIONAL DO CAFÉ*

1935
Rio de Janeiro
I. B. C.
BIBLIOTECA

oRj'M.
Affonso de E. Taunay
da Academia Brasileira

Subsídios pam a Historia do Café


no Brasil Colonial

1935
RIO DE JANEIRO
O

Algumas palavras de prefacio

Correspondendo a honrosa incumbência elementos esparsos existentes, para o que


do digno presidente do Departamento o Departamento se tem utilizado das pa-
Nacional do Café, o Sr. Dr. Armando Vi- ginas de sua Revista. Nestas não cabia,
dal, abalançamo-nos a compendiar a his- porém, o vasto cabedal de informações
toria da propagação cafeeira no Brasil, que se contém no numero especial d'"
o que corresponde, como é obvio lem- Jornal" dedicado ao bi-centenario do
bral-o, a esboçar vastíssimo quadro. café."
Assumindo a superintendência da gran- "O conjunto de informações ahi en-
de organização economico-financeira, que contradas é de tal ordem que o Departa-
é o Departamento Nacional 'do Café, in- mento Nacional do Café resolveu perpe-
cluiu o Sr. Dr. Armando Vidal, em seu tual-as neste volume, tornando possível,
programma, uma série de iniciativas de a Um grande numero de interessados, a
ordem cultural, complementares de sua leitura, hoje difficil, do numero esgotado
actuação agrícola e commercial em defesa de um diário."
do grande, do principal esteio da eco- Prosegulndo na directriz q'ue tanto lhe
nomia brasileira. recommenda a elevação mental e o inte
Ainda ultimamente, mandando repro- resse pela cultura, pediu-nos o Dr. Ar-
duzir, em volumes portáteis, a tiragem mando Vidal uma exposição succinta do
feita pelo Dr. Assis Chateaubriand, a 15 problema histórico da propagação ca-
de outubro de 1927, para "O Jornal", do feeira no Brasil, em suas linhas geraes.
Rio de Janeiro, reimprimindo a monu- Publicada esta pequena monographia,
mental edição commemorativa da passa- em melados de 1934, pelo D. N. C, e em
gem do segundo centenário da introdu- edição fartamente illustrada solicitou o
cção do café no Brasil — escrevia o Dr. Sr. Dr. Armando Vidal que delia fizésse-
Armando Vidal ao apresentar estes li- mos como que um abstract, destinado a
vros: um dos mais bellos e prestigiosos órgãos
"O Departamento Nacional do Café, da imprensa illustrada universal Fí-
além das funcções de regularização dos garo Illustré.
m«rcados, a mais sensível para o publico A este resumo traduziu distincto ho-
em geral, tem uma alta finalidade cultu- mem de letras francez, ha muito entre
ral. Esta abrange todos os assumptos de nós residente, e autor da versão para o
natureza agrícola, industrial e commer- seu idioma, de vários dos nossos livros
cial do café, e, bem assim, todos os es- capitães: -—o Sr. Conde Mauricio de
tudos económicos, legislativos e históri- Périgny.
cos sobre esse producto." Commette-nos agora o Sr. Dr. Arman-
"Para attender de prompto e de fórma do Vidal o pesado encargo de fazer um
succinta a estes objectivos, o Departa- histórico do café no Brasil.
mento mantém a revista DNC e o Bole- lia via é lunga. . .

tim Quinzenal DNC. Para facilitar a Não longa, mas longuíssima. B cerra-
rápida consulta da legislação publicou a da, a série dos obstáculos a vencer.
"Legislação cafeeira do Brasil", e como Immenso já se escreveu sobre o café
elemento de divulgação, acaba de editar no Brasil e fóra do Brasil. Nem por me-
o opúsculo "O cyclo do café, da semente nos podia ser, tratando-se de um dos
á chicara". mais notáveis artigos do commercio uni-
"iTres obras fundamentaes conta di- versal e do esteio da economia brasi-
vulgar o Departamento Nacional do Café leira.
em breve tempo: "Historia do café no A xeno-bibliographía, nacional,
e a
Brasil","Annuario estatístico" e "Colle- comprehendem bibliotheca,
verdadeira
cção geral da legislação cafeeira", es- onde, ao lado de monographias valiosas,
tando as duas ultimas com a impressão occorre enorme massa de escriptos, sem
adeantada." valor algum, versando sobre as diversas
"A systematisação histórica do café, e múltiplas particularidades referente.'}
não poude ser organizada com a rapide:»: aos problemas da industria e do com-
desejada pela vastidão e difficuldade do mercio cafeeiros.
assumpto. Para auxiliar a execução des- Em nosso paiz aJbundam as monogra-
ta ohra grandiosa, necessário é reunir os phias, os estudos de toda a espécie re-
. .

lativos aos mil e um problemas do pro- Patm-age et labourage ce sont les


ducto mestre de nossa riqueza. Nada deux mainelles de la Fraiice, apregoava
mais natural, aliás. como tanto é sabido, o grande ministro
"O Brasil é o café", tal a phrase des- de Henrique IV, numa phrase infinitas
vezes repetida.. E merecendo sel-o, pois
de muito sabida dos lábios de um esta-
dista do segundo Império e a cada passu
traduz a synthese de um estado eco-

repetida. E hoje, decorrido quasi um nómico nacional, numa época em que


não havia ainda industria e, por assim
século após a enunciação de tal axiomu,
pode-se dizer com toda a segurança: — dizer, apenas officios, e quando a Fran-
ça mal esboçara a sua politica colonial.
O Brasil ainda é o café! A mesma orientação do espirito
Nada mais comprobatório de tal pro- Sully levou, em princípios do século
posição do que o deslocamento do eixt) XVIII, o illustre jesuíta italiano, João
económico nacional, para o sudoeste, des-
de que as terras montanhosas, e portanto
Antonio Andreoni — mais de século
e meio tenazmente occulto sob o pseudo-
mui sujeitas á erosão, das velhas zonas nymo celebre de Antonil, desvendado pe-
cafeeiras, cessaram .de supportar as la- la argúcia do sábio Capisfraino de Abreu
vouras da planta arábica.
Toda estabibliographia brasileira en-
— a mesma orientação Igvou o illustre
iginacino a intitular, como o fez, o seu
cerra muitos capítulos preciosos, envolve livro, no Brasil tão famoso.
mil 6 um aspectos, por vezes superior- Obra tão notável, que o governo por-
mente expostos, da historia, lacunosa, e tuguez, impressionado com a sua vera-
não codificada, de um panorama cidade, lhe ordenaria rigoroso confisco
de civilização que ainda apresenta tre- e destruição, receioso de que servisse de
chos a pintar. porta voz das riquezas auríferas do Bra-
E' um ensaio de consolidação da biblio- sil perante o Universo, assim se estímii-
graphia existente que nos abalançamos lando o appetite das nações fortes e
a realizar, procurando escrever uma his- sequiosas de sólos ricos em metaes no-
toria da propagação da cultura cafeelra bres .

no Brasil. Cuiltura e opulência do Brasil por suas


Assumpto de dilatadíssimas proporções, drogas e minas é o título deste tratado
o esforço que exige apresenta-se real- inestimavelmente precioso em que se
mente pesadíssimo. descrevem as duas grandes bases de toda
Para tanto nos valeremos dos excel- a economia brasileira, em princípios do
lentes trabalhos realizados por verdadei-
setecentesimo As drogas vêm a ser o
.

ra legião de trabalhadores e eruditos,


assucar e o fumo.
antigos e modernos. E as minas, as do enorme pactolo que
apenas começava a .ser explorado, na re-
Impossível nos seria levar a cabo tão gião do hínterland fluminense, o do Es-
penoso labor, não fôra o soccorro de pinhaço e seus contrafortes
taes monographístas. Entre elles, ulti-
E, com «ffeíto ao Brasil, já então duas
mamente, avulta o dos pesquizadores e
vezes secular, creara a canna de assucar.
evocadores aggrupados para a publicação
Só haviam, até fins do século XVIIl,
do notabilissímo numero de "O Jornal",
commemorativo do segundo centenário realmente prosperado e enriquecido os
núcleos onde a gramínea saccharífera
do café.
vicejara, na tira do massapé de Pernam-
Tratando-se de um histórico do cate
buco e na mancha do Recôncavo bahia-
no Brasil, parece-nos indispensável que a
no
introducção a este trabalho compendie
E, assim succedera até que os paulis-
uma summula do que de mais autoriza-
tas revelassem a enorme bolsa de ouro
do se tem até hoje publicado sobre os
nativo 'dos vales atormentados do Espi-
primórdios da lavoura cafeelra, no seu
nhaço Mas esgotada esta e as outras,
paiz de origem, e no Oriente, assim como
.

muito menos opulentas de Goyaz e Matto


os principaes episódios da introducção ao
Grosso, voltaria o assucar a ser a graai-
uso do café nos grandes paizes occiden-
de "mama" do Brasil. Até que Decorres-
taes.
se o colapso da baixa de seu preço como
Delles, e cada vez mais notável, prO' consequência das perturbações do com-
vocou o commercio da fava de Moka a mercio universal, creadas pela Revolução
transplantação do cafeeiro á America F.ranceza, o império napoleónico de que
antilhana e á Guyana de onde veio ter nascera a utilização do theor sacharíno
ao Brasil. da beterraba.
. . . . . .

Por todos os motivos, sobretudo os de cambio indispensáveis á sua civilisação?


ordem histórica, digna de reparos a
ó Sem o café seria o Brasil uma Angola,
injustiça enorme, praticada em 1822, ou pouco mais
quando, no escudo imperial do Brasil, re- Assim como na segunda metade do
cem-independente, deixou de figurar uma século XVIII a fugacidade dos proventos
Hasta de canna. Mil direitos mais tinha do ouro trouxe o deslocamento da capi-
á homenagem ali de que o ramo de fumo. tal brasileira, da Bahia para o Rio de
Só se comprehende, mesmo, esta exclu- Janeiro, enriquecido pelo commercio
são por uma questão de ordem meramen- com as Minas Geraes, a cultura cafeeira
te esthetica, pelo facto de que os artistas provocou o opulentamente notável do
que compuzeram tal escudo J. B. De- centro do Brasil em relação áíá demais
bret e Felix Emilio Taunay entenderam zonas do paiz, a principio na região flu-
que as côres do grão da rubiacea e a das minense e da "Matta" de Minas, depois
flores do fumo permittiam mais feliz na de São Paulo.
combinação e coujuncto menos assyme- Para nós outros brasileiros, máxima
trico, motivo mais equilibrado do que se debetur coffeae rcverentia seja-nos per-
substituísse o ramo do tabaco pela mittido escrever a paraphrasear a famo-
haste da canna. sa phrase ciceroniana
Mas assim procedendo deixavam de B realmente, repitamol-o, que seria o
respeitar a verdade histórica em sua in- Brasil sem o café? Que seria actualmen-
tegridade e, até, a realidade dos factos, te este enorme arcabouço sem ter, para
pois, em 1822, o assucar continuava a o representar no conjuncto do commercio
ser um género do commercio brasileiro universal, a manipulação de um género
iineomparavelmente mais importante dõ de valor também universal?
que o tabaco e mais vultuoso do que o Se temos cambio,c'est toi divm café!
próprio café. apostrophemol-o com o famoso hemísti-
chio delileamo.
Houvesse Antonil vivido e escripto o
seu livro cento e vinte annos mais tarde, Se o paiz possue o que possue, em ma-
já certamente attribuiria a primazia 'da téria de apparelhamento e de recursos
"cultura e opulência do Brasil" á planta normaes: c'est toi divin café! Se não
do café e não á das cannas" na lavra do cahimos na estagnação dos paizes mine-
assucar dos engenhos reaes moentes e radores do Pacifico, esgotados os recur-
correntes" sos extractivos: Cest toi divin café!
Este primado, desde os princípios do Se acabados os dias prósperos da can-
século XIX, se assigmala cada vez mais na de assucar e do ouro não baixamos
absorvente e até os nossos dias, continua ás condições do atrazo de costa fron-
avassalador, imperioso teira africana: c'est toi dlvin café!
Quando, em 1927, por entre estrondo- E, com effeito, que seria do Brasil im-
sas festas, se celebrou o segundo cente- perial sem o café? Que outro factor lhe
nário da introducção do cafeeiro no Bra- poderia ter fornecido a potencia financei-
sil, via Belém do Pará, pediu-^ios a Com- ra de que lhe decorreu, durante decèn-
missão Central, organizadora do grande nios, a hegemonia sul-americana?
certamen de São Paulo, um lemma para Que seria do Brasil actual sem o caíè?
as suas publicações e cartazes. Não he- Onde arranjar substituto de seu valor
sitamos em lhe propor estas tres pala- para as exigências imperiosíssimas da
vras que nos parecem traduzir a synthe- balança do commercio, inexorável para
se económica nacional hodierna: Café, com os povos que não produzindo regri-
esteio do Bmsil: Coffea Br^iliae ful- dem?
ciTjm.
Onde descobrir género de igual valor
E tivemos a grande satisfação de ver monetário? De tão grande apreço e tão
tal ponto de vista immediatamente ãc- alta capacidade acquisitiva sob tão pe-
ceito, in totum, pelos nossos illustires queno volume?
consultantes Que era São Paulo antes do café? Di-
Com effeito, que seria o Brasil, hoje, rão os sentimentaes, a quem impressio-
sem o café? Onde iria procurar um suc- na Euclydes da Cunha, e verberam os
cedaneo no commercio universal, artigo "fazedores de desertos" que o café
de tamanha valia e volume para as suas arrazou a floresta e atraz de si deixou
operações internacionaes no conjuncto o ermo em terras fluminenses de serra
dos inegocios mundiaes? Que lhe daria acima, 'nas mineiras da Matta e nas do
pretexto para a obtenção das letras do norte paulista
. .

Continua, em sua marcha, a esterili- nem uma única nota occorre historiando
sar o sólo por toda a parte onde passa a a introducção da rubiacea no Hrasil.
sua pomicultura, formosa entre todas. E, no emtanto, a respeito da fava ará-
Mas não se esqueçam os acerbos repa- bica imprimiu o illustre franciscano —
radores que se realmente despiu terre- primeiro talvez dos sclentistas nascidos
nos mal feitos e ásperos, e esgotou-os no Brasil e cujo valor seria absurdo que-
temporariamente, operou admirável rermos rememorar — dois livros assaz
transmutação 'de valores. A selva da volumosos do seu O fazendeiro do Brasil
rubiacea deu o ouro com que se fizeram sobre as excellencias do café e suas van-
dezenas de milhares de kilometros de tagens para a grande colónia portugueza.
ferro-vias, fez surgir a civilisação á face Nada mais fez porém do que traduzir
das terras onde após as fazendas vieram uma série de trabalhos francezes e íngle-
as cidades. zes, sem, no emtanto, lhes appôr uma
"Heri solitudo bodie civitas!" Quantas unlca nota nacional.
e quantas das nossas cidades fluminen- Tão mal esclarecidos permaneceram,
ses, mineiras e paulistas 'não poderiam durante mais de um século, os fastos do
adoptar como divisa este mote? E não café entre nós, que, nem sequer, foi o pu-
é um surto idêntico o que o caTé está blico brasileiro informado da verdade
provocando, exactamente nos dias de ho- sobre os factos da primeira apparição da
je, nas zonas ruraes do noroeste paulis- rubiacea no seu paiz.
ta, do noroeste panaense hontem soli-
Totalmente ignoravam os nossos anti-
dão, hoje cheio de cidades!
gos monographistas o papel capital que,
E onde está este outro esteio da nossa acerca do caso, representa o Pará e nem
economia nacional sobretudo depois que
sequer parecem ter jámals ouvido falar
a borracha baqueou? Não é do café que
no nome do introductor do café no Bra-
o Brasil haure 03 seus recursos essen- sil:Francisco de Mello Palheta.
ciaes? Já não se calcula que rendeu ao
paiz perto de cincoenta milhões de con- Nem mesmo os mais notáveis como
tos de reis? Borges de Barros, Visconde da Pedra
Assim com o maior espirito de justi-
Branca, em 1813, Ayres do Casal em
ça se celebrou em 1817, Monsenhor Pizarro em 1820, José
toda a extensão nacio-
nal, nas zonas cafeeiras e nas não cafeeí- Silvestre Rebello em 1833, Balthasar da
ras, a ephemeride faustosíssima e Silva Lisboa em 1835, Januário da Cunha
bi-
centenária de maio de 1727. Barbosa em 1842 e até o eminente botâ-
nico Francisco Freire Allomão em 1856.
E as vozes da gratidão relembraram os
nomes dos beneméritos do paiz, esses
Escrevendo em 1860 a sua Monogra-
precursores que alicerçaram a grandeza phia do cafeeiro e do café mostrava Fre-
do Brasil agrícola moderno nas semen- derico Burlamaqui, aliás homem de no-
teiras da planta arábica tável instrucção, ignorar o que quer que
Sim, porque, fosse sobre os factos capitães de 1727 e
irretorquivelmente, ha
mais de um século se pode affírmar: de seu determinador.
Assim também, em 1879, Paulo Porto
Coffoa Bra-sillae fiilciiun! Alegre na sua aliás excellente Monogi>a-
Até ha bem pouco era a historia do phia do café ou Theodoro Peckolt na
café no Brasil a mais defeituosa. Histoi-ia das plaiitas alimentares e do
Sobre não havia senão summarias
ella gozo do I?rasil.
indicações, desconnexas lacunosissimas, E, facto curioso, tudo provinha da fal-
sobretudo, perdidas na massa de enor- ta de pesquiza, aliás facillima, desde que
me documentação inaproveitada pela le- já em 1847 publicara a Revista do Insti-
gião dos repetidores impenitentes uns tuto Histórico Brasileiro a Viagem c vi-
dos outros, que assentaram arralaes no sita em o bispado do Gríío Pará, em 1762
estudo de nossos fastos. e 1763, do bispo D. Fr. João de São
Algumas tentativas sérias se fizeram, José Queiroz
de longe em
longe, desde os tempos em (Se os autores 'nacionaes revelam tal
que Monsenhor Pizarro, Ayres do Casai, insciencia, que esperar dos estrangeiros?
Sylvestre Rebollo nos forneceram escas-
Já, em 1910, imprimindo-se o quarto
síssimas notas sobre 03 primórdios da tomo do Livi-o do centenário, trouxe outro
cultura cafeeira em nossa terra.
desenvolvimento, em matéria de dados
Facto curioso: nos escriptos do primei-
para o histórico do café, a pequena me-
ro brasileiro que tratou de café
José Marianno da

Fr. moria de Moura Brasil alli inserta. Ver-
Conceição Velloso, dade é que tivera inspirador do mais alto
.

quilate: Capistrano de Abreu, Intimo tudo, como é de esperar, nas grandes re-
amigo do autor. giões cafeeiras do paiz. Taes as obras
Em 1915 divulgouManoel Barata precio- dos Pa;dres Ferreira de Aguiar e Anto-
sos informes compendiando documenta- nio Caetano da Fonseca, do Barão de
ção nova, variada e abundante, em sua Paty do Alferes, Nicolau J. Moreira,
memoria: A antiga producção e exporta- Carlos Augusto Taunay, Antonio da Sil-
ção do Pará. veira Caldeira, Agostinho Rodrigues da
Afinal a occurencia do segundo cente- Cunha, Moreira de Azevedo, F. P. Lacer-
nário do café, em 1927, promoveu notá- da Werneck, Pérsio Pacheco e Silva, Pa-
vel recrudescência tía inspecção dos fas- dre Arau3'o Marcondes, Corrêa de Melio,
tos cafeeiros, cabendo enorme parte des- Sylvio F. Rangel, Augusto C. da Hiiva
se conjuncto á do esclarecimento dos Telles, Augusto F. Ramos, Lourenço Gra-
factos dos primeiros annos. nato, etc, e de muitos outros nomes da
Com a confecção do numero especial hoje colossal bibliographia cafeeira.
do O Jornal, tentamen verdadeiramente Assim, ha immenso onde respigar, e
notável, ensejo houve para que se escre- numa documentação do melhor quilate.
vessem numerosas memorias de cunho E é deveras de se lastimar que em pu-
histórico muitas delias realmente valio- blicação official como essa que, em 1929,
sos .
fez imprimir o governo do Estado de
Nomeio dessa enorme contribuição Minas Geraes, para commemorar o se-
representada pelas mil paginas dos dous gundo Centenario do cafeeiro no Brasil,
alentados tomos, editados pelo Departa- vejamos apparecer, como base para a
mento Nacional do Café, quanta cousa historia da introducção do café no paiz,
valiosa!
um romance pseudo-historico filiado á
Abre-a a documentada monographia de escola notabilizada pelos processos do
Basilio de Magalhães Quem era Francisco mestre humorista Mendes Fradique.
de Mello Palheta onde, o dOuto historia- Já qne o estudo por nós emprehendldo
dor aproveitou os ricos subsídios es^Sr- teve de tomar as dimensões pedidas Pela
sos de Capistrano, Rio Branco, Rodolpho vastidão e a importância do assumpto,
Garcia, Barata, etc. e outros elementos entendemos que se tornava absolutamen-
te imprescindível precedel-o por um
oriundos do próprio esforço. apa-
Do grande trabalhador a quem se deve nhado da historia geral do café, até a
este estudo de grande valia ainda reco- implantação definitiva da rubiacea em
lheu a obra duas outras contribuições nossa terra.
de largo e valoroso tomo: Bibliographia Para tanto nos valemos áobretudo de
brasileira e estrangeira sobre o café no duas obras realmente notáveis.
Brasil e As lendas eni tomo da lavoura E' a primeira a monumental mono-
do café.
graphia de William H. Ukers, o AIl about
Seu filho e discípulo, Hildebrando de coffee, publicada em 1922, obra que re-
Magalhães, galhardamente lhe acompa- presenta uma summula de esforços real-
nhou os passos, publicando uma "mono- mente prodigiosos, tentamen que por
graphia", reimpressa em 193~4, sob o ti- vezes parece dever escapar á capacidade
tulo perfeitaimente cabivel de Historia constructlva de um só homem.
do Café, excellente trabalho sob todos E' a segunda incomparavelmente me-
os pontos de vista e o seu programma an-
nor como porte,
São estas as memorias básicas da edi- nuncia, aliás, versar sobre campo multo
ção de "O Jornal", onde se contém enor- mais reduzido do que o livro do escrlptor
me copia de artigos históricos, vários yankee.
delles excellentes mas de muito menor Referimo-nos á memoria Ensaio criíi-
tomo, comtudo, do que os dos dois eru- co-historico sobre o café e investigação
ditos acima citados. etymologica do nome, da autoria do Dr.
Além material bibliographico,
deste Jorge Augusto Padberg Drenkpol, QO
hoje reunido na edição do Departamento nosso Museu Nacional.
Nacional do Café, grande copia de outros Surge nas paginas do volume III do
elementos existe em livros, periódicos e Boletim do Museu Nacional do Rio de
publicações de hemeroteca, assignalados Janeiro, tomo este impresso no Rio d©
na resenha intensa e utilíssima, mas ain- Janeiro, em 1927, e destinado também a
da forçosamente lacunosa, de Basilio de commemorar o segundo centenário da
Magalhães. transplantação da rubiacea ao solo bra-
Os elementos regionaes avultam sobre- sileiro.
8

Representa esta monographia uma a quasi monopolizadora, por assim dizer,


syuthese obtida á custa de notável labor. do seu commercio, e a fornecedora máxi-
E ficará certamente como uma. das me- ma dos mercados mundiaes da lava ará-
lhores contribuições da Dibilograpnia bica, contenta-se Ukers em consagrar a
universal do café. tão importante facto meia dúzia de .1-
Deu-se o Dr. Padberg ao trabalJio do nhas summarias e. . apinhadas
. ae
vultuoso e incansável cotejo e verilíca- erros.
ção das fontes documentaes e das opi- Julga-se desobrigado, apresentando
niões dos mais celebres e autorizartos esta insignificante série de dados, m^uitos
monographistas que estudaram a Histo- delles errados, erradíssimos.
ria do cafê. "Em 1760 João Alberto Castello Bran-
E a sua critica se exerce cerrada, com co trouxe para o Rio de Janeiro um ca-
exigente apuro da verdade. feeiro de Gôa, índia Portugueza.
De ambos estes autores multo teremos Correram logo noticias de que o solo
que nos valer para o estabetócímento ae e o clima do Brasil eram especialmente
nossos capítulos iniciaes. propícios á cultura da planta.
Pena é que Ukers se tenha deixado ar- Moike, monge belga, fez presente oe
rastar a escolher para a sua exceiiente varias sementes de café ao mosteiro d03
obra tão immodesto titulo: Tudo o quo capuchinhos do Rio de Janeiro, cm 17 v 4.
ha sobre o café! AU about coffee! Mais tarde, o bispo do Rio, Joaquim Bru-
Nem no (sic!), torhou-se o patrono de t^i
se comprehende tal deslise, tal
sacrificio á vangloria!
lavoura e instigou-lhe a propagação rio
Deixou-se o nosso autor empolgar pelo Rio, Minas (sic!), Espirito Santo e São
inebriamento perigoso do exegi monu- Paulo."
nientum horaciano, deficientemente ali- E nada mais!
cerçado nas paginas de m'U3tos de seus No fim do volume e no capitulo con-
capítulos. sagrado á chronologia do café, se diz que
Apesar do titulo immodestissimo, repi- o tal Molke trouxe as sementes de Hun-
tamol-o, apresenta a obra de Ukers — nam, assim como se affirma qu& entre
tão importante e tão cheia de capítulos 1770 e 1773 encetou-se a plantação do
primorosos — a parte brasileira por as cafesal simultaneamente no Rio de Ja-
sim dizer insignificante. Permitte gravís- neiro, S. Paulo e Minas!
sima arguição a se lhe exprobar. Ali Nenhuma palavra se refei-e João
a
about coffee . excepting in Brazil é
. .
Hopman, ao Marquez do Lavradio. JNem
sub-titulo que se lhe pode inculcar. Pre- uma rectificação occorre do nome do
tender historiar tudo o que ha sobre caie nosso bispo D. José Joaquim. Justiniano
desleixando, como se desleixou, a contri de Mascarenhas Castello Branco, simpli-
buição brasileira, é coisa simplesmente ficado para "bishop Joachim Bruno"
clamorosa. (sic!). E' realmente pasmoso este des-
Começa referia de erros palmares so- caso pelas coisas do Brasil, por parte do
bre os primórdios da historia do café em prestante escriptor, a quem se deve tão
Dosso paiz, por uma série de informes grande massa de preciosos informes em
que se filia inteiramente á nossa famo- tão numerosos capítulos!
sa Historia do Brasil pelo iffotlíodo con- E' preciso ainda frizar quanto a sua
fuso. bíbliiographía brasileira é pobre, pobríssi
Principia por affirmar que os primei- ma, chegando a ser indigente quanto à
ros cafeeiros vieram para o Brasil em parte histórica. Basta dizer que W. Ukers
1723, "anno em que se mallograram por ignora os nossos livros antigos e essen-
completo as tentativas para a plantação, ciaes, como por exemplo os de Burlama-
de mudas vindas da Guyana Franceza, de qui e Paulo Porto Alegre, e as memorias
Cayenna para o Pará. do Freire Allemão, Barão de Paty ao
Facto pasmoso para quem declara sa- Alferes, Padre Fonseca, os depoimentos
ber tudo quanto ha sobre o café: igno dos viajantes de maior e menor impor-
rava o nosso autor, já em 1922, até o tância, etc, etc.
nome de Francisco de Mello Palheta! A respeito do Brasil contentou-se
E tratando de assumpto capital como Ukers em reproduzir a insignificância dos
este, da introducção da rubiacca, na re-
conceitos de Francis B. Thurber, em seu
gião onde mais tarde viria a tomar o im- Coffee from plantation to cup, livro já
menso surto que sabemos, a ponto de ser quasi quadragenario, quando se publicou
. . . . .

o "Ali abont coffee", pois foi impresso Parece-nos áspera esta apreciação.
em Nova York no anno de 1881. Tal a immensa somma ide trabalho exi-
Já o nosBO celebrado ophtalmologo gida pela confecção de tão avultada me-
Moura Brasil rectificara cabalmente os moria que muito lhe deve ser relevado
erros grosseiros de Thurber. E tal o acervo nela accumulado que fa-
Aliás, diz este, por exemplo, que ivioi- tamente não poderia deixar de alli ter
ke, "belga emprehendedor", levara em havido infiltração de deslises e erros.
1774 mudas de café do Maranhão para Verdade é que a critica 'de Padberg
o Rio, plantando-as no seu jardim parti- versa sobre pontos essenciaes.
cular, perto do convento da Ajuda. A parte brasileira da obra correspon-
E Ukers lendo per sunrma capita este de positivamente ao mais injustificado
informe de Thurber, ou delle copianao, descaso
transformou o belga em monge!, quan- E' aliás antigo veso esta capitis dimi-
do, diz-nos Moura Brasil, escudado em nutio attribuido ao nosso paiz pelos his-
Vieira Fazenda, era o homem fazendeiro toritfgraphos do café. Assim, escrevendo
na Tijuca, e tudo quanto havia de mais em 1895 o seu aliás valioso ensaio: lic
secular, jamais constando que algum Caféier et le café, monographie historique
dia houvesse sido ecclesiastico! scientifique et commerciale de cette m-
Sobre a obra de Ukers emitte o Dr. biacée, disse E'delestan Jardin Maseri,
Padberg Drenkpol o seguinte juízo: uma serie de pavorosos disparates sobre
"Monumental, fornece vários dados no- a introd acção da fava arábica no Brasil.
vos. Grande o merecimento de seu au- Appareceram os primeiros cafeeiros
tor por ter colligido muitíssimas noti- aqui em 1775, graças a um padre fran-
cias valiosas, também, para a historia do ciscano. Mas só em 1815 é que um bel-
café sobretudo no dominio da lingua ga chamado Moka (provavelmente alcu-
ingleza nha, observa o autor), começou a plan-
Sob mais de um ponto de vista é in- tar cafesaes regulares
dubitavelmente a mais rica que sobre o Aliás manda a justiça dizer que Jar-
café se publicou". din se abonou nas affirmações da Roma
Extranha porém "certa Insufíicíencia Coloiiiale, num numero de 1853.
scientifica que ignora ou desaproveita Tal a ignorância deste autor, que es-
varias das melhores fontes, deploraVei crevendo em 1895, ainda trata o Brasil
falta de critica, que compila cegamente de "vasto império", fala da "Província
citações de segunda mão sem verificar do Rio de Janeiro, colloca Linhares em
o seu valor. Minas Geraes, etc, etc.
Assim se repetem incongruências e Poderia ser muito peior. Embora
. .

inexactidões que desde muito alteram a haja o AU about coffee sido impresso an-
historia do café, contribuindo a Impo- tes de 1927, data em que houve verda-
nência exterior da obra ainda mais para deiro renascimento da historia cafeeira,
a desastrosa propagação delias,,. poderia Ukers comtudo pelo menos ter
Arguições serias, muito serias níesmo se valido dos trabalhos ãe Freire Alle-
as que o douto teuto brasileiro faz ao mão, Burlamaqui, Paulo Porto Alegre,
AU about coffee, demonstrando que o Moura Brasil, etc.
seu autor mão conhece bastante os tra- Isto lhe era imposto pela imponência
balhos capitães, essenciaes, de Silvestre do titulo da monographia: AU about cof-
de Sacy, sobre a parte da antiguidade fee!
arábica do café, nem o estudo magistral Assim a verbei'armos tamanha desen-
d'e Carlos Ritter "assombro de erudição voltura epigraphica ajuntemos ao Ali
e solidez". about coffee, um sub-titulo, o exceptis
Assim também quanto á parte brasi- iion exciplemlis relativo pelo menos ás
leira em suas "valiosas monographias" cousas do Brasil, paizinho de somenos
Concluindo os numerosos e severos
importância em matéria de cultura ca-
reparos escreve Padberg-Drenkpol a feeira .

prometter que ainda daria vários exem- Annuncia-se para breve uma segunda
plos da inexactidão da obra: edição do AU about coffee. Assim traga
,Tudo isso, com innumeras exactidões rectificações exigidas pela opinião pu-
menores, denota infelizmente que o pom- blica brasileira.
poso livro de Ukers "não satisfaz ás exi- Mas de tivemos ultimamen-
tal edição
gências scientificas e deve ser aprovei- te uma mostra de mau prenuncio no nu-
tado com muita cautela." mero de janeiro do reputado magazine de
il)

universal divulgação, editado pelo Sr- bora, nem de longe, liaja aimda parida-
Ukertí; Tea and cotfee. de entre a importância do commercio,
parte consagrada pelo Dr. Padberg
A por assim dizer sul-americano da iliclnea
bem e o trafico universal movimentador dos
á Introducção do Café no Brasil é
trabalhada mas resumida. Refere-se productos decorrentes das grandes lavou-
quasl unicamente á transplantação da ras da theacea, da rubiacea e da byttne-
rutílacea no Pará em 1727. reacea.
Muito notável superioridade sobre os
verão os nossos leitores, deixan-
Como seus congéneres lévâ o da thea sinerisís,
do de lado a parte da Introflucvão Geral, quanto ao volume do consummo. Torna-
procurámos, nos capítulos consagrados se desnecessário lembrar-lhe a vastidão
no Brasil, lançar mão dos recursos da dos mercados asiático e europeu.
mais vasta bibliographia ao nosso al- Vem em segunda plana o do café, cada
cance .
vez mais dilatado, com as quotas de con-
Coube-no9 sempre a felicidade de ac- sumo universal a subir, dia a dia, pelo
crescentar notas inéditas aos subsídios alargamento 'dos mercados e por em-
dos antigos autores. Assim, até mesmo quanto como que confinado ao mundo
em relação á exhaustiva monograpliia de Occidental e, ainda assim, sobretudo, ás
Basilio de Magalhães relativa a Francis- terras da vertente atlântica.
co de Mello Palheta. Conseguimos acíes- O campo do cacau embora dia a dia
ce-la com elementos de nossa própria mais importante, e em rápida e notável
pesquiza e da indicação do douto ííodol- dilatação, está muito abaixo dos dois pri-
pho Oarcla. meiros.
Árduo trabalho tivemos colligindo Entretanto, af firmava Ukers em 19 22
dados que nesta obra se compenciiam. K com a sua autoridaide de especialista:
nossa permanência em São Paulo, onde sob o ponto de vista do commercio inter-
as brasilianas publicas são muito pobres, nacional o volume dos negócios do café
dlfflcultaria immenso o nosso trabálTio tem importância incomparavelínen-
não fftra a generosa hospitalidade que te maior do que a das outras bebidas
cm sua livraria opulenta de assumptos pelo facto de ser a fava abyssinia impor-
pátrios nos concedeu o amigo Yan de tada, para paizes não productóres, duas
Almeida Prado o joven, erudito e bri- vezes mais do que succede ao chá.
lhante autor d'Os primeiros povoadoi-es Facto interessante o seguinte: a deli-
(lo Brasil. mitação das áreas occupadas pelos povos
Adminiculos informativos inestimavel- que dão preferencia ao cha e ao café.
mento precio.soa houvemos de Rodolpho Mantem-se os consumidores geralmente
Garcia, de D. Lúcia F. Lahmeyer, do se- persistentes em seus habites.
cretario da pre3idencia do D. N. C, Sr. . Pequenas as conquistas realizadas por
Pr. Alberto Carlos de Araujo Guimarães. uma das decocções sobre a outra.
Assim fambom doEurico Penteado,
Sr. Chins e japonezes, russos e inglezes,
director de publicidade do D. N. C, mantêm-se 'fieis ao uso do châ, norte-
quanto á contribuição iconographica de americanos, hollandezes, francezes, es-

que dispõe o Departamento. candinavos ao id'o café.


A todos estes amigos, serviçaes e ge- O cacau, mais disseminado em sua dis-
nerosos, os nossos mais effusivos agra- tribuição universal, ainda não offerece
decimentos .
séria competição aos rivaes pelo facto de
não ter como mercado favorito uma
fracção compacta da Humanidade.
Abrindo a sua prestantissima obra Verdadeiro hymno tece Ukers ás vir-
disserta W. Ukers sobre o papel do café tudes do café, género de
no ronjuncto do commei'cio universal, o primeira ne-
cessidade humana"; "corolário da ener-
de approximador dos povos. gia e da efflciencia humanas, bebida de-
Na sua marcha ininterrupta, produziu mocrática, favorita dos homens
a Civillsação treg bebidas não alcoólicas e das
mulheres "que faz o Mundo vibrar pelo
importante», observ.i o autor americano:
emprego da intelligencia e dos músculos
o extracto das folhas de chá, o das se- braçaes, o mais grato dos lubrificantes da
mentes do cara!! c o das sementes do machina humana e fonte das mais delicio-
rafí.
sas sensações gustativas.
Uma quarta poderia addir-se a esta lís- No melo millenio de sua carreira in-
la. sem commetter grande injustiça, o numeros entraves foram oppostos a
extracto das folhas do matte, muito esto
em- alimento liquido, presente da religião á
. . . . . . . .

11

Humanidade dignificado pela sciencla Um dos


acirraidios cafeophobos,
mais
medica, apezar do muito que o comba- homem confessava que até hoje se
leal,
teram as superstições e os preconceitos não descobrira nem inventara bebida
religiosos e pseudo-seientificos" quente capaz de substituir o café.
Tentaram aniquilal-o feroz opposição ": —
E nunca se achará!" affirma o
politica, estúpidas restricções injustissi- nosso autor, a rememorar as palavras do
mas, irritantes direitos alf andegarioa Dr. Harvey Willey: "um substituto de-
Mas de todos estes obstáculos trium- ve poder preencher as funcções de seu
phou porque é dos maiores alimentos substituído, e ser capaz de supportar
universaes de poupança. Nenhum simi- combate. Um toma larguras, jamais ê
lar lhe leva a palma em matéria de sa- um substituto,,.
bor e reconforto, rápida actuação phy- Terminando o seu dithyrambo ad ma-
siologica e psychologica decorrentes do jorem coffeae gloriam affirma Ukers
aroma e do gosto. que noventa e sete por cento dos huma-
Incute a sensação do bem estar, a ho- nos acham a infusão arábica innocua
mens e mulheres e a mais brilhante e salutar. Sem ella correria a vida falha,
comprobação tiveram as suas virtudes drab, escreve empregando vocábulo enér-
por occasião da Guerra Mundial de gico e, dirão alguns, pouco apropriado a
1914-1918. autor que zela pela distincção do voca-
Em 1919, proclamava um general do bulário .

exercito idos Estados Unidos, de tres fa- Cousas do enthusiasmo! Ainda é este
ctores nutrientes decorrera a Victoria dos sentimento que o faz proclamar o cate
AUiados: pão, toucinho e café. estimulante puro, salutar, oriundo do
Tão convicto panegyrista se mostra o próprio laboratório da Natureza e uma
autor yankee que chega a proclamar das mais puras fontes da alegria do vi-
arroubado: * na resenha dos symboloa ver!
da -confraternização dos povos, represen- Deste arroubo procede a verdadeira
ta o café o mais conspícuo papel salvan- ladainha jaculatória do seu "A coffee the
do a democracia mundial!" saurus", hymno inexprimivelmente en-
E, num surtode idealismo, affirma thusiastico ao cafeeiro, aos seus fructos,
que a nova oriunda da Paz de Ver-
era, ao café em infusão.
sailles e da Conferencia de Washington "Arvore felicíssima de Moka dadiva
deviam certamente basear-se na tempe- celeste, doada pelos deuses á espécie hu-
mana! magica cereja, rica, regia, vo-
rança e no self-control exigindo a demo-
:

cracia a rectidão da vida e a clai"eza lupica, brada o nosso


sãlutif era, etc .
,

do pensamento autor no auge do arroubo pai'oxystico


íOra, para tal desidei"atum havia mara- E quando se refere á infusão não me-
vilhosos estimulantes no café, no chá e
nos enthusiasta se mostra! néctar divi-
no chocolate, bebidas promovedoras da no, magica bebida, ambrósia celeste, be-
vida racional pelo augmento do conforto bida universal, taça da felicidade, sueco
intellectual, guarida da sobriedade, bebi-
e da alegria
da democrática mais suave que uma cen-
Indubitável se torna que do café não
tena de beijos (sic!) symbõlo da frater-
se deve abusar, como ninguém pode fa-
nidade humana, rainha do almoço ameri-
zel-o em relação ás melhores coisas deste
cano, lympha em que lavamos a tristeza
mundo. Havia mesmo individues sofren- ) etc etc
( !
.

tl'o de idiosyncrasia cafeica. Mas em alguns reparadores


Dirão que este
proporção minima, no conjuncto do gé-
nero humano
A coffee thesaiiriis poderia estar ausente
de um livro da sisudez do AU about cof-
O genio da especulação pretendia po- fee. E realmente. . .

rém valer-se desta disposição de uns Mas não seremos nós quem carga faça
tantos hypocondriacos e dos anaphylati- ao douto autor por este motivo, commun-
sados da cafeína
gando com muitas das ideias de Ukers.
E explorava-se a credulidade de taes Mais moderado porém escreve Hilde-
suggestionaveis impingindo-lhes os suc- brando de Magalhães no preambulo de
cedaneos, collecção pittoresca, assim de- sua Historia do Café.
nominada de substancias que não eram alcoólicas,
"nem peixe nem carne".
As analyses offíciaes demonstravam-
— "De todas bebidas
cujo uso ininterrupto
as
a humanidade
'não

veiu a adoptar, familiarizando-se com


Ihes a defficiencia alimentar de que tan- as mesmas de tal forma, que a abolição
ta praça faziam os seus inventores. repentina de qualquer delias equivaleria
. . .

12

a um verdadeiro sacrifício, — é o café, lhes contribuições valiosas e extensas de


Bem duvida a melhor, a menos cuatosa, a muitos outros autores como sobretudo cie
mais efficaz, a menos nociva. Edelestan Jardin, entre os estrangeiros,
Intellectual intensa-
por excellencia; Peckolt, Moura Brasil, Mello Moraes, en-
mente agradável, —
pelo sabor, pelo odor tre os brasileiros.

€ pelo aspecto, — ao
paladar, como ao Assim distribuímos o nosso trabalho
olfacto e á vista; proveitoso em alto pelas duas partes principaes Introducção
gráu á economia interna "do organismo: Gera! e Propagação da cHltura cafeeira
— não é de admirar que o liquido obtido, no Brasil colonial.
mediante certos processos, das sementes Já esta matéria abrange enorme copia
encerradas em um pequeno e bello fructo de informes. Tal o vulto tomado peia
vermelho, tenha sido e seja estímaTlo de cafeicultura em nossa pátria que sua
maneira quasi universal, considerado historia não pode ser feita em meia cen-
quasi um néctar, uma essençia rara, jul- tena de paginas sob pena de se limitar
gado quasi incomparável, quasi divino, a um apanhado
quasi insubstituível. Nãoseria este condigno da importân-
E, de facto, o café faz jús inteiramen- cia do assumpto nem estaria de accordo
te a quantos louvores se lhe tributem, com as noi^rnas do programma do Depar-
por mais calorosos, por mais enthusiasti- tamento Nacional do Café' e de seu digno
cos que sejam". e tão culto Presidente.
Eis uma opinião bem brasileira! Tal o vulto da lavoura da rutiiacea
De como convicção se arraigou em
tal como instrumento do Brasil
civilisador
nossa alma nacional, fructo de uma in- que creou o brocardo corrente desde os
dustria agrícola avassaladora das prin- nossos primeiros annos imperiaes: O
cipaes forças vivas do Brasil-nação, pro- Brasil é o café!
curaremos exemplificar, historiando as Os aspectos tão curiosos como varia-
íliversas phases da sua propagação enor- dos assumidos pela civilisaçâo do catô
me, phenomeno notabilissimo dos sécu- desbravadora das nossas regiões do Sul,
los XIX e XX, único nos fastos eco- creadora do esplendor fluminense impe-
nómicos universaes, no dizer de notável rial, da opulência paulista, do progresso
autoridade contemporânea. mineiro e espirito-santense; Os fácies ri-
Para um tentamen systematisado como quíssimos de dados sociológicos por elia
este que emprehendemos, impunha-se um apresentados', devem ser detidos e demo-
retrospecto da cultura cafeeira no Uni- radamente estudados sob largos moldes.
verso antes de se estabelecer no Brasil Neste ensaio não se poderiam ainda
Foi o que pretendemos realizar, va- enquadrar
lendo-nos para tanto, dos dois grandes Assim nos limitamos a esboçar o qua-
trabalhos de Ukers e Padberg Drenkpol, dro colonial da propagação da cultura
como fonte principal mas enxertando- quando no Brasil o café amanhecia.
'

Affoiíso de E. Taunay
S. Paulo, 13 de junho de 1935.
PRIMEIRA PARTE

INTRODUCÇÃO GERAL
. . . .

15

CAPITULO I

O "habitat" primitivo do cafeeiro. A hypothese


da origem ethiopica do café. Exame dos depoimen-
tos de viajantes antigos e recentes

De quanto em portuguez se tem es- suppor que, antes desta época, era a plan-
cripto sobre as origens do caíé, sua qua- ta encontrada a crescer, selvaticamente,
si proTada origem abexim, transplanta- na Abyssinia, e talvez na Arábia", adver-
ção á Arábia e propagação pelo Oriente, te Ukers, a advogar a causa de contes-
nada se compara ao que escreveu o Dr. tável these aliás.
J. Padberg Drenkpol A tal propósito convém recordar r -

Recorreu elle ao testemunho dos ara- depoimento antigo de testemunho valio-


bistas mais eminentes, sobretudo á enor- so, pela honestidade dos dizeres, o de La
me autoridade de Silvestre de Sacy, aos Roque, primeiro viajante francez da Ará-
grandes monographistas do assumpto, bia, em seu livro: Voyage de l'Arabie

como o illustre geographo Ritter, etc. Heureuse par l'Ocêan Oriental et le Dé-
troit de la Mer Rouge fait par les Fraii-
Verificou os depoimentos dos viajantes
çais, pour la première fois, dans les an-
antigos, primeiros reveladores do café ao
nées 1708, Í709 et 1710.
Occidente e deste material soube fazer
brilhante transsumpto superior ao da
Avec la relation pavticiilière d'mi voya-
obra de Ukers, aliás também largamente ge fait du port de Moca á Ia Cour du Roy
d'Y<^ineii, dans la seconde expédition des
informativo. Assim, valendo-nos de am-
bos estes autores, vamos expor o que années 1711, 1712 et 1713.
delles aproveitámos, assim como de mais Un mémoire concernant l'arbre et le
algumas achegas, aqui e alli colhidas fruit du café dressé sur les obsei^vationís
Expende o autor americano a opinião de ceux qui ont fait ce dernier voyage.
de que o resultado das pesquisas acura- Et un Traité historique de l'origine et
das levou a maioria das autoridades a du progrés du café tant dans TAsie que
admittir para o cafeeiro um autochtonia dans l'Em*ope de son introduction en
abexim France et de l'établissement de son v^age
Para Padberg^ é indiscutível esse ethio- à Paris (Paris, 1716).
pismo Assim, estranha que o nome scien-
.
Diz o viajante francez:
tlfico da planta, baptisada por Linneu,
"Os árabes do Yemen estão convenci-
seja "coffea arábica", confirmando o ge-
díssimos, assim como todos os orientaes,
nial sueco a denominação escolhida para
aliás, que o café não cresce em parte al-
a rubiacea pelo illustre Antonio de Jus-
guma mais do mundo, a não ser em seu
sieu, que, ao cafeeiro, denominára, em
paiz .Acredita-se, no emtanto, que, ori-
1713, Jasminum arabicum. ginariamente, proceda da Ethiopia, de
"
"O habitat natural do café não é a Ai'a- onde o transportaram á Arábia Feliz .

bia, como outrora se creu, e sim a zona A esta opinião confirma de algum mo-
entre a Abyssinia e os grandes lagos cen-
do o relato da viagem que Carlos J- Po-^
traes africanos, especialmente o sul do cet realizou na Abyssinia, nos annos de
império dos Negus, nas províncias mon- 1697 a 1700.
tanhosas de Kaffa e Bnérea", affirma o
Este Poncet, convém lembral-o, era
douto escriptor.
um medico francez do Cairo, chamado á
Este toponymo, que se grapha de di- Abyssinia para tratar o Negus Yassús T,
versas maneiras, com e sem o e inicial, é atacado por uma espécie de lepra. Subiu
o de certa província sul-abyssinica, cuja o Nilo, foi pelo Núbia á Ethiopia, em
capital, Saka, não está muito distante de 1697, curou o soberano, desceu a Mas-
Kaffa saua, teve diversos incidentes de jorna-
"A primeira menção verosímil das pro- da, curiosos, voltou á França, com um
priedades e usos do càfé provém de um embaixador do Negus, soffreu desfeitas
medico árabe das vizinhanças do fim do graças á perfídia do cônsul francez no
século IX da éra christã. B é razoável Egypto e acabou os dias na Pérsia.
. . . . .

16

"Arfirnia este viajaute, diz La Roque, "As melhores noticias que da Ethiopia
que ainda hoje (1700) se vê café, naguel- temos das quaes a mais prestigiosa é a
le paiz, cultivado apenas coimo curiosida- do jesuita portuguez Telles, prosegue La
de. E descreve a planta sem comtudo Roque, e a própria historia da Ethiopia
a firmar que haja visto. Mas tal
f
des- do sr. Ludolfe, tão curiosa e tão exa-
cripção em que se compára a planta a cta, não dizem uma única palavra do
murta diverge tanto da arvore do café, café'
por nossa gente vista na Arábia, que cer- Parece aliás que a noção da origem
tamente ahi houve algum engano". ethiopica do café se introduziu em Fran-
Trechos de Poncet transcriptos por ça com La Roque em princípios do sé-
Paulo Porto Alegre e Freire Allemão são culo XVIII. Dufour em sua segunda edi-
portanto bem claros. ção do Traité du café (Haya, 1685) bx-
"Emquanto estive na Abyssinia soube penidia: De tous les endroits du monde
que os hollanidezes haviam tentado mais je ne sais pas qu'il y avait d'autre qui pro-
de uma vez entrar em commercio com duise le café que rYemen ou 1'Ayaman
os habitantes daquelle lugar; porém, ou (selon nos géographes peu corects) qui
fosse pela differença de religião ou por- est TArabia kruereuss.
que seu grande poder nas índias Orien- Não faz uma única allusão ao ethio-
taes, causasse ciúmes, o certo que ou pismo da rubiacea. "Se é verdade que
Ethiopes não quizeram tratar com elles. os Abexins passaram da Arábia á Ethio-
"Também lá me constou que os ingle- pia em tempos immémoriaes assim como
zes andavam desejosos de entreter rela- escreveu o Snr. Ludolfe, continua J. de
ções commerciaes com aquelles povos; e La Roque elles terão podido ter trans-
que um mercador arménio, de nome Aga- portado o cafeeiro (da Arábia embora este
pyri (Agapyry rectifica Porto Alegre) se não se tenha dado muito bem, visto co-
havia associado com os inglezes paro ter mo é muito incerto que hoje se encon-
parte neste commercio, que flevia ser tre na Ethiopia".
muito lucroso; porque além do ouro, al- A autoridade de Job Ludolf, o famo-
galia, marfim, etc, tirariam da Ethlopia so orieatalista e polyglota allemão, ce-
o aloés, a myrrha, a cássia, o tamarindo lebre no século XVII, não tem tanto pres-
e o café, do qual os Ethiopes fazem pou- tigio quanto La Roque lhe suppunha E .

co caso; e me disseram que esta planta merecidamente, pois sabemos que não
fora antigamente levada do seu paiz para visitou a Aisyssinia e sempre escreveu
o Yemen ou Arábia Feliz, onde hoje se por infoi^mações
faz a principal cultura; porque na Bthlo- Tratando-se dq tão longínqua terra
pia já se cultiva sómente por curiosi- deixa de ter Valor especial a affirmativa
dade" .
do erudito germânico.
Quanto a mim, diz o botânico brasilei- Pretende Ukers que algumas autori-
ro, o abbade Raynal fundou-se no teste- dades (aliás não citadas) suppõe data-
munho deste viajante, quando na sua rem as primeiras lavouras cafeeiraa do
erudita e estimável "Historia dos estabe- Yemen de época anterior a 575 da nos-
lecimentos e commercio dos europeus nas sa era! quanido uma invasão persa do
duas índias" — assevera que o Cafezeiro sassanida Khosroes, o Grande, enxotou
nasce espontâneo na Alta Ethiopia, onde da península arábica a dominação ethio-
de tempos immémoriaes é conhecido". pe que, sob o negus Caleb, alli se im-
Corroborando o abbade Raynal outro plantára
informante, Lagrenée de Meziéres, ci- O uso da bebida provocou, certamente,
tado por Borges de Barros, em sua mo- a plantação do cafeeiro na Abyssinia e
nographia de 1813, affirma que na Ethio- Arábia. Mas os seus progressos íoram
pia era o grão do café maior e mais ver- XV
lentos até os séculos e XVI quando
de do que o da Arábia. E tão perfumado parece se terem intensificado no Ve-
quanto este. men
Burlamaqui em sua Monographia (lo Escreve Padberg:
cafezeiro e do café chama a este autor "A tradição dos próprios árabes apon-
Langrenne de Mariero affirmando que tava para a vizinha costa africana, deno-
era embaixador de França na Abyssinia minada por elles Berr-el-Adjam, isto é,
Mas o seu nome exacto era Lagrenée de "terra dos bárbaros (estrangeiros)). E'
Meziéres. ahi que o introductor do café na Arábia,
17

Djemal-eddin Dhabani (morto em 1470), café, coube notável papel na dissemina-


conheceu a nova bebida, e não na Pérsia, ção da rubiacea. o mesmo se daria nas
como traduziu mal Galland causando as- Philippinas com outro viverrideo, o Pa-
sim um erro repetido durante mais de radoxurus philippinensis, que come as
dois séculos até nossos dias, apesar de bagas, expellindo as sementes indigestas,
corrigido pelo barão de Sacy". e o musango de Java.
Confirmaram-no mais uma rez os ára- Affirma o erudito monographista, a
bes, segundo o testemunho do celebre quem vimos acompanhando: "Baseado
viajante allemão C. Niebuhr, de 1763. nestes testemunhos poude o botânico
Os árabes pretendem que tiraram o francez Achille Richard, com segurança,
cafeeiro de Habesch (Abyssinia). al-
incluir o cafeeiro, sob o nome indígena
e
gumas pessoas que tinham estado nesse "Bun" no seu Tentamen florae abyssini-
cae.
palz, asseguraram que nâo sómente alíi
o riram, mas que em varias regiões de Ritter, contemporaneamente, e numa
Habesch o café ignalava em qualidade synthese capaz de convencer, demonstra
que Kaffa ó, sobretudo, a pátria primiti-
o do Yemen".
va do café, apontada aliás, também, pela
Da viagem de Niebuhr,. comparticipou tradição abysslníca.
o botânico Forskal que na sua Flora ae-
gyptiaco-arabica (1775) escreveu Ex Abys- Viajantes posteriores, como von Heu-
:

Blnia illatas primas glin (1861-62), Géhr, Rohlfs (1868), Ant.


arbores (coffeae)
pntant Árabes. Cecchi (1877-81), etc, comprovaram e
completaram estas observações. Assim,
Recorda Padberg os depoimentos de sabemos hoje que o berço da Coffea ará-
numerosos viajantes celebres, modernos,
bica é extensa parte da Africa intertropl-
do império abexim, como James Bruce,
cal e elevada. Ahi se verificam as con-
J. L. Burckhardt, Ed. Ruppel, Isenberg,
dições mesologicas para o seu desenvol-
Krapf, Lefèbvre, Gallinier, Ferret, etc.
vimento, concentradas em grande pane
Viram todos o cafeeiro vegetar,.- viçosa-
na Abyssinia e principalmente em Kaffa
mente, em differentea regiões da Ethio-
e vizinhanças, dahi provindo o optimum
pia.
de seu crescimento natural."
Para o Dr. Roth, lembrado pelo mes-
Esta affirmação cathegorica sobre o
mo autor, botânico da expedição do Ma- berço da Coffea arábica mais prudente-
jor Harris, em 1844, a pátria do cafeeiro
mente se redigiria talvez: Tudo nos induz
é o Choa.
a acreditar que a pátria da coffea venha
Averiguou a espontaneidade do arbus- a ser" . . .

to nas regiões mais quentes deste reino, Nada mais criterioso, porém, ao que
os abexins christãos o arrancam, porém, estas observações de Freire AUemao, re-
tendo-o como arvore infernal dos maho- ferentes aos mais antigos depoimentos
metanos. Onde estes predominam, a léste europeus modernos, preciosos e extensos,
e ao sul, nas terras vertentes para o rio sobre os reinos do Prestes João: os dos
Hauasch, e nas montanhas dos Gallas portuguezes.
Arussi, prolongados do lado do Oriente "Na opinião de Loudon, o uso do care,
pelo planalto de Harrar, medra o cafeei- na Ethiopia, sobe a tempos mui remo-
ro, mas incultamente. tos; como também o indica Kaynal.
verdadeira
"Siua pátria, porém, diz E', porém, digno de reparo que nem
Roth, deve ficar mais para Oeste e Sul, lá Fr. João dos Santos, na sua Ethiopia
nas províncias de Kaffa e Enarea, onde, Oriental, impressa em 1609; nem o padre
conforme lhe disseram, o cafeeiro Balthazar Telles, que escreveu a historia
brota com exuberância natural nas mat- da Alta Ethiopia, á vista de numerosos
tas, vergando os ramos com o peso dum documentos, fornecidos pelos missioná-
fruto da mais apurada qualidade, com- rios, que ali estavam, desde 1540, ate
prando-se uma carga de burro pela vi- seu tempo, digam coisa alguma a respeito
gésima parte dum thaler. Lá é que toda do café, que todavia era já bebida divul-
a gente toma café e o serve ao forastei- gada em 16~B5, quando este ultimo com-
ro; é, emfim, o centro de sua distribui- punha a sua obra em Gôa."
ção nativa, seu ponto de partida para "Não repetirei o que se conta do como
outras paragens." se descobriram as qualidades e os usos
Harris e Roth affirmavam que ao gato desta semente, porque tudo tem ares ae
de algalia, muito amante das cerejas de verdadeiro conto arábico.
18

em "A ponto de se falsificar até o nome


O aue com verdade se sabe é que, ará-
da nossa Coffea com o epitheto de
fiiS do s^ulo XV, entrou a ser cuiuvaaa
o século XVl bica."
na Arábia Feliz; que meado entenae
singularidade
tanto ali, como no Egypto, e
em outros Explicando tal
commum, Padberg que, mutatis mutandis, poder-
lugares do Oriente, seu uso era Abyssinia
um século mais tarde se tez co- se-ia applicar-se ao cafeeiro da
e que que pre-
vindo o conceito relativo ao propheta
nhecida na Europa, onde chegava,
da Arábia pelo mar Vermelho, a^ô
que ga na própria terra. Cita as palavras cios
-Wo
deram novo caminho viajantes celebres já acima citados.
os Hollandezes lhe christãos abe-
dizer destes itinerantes os
rodeando a Africa."
xins por via de regra não usavam o cate.
Padberg ao illustre botânico
Reforça
dando-lhe carradas de razão
No Choa era até prohibldo o plantio
brasileiro
cios da rubiacea. Ali aos cafeeiros selvagens
quando affirma inexplicável o silencio
escriptores lusitanos sobre a até arrancavam.
antigos
Abyssinia até o século XVIII e em
ma- Muitos impecilhos estorvavam a ex-
téria de café.
portação do café abexim, as ditficuidades
da travessia de um paiz accidentadissimo
De Freire Allemão ainda:
e a hostilidade de populações semi-selva-
"Recorri aos escriptos dos portugue- gens da baixada para o Mar Vermelho.
zes, que andaram pela índia e Bthiopia, Lefêvre, que esteve na Abyssinia em
taes como: Duarte Barbosa, que, em
1840, 1843 e 1847, por ordem do gover-
1516, tão extensa e miudamente escrevia no francez, com Quentin Dillon e Petit,
sobre coisas da índia, Africa e Mar Ver-
e a percorreu muito, notou que no pró-
melho; o padre Francisco Alvares na prio districto de Kaffa estava muito des-
viagem ao Prestes João, em 1520; e leixada a cultura do cafeeiro, o que
emfim o capitão João Ribeiro, que mili- confirmou Harris Roth. Até os dias de
tou na índia, para onde foi em 1640, e
annos, hoje continuou esta situação. Chegou a
ali se demorou obra de quarenta
producção em 1911 á cifra insignificante
e parte destes como prisioneiro de guer-
de 200.0'00 kilos annuaes.
ra em Batavia, na sua Fatalidade histó-
rica da Ilha de Ceilão; onde, quando elle
Pensa Porto Alegre, á vista das inior-
faz uma como resenha dos princlpaes gé- mações de Lefèvre, e outros viajantes, e
neros de commercio de varias nações, se da insignifiicancia da tradição, que quan-
acha o seguinte: do muito se pôde suspeitar "que a ver-
"O Estado do Brasil tem assucar e dadeira pátria do cafeeiro seja a Alta
tabaco; a Arábia incenso, myrrha, tâ- Abyssinia".
maras 6 cavallos; a Pérsia sedas..." Terminando o seu capitulo refere Pad-
Nem estes, nem outros, que escuso no- berg outros usos que os abexins dão ao
mear, falara em café, que parece ser-lhes café. Assim lhe mastigam as sementes
inteiramente desconhecido. cruas e assucaradas, fazendc inlusões
Nas Décadas, quer de João de Barros, com a polpa da sua casca, Deoeragem
quer de Diogo do Couto, nenhuma vez se idêntica ao Kixr do Yemen.
encontra a palavra café, affirma o nosso E' muito interessante o que o mesmo
botânico. autor ainda revela de outras iguarias
Lembra Padberg, em abono destes con- preparadas com o café, na Abyssinia.
ceitos, "que tão pouco o doutíssimo "O que, porém, mais se aprecia na pá-
ethiopista allemão Ludolf menciona a tria da nossa planta é o café preparado
planta e a bebida na sua grande Historia com manteiga. Já ouvimos de Bruce que
Aethiopica, datada de 1699". O primeiro o alimento principal das trTbus Gallas,
que delias dá noticia vem a ser Poncet em suas longas correrias, feitas com in-
no limiar do século XVIII. E isto apenas crível rapidez, era café torrãiTo e tritu-
por meio de referencia vaga e incidente. rado, formando, com manteiga, umas
Bruce, já quasi em fins do mesmo sé- bolas como almôndegas, do tamanho de
culo, só pôde falar de outiva, pois nao bolas de bilhar, dando-lhes uma delias
conseguiu avistar o cafeeiro, apesar ue mais força que toda a outra comida."
attenta observação da natureza abyssinia. Uma "chicara de café preparado com
Dadicou-lhe um volume especial, sem manteiga" foi servida, em 1879, a Anto-
mencionar planta mais preciosa (lo
a nio Cecchi, no palácio real de Sadjlo, ou
paiz. O íberço verdadeiro do café conti- Saijo, capital do pequeno reino abyssinio
nuou ignoto durante séculos. de Gomma, entre Kaffa è Limmu (Ena-
.

19

réa), e nosso viajante achou este "café Esta iguaria, comida com milho cozido,
real sobremodo gostoso". afigura-se aos Somalis indispensável e
De que maneira os Somalis fazem seu preferível a tudo."
predilecto café de manteiga, relere-nos
Livro muito recente, senão recentíssi-
o francez Révoil, descrevendo seu captl-
mo, interessante, sobremodo curioso, so-
veiro em Geledi: "Todas essas tribus que
bre a Abyssinia, vem a ser El Império
habitam a pátria do cafeeiro. não pre-
. .

de los Negros blancos, da autoria do di-


param o café como nós. nem usam, â
. .

plomata hespanhol Alexandre Liano.


moda dos árabes, o kixr, espécie de cha
da casca resequida. Capítulos numerosos nelle ha, sobre-
Conta-nos, em seguida, como as
cere- modo vivazes, descrevendo costumes com
jas, ou drupas carnudas do cafeeiro, de- franqueza realmente notável, senão por
pois de mordidas, para deixar entrar me-
vezes excessiva, por descambar para ac-
centuado erotismo.
lhor a gordura, são deitadas em mantei-
ga ou azeite a ferver, ficando abafadas Sobre o uso do café na ALyssinia, nelle
algum tempo num vaso bem tapado. quasi nada ha. Refere-se muito á tala,
Com o azeite assim perfumado untam- espécie de cerveja indígena, ao raki,
se os convivas o nariz, ás orelhas e o aguardente local, sem nos dizer se o cate
corpo; derrama-se então sobre os frutos é mercadoria de primeira necessidade
refogados manteiga fresca derretida coji no Império dos Negus, embora se refira
mel de abelhas ou, melhor alnaa, com que no mercado de Addis Abbeba appa-
caldo de canna d'assucar. rece como género habitual de consumo
20

CAPITULO II

A propagação do café pela Arábia. A versão de Gal-


land. Correcções de Silvestre de Sacy e Ritter. Os
primeiros depoimentos sobre a disseminação do café

Para o estudo da disseminação do cafó- se referem com certa extensão. Fel-o em


eiro, passado de seu berço abexim á cos- sua Lettre snr Porigine et le progrès du
ta fronteira da peninsula arábica, pri- café, ipublicada em Paris e em 1699. Ao
meiro passo para a suas aliás lenta pro- seu trabalho rectificaria muito maior au-
ipagação universal, entende Padberg que toridade, Silvestre de Sacy, em sua Oiires-
não ba o que suppra os ensinamentos do tomathie árabe, annexando-^lhe preciosas
immortal orientalista Silvestre ide Sacy. notas.
Pesquizou este grande espirito, com Analysando este papel iprimevo, data-
prodigioso afinco, a bibliograpbia arábica do de 1587, e cujo titulo vem a ser Ar-
antiga. giimento em favor da legitimidade do uso
Dos resultados desta busca valeu-se, do café, observa Galland que Avicenua
immenso, o grande geograplio Carlos Rit- trata do bunn, ou café, como aliás Pros-
ter, em sua monumental monograpbia pero Alpini, o revelador da beberagem á
Bie geograpMsche Verbreitung des Kaf- Itália.
feebaums (1847). Este Abd-al-Kader (escravo d'Aquelle
"Assombro de erudição e solidez, o es- que é forte; Deus) tinha, no nome exten-
tudo mais perfeito que jamais se escre- síssimo, diversos qualificativos Ansari, o
veu sobre este assumpto", no dizer do que iquer dizer, descendente dos Ansarls,
douto commentador, não «foi no emtanto a tribu de Medina que receljeu e prote-
aproveitado pelos monogra:p'histas brasi- geu a Mahomet quando o Propheta fugia
leiros do mesmo género, como Paulo Por- de Mecca; al Jazari, indicando-lhe a pro-
to Alegre e Peckolt. cedência mesopotamica, e al Hanbali, do-
Vejamos porém 'qual vem a ser esta cumentando a sua afiliação theologica e
mais antiga bibliograpliia do café: jurídica á escola dos Hanbalitas, oriunda
Em princípios do século XVI, um sábio dos ensinamentos do celebre Ahmedibii-
da Meca, Fakhr-eddin Abu-Bek, publicou Hambal (fallecido em Bagdad, e em 855
um opúsculo intitulado o Triumpho do de nossa era).
café, seguindo-se-Ibe, sobre o mesmo as- Julgam os doutos que o livro de Abd-
sumpto, um cbeik do Egypto: Schebab- al-Kader ibaseiou-se num escripto de
eddin Ebn-Abd-Algaffar. Shehab-eddin, a que aliás se refere. Até
;Nessa occasião viva contenda agitava ihoje não ha noticia de tal tratado que,
os árabes; partidários bavia, fanáticos, por certo, como tantos milhares de ou-
da aova bebida e adversários não menos tros, 'perdeu-se na voragem consumidora
acirrados. das obras.
Comipilando estes dous trabalhos, aliás Affirma J. de La 'Roque que Shehab
abundantemente citados, e valendo-se ie era um historiador árabe. Pensa-se que
mais documentação, um cheik medinen- o seu trabalho antecedeu, de lUm século,
se, Abd-Alkader Ansari Jazarial Hanball, o de Abd-al-Kader.
escrfveu uma apologia do café em sete Quando o precioso códice do ipoeta Is-
livros intituladas: "As mais fortes pi-o- maelita entrou ua Bibliotheca Nacional
va.s em defeza da iegitimidade do café". de Paris deram-lhe, na ficha de catalo-
Parece haver duas edições deste tra- gação, Tim titulo em latim, na qual se
tado, uma de 1559 e outra de 15 88. ÍJa refere que o autor o escrevera cento e
primeira, encontra-se cópia manuscrlpta
vinte annos apfls a introducção do café
na bibliotheca do Bscurial, existindo, da no Yemen, como bebida corrente.
segumda, outra, em Paris. Foi o Snr. de Novistel, embaixador de
Foi Antonio Galland, o celebre orien-
Luiz XV junto á Sublime Porta, quem
talista, traductor das Mil e uma noites
trouxe de Constantinopla tal preciosida-
(1645-1715) o primeiro que do árabe de, assim como um tratado de outro au-
verteu o manuscripto de Abd-al-Kader,
tor, Bichivili, mais recente do que
o mais velho dos documentos que ao café o de
Abd-ellKader, e referente á historia da
"

21

propagação do café, no Egypto e na Syria, rezadores para as suas praticas noctur-


no Cairo, Damasco, Alepo e Constanti- nas, e outros exercidos religiosos a se-
nopla. rem seguidos com maior attenção e de-
Sete capítulos comprehende a obra de voção.
Abd-al-Kader. No primeiro se analysa o E' possível, ou mesmo provável, que
etymo comm«nta-se o sigmificado da
e já antes de Djemal-eddin fosse o café co-
palavra Cahouah (Kahva) a natureza e
- nhecido em Aden. Mas que a fama "lo
as propriedades da cereja, a enumeração sábio propagandista, do erudito imaa
dos lugares onde a bebida foi primeira- contribuiu muito para que, dahi, lhe pro-
mente usada e a descripção de suas vir- viesse um pretexto para a propagação
tudes. ;pelo Yemen.
Os demais capítulos tratam largamen- No manuscripto da Bibliotheca Nacio-
te das disputas religiosas de Mecca, em nal de Pariz lê-se que, dentro em breve,
1511. Insere as respostas ás objecções todos quantos trabalhavam á noite fa-
religiosas adversas ao café' e conclue ^ or ziam largo uso do café, deixantío de lado
uma espécie de chrestomathia de poesias outra bébida o Khat ou cat. Destacavam-
árabes, compostas durante a controvér- se entre estes bebedores, sobretudo, os
sia de Mecca e devidas aos melhores poe- .siifis, mysticos e ascetas musulmanos.
tas do tempo. Como apostolo da dififusão do evan-
De Tima delias traz Ukers curiosa trans- gelho caféeiro, diz Ukers, consta que DJe-
cripção. maleddin contou com um medico 'de lar-
"O café ! Tu dissipas todas as pre ga reputação, certo Mohammed Alhadra-
occupações ! És o objecto do desejo do ni, filho de Hadramat, no Yemen.
estudioso a bebida dos amigos de Deus.
!
Sabedor das partilularidades que rela-
Dás saúde aos que anceiam pela scien- támos, escreveu certo autor Ebn-Abd-
cia Preparando da simples casca de um.a
!
Algaffar, a um amigo letrado, da cidade
cereja, tens o iperíume do almíscar e a
de Zebid, pedindo-lhe o informasse acer-
c6r da tinta.
ca do que conhecia a tal respeito.
O homem intelligente iiue enche a sua
Consultara o interpellado a diversos
taça de café fumegante, só elle conhece
anciãos da cidade, entre os quaes um seu
a Verdade.
tio, mais que nonagenario. Contára o
Assim prive Deus de tal bebida os in-
macrobio que vira, havia muito, ,ejn Aden,
sensatos que a condemnam em sua obsti-
nação incurável.
um fakir preparar café, publicamente,
para o illustre mufti DEabhani.
E' o café o nosso ouro Seja onde fôr !

•que o sirvam, quem o toma gozará da


Commenta Padberg, judiciosamente:
companhia do mais /nobre e generoso "Perguntar-se á gente mais velha é
dos homens. prova evidente de que, em Zebid, e no
O' hébMa] Tão innocente como o leite
Yemen em geral, ;por aquelle tempo ^cer-
ca de 1500) o café já estava introduzido
puro de que apenas differes pelo ne-
desde mais de uma geração, fóra da lem-
grume !

O depoimento de Schehab-eddin, cita- brança da maioria. De ifacto, aquelle no-


do por Adb-al-Kader, consta do seguin- nagenario terá feito a sua observação em
te: Pelas vizinhanças de 1500, se intro- bôa provavelmente uns 50 annos
i'dade,

duzira no Yemen nova bebida, o café, a antes, isto pelos meiados do século XV.
é,

que popularisára um celebre mufti (ju- Vem confirmado isto pela data da mor-
risconsulto" de Aden, o cheik Djemal- te de Dhabhani, indicada para 875 da
eddin abu-Abd-allah Mohamed (Bensald, ihegira ou 1470/1471 da nossa éra. O
accrescenta-lhe Ukers), alcunhado Dhab- manuscripto do Escurial dá até, como
Jiani, do nome de seu berço no Yemen, data da introducção do caJfé, em Mecca,
a pequena cidade de Dhabhan. o anno de 859 da hégira ou 1455 p. C.
Viajando de Adea para as terras da sendo naturalmente anterior ainda o seu
costa africana fronteira, observou quanto uso no Yemen."
alli era largamente usado o cajfé. Ao vol- Esta ultima data, entre parentheses,
tar para Aden e sentindo declinar a saú- é a que Ukers entendeu adoptar, por an-
de, delle fizera uso, como meio therapeu- terior ao millesimo attrilbuido como o da
tico, com o que se déra admiravelmente, m.OTte de Dhabhani.
restabelecendo-se. Receioso de se adeantar demais aven-
Verificando mais quanto o café des- ta Ebn-AAbd-iAlgaffar, ^lue talvez haja
iperíava, recommendára-o aos denviches sido Dhabhani o introductor do café era
22

Aden, segundo quer a crença geral. Não De toda a importância, comtudo, vem
é porém impossível que a primazia do a ser o seu reparo categórico, "nemhum
uso da bebida fosse deyi'da a outrem. dos doutores dos séculos anteriores ao
Attribuiram-n'a a Dhabhani !porque do nono da hégira jámais falou em café".
seu prestigio decorrera a verdadeira di- Nem Rasi, nem Avicenna portanto . . .

vulgação do licor da rubiacea. Na segunda metade do século XV, po-


Concluiu Abd-Alkader por preciosa sitivamente, espalhou-se o café pelo
affirmativa: introduzira-se o café no Yemen todo, tendo Aden como centro
Yenien e alli estava em uso, havia mais disseminador.
de cem annos. Isto elle o dizia em 15S8 Escrevendo em 1685, affirmava Du-
(991 da hégira). E também sô se referia four que, de accordo com depoimentos
a esla parte da Arábia. por elle recebidos, de muitos ;pontos do
Não á Abyssinia e outros lugares do Oriente, era havia dous séculos corrente
Berr-el-Adjan. o uso do café em todo o Levante. Punha-o
A
Berr-el-Adjan é que Galland tradu- em duvida pelo menos quanto ao impé-
ziu pavorosamente mal para Pérsia, per- rio ottomano.
turbando completamente a exegese do Para tanto, allegava a falta de qual-
caso. quer referencia á bebida nas obras de
A Galland emen'daram formalmente tres autores reputados, que, largamente,
Sacy em 1826, como já
dissemos, e P-it- haviam escripto sobre os costumes do.s
ter em 1847. Mas uma
série de autores, turcos: Luiz Bassano, em 1545; Antonio
desses que pesquizam per summa capita, Menavin, em 1548, e Francisco Sansovi-
e saíisfazem-se com o testis unus, seja 00, em 1553.
qual fôr, veio repetindo o erro até oa Valendo-se de outros informes, diz-nos
nossos dias, dando isto ensejo ás mais Porto Alegre:
incongruentes deduções. "Ainda que originário ida Arábia Feliz,
Fahkr-eddin aliás mequez, autoriza a antes do século XVI, o café não era co-
versão 'de que o café feito com a deco- nliecido no Oriente, não obstante já usa-
ção do bunn torrado, íoi introduzido por do muito 'tempo antes, na Africa e Pér-
Dhabhani, numa occasião em que escas- sia."
seara o café de Kat ou cafta. Nem o chronista das cruzadas, nem o
E' mais um depoimento a favor da medico árabe Ebn-Beither, que visitou a
prioridade de Dhabhani e da hypothese Syria e o norte da Africa, no começo do
de ciue o café começou a ser bebido na século XIII e escreveu diversos tratados
Ara!)ia em fins da primeira metade do
acerca dos alimentos, o'bras valiosas e,
século XV, indo o grão rubiaçeo da Africa
para o seu tempo, muito eruiditas, nem
para a Península.
tão pouco os navegadores, mercadores e
Verbera Padberg, e com toda a razão,
viajantes venezianos e genovezes, que nos
a leviandade de certos autores, como
séculos XIV e XV percorreram muito o
certo Hess, que fixa um millesimo exacto,
o do 1424, para a introiducção do café Oriente, nem uns nem outros* delle fazem
!

Hartwich, em sua aliás excellente obra, menção.


também se deixa levar á affirmação pou- Os árabes do Yemen, que o trouxeram
co defensável citando, de segunda mão, da Abyssinia, espalharam-lhe o uso entre
unia Historia da Conquista da Abyssinia, os musulmanos do Oriente, de onde pas-
por autor árabe, certo Faquish. sou aos europeus.
Refere-se este escriptor a um Ech- Torna-se patente, pois, o illogismo
Ghadzeli, transportador do café para a geographico de Burlamaqui, querendo
Arábia, ao mesmo tempo que o cheik que da A^byssinia haja o café passado á
Zarbaya alli importava o Kat, isto é, en- Pérsia, saltanido, portanto, por sobre a
tre1430 e 1450. Arábia, fronteira ao império dos Negus.
Eutenide Padberg que o tal Ech-Ghad- Foi esta, a ser vêr, a terceira região
zell é o rnesmo Schadheli da lenda de em que se propagou o café. Veremos,
que teremo'3 de falar. opportunamente, pelos depoimentos dos
Sacy declara -não conseguir compeno- viajantes quanto entre os persas, e isto
trar-se de que o depoimento de Fakhr-
eddin seja autónomo ou provenha de
em melados do século XVII —
era o café
ainda pouco esgalhado, quando os ára-
Abd-Alkader. Eram ambos, aliás, versa- bes e 03 turcos já
dlssimos na bibliographia de sua lingua.
em larga escala o cõn-
sumiam.
. . .

23

CAPITULO III

O lendário do Café - Abd-al-kader e Hadji chalfa.


Fausto Naironi. Galland. Silvestre de Sacy

o uso do café e a sua propagação da- Dá Ukers outra versão de tal lenda:
tam, certamente, de tempos immemo- "Foi o derviche Hadjé Omar expulso de
riaes. Querer alg-uem averiguar qual Moka para o deserto, por seus inimigos,
lhes haja sido a era provável é pretender que esperavam ve-lo morrer de ihaniçãc
resolver insolúvel problema. E isto sem duvida alguma occorrerla se
Não ha o que documente a descoberta o perseguido não tivesse tido a iniciati-
do aproveitamento das virtudes da ca- va de provar algumas cerejas encontra-
feína existente nas folhas e nos grãos da das sobre um arbusto. Pareceram-lhe co-
coffea arábica. mestíveis, embora muito amargas. Assim
Mas, como a todos os grandes achados entendeu melhorar-lhes o gosto tratan-
succede, veio, logo, a lenda emprestar- do-as
Ihe o lado imaginoso e poético. Como lhe parecessem muito duras ten-
Não faltou que a phantasia se ligasse tou amokce-las por meio da agua. As ce-
ás origens do café. Dahi o nascimento da rejas continuaram tão duras quanto an-
umas tantas lendas pittorescas tanto tes mas o liquido que as banhava ficou
mais naturaes quanto Surgiram entre o pardo e Omar sorveu-o pensando que
povo das Mil e uma noites. contivesse alguns dos princípios alimen-
Reclama a gente mafamedica, e com tícios das cerejas.
toda a razão, a gloria de haver ensinado Espantou-se, notando quanto" õ refres-
os cães infleis do Occidente a beber café. cava, aviventava-lhe a apathia levantan-
Vejamos alguma cousa de seu lendário do-lhe o animo deprimido
que se prende a tal pretenção. Mais tarde, ao regressar a Moka, a sua
Uma de suas tradições attribue ao salvação foi tida á conta de milagre. A
Cheik Omar, discípulo de outro Cheik, bebida de que ella proviera cahiu então
Abúl Hasan Schadheli, o santo patrono e em alto apreço e Omar foi tido â conta
lendário fundador de Moka, a honra da de santo.
descoberta do alimento de poupança, que Outra versão, muito popular e frequen-
é o café. E tal achado ITie occorrera temente reproduzida, basela-se, também,
quando exilado, em Ousab, na Arábia Pé- no manuscripto de Abd-al-Kader.
trea, onde ss refugiara devido a uma No anno 656 da hegiráT, o moUah Scha-
falta de ordem moral. dheli foi "em peregrinação a Meca. Che-
L^meaçados de perecer de fome, elle e gando á montanha das Esmeraldas (Ou-
os companheiros, viram-se forçados a se sai) voltou-se para seu discípulo Omar e
nutrir de cerejas da rubiacea, de que ha- disse: Morrerei neste logar! Quando mi-
via abundância em sua vizinhança. nh'alma tiver partido ha de te apparecer
Narra o manuscripto da Bibliotheca uma pessoa velada. Não deixes de exe-
Nacional de Paris: encontrando fructos cutar tudo quanto te mandar!
de café, á sua disposição, tomaram-n'os Tendo fallecido o venerando homem viu
ferveram-n'os numa cassarola e beberam- Omar, no meio da noite, gigantesco es-
Ihes o decocto. pectro velado de branco.
~ Tendo ido vários doentes de Moka pro- — Quem és? indagou.
curar o medico-sacerdote, em seu retiro Descobrindo-se o phantasma Reconhe-
de Ousab, elle lhes ministrou a Infusão ceu Omar, surpreso, o próprio Schadhe-
com o que melhoraram muito dos acha- li, mas crescido, em sua estatura, de dez
ques . covados
Taes maravilhas se divulgaram sobi-e O mollah cavou o solo e a agua surgiu
os effeitos do café que, dentro em breve, milagrosamente. Fèz o espirito com que
voltava Omar em triumpho para Moka Omar enchesse um vaso e por-se a cami-
onde o governador construiu um cenóbio nho, sem parar, até attingir um ponto
para elle e os companheiros. em que o liquido cesasse de se agitar.
. "

24

— B' alli, observou, que um grande Según una leyenda, dos peregrinos,
Abuhassan Schazall y Omar, iban juntos
destino te espera!
Prosegulu Omar em sua jornada. Che- á la Meca, cuando el primero dijo de re-
petente á su companero: "Siento que
gando a Moka, no Yemen verificou que a
agua estava immovel. Era ali, que de- voy á morir en seguida; júrame obedecer
via deter-se. A linda aldeia de Moka y hacer todo lo que te mande el primer
achava-se então flagellada pela peste. hombre á quien encuentres déspués de mi
Começou Omar a interceder pelos doen- morte .

tes 6 como o santo homem se achava na Dicho esto expiró. Entonces Omar vió
presença do Propheta muitos foram aparecer á un hombre que abrió en el

aquelles a orações curaram.


quem suas suelo un agujero de donde salió agua, con
Neste entrementes havendo a epide- la cual lavó el cadáver de sua compane-
mia augmentado cahiu enferma a filha ro, y lo enterró disponiendose luego á
do rei. Levou-a seu pae á casa do dervi- marchar-se; pero Omar le detuvo y con
che que a curou. Como fosse de rara gran admiración suya, reconoció en aquel
formosura o bom do eremita, depois de hombre á su amigo, Abuhassan Schazall
a ter restabelecido, experimentou desen- que acababa de ser enterrado.
caminha-la . Entonces Abuhassan senaló con la ma-
Não apreciou o Rei, porém, este me- no una gran bola de madera que se mo-
thodo novo de se fazer pagar. Foi Omar viá y encargó á Omar que la siguiese en
levado para fóra da cidade e exilado na su marcha que se detuviera. Omar corrió
montanha de Ousab, onde tomou uma tras de Ia bola hasta Servacum, donde
lapa para morada valendo-se de hervas paró. Durante el tiempo que Omar si-
como único meio de sustento. guió aquella misteriosa esfera tuvo oca-
— O' Schadheli, querido mestre! bra- sión de curar á vários enfermos y hasta
dou certo dia o desventurado derviche. de salvar la vida á una princesa que es-
Se o que me aconteceu em Moka era taba enferma de gravedad.
coisa do Destino valeu a pena dar-me o La princesa agradecida se enamoró de
vaso para me trazeres aqui! su salvador, de tal modo, que seguia"por
Emittidas estas Justas queixas outíu o todas partes á Omar con gran dlí^gusto
exilado, immediatamente, um canto de de sua padre, el rey, y aun dei pueblo.
incomparável harmonia. E logo depois El monarca para desprenderse dei
um pássaro de maravilhosa plumagem causante de tal desafuero , desterró á
surgiu para jjousar na arvore. Omar, en unión de unos malhechores, &
Saltou Omar, rapidamente, em dire- una comarca donde debian morir lenta-
cção á avesinha. mas só viu, nos ramos da mente de hambre; pero los desterrados
arvore, flores e fructos. encontraron un buen alimento en los
Apanhou os pomos achando-os delicio- frutos dei árbol dei café y aun se les
sos. Delles fez larga colheita e voltou A ocurrió preparar con ellos una bebida
alfurja. mediante la cual hasta conslguleron curar
Como se puzesse a refogar as hervas» leprosos. Quando el rey se enterô de es-
habituaes para o triste jantar, veiu-lhe á tos hechos maravillosos concedió nueva-
mente substituir as folhas desta pobre mente su favor & Omar, le colmô de
eopa pelos fructos colhidos. Dahi lhe re- honores y le regaló un palácio".
sultou saborosa e perfumada infusão: era c^proveitamos outra lenda realmente
o café. curiosa e divulgadissima, aliás, multo
O Jornal dos Sábios, publicação italia- mais do que a primeira. Foi pela pri-
na de 1760, citado por Édelestan Jardin meira vez, ao que parece, referida pelo
em seu liC caféier et le café conta que autor maronita libanez Fausto Naironi,
dois monges Scialdi e Ayduis foram os um dos mais velhos escriptores aponta-
primeiros descobridores das virtudes do dos pela bibliographia do café, graças ao
café e por tal motivo tornaram-se o ob- seu De saluberrim»^ potlone Cahiié, seu
jecto de especial culto Café nuncuputa discursus (Roma 16 71).
Pensa o autor francez que este Scialdi Narra este autor que um pastor de
deva ser uma corruptela de Schadheli. cabras percebeu certa vez enorme excita-
Interessante versão é a que nos dá um ção em seu rebanho notando, ao mesmo
autor hespanhol, collaborador da Ency- tempo, que os animaes haviam Inserido
clopedia de Espasa. abundantes folhas de cafeeiro. Lembrou-
. . . . .

25

se de imita-los e sentiu-se também extra- triste e s©ntiu-Be alegríssimo, o mais fe-


ordinariamente agitado liz pastor da Arábia Feliz
Mais explicitamente conta o pittoresco Quando suas cabras bailavam elle lam-
caso o autor hespanhol a que já nos re- bem Certa vez
o fazia. surprehendeu-o
portámos, apontando a divergência das um monge quando executava, com os seus
versões chTistã e musulmana do caso bichos, a tal choréa pastoral. Interpel-
pittoresco lado, relatou-lhe a maravilhosa descD-
"Los prímeros tiempos de la historia berta
dei café se pierden en misteriosas leyen- Ora, tinha o pobrt» monge Immenso
das motivo de desgosto em sua vida de aus-
En un libro sobre el café escrito por tera piedade: a invencibilidade do somno
Fausto Naironi quien á últimos dei s-iglo durante os officios nocturnos. Assim era
XVII ensenaba caldeo y antiguo asirio agora o Propheta, em pessoa, quem lhe
en Roma, se encuentra por primera vez revelava as virtudes da maravilhosa ce-
la desorlpcion d3 las propiodades dei reja !

oafé. Instincto gastronómico possula-o o


Según él, por el ano 1440 un pastor de bom do frade. Começou por seccar as
Etiópia contó á los monjes de un conven- cerejas para depois ferve-las. E viu os
to próximo al lugar donde apacentaba su confrades apreciar immènso a bebida
rebafio, que, ©n vez de dormir como de não só porque os incitava a rezar como
costumbre por la noche, los animales talvez porque também lhes era grata ao
no habían hecho más que saltar de um paladar.
lado á otro. Relatando este episodio descreveu-o em
Los monjes creyeron que sólo podia ex- verso latino o abbé Massieu num poema
plicarse por haber comido ©1 reba.iio al- sobre o café que Thery, reitor da Acade-
gunas plantas que produjeran tan singu- mia Universitária do^ Calvados. verteu
lar efecto Efectivamente pronto compro-
. para alexandrinos francezes em 1855;
baron los monjes que en el punto donde reproduzidos por E. Jardin em sua co~
el pastor había apacentado su rebario nhecida obra
existia un gran número de arbustos re- Les moines tour á tonr, lorsque tomb© le
cien despojados de sus bojas; los mon- (soir
ges recogieron alguns" frutos de aquella Pnisent, rangés lon cercie, au larg© ré-
planta, que no eran otra cosa que café, (servoir,
y probaron que efectos producían en ellos Et I'aurore étonnée, en visitant ces rives,
mismos, descubriendo que ahnyentaban
Ne los surprit jamais dans leurs couches
el sueno.
(oisives.
Envista de esto, parece que, desde ©n-
Este conto de Naironi terá provavel-
tonces, los monjes que habian de pasar
mente os seus pendants na historia do
la nocbe en oración combatlan el sueno chá, da coca, da kola, etc.
con una bebida preparada hirviendo
aquellos fructos con agua. La noticia dfe
Uma outra lenda é a seguinte: ao
próprio Propheta revelou o Archanjo
esto descubrimiento se fué propagando y
Gabriel o novo licôr negro.
llegó á oídos de algunos comerciantes
que pensaron luego en sacar partido de Os partidários do café para tanto se
tan notable producto. estribavam no versículo do Corão pelo
quali, segundo pretendem, predisse Maho-
Esta es la leyenda Cristiana; los turcos
met a adopção do decocto pelos seus fieis.
y los árabes dicen que el descubrimiento
dei café fué hecho directamnte por pas- "Dar-lhes-ão a beber um vinho excel-
tores . lente, assignalado". Tal assignalamento é
Uma versão franceza do conto de Nai- o do almíscar.
roni affirma que o pastor em questão se Verbera Galland a Fausto Naironi ha-
chamava KaJdi. Seoi espanto proviera so- ver admittido as lendas de Omar e do
bretudo das attitudes excitadíssimas do cabreiro abexim.
velho e solemne bode, do "pae de chiquei- Pretende-as indignas de credito como
ro", de seu rebanho. factos históricos, embora reconheça que
Resolvera pois fazer a experiência iu nellas deva haver certos visos de verdade
anima nobile, comsigo mesmo. Vivia quanto á versão das cabras da Ethiopia
26

e do abbade que ministrava café aos seus da sarna e por isto Omar voltara a Moka,
monges. onde propagara o uso do café.
cenóbio Ritter, porém, desbaratou esta lenda
B' bem possivel que de tal
fossem superiores o muíti, Djemaleddin com a simples allegação de q«B, em izi>ií,
sendo os monges dervicbes. não existia ainda a cidade de Moka.
Analysando estes dados pensa Jardin Outras versões correm recolhidas por
que ao simples acaso se deveu a desco- Sylvestre de Sacy. Assim Fãkhreddln,
berta das propriedades do café, trans- aliás natural de Mecca, citado por Abd-
plantado o cafeeiro do seu solo natal ao al-Kader, escrevia em princípios do sé-
Yemen, a Meca, dahl á Pérsia e antes culo XVI, a valer-se da tradição oral,
levado ao Bgypto. que o uso do café, no Yemen, se devera
XV
(entre l^VU' ao cheik Ali-Schadheli-Bbn-Omar, discí-
Para os fins do século
pulo de Naser-Bddin Ebn Mellak, um
e 1500) attingiu a santa cidade e Medina,
dos chefes da ordem dos Schadheiítas.
sempre levado por dervicbes e em vir-

tude das mesmas ideias religiosas. Affirma Sacy que este Ebn Meilak
morreu em 1389, sendo crivei que Scha-
Pelos annos de 1510 chegou ao Cairo, dhell, filho de Omar, houvesse introdu-
também por intermédio dos derviches.
zido o café na Arábia Feliz, na região ae
Em suas sessões piedosas faziam circuiar Moka, e pelas vizinhanças de 1400, o que
bules com cafés, entre os seus aiiiiiaaos
já está muito longe do mlUesimo admu-
e o publico.
tido por Hadji-chalfa.
Deste modo jamais realizaram actos E aliás, segundo Fakhr-eddln, a Debe-
públicos religiosos, nem festival solenne ragem de Schadhell era a infusão das
algum, sem tomar café. folhas do Kat que precedeu ao uso do
E mequenses tão apaixonados be-
os café sob a fórma do Kíxr.
bedores da nova infusão se tornaram,
Naironi, o libanez, recolhedor da his-
que em sua cidade surgiram as casas de
toria das cabras saltantes em 1671, re-
reunião chamadas Kavehkames, os pri-
fere-se a Schadheli, primeiro Inventor do
meiros cafés que no mundo houve.
café, como se houvesse sido, como ja
Ali se reuniam desoccupados e pregui- lembrámos, o monge christão Sciadli
çosos para, além de tomarem caíé, jogar (Schadli).'
xadrez, saber e discutir novidades, ouvir
Cartens Niebuhr, o celebre viajante
musica, dansar e cantar.
allemão do Oriente, pae do muito mais
Ora, offendia isto as ideias dos rígi-
famoso Bertholdo Jorge Niebuhr, o irre-
dos e solemnes musulmanos, que dentro
ductivel adversário das lendas que en-
em pouco mostravam summamente
se
volvem os primeiros séculos romanos,
escandalizados com taes innovagões. ouviu em Moka, no anno de 1763, a len-
B os hábitos de Meca não tardariam a da de Schadheli narrada diversamente.
ser correntes nos cafés de Medina e do
Cerca de quatro séculos antes daquelle
Cairo.
anno, assim, pois, em 1363, estabelecera-
Recorrendo a Silvestre de Sacy, em sua se no lugar, onde depois se erigira a
Chrcstomathie árabe, dá-nos Padberg cidade de Moka, piedoso ermitão o cheik
noticia da bibliographia turca sobre o Schadheli.
lendário do café, seus analystas e refu-
tadores. Alli, acaso, aportara um navio, vindo
HadjiChalfa, o "príncipe dos escrl-
das índias, cujos tripulantes se regala-
ptores turcos", em sua Vista do mundo,
ram com o café do anachoreta. Predisse-
encyclopsdia geographlca, publicada em ra este, então, que o commandante da
1650, aftirma que, em 1258, morrendo barca se curaria dos achaques costumei-
em Suakim, no littoral nubiano, um ros, se bebesse café. E annunciara que,
cheik por nome Abul Hassan naquella costa deserta, erguer-se-ia uma
Schadhell
cidade muito commerciante para onde
encaminhou sobrenaturalmente para
Moka seu discípulo o cheik Omar. Este, affluiriam negociantes da Índia.
desterrado pelo rei daquella cidade, para Assim se verificara, ponto por ponto, a
a serra de Ousab, alli vivera a beber a de- prophecia.
coção dos frutos do cafeeiro. Tal beDida Esta mesma tradição recolheu-a o Vis-
fôra achada especifica para a debellação conde de Valentia e Conde de Mount-
27

norris, George Annesley (1774-1816), com o café, importância considerada na


como refere em suas Voyages and Tra- pfaantasia popular, muita vez, como dadiva
veis to índiaand the Red sea. dum heroe bemfeitor local. Haverá algum
Objecta Padberg com exacção: fraco fundamento histórico, em ter sido
"Tudo denota que temos aqui um my- Schadheli um dos primeiros e mais cele-
tho glorificador da importância desse bres moradores de Moka; mas todo o
empório cafeeiro, que nasceu e morreu resto é duvidoso."
28

CAPITULO IV
Exame da documentação antiga. Depoimentos
attribuidos a Rasis e Avicena. Equivocos dissipa-
dos pela exegese moderna. Persistência de erronias.
sorem libri decem, traducgão de traba-
Estudando o caso da ancianidade da
lho seu.
propagação do café, á luz das rererenclas
de numerosos autores, de diversas
na- O segundo notlciador do café teria
cionalidades e de varias épocas, revela sido o grande commèntador de Aristóte-
les, o precursor de Averroes, e seu emu-
Padberg o afinco com que examinou a
questão. lo, como um dos padrões máximos da
intellectualidade arabê: Avicenna.
Alguns autores, como o francez Raynai
Razi fala de uma planta biinca e Avi-
e o escossez Loudon, affirmaram a im-
memorialidade do uso do calé na nJtmo- cenna em Buncho.
pia. Tentou Rauwolf em sua obra, e em
Mas Raynai, apesar de sua real Doa 1582, assimilal-as ao bunn, o nome ára-
fama, em fins do século 18, é tiao, des- be da cereja do cáTê. E Alpini, publican-
de muito, como engulidor de patranhas. do em 1592, o seu De planti AEgyptí
Já h-a mais de cem annos de tal o acoi- líber, também se refere ao texto de Avi-
mou Saint Hilaire, lembreimol-o entre pa- cenna.
renthesis. Mas tal identificação foi admlttida,
O que,por exemplo, e aliás a repetir com reservas, por seu commèntador, Jo-
levianamente, sobre S. Paulo e os pau- hannes Vesllng, allemão westphaliano,
listas escreveu, é um conjuncto de aosur- seu successor na cathedra de Fádua. Em
dos nascido úo descaso com que tratou 1638, analysou a obra do illustre prede-
a consulta ás fontes portuguezas. cessor, numa obra publicada na famosa
Numerosos autores foram induzidos cidade universitária.
em erro por Galland na Bua traducção de- Mas já Dufour, em 1685, lembrava:
feituosa das Mil e uma noites, como pro- "Velechius dans son traité de Vena. Medi-
vou Sylvestre de Sacy. neaisi prouve que le Bunchuu des .\rabes
Houve também deploráveis enganos d© n'est point le calfé. II fait voir qu'on
chronologia por parte de outros autores, s'est equivoqué sur ce mot".
alguns delles muito grosseiros até. Para o provar lembra que o autor
Todas as tentativas para se descobrir árabe Ebnbeitha affirmava ser o Bun-
o uso do café antes do século XV, aftir- chum o mesmo Nas caphtbun de Dioscó-
ma o douto exegeta germânico, totalmen- rides. Outro autor, Ebn-o-Marusi, faz
te se mallograram. notar em seu Diccionario que o bunchum
Durante largo tempo acreditotr-se na é uma raiz odorante como positivamente
propriedade de duas allusões ao café. K' declara. Como poderia, pois, ser o café?
a primeira a de Rasis, o grande medico, Aliás sustentava Velechius que Prospero
philosopho e astronomo-astrologo árabe, Alpini confundira o que Avicenna disse-
Ra«is ou Rhazés (850 ?-923 ?), secretario ra da Clans unguentaria, que os árabes
da escola de Galeno que, nascido em Ka], chamavam ban, com o bun,
no Irak Arabi, conheceu todo o mundo Deu-se Dufour ao cuidado de transcre-
árabe, inclusive á península ibérica. Es- ver o trecho de Avicenna. "Que vem a ser
creveu a primeira encyclopedia medica e o bunchum? E' uma coisa trazida do
acabou director do grande hospital de Yemen. Affirmam alguns que provem das
Bagdad. Produziu muitos livros de me- raízes do Aniguilea, quando envelhece
dicina e cirurgia e o seu principal tra-
e cahe.
tado é Al Haiwl (o Continente), colie-
ctanea relativa á cura das moléstias aes-
O melhor é o citrino, leve e de bom
odor; o branco e pesado
não é bom.
de Hipócrates e Galeno até o seu tempo.
Sua natureza: No primeiro grau é
Teve grande fama europêa. Em Vene- quente e secco, segundo a opinião de uns
za, e em 1510, imprimiram o Ad Abnan-
e frio, segundo a de outros.
. . .

29

Suas operações e propriedades: Forti- que os árabes. Já antes do anno de 800,


fica osmembros, limpa a pelle seccando- conheciam o café " .

Ihe a humidade, proporciona bom cbeiro Incidiu o autor americano em sério


ao corpo, absorve os maus odores do de- erro. Esta ©dição do Traité du café ô
pilatorio e é bom para o estômago." posthuma. O accrescimo deve correr por
Realmente, que ha ahi capaz de auto- conta do enxertador de semelhante his-
rizar a crer-se que o gran'de encyclope- toria .

dista árabe se referia ao café, a não ser Na edição de 1685, a ultima das dua»
quanto á indicação da procedência de tal que Dufour deu, nada disto se lô. Pelo
raiz? contrario:
Contrariando este modo de
ver ainda "A' vista do exposto, parece-me quo
allega Dufour outro argumento realmen- Avicenna antes se refere a coisa diversa
te valioso: o facto de Marco Paulo, no do café. Assim é muito incerta a noção
meio do século XII, nada dizer do café •da antiguidade do conhecimento do café,
nas relações de suas diversas viagens acaso fundada na opinião deste autor, e
orientaés muito duvidoso que tal conhecimento
Alguns outros foram induzidos em seja tão velho quanto de tal querem al-
erro pelas palavras de Razis como pelas guns persuadir-nos " .

de P, Alpini. Entre elles Biegny, em Reaffirman'do a convicção de que Ra •

1685, e d'Herbelot, em 1697. Convém sis, sem duvida alguma, se referia ao


aliás lembrar que Nicolau de Biegny café, com a maior exacção de circumstan-
(1652-1722) passa por ter sido Impuden- cias escreve o autor yankee:
te charlatão e contumaz velhaco, semi- "As mais acuradas pesquizas nada nos
plagiario e autor de numerosas compila- disseram, até agora, a respeito do conhe-
ções insulsas e desvaliosas. cimento do café, anterior á época de
O próprio Padberg refere o quasi pla- Rhasis, duzentos annos após Mahomet.
gio do seu lie bon usage du thé, du caffé Assim é um pouco mais do que mera
et du chocolat (1687), imitado da obra especulação ou conjectura, admittir a
de Dufour (1671). theorla de que os antigos o conheciam nos
Quanto a d'Herbelot o caso é inteira- tempos bíblicos, ou nos dias do Glo-
mente tíiverso. rificado .

Este orientalista illustre do século Os conhecimentos que do chá temos, por


XVII, deixou em sua Blbliothèque Orien- outro são anteriores á era chris-
la'do,

tale, obra única no género, formidável tã. Sabemos quanto era intensamen-
reipositorio de idados sobre os árabes, te cultivado e já objecto de imposto
persas e turcos. sob a dynastia chineza do5 Tang (A. D.
Ao nosso Theodoro Peckolt, lembra 793) e que os mercadores árabes delle
Padberg, induziram em erro estes auto- tomaram comhecimento no século imme-
res, erro já cabalmente refutado por dlato . . .

Hartwich em sua magistral: Die mens- Mais arrojados ainda do que o autor
chllchen Gennussmittel do Ali about coffee ha aulores modernos
Provou este erudito, com o reforço da que coUocam o facto por elle advogado
exegese das descobertas modernas, que em época anterior ao século VI.
tanto Rasis quanto Avicenna se referem A Encyclopedia BritannJca, em sua
á raiz Bnncho. De todo não pôde ella ser edição de 1910, refere que numa inscri-
identificada com o café. pção javanesa, do anno de Chrlsto de
Falando de Rasis (aliás Ebn-Bakr- 856 se lê Wiji Kawvili como referenicik ao
Mohammed-Zakariya Razi, de seu
El café julgando-se ainda que o bean-broth
nome todo) pensa Ukers que a sua iden- da lista de David Tapper (1667), sobre
tificação do bunchum com o café é acei- beberagens japonezas, também possa ter
tável, sobretudo á vista do que escreveu sido café.
Avicenna! Seja como fôr estão todos os autores
PacUe credimus ... concordes em affirmar que a bebida era
E a recordar o que Dufour, a tal res- corrente entre os ethiopés, deçde tempos
peito observa, accrescenta: "Deve-se aliás immemoriaes
lembrar que, em 1693, na edição de seu Mas também sabemos, e de sobra,
precioso tratado feito na Haya, incllnoií- quão volumosa a legião dos que fazem

se Dufour a admittir que se o bunchum a historia pelo methodo confuso, inclusi-


era a raiz e não a semente do cafeeiro. ve a do café. Aliás retóorda Ukers em
Em todo o caso reitera-se a convicção de abono de sua imparcialidade que um au-
. . . .

30

tor inglez,Edward Forbes Robinson, em o segredo confirmado pela rainha mãe.


sua The early history of Coffee houses Analysando este depoimento, expõe
111 England (Londres 1893) pensa ser Padberg:
o bunchum cousa muito diversa da in- "Como Tamerlão, Isto é, o grande con-
fusão do coffea arábica. quistador mongol Timur-i-leng, subju-
Apezar da exhaustiva exegese de Syl- gasse a Pérsia em 1388, o facto, se tai
vestre de Sacy continuaram os repetido- foi, devia ser anterior a esta data. Na
res levianos a affirmar que Avicenna verdade, os nomes indicados só se póderc
conheceu o café. referir ao primeiro rei da dynastia doa
Bengiazlah foi outro grande medico Ghasnewidas (desde 977), e ao segundo,
contemporâneo do grande encyclopedista Mahmud, o Grande, de 998 a 1030, flo-
árabe que também falou do café, affirma rescendo na sua côrte o celebre poeta
Galland Firdassi (FirdaussI)
"Assim, observa, podemos ver quanto Ora, sabe-se como a lenda persa exor-
devemos aos médicos em matéria de des- nou esses grandes nomes, de modo que
coberta do café, do assucar, do chá e do se torna quasi impossível deslindar a
chocolate verdade histórica. Em todo o caso, o
Mas o mais interessante é que um café certamente não influiu então ns
campeão extrenuo do licor oriental. successão real, mesmo se já tivesse sido
Cliristovam Campen, chegou a aventar conhecido na Pérsia, o que absolutamen-
que Hippocrates mão só haja conhecido te não podia ser".
o café como o tenha ministrado a enfer-
mos!
A referencia á reputação do café como
agente anaphrodisiaco, na região irania-
Robinson, sensatamente, expende que
na, vemol-a abonada por Burlama-
o erro dos primeiros médicos árabes foi
qui e reproduzida, ultimamente, por
introduzir o café na matéria medica, co-
mo poderosa droga, em vez de lhe assi- Hildebrando de Magalhães em sua inte-
gnalar o verdadeiro simples ressante e valiosa Historia do Café.
papel de
bebida refrescante. A tal propósito relata o primeiro des-
Uma tradição persa, a que se refere tes autores uma historieta que provavel-
Olearius, em 1637, recua a introducção mente recolheu de Dufour e sobre a qual
do café no Oriente para época anterior teremos o ensejo de falar larga e oppor-
ao anno mil. tunamente
Affirma o celebre viajante allemão Resumindo o exame da documentação
que, para os persas era tido á conta dt exprime Padberg a convicção de que não
anaphrodisiaco Assim um de seus shahs,
. ha o minimo papel ou ir^dicio histórico
Ahay Mahomed Casnin, anterior a Cas- digno de credito, revelador do conheci-
nin ou Caswin, sobremodo amante da in- mento do café antes do século XVI, inclu-
fusão arábica, apenas gerara um filho, sive no próprio habitat do cafeeiro.
aliás bastardo e lambem chamado Ma- Se na Abyssinia era a infusão cafeica
homed . utilisada seria isto, quando muito, cor-
O celebre poeta Firdausi (diz Olea- rente em alguma ou algumas das tri-
i'ius) ou de seu nome exacto, Fir""dusi, il- bus indígenas dos antigos domínios do
ludido pelo rei, vingara-se revelando-lhe Prestes João.
. . .

31

CAPITULO V
Perseguições ao café entre os árabes,
egypcios e turcos

Comecarani os árabes a tomar o café din declara que se espalhara pelo fim do
ethiope, ao que parece. Mas, dentro em século nono da hégira.' Este terminou
Douco, suppriram-se a si mesmos Cres- . em 1485 e não em 1522 como se poderia
ceu immenso o consummo do fructo da suppor, visto como os árabes contam por
rubiacea e abundaram os bebedores de annos lunares.
café. enthusiastas procramadores da vir- Pensa Sacy, sem^pre apoiado em Ebn-
tude do decocto do bwnii. Abd-Algaffar, que, entre 1485 e 1495,
Não tardou que, entre gente tão piedo- teria sido a bebida adoptada em Mecca e
sa e tão fanática, como os sectários de logo depois em Medina, ao norte da pá-
Mahomet, começasse a haver grande de- tria de Mahomet, de onde, como era de
sapprovação de semelhante moda. inter- esperar, se propagou ao Egypto, entre
pretada sob o ponto de vista da offensa 1495 e 1505. O prihTfeiro café do Cairo
aos ensinamentos ccranicos, dahi, logo foi a famosa mesquita escola Al-Azhar,
surgindo viva opposição a tal pratica. Commenta Padberg:
Quando em Mecca começaram as pri- "Punha-se o café numa grande vasilha
meiras hostilidades contra o café. Isto em de barro vermelho deante do superior,
1511, espalhou-se que a baga vinha úo que o servia, em pequena escudeira, aos
Yemen, segundo faz notar Silvestre de sócios, successivamente, emquanto can-
Sacy tavam o louvor divino. Também os leigos
(As primeiras noticias chegadas á Euro- e todos os presentes o tomavam, e Algaf-
pa, são aliás concordes; todas af firmam far experimentou alli, pessoalmente, du-
que as sementes do cafeeiro procediam rante uma noite velada, a virtude som-
da Arábia Feliz. nifuga do maravilhoso licor. Este natu-
Dos cafezaes do Yemen deram noticia, ralmente popularizou-se em todo aquel-
em primeira mão, o francez J. de La le bairro, sendo até vendido publicamen-

Roque, em 1715, e depois dartens Nie- te, sem que ninguém" a isto se oppoizésse."

buhr (1774) a quem P, Porto Alegre Mas alarmaram-se alguns dos mais rí-
chamou Nieguhr, a menos que aão haja gidos sectários do Corão para quem tudo
Eido atraiçoado por um "gato" de Im- quanto cheirava a vinho era Insuppor-
prensa . tavel
Estes cafezaes escoavam as colheitas Immenso desenvolvimento tomára logo
pelo porto de Moka havia quatrocentos em Mecca o uso da infusão affirma-nos
annos, ao tempo de Niebuhí, diz este ai- Ebn-Abd-Algaf far
tor, exagerando tal lapso, notavelmente. Na atmosphera da sociabilidade dos
Um argumento muito frisante. cita-o cafés oiccorriam debates sobre questões
Padberg . Moka nem é aitada pelos "prin- politicas, sociaes e religiosas.
cipaes geographos e histoTla^ores, ára- E estas discussões assumiram logo a
bes, Abul Feda, morto em 1331, e Ebn monia da intolerância, muito natural en-
Batuta, fallecido em 1377. tre gente de tão vigorosa fé.
João de Barros, em suas Décadas, mal Dois grandes partidos nasceram, o dos
a menciona em 1513. Em 1538 era In- defensores e o dos oppositores do café.
significante dil-o o Diário da frota tur- l\ lei do ProDheta, relativa ao vinho, foi

ca . recordada e invocada como devendo ser


Do Yemen o uso do café passou ã ca- applicada ao café.
pital religiosa do mundo arãíré, a santa Estava a cidade sujeita, naquelle tem-
cidade de Mecca. po, ao império mameluco bordjáta, ou
Deletreando o manuscripto do Escurlal, circassiano, do Egypto, que aliás vivia
encontrou Silvestre de Sacy a informação os seus últimos annos com Kansú, seu
de que, já em 1455, era corrente o uso penúltimo sultão. Em 1517 Selim I aca-
do café na cidade-sanctuario Fakhr-ed- . baria com a independência da terra dos
.

32

génio do emir. Eram sabidos moradorea


Pharaós. Mandou o dynasta, como
pa-
por nome do oriente.
chá, para a Mecca, um emir diz-nos Petromio
Primus in orbem
Khair-beg Mimar ou Kair-Bey como
es- . . .

alguns autores. no famoso texto que tão fundo conheci-


crevem
mas mento revela da alma humana.
Passava por grande disciplinador Assim, naquelle concião de bebedores,
como fanático que era
máo psycliologò,
já inveterados, de caíé, ninguém tugiu
ignorante dos hábitos daquelles a
quem
e nem mugiu, em defesa do seu querido li-
viera reger.
cor negro, a não ser o chelk Nur-eddln,
Não podia deixar de errar portanto. filho de Naser, prestigioso mufti, profes-
Certo dia em que sahira da mesquita en- sor e pregador.
controu um grupo de rezadores que pre- Pois bem, foi Insultado, vilipendiaao
tendiam passar a noite a orar, bebendo
pelos pares tratado de infiel ignorante,
café. Pensou que Iam toraar vinho
e
do scelerado Quantos tu queque! teria po-
espantou-se ao saber que se tratava
dido dizer o bom mufti assim injuriado?
novo licor, espalhado recentemente pela
cidade.
A historia o Inscreve hoje no martyrio-
logio symbolico do café, dando-ilhe a
Aberto inquérito capacitou-se de que a primazia do sacrifício, aliás incruento.
ingestão do café creava uma toxicomania Quando muito concordaram oa Juristas
perigosa. Assim resolveu combate-la vio- na necessidade de se dar novo regula-
lentamente. Para Isto por
começou
mento aos cafés públicos. Quanto ao uso
mandar expulsar das mesquitas os bebe- da bebida opinaram que se tornava ne-
dores da infusão. cessário examinar se realmente era o
Assanhavam-no dois irmãos persas, al- café prejudicial ao corpo e ao espirito.
cunhados "os dois doutores" e o seu se- Se não o fosse não deveria a autoridade
cretario, Schemseddin, poz-se a mover mandar fechar as casas em que se ven-
tremenda perseguição aos tomadores de dia o género.
café E lembraram quanto, acima de tudo,
Sob o pretexto de CTue surprehendera convinha igualmente ouvir os médicos
um conciliábulo nocturno no qual diver- sobre este assumpto.
sos Indivíduos faziam circular uma Os taes persas os "dois doutores", oa
taça "com uma espécie de vinho", con- irmãos Hakinani, que aliás passavam pe-
vocou Khair-bey a 20 de junho de 1511, los melhores physicos de Mecca, foram
uma reunião dos juizes e alcaides de Mec- convidados a depor Já um delles' escre-
.

ca além dos cadls e os mais sUbios cheikB vera um livro contra o café! E}ram por-
da cidade, juristas, médicos, sacerdotes <i tanto suspeitos seus depoimentos. Influen-
outras personalidades eminentes. ciado pelas conveniências da profissão
Exhibiu-lhes um" recipiente contendo deblaterou um delles como sé temesse
café, a proferir tremenda objurgatorla que a nova bebida causasse graves dam-
contra a bebida nefanda. B pediu a opi- nos á pratica da medicina.
nião dos illustres conselheiros. O irmão corroborou-lhe as palavras.
Relatou-lhes o que vira e o que teBila. Declarou á nobre assernbléa íos eminea-
Estava disposto a cortar o escândalo pela tes ouvintes que a seu ver a planta
raiz. O principal argumento contra os bunn, da qual se fazia o café, era "fria
tomadores de café era que "em suas reu- e secca" e portanto insalubre.
niões, homens
mulheres se reuniam to-
e Quando outro medico presente ao co-
cando violas e tambores e outros Instru- mido, recordou que Bengiazlah, o velho
mentos musicaes. Jogavam xadrez, mau- e prestigioso contemporâneo de Avicenna,
kale, outros Jogos, a dinheiro,
e prati- ensinara ser o café quente e secco, os
cando actos contra a sagrada lei do.Pro- dois irmãos declararam que este autor,
pheta. ao emittir tal opifiião, tinha em mente
Terminando o aranzel exclamou, no di- outra planta do mesmo nome.
zer de Silvestre de Sacy em sua Chresto- E aliás tal parecer não efa infallivel.
mathie Árabe: "Assim permitta Deus pre- nem vinha ao caso.
servar se a nossa Lei de' qualquer cor- -Sim, porque ge o café dispunha os hi-
rupção até o dia em que teremos de mens á pratica de actos defesos pelâ re-
apparecer em Sua presença!" ligião, o argumento essencial aos olhos
E solicitou o voto dos membfos da no- dos musulmanos era que elle devia ser
bre junta. Conheciam estes, de sòbfa, o proscripto como Illegal.
33

Viram-se pois os amigos do café coii' Acompanhava-o uma consulta deste


fundidos e intimidados. Apenas como theor: "Que pensaes duma bebida, cha-
vimos, falou em sua defesa o multi. mada qahwa, cujo uso, em Mecca e ou-
Os demais, dominados pela presença do tros logarfes, espalhou-se a tal ponto que
cheik ou o zelo mal entendido, affirmaram é até tomada em logares sagrados 7"

que a infusão lhes tornava a mente ne- Daquelle aranzel interessam-nos as ex-
bulosa Houve um dos conselheiros
.
— pressões assignaladoras da novidade da
homem de convicções e independência! beberagem, recorda Padberg. Informou-
— que chegou ao extremo de affirmar se o sultão qual seria a bebida. Disseram-
Ihe que uma teriaga cujo uso começara
que o café o inebriava como vinho, o que,
havia pouco. Chamava-se qahwa e era a
apesar de tudo, provocou hilaridade, tão
decocção das cascas de certa baga, por
torpe bajulação representavam taes pa-
lavras .
nome bunn, importada do Yemen.
Pouco devia durar porém o triumpho
Arguiram-lhe que estava a confessar do governador caffeiphobo.
grave peccado. Então bebera vinho, o
Inspirado por antecipação talleyran-
que a lei do Propheta prohlbia? A não idiana, respondeu o sultão Kansú muito
ser assim como podia "sustentar a com- pouco ao sabor do feroz Khair-Bey: Nada
paração? de zelo excessivo !

Pois bem, affirmou que infelizmente Não só desapprovou o acto de seu


se embebedara com vinho, muito embora delegado, como lhe ordenou revogasse o
se condemnasse, possivelmente, á appli- edito. E ainda, por mal de peccados, o
cação de uma sova de pau. reprehendeu severamente !

Assim triumphou o governador, e o Pois então! atrevera-se a proscrever


café foi, por decreto, solennemente pro- aquillo que se approvava no Cairo, na
hibido. Lavrou-se acta da reunião, envia- côrte de seu Soberano ? onde viviam au-
da, por mensageiro especial, ao sultão toridades medicas de peso, incomparável
egypcio. mente superiores ás da longínqua pro-
No mesmo momento promulgava-se víncia? ulemas que jámais haviam en-
um edito,prohibindo a venda do grão, contrado cousa alguma no Korão conde-
quer em publico, quer particularmente. mnatoria do café?
Agindo com a maior violência, Khair- Invocando, a seu modo, e dando-lhe
bey, em pessoa, pôz-se a percorrer a ci- interpretação musulmana, ao famoso bro-
dade, mandando destruir quanta casca e cardo do abusTis non toUit usus, escrevia:
grão de café encontrou. o Sultão, ao já bem sovado governador,
Os meirinhos entravam pelos cafés e que até das melhores cousas o abuso ô
mercearias a fechar-lhes as portas, inti- reprovável.
mando-lhes os donos a não vender mais Quem o fizesse com a agua sagrada
café. E, ao mesmo tempo, exigiam a quei- de Zamzam (a fonte revelada a Agar e
ma, logo e logo, de todo o stock do grão. a Ismael pelo anjo, quando a concubina
Foram os bebedores contumazes arras- de Abrahâo deixára a casa deste) com
tados pelas ruas como objectos de pu- a padecer. Quem de tal duvi-
isto viria
blica execração. dava ?
Veio a resistência a tão absurdo de- Apenas consentiria o soberano, e por
creto, subtil, persistente, tenaz. Allega- muito favor, que se não bebesse cafó
vam os 'defensores do café que com elles publicamente.
estava o mufti, o único da assembléa, Imagine-se a, figura de Kair-Bey ao
dispondo de autoridade para a interpre- ler semelhante e virulenta reprimenda !

tação da lei. Certo é que se apressou em cumprir as


Pegou Kair Bey um
contraventor em ordens do monarcha.
flagrante e severo exemplo
disposto a Teve de retirar o edicto e llmitou-se a
mandou castigal-o duramente. Depois de policiar os cafés públicos.
provável surra, fel-o montar num asno Foi o seu destino trágico, para gáudio
e passear pelas ruas principaes da cidade dos amantes do café e os apreciadores
para terrível escarmento dos povos. dos desfechos sinistros.
Não desappareceu, de todo, o uso do Accusado de concussão, pereceu algum
decocto, tomado agora muito em segredo. tempo mais tarde, em tormentos, e sen
Ao mesmo tempo, despachou-se ao sultão, irmão suicidou-se para evitar morte peior.
io Cairo, a longa relação official, assl- Aos dous médicos persas também cou-
gnada pelos meml)ros daquelle conciliá- be triste fim. Chegára afinal o eras tibi
bulo conkiemnatorio. dos caffeiphilos.
"

34

torna-se allucinado e deixa compenetrar-


Cahindo em completo descrédito, na
de se das ideias de perseguição e muito mes-
cidade onde outróra haviam gozado
tamanho prestigio, resolveram mudar-se quinha intolerância.
Profunda novidade profunda .philo-
para o Cairo. Mas era má a época. Ponco
!

digna de certo conselheiro...


depois de esmagar os mamelucos e matar sophia!
o seu ultimo soldão Tuman, e seus
prin- Para a Victoria definitiva do café con-
cipaes vassalos, conquistava Selim I o tribuiu o exemplo de muitos dos maia
Egypto, já se havendo assenhoreado da illustres árabes do século XVI, inclusive
Syria. 'commetteram os dons irmãos
a o próprio Abd-al-Kader. Cita Sacy, entre
imprudência de, certo dia, vociferarem elles, o sábio doutor e escriptor Kotb-
contra o padisliá. Assim foram executa- eddin, íallecido em 158i5 e fanático toma-
dos, sábe Deus de que modo perdendo,
!
dor de café.
provavelmente a vida no meio das de- Os poetas também contribuíram para
licias do empalamento. tal Victoria, publicando arrombados lou-
vores á infusão negra, conforme oa excer-
VAE COFFEAE INIMICISl ptos que Abd-al-Kader divulgou:
Ás grandes peregrinações de Mecca,
Pretende Ed. Jardin que estes dous caberia importantíssimo papel para a dis-
personagens se chamavam Nureddin Ca- seminação do café, já que na cidade santa
zeroni e Aladdin Ali, notemol-o de pas- tanto se consumia o qahwa. Ritter, mal
sagem. informado por Berggren, deu curso á
Em 1512, chegou a ideslorra dos aman- versão de que os peregrinos traziam de
tes do café. Kotlubay, o novo emir, suc- Mecca galhos de café, occorrendo ahi en-
cessor de Khair-Bey, não só se mostrou gano de sua parte, annota Padberg.
fanático da kaliwa como até suspendeu o Não havia cafésaes em torno da cidade
intrigante escrivão Schems-eddin e o de- da Kaaba, cujos arredores são quasi de-
portou para o "Egypto, onde aliás não sérticos, não permittindo os seus areaes
chegou, morrendo durante a travessia.
a cultura da arvore do buim. Tratava-se
Incorporaram-se as regiões egypcias e certamente de grãos de café crystallisadoa
arábicas ao Império Ottomano que, den- como fez vêr Calligaris.
tro em breve, attingiria o apogeu, sob o
O aproveitamento dos productos da ru-
reinado ido magnifico Solimão, filho de
hiacea na Arábia, pensa Padberg, sempre
Selim. Teve esta circumstancia grande
documentado pela grande autoridade de
effeito para os lins de se propagar o uso
S. de Sacy, começou pelo uso do bunb; a
do café.
ingestão dos grãos assucarados.
Como veremos, brevemente, o espirito Fez-se depois o Kixr, espécie de chá,
reaccionário cafeiphobico de Khair-Bey
da casca torrada.
formara alguns sequazes. Não houve com-
tndo opposição ao café, em Mecca, até Explica Sacy: "E' bom observar qu9
se ifazia uso do bunn como de uma igua-
1524, data em que, allegando a occurren-
ria, antes de se ter a idéa de fazer delle
cia de desordens nas casas onde era to-
mado, mandou o cadi da cidade fechal-as uma decocção. Nosso autor
(Abd-al-Ka-
embora não de outra fórma perseguisse der) diz, em outro falando da
logar,
o commerclo do género. falsa relação que acompanhara a consul-
ta de Khair-Bey: O biinii se via em Mecca
Seu successor ;permittiu, em 1526, po-
rém, a reábertura dos caíés. muitos annos antes de se conhecer alli
o café; pois os abyssinios faziam desse
Analysando estes factos, allega Ukers,
bunn uso hahitual em seu paiz e se ser-
em sua extremada cafeiphilia:
viam delle á sobremesa, como duma igua-
"Um dos factos mais interessantes da ria, sem fazer delle café. Lançavam-se
historia do café é que, seja onde fôr, haja suas cascas no lixo, em Mecca, antes que
sido usado, provocou revoluções. o café fosse conhecido e é isto sabido
Tem sido a bebida mais radical do por todo o mundo."
Universo, no sentido de que sua funcção
o annotador de Prospero Al-
Vesling,
foi sempre fazer os povos pensar. B pini,depunha, nas vizinhanças de 1630,
quando um povo começa a pensar torna- que no Egypto se ingeriam as sementes
se perigoso aos tyrannos e aos inimigos como iguaria, fazendo-se uso da infusão
da liberdade da acção e do pensamento." das cascas como bebida.
"Ás vezes, conclue o autor americano, Não ha duvida alguma, affirma ainda
auto-intoxica-se um povo com as ideias S. de Sacy, que o café se preparava, na-
novas, confundindo liberdade e licença.
quelles tempos longínquos, com as cascas
:

36

do bunn. Já aliás ipassado o anno de O café, como nós hoje o ingerimos, o


1550, escrevia Abd-al->Kader taxativamen- bunnyya, parece ter sido desconhecido de
te (of. Padberg) Abd-al-Kader, que cita as palavras de
"O que se chama qaliwa, é o que se :um poeta árabe, seu contemporâneo:
íaz com a casca do bunn, ou com a casca "Preparado com a simples casca duma
junto com o grão e tostada... A ma- baga tem o perfume 'do almíscar e a côr
neira de fazer o café consiste em metter da tinta."
em agua ou a casca só, ou a casca com Cada vez mais sabor encontraram os
o bium, tostada e reduzida a pó, e em árabes na ingestão do café. Relata, Bur-
fazer a mistura, até que a agua se tenha lamaqui: "Alguns viajantes affirmam
carregado 'dos princípios desse vegetal. que os árabes nunca bebem esse licor
Empregando-se só a casca, o café cbama- delicioso sem desejarem que Gemabddin
se klxeriy3'a; íazendo-se uso do grão com tenha tido o Paraíso em recompensa do
a casca, chama-se buniyya." presente que lhes fez."

»
36

CAPITULO VI
Exclusividade da lavoura cafeeíra pelos árabes ao
século XX. A crença na esíerilisação
das sementes do cafeeiro

Durante muito tempo foi a Arábia a lhe daria um gosto de queimado, que
única região praticamente productora do jámais se lhe notou."
café. Explicando o caso, allegavam outros
Assim af firmava Dufour em 16 85. E, que o café já constituía género de tal
da península ismaelita, a Arábia Feliz, importância que se se acclimasse noutro
de cujos vastos campos, para o lado do logar, além da Araljia, a curiosidade, a
Sul, provinha a rubiacea. necessidade, o interesse já o teriam trans-
Concentrava-se a producção em Moka plantado, se as suas qualidades germi-
e Luhaya, e outros portos do Mar Ver- nativas não houvessem sido extinctas.
melho. Dalli seguia, em pequenos barcos Piedosamente, observa o nosso autor:
costeiros, ipara Geddu ou Zieden, na Ará-
"Esta gente não reflecte sobre os de-
bia Pétrea, em terras do sherifado de cretos da Providencia, que deu a cada
Mecca. .Dalli partia para Suez, de onde paiz a faculdade de produzir certas cou-
as cáfilas transportavam o género ao sas que outros não podem dar. Assim,
Cairo.
toda a industria, todos os esforços do
De vinte e cinco mil íardos constava Homem se quebram contra tal disposição
o volume de tal_ transporte, fardos de
do Altíssimo.
300 libras (cerca de 140 lúlos).
"Dava-se com o ca'fé, que só vivia no
Dez mil outros íardos se encaminha-
território pequeno do Yemen, o mesmo
vam com a caravana que voltava com os que com a gomma thurica, cujo habitat
I*cregrinos do Propheta por terra, e mais
era a costa do Sinai.
cinco mil tomavam o rumo de Damasco
"Ninguém se surprehenda de tal, pois
e Aleppo.
aquelles que foram a estes paizes aífir-
ainda havia o que era levado para
Mecca, á grande feira annual do Bairam
mam ser assim: o que cresce num logar
a paschoa musulmana.
não nasce noutro, por vezes contíguo.
Exportava a Araibia, pois, pelo menos, Tal se observava no Bgypto, ipor exem-
cerca de 5.508.000 liilos, o qua seria plo, com a cannafistula. Em Damieta
mais de 90 mil de nossas saccas actaaes, prosperava admiravelmente e em Rose-
commercio ,para a época já avultado. ta, a uma distancia de um dia de via-

Uma tradição corrente, espalhadissima gem, mal vicejava, por mais que se es-
outióra, e, em geral, aceita, refere que merassem os agricultores em cuJtival-a.
a propagação do café arábico se fez len- E assim, com
estes sábios exemplos e
tamente, porque os árabes, querendo arugmentos, fazia o nosso Dufour calar
guardar o monopólio do fructo da rubia- aos increus.
cea, tomaram a precaução de ferver aa Admitte Ukers a possibilidade desta
sementes que vendiam aos exportadores. manobra preventiva.
Foi J. de La Roque quem talvez mais Mas não era possível reprimir o surto
haja contribuido para a sua divulgação, do commercio de tão precioso género.
com o seu relato de viagem. (1715). Assim se conta que, já em 1600, um tal
Tal crença, já Dufour a consigna, po- Baba Budan, peregrino, voltando de Mec-
rém, antes de La Roque. ca, conseguiu formar pequeno talhão de
Examina os pró e contra da questão. cafeeiros, em Chíckmaglur, nas monta-
"Se fosse verdade, segundo uns, que os nhas do Mysore, onde, alguns annos irais
árabes faziam ferver o café ou o passa- tarde, um chronista hindú achou descen-
vam por um fôrno, antes de deixar a dentes destas plantas, crescendo á som-
Arábia, poucos grãos conservariam a bra das arvores secuilares da jungle.
casca, que é tão ténue e se reduziria a
Parece que a maior parte do cafesal
pó. Ora, isto não acontecia com o que de Kurg e Mysore provésn da Imporwk-
se recebia em França. Além disto, o fogo ção de Baba Budan.
37

S6 de 1840 em diante, porém, é que te, ó menor, mais verde, mais pesado e
os inglezes começaram a cultivar o café geralmente ipreferldo.
na índia. Contam-se, na Arábia, doze milhões de
Ainda no decorrer do século XVIII habitantes que do café fazem suas deli-
conservou a lavoura arábica notável pro- cias. O prazer de o tomar é realmente
eminência. reservado aos ricos. O povo fica reduzido
Escrevendo, em fins desta centúria, e á casca e á pellicula desta 'fava preciosa.
a resumir os dados mais completos exis- Estes resíduos constituem bebida bav
tentes em seu tempo, dizia o abbade Kay- tante clara, que tem o gosto do café, mas
aal, que a Arábia produzia myrrha, in-
sem o seu amargor e força. Encontra-se
censo, óleos, bálsamo e alguns aroma- este género por preços mínimos, em Be-
tas, exportação pobre, portanto.
telfalgui, seu empório. Ahi também se
"O café é que alli operou grande re- compra todo o café a sahir do paiz por
volução". Procede originariamente da
terra. O resto é levado a Moka, distante
alta Etbiopia, onde é conhecido desde
trinta e cinco léguas, onde, nos portos
data immemorial e ainda que cultivado
mais próximos de Lohia ou de Hodeida,
com êxito (1792).
são transportados para Gedda, em ipeque-
O sr. Lagrenée de Mezières, um dos uas embarcações. Os Bgypcios lá o vão
agentes mais esclarecidos que a França
buscar, e os outros povos, no primeiro
járr.ais teve nas índias, empregou tal
destes lugares.
fructo e delle fez uso frequente. Acba-
va-o muito mais volumoso, um pouco A
exportação do café pôde ser de rtoze
ma's comprido, menos verde e quasi tão a treze milhões.
perfumado quanto o que se começou a Os Europeus compram milhão e meio;
colher na Arábia, em fins do século XV. 03 Persas, tres milhões e meio; a frota
Refere Raynal a historia de Chadely, de Suez seis milhões e meio, o Indostão,
"o primeiro que fez uso do café para não as Maldivas, e as colónias Árabes da cos-
ter somno durante as praticas devocio- ta d'Africa, cincoenta milhões; as cara-
nárias". vanas terrestres, um milhão.
Conta também que as casas do café Como os cafés levados pelas caravanas
tinham a principio ,pessima reputação, e t-elos Europeus são os mais escolhidos,
como theatro das mais sórdidas orgias, custam dezeseis a dezesete sois, por libra.
e narra ainda, muito por alto comtudo, o Os Persas, que se contentam com cafés
caso da perseguição por ellas soffrida. inferiores, só pagam de doze a treze sois
Faiando do commercio na península, por libra. Fica para os Egypcios em quin-
escreve o autor francez: ze ou dezeseis, porque as cargas são com-
"A arvore que produz o café, cresce no postas, parte de bom e parte de mau
território de Betelfagui, cidade do Ye- café. Reduzindo o café a quatorzc sois
men, situada a dez léguas do Mar Ver- por libra, que é o preço médio, sua ex-
melho, num areial árido. Ahi o cultivam portação annual deve íazer entrar na
numa faixa de cincoenta léguas de com- Arábia de oito a nove milhões de libras.
prido por quinze ou vinte de largo. Seu Este dinheiro não lhe fica, põe-n'a em
fructo não tem o mesmo gráo de perfei- condições de pagar o que os mercados
ção em todos os pontos. O que cresce estrangeiros largam, de suas producções,
nos lugares altos, em Ouden especialmen- nos portos de Gedda e de Moka."
38

CAPÍTULO VII

Propagação do café pelo Egypto, Syrla


e Turquia Opposição encontrada

Rápida e trlumphante carreira reali- que sustentavam ser o café contrario á


zou o café na terra dos Pliaraós, mau lei mafamedica e os que denegavam tal

grado alguns incidentes nascidos da in- opinião.


tolerância de seus adversários. Inventou o fanatismo nova serie de
Um medico do Cairo, em 1523, pro- patranhas contra o uso do café. Assim,
punlia aos collegas o seguinte e interes- espalhou que no dia da Ressurreição os
sante questionário; bebedores do qahwa appareceriam com
"Qual a sua opinião sobre o licor as vestes mais negras do que o fundo
chamado café, que se bebe em rodas ? das cafeteiras.
Acha que pertence ao numero daqueiies Surgiu, porém, um modus TiTendi para
dos quaes podemos fazer uso franco, em- o caso.
bora provoque perturbações e não pe-
A' tempestade acalmou a prudência do
quenas, actuando sobre o cérebro e sen-
cadi do Egypto, o cheik Mohamed Ha-
do muito pernicioso á saúde?
nefl Ebn Elias, que chamou a conselho
Deve ser permittido ou prohibido?"
a classe medica e os mais judiciosos ci-
No fim da consulta emittia o tal es- dadãos do Cairo, de quem recebeu pare-
culápio o próprio conceito de que o calé
ceres os mais favoráveis ao café, sobre-
era illegal (sic! )
tudo dos médicos. Lembravam estes que,
-
.

Diz Ukers que a classe a que pertencia


já de muito, haviam os seus collegas opi-
o Inimigo do café recebeu-lhe a con-
nado em favor do decocto.
suita com antipathia, entendendo que
"Querendo comtudo adquirir convicção
responder a ella favoravelmente seria
mais cabal, escreve Padberg, mandou
depreciar a valia da matéria medica, ac-
preparar café em sua casa e o fez tomar
crescida agora de precioso elemento novo.
a muitos em sua presença, passando em
Morreu ao nascedouro o esforço do nosso
homem. seguida a maior parte dosse dia a con-
Se entre os médicos assim gorou a
versar com elles, para se certificar do
tentativa, tal não se deu entre os prega-
estado em que
achavam. Mas não lhes
se
dores. Viam estes, com os peiores olhos,
notou alteração alguma, nem nada de
indecoroso ou condemnavel. Era maia
a attracção que os cafés exerciam sobre
as- multidões. Muito mais que os templos
que tempo de rebater o zelo furibundo
dos carolas e as asneiras dos predicantes
e isto lhes era intolerável.
ignaros.
Afinal, em1534, deu-se a explosão.
Um ulema qualquer, depois de excitar, Em 1539 occorreram, durante o ra-
com o Beu berreiro de energúmeno, os madhan, novas scenas de violência con-
fanáticos imbecis que o ouviam, sahiu á tra os bebedores de café. Foram dentre
rua á sua frente e invadiu o primeiro ellesnumerosos presos e até surrados.
café da vizinhança. Diz Padberg que o Houve, em 1542, dizem outros que em
facto se deu em 1533 e que se tratava 1544, no Império Ottomano, pequena du-
de sábio cheik, o mais reputado pregador vida por causa de um firman Dalxaao
de seu tempo. Respondia ao nome kilo- por Solimão o Magnifico, prohibindo ex-
metrico de Shehab-eddin-saubats-Bbn- pressamente o uso do café. Mas como
Abd-Alhakk. ninguém o tomasse a serio, sabendo-se
A turba destes intolerantes nao se li- que o Commendador dos Crentes fôra
mitou a depredar terrivelmente o esta- suggestionado, e dera, de afogadilho, tal
belecimento, cujo mobiliário e appare- decisão logo depois passou ella a letra
Ihamento ficaram reduzidos a estilhas. morta.
Ainda espancou os pacíficos bebedores Tão inveterado, aliás, o uso da infu-
que lá estavam. são arábica que continuou clandestino, a
Causou immensa sensação o facto; diví- principio, para depois ee praticar ás es-
dlu-se a cidade em dois grupos, o dos cancaras.
39

Obtemperara o padischá ao pedido de Nota Padberg quanto, porém, custou


uma odalisca assaz leviana em seus ca- ao café, feito como hoje é, universalmen-

prichos. te, para impôr-se.


Propagou-se- rápida e triumphante- Basta dizer que, ainda em 1558, Abd-
mente o uso do café pela Syria. Tem-ae alkader ignorava a infusão proveniente
noticia de sua entrada em Damasco pelas das sementes torradas qnie os árabes já
Tizinhançaa de 1530 e em Alepo pelas preparavam.
de 1532. "Oa árabes usavam, então, principal-
mente, a casca, ou para fazerem o seu
Não encontrou opposição alguma. Vá-
café, de kixr, ou j'unta com os grãos, para
rios cafés de Damasco tornaram-se nota-
seu café biiim. Este, porém, começou a se
dos como as casas das Kosas e da Porta
preparar exclusivamente das sementes, a
da SalTação. principio talvez só por falta de cascas.
Continuava pois a bebida arábica em Estava descoberto assim o café legitimo,
franca popularidadé e alargamento da e foi sem duvida ainda no século XVI
consumo pelo Oriente a que ia avassa- que se fez este progresso."
lando. Refere Prospero Alpini, em 1591, ba-
Ainda do século XVI data a grande seando-se em suas observações do Egy-
propagação da bebida no vasto império pto, de 1580 a 1583, que o "chaova cos-
dos padichás. tuma ser preparado pelos egypcios de
Hadji Chalfa, citado por S. de Sacy, dois modos: uns fazem o decocto das
marca o anno de 1555 como o de sua túnicas ou folliculos, outros da substan-
entrada na Grécia. cia das sementes; dizem que aquelle ó
Affirma Rauwolf que de Alepo partiu mais efficaz do que este".
o café, victorlosamente, para a capital Como para comprovar isto, ajunta que o
ultimo, isto é, o nosso café é "próximo,
turca. Nesta cidade syria já era em 1513
mais que vulgar. no gosto, do decocto de chicória"; o que
certamente não abona muito a nossa dile-
Da data da sua apparição na Mesopo- cta bebida, apezar de ficar mais tarde, tal-
tâmia não se tem noticia exacta, neiri
vez desde 1700, a chicória o principal suc-
tão pouco na Africa Septentrional, no;i cedaneo do café, na Europa, talvez em con-
antigos Estados Barbarescos. se<iuencia dessa phrase de 'Alpini".
Com as caravanas o café atravessou »<
Descreve em seguida aquelle celebre au-
Sahara e o Atlas. B galgou o Sudão, tor o modo de preparar as duas espécies de
transpondo o Niger e o Senegal.
café: para 20 libras de agua (cerca de 6,5
Por toda a parte onde impera o Isiao
litros, sendo 1 libra qniasi 1/3 kg.), toma-
o seu uso tornou-se generalizadíssimo. despolpadas
se das sementes 1,1/2 Ib.
Multiplicam-se a tal propósito as citações
(1/2 kg.) mas dos "folliculos" das semen-
dos geographos e viajantes. Vesling, 3/4
tes só 1/2 libra ou, segundo outros.
pelos annos de 1630 affirmou haver no
Ib. (logo, uns 165 ou 250 g.); tanto as se-
Cairo uns mil botequins, cifra que Hart- mentes como as cascas torram-se pouco
wich elevou a dous ou tres mil, baseado ("parum", não demais!) e, miudamente
em traducção falsa de um texto latino. quebradas, fazem-se ferver, até "meia con-
Observa Padberg, com toda a razão, sumpção", na agua, pcjstas nella de infu-
que como o Cairo 'devia, quando muito, são, por alguns, já durante o dia.
ter então uns cem mil habitantes, até a Coado, guarda-sc o decocto enj vasos de
cifra de mil parece exagerada. l)arro, completamente tapados; toma-se
Em meiados do século XVII affirma sobremodo quente e ainda effervescerte,
Hadji-Chalfa (o Kyatib-Tchelebi dos tur- muitas vezes durante o dia e principalmen-
cosj o principal dos escrlptores, de quem te de manhã em jejum, a pequenos goles,
tanto se valeu Silvestre de Sacy) a ex- na medida dum "cyatho" (45 cm. 3, como
portação do café da Arábia regulava por nossa ohicarinha) e mais, com grande pro-
oitenta mil fardos de tres quintaes, o veito, para o estômago.
que representa cerca de dez milhões d? Um café bem forte, de certo, aquelle em
kilogrammas ou sejam cento e sessenta que um kilo de grãos dá só para 13 litros,
mll de nossas saccas actuaes, avultada entrando numa cafeteira dum litro umas
cifra, se attendermos a que tudo se des- 75 grammas!
tinava ao mundo musulimano e ao lacto Mas o que mais admira, é que o mesmo, ou
de que a população desse império ora até um maior effcito era obtido pela casca,
muito menor do que hoje. na metade ou só num tei"ço daquelle pesol
.

40

se vendia mais caro do


que <>
de conside- A casca
Esse "kixr" é realmente digno muito mais mesmo, duas ou três
ve-
grão,
ração".
da JÍ.CS
Causa-nos espécie porém o baixo valor Explicando o facto de não haver
expor-
libra attribuida por Padberg.
A portugue- do café, dizia Ritter em
tação da passa
za era equivalente a quasi
meio bilogram- é saboroso quando
' 1847. que o "Kixr" só
ma (459 grs.).
preparado com cascas frescas,
annoUdor em
Já em 1630, porém, Vesling, o Isto jáaliás o affirmara d'Herbelot
de Alpini. mostrava haver no
Kgypto pre-
ferencia pelo café feito não da casca
mas se acli-
em Pensa Padberg que talvez ainda
do grão torrado parcialmente e pisado dia o "Kixr" no Brasil,
onde a
almofariz de mármore com pilão de
ma- me algum
do café "se perde quasi mutilmen-
casca
deira .

que
Tratando do "Kixr" ou café de casca, ^"^Esquece-se o douto autor quanto é ella
mediocremente,
nos interessa aliás muito
utilisada como adubo não precioso mas pre-
cxtra-
pois a elle o Brasil é inteiramente ciosíssimo dos cafesaes.
nho, lembra Padberg que Hadji-Chalfa
af- us<xr o cafe no
Tratando do modo de se
firma a existência da praxe de se seccaicm Oriente, encerra o mesmo autor as suas ob-
as cascas do café no Yemen como se
fos- curiosos.
servações por estes informes
sem passas para depois servirem ao de- modo de usar
"Resta dizer pouco sobre o
eocto grãos no Oriente. Ja
prepara va-se o o café commum de
Abd-Alkader é taxativo: segundo observações feitas no
Vesling diz,
"Kixr" com as cascas torradas. O café,
Egypto por cerca de 1630:
visto por L. Raulwolf em Alepo, deve ter suavi-
""Nem faltam os que com assucar
sido um mixto de grãos e cascas.
zem a amargura da bebida." no
Pietro delle Valle, em 1615, abona a exis- Mas nunca se generalizou tal uso
tência do café de grão, muito forte e cora Oriente, muito menos a mistura com
a borra em suspensão. leite. .
famo-
Hadji Cbalfa af firmava, em 1650, que da Os beduínos do Sinai tomaram a
Stanhope quasi por louca,
Arábia só se exportavam os grãos, c nunca sa Lady Esther
quando ajuntou assucar ao café. Os
be-
as cascas.
duínos, como os árabes em
geral, conser-
Mas Wurffbain distinguia, em 1642, as
prepa-
duas exportações para as índias, a das fa- varam o antigo modo, simples, de
bebida predilecta de todos os
vas e a das cascas. rar sua
Mais tarde é rara qualquer menção extrjt- dias: levam quasi sempre comsigo os
utensillos indispensáveis: pequena cafe-
arábica, ao "Kixr". Pouca casca se impor-
chapa re-
tou para a Europa, vinha secca e pulvcri- teira e algumas chicaras, uma
donda de metal para torrar os grãos,
sada e servia para se fazer a infusão cha-
entre
mada café à la sultana ou café de Salta sendo a ração necessária triturada
de
"fleurs de café". duas pedras, immediatamente antes
Os yemenses, até hoje, preferem o fazer o café. Tomam-no muito forte e
quente, mas sem outros ingredientes.
"Kixr" ao nosso café, attestam-no muitos
Só os turcos, principalmente em
Cons-
testemunhos como os de La Grélaudière,
tantinopla, cercaram o u.so do café
dum
em 1712, divulgado por de La Roqup. Níe-
buhr e seu companheiro, o sueco Forskal, luxo refinado, servindo-o em "fingians"
de prata e reforçando-o ás vezes
com
cm 1763, do inglez Cruttenden em 1736,
Berggren em 1844, que achou o "Kixr" mui- essências, cravo da índia, anis ou car-
to espalhado pelo Egypto, etc. Atitoridade damomo.
de muito maior renome é a de Paulo Emilio Não ficou isso sem alguma influencia
Botta qutf, começando por se dedicar á sobre a Europa, sendo dos turcos que o
botânica, acabou entregue á archeologia, café passou para o Occidente."
onde angariou real e merecida celebridade, Apôs a conquista do Egypto levou
sobretudo depois de realizar as excava- Selim 1 o café para Constantinopla, lem-
ções celebres de Khorsabad (nas ruinas bremo-lo. Suppõe-se que o primeiro café
de Ninive). haja entrado na antiga Bysancia pelas
Diz Botta que no Yemen se affirmava er vizinhanças de 1517. Mas não se conhe-
o "Kixr" IgtJal, em aroma e poder excitan- cem referencias explicitas anteriores aos
te, ao nosso café. Este passava por acalo- melados do século XVI, como o demons-
rante o excitante demais, refcr'', Gruttcn- tram os textos do historiador turco Pi-
herg. chevili, em quem se abeberou Galland.
41

aliás também documentado pela memo- No Serralho não tardai ia em penetrar


acompanliadora do texto das viagens
ria o gosto pelo café e viu-se a instituição de
de Jean de La Roque: Mémoires conccr- empregados cujas funcções se resumiam
nant l'arbre et le fruit du café dressé em preparar a bebida para o Commen-
sur les observations de ceux qiii onfc fait dador dos Crentes e suas innumeras es-
le demier voyage de 1' Arabi© íieureuse." posas: os chamados Kahvedjibaclii.
Crearaim os cafés de Constantinopla
Chama Padberg, e com toda a proprie-
dade, a attenção dos seus leitores para
(Kahvech-Kanes) enorme fama em todo
Entre 1546 e 1549 o Oriente. Havia entre os principaes ver-
um facto valioso.
visitou o Oriente o famoso Pierre Belon, dadeira competição luxuosa.
patriarcha da ornithologia moderna Ricamente atapetartos e providos do
(1517-1594). mobiliário ainda offereciam aos frequen-
tadores diversões variadas.
Percorreu a Grécia, Creta, o Dodeca-
Chamavam-lhes academias da sabedo-
nesio, a Thracia, a Macedónia, o Egypto,
ria. E a elles concorria a rapaziada con-
a Palestina e a Syrla.
currente aos caigos da judicatura, os
Tão pouco viajavam os francezes am
cadis das provindas, professores, empre-
da, então, que a sua grande viagem do
gados públicos, pachás, grandes commer-
1548-1549 assumiu ares de verdadeira ciantes da terra e mercadores estrangei-
jornada circumnuvegatorla universal.
ros, viajantes de todas as partes do Occi-
Ronsard a seu propósito delirava: dente e do Oriente, ete.
Immensa a concurrencía dos freguezes.
Combien Belon. . .
Dentro em breve multiplicavam-se os es-
Doit avoir en Fraiice aujourd'hul tabelecimentos congéneres a ponto de
D'hoimem'. de faveur et de gloire! attrahirem mais povo do que as próprias
Qul a vu ce grand Univers mesquitas.
Et de longueur et de travers Eram os centros da mais activa con-
Et la gent blanche et la gent noire. versa e até lhes chamavam escolas de sá-
bios. Com isto se Irritavam muito os into-
Voltando do Oriente com abundantís- lerantes e fanáticos. Vários sábios nlemas
simo material para as suas Histoire na- ou doutores da lei, pelos annos de 1570,
turelle des eatranges poissons marins e esbravejaram contra o café, apoiados na
Histoire de Ia nature des oyseaux, avec autoridade do grão mufti.
leurs descriptioiís et naifs ponrtraicts Com enorme berreiro, clamavam estes
retirez du naturel, também multo se oc- energúmenos: mais peccava quem ia a
cupou Belon com a descripção dos usoa um café do que a uma taverna. Renova-
e costumes dos povos visitados. ram-se os mesmos argumentos sandeus
Nas suas Observations de plusieurs do Egypto. Allegava-se que o Propheta
singulajrftez (Pariz, 1554) menciona, com prohibira a ingestão de carvão! Mas o
a maior minúcia, os diversos inebriantea sultão Selim II (15 66-1754), aliás justa-
usados pelos turcos, até os grãos da ar- mente alcunhado o Ébrio, (Mest) não deu
ruda h'armaTa, a seu ver o faimõso ne- força a estes exaggeros. Seu filho Amu-
penthes homérico. Nada, no emtanto, fala rat III, contentou-se em prohibir o con-
do café, como bem observa Ritter. sumo do ca'fé em puiblico.
Entre 26 de novembro de 1554 e 15 Proseguiu intensa a grita nos templos
de novembro de 1555, anno 982 da hé- porém. O Propheta não conhecera o café
gira, deve ter sido aberto o primeiro e seus fieis não podiam deixar de imi-
café publico de Constantinopla, fundado tai-o ! urravam os fanáticos. Procedia o
por dous syrios, Schems de Damasco e café do carvão e o Alcorão declarava o
Heken, de Alepo, Ricamente montados
.
carvão insalubre !

situavam-se no bairro de Takhtacalah, Decidiu o mufti a favor dos energúme-


estes estabelecimentos luxuosos, magní- nos e assim prohibiu a ingestão da be-
ficos para o tempo, onde os frequentado- bida araíbica.
res se installavam em sofás ou sobre
Mas a desohediencia lavrou secreta-
commodos coxins. mente, e cada vez mais intensa. E, quan-
do, em 15 80, Amurat III, influenciado
O preço de entrada era apenas o valor peloF sacerdotes, lançou um edito collo-
de uma tigelada de café. Enorme o cando o café na categoria dos vinhos, a
trlumpho de taes casas que se multipli- apinião publica recebeu tal rescrípto com
caram, notavelmente, entre as classes positivo scepticismo e maior desobe-
alta e baixa da capital musulmana. diência.
!

42

constitue toda a linguagem entre qVq»


Os funccionarios tornaram-se toleran-
tes, tolerantíssimos, para com os
contra- usada.
ventores. Viveram os cafés, discretamente,
Servem ao café em salvas sem pés, fei-
atiíiz de portas cerradas, sob os olhos tas commumente de madeira pintada e
benévolos da policia. E nas mercearias envernizada, e ás vezes, de prata.
vf-udeu-se o género no fundo das lojas. Tem capacidade para 15 a 20 chicaras
Comegaram as controvérsias theologi- de porcellana. Ha também quem possua
cas. Ao tal mufti intolerante suocedeu metade de apparelho de prata, conforme
outro, benévolo, ou antes, intelligente. as posses. A chicara pôde ser facilmente
Decidiu-se que o café não procedia exa- mantida pelo pollegar, da parte de baixo
ctamente do carvão, como sc dissera. B applicando-se-lhe dous dedos ao bordo
a£EÍm, não podia ser proliibido pela lei superior.
de Ma.foma. Em século XVII, come-
princípios do
"Depois de revogada, emfim, aquella çaram os inebriar-se com os
turcos a
sentença carbonária por outro mufti mais vapores do ta'baco. E este se fumava so-
e=!Ciarecido, observa Padtoerg, redobrou o bretudo nos cafés. Dentro em breve, se
uso e pullularam de novo os cafés. Estes, espalharia pelo Occidente o provérbio
para obter licença, deviam então pagar "fumar como turco". Amurat IV, cruel
ao grão-vizir um imposto diário, de um entre tantos padichás cruéis, mandou
a dois sequins ou ducados (uns 2 a 4 fechar os cafés e enforcar quem estivesse
doUars), vendendo-se a cbicara por um sorvendo o fumo da herva de Nicot.
flsper, isto é, s6 poucos réis. Mesmo a.ssim
prosperaram os cafés."
Em annos do terceiro quartel do século
occorreram as operações do longo asse-
Houve verdadeiro açodamento no con- dio de Candia, porf iadamente disputada
sumo do café por parte de juristas, pre- aos venezianos pelos turcos, e afinal
dicantes e até devotos. conquistada em 1669, pelas armas otto-
B como se estivesse na terra clássica manas, mau grado os soccorros da Fran-
do backchicb, diz Ukers, maliciosamente, ça, os sete mil homens que Luiz XIV
lornou-se de praxe, entre os donos de enviara de soccorro, sob as ordens do
café, cotizarem-se para offerecer a cada seu primo-irmão ibastardo, o duque de
novo grão-vizir que se empossava, um Beaufort, celebre pela braTura e a estu-
bom presente, a titulo de don de joyeux pidez.
avòncment.
'Curioso incidente se deu então. Era
Assim ninguém se lembrou de os ator-
grão-vizir de Mahomet IV, o famoso
mentar até á éra critica de Amurat IV.
Achmet Koproli, para quem constituia
Ha, na Bibliotheca Nacional de Paris,
ponto de honra nacional ottomano a to-
um manuscripto árabe da autoria de Bi- mada da ilha hellenica. Furioso com a
chlvili, onde occorre curiosa pintura do
opposição que lhe moviam os que acha-
ambiente de um café de Constantinopla
vam interminável aquella campanha san-
no século XVI.
grenta e notando ique tàl opposição par-
"Na casa dos grandes fidalgos e ho- tia, sobretudo, dos cafés de Constantino-
mejis importantes, ha creados que só pla, chegou Koproli, affirma Hartwich,
cuidam do café e o seu chefe, e fiscaliza- não só a mandar fechar sob as mais se-
dor, occupa um quarto perto do saguão veras penas, taes estabelecimentos, como
onde as visitas são recebidas. a fazer surrar os contraventores. E de-
Os turcos chamam a este mordomo pois, na reincidência, a encerrar estes
K:i-.veshl, o que significa fiscal ou crea- consumidores renitentes do café. em
do do café. saccos de couro, para serem afogados no
"Em muitos haréns ha destes fâmulos, Bosphoro
cada qual tendo sob as ordens quarenta "Seus argumentos, escreve Ukers, eram
e até cincoenta baltagis. Depois de have- muito os mesmos de que se valeria Car-
rem servido em taes cafés, podem contar los II da Inglaterra, cem annos mais
com bom emprego ou a doação de um tarde, a saljer: taes casas não passavam
pedaço de terra. de verdadeiros antros e viveiros de se-
Nas casas de gente altamente collocada dição."
vivem pagens chamados Itchoglans, que Houve ahi, certamente, um lapso de
recebem o café das mãos dos serventes memoria do erudito autor do Ali ubout
e o offerecem ás visitas, com surprohen- coffee, que o levou a sério attentado
dente agilidade e dextreza, logo que o chronologico, aliás inspirado possivel-
dono da casa lhes faz certo slgnai, que
mente por Hartwich.
43

Foi Koproli contemporâneo de Car- bulndo ao anno de 1524 a ameaça da


los 11 ! Ho monarcha inglez presenciou execução em massa dos cafeiphilos tur-
todo o cerco de Candia, terminado a 6 cos pelo filho celebre do Richelieu otto»
de setembro de 1669, após sangrentíssi- mauo, que só nasceu em 1626 Também
!

ma campanha, pela capitulação dos ve- (íepois de tão feroz prescripção, jamais
nezianos, visto como viveu de 1630 u se constatou, em terra ottomana, nova
1685. perseguição aos bebedores de café.
Não era Koproli, porém, nenhum va- Escrevia Dufour em 16&5, ao falar do
ciJlante, como o segundo Stuart, e sim papel da bebida arábica nos costumes
um tyranno de grandes gestos. turcos:
Mais uma série de victimas a serem "O café não ó apenas de presença obri-
inscriptas no martyrologio do café! Em gatória á mesa do pobre, figura também
todo o caso, se assim pereceram estes om todas as cerimonias dos grande"-!, que
pertinazes bebedores da nossa infusão, estariam falhas se delias se achasse au-
tiveram honras imperiaes, pois geral- ,
sente.
mente se sabe, que este .processo dos sac- Os mais altos dignatarios da Sublime
cos de couro, era o da praxe da elimi- Porta, são obrigados, tanto quanto os
nação das concubinas de um sultão quan- menores :burguezes, a offerecel-o, indis-
do fallecia e o da extincção de sua prole pensavelmente, a quantos vão vel-os.
também !
Se não o fizerem violarão o que o con-
O mais interessante é que, ao passo senso publico tem de mais assentado e
que ordenaVa o fechamento dos cafés, a cortezia de mais elevado. O próprio
permittia o terrível ministro o funccio- grão-vizir jámaís concede audiência a um
namento das taibernas !
embaixador sem que nella figure o café,
Commenta Ukres: "iS' que o grão-vi- acompanhando sempre os sorvetes e os
zir tinha o vinho como capaz de produ- perfumes, que, a não serem offerecidos,
zir estímulos mentaes menos violentos do de algum modo demonstrariam desapreço
que os do café E a tal propósito, cita
!
pelo visitante.
as palavras de Vlrey: "o caíé era bebida lE' exacto que ha occasiões em que os
por demais Intellectual para convir á ad- perfumes não apparecem, a saber, quan-
ministração feroz e sem critério dos pa- do das audiências durante o Ramadan, a
chás". quaresma dos Turcos.
Coisa incrível a resistência opposta pola
Tão rígidos observajntes são dos man-
população de Constantinopla ao brutal
damentos de sua Religião, que lhes pa-
edícto Fechados os cafés, apparaceram
!
reço quebrarem o jejum aspirar a fu-
os mercadores ambulantes da bebida nos
maça dos per'fumes por esse tempo peni-
mercados, procua-ando dissimular o seu
tencial.
commercio, de todos os modos, apezar do
E' este escrúpulo que os leva a se abste-
terror que inspirava éi ferocidad* das
rem do café, embora o proporcionem aos
penas promettidas pelo grão-vizir.
outros.
Afinal, convenceu-se Koproli de que
os cafés não eram aquelles "antros e
Em snmma, a offerta do café constitue,
no Oriente, uma das bonr.íis principaes c.ora
viveiros de sedição" que proclamava, e
qyie os turcos se obsequiam quando se visi-
assim permittiu a sua reabertura.
tam.
Também passados alguns annos toma- E por este motho, ajuntam aos outros
riam os amigos do café a sua desforra
epithetos que lhe attribuem o de honroso".
dos sustos e temores, vendo o truculento
grão-vizir apelado do poder e não só — Interessante é um apanhado do papel do
— levado ao suppllcio, pela ira de seu
!

café no lar turco, em fins do século XVll


e proveniente de um depoimento sueco: a
amo e senhor, furioso com a derrota dos
exércitos ottomanos, impotentes assedia- Relação de uma viagem a Constantinopla,
dores de Vienna e desbaratados pelo he- pelo embaixador do poderoso príncipe Car-
los Gustavo, Rei dos Suecos, Godos e Vân-
róico João Sobieski.
Bem vingados se achavam da conten- dalos, ao Commendador dos Crentes Soii-

ção imposta !
mão III.

Procura Padiberg encontrar a fonte Era este delegado régio Nicolau Rolamb,
onde Hartwieh foi colher informes para barão de Bystad, Senhor de Lanna, Broo,
esta historia. Mas não conseguiu resul- Biorkwiik, Beatlund, e d'aultres lieulx
tado pratico. como se dizia em francez antigo, sena-
Aliás, nota com toda a razão, o for- dor, conselheiro e presidente da Suprema
midável anachronismo deste autor, attri- Côrte de Justiça do reino escandinavo.
. .

44

Descrevendo o que viu do Impei-io otto- Tornou-se habito universal offerecer-se


mano, chegou-lhe a vez de tratar do café, o café a todas as visitas, sendo considerável
que fez ao se occupar do ministro hollan- descortezia a recusa da bebida.
dez Varner. Vinte chicaras por dia e por pessoa era
Depois de dizer que este representante boa media. Commentava Galland: gasta-se
das Provincias Unidas era individuo sobre- em Constantinopla com café como em Pa-
maneira versado em línguas orientaes, ac- ris com vinho. Vlam-se mendigos implo-
cusa-o de mau diplomata. Dava muito mais rando esmola paia tomarem café, como na
para professor do que para a carreira. Vi- Europa occidental .se fazia em relação ao
via ocoupado com estudos linguisticos e a licor que letiiica, quando bom, o coração
exegese dos livros sacros judaicos. Para dos homens, ou com a cerveja. Exactamen-
isto realisava conferencias diárias e conti- te como agora occorre em nossas cidades
nuas com rabbinos. quando os pedintes allegam não ter um
E mais, pensava em outros assumptos nickel para tomar um café. Nessa época o
extranhos ás suas obrigações. Dahi lhe vie- facto de se descuidar ou recusar um dos
ra a ideia de escrever e publicar um livro cônjuges de offerecer café era motivo para
Eobre o café e seu uso. divorcio, entre os Turcos.
Pouco devia, ser o licor oriental conhe- Os homens, ao contrahirem o matrimo-
cido entre os escandinavos, pois a não ser nio,juravam nunca deixar faltar café ás
isto, não teria o Barão de B.Ystad traçado esposas.
as linhas que aqui vão, explicando aos com- Affirma-o Fulbert de Monteith que, mali-
patriotas o que vinha a ser o licor oriental, ciosamente, commenta: é isto talvez mais
a que também apreciava o collega neerlai)- prudente do que jurar fidelidade conjugal.
-dez.
Ha como vimos que, para a
escriptores
"E' o café uma espécie de ervilha que
Pérsia, reivindicam a gloria de haver des-
cresce no Egypto (sic). Os turcos moem-
coberto e propagado o café. Herbert alli o
no, fervem-no naguá e tomam-no, por pra-
encontrou em 1626 e Olearius em 1637.
zer, em vez da aguardente, ohuchurrian-
do-o, quasi a ferver, certos como estão de
Affirma este que o seu uso no paiz dos
que resolve constipações catharraes e impe- Shahs já então era de uso antigo.
dem o ataque dos vapores do estômago ao Entende Ukers que nada justifica tal
cérebro. pretençâo. Póde-se comLudo af firmar que
Beber café e fumar tabaco (que embora tanto no Iran como na Abyssinia, a bebida
prihibido sob pena de morte, é mais consu- era conhecida desde tempos immemoriaes,
mido em Constantinopla do que em qual- these sobremodo discutível quanto á pri-
quer outro lugar do mundo, tanto pelos ho- meira parte, como vimos.
mens como pelas mulheres, embora ás es- Assim também, em data longinqua os ca-
condidas), constitue quasi que o uaico fés se tornavam vulgares nas principaes ci-
passatempo dos Turcos. dades do paiz dos Shahs.
E é a única cousa que offerecem uns aos Não parece que hajam algum dia mereci-
outros. Por este motivo todas as pessoas do as honras da perseguição politica, como
de distincção têm em casa um quarto espe- turcos succedeu. Conta-se t^l
entre os a
cialmente construído para tal fim, onde p,roposito curiosa historieta.
continuamente permanece um vaso com café
sempre a ferver". Tendo uma das mulheres mais prestigio-
sas do Shah Abbas sabido que no principal
Aliás
queixou-se acremente o Barão de café de Ispahan os frequentadores se occu-
Bystad da faJta de cordialidade e attenções
pavam de politica, mandou que um mol-
do tal mynheer Varner.
lah aíli fosse, diariamente, para discor-
Nunca procurou ou antes sempre o evitou rer sobre assumptos de direito, historia e
"talvez por antipathia aos suecos ou para poesia.
ser agradável á França e ao Imperador da
Houve-se o tal ecclesiastico c explicador
Allemanha"
da lei mahometana com o maior tacto: Tor-
Em fins do século XVII estava no Orien-
nou-se muito estimado dos auditórios, evi-
te, tão espalhado o uso do café que, no di- tando, com rara habilidade, as controvér-
zer de Galland, em Constantinopla, não sias politicas e os commentarios sobre as
existia casa rica, ou pobre, fosse ella de
questões de estado.
turco, grego, iudeu ou armeuio onde, pelo
Com o seu exemplo obteve resultados es-
menos, não o tomassem duas vezes por dia,
plendidos para a obra da serenidade dos
sendo que frequentes eram aquelles que ambientes agitados dos cafés da capital
muito mais vezes o bebiam. persa
.

45

Olearius, de quem já falámos, relata as gosto dos ouvintes. Ao concluir a sua


grandes diversões occurrentes em taes es- fala, versando tópicos litterarios ou no-
tabelecimentos. vellas ociosas e descosidas, dirigia-se ao
A elles concorriam poetas e historiado-
auditório solicitando uma espórtula.
res que occupavam catliedras de onde dis- Em Alepo, vivia certo individuo de
cursavam, contavam anecdotas satyricas mentalidade acima da media, pessoa dis-
"sempre movimentando vima bengalinha ^ tincta que se intsruira pelo simples gosto
a fazer as gatimonias dos palhaços presti- de estudar. Andava perambulando pelos
digitadores da Inglaterra". cafés da cidade, pronunciando arengas
Nas solemnidades da Côrte tinham lugar moraes".
conspícuo, no séquito dos shahs, os Kahve- Em muitos cafés havia musica, can-
djiibachi, servidores de café, ou mais ao pé tores e bailarinos. E nelles se relata-
da letra, "derramadores de café". vam os prodígios das Mil e uma noites.
Karstens Niebuhr, o celebre viajante han- Nos paizes do Oriente, conta-nos
noveriano (1733-1815), pae do illustre Nie- Ukers, era costume offerecer-se uma
buhr, publicando, em 1774, a sua Descripção "caneca de mau café", a saber, café com
da Arábia, relata o que viu dos antigos ca- veneno, como convite ao suicídio a func-
fés da Arábia, Syria e Egypto. cionarios ou outras pessoas indesejáveis
Eram vastos salões de chão esteirado c aos Governos.
á noite illuminado por uma multidão de Falando da entrada do café na Grécia,
lâmpadas diz Paulo Porto Alegre que a bebida
Nelles se realisavam exercícios de elo- turca, só conhecida por uma tradição
quência profana, sendo o único local onde obscura, começou em meiados do século
taes cousas podiam occorrer. XVII a ser ingerida aqui e ali pelos povos
Liam-se trechos anthologicos como por da Europa Occidental. Em 1669 princi-
exemplo a narrativa das façanhas de Rus- piou o seu uso em Athenas, e a darmos
tan Sal, heroe persa. Havia quem aspirasse credito ao trecho seguinte, não parecia
ás glorias da imaginação e assim compu- que elle fosse ainda muit& apreciado alli
nha contos e fabulas. nessa época:
Taes plumitivos, emquanto recitavam, "Serviram-nos, conta um viajante, qu9
moviam-se de um lado para outro, assu- nesses tempos percorreu a Grécia, uma
mindo attiutdes oratórias e arengando bebida que foi ha pouco tempo impor-
sobre assumptos por elles escolhidos. tada de Ck)nstantinopla, e que é prepa-
Num café de Damasco estava certo rada de agua fervente com uma farinha
orador contractado para, em determina- torrada de um fructo chamado bonne;
da hora, contar historias. Em outras é uma tintura negra, e que nos desagra-
casas mostrava-se mais dependente do dou bastante."
46

CAPITULO VIII

As primeiras referencias ao café na Europa


Rauwoif. Prospero Alpini. Wesling. Della Valle.
)s depoimentos italianos

Faz Ukers notar que das tres grandes o mundo, sem pejo algum, tomam-na em
bebidas da temperança, chá, café e cho- tigelinhas fundas de barro e porcellana,
colate, foi a ultima a primeira a
introdu- tão quente quanto possam aguental-a
zir-se na Europa, para onde a
trouxeram levando-a a miúdo á bocca, bebendo po-
os hespanhoes, já em 1528, como fructo rém golezinhos pequenos e fazendo logo
da conquista mexicana, por Fernão Cor- circular na roda em que estão sentados.
Para esta bebida, junto com a agua,
^^^Só em 1610 é que o chá appareceu empregara fructos, chamados Bunmi ije-
na Europa, importado pelos hollandezes. los haJbitantes, tendo exteriormente, em
E os mercadores venezianos, ahi pelos tamanho e côr,a apparencia de "bagos
annos de 1615, introduziram o café na de louro, envoltos em duas pelliculas
Itália. delgadas, e sendo trazidos, segundo suas
Parece, até agora, fóra de duvida qoe noticias antigas, da índia.
o mais antigo revelador do café á Euro Como esses fructos são pequenos em
:pa veiu a ser Leonardo Rauwoif (falle- si mesmos, tendo interiormente dois
cido em 1596). grãos amarellentos encerrados separada-
Sahindo de Auggburgo, sua terra, a 18 mente, em duas casiabas, sendo também
de maio de 1573, e de Marselha em se- de todo semelhantes, no effeito, nome e
tembro seguinte, achava-se Rauwoif em aspecto, ao Buncho Avlcennae e Baunca
Alepo, em novembro do mesmo anno. Re- Ithasis ad Almans, considero-os como tal,
gressou á cidade natal a 12 de fevereiro até receber dos sábios um aviso melhor.
de 1576. Essa bebida é muito commum entre
Até agora, nâo ae descobriu depoimen- elles, achando-se :por Isso, em um ou ou-
to europeu mais antigo do que o do cele- tro ponto do bazar, não poucos que a
brado botânico e medico germânico, phy- ofíerecem, como também mercieiros que
sico-mór da cidade de Augsburgo, que, de venfiem os fructos."
accordo com os gostos do tempo, tradu- Assiste a Padberg razão quando ex-
ziu a expressão germânica de seu nome plica qu® a palavra índia aqui significa,
para o pseudonymo de Dasylicus. por extensão, o Oriente.
Ao café menciona como chaube, no O segundo revelador do café á Europa
Capitulo VII do relato de suas viagens. foi Prospero Alpino, celeíbrado catheura-
Trasladou Ukers para as suas paginas tico universitário, desses a cuja autori-
o texto publicado em Frankfort, e L/auln- dade se prende a celebre interpellação
gen, em 1592 e 1593. do l>jcant paduanl ...
Traduziu-o Padberg parcialmente, dei- Tanto em sua De medicina AEgyptio-
.\ando de lado as primeiras linhas, que ruin 'de 1591, como na De plantis AEgy-
são as seguintes: "Se tendes em menta pti (1592), publicados em Veneza, men-
comer alguma cousa e tomar licores, para ciona o café.
isto ha commumente uma tasca aberta Ukers reproduz o trceho do segundo
pelas vizinhanças, onde vos sentaes no tratado, e deixa de lado o do primeiro,
chão ou sobre tapetes, e vos pondes a qne Padbeg declara muito mais im-
beber." portante.
Segue o trecho traduzido pelo erudito "De medic. Aeg. lib. IV, cap. I: "E'
autor do Ensaio critico histórico sobre o também entre os egypcios dum uso fre-
café.
quentissimo aquella semente, chamada
"Entre outras coisas, têm os syrios por elles bon, da qual preparam aquelle
(em Halepo) uma hebida bôa, tida em decocto, de que falaremos mais tarde. A
grande conta e chamada Chaube; é quasi essa bebida dão-se todos, não menos quo
tão preta como tinta e mui util em mo-
os nossos em publicas tabernas ao vinho.
léstias, especialmente nas do estômago. B delia, mui quente, costumam beber
Costumam bebel-a de manhã cedo, tam- largamente, cada dia muitas vezes du-
bém em logares ;publicos, deante de todo rante o dia, mas principalmente de ma-
47

nhã, de estômago em jejum... As mu- Assim também julga que os primeiros


lheres fazem delia uso frequentissimo. . . grãos de café foram importados por Mo-
bebem muito desse decocto bem quente, cengio (?) alcunhado o pevere (o pi-
sorvendo cada vez um bocado; pois assim menta) porque realisára immensa for-
é o uso de todos, de o engulir aos pou- tuna negociando em especiarias e outras
cos. drogas do Levante.
Ibidem, cap. "De uso frequentíssi-
III: Este Mocengio, de nome arrevezado e
mo é alli um
decocto chamado chaova, tão pouco italiano, sobretudo tão pouco
que costumam preparar rte certas semen- veneziano, deve provir de iim gato de
tes negras, semelhantes a favas. De dois imprensa por Mocenigo, nome glorioso da
modos costuma ser preparado por elles; família que á Republica Sereníssima deu
pois uns fazem o decocto das túnicas vários doges, nada menos de sete, dos
dos folliculos, outros da substancia das quaes alguns notabílissimos.
sementes mencionadas, sendo aquelle, ao Deste João Francisco Morosini não fa-
que dizem, mais efficaz do que este. lam as grandes encyclopedias ao biogra-
A esta semente dão o nome de bon, e phar os membros da pro-genie illustre
a aivore que a produz, vl-a em certo de que o membro mais celebre é o Pelo-
jardim dum bey turco, transferida da ponesiaco. Poderia ser o autor desta novi-
Arábia e assemelhando-se mais ao evõ- dade André, o historiador (1558-1618),
nymo (arbusto da Europa) ... O deco- a quem se deve a Historia veneta ab anuo
cto dessas sementes é próximo, .no gosto, 1521 ad annum 1615.
do decocto de chicória, a qual, porém De iConstantínopla ei-crevia Pietro
remove mais poderosamente as obstru- Della Valle, em 1615, a seu amigo Mário
cções. Schipano, em Veneza.
Depois de dar as receitas, para fazer ''Usam os turcos de uma bebida preta
dc taes grãos o kixr, conclue o autor: que, para o verão, é muito refrescante,
"Como em nossos bote'quins ou tabernas, ao passo que no inverno aquece o corpo,
vê-se muita gente embriagar-se de vinho, sem se alterar e sem mudar a sua subs-
assim elles se deleitam com o decocto tancia.
de Chaova, abandonando-se ao seu uso." Siles a engolem quente, tal qual vem
do fogo, e bebem-na aos longos tragos,
Johannes Wesling, latinisado ,para Ves-
não só á hora do jantar, mas como uma
lingius, botânico e viajante allemão
espécie de guloseima, chuchurreada vaga-
(1598-1649), publicador da obra de Ai-
rosamente, emquanto entretém amigável
pinl e seu commentador, escrevia, em
conversa.
1638:
Não ha quem os veja juntos sem esta-
"Não só no Egypto que ha muita
é rem a tomar tal bebida", a que chamam
procura do café, como em quas.i todas cahue, e assim se divertem a conversar.
as outras províncias do Império Turco. B' feita com o grão do íructo de uma
Assim começa elle a ficar caro até mes- arvore chamada cahue. Quando eu voltar
mo no Oriente, e raro entre europeus, levarei alguns 'destes 'grãos commigo e
que desta arte se vêm privados de tão quero tornal-os conhecidos entre os ita-
saudável licor." lianos.
Os venezianos tiveram conhecimento Diz Ukers que Della Valle acordára tar-
ulterior do café em 1585, quando Gian- de. Já nesta época, seus concidadãos es-
francesco Morosini, magistrado do bairro tavam bem ao par do que era o café,
voreziano de Constantinopla, relatou ao jntroduzidí) em Veneza desde lalgum
seu Senado que os Turcos "behem uma tempo.
agua preta, tão quente quanto possível, A
principio, teve fins medicamentosos
com a infusão de oima fava chamada e por isto attingia altos preços. Vesling
cavee, que passa por .possuir a virtude também de tal 'dá noticia, ao dizer que,
de estimular a virilidade", idéa inteira- a principio, recolhido aos gaJbinetes dos
mente opposta á que corria entre os per- curiosos passara, depois, a figurar como
sas, segundo a versão, mais tarde, espa-
droga de pharmacia.
lhada na Europa, por Olearius.
O caféeiro que Alpini viu no Cairo, e
Transcreve Ukers a opinião de um do qual desenhou um ramo folhado, e
Dr. A. Couguet, emittida em revista ita- não fructado, devia ser de algum jardim
liana, cujo nome não menciona. Segundo
e não de cafesal, coisa que nunca houve,
elle, a primeira chicara de café bebida
nem podia haver, na terra dos pharaós.
na Europa, foi em Veneza, lá pelos fins B, com ef feito, em 1630, Vesling, não
do século XVI. avistou nenhum caféeiro no Egypto.
48

Afíirma Padberg que o café só appa- neso e Rhodes, ameaçavam o império co-
lonial veneziano em Chypre (cuja quéda
receu em Roma no anno de 1605. Parece
que ao findar o século XVI, chegaram se deu em 1579), visando Creta.
á Europa os primeiros grãos da rubiacea. Ainda estava próxima a desforra bri-
Falleceu Della Valle em 1652, e foi lhante de Lepanto, em que a Cruz tanto
provavelmente bom propagandista da be- humilhara o Crescente.
bida, em sua península. Mas o Mediterrâneo continuava coa-
A de d'Écluse, latinisado em Clusius, lhado de piratas barbarescos e levantinos.
mandou, a 9 de maio de 1595, Honorio Na Hespanha dos primeiros annos seis-
Belli, o medico botânico de Vicencia que centistas, segundo nôs conta o Don Qui-
tanto se occupou da flora de Creta e seu chotte, era assumpto de conversa diária
correspondente no Levante, as "bunas a maior e menor ameaça do Turco.
com que no Egypto se íazia aquella es- Na Itália, muito maior preoccupação a
pécie de bebida chamada Cave, Clusius
tal respeito reinava.
(1526-1601) ou Charles de Lécluse, foi
dos sábios da Renascença. Assim odiados pelos christãos, como
Passava por ser o maior botânico de eram os mahometanos, é possível que não
seu tempo. Na sua obra Rariorum plan- quizessem aquelles ouvir de adoptar um
tai-um historia (Antuérpia, 1601) encon- habito proveniente de abominados adver-
tra-se a sua correspondência com Belli sários.
sobre as plantas de Creta e do Egypto. A Companhia Hollandeza das Tndias
Mais ou menos, ao mesmo tempo, en- Orientaes, fundada em 16 02, fazia gran-
viou a Clusius um professor da Universi- de commercio de transporte de café para
dade de Ferrara, Alfonso Panei, latinisa- os paizes musulmanos antes de o esten-
do para Pancius, o mesmo fructo por al- der á Europa, como relata precioso de-
guns chamado Buna, e por outros Elkave. poimento do allemão Wurffbain.
Clusius reproduziu as cerejas da rubia- Escrevendo eml807, fez Johann Beck-
cea comparando-a^ á fágara, fructo da mann, em sua JLitteratur der altereíí Rel-
arvore Xanthoxylum budrunga. sebeschreibungen, uma revisão dos ma-
Pensa Padberg que, apesar de ter o nifestos dos navios da Companhia das
café apparecido na Itália, antes de qual- índias e verificou tal facto.
quer outro paiz da Europa, sua introdu-
Attribuindo a Wurffbain a venda, em
cção no Occidente, não se fez por via ma-
1640, do primeiro carregamento de ca-ô
rítima, como tudo parecia indicar. Logi-
camente devia tal propagação effeotuar-
em Amsierdam, chama Ukers a este autor
hollandez, e erra crassamente, affirma
se por intermédio dos venezianos, sobre-
tudo, quando a Universidade de Pádua
Padberg
apregoava a excellencia da infusão ará- Os primeiros grãos de caifó appareci-
bica. Isto numa época em que ainda tinha dos na Hollanda entraram em 1616, no
força o famoso Dicant Padoani. dizer de David Macpherson, em seiís
Acha o erudito autor que talvez pro- Annals of Commerce, publicados em
viesse tal facto do estado de guerra, por 1805.
assim dizer, permanente entre os paizes O portador era um Pieter van der
da bacia Mediterrânea, sc^bretudo a Re- Broeck. Aponta Padberg novo erro dé
puiblica Sereníssima, e os turcos.
Ukers, que ora colloca a introducção do
Corriam os annos em que os ottoma- primeiro café na Hollanda em 1616, a
nos, depois de terem tomado o Pelopo-
ora se contradiz.
.

49

CAPITULO IX
Primeiros depoimentos inglezes,
hollandezes e francezes

Affirma Ukers que a primeira refe- feita com o pó de certa herva chamada
rencia, impressa em lingua ingleza, so- chao que elles muito apreciam e consi-
bre o café, é devida a um medico hollan- deram."
dez, Bernardo ten Broecke, aliás bas- E' esta uma das mais antigas referen-
tante obscuro, que, também consoante o cias ao uso do chá. Paludanus, o com-
<!0stume scientifico universal do tempo, mentador, annota então:
latinisou o nome para Paludanus. "Os turcos usam de processo quasi
Nascido em 1550 e fallecido em 1633 idêntico para beberem o seu chaona, que
doutorou-se em Pádua, foi professor de elles fazem com certa fructa semelhante
philosopbia na Universidade de Leyde, ao Bakelaer e que os egypcios chamam
protonotario, conde palatino, viajou a bon ou ban. De tal fructa tomam libra
Asia e a Africa e deixou diversas obras e meia, tostam-na e então ajuntam-lhe
hoje quasi totalmente esquecidas. Nellas vinte libras de agua a ferver até que a
ao tratar de Prospero Alpini fez uma metade seja evaporada.
menção ao chaova dos turcos. Tal bebida elles a ingerem todas as
O que lhe salva a memoria do comple- manhãs, ainda em seus quartos de dor-
to olvido vem a ser, talvez, a serie dos mir, em potes de barro, e muito quente,
commentarios ao relato das viagens de como aqui bebemos, ao acordar, a aguar-
Linschooten. dente. Dizem que isto os robustece e os
Esta obra publicada em latim, no anno torna calorosos."
de 1595, appareceu em inglez no anno As primeiras menções inglezas do café,
de 1598. no dizer de Ukers, vêm a ser as de Wil-
João Hugo van Linschooten (1563- liam Parry em 1601, John Smith em
1611) tem nome sobejamente conhecido 1603, William Biddulph em 1608, Wil-
por quantos conhecem a historia das via- liam Revett e John Jourdain em 1609.
gens. Aos dezeseis annos deixou a cida- Refere a The Cyclopedia or Universal
de natal, Harlem, e foi-se para a Hes- Dictionary of Arts, Sciences and Litte-
panha e Portugal. Dahi, em companhia rature de Abraham Raes (Londres 1819)
de portuguezes, rumou para Goa, visi- mais um testemunho, o de William Finch,
tando a índia, Ceylão, Malacca. datado de 1607.
Mais tarde, trocando a zona tórrida William Parry é o narrador das Sir
pela glacial, foi, com Barentzen á Nova Antonie Sherlies Travelles, ou seja o
Zembla e ao Oceano Árctico, tentando relato da viagem de Shirley á Pérsia em
procurar a passagem do nordeste com 1599.
vistas ao commercio da China. Personagem plttoresco daquelles tem-
Escreveu sobre os usos e costumes dos
pos aventurosos em que floresciam entre
japonezes, mas de outiva, pois não este- os seus compatriotas os Drake e os
ve no archip^ago nipponico. Eis o trecho
Walter Raleigh, os Cavendish e os Mor-
que provocou a nota de Paludanus: gan, foi certamente este Sir Anthony
"Seu modo (o dos japonezes) de co- Shirley (ISeS-ieS-O)
merem e beber é: cada pessoa tem uma
Corrige Ukers a data mortuária de
mesa para si só, sem toalha nem guar-
1614, mencionada no Diccionario de La-
danapos, e come com dous pausinhos,
rousse.
como os chins. Bebem elles vinho de
arroz, com o qual se embriagam, e, de- Por sua alta recreação, e auto nomea-
pois do repasto, usam de certa bebida ção, fez-se embaixador da rainha Isabel
num pote com agua quente que ingerem e lá se foi, de Veneza para a Pérsia, afim
tão quente quanto lhes é possível sup- de convencer o sháh Abbas â alliar-se aos
porta-Ia, quer no verão quer no inverno. príncipes christãos, numa colligação con-
A maneira pela qual preparam a comi- tra os turcos.
da vem a ser inteiramente diversa da Parece ter sido megalomaniaco, alta-
das demais nações; a tal agua quente é mente auto-suggestionavel. Já estivera
50

dera De John Smith (1579-1631) o nome é


nas Antilhas e a 8Ua ida á Itália se
celebre na historia da colonisação pri-
por incumbência da ultima Tudor.
Partiu com o irmão mais moço,
Ro- meva dos Estados Unidos. Não só por
(nascido em 1570), homem igual- ter sido o fundador da colónia da Virgí-
berto
recebido pelo
aventuroso. Bem nia e da cidade de Jamestown, como
mente
Sháh, não conseguiu comtudo a
liberda- porque á sua vida salvou a famosíssima
pleitean- Pocahontas, por elle intercedendo a seu
de do commercio inglez, debalde
do a concessão de um porto.
não menos celebre pae, o cacique Pow-
E deixou a Pérsia em 1599, a ver se hatan.
obtinha alhures algum resultado
pratico No seu livro Traveis aud Adventnres
para a sua projectada colligação
anti- (1603), e a falar dos turcos, affirma J.
ottomana e persophila. Smith: "Sua melhor bebida é o coffa.,
Foi sempre por terra, a Moscou e, provido de uma semente a que chamam
dahi, Veneza, onde, tendo commettido
'a
coava.
um só recuperou a liberdade,
delicto, Julgam Ukers e Padberg que a Jotiii
hes-
graças á intervenção do embaixador Smith se deve o primeiro conhecimento
panhol. Partiu então para a Hespanha, do café em terras americanas.
onde Philippe III lhe deu um commando Em 1607 escrevia William Finch, a
em sua esquadra. Intimou-o Jayme I a quem citámos:
voltar á pátria, ao que elle se
recusou, "The people in the island of Socotora
indo então para Nápoles. have, for their best intertainment a
A propósito de Shirley diz Ukers: o China dish of coho, a black bitterish
governo inglez desautorizou as suas drink, made of a berry like a bay-berry
combinações com o shah e prohibiu-lhe brought from Mecca supped off hot."
a volta á Inglaterra. Realmente não pode ser isto senão o
A expedição foi, <;omitudo, á Pérsia e nosso café.
o relato da jornada, da lavra de William
Era um negociante este Finch e nesse
Parry, seu companheiro, publicou-se em
anno visitou a ilha pobre, grande, secca,
Londres e em 1601.
estéril e penhascosa, a Dioscoridis dos
Estes pormenores não os menciona o
antigos que, em 1509, se tornara portu-
diccionario de Larousse.
gueza, com Affonso de Albuquerque, mas
O irmão de Shirley também teve aven-
por pouco tempo.
turosa existência e figura como persona-
gem de grande relevo na historia das Importava-se o coho de Mecca, infor-
primeiras relações politico-commerciaes ma Finch. "Tomado quente era bom para
anglo-persas. a cabeça e o estômago".
A grande importância de Shirley na Em 1609 appareciam em Londres The
historia do café é que no seu livro se lê traveis of certayne englishmen in Africa,
pela primeira vez, em inglez, a palavra Asia, etc. Beganne in 1600 and by some
coffe sob a sua assonaneia moderna qua- of them finished tliis year 1608,
si integral. O autor deste relato de viagens era
Falando dos turcos de Aleppo, "infiéis certo William Biddulph, de nome muito
damnados", escreve Parry: "Para as suas popular no mundo britannico.
refeições sentam-se no chão, de pernas Averbou Purchas a descripção que
cruzadas, como os alfaiates em suas lojas. este autor deu dos cafés turcos, uma das
Passa a maioria dessa gente o dia todo mais antigas de que ha noticia. E a pri-
banqueteando-se e bebendo copiosamente *
meira da lavra de inglez.
até se empanturrar, ingerindo certo li- "Sua bebida habitual é o Coffa, espé-
com a que chama coffe, feito dumas se- ciede beberagem negra, feita com uma
mentes que muito se assemelham ás de como que leguminosa, parecida com a
mostarda, bebida esta que logo intoxica chamada Coaua, a que, depois de
ervilha,
os miolos como o nosso hydromel." moida em moinho, e fervida na agua,
Já ahi apparece a predominância do bebem tão quente quanto pouem suppor-
"o" sobre "a", repara Padberg, de onde tal-a,o que aceitam com grande prazer,
se originaria a estabilisação moderna da como correctivo aos seus alimentos crús.
vogal em coffee. vivendo de hervas e carnes cruas como
Quem, porém, conhece o que vem a ser fazem."
a latitude immensa da prosódia ingleza Outras bebidas têm, chamadas sher-
não extranha tal phenomeno. bets, feitas de assucar e agua ou mel,
51

coim neve para os refrigerar, pois como servem-se de bellos rapazinhos como
a terra é quente guaraam a neve o anno chamarizes de freguezes."
todo para refrescarem as bebidas. Em 1611, nas Letters de Danvers, oc-
E' tido á conta de grande cortezla, correm as formas coho e coffas.
quando recebem visitas, offerecerem uma Em 1616 nova embaixada ingleza foi
taça ou fingiam de coffe mais saudável á corte do grão Mogol, cujo chefe era
do que agradável ao paladar, provocanao Thoraaz Roe.
bom estômago e removendo a somnoleu- Eduardo Terry (1590 ?- 1660), seu
cia." companheiro e capellão, fez em 1655 a
Alguns delles bebem também bersli ou descripção completa desta viagem ás Ín-
opio, que lhes traz um estado de obnu- dias Orientaes.
bilação em que vêm castellos aéreos, Passa Terry por muito crédulo mas os
têm visões e ouvem revelações. seus relatos demonstram espirito curioso
Suas casas de coffe são mais nume- e observador. Seus testemunhos são leaes
rosas do que as nossas tabernas ingla- e tiveram a comprobação de muitos ou-
zas. Não costumam tanto sentar-se den- tros viajantes.
tro deliascomo pelos bancos postos em Diz Ukers que na sua obra occorrem
suas vizinhanças. coho e coffee e Porto Alegre refere-se a
Vêm-se de ambos os lados da rua, su- cahua e Purchas a k^we, segundo abona
com a sua escudela cheia,
jeitos sentados Ritter.
fumegante e quente, onde se comprazem Escrevendo em 1616, relatava que a
em vaporosamente, aos goles, fa-
beber, melhor gente da índia, muito austera na
zendo com que os vapores penetrem observância de sua religião, não bebia
pelas narinas e ouvidos. vinho de espécie alguma.
E, vadios como são, as suas conversas "Usa certo licôr mais saudável do
de taberna então se realisam". que agradável, a que chama coffe, feito
William Revett regista em 19'06, e de com uma semente negra, fervida na
Moka, a forma coffe já empregada por agua a que empresta a sua côr mas mui-
Parry. E John Jourdain, no mesmo mil- to pouco alterando o gosto da agua. Ape-
lesimo, refere-se a uma viagem de Aden sar dtí tudo é muito boa para ajudar
ao Yemen; "as sementes de cohoo são a digestão. Aligeira o espirito, clari-
uma grande mercadoria levada ao Cairo ficando o sangue.
a todos os outros lugares da Turquia e Passando em revista as graphias an-
ás índias. tigas de coffee cita Ukers novos depoi-
mentos: cowha (1619), conha (1621),
Extranha Padberg, e com razão, as
coffa (1628).
alterações devidas aos larynges britamii-
cos de qahwa para cohoo ou cohu.
Em 1623 era um dos maiores vultos
Sir George Sandys (1577-1644), tra-
da Humanidade quem se occuparia do
café, o famoso philosopho do Novum
ductor de Ovidio, o poeta que tão dedi-
organnin, o inspirador da Sciencla experi-
cado foi a Carlos I, viajante da Palestina,
mental: Francisco Bacon.
Egypto, Turquia, em 1610 e mais tarde
thesoureiro da colónia da Virgínia,
Na Historia Vitae e mortís escrevia:
assim dizia dos turcos, em sua obra pu- "Usam 03 turcos da bebida cahue feita
blicada em 1615, e a apontar-lhes as
com certa herva que chamam caphe.
casas de café como legítimos prostíbulos
E na Sylva sylvanun (aliás posthuma
e datada de 1627) muito mais explicito
'de aberrações:
se mostrava.
"Embora não possuam tabernas têm "Toma-s6 na Turquia certa bebida,
casas de coffa que a estas se assemelham.
chamada coffa, feita com a cereja do
Alli se sentam a maior parte do dia, a
mesmo noime, tão negra quanto a fuli-
tagarelar, e sorvem uma bebida chama-
gem, e de forte cheiro, embora não aro-
da coffa (do nome da cereja de que ô mático, que os turcos ingerem reduzida
feita) em pequenas travessas de porce- a pó, na agua tão quente quanto ó pos-
lana, tão quente quanto podem suppor-
sivel supporta-lo. Para a sorverem sen-
ta-Ia, negra como fuligem e de paladar tam-S6 os turcos em suas casas de coffa,
não muito diverso desta substancia (por- que são como as nossas tabernas. Tal
que não será o pão negro usado entre os bebida reconforta o cérebro e o coração
lacedemonios?), bebida esta que ajuda e auxilia a digestão.
a digestão e proporciona a alacridade. Certamente estas cerejas de coffa, a
Muitos desses donos de casas de coffa raiz e a folha do betei, a folha do taba-
.. .

CO e o opio, de que os turcos são gran- deza das índias Orieoitaes, de cujos ne-
des consumidores (na supposição de que gócios pelo Universo decorreria talvez a
tal droga provoca a abolição do medo), existência do celebre provérbio britanni-
operam a condensação dos humores e a co acoimador, cei-tamente despeitado, da
todos tornam fortes e álacres. ganância desses rivaes felizes e então
Parece, porém, que taes cousas são to- mais espertos e traquejados
madas de modos diversos, o coffe e o In niatíer of conimerce the fatílt of
opio ingeridos, o tabaco aspirado e o [the Uutch
betei mascado com um pouco de sal."
Roberto Burton, homonymo do famoso Is iii glving too little and taking too
viajante africano e americano, cujo nome
[ mucli
tanto realce tem na nossa xeno-bibliogra- Homens tão práticos quanto
sábios
phia, é philosopho e humorista celebrado pensaram os neeríandezes logo em pro-
nas letras inglezas, como autor da Ana- duzir o grão em suas colónias e fazer de
tomia da Mciancolia. suas praças, na Europa, o centro de um
Na edição de 1632, desta obra, celebre commercio novo, que poderia ser univer-
om seu tempo, pois nas tres primeiras sal e enorme.
Ode 1621, 1624 e 1628) não occorrem, Assim, á Companhia das índias Orien-
ha allusões ao coffa. taes, cabe a gloria de ter sido a pionei-
Quasi reproduz o texto de Bacon, que ra Ida cafeicultura, com a abertura de
certamente o inspirou, tendo, a mais, sua estação experimental para o plantio
uma hypothese: Não era o café senão a do café em Java.
chafana dos espartanos, talvez. Fundada em 1602, já em 1614 despa-
Assim pouca importância tem o texto chava agentes para estudarem em Aden,
deste humorista, taciturno e tristonho, as possibilidades ido commercio cafeeiro.
que se intitulava Demócrito Júnior e a Em 1'616, Pieter van den Broek trazia

quem quizeram vários inglezes appoUi- café de Moka á Hollanda.


dar o Montaigne britannico: excusez du Conquistado Ceylão, em 1658, come-
peu ! çaram os :neerland'ezes a cultivar a ru-
biacea, embora já na ilha houvessem os
Thomaz Herbert, outro servidor fiel
de Carlos I, escrevendo em 1634, sobre árabes encetado o plantio antes de 1505,
ao que consta
pessoas com quem estivera no Oriente
Parece, comtudo, que só depois de
em 1627, affirma que os súbditos dos
169 é que tal lavoura realmente se des-
Sháhs bebiam de preferencia Coho ou
envolveu .
copha. Os turcos e árabes appellidavam
caplie e cahua esta bebida, que lembrava
Testemunho antigo da propagação do
café na Hollanda é o de Jacob Bontius,
as aguas do lago estygio, negra, grossa
que, em 16 31, escrevia sobre o caveah.
e amarga.
E' até autor muito popular entre os
Diz Ukers que os hollandezes tiveram,
que conhecem a bibliographia xeno-
desde cedo, conhecimento do café, dadas
brasileira pelo facto de suas obras have-
as suas transacções com o Oriente e os
rem sido publicadas, após sua morte, por
venezianos e sua contiguidade com a Al-
Piso, o famoso collaborador do genial
lemanha, para onde, nas vizinhanças de
Marcgraf.
1582, escrevera Rauwolf noticiando o
Medico, como seus irmãos João e Re-
que era a infusão do bimmi.
nier e filho do eminente professor da
Assim também os escriptos de Aipim
Universidade de Leyde, Gerardo Bon-
lhes eram familiares, como se deprehen-
tius, viajou Jacob Bontius largamente,
ide da nota de Paladanus ás viagens do pela Pérsia e índias Orientaes, passando
Linschooten.
em 1625 a residir em Batavia onde fal-
A sua superioridade cultural parece de-
leceu em 1631
vida á supplantação que do coimmercio
portuguez fizeram, em matéria de café,
Em sua Historia naturalis et medica
Iiidiae orientalis refere-se ao caveah.
quando aos lusos reveladores da nave-
No livro VI, capitulo I no seu discurso
gação oriental aos povos do occidente,
intitulado "De herba sem Foutice quem
caberia, do modo mais natural, esta pri-
chinenscs The dicunt unde potum snum
mazia da introducção, da fava arábica cjusdcm nominis conficiunt, lê-se a se-
nos mercados europeus.
guinte referencia: "Caetei-nm non mino-
Seja como fôr, parece indubitável que ribijs a Cliinis Landibus efferímr hic po-
os primeiros commerciantes do café na tus, qiiam Mahomeíanoium Caveah quod
Europa foram os da Companhia Neerlan- potus genus etiam apud ipsos fervidum
. . ,

53

sorbetiir ineosdem qnos diximiis iipu^s". E, effeito, se Van


com Smiten, em
Traduzindo-a Bohnke-Reicli, em seu 1637, declarava ser a bebida já "cele-
Der Kaffee in seinen Beziehungen zum bre,, na capital das Províncias Unidas é
Laben, etiítado em 188 5, escreve Pad- que teria alguns anmos de corrente entre
berg: a gente batava. Assim se torna aceitá-
Já em 1637 era o café "celebre" em vel a idata de 1630 fixada pelo Dr. Pa-
Amsterdam, exportando-se ahi para a dberg, para os prímoi'díos da introduc-
Allemanha, como mostram as duas in- ção .

teressantíssimas cartas seguintes: Em


todo o caso não se invalida a hy-
Monsieur três homoré Hervano, pothese de uma primeira tentativa em
possuidor da casa de negocio por ata- 1616, a de Pieter van der Broecke.
cado Commercíautes esclarecidos , como
Viuva do defuncto Hervano em Mer- eram, tinham os neerlaudezes compre-
seburg hendido a valia e o futuro daquelle ar-
Já que agora estamos ha tanto tem- tigo que os portuguezes inexplicavelmen-
po em relações commerciaes ordinárias

te desdenhavam.
e honestas, não quero deixar de vos re-
Talvez preconceito religioso repeti-
por
metter simultaneamente com esta, uma
amostra de Koffeyi, tornado celebre tão mos contra a gente que ainda "bebia
nós,
o licor do Santo Rio", depois de retoma-
depressa áqui em Amsterdam, pedindo-
vos para recommendar á vossa honradís- rem aos chrístãos das Crusadas, o valle
jordanico.
sima dona da casa que queira moer ou
pisar estes grãos miudamente, fazendo- Testemunho precioso a que já alludímos,
em é o de João Segismundo Wurffbain.
os então ferver em agua. Rogo-vos
seguida que me mandeis vosso parecer, Em 1642, affírma, já transportavam os
como achastes esta bebi'da; então com- navios hollandezes para as índias nada me-
municar-vos-ei o preço e tudo o mais nos de 30 a 40 mil kílos de café, embarca-
Vosso bem affeiçoado dos em Moka. São os seus termos textuaes,
Van Smiten segundo Padberg:
Amsterdam, neste mez de maio de "Cauwa ê uma espécie de fava, costuman-
1637'. do crescer somente na serrania vizinha de
A honradíssima senhora Hervano Moka, usada diária e abundantemente pe-
para preparar o tal Koffeyi achou prefe- los mahometanos, tanto na Turquia, como
rível tomar, em vez de agua commum, por toda índia, para a conservação da saú-
um bom caldo de carne, com um succes- de... servindo-se elles dessa bebida em lu-
so que se pode advinhar da seguinte res- gar do vinho, encontrando-se também ca-
posta ás queixas do senlior Hervano: sas de Cauwa cá e lá, em muito grande nu-
"Recebi em forma a vossa encommen- mero".
da de pimenta, mas não vos mando ^ne- Prova isto quanto se deve á iniciativa ba-
nhuma, renunciando a uma relação com- lava. Passou-se o facto quatro annos antís
mercial, em que minha boa vontade é da bebida ser introduzida em França e
correspondida unicamente com grosse- tres desde que o Grego Conopios instituíra
rias
. Se julgaes que, tendo adoecido vos- o almoço com café, na Unifersidadfe de
so pessoal todo depois do uso deste ex- Oxford.
cellente Koffeyi deveis lançar em minha Varnar, ministro residente das Províncias
conta 16 bons tostões por purgantes, Unidas junto á Sublime Porta, já em 1650,
tenido que protestar energicamente. Já publicava um estudo sobre o café.
mandei expedir cinco fardos de Koffeyi Sabe-se que, desde 1663, começaram a
para Leipzig, louvando-o todos quantos apparecer, nas praças hollandezas, regular-
alli beberam. Por signal que os habitan- mente, carregamentos de café de Moka.
tes de Leipzig tem um gosto mais apu- Mais tarde também vieram outros de pro-
rado que vós outros grosseiros Merse- cedência malabaríca.
burguezes.
Da influencia do commercio hollandez na
Com isto adeus propagação do café no Norte da Europa
Van Smiten. dá-no3 depoimento cabal Nicolau de Flégnj-,
Amsterdam, setembro de 1637". o imitador de Dufour, quando em 1686 di-
iCom toida a razão attribue Padberg, o zia entrar o café na França por via hollan-
donto autor transcripto o maior valor a deza e pelo porto de Rouen. Declarava ao
estes engraçados documentos. Lançam mesmo tempo que os batavos tanto o apre-
muita luz sobre o histórico da introducção ciavam que .1á quasi pareciam aprecial-o
do café PO norte da Europa. como se turcos fossem.
54

CAPITULO X
Primeiros depoimentos francezes sobre
a introducção do café

Pelos melados do século XVII começaram Asegunda referencia, citada por Por-
a apparecer na xenobibliographia franceza to Alegre, data de 1666 e provém do
ás allusões ao café com informes mais ou padre missionário Alex de Bourges, "des-
menos extensos sobre o seu uso entre os crevendo uma viagem que fizera o bispo
mussulmanos. de Beryta, vigário apostólico do reina
A primeira referencia em lingua francRza na Cochinchina, através da Asia até ao
á bebida arábica parece ser a do botânico estado de Sião. Ao falar do café é digno
Charles de l'Écluse (1526-1609), referindo-s© de nota que trate de um de seus efll^re-
á remessa de sementes enviadas do Egypío, gos, ignorado pelos viajantes que o pre-
em 1596, por Honorio Belli, o botânico ita- cederam:
liano, de quem já falámos e tão prestigioso "Como a agua, diz elle, que ae encontra
entre os seus contemporâneos. na marcha das caravanas através do de-
"Com ellas os egypcios faziam o liquido serto, é quasi sempre má e estagnada, os
cave". turcos, para corrigir-lhe o mau ©Efeito
No enorme rol dos viajantes francezes, que produz no estômago, servem-se de
bem pouco se destaca o nome de Duloir, uma bebida, a que chamam café, e que
cujos millesimos, natalício c mortuário, pa- começa a ser usada em aJgumas cidades
recem ignorados. ISabe-se porém que viveu européas.
em meiados do século XVII. tendo sabido, Esta bebida - feita com um grão pe-
em 1639, de Marselha, para visitar Malta e queno que cresce de uma arvore araJbe,
a Asia Menor. Foi depois a Constantinopla perto de Moka, em abundância tal, que
assistir ás festas da enthronisação do sul- de lá o transportam para toda a Asia, e
tão Ibrahim (1640). De Stambul passou a para quasi todos os sitios onde existem
percorrer o Peloponeso e o Mar Jonio e vol- Mahometanos, que tomam esta bebida em
lou por Veneza, ao Occidente, em 1641. vez do vinho, cujos effeitos imita bastan-
JFoi dos primeiros autores francezes te; tendo a propriedade de fortificar o
tratar do café, ao publicar as interessantes estômago e íacilitar a 'digestão, e ao
licttres écrites du Levant, impressas em mesmo tempo, purificar a cabeça doa
1654 e traduzidas em italiano. vapores.
Não lhe soube o café ao paladar, ouça- Elles costumam torrar esse grão em
'mol-o, porém, in«rcô da traducção de P. um fogão, reduzindo-o então a pó em
Porto Alegre: uma espécie de almoifariz; depois de ter
"Sejam essas visitas ceremoniaes, ou separado a casca, por meio de uma penei-
uSo, o facto é que, poucos momentos dc- ra, cozinham esta farinha negra e meio
ipois de se terem sentado, o dono da casa
queimada n'agua, durante o tempo d'um
faz logo servir ao seu amigo, sobre uma. Miserere, e tomam-na tão quente quanto
bandeja de madeira, pintada de ramagens lhes seja possível supiportar.
Tto gosto persa, uma grande taça cheia do Posto que esta bebida não tenha um
sorvete, feito de sueco de limão, cosido em gosto agradável e antes pelo contrario
agua com assucar; c logo após isto, trazem- seja amarga, não deixa comtudo de ser
lhe em uma outra taça, mais pequena, o muito estimada por essa gente, peias
"cahué", uma agua escura, cujo nome è virtudes que lhe reconhecem; o que faz
devido á tintura de uma fava do tamanho vèr o cuidado que Deus tem em provêr
de «m grão de trigo, que vem do Egypto. todos os paizes de coisas necessárias e
Esta bebida só é boa quando tomada ex- úteis aos hoinens; não se podendo duvi-
tremamente quente e aos tragos, tanto que dar que exista em algum outro paiz,
apenas se pode tocal-a com os lábios, pre- planta que apresente semelhantes vir-
cisando ainda assopral-a muitas vezes com tudes."
todo o cuidado. O seu gosto assemelha-se ao Affirma Ukers que, para a divulgação
cheiro da fumaça, mas dizem ter um effci- do café pelo Universo, contribuíram im-
to maravilhoso para o estômago, e servir menso_ tres grandes viajantes francezes,
para impedir que os vapores espirituosos João Baptista Tavernier, João de Thóve-
subam á cabeça. not e Francisco Bernier.
55

Sob o ponto de vista da importância EUes o torram de um forno ou qual-


na historia do café, cabe a primazia a quer outro utensílio sobre o fogo, e de-
João de Tlievenot em sua Rélation cl'un pois trituram-n'o e reduzem-n'o a põ
voyage fait au Lévant, publicada em Pa- muito subtil; quando a querem beber,
ris, em
1665. S€rvem-se de um escalfador feito para
sua lavra vieram as mais abundan-
IDe esse fim, a, que denominam ibrik, o qual
tes informagões até então sobre o café enchem d'agua e fazem fervel-a. Apenas
espaliiadas. esta ferve, deitam-lhe dentro o pó na
Traduziu Porto Alegre assás largo tre- proporção de uma colher para tres chi-
cho de Thévenot que adeante transcreve- caras, pouco mais ou menos.
remos. Depois que a agua ferveu por algum
Vejamos quem era este personagem, tempo retiram-n'a depressa do lume, ou
cujo nome immorredouramente se pren- agitam-n'a, do contrario o liquido trans-
de á historia do café. bordaria, porque sobe com Ímpeto e
Nascido em Paris, em 163i3, era sobri- quando ferveu assim dez a doze ve-
n!ho de Melchisedech de Thévenot (1620- zes, retiram-n'o de uma vez da acção
169i2), homem de grande instrucção, do fogo, e vazam-n'o em cliicaras de por-
apaixonado viajante, conhecedor de mui- Ctíllana, dispostas sobre um trincho de
tos paizes europeus, orientalista de reno- madeira pintada, e servem-n'o assim ain-
me, diplomata, bibliothecario da livraria da quasi em estado de ebulição; sendo
real, e um dos fundadores da Academia preciso bebel-o tão quente quanto se
de Sciencias de França. possa e aos tragos, do contrario não é
João de Thévenot, ao acabar os estu- agradável.
dos, entrou na posse de bella fortuna o "Esta bebida é amarga, de côr !preta,
poz-se a viajar, de 165)2 em deante, an- e cheira um pouco a queimado: é toma-
nos a fio. da aos goles, para não queimar os lábios,
Depois de visitar a Inglaterra, a Hol- de sorte que quando se está num Kavé
landa, a Allemanha, a Itália, partiu para Kaiie, isto é, nos logares que assim cha-
o Levante com o sábio orientalista d'Her- mara onde a vendem já preparada, ouve-
belot. se uma espécie de musica muito original.
De Malta foi a Constantinopla, percor- E' também bebida bôa para impedir
reu longamente a Asia Menor, Egypto e que os vapores do estômago subam á ca-
a Arábia. beça e, por conseguinte, para a cura do
Teve graves aventuras com piratas ára- mal. Pela mesma razão, ella impede o
bes e maltezes, de quem quasi cahiu pri- somno.
sioneiro, e, afinal, voltou á França em Quando os nossos negociantes france-
1659, alli se demorando quatro annos. zes teem muitas cartas que escrever, e
Em 1663 empolgou-o novamente a fe- querem trabalhar toda a noite, tomam,
bre itinerante, apesar das reminiscên- antes disso uma ou duas chicaras de
cias pavorosas de suas peripécias va- cahué. Ella é bôa para confortar o estô-
riadas de jornada. mago e auxiliar a digestão; emfim, se-
De Marselha foi a Alexandria, percor- gundo dizem os turcos, é util contra toda
rendo a Syria, a Mesopotania, a Pérsia a espécie de males, e tem seguramente
e afinal a índia, onde largamente per- pelo menos tantas virtudes como as que
maneceu. attribuem ao chá.
Voltando á Pérsia, pretendia regressar Quanto ao seu gosto, basta bebel-a
â Europa, pe'la Armênia, quando, exhaus- duas vezes para que logo se fique habi-
to de fraqueza, tfalleceu, a pouca distan- tuado a ella, e não se a aohe desagradável,
novembro de 1667.
cia de Tauris, a 29 de Aligumas pessoas misturam-lhe cabeças
Mal contava 34 annos do idade e deixou de cravos da índia, e alguns grãos de
grande, e merecida, reputação de scien- cardamono; outras deitam-lhe assucar;
cia, philologica, geographica, botânica, estas misturas que a tornam mais agra-
além de alta probidade. dável, são porém prejudiciaes e dão uma
Traduzindo a Thévenot, lemos em Por- bebida menos salutar. Não ha pobre nem
to Alegre: rico que não tome pelo menos duas a
"Os turcos têm uma bebida que Ibos tres chicaras por dia; e é uma das coisas
é mui trivial e á qual chamam cahué, principaes, que o marido é obrigado a
usando delia a toda a hora do dia. Esta fornecer á sua mulher.
'bebida é feita íructo de uma
com o Existem muitas tavernas publicas de
ai^voreque cresce na Arábia pelas vizi- cahué, onde o cosinham em grandes cal-
nhanças de Moka. deiras. Nestes logares, entra toda a es-
. .

56

classe aar caíé aos amigos que jantavam em


pecie de gente, sem 'distincgão de
ou Teligião; e não ha vergonha a
entrar sua casa, após a sobremesa, o que por
somente muitos foi fido como exquisitice.
ahi, o que fazem muitas pessoas
no intuito de passar o tempo; do Jado de Era Thé\'enot um fanático do café,
onde pois escreveu que bastaria alguém
fóra ha hancos cCbertos de esteiras,
se sentam os -que querem vêr
passar os beber duas chicaras de café para se ha-
transeuntes e tomar fresco. bituar á infusão e a apreciar.
.Encontram-se ordinariamente nestes Discorda Ukers da versão geralmente
líjivekanés, tocadores de viola e ílauta, e
adoptada de que haja sido o introductor
outros músicos, pagos pelo dono do Ka- do café em França.
vekané para tocar e cantar uma bôa par- "Ce fut lui dit-on qui apporta le pre-
te 'do dia, e assim attrahir o publico. mier le café, en Frauce", lemos no ver-
Quando alguém está em um Kavekanó, bete biographico que lhe consagra o
e entra uma pessoa -de suas relações, se Graml Dictionnaire du XIXèrae Siècle
o individuo é delicado, dá logo ordem ao que aliás, no artigo caíé .affirma haver
dono da casa para não acceitar paga da- Kido Luiz XIV, desde 1644, habituaido a
quelle, e isto por meio de uma simples tomar o licor arábico.
palavra, porquanto apenas apresentam Ora, nesta data Thévenot apenas con-
ao recem-chegado o cahué, elle grita logo tava onze annos de idade.
giaba, que quer dizer g-ratis, ou já está Affirma lO autor americano que tal
pago ..." prioridade não lhe cabe e sim a P. de
Foi João Baptista Tavernier (1605- La Roque, cujo filho, João de La Roque
16S9), cognominado o TJlysses do século (1661-1745) foi o celebro viajante da
XVII, pelos contemporâneos. B a narrati- Arábia Feliz.
va de suas extensas viagens numerosas Assim, indo P. de La Roque, em 1644,
vezes reeditada. a Constantinopla, na embaixada do Sr.
E' incomparavelmente mais conhecido de la Haye, e tendo, depois, viajado pelo
do ique Thévenot e Bernier. Oriente, trouxe á pátria não só algum
Filho de um cartographo gravador te- café como ainda a apparelhagem usada
ve, desde mocinho, a paixão das viagens. na Turquia, para o seu preparo, o Que
Consummado polyglota, íez-se joalheiro excitara em França viva curiosidade, no
ambulante, visitou o império ottomano dizer de um depoimento cuja origem
e a Pérsia, as índias, onde realisou ma- aliás Ukers não cita.
gníficos negócios de pedras. 'Enriqueceu ou
Eram estes apetrechos findjan^s
e Luiz XIV o ennobreceu, levando vida
chicaras de porcellana velha, de grande
de fidalgo.
belleza, e pequenas peças de musselni
Arruinado pela velhacaria de um so- bordadas a ouro, prata e seda, usadas
brinho, teve de se expatriar, já octoge-
pelos Turcos como guardanapos.
nário, por protestante, quando da revo
Pelo que se deprehende do texto de
gação do Edito de Nantes, e foi morrer Ukers elle cita palavras de Jean de la
em Copenhague. Roque. Este apenas concede a Théve-
Em seus relatos de jornada muito se
not a gloria de ter, em 1657, introduzido
refere ao caíé de que se mostrou, em
o café em Paris e ensinado os compa-
sua pátria, propagandista enthusiasta.
triotas a beber café.
Francisco Bernier, viajante philosopho Affirma o autor americano que Gal-
celebre (162'5-1688), visitador da Syria, traductor
land (16 46-1715) o famoso
Egypto e índia, medico durante doze an- das "Mil e uma noites", também contri-
nos do famoso Grão-Mogol Aureng Zeb, buiu notavelmente para o êxito do cafeis-
amigo de muitas celebridades, como Ni- mo em França por haver divulgado o
non de L'Enclos, La Fontaine, Boileau manuseripto de Abd-al-Kader
e homem de real espirito, foi também Em 167 pensou-se em aclimar o
dos grandes preconisadores do café. cafeeiro em França, em Dijon, mas com
Affirma J. de La Rocque, categorica- resultados péssimos, affirma uma tradi-
mente "antes de 1669, era o café em ção que não sabemos que valor tem
Pari.'^ coisa muito rara, a não ser em Escreve Porto Alegre:
casa do Snr. de Thévenot e na de alguns "Pelo começo do século XVII, come-
de seus amigos. Ninguém delle ouvira çaram as relações commerciaes com as
falar, a não ser atravez dos escriptos
regiões dependentes da Turquia, a serem
dos viajantes." muito activas e então existia um grafide
Parece que, ao voltar da sua primeira numero de negociantes francezes na flo-
viagem ao Oriente, em 1658, começou a rescente metrópole do Mediterrâneo.
. . . .

57

Tendo vivido por muito tempo em di- em Paris, uma bebida com o nome de
versas regiões orientaes, haviam aqueties Cahové ou Cahovet, sem que comtudo S6
commercianles contraliiclo alguns TiaftT- saiba até hoje como ella ahi fora intro.
tOB desses paizes. duziHia. E' de presumir, porém, que não
Foram pois elles que espalharam, pelo tivesse agradado muito, e seu consumo
Sul da França, o uso da bebida turca, não fosse notável porque não achou imi-
quando, de volta á pátria, traziam gran- tadores como nas outras partes".
des provisões de café de Moka não só
Quem viria a ser formidável impulsio-
para seu uso particular, como tam.bem nador do café em Paris, e em França,
para presentear a seus amigos. seria um diplomata, o novo embaixador
Desde 16 6,0 pouco mais ou menos, co- do Padishá junto ao Rei Sol, Solinaan
meçou o café a ser apreciado pela popu- Agá, despachado por Mahomet IV ao seu
lação marselheza, e principiamdo o géne- querido irmão o Rei Christianissimo, em
ro a ter procura no mercado, foi sendo
1669 .

também importado com regularidade do


Egypto, donde resultou ura accrescimo Deixara este de seguir a tradicional
politica da alliança com o Crescente, rei-
notável nas transacções que essa cidade
já entretinha nesse tempo com o Orien-
nante desde os annos de Francisco I . K
te". realmente fora um corpo de exercito
Em francez commandado pelo bravo e boçai
1671 abriu-se um café em Marse-
lha, perto da Bolsa de Cambio, a "Loge", Duque de Beaufort, o roi des Halles soc-
casa, desde logo, muito frequentada por correr, aliás improficuamente, os vene-
negociantes marítimos e viajantes zianos ainda assediados pelos ottomanoa
Outros se fundaram e todos sempre Era faustosíssimo este turco e magnifi-
cheios de gente. Mas ainda 'ninguém se co em sua feição obsequiosa. Trazia mo
habituara a tomar café em casa. vidades de alta monta; a distribuição
No sul da França, sobretudo em Lyão, do café tal qual se usava na côrte do
desenvolveu-se muito a caffeiphilia an- Grão Senhor.
tes da moda attingir Pariz E enorme triumpho obteve nSo so
Conta Ukers que ha tradição tía exis- porque a infusão muitíssimo agradou aos
tência de um café mantido por certo le- paladares trancezes, como porque tam-
vantino no Petit Chatelet no reinado de bém soube rodear^se de apparato capaa
Luiz XIII, portanto antes de 1643. As- de impressionar a maior côrte da Europa.
sim conta o Diccionario de Trévoux. Mas Citando a Isaac d'lsraell, o pae notavei
'nada o confirma. Vehicula também esta de um dos mais iliustres escriptores do
versão Fusée Aublet, o botânico da século XIX, Benjamim Disraeli, Lora
Histoire des plantes de la Guyanne Pran- Beaconsfield, em suas Curioslties of
çaise, citado por Padberg, que não acre- Litterature transcreve Ukers o seguinte
dita em tal. trecho:
Pouco antes em 1660, diz Padberg "Ajoelhados, serviam os escravos ne-
abeberado em Hartwich, deve ter havido gros do embaixador, revestidos dos mais
em Pariz um botequim que fazia grande sumptuosos trajes orientaes, o mais
preconicio do café. Num de seus annun- ppurado e escolhido café de Moka. Quen-
cios se lia: la dite boif^^on et plusienrs te, forte, aromático, enchia minúsculas
anti-es se vendent á lénseigne du Grand chicaras de porcellana cuja espessura
l^nrc, au bout du faubourg Saint Ger- era a de uma casca 'de ovo Sobrepostas
.

main .
a pires de ouro e prata, colLocadas sobre
Este annuncio occorre na dissertação guardanapos de seda bordada e franjada
latina de F Petersen de Potm coffi, im-
. : de fios de ouro tomavam-nas "grandes
pressa em Francfort e em 1666, coma damas da Côrte franceza que, com mil
Hartwich requebros e tregeitos, abanavam os le-
Affirma-se também que Luiz XIV to- ques, approximando o rosto vivaz, em-
mou café pela primeira vez em 1664. pomadado ide verm-elho. empoados e en-
Quem o revelaria? o Journal de Dan feitados de pintas sorviam a nova e va-
geau? porosa beberagem
Outra versão é a de Paulo Porto Ale- "Estes usos, juntos á amabilidade d»
gre, apoiado mum Nouveau Cours com- ministro turco, agradaram principalmen-
plet d'Agriculti'|re cujo autor não men- te ás francezas que preconisavam por
ciona. toda a parte o café, que alli se tomava, e
"Parece entretanto, que pouco antea com tal enthusiasmo o faziam que, pou-
de 1658 vendia-se jà no Petit Chatelet, co a pouco induziram as pessoas ricas,
. .

58

a imitar o uso turco e a iatroduzll-o co- preferencias litterarias. Apreciava o


mo luxo em seus banquetes e festins. theatro de Corneille muito mais do que
Commenta Porto Alegre: assim pouco e do autor do Brltaimicus. Enthusiasta
durou para que se familiarisasse o habi- admiradora do grande poeta do Cid espo-
to dessa bebida por todas as classes abas- sara a malevolencia e a antipathia do
tadas da capital. velho trágico quanto ao joven dispu-
De precioso que era ainda então o tador da sua primazia theatral.
grão, começou a ser procurado, apesar Em 1672, obsesn^ava Madame de Sévi-
de iser mercadoria desconliecida no com- gné: "Racine compõe comedias para a
mercio local, encontrando-se só em Mai- Champmeslé e não para os séculos vin-
selha, e alii mesmo em pequena quanti- douros. Se porém algum dia deixar de
dade, tanto assim que Labat affirma que a amar já não será a mesma cousa Viva .

vendia uma libra por quarenta escudos pois o nosso velho amigo Corneille"!
(200. francos) ". Quatro annos mais tarde escreveria
Nas letras francezas não tardaria que ainda á filha e constante corresponden-
surgisse um provérbio histórico referen- te. Madame de Grig-nan: "Então desis-
te ao café e destinado a imortalisar-se tiste do café? Mademoiselle de Meri
devido a um dos maiores nomes do Gran- também o proscreveu". Após tal desva-
de Século: Mme. de Sérigné. limento ainda se poderá contar com a
A forma que assumiu Racine passara fortuna?
comme le café não é exactamente a que "Este segundo texto é ainda bem me-
redigiu a celeberrima autora das Cartas. nos explicito do que o primeiro, judi-
Esta approximação entre a nossa hoje ciosamente commenta o articulista do
bebida nacional e o grande trágico de Grand Dictionnaire du XlXéme Siècle.
Athalia tem curiosa historia. Quando o café começou a tomar in-
Em 1672, ainda, era o café beberagem cremento figurou Voltaire entre os seua
exótica, de divulgação minima, entre principaes apreciadores. Voltaram á bai-
parisienses e os demais francezes do la as palavras de Madame de Sévigné.
norte da França. Mais conhecido seria E o próprio autor
foi da Henriado
talvez dos marselhezes e outra gente do quem approximou os dois trechos, dando-
Mediterrâneo Ihes outra forma que lhes altera o valor
Também nesta época ainda Racine não primitivo: "Madame de Sévigné creu
attingira ás culminanclas da Iphigenia sempre que Racine não Irá longe. A seu
(1'674) e da Phedra (1677) que lhe con- respeito pensava o que também julgava
sagrariam o génio, definitivamente. do café do qual dizia que, breve, todos
E andava embeiçadlssimo pela Cham- delle se desacostumariam".
pmeslé, famosa nos anhaes do Theatro A La se deve a formula moder-
Harpe
Frajncez, a quem confiava os papeis de na do proloquio. Nfão achou bastante
suas tragedias. Amargurado com a vo- synthetico o brocando do seu iHustre
lubilidade da talentosa amante, parece mestre, approximou ainda mais os ter-
que tivera como um dos muitos rivaes mos das duas preposições dando-lhe a
Carlos, marquez de Sévigné. forma restricta e incisiva que passou a
Filho obscuro da illustre epistologra- ser sacramental: Tanto Racine como o
pha, embora espirituoso, era este moço café passarão, Racine passera comme le
grande estróina e suas aventuras nume- café.
rosas causavam o maior incommodo á Commentando esta deturpação histo-
terna e solicita mãe. rico-literaria, do pensamento da celeber-
Afinal a Champmeslé, mulher de pen- rima escrlptora, diz o articulista citado:
dores polygamicos notáveis, bigodeara ao Eis exactamente como se escreve a
fidalgo e ao poeta, ligando-se pratica- Historia!
mente, a um homem de grando situação "iSuard (1733-1817) aceitou a formula
social e grande fortuna: o conde de Cler- e após elie vieram os carneiros de Pa-
moint Tonnerre. nurgio. E desfarte se fabricou esta pe-
Levara Isto aos francezes "nés maiíns quena mentira histórica que por muito
et calembouristes" a um trocadilho de tempo ainda, será para muita gente in-
medíocre espirito, zombador do descon- discutível verdade.
solo do pobre dramaturgo: Le toajierre Assim ninguém deve inscrever no pas-
l'a deraciiiée.
sivo deMadame de Sévigné o que não
Mas além desta questão pessoal tinha passa das reminiscências incompletas de
a marqueza de Sevignó outro motivo de um escriptor espirituoso e o tom dogmá-
prevenção contra Racine, decorrente de tico de um rhetorico
59

O titulo de amiga de Corneille e ini- Ia accesa a controvérsia, quando, a


miga de Racine pode absolvel-a de uma 27 de fevereiro de 1679 se deu a forma-
injustiça transitória, da qual, aliás, a tura e subsequente defesa, por iparto
posteridade já vingou bastante o maior de um jovem medico, o Dr. Colomb, da
dos poetas da França Quanto ao café
. these: Será nocivo o café aos marselhe-
elle deve, de melhor grado, consolar-se ses? Sustentou-a joven doutorando, pe-
•do erro <de Madame de Sévigné dispen- rante a Faculdade de Aix de ProTence.
sando a nossa apologia Sobram-lhe ain-
.
Pretendia tal these demonstrar que,
da muito mais amigos do que a Racine". comquanto houvesse o café conseguido
Assim o "cassandrismo' attribuido á verdadeiro triumpho universal, a ponto
grande escriptora, assa» abusivamente, de quasi abolir o uso do vinho, não po-
por completo faltou quanto ao café, em- dia sequer soffrer o confronto até com
bora bem menos quanto a Racine, cujos a própria borra dò summo vinico. Não
Récit de Thérauièiie e Songe d' Athalie, passava de vil e desvaliosa novidade es-
continuam até certo ponto vivazes, no trangeira.
entono da melopéa cansativa do Grande Argumento summamente intellectual,
Século, a interessar as platéas desse vinha a ser o seguinte: a pretenção de
Theatro Universal que é o da Comedia seus propugnadores, de que corrigia os
Franceza. desarranjos da saúde mostrava-se sim-
Affirma Ukers que a famosa phrase plesmente absurda.
apparece no prefacio da Irène, de Vol- Não era uma fava, e sim o fructo de
taire. Está assim em desaccordo com a uma arvore revelada por cabras e ca-
tradição que a attribue a La Harpe. mellos! Vinha a ser quente, e não era
Parece comtudo que o nosso autor frio !requeimava o sangue, assim pro-
não anda muito ao par da chronologia e vocando o tremor senil, a impotência e
o anecdotario das letras, pois alii insere a desnutrição completa.
este commentario exquisito: Estando Dividiram-se os marselhezes em doi3
morta a amável epistolographa não pôde partidos assaz extremados, mas não che-
desmentir o dito". garam a vias de facto. Mostraram-se oa
Lembra ainda que Mme. de Sérlguô médicos agastados com o tom da contro-
deve ter sido, em tempo, amante do café, vérsia, desagradável á gravidade de suas
segundo revela este trecho de suas car- funcções.
tas: o cavalheiro (?) crê que o café lhe Decorreu a tal propósito ridículo de-
incute ardor e eu a esta altura, descri- bate perante a Faculdade, que acabou
teriosa como me conheceis, desde ahi dei- dirimindo a questão de modo categórico
xei de o tomar,,. e impagável. O uso do café só era pre-
Em Marselha, neste entrementes, cres- judicial aos merselhezes pela conjuncçãD
cera espantosamente o consummo da be- das características thermicas do clima
beragem arábica. Decidiram-se os arma- deçta cidade g as virtudes quentes do
dores da Porta do Oriente a mandar vir, café !

de todo o Levante, navios carregados do B' que talvez provocava este aqueci-
género. mento todo, a pernaturalisação de algum
Alarmaram-se os médicos com esta principio sanguíneo, quer o hydrargirial,
como que caífeimania, pensando que não quer o arsenical, quer qualquer oatro,
faria bem aos habitantes de uma "terra animal ou vegetal, do nosso microcosmo
quente e extremamente secca". humano explicaria algum douto phyaio-
Renovava-se a vel'ha controvérsia de logista do tempo.
Mecca, Cairo e Constantinopla. De nada valeu semelhante veredicto
Somente nesta parlenga não houve in- dos bons professores da Faculdade pro-
tervenção religiosa e apenas se discutiu vpnçal.
uma questão physiologica. Entenderam muitos que haviam exag
Foi, aliás, a velha colónia dos phoceos gerado o seu zelo preconcebido a ponto
o único ponto de França onde, segundo de commetterem erros crassos.
parece, encontrou o café opposição posi- "Já havia o mundo progredido demais,
tiva, documentada por manifestação pu- ob.gerva Ukers, para que semelhante sen-
blica e official. tença poudesse prejudicar o café e este
Ainda era tido, por muitos,
como ele- entrave á sua marcha á frente mostrou
mento da pharmacopéa universal. muito menos efificiencia do que as dia-
Panacea para seus apaixonados passa- tribes dos sacerdotes musuimanos.
va aos ollios dos detractores por verda- E tudo teve afinal um des'feciio bem
deiro toxico. francez: acabou nas cantigas das ruas !
60

E nas poesias maliciosas dos vates He sada e a rectidão. Em sua correspontten-


agua doce. cia, impressa desde 1788, e varias vezes
Continuaram os cafés marselheses tão reeditada, occorrem allusões ao sea des-
frequentados quanto dantes, e o consu- íimor ao café.
mo domestico em nada diminuiu. Escrevia em 1712: "Não posso sup-
O accusatorio escreve expressi-
libello portar nem ciiá, nem café, nem chocolate.
vamente "yankee", logrou o ef-
o autor Não comprehendo como se possa achar
feito de uma projecção de boomerang, gosto nestas bebidas. O chá me dá a im-
feliz comparação com a celebre arma de pressão de feno com esterco. O café me
arremesso dos selvagens australianos, que parece fuligem de tremoços, e o chocola-
volta "ás mãos de quem a atira, depois te é doce demais."
de attingir o alvo. E' o caso de lembrar- Reiterando esta opinião, mandava de
mos a nossa expressão familiar que fala Ma;-ly, a 22 de novembro de 1714, se-
em disparos pela culatra dos canhões. gundo lemos alhures:
O consumo do café avantajou-se im- "Não tolero o café, o chocolate e o
menso; tanto que os mercados de LySo chá. Nem comprehendo quem os ache
e de Marselha começaram a importar o deliciosos. Um bom prato de olioucroute,
grão do Levante, afim de poder atten- salsichas de fumeiro, eis para mim re-
der ás exigências do publico. galo digno de um monarcha, a que nada
Respigando em Hartwich, encontroa é preferível. Uma sopa de couves cjm
Padberg depoimentos adversos ao café, toucinho díz-me muito mais do que estas
por parte de personagem illustre, cele- gulodices que todos acham deliciosas.
bre em seu tempo e popularíssima em Em Paris tiveram os médicos mais es-
França, até os nossos dias: a Princessa pirito do que os seus collegas de Mar-
Palatine. selha. A opposição não foi além de algu-
Era Madame, a princeza Isabel
ella mas theses sustentadas em sessões aca-
Carlota da Baviera (1652-1722) esposa démicas e na Escola de Medicina, sem
de Monsieur, irmão' de Luiz XIV, e mãe echos políticos notáveis.
•do ifamoso Regente, Philippe de Orléans, Deixaram, pois, de provocar a menor
de memoria nada casta, mas de intelli- alteração na opinião dos amadores, que
gencia brilhante, faculdade herdada de continuaram com toda a tranquillidade
sua Mãe. a sáborear a infusão arábica, não acre-
Firme, justa, honesta era das pouquis- ditando nos males de que a accusavam.
,=iimas pessoas que ousavam dizer ver- Ao mesmo tempo, começaram alguns
dades ao Rei iSol, que lhe apreciava, médicos a experimental-o na cura de cer-
sobremaneira aliás, a franqueza desabu- tas affecções.
61

CAPITULO XI
Itymologia da palavra café. Estudo
histórico critico

No presente capitulo nos limitare- do café, dizem Koffie. De sua terra pas-
mos, receiosos da pratica do iie sutor, á sou a beberagem ao império germânico.
exposição das opiniões de dous valorosos E no emtanto os allemães preferiram pro-
monographistas do café contemporâneos, nunciar positivamente Kaffee, assim como
accrescentando-lhes apenas algumas des- os escandinavos Kaffe.
valiosas achegas de nossa lavra. Um collaborador de Platt, o phílologo
A' etymologia da palavra café consa- indiano Vireudranath Chattopádhyaya,
grou Ukers duas e meia paginas do gran- entende que o hw árabe se adaptou as
de formato de sua enorme mõnographia. linguas europeas ora soB" a forma do t
A seu ver as línguas europeas importa- ora sob a do V, graças a uma disposição
ram o vocábulo do árabe qahwah, mas laryugea própria de cada raça.
não directamente e sim atravez da fórma Outro erudito, W. Prideaux, appellando
turca Kahveh. para os primeiros depoimentos ínglezes so-
Não se referem estas modalidades vo- bre o café, lembra o de John Jourdain,
cabulares á planta e sim apenas á be- marujo que, descrevendo a sua viagem
bida feita da infusão de suas sementes, uo interior do dístrícto de Aden, fala trez
sendo qahwah um dos muitos synonymos vezes no Cohoo plantado no districto e já
de vinho na Arábia. objecto de grande comnfercio. Mas outro
Pesquizando as origens longínquas do marujo (interessante é que no mesmo
termo aventa Sir James Murray a ideia millesimo de 1609) William Revett, re-
£erindo-se a Moka, relata que alli se in-
de se filiar elle a um toponymo abexim:
Kaffa, cidade do Choa, no sudoeste da ventara o uso de se beber cofe.
Ethiopia, de onde parece proceder o café. Pensa Prideaux, á vista destes dous de-
E discute com o seguinte argumento: poimentos, que, na costa arábica, sentia-
davam os árabes o nome qahwah á infu- S9 a influencia da pronuncia pérsica em.
são e não ao cafeeiro ou 'ás suas cerejas que predomina o o, ao passo que no inte-
designadas por bunn, exotismo de proce- rior do paiz vigorava a ãíábíca onde o a
dência ethiope. se tornava preponderante.
Chama o mesmo Murray a attenção Mas já os latinos ímpozeram o a com
para os dous typos vocabulares que se fi- o judeu portuguez Pedro Teixeira, em
xaram nas linguas europeas. Um, o das 1610, os autores, todos, dos mais antigos,
linguas latinas comprehende notável maio- da bíbliographía cafeeira, quer os fran-
ria e também abrange o allemão, os idio- cezes como Pyrard de Lavai (1610) e os
mas escandinavos, o polaco e outras lín- italianos como Prospero Alpini (1580),
guas slavas, o magyar, o turco e o grego. Della Valle (1615), etc.
Nelle ao c ou ao k se segue o a. No se-
gundo, o do inglez, hollandez e russo, em
E não nos esqueçamos que a revela-
ção do café á Europa foi feita por inter-
vez de a, apparece o o.
médio de Leonardo Rauwolf, o "lobo
Pensa este pliílologo que tal divergên-
branco" latinísado para Dasylicus, o
cia provenha da influencia da prosódia
botânico e viajante allemão augsbur-
turca que pronuncia Koveh.
Outro linguista citado por Ukers, Ja- guense que a paixão herborisadora levou
a percorrer a Asia Menor, a Mesopotâ-
mes Platt, recusa tal hypothese 6 recorda
mia, a Palestina, a Phenicia, etc.
que o a arábico soa como o u inglez em
cuff. Em 1573 estava em Aleppo e alli co-
Este u inglez apresenta grandes diffí- nheceu o café. O seu ouvido germânico
culdades aos larynges de muitas nações percebeu o chaiibe, enunciado pelos ay-
europeas que descambaram para o a rios.Assim graphou o termo sem trans-
aberto. formar o a em o.
Os hollandezes, que foram positiva- Em todo o caso, não pode haver du-
mente os primeiros bebedores europeus vida a tal respeito, conclue Ukers: a pa-
62

lavra café e suas modalidades idiomáti- Africa, que, erradamente imaginou ser o
cas europeas provêm do ai'abe, atravez do Bahr-el-Azrek o principal galho do Nilo.
turco. E nem sequer teve o mérito do ineditis-
A predominância do a sobre o o teve a mo da descoberta, visto como o Padre
consagração de duas das mais notáveis Paes, missionário portuguez, já havia
tentativas da universalisacão linguistica,
percorrido aquella região.
a do Volapuli e a do Esperanto. Vivamente posta em duvida a sua vera-
A este capitulo do AU aboat coffee, cidade pelos contemporâneos e pósteros
aliás muito deficiente, contrapõe-se hoje.
(como C. Ritter, em sua formosa mono-
em nosso paiz soberbo estudo de forte graphia de 1847), a ampliação dos conhe-
erudição e da lavra do Dr. Jorge A. Pad- cimentos geographicos tem-lhe augmenta-
berg-Drenkpol, inserta na sua esplendida do o prestigio abalado, como se infere
monographia que já tanto citamos. dos depoimentos de Combes, Laborde e
outros.
Deante desta analyse exhaustiva, de le-
Disse Bruce que o café é natural de
gitimo humanista toi-na-se como que
Kaffa e Enaréa, segundo o testemunho
mesquinha a contribuição do capitulo de
dos Gallas. Haviam os árabes derivado o
Ukers, que se limitou a colligir meia dú-
seu Kahva de Kaffa. Entende o seu com-
zia de dados coDiidos em outras tantas
meutador, o erudito Murray, com certa
autoridades, cifrandb-se apenas á inspec-
malicia, que seria preliminar e indispen-
ção de summario mateilal norte-america-
sável verificar se os árabes chamam á re-
no para depois invocar algumas ligeiras
gião de Kaffa Kahwah ou Cahweh.
referencias de origem franceza.
Orientalistas naturalistas notáveis,
e
Consagra o Dr. Padberg quatorze pa-
ginas do grande formato de sua mono- como Rõdiger, Schimper e Roth, inclina-
graphia á discussão da etymologia da pa-
ram-se a acceitar a versão de Bruce. E
foi isto que levou Carl Ritter a pronun-
lavra café. E' um eStudo magistral que,
ciar-se a favor de tal etymo, muito em-
na impossibilidade de trasladar ás nossas
bora reconheça a divergência das opi-
paginas, tentaremos resumir, difficil ta-
Sua explanação junto das niões dos orientalistas.
refa, aliás !

Bummarias explicações de Ukers impõe- Paulo Porto Alegre, seguindo, em 1878,


Ihe notável superioridade sobre a do au- a licção de alguns desses arabistas, re-
tor americano. lembra que a questão, a seu ver, conti-
A explicação mais simples, a hypothese nuava em aberto.
mais singela sobre a origem do vocábulo Dous argumentos valiosos se apresen-
é a que deriva do toponymo abexim tam oppondo-se a tal derivação: Era na-
caffa ou Kaffe, região da Ethiopia meri- tural que, "passando para o árabe, a pa-
dional de onde o cafeeiro parece autoch- lavra se mantivesse mais parecida com
tono. o toponymo abexim e não se apresentasse
Dahi a formação do nome, assim como com a forma Kahwa ou qahwa.
pêssego vem de persicum, do qualifica- Nas linguas europeas, no emtanto, a se-
tivo annexado a malum (maçã da Pér- melhança era em geral muito maior, pre-
sia). dominando o f ethiope. E depois até a
Numerosas autoridades de peso acei- obra de Bruce jamais se ouvira falar na
tam a versão: o clássico Leunís, a ency- Europa em Kaffa, como pátria do cafeei-
ro, argumento este, ao nosso ver, muito
clop"edia tão reputada de Herder, o douto
Monsenhor Sebastião Dalgado, em sua tão frisante.
conhecida Influencia do vocabnlario por- Apresenta o Dr. Padberg outro e serio:
tngnez em línguas asiáticas. o jesuita portuguez Padre Antonio Fer-
nandes, em 1613, percorreu a Abyssinia.
Entre nós o "benemérito" Theodoro
Fala em Kaffa e não se refere ao ca-
Packolt, como justamente lhe chama o
feeiro.
Dr. Padberg, e Paulo Porto Alegre, que
se mostra a este respeTto categórico at-
Nesse tempo era a Ethiopia o theatro
firmando que tal opinião é "a da maior da predica dos viajantes, os missionários
catholicos portuguezes. Lembremo-lo de
parte dos orientalistas que se occupam do
passagem. E serviu mais tarde até de
assumpto".
theatro de memoráveis acções de guerra
Pensa o Dr. Padberg que o primeiro para as forças lusitanas do commando de
aventador de tal etymologia toponymica D. Chrislovam da Gama, Affonso Caldeira
foi Bruce, o celebre viajante escossez da
e Ayres Dias.
63

Ha bastante cousa escripta a tal res- Em sua Chrestomathie árabe inseriu


peito por autores contemporâneos, a co- quasi toda a obra de Abd-el-Kader. Neila
meçar por D. João BermTídes, o famoso se cita o precioso documento que consti-
patriarcha de Alexandria e da Ethiopia, tuem uns versos satyricos, compostos de-
que se "diz ter sido nomeado pelo Papa pois da primeira opposição ao café em
Paulo III. Mecca, em 1511, "o qahwa de biiiiu foi
Mas nestas relações portuguezas, sobre- prohibido; usae largamente o qahwa de
tudo não occorre, jamais, a
jesuíticas,
uvas seccas. Regosijae-vos e bebei!"
menor referencia ao café, prova de quan- Nada mais suggestívo; o vinho de bunn
to nos séculos XVI e XVII devia ser pou- chamava-se qahwa. Ainda na obra dé
co disseminado na Ethiopia. Teremos de Abd-al-Kader ha outra achega preciosa: o
voltar a este assumpto. depoimento de antigo autor, natural de
Mecca e cujos escriptos provavelmente se
Pensa o Dr. Padberg que, se os árabes
perderam: Fakhr-eddin.
houvessem chamado ao café "arvore de
Kaffa", não haveria motivo pata darem Declara este escripíor cujas palavras
ás cerejas da rubiacea o nome abexim de traduziu S. de Sacy: "on se servait précé-
buim (grãos e arvores do bunn). Assim, demment pour faire le café (qahwa!) de
parece racional que a infusão das semen- la substance végétale nommée cafta, qui
n'est autre chose que la feuille connue
tes seria chamada bunn e não qahwa, isto
sous le de Kat e nom du bounn ni de
nom
é, uma cousa que, como tal, não proveio
de Kaffa! la coque du bounn.

Mas argumento muito mais sério é o Com toda a razãq^ expende o Dr. Pad-
facto da pre-existencia do vocábulo qahwa berg, "infere-se daíii que havia um café,
na lingua da gente ismaelita, muito antes qahwa (vinho) de cafta, ou Kat„ e outro
da introducção da nova bebida designada do bunn, isto é, o nosso café, e um ter-
por este noniê. ceiro, da casca do bunn, quer dizer o
Rixr. O nome qahwa, café, era, pois, com-
Qahwa, no dizer de todos os diccio-
naristas árabes, era primitivamente um
mum a todas essas bebidas".
dos muitos tefmos correspondentes a vi- No Yemen, desde os primeiros annos do
nho. século XV, espalhou-se o uso de uma in-
fusão feita com as folhas do Kat, que
A sua prosódia é quasl cáhua. Em cef- também parece provir da Abyssinia, e de
tos dialectos assume a forma desinencial
Kaffa. Trata-se da celestracea Catha edu-
cáhue, que, em turco, se tornou regra. ou
lis de Forskal. A este vinho de Kat
Schiapparelli, valendo-se de um códice cafta os árabes chamavam qahwat'-al-
da Bibliotheca Riccardiana, de Florença, katia.
escripto nos últimos annos do século XIl,
Passaram os árabes depois a ingerir a
ou nos princípios da centúria seguinte,
infusão da casca, do mesocarpo do bunn,
reproduziu um léxico arabe-latino e la-
tino-arabe — Vocabulista in arábico— a cereja do cafeeiro, inv'entando-se a be-
bida qahwat-alqixria, ou vinho de quixr.
em que qahwa corresponde a vinum. Addicionavam depois, á casca, o próprio
E o grande Du Cange, em quem a pro- bunn, ou grão de café, o qahwat-albunnia
digiosa erudição e a sagacidade de espi- (vinho de bunn).
rito corriam parelhas, recolheu no seu fa-
Generalisando-se o seu uso, com enor-
moso Glossário o depoimento de Ma-
thaeus Sylvaticus, medico do século XIV,
me superioridade sobre os similares, pas-
sou a infusão a ser chamada simples-
em que de cahua, latinisado, se diz ser mente qahwa, de onde veio o nosso café.
"vinho branco e leve".
Lançada esta hypothese, estriba-se o
Apoiando-se na opinião de Abd-al-íta- Dr. Padberg na autoridade de Barfholo-
der, cuja obra sobre ó café data de 1588, meu d'Herbelot, o celebre orientalista do
expende o Dr. Padberg a opinião de que século XVII, que foi secretario interprete
desde os princípios do século XV a pala- de Luiz XIV e professor de syriaco no
vra qahwa passou do vinho á nova bebida CoUegio de Fiança.
do café. Em sua formidável Bibliotheca Orien-
A este patriarcha da bibliographia ca- tal, obra até então umca no seu género,
feelra traduziu o mais illustre represen- escrevia:
tante da antiga escola dos orientalistas Cahuah e Cahveh — Em
árabe esta pa-
francezes, o formidável erudito que foi lavra significa geralmente toda a espé-
Antonio Isaac Silvestre de Sacy. cie de bebidas "mais il ãe prend en parti-
64

culier pour celle que nous nommons, or- O Brasil, paiz de immigraçáo, receptá-
dinairement, café (sic!)". culo dehomens de mil procedências e in-
Ha tres espécies de bebidas com tai numeras raças, é admirável campo para
nome, Cahuat al catiat, ou caftah, Cahuat a producção deste phenomeno.
al Caschriat e Cahuat al Buiiiat. Assim, por exemplo, se ponham estes
Pensa ainda o Dr. Padberg que a sig- linhagistas futuros do verbo a descobrir
nificação do terceiro nome para cahwa è por que a gente do povo de certos muni-
comparável ao que se dá, no francez, com cipios paulistas chama chuim ao leitão e
a batata, por nós chamada ingleza, a ba- o da zona mineradora central de Minas
tata de Parmentier, ponime do terre, onde G-eraes diz chafre por poço ou por qu&
em certas expressões o distincTivo de ter- ainda os pernambucanos dizem chulipa
re, se dispensa. em vez de dormente de estrada de ferro.
Muito curiosa uma observação de Abd- B' que os primeiros em contacto per-
al-Kader. Alguns dentre os sufis (sectá- manente com alretnães" que falavam o
rios de uma escola pantheTsta mahometa- platt deuísch, lusitanisaram o schwein, os
na) faziam timbre em dizer Kihwa em segundos, empregados de companhias in-
lugar de qahwa, para deixar bem frisada glezas, adaptavam a seii modo o shaft de
a differença entre o café e o vinho pro- seus engenheiros e contra-mestres. B os
priamente dito. pernambucanos, o que é ainda mais inte-
Pensa Padberg muito judiciosamente ressante, Já em segundo grau, aceitaram,
o apparentemente extravagantíssimo no-
que isto só se daria fios primeiros tem-
pos da propagação do café e quando ain- me attribuido a dormente.
Isto porque para as suas primeiras vias
da, a tal propósito, havia equivoco. O que
férreas foram contractados mestres de li-
Buccedeu foi justamente reservar-se a pa-
lavra qahwa, não mais pará designar o nha portuguezes e esfes chamavam aos
vinho, mas sim, e -exclusivamente, o café. dormentes chulipa, adulteração portugue-
Tal equivoco," pensa o douto autor, pro- za de sleeper (dormente) da technologia
vocou as perseguições religiosas ao café, britannica dos primeiros constructores de
como se fosse algum vinho disfarçado, estradas de ferro em Portugal.
pois é de sobra sabido que Mafoma, seve-
Continuando a discutir esta probabili-
rissimamente, proscreveu o licor do Ec- dade, analysa Padberg a asserção cathe-
clesiastes, que quando bom letifica o co- gorica do sábio Ritter: "Kahwe é termo
ração do homem. estrangeiro, transmittido somente com a
mercadoria e a tradição e alheio, primi
Pensa o erudito philologo, a quem vi-
tivamente, ao mundo arábico, do mesmo
mos acompanhando, que não pode haver
duvida: café deriva de qahwa e não do
modo que a arvore.
toponymo abexim Kaffa, pelo menos não
"Em favor dessa hypothese póde-se al-
legar que o termo qahwa, além do pró-
directamente.
prio vinho e do connexo suco de uvas, só
A única concessão a se fazer, em tal parece ter significado bebidas originarias
matéria, é admittir algum liame indirecto
de Kaffa, a saber: a infusão de kat, o
e longínquo.
kixr da casca do café e o nosso café
Talvez houvesse o café, em éras jâ mesmo."
muito afastadas, sido chamado pelos ri-
"Se de facto (como parece, exigindo,
beirinhos asiáticos do Mar Vermelho, be-
porém, um estudo philologico ulterior),
bida de Kaffa, ou, mais simplesmente.
qahwa nunca foi empregado para desig-
Kaffa, assimilando-se depois o caso, por
nar também extractos ou sorvetes de ou-
comparação, ao caldo da uva.
tros fructos, que de certo não faltavam,
Assim, Kaffa apenas teria occasionado
essa singular restricção ficaria compre-
a escolha da palavra árabe semelhante,
hensivel naquella supposição que só be-
qahwa, avoenga incontestável do vocábulo
bidas de Kaffa tivessem attrahido o nome
café.
semelhante qahwa. Justificar-se-ia assim
E' este facto perfeitamente plausível e também a mencionada "tradicção abyssi-
tudo quanto ha de mais natural e hu- nica" ouvida por Schimper e Roth de que
mano. o café houvesse conservado o nome de
Não vemos, a cada passo, surgir pala- sua pátria".
vras, de nosso idioma, cuja etymologia é Mas estes dous viajantes recolheram
o mais sério dos quebra-cabeças ? capaz tal tradição no século XIX. E Padberg
de reduzir ao desespero os genealogistas pensa que ella não parece passar de sim-
vocabulares mais provectos e esforçados ? ples etymologia vulgar a que muito im-
65

pressiona a homonymia. Assim poderia Assim, Francisco Meininski, o autor do


ter nascido na Abyssinia, onde se diz que volumoso Lexicon Turcico-Arabico-Persi-
o café é originário de Kaffa e onde se des- cum, editado em Vienna, em 1780, por
conhece o significado arabFco de qahwa. ordem de Maria Thereza. Apoia-se Mei-
"Resta, pois, ténue probaUilidade para ninski em outro diccionarista Wankuli e
uma influencia secundaria de Kaffa so- dá curiosa explicação diametralmente op-
bre a denominação do café, a despeito do posta á corrente dos lexicographos. En-
sábio Ritter, cujas razões, quando muito, tende que qahwa significa vinum, que in-
poderiam apoiar a possibilidade indi- duz á, appetencia da comida. E é por Isto
cada" ". que se applicou ao café.
O Kat comestível èspalhou-se por toda Calligaris, de Turim, em 1864, cahe nc
a Africa e passou-se também para o lit- mesmo engano com a aggravante de que
toral fronteiro ao seu, o africano. depois se desdiz.
Quer uma corrente de arabistas que
Hartwich, em seu estudo notável Mens-
qahwa signifique força, visto ser o café
chlichen Geniissmlttel, affirmou que na
excellente fortificante.
Arábia a celastracea foi cultivada, como A ella se filiam o Chevalier d'Arvieux
o café. E Roth e Haris affirmam ter visto em suas Memorias (1723), Dufour
entre os ethiopes infusão de folhas de (1671), que, aliás como vimos, se apoia
Kat, uma espécie de chá como o antigo em d'Arvieux, Savary em suas Lettres sur
qahwat-alkatia ou cafta do Yemen. As- TKgypte (1785). Mas já Galland, no sé-
sim parece que tanto o ICat como o café culo 18, e sobretudo Silvestre de Sacy,
provêm do districto de Kaffa. restabeleceram a verdade. Houve confu-
Admittindo a indiscutibilidaãe da filia- são destes arabistas medíocres entre
ção do café a qahwa (vinho), passa Pad- qahwa e quwwa (força).
berg a estudar as origens deste vocábulo. Mas como são terríveis estas questõe.-!
E recorre ás mais velhas autoridades etymologicas! Que terreno de irreconci-
lexicographicas: Djauhari, autpr do Sihah liáveis pendências! que campo de Inter-
(fallecido em 1002!), e Firuzabadi (mor- pretações as mais variadas e por vezes as
to em 1414), autor do Kamús, os dous mais abstrusas!
grandes diccionaristas árabes medievaes. Em 1869 o grande arabista hollandez
Admittem ambos que qahwa provem de Reinhart Dozy ("esse grande Dozy de mé-
ritosigualmente immorredouros na histo-
qahya ou aqha, enjoar, desgostar, ou mais
ria,litteratura e línguas hispano-arabicas
propriamente, enfarar, visto como se re-
medievaes", no dizer de Christiano Seybod,
laciona a um certo enfaramento que o vi-
mestre da lingua brasílica, amigo e arrou-
nho provoca pelos alimentos sólidos.
badissimo admirador de D. Pedro II), pu-
Commenta Padberg: blicando a segunda edição do glossário de
"Se Fakkr-eddin continua dizendo que seu discípulo W. Engelmann, fulminou os
também o nosso café recebeu o mesmo seus confrades em matéria de philologia
nome por fazer desgostar e abster-se do referente á gente que procede de Abra-
somno, queria provar mais do que devia; ham por Ismael.
pois já vimos, de que modo a palavra "Nossos léxicos árabes são de todo In-
qahwa, vinho, passou a significar cafõ, sufficientes para as pesquizas etymologi-
certamente sem intermédio daquella eru- cas", avançou cathegorico declarando com
dita etymologia." a sua enorme autoridade: Café procede
Numerosos diccionarios da lingua ará- de cahwa ou cahwe, que por muito tempo
bica concordam plenamente com esta ety- foi um dos nomes do vinho.
mologia como sejam o volumoso léxico de As etymologias admittidas pelos árabes
A. de Biberstein-Kazimirski (Paris, 1860) são inadmissíveis, mas quando considera-
e Augusto Cherboneau (Paris, 1896). mos que o moka verdadeiro é inebriante,
explica-se facilmente por que tal denomi-
"Wellsted, na sua Viagem á Arábia,
também concorda com os diccionaristas e nação lhe foi imposta. Os hespanhóes,
aliás, tomaram tal termo dos francezes-
a grande autoridade de Silvestre de Sacy
corrobora tal opinião, que também é a do Já Dozy, porém, tivera precursores
famoso Antonio Galland, o homem ãas como Langlès, homem de pouca autori-
"Mil e uma noites", aliás incorrectamente dade no dizer de Padberg. Afflrma este
traduzidas, dizem-no os doutos. do modo mais absoluto que café não se
filia a raiz alguma da lingua árabe.
E", pois, a etymologia corrente, tradi-
cional dos arabistas. Mas ha também os Commenta Padberg:
seus dissidentes, como sempre, lembra-o "Apezar da Inexactidão a respeito aa
Padberg. natureza inebriante do moca, merecem as
"

66

palavras de Dozy toda a attenção devida confirmar essa etymologia. apezar de pa-
a tão grande autoridade de seu annun- recer declarada inadmissível pelo sábio
ciador. Quem se lembrar de tantas ety- Dozy. No fundo, porém, considerando bem
mologias erradas dos antigos, por verosí- as suas palavras, elle nega só que tal ety-
meis que pareçam ás vezes, quem ponde- mologia (p. ex.: fazer abster-se do som-
rar que principalmente o árabe, com sua no!) explique o nome dado ao "moka"
pasmosa riqueza de raizes, se presta obe- ou café, termo que elle deriva expressa-
diente ás tentativas de derivação, não mente de cahwa, vinho, não dizendo nada
pôde deixar de ser prudentemente scepti- sobre a origem deste vocábulo.
00, como o eximio arabista neerlandez. E' o que também nós julgamos ter de-
"Muita etymologia errada realmente se monstrado: o café recebeu simplesmente,
tem corrigido, mas é preciso não esquecer sem intervenção ou consciência daquella
quanto ás explicações de muita etymolo- raiz, o nome de qahwa, vinho; este vocá-
gia, hoje corrente, nascidas de pura gym- bulo, porém, originou-se de certo do sig-
nastlca cerebral, pertence ao campo das nificado fundamental enjoar."
imaginações da pbantasia. C. Ritter se op- Passa depois o erudito autor a indagar
põe tenazmente á filiação de qahwa, vi- como se acclimou a palavra café nas di-
nho procurado em remota origem e in- versas linguaa europeas.
ventada pelos partidários do café, como A principio vigoraram no Occidente as
bebida, para a encarecer." formas orientaes, pura e simplesmente, as
Houve a seu ver excesso na appllcaçàs modalidades árabe e turco qahwa ©
de tal etymo quando se procurou expli- Kahvvo.
car qahwa, café, como causando absten- Assim grapharam Rauwolf em Aleppo
ção do somno, permittindo, a seus inges- e em 1573: Chaube, Prospero Alpiní en-
tores applicar as suas vigílias á piedad-i tre 1580 e 1583, do Egypto Chaova ou
e meditação. caova (caoua).
E cita a opinião de Rõdlger, abouaJa A tal propósito corrige Padberg ao nos-
por C. Ritter, que 'aponta a mesma raiz
so tão conhecido e meritório Peckolt, que
no hebraico e no aramaico: qawa ou
affirma ter Alpiní declarado provir café
qayah significa enjoar, vomitar.
de Kaowah, palavra asiática que quer di-
Kasimirski aponta entre os significa-
zer vinho. Nada diz a tal respeito o fa-
dos de qahwa: leite azedo e saciedade.
moso medico e botânico veneziano, que
E'' esta a conclusão de Padberg:
tanto viajou pelo Egypto e o Oriente e
"Após maduro exame, devemos, pois, mestre paduano de europea reputação.
67

CAPITULO XII
Continuação do exame das fontes por Padberg-
Drenkpol. O depoimento curioso de Philippe
S. Dufour
Recorrendo ás fontes sustenta Padberg Em 1615, allega Padberg, escrevia 'de
que nem o veneziano emprega tal mo- Constantinopla Pietro delia Valle Cahue,
dismo nem pretende que elle signifique Cahe (Kahve).
vinlio. Principiava então o famoso H Pelle-
"Aliás, annota o douto escriptor: está grino a sua grande viagem oriental, que
o primeiro capitulo da obra do illustre tanto renome lhe angariaria. Começando
medico e chimico germânico, a quem pela capital ottomana, percorrera a Asia
tanto deve o Brasil, eivado de erros". Menor, o Egypto e a Pérsia sobretudo.
Neste paiz o grande Shah Abbás o tra-
Era isso natural, dada a deficiência de
dispor mo tou com notável amizade. Afinal foi ter á
bibliographia de que podia
índia. Voltaria á Itália com enorme re-
Brasil e a pequena extensão de exegese
putação, bem menos merecida, porém, do
do assumpto se confrontarmos o tempo
que de outro peregrino, muito mais nos-
em que elle escrevia e nossos dias. so conhecido: Fernão Mendes Pinto.
Honorio Belli, o grande erudito seis- Referindo depoimemto de fonte muito
centista italiano, medico e botânico, fi- mais celebre do que a de Della Valle,
lho de Vicencia, celebre pelos trabaUios Samuel Purchas, affirma Padberg coi-
sobre a botânica da Ilha de Creta, cuja sa que deve ser esclarecida "Pelo mes-
flora tanto estudou, e de modo notavel- mo tempo notifica do Levante Samuel
mente arguto, em suas Epistolae allquot Purchas igualmente Kahve".
de quibusdam plautis escrevia do Egy-
Quer nos parecer que Purchas jámais
pto Cave.
esteve no Oriente. Jámais, pelo menos,
Refere-se Padberg a outro depoimen- em suas noticias biographicas, encontrá-
to muito menos illustre o de Alphonsus mos referencias a tal respeito. O que
Pancius contemporâneo de Belli, que es- fez foi reunir quanta relação de viagem
creTeu Elkave (El Kave). Um
gato de
poude, ajuntando a celeberrima collecta-
imprensa fez com que surgisse um El nea intitulada: Purchas hí^s pilgrlmageor
Karie, publicado em 1687 por Nicolau relations of the world and the religions
de Blegny, imitador do patriarcha Du- observed in ali ages and placas discove-
four em seu "Le bon usage du caffé et red from the Creation unto this present
du chocolat". (Londres, 1613).
A
inveteração do erro se fez em di-
E' sabido, por quem se interessa pela
versos autores brasileiros. Recorda Pad- historia das descobertas, o que significa o
berg como tal se deu com Nicolau Joa- nome de Hakluyt, o colleccionador cele-
quim Moreira e até Paulo Porto Alegre berrimo de relações de viagem que Pur-
cuja autoridade, como cafeologo, tem
chas fez imprimir em 1625. Mas não nos
muito maior valia do que a do tão esfor- consta que este celebre compilador haja
çado e intelligente propagador primevo jámais viajado no Levante.
das coisas da agronomia no Brasil.
Eduardo Terry, o capelão da embaixa-
B' a repetição 'de caso occorrido não da de Jayme Iao Grão Mongol, em 1615,
uma mas milhares de vezes, e não só em descreveu a enorme jornada em livro
portuguez como em todas as linguas cul- que passou por cheio de inverdades e tem
tas do Universo. hoje outro prestigio do que outróra, gra-
No Brasil, de prompto, nos occorre a ças á comprobação dos testemunhos re-
reminiscência da Cariama, nome scien- centes. Falando do café, escreveu Cahua.
tifico e estrambótico da tão conhecida Observa Padberg que até esta data já-
seriema. Provem de Linneu interpretan- mais se vira o £ ou o grupo ph na pala-
do um eiTO typographico de Marcgraf, vra café.
em que se esquecera a cedilha na maiús- "Esta consoante (f) achei-a, péla pri-
cula. meira vez empregada, no tempo e paiz
68

do chanceller inglez Francisco Bacon Danvers (datadas de 1611) (tratar-se-á


de Verulan, que morreu em 1626. Este do Conde de Danby? lê-se "coho-pots"
conhecido escriptor fala de outiva nu- e coffao-pots.
ma planta Caphe de terra de turcos.. Sir ThomazRoe (o embaixador ao Grão
"Conhecido escriptor", para Bacon é Mongol de quem foi Terry o capellão)
impropriedade aue não podemos perfi- graphou Cohu, Sir T. Herbert (em 1638)
lhar, entre parenthesis, e teria o simile escreve coho e copha. Bvelyn, em 1637,
em qualificativo como "distincto poeta", coffee. Fryer (em 1673) coho. Orington
applicaido a Camões ou a Milton, diga- (1690) coffee e Valentini (1726), coffi.
mo-lo entre parenthesis. B', aliás, o próprio coronel Prideaux

Diz Padberg, citando Porto Alegre, que quem abona as citações de Jourdain, em
Robert Burton, na sua Anatomia da Me- 1609 (cohoo) e Revett, também em 1609,
(coffe),,.
lancolia, publicada em Oxford e em 1621,
refere-se á bebida turca café.
Reforçando esta argumentação, recor-
da Ukers a contribuição de Foster em sua
"Pelo mesmo tempo, começa a outra
English Factories in índia (1618-1621),
particularidade européa na denominação
(1619), Cowhe, Conha (1621), Coffa
do café, a substituição do o na primeira
(1622 - 1623), (1628 - 1629); Cowha
syllaba", annota o douto autor a quem
(1628).
vimos acompainhando-
O coffee dos inglezes com o o predo-
Thomas Herbert, mencionando, mais minante assemelha-se ao Koffie dos ba-
tarde, o café, visto na Pérsia, em 1626,
tavos, onde a mesma vogal se destaca.
parece ser dos primeiros que escreveram
'Lembra Padberg que, já em 1637,
em inglez Coffe, disto ha documentos
anteriores a 1626.
mandava van iSmiten amostras de Kof-
feyi le Amsterdam a Merseburgo e Lei-
A esta asserção do erudito assistente pzig.
do nosso Museu National, oppõe-se um Neste mesmo anno temos o depoimen-
trecho de Virendranath Chattopádhyaya, to de um
dos mais famosos viajantes e
eminente linguista hindu, no dizer de orientalistas allemães antigos, Adão
Ukers. Oelschlaeger, latinizado para Olearius;
Lembrando que o grupo hw arábico, como tanto era do sabor dos tempos, o
eW qahwah, torna-se, ás vezes, ff e ás autor do famoso globo celeste de Got-
vezes apenas f ou v, na transplantação torp.
para as linguas européas, e discutindo B' a autoridade de Olearius realmen-
opiniões do coronel Prideaux, affirma o te singular. Além de grande
escriptor
dputo indiano: da própria lingua, conhecia a fundo o
"O coronel prideaux pôde por em du- russo, o persa e o árabe. Nos seis annos
vida que o digno marinheiro, inscrevendo de peregrinação, de Moscou a Ispahan,
o termo em seu jornal de bordo, haja si- mostrou-se observador sobremodo crite-
rioso e narrador verídico. Tal a
do influenciado pelos abstrusos princí-
pios phoneticos por mim annunciados. sua reputação. Levantou mappas e fez

Mas admittirá que a transformação de traducções fieis do árabe e do persa.


Kahwah em coffee é transformação que Escrevendo da Pérsia, graphou Chawa
deve ser levada á conta de operação ori- ou Cahwa (cahwae, Kahwa), recorda-o
unda de algum principio phonetico. Padberg. O seu companheiro de em-
baixaida do duque de Holstein aoa sobe-
O homem de mediana cultura, quamdo ranos orientaes, o joven João Alberto de
procura graphar uma palavra exótica na Mandelsloh, que, aliás, visitou muito
própria lingua está handicapped (este
mais terras do que elle próprio, indo ás
termo de turf é por assim dizer, intra- índias, a Ceylâo e Madagáscar, escreveu
duzível, mas significa prejudicado, coma
Kahwe.
geralmente se sabe) consideravelmente
Ê possvel que estes dois viajantes, com
pela capacidade phonetlca atávica ou ad- muito espa-
os seus relatos de viagem,
quirida.
lhados na Allemanha e paizes de lingua
De facto, se tomarmos as citações de germânica, hajam contribuído para es-
"Ilobson-Jobson" e lhes classificarmos tabelecer, no allemão, a predominância
as varias fórmas do vocábulo coffee, con- do a na palavra Kaffee sob a sua for-
forme a nacionalidade do escriptor, ob- ma definitiva.
teremos resultados muito interessantes". Foram,aliás, ambos estes relatos tra-
As£(im, tomemos, para começar, os in- duzidos, dentro em pouco, depois de im-
glezes e os hollandezes. Nas cartas de pressos para o francez, por Abrahâo de
69

Wicquefort, o celebrado diplomata hol- Jardinj autor contemporâneo, a quèm


landez, que tanto viveu em França e ahl Ukers bastante cita: em relação á ety-
teve aventuras muito penosas, de longo mologia do vocábulo, os eruditos diver-
encarceramento, devido a accusações de gem e, provavelmemte, jamais entrarão
indiscreção e espionagem, quer eia em accordo. Nada mais plausível, aliás.
França, quer na própria pátria. Não é de hoje nem de hontem o famoso
Outro viajante allemão, João Sigismun- brocardo do grammatici certant:
do Wurfíbain, soldado aventureiro da "Dufour, em seus famosos Traitez
Companhia das índias Orieutaes, homem nouveaux cnrieux du café, du thé et
de vasta intelligencia e notáveis apti- du chocolate (sic), adopta o etymo caouhe
dões commerciaes, escreveu em seus Ser- a seguir os conselhos do Cavalleiro d'Ar-
viços de J. S. Wurffbain npfi índias Ori- vieux (Lourenço) (1635-1702), cônsul
cntaes, durante quatorze annos e em sua francez em Alepo.
Viagem ás índias Orieníaes (Nurem- O trecho desse autor clássico da bi-
berg, 1646), preciosos depoimentos so- bliographia do café merece ser transcrí-
bre o commercio hollandez no extremo pto. Nelle se insere precioso inforr&é,
oriente. que se reporta ás numerosas graphias,
Em 1642, graphava Cauwa. correntes em França e na Europa e em
Sabem todos a avidez com que os lei- fins do século XVII, relativas ao nome
tores germânicos procuravam inteirar- café.
se de taes relações de viagem aos pal- Em 1685, referia-se Dufour á recentís-
zes exóticos. A estas insinuações do no- sima apparlção da bebida em França,
me do café com a dominante da primei- havia vinte e cinco annos apenas.
ra vogal, deve-se certamente e muito a "Quasi incrível" achava que ainda não
definitiva consagração de Kaffee. estivesse esclarecido o caso do seu ver-
Affirma Padberg que o viajante fran- dadeiro nome, quando, desde algum tem-
cez Du Loir, em 1654, escrevendo do Lie- po, já se ingeria a infusão da fava de
vante, graphou Cahué. Segundo o diccio- Moka. Os autores que de tal assumpto se
nario de Larousse, deve-se, aliás, gra- haviam occupado, tanto divergiam a
phar Duloir. proposto da questão linguistica como so-
De João de Thévenot se affirma ser o bre as qualidades da nova bebida.
primeiro a introduzir o café em Fran- "Quelques uns disent qu'avant d'être
ça, seu paiz natal. mis en> poudre on doít Tappeler en Latin
Foi dos mais famosos viajantes fran- (sic) Bunchum et en François Bon qu'ils
cezes antigos e para o seu tempo, rea- prononcent Bun. Les autres luy donnent
lizou enormes itinerários em paizes exó- (divers noms, aprés qu'il á été pulverisé
ticos, pois, percorreu a Asia Menor, o et se srvent índífferement de ceux de
Egypto, a Syria, a índia, a Pérsia e, afi- café, cophé, cavé, cavet, cahué, caveah,
nal, a Armênia, onde morreu estafado pe- chaube, choana, chaona ou cahueh".
lo cansaço, aos 34 annos ide idade, ape- A' vista destas diversas modalidades,
nas. Era muito versado nas línguas tur- resolvera consultar uma autoridade de
ca, persa e árabe. Escreveu de Levante peso. E esta fôra o cavalleiro d'Arvieux,
Cahué (Kavé), lembra Padberg. cônsul dos francezes em Alepo, e perso-
Poderia o douto autor, comtudo, exa- nagem que, desde muito, vivia na Syria
minar fontes francezas mais antigas do onde se notabilízára pela solicitude em
que estas, como Pyrard de Laral, o ce- prol da libertação dos escravizados pe-
lebrado viajante de princípios do século :ios corsários barbarescos- Devia, portan-

XVII que também pertence á nossa xe- to, conhecer bem o árabe. Homem de
nobibliographia, graças a estada que, atilado espirito e singular conscienciã,
em 1610, fez ma Bahia, acerca da qual a seu turno consultara diversos eruditos
escreveu tão curiosas paginas, o viajantes da Arábia, além de médicos
Pyrard, que tanto conheceu a índia levantinos.
portugueza e o Oriente, tem o mais alto E esclarecido pela opinião destes di-
significado, para nós outros, pois lhe versos doutos, assim respondera ao con-
cabe a prioridade das revelações estran- sulente:
geiras sobre os aspectos da organização "Le nom de la fêve dont vous me par-
da sociedade luso-brasileira. Graphou lez, dans la langue du pais d'ou nous 16
Cahoa, di-lo Ukera. tirons est Cahoueh, parce que 1^ árabes
Escrevendo sobré a introducção da n'ont pas d'U consonne comme les au-
palavra café na língua franceza, opina tres nations.
70

Les Turs et les autres Orientaux pron- fie, em hollandez e óophe, em russo (e
nocent Oahuéh. Cest á mon avis la pro- neo grego?)."
nonciation qui peut le mieux s'accorder Curioso é que nas línguas latinas ha-
á la Françoise sans trop aspirer les HH. ja a predominância do a (café, em por-
Le mot ide Cahveh vient de Colmiet, qui tuguez, francez, hespaaihol; caffé, em
signifie force et vigueur et on appelle ãin- italiano; cafea, em rumeno) quando o
si cette féve, parce que son effet le plus nome latino da planta vem a ser coffea-
'ordinaire est de fortifier et de corrobo- Mas é que esta denominação composta
rer". foi inventada por Linneu.
Depois de reproduzir as palavras do Explica-o Padberg:
Cônsul, declara Dufour que, embora de- "Como fórma latinizada já vimos a
vesse, á vista de taes ponderações, ser- palavra medieval cáhua, que é certamen-
vir-se do nome de calmeh em seu trata- te a adaptação mais fiel. Em 1666 editou
do, via-se levado a empregar a palavra F. Petersen em Frankfurt uma disserta-
café já definitivamente estabilizada na ção, defendida na universidade de Giessen
lingua franceza. "De potn Coffi', suppondo pois a lorma,
Savary (Nicolau?) autor des Lettres Coffujs ou Coffuni.
suffTEgypte (?) compartilha da opinião No principio do século XVIII escreveu
d© d'Arvieux. E assim também Trévoux Guillaume Massieu um poema latino com
em seu diccionario. A grande autoridade o titulo Caffaeum. No anno de 1730,
do mais celebre talvez dos viajantes sahu em Halle outra dissertação "De Caf-
francezes do Oriente, J. B. Tavernier, feae potus usu noxio" por Alb. Michel
combate tal modo de ver. (ou J. N. Grimmann?) dando Caffea.
D'Alembert, na Encyclopedia, graphou Pouco depois, creou Linneu, o fundador
caffé como fazem os italianos. Declara da nomenclatura scientifica, o nome Cof-
Jardin ser incontestável que a palavra fea, encostando-se, sem duvida, á forma
franceza café provém do árabe, seja koffie usada ma Hollanda, paiz que teve
qual for a sua origem Kahua, Kahomeh, tanta importância na formação desse sá-
Kaffa ou Kahwa. Em todas predomina o bio e na propagação do café.
a "os povos que adoptaram a bebida Curioso porém que esta influencia ba-
todos elles modificaram o vocábulo ará- tava sobre Linneu não se haja reflectido
bico, de accondo com as tendências pro- nas línguas escandinavas quando o coin-
sodicas próprias". mercio dos géneros coloniaes é feito nas
Observa Padberg que, desde os mela- terras septentrionaes da Europa pelos
dos do século XVII, vêm-se estabiliza- hollandezes.
das as diversas fórmas do vocábulo café "Não houve a influencia do Koffie ba-
nos vários idiomas europeus. tavo na formação do Kaffe dinamarquez
"Estes dividiem-se, segundo as diffe- e sueco, talvez por suggestão allemã."
rentes línguas da Europa, em tres gru- Parece-noB, aliás, que se os escandina-
pos. O primeiro é o que melhor conser- vos grapham Kaffee, pronunciam a pala-
vou a fórma arabe-turca: kawa em pola- vra como se fosse Kóffe, em prosódia
co e tcheco, e kávé, na lingua dos húnga- portugueza, o que mostra a influencia
ros, que receberam o nome e a coisa di- da origem neerlandeza influenciadora de
rectamente dos turcos, invasores da Linneu.
Hungria.
Divergindo do illustre botânico bra-
As outras línguas européas, tomando sileiro, expende Pandberg, cuja autori-
por base também o turco, kahwe, intro- dade de humanista tanto acatamento me-
duziram no meio da palavra um f pro- rece:
priamente indevido, sem duvida conse- "E' excusado dizer que erra Freire
quência de pronuncia inexacta e não da Allemão no seu aliás valioso estudo so-
opinião, isupposta mais tarde, de se deri- bre o café, julgando ser "coffea" deri-
var aquelle nome de Kaffa na Abyssinia. vado do grego cofeo eu me calo.
O segundo grupo abrange as fórmas Este verbo raro e postclassico signifi-
que antes do f conservaram o a original: ca antes ensurdecer, atordoar, e não tem
café em francez, hespanhol, portuguez, relação nenhuma com coffea, já pelo ó
caffé,em talíano: Kaffee, em allemão e lo'ngo na primeira syllaba, o qual teria
Kaffe em dinamarquez-noruego e sueco. excluído ff.
O terceiro grupo afasta-se ainda mais Nem se em nada que o mes-
justifica
do archétypo, alterando o a da primeira mo Freire Allemão "apaidrinhado com
syllaba para o: coffee, em inglez, kof- Loudon, "botânico escossez, prefira" sem-
71

pre coffoea mais accommõdado ao ára- etc, a não Querermos ser refractários á
be". concórdia scientif ica internacional
. . .

Ainda quando esta razão não se ba- Ha ahi a objectar, porém, que estes
seasse em manifesto engano, já não ha termos scientifcos cafeína, cafeona, ca-
mudar uma fórma consagrada definitiva- feico, cafeol, etc, provêm de nomes im-
mente no mundo das sciencias. Por is- postos pelos chimicos que isolaram os
so pecca também CaUigaris latinizando, diversos compostos assim chamados e,
ainda em 1864, cafaeus liquor. portanto, reflectem a nacional ildade de
De bom ou mau grado, temos aue fi- seus descobridores. Assim se deu com
car agora em coffea, e seus derivados Runge para a cafeína, Boutron, Fremy,
coffeacea, coffeina (preferivel a cafeína) para a cafeona, etc.
. . .

72

CAPITULO XIII

Propagação do café na Inglaterra. As primeiras


referencias britânicas á infusão arábica. priori- A
dade discutida de Pasqua Rosée. Adversários en-
carniçados e defensores extrenuos do café

Traçando-se a historia de propagação É boa para qualquer hora do dia, mas


européa do café cabe á Inglaterra a pri- especialmente pela manhã e á tarde,
mazia da attenção por ter sido a pri- quando para a tomarem se reúnem, por
meira região Occidental, "onde se be- duas ou tres horas, nas casas de cauphe
beu café em casas publicas, mesmo mui- que, em toda a Turquia, são mais abun-
to antes dos ensaios feitos em Marselha dantes do que entre nós as estalagens'.
e outros pontos da França, quando ahi Para Ukers parece fóra de duvida que
66 tentou introduzil-a", observa P. Por- embora haja o café sido notificado ao
to Alegre com exacção. publico brilannico, desde o primeiro
Valendo-nos sobretudo do esplendido quartel ido século XVII, pela voz de nu-
material reunido por TJkers vamos ver merosos viajantes e mercadores, que
como em terras britannicas se aclimou a traficavam com o Levante, o primeiro
infusão da fava arábica. depoimento acceitavel da persistência de
Nas vizinihanças de 1628 Sir Thoinas seu consumo na Grã Bretanha parece
'
Herbert (1606-1'681>, escriptor e viajan- datar de 1637.
te, resumia de suas observações entra Provém do Diary and correspondance
os persas: of John Evelyn Notes oí 1637", onde se
"Bebem sobretudo coho ou Copha que lê: "Appareceu então em meu tempo, no

os turcos e árabes chamam Caphe ou Collegio de Balliol, Oxford, um tal Natha-


Cahua. Ê bebida que lembra as aguas do niel Conopios, refugiaido da Greda, e
lago estygio, preta, espessa e amarga. emissário de Cyrille, Patriarcha de Cons-
Procede do ramalhudo Bunn como as ce- tantinopla. Voltando muitos annos mais
rejas do loureiro. Pretendem, sobretudo, tarde foi nomeado bispo de Smyrna, co-
que tal beberagem remove a melancolia. mo ouvi dizer"
Mas não é pelas suas vantagens que a Foi o primeiro que vi beber café, cos-
apregoam como por causa de um ro- tume que só se introduziu na Inglaterra
mance inventado e forgicado por Ga- trinta annos mais tarde".
briel afim de recompor a perdida receita Af firma Ukers que Evelyn se enganou;
de Mahomet, homem de coração bem devia dizer treze e não trinta porque em
formado" 1650 abriu-se o primeiro café inglez.
De Sir Henry Blount (160 2-168 2) se Este Conopios era um cándiota, per-
diz porém que foi o verdaideiro pae dos tencente á igreja grega, em que chegou
cafés inglezes. á categoria de "primore", de Cyrillo, pa-
Indo ao Levante,em navio veneziano triarcha de Constantinopla. Quando este
e em1634, teve o ensejo de beber foi estrangulado, por ordem de um Grão
canphe em presença do padischá Amurat Vizir, refugiou-se na Inglaterra afim de
IV. E, mais tarde, no Egypto, fôra nova- salvaguardar a pelle. Trouxe creden-
mente servido de tal beberagem. ciaes para o famoso Arcebispo Laud, que
"Descrevendo como se tomava café na lhe concedeu uma incorporação ao Bal-
Turquia 'declara: Usam elles de outra liol College da Universidade de Oxford.
bebida, que não é boa de se tomar du- Anthony Wood em suas Athenae oxo-
rante a comida, chamada Cauphe, feita nienses... (1692) escreveu: "Notou-se
com uma cereja do tamanho de uma er- que emquanto elle (Conopios) esteve
vilha pequena que seccam ao forno, re- no Balliol College preparava uma bebi-
duzem a pó, côr de fuligem, levemente da para próprio uso, chamada Coffey,
amargo ao paladar, cozinham e bebem que habitualmente ingeria todas as ma-
tão quente quanto lhes é possível sup- nhãs, tendo sido o primeiro (como de tal
portal-o me informam os veteranos do Collegio)
. . . .

73

quB jamais a bebeu em Oxon (Oxford) As autoridades divergem, atlirma


Cabe a John Parkinson (1ÒÕ7-1650 ), Ukers, mas pôde
ser que a causa de sua
botânico e lierborisador inglez, a prima- não concoMancia provenha do facto de
zia da primeira descripção do cafeeiro (iue existiram dous Jacobs, que começa-
p.m lingua Ingleza. ram em 1650 e um terceiro Cirques Jo-
Publicando em 1640 o seu Theatrumi bson. Judeu jacobita, que se estabeleceu
botanicum nelle apparece o capitulo em 1654.
Arbor Bon cum sua Buna ou bebida de Recolhe Porto Alegre a versão de que
cereja dos turcos. um destes Jacobs se estabelecera pri-
Eis o seu texto, raro e de difficil con- meiro em Oxford passando-se depois pa-
sulta, o que levou Ukers a transcrevel-o: ra perto de Londres, em Holborn, onde,
Alpino, em seu livro sobre as plantas em 1671, ainda existia.
egypcias, dá-nos a descripgão desta arvo- Entre os estudantes da Universidade
re que assim como conta, viu no jardim encontrou a nova bebida a maior aceita-
de um capitão de janisaros. Fôra tra- ção. Tão considerável que, já em 1655,
zida da Arábia Feliz e aqui plantada co- um club de jovens universitários aconse-
mo raridade, nunca tendo, aútes de tal, lhou a um tal Arthur Tillyard, "boticá-
sido vista a crescer em outros logares rio e monarchista" a vender "coffey pu-
Esta arvore, refere ainda Alpinus. é blickly in his house against Ali Soules
bastante parecida com p Evonymiis (Prl- CoUege"
cketimber tree) a cujas folhas são mais Parece que o outro club, composto de
espessas, mais ásperas e mais verdes e admiradores do joven pretendente Car-
sempre verdes sobre a ai-vore". los, reunia-se na própria casa de Ti'lyard
"Á fructa chamam Bana e ella é um e assim continuara tal habito até depois
pouco maior do que a ave ã, mais com- da Restauração de 166i(l.
prida, assim como mais redonda, aguçada Este Oxford Coffee Club foi o ponto
numa extremidade e sulcada em ambos de partida da Ro"yal Society. Mudou-se
os 'lados, embora de um lado mais accen- Jacob, bem mais tarde, para Londres, fi-
tuadamente do que do outro, podendo, xando se em OM' Southampton Buildings.
assim, ser facilmente bipartida. De cada Alli ainda estava em 1671.
lado fica um grão pequeno, comprido e Citando o depoimento de um poeta,
branco, chato do lado em que se encos- Walter, diz Eid Jardin que a grande pro-
tam, coberto de película amarellada, de pagadora do café na Inglaterra foi a in-
gosto acidulado, algum tanto amargo e fanta Catharina de Bragança, rainha da
encerrado em delgada capsula acinzen- Inglaterra, pelo seu casamento em 16 6 22

tado-escura". com Carlos II, Ukers de tal nada fala.


"Com estas cerejas geralmente no Paréce-nos completamente falsa esta ver-
Egypto, Arábia e outras regiões dos do- são pelo simples facto de que nessa
mínios turcos, prepara-se um idecocto ou época era o café totalmente desconheci-
bebida que faz vezes do vinho e é geral- do em Portugal, pátria da rainha.
mente vendida nas tascas daquella gente. Na capital ingleza, o primeiro caló
Chamam-lhe Caova. Paludanus diz Chao- publico foi,segundo parece, aberto por
va e Rauwolfius Chauve". um tal Pasqua Rosée. Como tudo neste
"A bebida tem multo boas qualidades mundo se contesta, até a propósito das
physicas. Dizem que fortifica os estôma- mais insignificantes coisas, cita Ukers
gos fracos, ajuda a digestão, resolve os uma versão diversa a respeito da prio-
tumores e obstrucções do figado e baço, ridade de Pasqua Rosée.
quando bebida ao almoço, durante algum Fox Bourne, em seu The romance of
tempo" tralle, affirma que o primeiro dono de
Que magnifica panaceia descobrira o café londrino foi certo Sir Nicolas Cris-
erudito John Parkinson! Conta-mos que, pe, negociante do Oriente, que comsigo
em 1650, um judeu libanez, por alguns trouxera joven grega, perita preparado-
autores chamado Jacob, e por outros Jo- ra do café. Mas é voz isolada contra a
bson, segundo Disraell. em suas Curlo, legião dos defensores de Rosée que, se-
pítics of litterature (1798) abriu, na gundo parece, desappareceu de Londres
parochla de São Pedro, no bairro orien- para abrir outros cafés no continente,
tal de Oxford, a mas antiga casa de café na Hollanda ou Allemanha.
da Inglaterra. "E alli era o café bebido Ha quem também affirme dever-se o
por aquellcs que apreciam as novidades". estabelecimento de Tim café publico ao
Neste café também se vendia chocola- grande propagandista da rubiacea Sir
te. Harry Blount. Aímundieres logo tam-
"

74

bem apparece como dono de café, e Sua qualidade é ser .fria e secca, em-
isto desde 1660. bora possa ser seccativa. Não aquece
O primeiro café londrino, segundo o nem inflamraa mais do que o posset
antiquário. John Aubray, em 1697, foi (leite com aguardente). Fecha o orifí-
aberto em Newman Court Cornhill, na cio do estômago, augmenta-lhe o calor,
alameda de S. Miguel, mantido por um e assim é muito util á bôa digestão e de
tal Bowman, cocheiro de um sr. Hodgea, muito bôa pratica, se se a tomar ás 3 e
antigo negociante na ITurquia. Datava 4 horas da tarde, como pela manhã.
de 1652. Aviventa os espíritos e torna o cora-
Mas outra versão, a do bibliograpno ção alegre.
William Oldys, fallecido em 1761, affir- B' bôa contra as moléstias dos olhos.
ma que certo Daniel Edwards, negocian- Melhor ainda se mantiverdes a cabeça
ta londrino, viajante da Turquia e ne- sobre ella e recéberdes o seu vapor.
gociante em Smyrna, onde contrahira o insuperável para supprimir os va-
E'
habito de tomar café, trouxera para a
pores. E desfarte bôa contra as enxa-
Inglaterra, da Rússia, jovem grego, ou
quecas. Também detém a fluxão dos hu-
arménio, chamado Pasqua Rosée, que lhe
mores crassos que da cabeça distilam
preparava a bebida.
para o estômago e assim atalha a phty-
Parece que Hodge era genro de Bfl-
sica e a tosse dos pulmões.
wards, que o tal Bowman e Pasqua Ro-
E' excellente para prevenir e curar
sée foram sócios, e depois brigaram.
A este cocheiro chama Porto Alegre, a hydropisía, a gotta e o escorbuto. E'
Kitt, affirmando que depois se estabele- sabido da experiência ser melhor do que
ceu por conta própria, á porta do cemi- qualquer outra bebida secca (não alcoóli-
tério de S. Miguel. ca) para 'gente idosa ou creanças que
Em todo o caso, ha um documento po- tenham humores andantes sobre si como
sitivo a favor de Pasqua Rosée, collec- sejam as alporcas.
cionado no British Museum, o annun- E' muito bôa para impedir abortos.
cio que elle espalhou na capital ingle- E' excellentissimo remédio contra o
za, gabando as virtudes do café e o libei- tédio, accessos de hypocondria ou coisa
lo interessantíssimo que transcrevemos, semelhante. Combate a somnolencia e
como um dos mais notáveis documentos torna os indivíduos espertos para o com-
da historia primeira do café. mercio, se tiverem de fazer vigília. Com-
tudo, não deveis bebél-a após a ceia, a
VIRTUDES DA BEBIDA CAFE' monos que não desejeis ficar vigilante,
porque vos removerá o somno por umas
Pela primeira vez, publicamente pre- tros ou quatro horas. Observou-se que na
parada e vendida na Inglaterra por Pas- Turquia, onde é habitualmente tomada,
qua Rosée. O grão da cereja chamada ninguém soffre de cálculos, gotta, hydro-
coffee, cresce sobre arbustos e somente pisía e escorbuto, e que alli as pelles são
ao". desertos da Arábia. ínegualavelmente limpas e brancas.
De lá é trazido e geralmente bebido, Não é laxativa nem adstringente. Feita
por toda a parte em todos os domínios e vendida em Saint Míchaels, Alley em
do Grão Senhor. Cornhíll por Pasqua Rosée, sob a sua
'E' coisa simples e innocente, apresen- própria rubrica."
tada sob a forma de bebida, depois de Panegyrico mais completo será impos-
ter sido o 'grão secco num forno, redu- sível imaginar-se.
zido a pó e fervido com agua da fonte, Consta, diz Porto Alegre, que os pri-
preparando-se assim cerca de meia pinta meiros cafés, o de Pasqua e o do cochei-
0,lit 1568) que deve ser bebida, passada ro, deram magníficos proventos, o que
uma liora de jejum, não se devendo co- provocou, logo, a albertura de casas simi-
mer uma hora depois. E' para ser to- lares em differentes pontos.
mado, o mais quente possível, quanto S'-;
"Os inglezes começaram a gostar da
possa supportar, o que nunca fará esfo-
nova bebida; o conforto e gozo que en-
lar a pelle da bocca nem causar empolas
contravam nesse género de estabeleci-
em virtude do calor. mento, sem duvida preferíveis ás antigas
Os turcos bebem-n'o a cada momento, cabernas ou botequins, onde só se vendia
no meio e fora das comidas. Para elles
cerveja e bebidas espirituosas, contribuiu
é a agua usual e sua dieta consiste so- niuito para que elles fossem em breve
bretudo em fructas cuja crueza é muito frequentados pelas melhores classes da
corrigida por esta bebida.
sociedade.
75

Contrapondo-se aos enthusiastas e pa- equilíbrio cardíaco, gritavam os contra-


negyristas do café surgiram eruditos in- i'ios . Seu abuso levava os imprudentes até
glezes, abeberados em autores árabes, á II aralysia !

prevenindo os seus leitores dos iperigos Tomado razoavelmente, bradava um


do café, gerador da melancolia, causa- enthusiasta, esclarece maravilhosamente,
dor de enxaquecas e notável emmagre- iliumina as faculdades espirituaes e dis-
cimento". persa qualquer nuvem de qualquer fun-
Uma destas autoridades de antanho, cção.
Poccok, de nome aliás celebrado, decla- *Mas o in médio Tirtus fazia-se ouvir
rava, em 1659, comtudo, que beberia também. Assim, o Dr. James Duncan de-
café "para adquirir vivacidade e comba- clarava, em 1706, que o café, tanto tinha
ter a indolência". dtí panacéa quanto de venenoso, e o
Fosse elle tomado com doces, oleo de illustre George Cheyne proclamava a sua
pistacio e manteiga !
completa neutralidade na questão.
Havia quem o bebesse com leite, mas Em 11660 apparecem-n'os (o café, o
muito mal inspiradamente, porque seme- chá e o chocolate mencionados na legis-
lhante pratica predispunha á lepra (sic!). lação fiscal britannica, como "bebidas
Outro reparador observava que os estrangeiras".
maus effeitos causados pelo café e idên- Marcou-se uma taxa de quatro pence
ticos aos do chá cessaram com a inter- por gallão fabricado 4,54i3) ou seja um
rupção da pratica da bebida. ponny por pouco mais de litro.
Já em 1657, corria um jornaleco, ou Os preços de 1662, citados ipor Ukers,
folicula, fazendo propaganda do café um mostram quanto era o género caro. De
The publick adviser, nome que Ukers re- 4s a 6s 8d. por libra de peso, treze
ctificou, pois os demais historiographos shillings por kilo em medidas de hoje.
da rubiacea haviam escripto Publick
advertiser. Facto interessante, os primei-
Uma libra esterlina só permittia a
acquisição de kilo e meio de pó.
ros preconicios do chocolate, na Ingla-
Verdadeira exorbitância, sobretudo, se
terra, datam de 1657, igualmente no avaliarmos as differenças do poder acqui-
mesmo Publick adviser. Também neste sitivo da moeda, então e hoje. Havia,
anno occorreram as primeiras vendas pu-
porém, cafés muito ma*is baratos, como
blicas de chá.
a Turlue berry, que valia menos de me-
lE o começou a ser preconisado
café tade deste preço enorme, e a East índia
como género pharmaceutico. Cita Ukers berry, que se vendia pela quarta parte.
um electuario, ou Electuary of Cophy, O chocolate era mais barato, 2s. 6d.
datado de 16'57, em que seu inventor, por libra de peso.
Walter Rumsey, incorporou ao seu Orga- A qualidade iperfumosa attingia, po-
nan salutis, recommendando uma mis- rém, preços muito diversos, entre 4 e
tura de manteiga, azeite de salada, mel 10 shillings. Diz Ukers que houve ven-
e pó "of Turkish co.p.hie". das de café, altíssimas, na Inglaterra.
Este Rumsey attribuia ao café virtu- Nada menos de cinco guinéus, por libra
des panaceicas: assim, recommendava do peso, e até mesmo quarenta coroas,
um certo wash-brew composto de aveia, ou sejam 48 dollars !

pó de café, cerveja ou vinho, mel, assu- 'Em 1683, dos cafés pnWicos exigiu-se
car e gengibre. imposto; doze pence por licença e amea-
Coisa curiosa: havia então hastaínte ça de multa de 5 libras, por cada mez
quem tomasse café com mostarda, e qua- de violação da lei. Foram os cafés pos-
si ninguém que o bebesse com íeite ! tos sob a fiscalização real.
E mais curioso ainda, raros havia que O primeiro cafesista que obteve o pri-
o ingerissem, adoçado pelo assucar ! vilegio de se intitular fornecedor da
A campanha pró e contra o café foi Casa Real veio a ser certo Alexandre Man
na Inglaterra activa, desde os primeiros "cofifee man" de Sua Magestade Car-
dias. Assim como continúa a existir, e los II.
continuará, pelos séculos a fóra. Affir- Á vista do augmento de impostos tam-
mavara os moderados, é mais saudável bém subiu o preço dos géneros.
do que grato ao paladar. Começou o café liquido a ser cobrado,
Uma legião de acclamadores se con- á razão \d'e dous pence por tigelada e
trapôz a outra de detractores. Droga de o chá a pence e meio . Qualquer bebida
magico poder contra a embriaguez, ma- alcoólica valia dous pence por porção.
gnifica como saneadora do ambiente, No retalho, o café attingiu a cinco
deodorisadora. Terrível adversário do shillings por libra de peso; já então o
. . . . . . . . .

76

chá lhe levava enorme superioridade, Curioso é lembrar que entre os diver-
cotando-se a 20, e mésmo a 28 libras es- sos preconceitos outr'oira levantados, um
terlinas por libra de peso! ha que se refere ao papel do café como
Asslgnaia Ukers, com a maior proprie- causador da impotência, conta-nos
dade, que á historia da evolução huma- Ukers
na se prende a do café, de modo absolu- Oppõe-se a esta babozeira uma tradi-
tamente notável. Coube aos cafés públi- ção persa que justamente af firma o con-
cos importância social immensa, sobre- trario. O Anjo Gabriel exactamente offe-
tudo como ambiente propicio aos anseios recera ao Propheta café para lhe normall
da liberdade. sar o metabolismo claudicante!
Assim, na Inglaterra, dos annos agita- Na litteratura turca e na árabe occor-
díssimos de Carlos II, em que se marcna- rem a miúdo suggestões de que o uso do
va para a conquista definitiva das liber- café traz a anaphi-odisia e a infecundi-
dades publicas asseguradas pelo trium- dade, ideias que a medicina moderna re-
pho da revolução de 1689, tornaram-se pelle
os cafés locaes de troca de ideias e dis- "Agora sabemos quanto o café estimu-
cussão de princípios políticos, absoluta- la o instincto racial para quem o tabaco
mente notáveis age como sedativo"
"Coffee and common weather came in Cousa interessante vem a ser a col-
together for a Reformation to make a íecção de discos, de metal e de osso, que
free and sober nation", dizia, em 1665, como moeda corriam identro destes esta-
um pamphletarlo E é interessante a Jel-
. belecimentos. Delles Ukers nos dá, tam-
tura do The character of a coffee honse, bém, a reproducção de uma serie de
editado neste mesmo anno, como espe- specimens realmente curiosos, segundo as
lho do ambiente dos cafés. coUecções do Britsh Museum e do Guí!-
Alli se reuniam homens de opiniões aa dhall Museum.
mais diversas e a liberdade depalavra era Multiplicou-se esta moeda de tai modo
concedida em local onde os homens dis- que provocou a intervenção real Assim, .

cutiam livremente. em 1764, appareceu um alvará régio pro-


Em que outro logar succedia cousa hibindo expressamente toda e qualquer
igual? circulação de taes arremedos de dinhei-
Assim, eram os cafés os pontos de re- ro .

união dos debatedores inglezes Não tardou, porém, que nascesse, con-
Sob este ponto de vista os cafés de tra os cafés, formidável opposição, muito
Londres precederam os de Pariz, tão
menos dos médicos do que daquelles que
notáveis também por occasião da grande
vendiam bebidas alcoólicas e vinham
effervescencia, antes e durante a grande
vendo os negócios periclitar ou pelo me-
Revolução.
nos diminuir notavelmente.
Um destes cafés, chamado o "Rota",
alcançou real celebridade no tempo de Desde a Restauração dos Stuarts, em
Carlos II. Era verdadeiro Club republi- 16 60, vemos apparecer as provas dessa
cano, de propaganda activa, e centro de luta movida contra os postos de con-
debates animadíssimo. Parece que delle summo do café. Um dos mais velhos
fez parte o Immortal autor do Paraíso conta-nos Ukers, foi The coffee Scuffle,
perdido datado de 1662.
A principio, nos cafés públicos ingle- Trata-se de um Dialogo entre um ho-
zes, só se servia realmente a infusão ará- mem instruído e um pedagogo digno de
bica. Não tardou que lá também forne- commiseração ^'em que se ridicularisa
cessem chocolate, chá, sherbert. Eram um grupo de puritanos bebedores de ca-
locaes em que persistia o fácies das ca- fé".
sas de temperança e anti-alcoolicas Em 1663 sahiu o poemeto, ou cousa
Após o formidável incêndio londrino que valha, satyrico: A ciiÇ) of coffee, or
de 1666, e a reconstrucção da capital in- coffee in its colour, versalhada niíiito to*
gleza, numerosíssimos cafés foram re- leirona, que chama aos inglezes maca-
abertos Alguns até com dous andares
. cos. Adverte ainda que se a cousa for
É assaz avultada a iconographla, seiscen- questão de moda poder-se-á ver a gente
tista e setecentista, destes estabeleci- britannica comer até aranhas!
mentos. Della nos Aà Ukers preciosos Entre outros pamphletos gaba Ukers
specimens em que além do aspecto dos The character of a coffee houí^e by an
freguezes e dos garçons, se vê como era Eye and Ear AVitness, pamplileto em
o apparelhamento de taes casas dez paginas, que provou como excéllente
. .. .

77

meio de propaganda do café. Acha-o tào A intervenção destes energúmenos,


bem feito, e com tamanha cor local, que toleirões como todos os energúmenos,
lhe transcreve as dez paginas. provocaria um 'dos episódios mais ridícu-
Assim também entende de outro opús- los dos fastos não só ínglezes como dos
culo. News from the Coffee House, da- da Europa Occidental e da Humanidade.
tando de 1G72. Estes livrecos são px'e- Em nome da moral publica e privada,
ciosos porque ilíustram as scenas de revelaram estes sujeitos aos amadores do
costumes ao tempo dos Stuarts, descre- café os perigos a que se expunham cOm
V^do, com pormenores e vivacidade, as a fatal paixão pela beberagem dos in-
scenas que se passavam nos cafés. Mes- fiéis.
tas condições se cita Rules and order of Queixavam-se de que Iam os homens
cofee honise, que data de 167 4. abandonando o lar "cujos prazeres pa-
Havendo Robert Morton publicado, em cíficos e puros começavam a desprezar",
167,0, o seuLines appended to the Natu- frequentanido de preferencia logares de
re, Quality and Mc^^t Excellerite Vertues perdição, onde nào se sabia o que era
of Coffee, foi rebatido em versalhada peior, si o fumo do tabaco, ou a con-
pelo anonymo da A
Broadside Against versa grosseira dos freguezes de taes an-
coffee or the Mariage of the Turk, que tros. Alli arruinavam, além da bolsa, a
passou então por muito engraçado e ob- saúde physica e espiritual, empregando
teve grande divulgação. o tempo em conspiratas contra a segu-
O principal argumento deste ignoto rança publica como até contra a própria
autor é que a bebida fôra posta em moda família
por Pasqua Rosée, sócio de um cocheifõ! Dvidiram-se os sexos em dous campos
Francamente, não compreliendemos extremados e appareceu a cu/riosissima
onde esteja a graça de tal semsaboria. Petição das mulheres contra o café apre-
Mas emfim os gostos variam, de anno sentando á publica consideração os
para anno, e é possível, que as nossas grandes inconvenientes relativos ao sèu
mais finas pilhérias de hoje, sejam den- sexo do u^o excessivo deste lioôr, náo
tro de um século, até incomprehensiveis alcoólico e debilitante.
aos nossos successores As signatárias desta petição impagá-
A questão é de ambiente e época vel, que Ukers deveria ter transcrlpto na
A tal satyra do casamento do turco integra, allegavam que o uso da teriaga
assim termina: "tornava os homens tão estéreis quanto
"Uma pequena tigela e uma grande os desertos onde se dizia ser adquirida
casa de café a idesastrada cereja".
Que vem a ser senão uma montanha e Além do gravíssimo perigo que amea-
um camondongo? çava a natalidade ingleza com este ter-
Mens humana noTitatis ayidissima! rível anti-conceptivo fazendo antever a
A campanha de discredito e de ridí- extincção da nobre nação hrítannica, al-
culo movida ao café não 'deixou, dentro legavam ainda as dignas damas que os
em breve, de ter consequências positi- maridos a quem se commettíam encar-
vas. Muita gente chegou a convencer-se gos domésticos perdiam tempo e dinheiro,
de que a infusão constituía beberagem pelo caminho, detendo-se a bebericar uma
muito e muito nociva a que o® seus ad- ou mais chlcaras pelos cafés!
versários chamava.m ninny broth e Tur- Tratíscreve Porto Alegre um treclio
key gonal. desta petição gaiata
Em 1674 surgiu um requesitorio em "Ella gasta a força viril dos homens,
favor do café: Breve descrlpção das vir- e torna-os tão áridos como as areias da
tudes excelsas dessa bebida sóbria e Arábia, de onde dizem que veio esse grão
saudável chamada café. maldito; se perseverarem nesse gosto
Entrariam dentro em breve em scena funesto, 03 descendentes dos nossos ro-
outros adversários da infusão arábica, bustos antepassados serão dentro em bre-
que não eram nem os médicos nem os ve, nada mais do que verdadeira raça de
Yendedores de bebidas alcoólicas. Vi- pygmeus".
nham a ser rigoristas, os puritanos, Como vemos era tudo isto o echò lon-
sombrios e fanatisados, provenientes da- gínquo da historia, inventada ou não, de
quellas convulsões terríveis politico-rell- Olearlus
gipsas que ha.viam querido dar um fá- Não tardou a replica vigorosa no mes-
cies bíblico á Inglaterra da Graade Re- mo anno, por parte dos sustentadores
volução e de Cromwell. masculinos da bebida arábica: A respos*
. . .

78

ta dos homens á petição das mulheres lho do Helico que se evapora todo em
contra o café, desaggravaudo o seu li- perfumes no ar sereno.
cor da inacreditável aspersão ultima-
Não! terieis para offerecer-lhes, em vez
mente sofere elle lançada em seu escan- do sueco sagrado do vinho mais do que
daloso pamphleto. uma bebida repugnante e sem nome, um
Foi impressa para um tal Paulo Gren- xarope de fuligem e quintessência de sa-
wood e vendida "á loja do moinho ffo patos velhos, que é hoje a companheira
café e do rolo de fumo, em Cloàth faír, diária de um montão de jornaes semsa-
perto de West Smitlifield, que vende o borões,,
melhor café da Arábia em pó, e chocola- Outro curioso é "A broad side
libello
te em bolas e roll segundo a moda hes- agaínst a que
coffee nos referimos:
panhola". "Uma banda de artilharia sobre o ca-
Defendendo a sua bebida preferida fé".
dizia o reivindicador altisonantemente: Referindo-se aos frequentadores de
Quando o suave veneno da pérfida uva cafés verdadeira canalha! escrevia o ano-
Provocara no Globo geral dominação nymo autor de semelhante repositório de
Afogando-nos a razão e a alma sandices: "...Elles ahi se acham todos
Quando a brumosa cerveja misturados, em uma confusão abominá-
Assediava-nos o cérebro vel, puros e impuros reunidos como os
Então os ceus, com o fito de nos animaes da Arca de Noé! Oh! que credi-
curarem to enorme goza esta bebida, que não lia
Manãaram-nos compassivos, gentilhomem que delia não íaça as suas
Para nos tornar sóbrios e alegres. delicias!
Este rico coi-deal qio é o café arábico, Êxito extraordinário, o que fez adqui-
etc., etc. rir tão depressa a um anão as propor-
Entre os antagonistas do café alguna ções de um gigante! E' natural! não
. . .

havia a quem não fallecia certo mérito se pôde ir com a moda, sinão afastando-
"
litterario, observa Paulo Porto Alegre. se da natureza. . .

Um dos mais interessantes pamphletos Não deixaram intimidar, comtudo,


se
então editados vem a ser a A cup of coffeo os defensores do café. Em 1675 appare-
or coffee in its colours (16'63) obra de ceu vehemente libello caffeíphilico: As
vehementissimo energúmeno Delle .
casas de café desagravadas assim como
transcreve Porto Alegre curioso trech-o: a The Ale Wives'complaint agalnst the
"Que infâmia para homens e chris- coffees houses, dialogo entre uma bebe-
tãos, quererem ser turcos á força, e li- dora de cerveja e um bebedor de café.
songear-se oh! consumados macacos
Pensa Porto Alegre que o berreiro dos
inglezes! de justificar o vosso crime di-
inimigos da infusão arábica hajam cau-
zendo que dos Turcos só quereis a sua
sado certo damno á sua divulgação, fa-
bebida! . .

vorecendo a do chá que, justamente, co-


Si algum de vossos dignos avós po- meçava a entrar na Inglaterra.
desse resuscitar, e apparecesse no seio
de vossa companhia, quanido vos achaes Continuavam os paladinos do café
reunidos e allumiados por tantas luzes, a sua campanha de defensiva. Cita o
conspícuo autor brasileiro as seguintes
c ver como vos deleitaes com essa bebida
Incamdescente e semelhante â onda do muito significativas palavras de Hov/el:
Phlegetão, julgaria encontrar em vós "Deve-se ao café certos hábitos de so-
uma sociedade nocturna de conspirado- briedade muito louváveis, que prevale-
res, occupados em confirmar o seu jura- ceram em todas as outras nações. Dan-
mento, tragando taças do mais negro tes, os aprendizes de officios, os caixei-
sangue. .
ros e outros, costumavam almoçar, to-
Não, não sois poetas, não gostaes da mando cerveja, ou vinho, e estes liquides
poesia, nem tão pouco do vinho das Ca- espirituosos os tornavam muitas vezes
nárias. Si os nossos grandes poetas
. . incapazes de trabalhar o dia todo, mas
resuscitassem, Ben Johnson, esse valoro- hoje com esta bebida innocente e esti-
so génio, Beaumont e Fletcher, esses ir- mulante pódem regalar-se e até abusar
mãos não achariam mais aqui
illustres, quanto queiram sem que por isso dei-
uma gotta da fonte de Castália; nada xem de cumprir as obrigações quotidia-
mais encontrariam daquelle divino orva' nas".
79

CAPITULO XIV
Multiplição dos cafés londrinos. A perseguição
policial a elles movida pelo governo de Carlos ÍI
Papel notabilissímo assumido pelos cafés como
ambiente revolucionário sob os
dous últimos Stuarts

Em 1670 crescera por tal £ói-ma o nu- freedom", escreve Hume citado por Jai-
mero de cafés públicos em Lojidres, que din.
já se contavam por dúzias nos mais pe- Prohibia-se, portanto, a partir de 10
quenos quarteirões da cidade. .
de janeiro de 1676, a abertura dos cafés
Dufour relatava, em 1671, que lHe públicos assim como a venda, nestes es-
,

asseguravam existirem na capital britan- tabelecimentos, do grao arábico, do oha


nica para mais de 3.000 casas, cifra exa- e do chocolate. E tudo isto sob graves
gerada, provavelmente. multas.
Mas, já em 1666, pensava o governo de Foi formidável a gritaria contra tal al-
Carlos II em
desfechar forte golpe con- vará. Gregos e troianos contra elle pro-
tra os O seu fito era sobretudo
cafés. testaram num clamor immenso. E de tal
perseguir os frequentadores destas casas intensidade que o fraco Stuart achou me-
sediciosas, "seminários da rebellião". lhor, já a 8 de janeiro, lançar segundo
Em 1672 pedia o Stuart, reposto no rescripto, dilatando o prazo para o fe-
throno do pae decapitado, a opinião, por chamento dos cafés.
escripto, de altos magistrados a respeito apenas era mero pretexto, afim de
Isto
do caso dos cafés onde se reunia muita se o prestigio régio arranhado.
salvar
gente pouco temente a Sua Magestade e Sua Graciosa Magestade, movido pela
aos seus officiaes. compaixão magestatica e as considerações
Escrevendo sobre este caso, entenae principescas, dilatava o prazo até 24 de
Disraeli que tudo isto foi feito sem o junho de 1676.
necessário respeito á constituição britan- Naturalmente o que se queria era ape-
nica. nas dar tempo ao tempo. Escoado o pra-
Demorou algum tempo, nada menos de zo, jamais se cogitou de o renovar.
tres annos, a decisão positiva, final, deste Vinha-se, porém, processando perante
grave caso. Só a 23 de dezembro de 1675 a opinião publica britannica aquelle mo-
ó que o Rei fez baixar a famosa procla- vimento insopitavel de reacção religiosa
mação mandando supprimir os cafés. e constitucional que não tardaria em dar
Mas os motivos allegâdos eram sot/r-j- com os Stuart por terra.
tudo 03 de ordem policial. Affirmava o "Parece, observa P. Porto Alegre com
Rei que, em taes estabelecimentos, sé o maior critério, que aos altivos burgue-
abandava enorme quantidade de ociosos, zes londrinos pouco incommodou o serem
ajuntamento o mais pernicioso. B tam- considerados pelo governo de Carlos H
bém que alli se reuniam muitos nego- como bons ou maus cidadãos; o que de-
ciantes e outra gente do commercio a per- sejavam era que se não attentasse com
der enorme tempo em conversas Inúteis, certo rigor contra o pleno exercido de
esquecidos de obrigações e deveres. sua liberdade, e nisso tinham toda a ra-
Depois disto vinha o punctvun dolens zão, porque discutiam francamente os ne-
verdadeiro motivo do rescripto régio: gócios do Estado, como o devem fazer os
"também em taes casas correm falsos, homens livres.
maliciosos e escandalosos dicterios que Manifestou-se, portanto, uma certa op-
se espalham por fóra diffamando o go- posição, e o governo procurou justificar
verno de Sua Magestade, produzindo as- com desculpas mal cabidas, as medidas
sim a quebra da paz e perturbando o so- que havia tomado. Não sendo, porém, as
cego da monarchia". excusas acceitas pela maioria, começou o
'"iVhere the conduot o£ the King and descontentamento publico a manifestar-
the ministi-y was canvassed with great se de dia para dia com mais intensidade
80

e por tal forma, que, receiando-se dentro ctuario. Alli se debateu e decidiu-se, para
de poucos mezes alguma explosão mais o maior bem dos inglezes de todas as
seria, tratou-se de revogar a interdicção éras, matéria politica de capital impor-
e todos os locaes foram novamente re- tância.
abertos. E como muitas destas questões alli

Esta nova licença foi, poreSi, ainda con- houvessem sido perfeitamente ventiladas
cedida só com certas restricções, ficando
não houve mais necessidade de maior de-
aquelles estabelecimentos sujeitos a uma bate mais tarde.
severa inspecção, e sendo nelles prohibi- A grande pugna em prol da liberdade
da a leitura de jornaes, livros ou pam- politica da Inglaterra travou-se, pois, e
foi ganha no recinto dos cafés.
phletos sediciosos, bem como os discursos
ou discussões que se referissem directa- "Dez annos depois do edicto, e pouco
mente ás autoridade publicas. antes da revolução de 1688, nunca fre-
Estes obstáculos tornaram quasi im- quentou o publico tanto os cafés. O povo
possível aos proprietários de cafés a con- tinha-os até appelidado: Universidade a
tinuação desse negocio, para elles antes vintém, não só porque o café se vendia
tão lucrativos. ahi por uma bagatella, mas, também, por-
Começaram, pois, por serem indulgen- que se dizia que nesses lugares se adqui-
ria, sem grande esforço, instrucção mui
tes para com os infractores daquellas pro-
hibições, e pouco a pouco estabeleceu-se variada", commenta Porto Alegre.
certa tolerância, até que afinal não se Quando, após o ruir do throno do obs-
fallou mais em restricções policiaes." tinadíssimo Jayme II, voltou a paz, os ne-
Commentan3o estes factos, disse An- gociantes de café reclamaram contra o
derson: "Não se sabe bem o que mais se augmento de impostos lançados sobre o
possa arguir a estas duas proclamações género e, em 1692, o governo de Gui-
se maior culpa ou se maior fraqueza." lherme III e de Siaria diminuiu tal taxa-
ção de cincoenta por cento.
E Robinson, judiciosamente, expende:
"Feriu-se e ganhou-se uma batalha, em
Apezar de tudo, a lúcfa prejudicara a
prol da liberdade da palavra, naquelle
bebida da fava arábica, ánnota Porto
tempo em que os Parlamentos eram irre- Alegre, que delia faz decorrer o inicio do
gulares e quando a liberdade de impren-
grande êxito do chá na Old England.
sa ainda não existia."
Extranhavel lapso de memoria commet-
teu o distincto autor brasileiro attribuin-
Para mostrar quanto os cafés repre-
do a Cronwell a perseguição de Carlos II,
sentavam importantíssimo papel no scena-
o que o levou a grave anachronismo.
rio politico inglez seiscentista, lembra
Conclue Ukers~o seu lóTiguissimo capi-
Ukers uma citação de 1677, época de
tulo sobre as casas de café da velha Lon-
enorme exacerbação de ânimos, num tre-
dres cem a abonação de varias citações
cho de vida britannica em que se vinha
notáveis de grandes mestres da littera-
processando a reacção anti-stuartista que
tura ingleza referentes á vida nos cafés
devia encerrar-se com a revolução de
dos tempos da agonia dos Stuarts. Entre
1688. Eevocada pelos nomes celebres de
outros, um quadro brilhante, devido a um
Test, Cabal, etc.
dos maiores nomes das letras britanni-
Naquellas éras de intensíssima agitação cas, o grande Thomaz Babington Macau-
politica,causada pelo governo péssimo do lay, cujo quadro: nm café em 1618 é tra-
sybarita e devasso Carlos II, e pelo de çado com o vigor' habitual ás paginas do
seu irmão o sombrio, arrogante e irredu- mestre autor dos Essays,
ctivb! Jayme II, encarnação da negativi-
Traduziu Porto Alegre este trecho bri-
dade politica, embora sempre coherente lhante:
comsigo mesmo e austero, foram os cafés
"A facilidade que achava o publico em
de Londres como que o fórum onda se poder emprazar-se em qualquer sitio da
debateram os grandes problemas nacio- cidade, e passar agradavelmente a noute
naes.
em companhia de amigos sem que com
Em tom arroubado lembra Ukers que isso despendesse muito dinheiro, foi a
assumiram ares de sanctuarios da liber- causa pHncipal que contribuiu para a
dade. grande voga dos cafés públicos.
"Naquelle período critico da historia Não havia ninguém pertencente á clas-
ingleza, quando o povo, cansado do des- se media ou á alta sociedade, que não
governo dos últimos Stuarts, buscava, ar- fosse todos os dias ao seu café, para ahi
dentemente, um íorum onde as graves saber das novidades do dia, e dlscutil-as
questões do momento poudessem ser dis- com os seus conhecidos^ Cada café tinha
cutidas, o café publico tomou-se um san- um ou mais aradores, cuja eloquência ©ra
81

admirada pela multidão. Dentro em pou- Aqui em um grupo, discutia-se sl não


co se tornaram no Estado esse quarto po- fôra melhor que o Paraíso Perdido tives-
der, que na época presente, é represen- se sido escripto em versos rimados, em
tado, segundo se diz, pelos jornalistas... vez de o ser em versos soltos, alli num
Desde 1675 esses logares não cessaram outro um trovador invejoso petendia de-
de multiplicar-se e de adquirir importân- monstrar que a Veneza Libertada de Ot-
cia cada dia mais considerável. Os estran- tevay deveria ter sido apupada pelo pu-
geiros notavam que Londres distinguia- blico quando Tevada á scena. Em nenhum
se de todas as outras cidades, principal- outro café se encontrava sociedade mais
mente por seus bellos cafés. varia; condes condecorados com a cruz o
Cada habitante fazia de um café como a jarreteira; ecclesiasticos de sotaina; es-
que sua habitação particular, e que, quan- tudantes de direito de Londres; caloiros
do se queria procurar alguém, não se das universidades de Cambridge e Ox-
perguntava si morava em Fleet-Street ou ford; famintos ás ordens de livreiros; tra-
Chancery-lane, mas sim, si frequentava o ductores e fabricantes de Índices, vesti-
Oafé Grego ou o do Arco-Iris. dos de trapos sem pello ne'm cor...
A ninguém era proTiibida a entrada Havia cafés onde os primeiros médicos
nesses locaes, comtanto que estivesse mu- da capital davam consulías. O dr. John
nido de seus dous vinténs para pagar a Ratcliffe, que em 1685 tinha a maior
sua chicara; todavia, cada um delles ti- clientela de Londres, vinha todos os diaa
nha o seu publico especial que o frequen- á hora da bolsa, de sua casa em Bow-
tava, composto de pessoas pertencentes á Street, rua então das mais aristocráticas,
mesma categoria, á mesnfãr'profissão, ou para o café de Garraway, onde sentado a
partilhando os mesmos sentimentos poli- uma mesa reservada, estava sempre ro-
ítcos e religiosos. \ deado de cirurgiões e boticários.
Existiam os cafés do parque St. James Outros só eram frequentados por puri-
onde se reuniam os peralvilhos, cujas ca- tanos; ahi se não articulava a menor pra-
beças empoadas cobertas por espesas ca- ga; cidadãos de compridos cabellos lisos,
belleiras negras ou louras eram iguaes ás discutiam em tom fãnHoso acerca dos
que hoje trazem o Chanceller e o presi- eleitos e dos réprobos da justiça divina;
dente da Camara dos Communs. A cabel- cafés de judeus, onde gostavam de re-
leiravinha de Paris, assTm como todos os unir-se de volta de Veneza ou Amster-
demais adornos tdo gentll-homem . . . dão, cambistas de olharj sombrio; e final-
Rcspirava-se ahi um ar sFraUhante ao mente cafés de papistas, nos quaes, se-
de uma loja de perfumarias. O fumo era gundo affirmavam zelosos protestantes,
proscripto, salvo sob a forma de muito os jesuítas,tomando a sua chicara de
aromático rapé. Si põr acaso algum es- café, tramavam o novo incêndio de Ix)n-
touvado, ignorante do usos e costumes da dres, e fundiam balas de prata para naa-
casa, pedia um cachimbo, a mofa dos cir- tar o rei ...
cumstantes e as respostas equivocas dos Depois da revolução de 1688, operou-
creados davam-lhe logo a entender que se uma mudança considerável nos costu-
o melhor partido a tomar era retirar-se. mes; entre outras consequências publicas
Pouco também se abalava com isso, qué dahi resultaram, a diminuição na fre-
porque dahi a poucos passos encontrava quência dos cafés foi uma delias, todavia
logo outro café onde entrava, o qual muito menor durante o século XVIII que
como quasi todos, se achava também in- no fim do precedente. Parece que outróra
fectado de espessa fumaça, como a que eram os inglezes muito mais sociáveis
se sente dentro de um corpo de guarda, que não affectam sel-o hoje, pelo menos
a ponto tal que, os estrangeiros se admi- gostavam mais de reunir-se e divertir-se
ravam de ver tánta gente decente deser- em lugares abertos a todo o mundo, como
tar do domicilio para mergulhar em at- por exemplo nos cafés.
mosphera tão densa e pouco aromática. A maior parte destes estabelecimentos
Em nenhum outro, porém, se fumava tinham, é verdade, sua clientela parti-
tanto quanto no café Will. Este celebre cular, escolhida dentre esta ou aquella
estabelecimento, situado entre Covent- classe social; mas depois julgou-se mais
Garden e Bow-Street ,era como que um conveniente segregar-se do resto da socie-
templo litterario. Ahi se tratava de con- dade e tomar cada qual a sua chávena de
veniências poéticas, e das summidades do café em sua própria casa, ou então se-
tempo e da terra. Entre os frequentado, questrar-se no seio dessas sociedades par-
res habituaes havia o partido de Perrault ticulares a que hoje chamam clubs, onde
o dos modernos, e o dô Beileau o flos só se admittem pessoas de respeitabili-
antigos. dade incontestável."
82

CAPITULO XV
Os primeiros cafés londrinos. Causas da restricção
do consumo do café na Grã-Bretanha

Consagra William H. Ukers longo capi- Coffee House em Exeter, uma das cidades
tudo de seu AU about coffee ao histórico de arte da Inglaterra. E' agora frequen-
dos velhos cafés londrinos, perto de qua- temente occupado para exposições artísti-
renta paginas de grande formato em duas cas e tem bella tradição. Basta lembrar
columnas, profusamente illustradas. De- que alli se reuniam, para fumar, os mais
vem ter-lhe dado notável trabalho a com- velhos fumantes da Inglaterra os com-
í-

por. panheiros de Sir Walter Raleigh! o Ixo»


De sua leitura fica-nos a inilludirel im- mem do El Dorado.
pressão de quanto teve de se esforgar
por Desde os primeiros tempos do con-
de
conseguir a condensação desta massa summo começaram as falsificações do ca-
informes dentro de moldes assaz restri- fé ou foram lançados diversos succeaa-
ctos. E com respeito pelo labor
profundo e neos da bebida arábica.
erudito e o esforço notarei da pesquiza do- Refere Ukers os nomes de varias dessas
cumental sauidamos o monographista que beberagens entre outras, uma, de ivi»,
o realizou. cujo triumpho rápido impressionou o pu-
Enceta Ukers tal estudo lembrando blico: o saloop, feita com sassafraz e as-
esta phrase de Disraeli: "a historia dos sucar e motivada pela alta excessivo do
cafés, muito anteriores á invenção dos café. Basta dizer que então chegou o grao
clubs é a dos costumes da moral e da a 7 Bhillings por libra, quinze por kllo
politica de um povo". moderno! Tal a importância da industria
Grande numero de paginas, consagra dos cafés que a classe destes botlquiuei-
depois ao anecdotario das velhas casas ros chegou a tornar-se arrogantíssima,
de café de Londres, historias referentes pretendendo a sua corporação, em 1729,
a homens celebres como o graride lexi- nada menos do que um monopólio jorna-
cographo Samuel Johnson (1709-1784), listlco, com a publicação de sua projecta-
David Carrick o notabillssimo actor, etc. da Gazeta dos Cafés.
Mas como estes casos escapam e de longe Tão esdrúxula proposta causou geral ir-
ao nosso escopo não os recordaremos. risão, é inútil querer lembra-lo.
Por todo o final do século XVII, e Assim como em França, vários nomes
grande parte da centúria seguinte, pros- immortaes se prendem indissoluvelmente
peraram os cafés londrinos, instituições á historia do café, conta a bebida arábica
de temperança a se contrapor a;0 ambiente entre os seus adoradores inglezes, appel-
desagradável e deprimente das tabernas lidos do mais alto relevo, e desde o século
alcoólicas". XVII.
Havia ali muito barulho, muita alga- Um dos nomes mais illustres da phy-
zarra mesmo, muito tumulto mas nunca siologia de todos os tempos, o de um pre-
ultrajes á descenda. E como os preços se cursor immortal, é certamente o de Wil-
alteiassem de mm penny a dous pence, por liam Harvey, o descobridor da circulação
tigelada, e o consummo crescesse enorme- sanguínea, como nenhum homem media-
mente, viram-se os cafés forçados a pre- namente culto pôde ignorar.
parar a bebida em grande escala em potes Consta que, muito antes de haver ca-
de oito e mesmo dez galões (quarenta e fés públicos em Londres, era elle grande
poucos litros). bebedor de café. Isto já antes de 1652.
A National Re^ew affirma que, em Diz John Aubrey, em suas Lives of emi-
1715, havia em Londres dous mil cafés nent men (1813): "Tinha por habito to-
mas já Dufour, em 1683, garantia que el- mar café, assim como seu irmão Eliah,
les eram 3.000 o que Ukers acha exag- antes que os cafés estivessem em moda em
gerado. Lonjdres".
Rapidamente conquistaram os cafés pú- Já em 1701 Houghton falava do- "ramo-
blicos toda a Grã Bretanha adoptando o
so inventor (sic!) da circulação sanguí-
typo do estabelecimento londrino de que nea, o Dr. Harvey, de quem, dizem alguns,
dá Ukers pittoresca gravura da Mo11'b fazia do café uso frequente".
. !

83

B como haja o imortal physiologista ficado erróneo da palavra, em árabe, a


fallecido aos 79 annos, foi o primeiro saber: força.
exemplo vivo de que o café nao é de to- Podia ser o licor arábico um succeda-
do o apregoado adversário da longevi- neo barato dessas bebidas enervantes tão
dade, como mais tarde Fontenelle com- correntes na Inglaterra, como o chá, e ou-
provaria de modo mais estrondoso ainda, tras, que produzem o habito pernicioso da
pois morreu centenário, com 85 annos de bebericagem.
xxso intenso do licor. Lembra Ukers, ainda, entre os mais ve-
Samuel Peppys (1633-1703), através do lhos botânicos inglezes: John Ray (1628-
seu diário celebre, traçou precioso retrato 1704), que passa por ter, em sua Univer-
dos costumes do seu tempo. Grande gas- sal History of Plants, sido o primeiro a
tronomo, nelle' lião se refere ao café se- exaltar as virtudes do café num trata-
não raramente quando descreve, pormeno- do scientifico, sabendo-se que R. Bra-
rizada e largamente, os cardápios com qao dley, professor em Cambridge, publicou,
Be banqueteou, prova de quanto era a be- em 1714, uma monographia intitulada A
bida ainda pouco asada na Inglaterra ae short histórica! account of coffee, de que
seu tempo. não ha mais vestígios.
Entre os grandes propagandistas In- Mais feliz foi o Dr. James Douglas que,
gleses do calé no século XVIII, occorrem em Londres e 1727, publicou uma Arbour
alguns nomes dos mais celebres da litte- Yemensis fruetum cot'e ferens or a des-
ratura universal, assim, por exemplo, o cription and history of the coffe tre© com-
immortal autor de Gulliver, Jonathan pilação de autores francezes e árabes, aliás
Swift (1667-1745), o poeta inesquecível Entre os supersticiosos e desde data por
de tanta obra perfeita, Alexandre Pope assim dizer immemorial, nasceu um pro-
(1688-1744), o grande dramaturgo e no- cesso divinatorio, por meio do exame do
bre moralista Addison (1672-1719), o café.
lllustre philosopho e orador whig, escossez
Mais uma maneia
a se ajuntar a essa se-
James Mac latosii (11675-1832). rie illimitada de processos designados por
Tão fanático do café era este bomiCm de tal desinência da chiromancia e da necro-
estado, refutador das accusações de Burke mancia, á cartomancia, a rhabdomancia, A
á Revolução E^anceza, nas famosas Vin- hydromancia e quejandas babozeiras de
dictae Gallicanae, que costumava af fir- que se não liberta a pobre Humanidade,
mar: a capacidade Intellectual de um crédula e engodavel.
pensador afere-se pela quantidajde de Na Inglaterra de princípios do século
café que toma". XVIII encontramos echos de tal bruxedo.
E, facto curioso, seu condiscípulo Ro- Refere Ukers que, em antiga revista m-
bert Hall (1764-1831), celebrado orador gleza, datada de 1731, ocorre um proces-
sacro, o níesmo dizia do chá. Neste terre- so divinatorio por meio do pó de café na-
no, eram os dois grandes amigos irrecon- dando numa chicara!
cilliaveis.
Entre os maiores apologistas da bebi-
E assim descreve a tal revista òs pro-
cessos da cafemancia em que opera a
da do Extremo Oriente, nesse tempo, ci- cafemante, sentada entre uma viuva e
ta;m-se os notáveis hellenistas e archeo-
umas raparigas novas.
logos Parson e Parr, Samuel Johnson, o da
Assegurava a bruxa, exploradora
famoso critico philologo e orador (1709-
boa fé alheia, que, no fundo da chicará
1784) que, em seu celebre club, a que se retraçava a mais fiel indicação do
frequentavam muitos homens eminentes, futuro, expressa com a mais exacta clá-
fazia calorosa propaganda do chá.
reza
Swift deixou-nos, em diversas oFras, nu- Reproduz Ukers interessante annuncio
merosas referencias ao gosto pel& ca- relativo á chegada, em Dublin, de certa
fé. Em sua correspondência são estas cita- cafemante vidente, uma tal Mrs. Cherry
ções continuas, sobretudo nas numero- "única e famosa especialista realmente
sas cartas escriptas a Esther (Vanessa) versada na sciencia occulta da agitação
Vanhomrlgh. do pô de café".
Ainda por volta de 1785, notável me- Já estivera na capital irlandeza e pa-
dico e membro prestigioso áo College of ra maior satisfação de sua clientela de
Physicians o Dr. Benjamin Moseley, lem- consultantes sobretudo femininos esta-
bra Ukers, recommendava o uso intenso va novamente & disposição dos aens
dc café, associando tal ideia a um signi- fieis . ,
'
,
. .

84

O prego da consulta mostrava-se es- grande affinidade entro este e o chá!.),


pantosamente módico: uma onça de p6 não ae deve de.sprezar de todo a segun-
de café por 'cliente (cerca de 29 gram- da, apreciando-se algumas sandwichos
mas) geralmente mais com chá do que com
Nada nos diz Ukers sobre a procedên- café
cia da tal Cherry, cujo ministério,
Mrs. Julgamos porém que naqueUa mudan-
a nosso ver, representa a demonstração ça influiu muito também a rivalidade
da influencia da magia oriental no mun- mercantil; das duas grandes Companhias
do Occidental, pois o processo de adivinhar das índias Orientaes predominou cedo
o íjuturo pelo exame do café é antiquís- a ingleza no commercio do chá e a hoUaa-
simo no Oriente. deza no do café.
Km S. Paulo em nossos dias appare- Nada mais natural que a Inglaterra
ceu uma turca, não syria, que o prati- nessas condições importasse gradualmen-
cava angariando com os seus bruxedos te mais chá, acostumando se o povo ca-
rendosos proventos da clientela de to- da vez mais a elle, juntamente com a
leirões e curiosos. Rússia, que recebia o chá da China, desde
Commentando a singular reviravolta meados do século XVII, por via terre.stre,
da gente ingleza, o abandono do café, ligou-se depois a Grã-Bretanha, ás ter-
tão auspiciosamente propagado na i^ra- ras de chá", quer dizer, essencialmente
Bretanba, pelo chá, escreve Porto Ale- consumidoras de chá que a abrangem,
gre em 1878: além desses dois paizes europeus, a gran-
"Durante o século XVIII, em quanto os de massa da Asia, sem sua parte maho-
cafés públicos viam diminuir dia a dia Hietana a sudoeste.
a voga que tiveram relativamente ao sé- Exceptuando ainda a Espanha onde
culo precedente, a infusão do café, con- prevaleceu o uso do cac-io, o resto da
siderada debaixo .do ponto de vista ali- Europa adheriu ao café, tormaudo com
mentício, cahlu em uma espécie de ma- os pai7.es do Oriente as "terras do café".
i-asmo entre a população londrina; o ca- Confirma Ulters este modo de ver di-
fé e o chá foram introduzidos quasi na zendo que a Companhia ingleza "estava
mesma época em Inglaterra; no princi- muito mais interessada no chá do que
pio obteve aquelle a preferencia, mas no café" quintuplicando a importação de
foi sendo gradualmente supplantado por chá para Inglaterra, desde os princípios
este, por ter sido considerado, que o ó até os meados do século XVIII.
ainda, co'mo o mais apropriado ao tem- No entanto tão importante fora á en-
peramento do povo inglez, essencialmen- trada do século XVIII, o commercio ca-
te sanguíneo. feeiro que o governo pensara em estimu-
Exceptuando a França, na Bélgica, na la-lo, de todos os modos em auas coló-
Suissa, e em outras regiões da ALlema- nias. Já em 1730 se iniciara a planta-
nha, o café com leite occupa um logar pro- ção de cafesaes, na Jamaica. E com ta-
eminente na alimentação habitual ás manho lucro que, dois annos mais tar-
emquantó na Inglater-
classes laboriosas de, o Parlamento diminuíra, notavel-
ra não succede o mesmo: ahi o traba- mente, as taxas de importação sobre os
lhador sustenta-se principalmente de car- cafés daquella procedência.
ne de excellente qualidade, e o chá que "Parece que os francezes da Martini-
toma com ella é por elle apreciado por ca, Hispanioia (Haiti) e da Ilha Bour-
causa de suas propriedades estimulantes, bon, perto de Madagáscar, tiveram certo
dando pouco apreço ao café puro ou mis- alarma com a apparição do novo produ-
turado ao leite" cujas qualidades nutri- cto inglez nos mercados, assim como os
entes sõ po~dem ser multo mais úteis hollandezes de Surinam, embora nin-
áqiuelles que não têm uma alimentação guém, até então, houvesse encontrado
tão substancial como a delles". café igual ao da Arábia, de onde proce-
Ia porém augmentando gradualmente dia o cafesal do resto do mundo".
o uso do café com leite no Reino Unido Escrevia isto Adam Anderson, como
e suas colónias. que visando irritar os rivaes do commer-
Reportando-se a esta decadência do cio inglez por meio de louvores relati-
café entre a gente britannica commenta vos.
Padberg: Commenta Ukers:
Sem darmos valor á primeira razão "O café de Java leaderava então os
(pola não prima de certo o Britanno pe- mercados e as sementes do Bourbon-
lo temperamento sanguíneo, nem vemos Santos se multiplicavam rapidamente no
.

85

Brasil. E' a affiiunativa falsa, por mul- em prol do chá. Tão intensa, e tão bem
to antecipada. Que era, em 1787, o ca- conduzida, que alcançou resultados es-
fesal do Brasil? Praticamente zero. Nâo plendidos.

haveria exportação quiçá de dez mil ki- Assim, se entre 1700 e 1710 a entra-
los annuaes. B' o café do Bourtoon entre da das folhas do thea sinensis, nos por-
nós muitíssimo posterior ao creoulo, só tos inglezes, fôra de 800.000 libras, j&
entraria em scena com vigor nas lavou- em 1721, só neste anno nada menos de
ras brasileiras, na segunda metade do sé- 1.000.000 de libras entrava.
culo XIX. Em 1757 subia a importação a 4 mi-
Assim, depois de tão brilhante estréa
'

lhões de libras! Estava ganha a partida.


no ambiente commercial inglez, soffreria
E quando, afinal, o café succumDiu, en-
o café, ainda no século XVIII, enorme
contrava-se o chá francamente incorpípraido
e inexplicável recuo. Ter-se-iam modiíl-
aos costumes britannicos, a ponto de se
<Kido os gostos do publico inglez ao ponto
tornar a bebida nacional do povo inglez.
de provocar tão notável reviravolta?
Explica Ukers este caso pór meio da Pensa Ukers que outro feitio de evolu-
actuação enérgica da British East Indlia ção dos costumes veiu aggravar a situa-
Company, a poderosíssima organização po- ção do café: a tendência para o club e
litico-militar-commercial que é a mais ce- a aristocratizáção dahi decorrente, o café
lebre de todas as empresas do género, publico começou a retrogradar, passando,
MOS annaes do Universo. dentro em pouco, ao nivel da taberna"
Sentindo escapar-lhe o commercio do E, assim, o setecentismo inglez, que
grão arábico, graças á concurrencia fran- vira os cafés no apogeu do seu Driino,
ceza e hollandeza, encetou a Companhia também ainda presenciou o seu declínio
das índias Orientaes enorme gFõpaganda e ruina.
86

CAPITULO XVI
A propagação do café em terras do Império
Germânico e escandinavos. Perseguição a elle
movida pelo Grande Frederico
Para a da propagação do café
Jiistoria berg, em 1696 (Ukers), Augsburgo em
em germânicas entende Padberg
terras 1713 e Berlim só em 1721. Aponta Pad-
aúe Ukers é por vezes inexacto. Guia berg outros elementos para esta resenha,
muito mais seguro vem a ser Hartwich- Dantzig e Wittenberg (1700), Stuttgart
Paulo Porto Alegre. (1713).
Cabe á AUemanha uma honra singu- Conta o erudito escriptor que, ainda
lar: ter feito Bahir dos seus prelos a pri- hoje, na grande cidade dos livros, que é
meira referencia á bebida da infusão ará- Leipzig, vê-se o velho prédio do primei-
bica.É a de Rauwolf, em 1582, na sua ro café publico, o da Pleischergasse, em
famosa viagem a Aleppo. cuja taboleta se inscreve: Casa do ca-
Já nos referimos aos depoimentos de feeiro arábico. Por cima da verga da
Olearius em 1637 e de João Alberto vou porta, esculpido em pedra, rê-s© um turco
Mandelsloh em 1637. deitado á sombra de um cafeeiro e rece-
Pensa Ukers que, pelos annos de 1670, bendo, das mãos de um menino, a chi-
é que se começou a beber café no Ini- cara de café.
perio. Mas contra esta opinião invoca Escreve Paulo Porto Alegre: "A sua
Padberg, e com 'carradas de Tazão, as taboleta em pedra esculpida, foi outróra
duas cartas de van Smiten, em que se ricamente dourada, presente que lhe fi-
fala da introducção do café em Leipzig e zera o eleitor da Saxonia Frederico Au-
Merseburgo, já em 1657. gusto, como lembrança, e em signal de
Na côrte dos Eleitores de Branden- reconhecimento, pelo prazer que teve
burgo tal habito data, ao que parece, de quando ahi bebeu café, pela primeira
1675. Reinava então o famoso Gross- vez, em sua vida.
Kurfúrst Frederico Guilherme de Hohen- Plantaram-se, também, como objecto
isollern que, com tanto enthuslasmo, re- curioso, pés de cafeeiro nas estufas de
cebeu os francezes reformados e expa- Leipzig. Importados de Amsterdão, um
triados graças á revogação do edito de de seus exemplares deu em 1723 frutos
Nantes. Grande protector do commerclo, muito bonitos."
das sciencias e das artes, cheio de curio- Em 1721 Frederico Guilherme I, se-
sidade pelas cousas exóticas, é provável gundo rei da Prússia, seguindo os exem-
que o Grande Eleitor apreciasse e favo- plos de seu avô, o Grande Eleitor, con-
recesse o uso do café. cedeu a um estrangeiro o privilegio de
Mas, allega Padberg, que em terras manter um café na sua capita/l, isento
germânicas, nesta época, devia o licor de impostos.
oriental ser conhecido nas casas ricas ou Tinha o nome de Café Inglez e devia
aas boticas. Já em 1666 em Frankfurt proceder do de Hamburgo. Não sabemos,
se imprimia a dissertação de Petersen porém, se o Rei Sargento, pessoalmente,
D© potu coffi. se interessava pela bebida. Provavelmea
No Norte da AUemanha entrava o gé- te sim, pois dahi talvez decorresse o
nero pela via de Hamburgo e influencia gosto do filho, o grande Frederico, um
de Londres. Na cidade hanseatica abriu dos maiores bebedores de café do sé-
um mercador londrino o primeiro café culo XVIII.
publico em 1679 ou 1680. O immediato, Durante muitos annos o abastecimento
escreve Padberg, data de 1687. do café da AUemanha septentrional fez-se
O segundo café do Império Germânico, por via do commercio hollandez. Na AUe-
no dizer de Ukers, surgiu em 1689, em manha do Sul as procedências eram ita-
Ratisbonna. Padberg emenda esta data lianas.
para 1686, anno em que também se abri- Multiplicaram-se os cafés berlinenses o
ram cafés em Nuremberg e Praga. A se- abriu-se um até frequentado sobretudo
guir vieram Leipzig, em 1694, Nurem- por judeus, o de Spandauer strasse. Sob
87

o reinado do Grande Frederico havia (1730 S. P. Hilscher De abusa potus


pelo menos em Berlim uma duzia da caffee in sexus equiori (lena 1727) Meiss-
cafés. Nos subúrbios da capital prussia- ner De caffe anacrisis medico-historico
na vendia-se a bebida em barracas am- díaetfttica (Niiremberg) etc. etc. E' a
bulantes. lista enorme na bibliographia de Ukers.
Já em 1707 apparecera em Leipzig um B nesta litteratura se encontram opi-
periódico sobre o café. Editou-o um ita- niões as mais estapafúrdias. "Conta-se
llano chamado Theophilo Giorgi e era que entre outros, adduz Porto Alegre,
um órgão reclamista do commercio. Pare- Frederico Hoffmann, um dos mais ilius-
ce que Giorgi pretendia estabelecer, na tres dentre os médicos desse tempo, fal-
grande cidade capital intellectual da lecido em 1742, e a quem se devem as
Saxonia, um café litterario no género dos famosas e conhecidas gottas desse nome,
de Veneza. pretendia que o uso excessivo ida bebida
Intitulava-se A nova e curiosa casa de exótica tinha produzido o desenvolvimen-
café, outrora na líalia e agora na AUe- to de uma nova enfermidade na Euro-
manha. pa: chamada febre militar.
a
Neste jornaleco havia chronicas indis- Com o augmento do consumo encare-
cretas sobre as passadas dos elegantes e ceu o café, começando os pobres a re-
pedantes que frequentavam certa Tns- clamar. E ouviram conselhos como este:
cnlum, casa 'de um ricaço nos subúrbios "o café é mau para vocês". Muito me-
da cidade. lhor que o não tomem, tanto mais quan-
E' interessante o que Ukers refere des- to provoca a esterilidade".
ta folicula. O tal Giorgi fazia praça <le Bomconselho para proletários!
um nacionalismo que não era o seu, de- Numerosos médicos começaram a fa-
monstração evidente de metequismo. As- zer propaganda contra a nova bebida, ba-
sim escrevia: tendo num argumento, a seu ver formi-
"Eu sei que a gente de bôa roda fala dável: a mulher que delia fizesse uso
francez, italiano e outras linguas. Sél devia renunciar aos gozos da materni-
também que em muitas reuniões para chá dade.
« café tem-se como obrigatório o em- A'3 luctas entre correntes da opinião,
prego do francez. E ser-me-ia permitti- relativas á introducção do café na Alle-
do pedir aog que me procuram que não manha, consagrou Basilio de Magalhães
empreguem outra lingua que não o álle- uma pagina nova de suas magistraes con-
mão? Somos todos allemães, estamos na tribuições á edição d'" O Jornal,, comme^
Allemanha, porque não nos conduzire- morativa do segundo centenário de 1727.
mos como legítimos allemães?" "Na terra dos Niebelungen, das Wal-
Em 1721 Leonardo Meissner publicava, kyrias é que o café tinha de soffrer ain-
em Niiremberg, o primeiro trabalho real- da mais escandalosas contrariedades do
mente extenso sobre o café, chá e choco- que na Inglaterra. Accusaram-no primei-
late, escripto em lingua allemã. ramente as mulheres de que elle tornava
Na segunda metade do século XVIII o impotentes os homens. Arguiram de-
. .

café conquistou os lares germânicos sup- pois 03 homens de que esterilisava as


plantando a sôpa de farinha e a cerveja mulheres . . .

quente ao almoço. Como foi que se radicaram em cére-


A' introducção do café também assi- bros tão reflexivos, quaes os tudescos, fic-
gnalaram, em terras aUemãs, medidas ções tão injustificáveis e tão estúpidas?"
de resistência. Acompanhava a opinião Protesta Padberg contra a supposta in-
publica as discussões travadas em Fran- fluencia exercida em sua terra natal,
ça, sobretudo na ciasse medica, acerca da
pela lenda de Olearius. Corre por conta
valia ou desvalia da infusão arábica. de Ukers tal asserção, pois segundo a
Grande numero de folhetos e opúscu- realidade histórica nunca se tomou a se-
los discutiram a questão da sua innocui- rio,entre allemães, tal gravame assacado
dade ou nocividade. ao café.
Nestas condições se acham os palan- Continua Basilio de Magalhães, aliás
frorios de Camerarius (B) Usum et abu- em termos nem sempre muito castos, seja
sam potnm Thee et Coffe (Tiibingen, dito entre parenthesis.
1694) Braeninger De potus caffé usa et "Quanto a exercer o café acção ana-
abnsn (Erfurt 1725) o Tratado do café e
condemnação do seu utso, obra de Fran-
frodisiaca no sexo forte, o que apa- —
vora, e com sobeja razão, as angélicas
cisco Ernesto Bruchman (Brunswick, donzelas e donas da nevoenta Albion e
1727) Grimann Depotns coffe nsu noxio da bellicosa Germânia —
é muito pro-
.

88

vavel hajam ellas dado credito a um clamara que este escandeia o sangue ás
pessoas robustas "a ponto de as levar
a
certo Adam Olearius".
Depois de explicar o que dissera o ta- commetter execssos, muitas vezes offen-
moso viajante, continua o autor brasi- sivos á moral publica".
leiro :
A um grande musico, Johann Sebas-
tian Bach (1'685-1750), estava
reservado
"Até no Velho Testamento escaraíun-
o mais efficaz patrocínio da causa
do
charam, então os exegetas e hermeneu-
tas da Teutonia circumstaneias aggravan- café, periclitante na AUemanha. Quando
tes para a condemnagão do café. chegara ao apogeu o maior gravame con-
Quando David, o feraeeiro pae do mais tra a saborosa bebida, — isto ó, o de pro-
— com-
femeeiro autor do "Cântico dos cânti- duzir esterilidade nas mulheres,
cos", tentou, sem motivo plausível, ex- poz a "Coffea Cantata (n. 211 das sua»
terminar a Nabal, seu visinho, teve a es- Cantatas profanas), a qual foi publica-
posa deste, a formosa e astuta Abigail, o da em Leipzig por volta de 1732.
bom senso de apaziguar o rei judaico, Tornou-se conhecida pelo verso
ini-

com fortes presentes em que figuravam cial: "Schweigt stile, plaudert nicht".
e
uvas e figos seccos. Vulgarisou-se cora assombrosa rapidez
Acalmou-se, de facto, o adultero sedu- veio a ser o hymno tudesco da
rubiacea,
ctor de Bethsabé, e venerando escriptor porquanto o "leit-motif" dizia que o café
tudesco, publicando em 1700 um traba- beijos e
assucarado era melhor que mil
lho intitulado "De novis inventis" (Lei-
mais doce do que o vinho Moscatel:
pzig), esforçou-se por demonstrar, tor- mais
Jorrou ainda da sapiência allemã
cendo a seu falante o vers. 18 do cap. alguma cousa contra o café, anaphroQi-
XXV do livro I dos "Reis", que o cafe siaco e "abelparentesco? Sim".
estava comprehendido entre os dons de Contra esta asserção lavra Padberg
Abigail a David, e isto, talvez, para esca- A seu ver a Cofie
formal contestação.
par-se-ella da lubricidade do rei harplsta,
cantata do immortal autor da Paixão
se-
pelo effeito já então attribuido a tal be-
gundo São Matheus e tantas obras pri-
mas mais, "em nada manifesta ser um
bida .

Navegando-lhe até certo ponto as mes-


protesto contra tal gravame e desvario".
mas aguas, o seu compatriota E. E.
Curioso é que um notável bebedor do
Geyer fez sahir dos prelos em 1740 a de re-
café, como o Grande Frederico,
memoria "An potus café dicti vestigia in pôr entraves ao que
pente se puzèsse a
Haebreo sacra© scripturae codtlce repe-
riantur" (Wittemberg) na qual cogitou tanto apreciava.
igualmente de provar que a "coffea ará- Verificara quanto o augmento do con-
bica" já se achava escondida nos textos sumo produzia grande exportação de
bíblicos" moeda, prejudicando a balança commer-
Referindoise á ridícula historia da rai- cial prussiana.
nha da Pérsia e *do cavallo castrado, es- Verdade é que então andava o grão
creve a zombar o douto autor mineiro: sobremodo caro. Ao mesmo tempo re-
"O berço de Zarathrustra causou, por ceiava que a concurrencia prejuidicasse, e
certo que involuntariamente, um grande muito, a indústria cervejeira.
mal ao café, porquanto lá é que busca- Não deixava a medida de no fundo ser
vam os pérfidos antagonistas deste as justa, observa Padberg, pois emquanto a
peiores lendas e abusões que o prejudi- Hollanda, e também a França © Inglater-
cassem. Parece-me que também influiu ra, já dispunham do café de suas coló-
consideravelmente no espirito crédulo nias, lucrando bastante com o commercio
das "frãulein" e das "frauen" do século desse artigo; a Allemanha, sem colónias
XVII e começos do XVIII a divulgação e sem navegação oceânica de vulto, tinha
da anecdota, quiçá de origem franceza, que despender notavelmente com o
"que como todas as pilhérias picarescas, café com prejuízo da sua producção in-
se diffundia rapidamente pela Europa, terna".

culta. "Cumpre saber que, antes da adopção


Foi pena que o mulherio da Deutsch- do café, o povo consumia principalmente
land em vez de dar credito a bufonaíTãs sopas de cerveja, de farinha ou pao,
desse picante quilate, não acatasse antes papas de aveia ou cevadinha, etc, jâ
a asserção do anonymo escriptor egypcio para o primeiro almoço, para a merenda
citado por P. Porto Alegre que, conhe- e ainda para a ceia. Substituiu-se Isto,
cendo em si próprio e observando nos quasi geralmente, por café 'com leite, to-
outros mortaes as virtudes do café, pro- mado com pão e manteiga, de maneira
89

aue "Kaffe" veiu a designar Bimplesmen- Semelhantes documentos, e sua lingua-


te o primeiro almoço e a merenda. gem, provam o modo enérgico peio quai
Comprehende-se assim a perda soffri- sempre se decidiram na Allemanha as
da especialmente pelas cervejarias, cal- cousas publicas."
culada no anno de 1778, para o Bran- Contrariava o rei um pendor já verda-
denburgo, em 60%, além de que saniam deiramente nacional, observa Porto Ale-
então da Prússia, segundo indicação orn- gre ainda.
cial, annualmente, pelo menos, mais de Os allemães gostaram sempre muito
700.000 talers, vários milhares de contos de café com leite. Desde o começo do sé-
de réis, para a paga do café importado. culo XVIII que o usavam, e nessa época,
A 13 de setembro de 1777 promulga- como ainda hoje, as senhoras costuma-
va-se o rescripto do grande rei da Frus- vam reunir em suas casas suas melhores
sia, a quem Augusto Comte conferiu a amigas para, tomarem café com leite e
honra insigne de dar o nome a um dos biseoutos, e conversarem em toda a inti-
-treze mezes do seu calendário da Hu- midade.
manidade. Mas pouco durou isto. JNem todo o
rigor da disciplina prussiana conseguira
Fazia Frederico II saber aos povos de
abafar o surto da cafeiphilia á vista do
B6US reinos e senhorios: "Ê desagradá-
vel publlcar-se o que tem sido o cresci-
que em 1781, e a 21 de janeiro, achando
quanto haviam sido Inúteis os seus es-
mento úo consumo do café entre meus
forços para a aristocratização da bebida,
súbditos e qual a exportação de dinheiro
resolveu Frederico crear um monopólio
do paiz por elle motivaída."
régio prohíbindo a torração de café a
Todo o mundo hoje consome caíé e se não ser em estabelecimentos da corOa!
fôr possível tal tendência precisa ser re-
Só admittia excepções para a nobreza,
formada. Deve meu povo toeber cerveja.
o clero e a offícialidade do exercito.
Fui creado com cerveja e assim também
Subiu immenso o preço do café. Com a
meus avóB e seus officiaes. Muitas bata-
prohibíção, dahí auferiu Frederico quan-
lhas foram pelejadas e ganhas por sol-
tiosos proventos. Passou a ser como que
dados alimentados por cerveja e não creio
que soldados bebedores de caíé tenham
um titulo 3e ennobrecimento o facto de
possuir alguém"' permissão para torrar
a resistência e sejam capazes úe bater
café.
os inimigos, se occorrer alguma guerra
nova."
Os pobres só puderam obter o grao
furtivamente © os resultados da tyrannia
Singular manifesto este do grande be-
regia foram o apparecimento d© numero-
bedor de café que era o grande estrate-
síBsímos succedaneos, beberagens feitas
gista vencedor de Torgau.
com trigo, chícorea e figos seccos tor-
Pesadamente taxado figurou o café na '
rados.
mesa dos ricos prussianos, reservando-se Entregou Frederico a régie do caíé a
a cerveja para o vulgos.
guarda de um francez, o Conde de Ijau-
Em 1779 representavam os Estados da nay, e este nomeou innumeros fiscaes
Pomerania ao monarcha, pedindo o qu© se puzeram no encalço dos contra-
abrandamento da lei. A' sua respeitosís- ventores.
sima petição, diz Porto Alegre, respon- Prometteu-se-lhes a posse da quarta
deu com não menor energia o grande parte das apprehensões e elles, procuran-
monarcha. "E' espantoso, dizia elle
. .
do surprehender as torrações clandesti-
ahi, como tem augmentado o consumo ao nas, tantas arbitrariedades fizeram que
café, que sommas enormes faz sahir
e ficaram odiados, passando a ter a al-
do nosso paiz. A facilidade que ha em cunha de cheiradores d© café.
obter este comestível, mesmo nas mais "Por essa occasião, escreve P. Porto
pequenas aldeias, fez com que os homens Alegre, apoiado ©m C. Rott e Ritter, foi
do povo e os camponezes se habituassem dirigida aos amadores d© café uma Ins-
tanto a elle, como os das cidades. Si se trucção muito curiosa, © que é ao mesmo
antepozerem embaraços a este commer- tempo uma peça semi-officiai, da qual
cío serãoforçados a voltar á cerveja. traduzimos o trecho seguinte, que o lel~
S. M. o Rei
foi criado com sopa de cer- tor não achará certamente ocioso que
veja, alimento muito mais sao do que o lhe reproduzamos:
café, © por conseguinte os homens do "... Quanto aos que nâo puderem
campo poderão também ser alimentados comprometter-se a tomar 20 libras, esses
oom sopa de cerveja ..." serão considerados como pessoas poDres,
, "

90

que não deveriam beber café, aos quaes representados nas vitrinas dos Museus,
convém que Ilies seja encarecido, e que sobretudo em Berlim e Potsdam.
se lhes difficulte o goso o mais que lOr Algum tempo depois surgia, a 17 de
possível. E' forçoso que paguem quasl o fevereiro de 17 84, o arcebispo eleitor de
dobro mais caro do que dantes, e que o Colónia, Maximiliano Frederico, a dipitar
não possam obter sinão em porções de manifesto no mesmo sentido.
meias onças já torrado e moído. Era draconiano; ficava, no ducado do
Estas medidas teem por fim prevenir Wesphalia, prohibida, dentro do prazo
o detestável contrabando que tem de quatro semanas, a venda de café, tor-
se^
praticado com esta mercadoria, para que rado ou não torrado que fosse, sob pena
aquelles que se tiverem entregue a esta
de enorme multa: cem florins de ouro,
profissão illicita, possam voltar aos an-
commutavel em dois annos de cadeia !

Prohibição expressa aos merceeiros e


tigos officios, 6 tornem-se cidadãos uteia
estalajadeiros de comprarem café, a não
ao Estado.
ser por /pequenas partidas de cincoenta
Si alguém torrar deste café de contra-
e quando devidamente autorisa-
libras,
bando em sua casa, será logo o culpado,
dos. Os apprehensores receberiam meta-
trabido pelo cbeiro penetrante e que se
de do género confiscado. Foi este rescri-
desenvolve, e punido com tres annos de
pto lido dos púlpitos, affixado por toda
prisão em uma fortaleza.
a parte, e um enxame de "cheiradores"
Para descobrir os delinquente», haverá e denunciadores "espalharam muita infe-
vigias encarregados de passar dia e noite licidade por todo o Ducado"!
pelas ruas, e entrar Immediatamente no Na mesma época, sahiu a legislar so-
lugar onde sentirem cheiro de caré tor- bre o café o Duque de Wurttemberg,
rado, pedindo que lhes seja apresentada mas este foi logo arrendando o commer-
a permissão de torrar; si por acaso não cio a um monopolista, certo Joseph
a apresentarem, deve-se entender qu© o Suess-Oppenheimér, que, pelo nome, de-
grão será confiscado e o infractor cas- via ser israelita.
tigado. . Typo sem o menor escrúpulo, realizou
O homem do povo que quer tomar, enormes lucros e foi, dil-o Ukers, ex-
hoje, duas vezes ao dia o seu café apren- pressivamente, o primeiro "rei do café".
derá pouco a pouco a passar sem uma Mas dentro em breve, desappareceram
bebida tão cara, e assim ficará multo estes entraves, e os allemães ponderam
dinheiro no paiz. Quanto ao rico, que apreciar livremente o eafé, uma de suas
Imagina que o seu estômago nao poao bebidas favoritas, sem que jámais nin-
digerir sem o auxilio do café, esse aca- guém se lembrasse de os amofinar a pro-
bará por ser o único encarregado de pósito de tal pendor.
prover ao sustento dos inválidos a quem Ao lado do grande Frederico, entre
era destinado o pro dueto do imposto." os corypheus ardentes do café, no século
Assim offendidos em seus interesses XVIll e na Allemanha, figura um dos
materiaes, dirigiram os maiores vultos da Humanidade" Emma-
droguistas e
merceeiros uma petição ao Rei, no in- nuel Kant.
tuito de obter um pouco mais Nascido em 1724, começou o autor da
de Uber-
dade no commercio do café. Critica da razão pura, a tomar a infusão
arábica, já velho e ipor ella se apaixo-
Esta attitude do rei da Prússia, o
nou.
maior dos potentaí^os germânicos, deu homem
Do tal dá testemunho outro
era resultado a imitação do seu exem-
celebre, o tão conhecido autor das Con-
plo pelas innumeras cortezinhas, princi-
fessions of an opium eater, Thomaz de
pescas e ducaes, que pululavam na Alle-
Quincey.
manha, ainda semi-medieval, naquella Admirador fanático do philosopho de
colcha de retalhos de feudos, anterior á
Koenigsberg, foi visital-o, moci-
Quincey
grande varredura determinada por Na- nho ainda, e em
suas memorias,
relata,
poleão.
quanto o genial visitado apreciava o
imitado Frederico II pelo eleitor do café. Fôra muitos annos bebedor de chá
Hannover, em 1780, não tardou qne o e, exemplo raríssimo entre allemães, ti-
fosse ipor quasi todos os paizes germâ- nha horror á cerveja. Quando ouvia falar
nicos, maiores e menores, grandes e mi-
da morte de alguém, que fallecera jovem,
núsculos, cujas côrtes, dentro em breve,
perguntava immediatamente: "Bebia cer-
tinham os seus torradores, chávenas e
veja ? Então, está tudo explicado e de
chicaras próprias, hoje abundantemente
sobra !
91

DescreTendo um jantar em casa ao Vivera m,uito3 annos entre os turcos,


pensador contra Quincey que Kant, já cuja lingua e costumes conhecia perfei-
quasi octogenário, impacientâra-se, mas tamente.
brandamente, porque não vinha o cafô A 13 de agosto de 1683, disfarçado sob
a tempo, dizendo: "Bem! a gente pôde roupas turcas, conseguia atravessar as
morrer de um momento para outro, mas linhas dos sitiantes, e o Danúbio, attin-
isto no fim de contas "não é senão natu- gindo o acampamento de Leopoldo I.
ral. No outro munao, gragas a Deus, não Repetiu a façanha varias vezes, ainda,
se bebe café e assim não se espera por e das noticias alviçareiras que trouxe
elle." provieram motivos de levantamento <io
'
Quando, ouviu os passos da
afinal, moral dos sitiados. Eximio nadador, por
creada, virou em torno de
levontou-se, varias vezes teve de atravessar os di-
nós, clamando alegremente: "Terra á versos 'braços do Danúbio, sempre que
vista Terra á vista, caros amigos! Vejo
!
precisava sahir e voltar.
terra". Coube-lhe decisivo papel quando So-
Para Porto Alegre, foi Vienna a pri- bieski e Lorena vieram occupar os cumes
meira " cidade teutonica que conheceu o de Kahlenberg, á vista de Vienna. Foi
café. ainda quem a Stahrenberg levou a or-
Conta-nos Ukers, com grandes porme- dem de realizar uma sortida geral, e vio-
nores, a historia romântica que se pren- lentíssima, iquando os exércitos, 'polaco
de á sua introducção alli, igualmente e imperial, descess^em ao encontro dos
relatada por outros autores, mas menos turcos.
desenvolvidamente. Tremenda derrota soffreram os otto-
IB' esta tal lenda: manos, no dia 12 de setembro de 1683,
Em 1683, estava Vienna na imminen- em que Sobieski, novo Carlos Martel,
cia succumblr, ante o assalto dos
de salvou a christandade e a civilisação de
exércitos ottomanos, que o grão-vizir, um eclipse.
Kara Mustaphá, precipitára sobre as mu- Immensos despojos deixaram os tur-
ralhas da capital do Santo Império Ro- cos: 25.000 barracas, dez mil bois, cinco
mano. mil camelos, cem mil alqueires de trigo,
Trezentos mil homens sitiavam a ve- muito ouro e muitíssimos saccos de café,
lha Vindobona, cara a Marco Aurelio e género de que se fazia largo consumo
séde da flotilha danuhiana dos romanos. no exercito turco, desde a conquista do
E a fúria de seus assaltos fazia prevêr Egypto, por Selim I, em 1517.
a quéda do importantíssimo baluarte Desde ahi viera tal habito, havendo
ohristão. este padlschá levado a Constantinopla
Esperava Mahomet IV, a cada momen- muitos saccos do grão arábico, entre a
to, ipoder celebrar o que o seu grande colossal presa realizada na terra doa
antepassado Solimão e Magnifico não con- Pharaós.
seguira realizar em 1529. Não houve quem quizesse o café de
Leopoldo I, aliás mais homem de es- Kara Mustaphá, o encalporado grão-vizir,
tudo do que de estado, consoante a mali- batido, a quem o seu amo, guiado pelo
gna pilhéria de seu tempo, via desespe- velho critério carthaginez, castigaria da
rado e semi-inerte, como era de sua ín- derrota, mandando cortar-lhe a cabeça.
dole, o avanço ottomano. B appellára Apresentou-se, porém, um ipretenden-
para o soccorro do grande João Sobieski. te. Era elle Kolschitzky, cujo pedido foi
Mas este tardava em reunir o exercito immediatamente satisfeito, e com geral
polaco ás forças do Príncipe de Lorena. espanto.
Emquanto isto, a guarnição de Vienna Não tardou que o heróico antigo men-
via-se na imminencia de succumbir ante sageiro polaco abrisse um café na cida-
o tremendo assalto turco. de imperial onde, dentro em breve, os
Em dado momento, pediu o conde de bebedores da infusão arábica eram nume-
Stahremberg, commandante da praça, um rosos e, cada vez, em numero crescente.
enfant perdu, ipara que este, procurando Fez-lhe a municipalidade viennense a
atravessar as linhas inimigas, íosse le- dadiva de uma casa. Ali installou o seu
var, á sua gente, o hrado lancinante, e estabelecimento, sob a taboleta da "Gar-
desesperado, de soccorro, lançado pelos rafa Azul", explorando-o durante vários
quasi exhaustos defensores de Vienna. annos. B o imperador lhe concedeu õ
Appareceu-lhe um polaco, por nome titulo honorifico de correio imperial
Jorge Kolschitzky, a quem Porto Alegre Assim, Kolschitzky passou a ser o san-
aliás chama Kotschinsky. to padroeiro dos cafés vienneses. Os seus
.

92

collegas de classes eyigiram-lhe uma terior do correio imperial, segundo as


estatua após solemne decisão, tomada excavações do inexorável herr Bermann
na séde de sua corporação, esculptura em sua "Alt und Neu Wien, (1880). A
que ainda se encontra á fachada de uma Jprincipio, começou Kolschitzky, de ca-
casa de esquina das ruas Kolschltzky- sa em casa, a offerecer a beberagem tur-
gasse e Favoritengasse. ca. Para isso levava certo numero de ca-
Representa esta estatua o corajoso nequinhas ou chicaras em bandeja de
mensageiro, vestido á turca, a sustentar, ma/deira.
á mão esquerda, uma bandeja com enl- Mais tarde arrendou um prédio em
earas, sobre as quaes derrama o café da Rischof-hof. Algum tempo mais tarde,
cafeteira que com a direita inclina. endereçou um requerimento ao nobre
Atrás da effigie e por terra, está uma senado viennense- Pedia, além da som-
panop)lia ottomana, composta de escu- raa de cem ducados, premio de seu he-
dos, machadinhas, arcos, cimitarras, roísmo e já promettido, a propriedade
etc. . de uma casa que benevolamente lhe fos-
Tem a vida de Kolschitzky servido de se doada, a saber, alguma loja em lo-
assumpto a numerosos pintores e grava- gar de transito e eommercio animados.
dores. Uma das telas mais conhecidas a Tal petição, e outras que se iBe segui-
seu respeito é o bom quadro de Schams: ram, commenta ò Sr. Bermann, vem a
"A sala do café da Garrafa Azul, o pri- ser padrões do descommedimento da sua
meiro de Vienna, em 1684". incapacidade na avaliação dos próprios
No primeiro p'ano, ha muita gente de méritos e da mais arrojada cobiça!
pé. Vestida á turca, destaca-se o heroe pro- Parecia decidido a tentar obter o má-
prietário, toucado pelo fez. Derrama o ximo provento do seu antigo saerif icio
liquido de uma cafeteira oriental, nu- Reclamou recompensas enormes, invo-
ma canequinha posta sobre pequena ban- cando "os que os romanos haviam attrl-
deja, offerecendo a bebida a uma espé- buido ao seu Curcio, os lacedemonlos ao
cie de mosqueteiro, que o abraça. Numa seu Pompilio, os athenienses ao seu Sé-
espécie ide alcova, á esquerda, vê-se uma neca (sic!) a quem, com a maior mo-
mulher a móer café em almofariz. No déstia, se comparava.
primeiro plano, está um fidalgo, a beber, Enternecida, apesar de tudo, com a
assentado a uma mesa e a conversar com leitura deste aranzel, sabiamente redi-
um amigo. Uma "garçonette", como ho- gido, segundo os cânones do methodo
je se diz, approxima-se do grupo com confuso do nosso mestre Mendes Fradi-
uma bandeja onde traz outra chicara de que, a municipalidade obtemperou-lhe aos
café. desejos. Pediu-lhe que fizesse uma esco-
Pretende Ukers que a estatua de Kols- lha dentre tres casas d'e Leopoldstadt,
chitzkygasse é a única esculputra co- avaliadas entre 40iO e 450 guldens, ahl
nhecida que se prende á historia do ca- se comprehendendo o valor do donati-
fé. vo, em moeda sonante, fixado em 300
E recorda ainda que á sua historia, re- guldens.
petida innumeras vezes e consignada em Zangou-se Kolschitzky e allegou: a
numerosíssimos livros, consagra irredu- acceitar tal combinação, era preciso que
ctivel lenda. o prédio valesse pelo menos mil gul-
Pesquisas recentes de nossa era de ten- dens.
dências cada vez mais niebuhrianas, no Dahi oceorreram replica e treplica vi-
seu encarniçamento contra as lendas, re- vazes e muito regateamento. Para aca-
velam que a conducta de Kolschitzky, bar com esta disputa, cheia de acrimonia,
após a sua actuação immortal de "enfant o conselho municipal, em 1685, delibe-
perdu" denuncia triste facto. Eram de rou doar, sem mais detença nem admis-
vulgar argila os pés da estatua de bron- são de novos argumentos, uma casa a
ze do Ídolo viennense." Kolschitzky e sua mulher Maria Úrsula,
Parece realmente deplorável termos de no numero 30 da Haidgasse.
acreditar tal coisa do heroe de tão ro-
Ao cabo de um anno, vendia o heroe o
mântica aventura, mas é a Historia ine- prédio da idadiva e, depois de muitas •

xorável! E já se foram os tempos do mudanças, colhido pela tuberculose, fai-


lecia, aos 54 annos, a 20 de fevereiro de
"mon siége est fait" do bom Abbé de
Vertot, ou, mais brasileiramente, dos pa-
1695.
negyricos dos valerosos lucidenos e dos
Numa espécie de agenda viennese de
1700 se diz do largo Stock-Eisen-Platz
castriotos lusitanos.
que alli existira o primeiro café da ci-
Eis o que se apurou da conducta ul- dade.
93

(Muito se conta da popularidade de Poucos dados temos sobre a propaga-


Kolschitzky como dono de café. Tinha ção do café nos paizes escandinavos, on-
o modo cordeai de a todos chamar "bru- de teve tão larga acolhida.
der meines herzens" ou irmão do meu Na edição do segundo centenário do
coração, como também todos o interpel- café, encontrámos interessantes notas da
lavam Seu retrato pintado, do tempo de
. lavra do Sr. John Lonnegren, subordina-
seu maior prestigio, é guardado, cuida- das ao titulo: "O café na Suécia".
dosamente, na séde da corporação dos ca- Aqui as transcrevemos:
feteiros de Vienna. "Na Suécia, o café era desconhecido
Dessa historia toda se deprehende que ainda no começo do século XVIII. Pou-
o Sr. Bermann deve ter sido homem de co depois do fim da guerra do Norte
granide severidade de julgamento. ^(1 700-íl721) começou a importar-se e
Pobre Kolschitzky, cuja erudição greco- consumir caíé e já em 1746 o "Collegium
-latina era tão notável! Que grande mal Medícum publicou uma ordem contra "o
se haja comparado ao sábio rei Numa abuso e superfluidez" do café, facto in-
dos espartanos e ao grande Séneca, phi- teressante, que mostra a popularidade
losopho atheniense e hespanhol ao mesmo que essa "mercadoria exótica" gozava
tempo? E como teria elle podido expli- no seio das famílias ricas da Suécia, ape-
car a recompensa material concedida pe- nas vinte annos depois de sua introdu-
los romanos ao seu Curtius, o homem cção. No anno seguinte, o governo Iml-
despenhado no abysmo? xou um imposto sobre o consumo do chá,
café, etc, que montava a 12 riksdalers
Mas não compartilhemos da severida-
de do digno devassador dos archivos da por anno e por individuo, conforme as
capital austríaca, attendendo á circum- differentes classes de cidadãos.
stancia de que seus compatriotas ingra- Em 1756, o quarto Estado, os fazen-
tos, ingratíssimos, permittiram e até in-
deiros e camponezes, conseguiram que
citaram a concurrencia de uns mal agra- passasse uma lei prohibindo o consum-
decidos que também abriram cafés, ain- mo da café, lei ou ordem que foi reitera-
da em vida do emulo de Curcio e de Sé- da em 1766, mas o consummo do café
neca. continuou na Suécia, e desde 1769 per-
Em princípios do século XVIII, dizem mittía-se a incorporação do café contrà
diversos relatos de viagem, eram nume- direitos de entrada.
rossimos os cafés em Vienna, onde mui- Em 1794, o governo fez uma nova ten-
ta gente ia ler jornaes e entreter dis- tativa para supprimir o consummo do ca-
cussões politicas. Nelles puHulavam õs fé, que foi interdicto, para melhorar a
"zeitung-doktors" ou doutores jornalísti- balança commercial do paiz e forçar o
cos, as assim alcunhadas notabilidades de povo a uma maior economia, de accordo
fancaria. cm as exigências do tempo.
Diz um destes autores, homem te- A abolição do café foi lastimada em
mente a Deus e ao Rei, a falar cTos me- todo o paiz como um lucto nacional e
xeriqueiros e Inventores de ballelas, que muitas canções tragí-comícas foram im-
aos cafés iam estes faladores buscar ma- pressas e publicadas em honra do café,
terial para dar repasto á mania de inven- apesar da prohlbiçâo das autoridades. O
cionices, leviandades e asneiras. descontentamento e a opposição á lei
"E' impossível avaliar-se a que gráo prohibitiva do café eram todavia tão
attinge a liberdade reinante, nestes es- fortes e obstinados que o governo se viu
tabelecimentos onde impera tal falató- na contingência de permittitr a sua im-
rio. Aquella gente se occupa, com a maior portação, mais uma vez, em 179'6.
irreverência, em criticar generaes e mi- Tres annos depois, em 1799, a prohibi-
nistros de Estado. E chega ao cumulo de ção foi de novo proclamada e mantida
se íntrometter até na própria vida de Sua até o anno de 1802. Depois de um perío-
Magestade o Imperador"! do livre, até o anno de 1817, o café foi
Foi Vienna uma das cidades européas prohibido durante os annos de 1817 a
onde mais proliferaram os cafés, fonte 1822, mas, nesse ultimo anno, foi pro-
da mais desabusada maledicência e irre- clamada afinal e definitivamente, a li-
verência, affirma outro autor moralis- berdade de consumir café, o qual, a par-
ta e misoneista. tir de 1822, não estava sujeito senão a
A cerveja era menos propicia á tagare- impostos aduaneiros".
lagem e á malevolencia por ser sedati- Acerca dos primórdios do café na Di-
va e não excitante como a beberagem namarca e Noruega, não conseguimos ob-
arábica. ter dados ponderosos.
94

CAPITULO XVII
A propagação do café na Hollanda. Entrada das
primeiras remessas do Extremo Oriente.
A divulgação na Itália.
Atfirma, PadSerg que os primeiros ção destruída por um terremoto e a in-
cafés públicos hollandezes datam de nundação subsequente. Em 1699 Hen-
1665, na Haya, e de 1666, em Amster- dirk Zwardekroon importou novamente
dam. algumas mudas do Malabar. Tal a ver-
Pasqua Rosée, o iniciador das casas de são hoje aceita e proveniente das infor-
café em Londres, passa por ter sido tam- mações autorizadissimas de Boerhaave.
bém grande propagandista do género na Em 170^6 expediram-se para Amster-
HoUanda, onde publicamente o vendia, dam as primeiras amostras de café ja-
desde 1664. vanez e algumas mudas de cafeeiro, mais
O primeiro café da "Haya abriu-se na tarde plantados no jardim botânico lo-
Korten Voorhout, sob o patrocínio de um cal.
escriptor, van Essen. Não tardou que ou- Dalli se disseminaram, pelos principaes
tros surgissem em Amsterdam e Haarlem. estabelecimentos da Europa . De Java
tramsportaram os hollandezes o cafeei-
As casas de café desde cedo prolifera-
ro a Sumatra, Celebes, Timor, Bali e ou-
ram na Hollanda. Um
dos mais velhos do-
tras ilhas.
cumentos ieonographicos sobre tal ramo
Dalli partiu a cultura darubiacea que
de negocio é devido a um dos maiores
mestres da pintura batava: Adriano van popularizou universalmente o nome de
Ostade. Ukers reproduziu-o: é úma ecé- Java no commercio cafeeiro e na historia
dos costumes de todos os povos, pois, pas-
na num café hollandez, pelas visinhanças
de 1650. Pensa-se até que seja a mais sados annos, não houve grande cidade
velha pintura deste género, na Europa do munido em que não se abrisse um
Occidental. "Café de Java".
Jamais houve opposição na Hollanda Um carregamento de café se despa-
relativamente ao uso do café. Pelo con- chou da grande ilha malaia para Anister-
trario! assignala Ukers a contribuição dam, em 1706, a titulo de ensaio, assim
batava como sendo a mais constructiva como mudas para o Jardim botânico da
cidade-
para o apparelhamento da industria ca-
feeira.
Foram estes os progenitores, se assim
Be pôde dizer, de muitos cafesaes das ín-
A Inventividade do povo manifestou- dias Occidentaes e da America, sobretu-
se em produzir novos moinhos, fomos d de Surinam, de onde sahiram as mudas
torradores, e vasilhames para o uso do
da Guyana Franceza, antepassadas de
café.
cafesal brasileiro.
Nas immediações de 1690 o celebre
Affirma Ukers que o primeiro carre-
burgomestre de Amsterdam, Nicolau
gamento de café javanez, offerecido ao
Witsen, que, ao mesmo tempo,
era di-
commercio, entrou em Amsterdam, no an-
rector da Companhia das índias Orien-
no de 1711. Era muito pequeno, 894 li-
taes, instigava ao governador do Mala-
bras apenas, menos de quinhentos kilos.
bar, Adriano Van Ommen, a enviar a
Provinha das plantações de Jakatre, no
Java alguns cafeeiros de Cananor.
interior da ilha.
Procediam estes de cafeeiros do Ye- Posto em leilão, vendeu-se a libra ams-
men. Dahi se originou todo o cafesal da terdaneza por vinte e tres stuivers, o
Malásia hollandeza, que, segundo Ukers, que corresponderia a perto de 47 centési-
principiou em 1696. mos do dollar. Regularia, isto hoje, em
Estes arbustos foram plantados pelo nossa moeda actual, a quasi um dollar por
Governador Geral Willelm van Ondtsho- kilo, ou sejam doze mil réis, elevanido a
orn, em Kedawoeng, numa fazenda per- um preço immenso a mercadoria, sobretu-
to de Batavia. Foi mais tarde esta planta- do se levarmos á linha de conta o valor
95

I
acquisitivo da moeda na época. Era pois ni, do nome de seu proprietário, homem
) o café um género de altíssimo valor, ven- que alcançou celebridade européa, soa-
dido por tabeliã que jamais novamente do o individuo mais informado e procu-
attingiria em suas cotações. rado da cidade dos doges e possuidor de
Tal a acceitação da mercadoria que a um estabelecimento na realidade sum-
Companhia das índias Orientaes con- ptuoso para a época.
tractou com os regentes das índias Hol- Menciona Ukers vários cafés venezia-
landezas a entrega compulsória do café. nos que se tornaram celebres como pon-
Foram então os indígenas de Java com- to de reuniões politicas, literárias, le-
pellidos a plantar a rubiacea e a produ- gares de encontro de negociantes e corre-
cção do género tornou-se industria for- ctores.
çada, regida pelo governo. Pensa Ukers que do café publico ita-
Af firma B. BelU em seu "II Cafíé" liano procederam os demais do mundo
que já em 1638 se vendia café em "Vene- Occidental, sobretudo os da França e da
za mas como medicamento e por altíssi- Áustria.
mo preço. O café Florian era o mais notável dos
Parece que, pelos annos de 1645, das "Procuratie Nuove". Dos das "Pro-
abriu-se o primeiro café na Itália mas curatie Vecchio" celebrizou-se o "Qua-
de tal não ha noticia exacta. Nos pri- drie", multo mais recente, pois foi aberto
meiros tempos quem o mercava eram os em 1775 por um sujeito de Corfú, Jorge
vendedores de limonadas. Quadri. Fornecia um pó, porém, de ma-
O substantivo italiano "acquacedrata- gnifica qualidade, um café verdadei-
Jo" não significa apenas limonadeiro e ramente á turca.
vendedor de refrescos similares e sim Ainda na Itália devia, em 1671, appa-
também qualifica quem vende café,, cho- recer o primeiro tratado occidental so-
colate, licores. bre o café, o de Antonio Fausto Naironi,
Jardin afíirma que, por volta de 1645, maronita estudante da Universidade de
era corrente o café em toda a Itália. Parma e depois professor de syriaco e
"Nei 1676, escreve Belli, 11 caffé prin- chaldaico no CoUegio de Sapiência de
cipiava a riescire graAiillssimo ai vene- Roma. Viveu de 1635 a 1707. Intitula-
ziani, tanto che il Senato incaricava i se tal obra "De saluberrima potione
Savi alia mercanzia, destinati a sopra- cahue seu café nuncupata discursus".
intendere ai prowedimenti dei commer- Em Roma, Florença e Génova também,
co, dl ritrarre una rendita maggiore dali já em melados do século XVIII, hãVia
"abondante vendita introdotta dei café, magníficos cafés. E Uters nõs lembra
ghiaccio ad acque ghiacciate, che sono que, em 1764 e em Milão, appareceu uma
inventate per Tallettamento dei senso". revista philosophica e litteraria "II Caf-
Não ha iduvida possível sobre a abertu- fé", cujo redactor era nada menos do
ra em Veneza, e em 1683, de um caie que o famoso Cesare Bonesana, marquez
publico sob as Procuratie Nnove,,. de Beccaria. E isto, no mesmo anno em
"Bem depressa, annota Belli, outras ca- que o celebre adversário da pena de
sas do mesmo género se abriram, tor- morte publicou o tão admirado "Tratado
nando-se o ponto de encontro agradável dos dellctos e das penas".
de todas as classes venezianas, sedentas No final do século XVII, e primeira
da beberagem excitante. metade do século XVIII, tomou o consu-
No século XVIII, só na Praça de São mo do grão arábico real incremento na
Marcos, havia sob as "Procuratie Vec- Itália.
chle' dez cafés e, sob as "Procuratie nuo- Mas nunca na península da bota attin-
ve,„ outros doze". giria,comtudo, o gosto pela infusão ará-
Em 1720, installar-se-ia um destinado bica, de longe sequer, as proporções as-
á celebridade, o de Floriano Francesco- sumidas em França
96

CAPÍTULO XVIÍI
As primeiras referencias litterarias e manifesta-
ções artisticas provocadas pelo uso de café

Era natural que aos árabes coubesse iingua. E' o mais celebre de todos João
a primazia dos louvores de sua infusão Baptista Santeul, cujo estro verdadeira-
nacional. mente elevado resoa em seu hymnario
Durante o período da segunda perse- pela nobreza e o brilho.
guição religTosa, conta-nos Ukers, nos úl- Quasi tão celebrado quanto Santeul foi
timos annos do século XVI, poetas e pro- Jacques Vanière (1664-1739), o jesuíta
sadores ismaelitas houve que versaram autor da Stagna Oolumbaria, Vitus OlWis,
o mesmo tíiema que o seu precursor Abd- poemetos englobados no Praedium rusti-
al-Kader. cum (1707).
Nestas condições está o erudito ^•'akr- Verdadeiro triumpho litterario alcançou
Eddin-Abubekr-ben-Abld lesi, autor do este poema em dezeseis cantos, em cujo
livro: o triumpho do café e o poeta-cheik carme oitavo ha grandes louvores ao cafe.
Iherif-Eddin Omar-ben Faredh. Já o antecedera desde 1698, um con-
A este arroubado menestrel occorreu frade seu, da Companhia de Jesus, Tho-
uma comparação pittoresca, a falar da maz Bernardo Fellon (1672-1759), pro-
amada: Fez-me beber em longos sorvos fessor no Collegio da Trinité, em Lyon,
a febre ou antes o café do amor!" a quem se deveu o poema dedicado á
Além dos numerosos viajantes citados, Faba arábica.
ha ainda a lenibrar na lista da biblio- Pedro José Thoulier, abbade d'01ivet
graphia cafeeira o nome immortal de ( 1682-1768 ), membro da Academia
Francisco Bacon quer na Historia Vitae et Frauceza e historiador de sua illustre
Mortis quer na Sylva Sylvarimi. companhia, grammatico e erudito notá-
Nos séculos XVII e XVIII os poetas e vel, tanto apreciava este poemeto da
dramaturgos francezes, inglezes e italia- Faba arábica que o incluiu em sua Poe-
nos acharam largo campo para as suas mata didascalia iiune primum vel edita
lucubrações nos assumptos Qo café. vel coUecta. No dizer de Thery, poeta
Diz Édelestan Jardin que um poeta de francez do século XIX, ha nesta compo-
fins do século XVI, Belighi, que pelo sição repetições e circumstancias supér-
nome parece italiano, compoz uma espé- fluas.
cie sobre o café.
de soneto Traduziu-o
Também o fez em relação ao Carmen
Galland e La Roque deu-lhe forma poéti- Caffaeum, da autoria do abbé Guilherme
ca em metros diversos. Massieu (1665-1722), igualmente mem-
À Damas, à Alep, au grand Cafre, bro da Academia Franceza e escriptor
n s'est promené tour à tour erudito. Compoz Massieu tal trabalho em
Ce doux fmit qui fournit une boisson si 1718 e o leu aos coUegas da Academia
[chère, ã& Inscripções a que também pertencia.
Avant que venir triompher à la coar Fazendo o elogio de Massieu, seu col-
Là, ce séditienx, perturbateur du monde, lega da Academia Franceza e da de Ins-
A par sa vertu sans seconde, cripções, Cláudio Gros de Boze, archeo-
Supplanté tous les vias, depuis cet heu- logo e numismata (1680-1753), chegou
Ireux jour. ao ponto de dizer que, se Virgilio e Ho-
A ser exacta a informação de Jardin, rácio houvessem conhecido o café, não
deve este Belighi ter sido o primeiro poe- teriam certamente delle fallado com
ta europeu a cantar as virtudes do café. maior senso poético, podendo o Caffaeum
Belli não o menciona em sua bibliogra- de Massieu passar por ser da autoria des-
phia, e temos a impressão de que algum tes génios da poesia universal.
possível erro tenha occorrido no texto de Thery (Agostinho Francisco) (1796-
Jardin, XVI por XVII . 1869) traduziu para a versão franceza o
Sabe-se, geralmente, quanto floresceu, poema de Massieu, que é assaz extenso.
no século XVII, uma pTeiade de illustres Chegaria um critico, a seu" resipeito, a pro-
vates francezes que, dedicando-se ao ver- clamar: é uma pérola ide escrínio.
so latino, conseguiram mestria realmente Cita ainda Jardin uns versos endere-
notável pela apropriação do espirito da çados ao illustro orientalista Galland por
97

Maiimené, poeta obscuro do século XVll, "Dando sorte a cada um de seus ver-
de cuja biographla nada dizem os diccio- sos, descuida-se da fortuna do poema",
narios encyclopedícos. costumava Rivarol dizer com o fino es-
Ainsi, si le sommeil vient au milieu pirito que tanto tinha.
[des pot3 Seja como fôr, a sua tão linda apoa-
Répandre ses pavots trophe ao café será eternamente lembra-
Et qu'un vin trop fumeiix te brouille da emquanto houver quem torne a infu-
[la cervelle são que Virgilio desconheceu e Voltaire
Prends le caie, ce jus divin. adorava. No Brasil ceíTaihente jamais se
Pour chasser le sommeil et leg vapeurs apagará & memoria do autor dos Jardins
Edu vin e dos Tres Reinos da Natureza.
Sanra te redonner une vigueur nouvelle. Nem jamais cahirão no olvido os fa-
Mas
o verdadeiro cantor do café, aquel- mosos alexandrinos do canto sexto do ul-
le cujos versos se fixariam na memoria timo destes poemas descriptivos.
de todos, seria o amável Jacques Delillo II est une liqueur, au poète plus chère,
(1738-1813), o delicado cantor da Natu-
reza, o abbé Jacques Delille, jamais or- Qui nianquait à Virgile et qu'adorait
denado e apenas abbade commendatario. [Voltaire,
fundador de uma escola de que foi o mais Cest toi, divin café, dont Taimable li-
celebre representante, o da poesia descrí- [queur,
ptiva. Sans altérer la tête épanouit le coeur.
Já celebrisado pelas traducções daa
Ainsi quand mon palais est émoussé par
Georglcas, tornou-se-lhe universal a repu-
como poeta, com os Jardins l'age,
tação,
(1782). Avec plaísir encor je
goúte ton breuvage.
O Homem dos campos (1800), e os Que j'aime à préparer ton néctar pré-
Tres Reinos da Natureza (1808) ainda [cíeux !

lhe augmentaram a fama. Nul n'usurpe chez moi ce soin délicieux.


E' nesta ultima proffucÇão que occõr- Sur le réchaud biHlant, mói seul tour-
rem. os famosos versos a cada passo re- [nant la graíne,
petidos. Ao seu bymno ao café devera
Delille, talvez mais do que a qualquer
A ror de ta couleur fais succéder l'êbène.

outra composição do largo espolio, a per- Moi centre la noix qu'arment ses
seul,
sistência da reputação de compositor de [dents de íer,
versos fáceis, correntios, mas sem gran- Je fais en le broyant, crier ton fruit amer.
de valor de conjuncto. Charmé de ton parfum, c'est liioi seul
Em suas obras occorrem episódios inte- [qui, dans l'onde
ressantes, quadros ricos e clieios de vida,
Infuse à mon foyer ta poussière féconde:
mas falta-lhe composição, diz um critico.
O poeta é derramado; alonga-se dema- Qui tour à tour calmant, excitant tes
siado. [bouillons,
•Dahi talvez a lenda maligna que o ac- Suis d'un oeil attentif, tes légers tour-
cusa de ter trabalhado para os editores [billons.
a tanto por alexandrino produzido, seis Enfin de ta liqueur lentement reposée,
francos, preço aliás enorme para o tempo.
Dans le vase fumant lã lie est deposée;
E sob a fisealisaçâo cerberica de uma
mulher, legitima xantipa, que segundo se Ma coupe, ton néctar, le miei américaín
pretende, chegava a trincafial-o diaria- Qui du sue des i-oseaux exprima l'Afri-
[cain,
mente, afim "de o forçar a versejar.
Está relativamente esquecido o bom © Tout est prêt: Du Japon Fémail reçoit
amável Delille, "poeta de sua época mais [tes ondes,
amante da arte do que da natureza, mais Et seul tu rCunls les tributs des deux
do espirito do que do sentimento, cantor [mondes.
dos parques e dos jardins elegantes, Wat-
Viens donc, ãivin néctar, viens doac ins-
teau da poesia. [pire moi-
"Fabrica o verso admfravelmente, mas
offerece maior numero de bellos versos Je ne veux qu'un désert, mou Antigone
[et toi.
do que de bellos livros. Esquece-se da
compôr a obra pelo prazer de fazer bri- A peine ai-je senti ta vapeur odorante,
lhar o espirito pela pintura, ou antes a Soudain de ton climat Ia chaleur pêné-
descripção de mil pormenores. [trante
;

98

Bêveille tons mes seas, sai^ trouble, Tu nous rends le monients qu'il dérobe
[sans chãos là Ia Tíe.
Mes pensers, plus nombreux, accourent Favorable liqueur dont mon âme eet
[à grands flôts. [ravie
Mola idée était triste, avide, dépouillée, Par t«s enchantements augmente nos
Elie rit, elle sort richement habillêe Cbeaux jours.
Et je crois, du Génie éprouvant le réveil
Café du jus de la bouteille
Boire dans c&aque goutte, na rayoa de
[soleil- Tu combats le fatal poison,
Delille, vemos Castel (Renato Ki-
Após Tu ravis au Dieu de Ia treille
cardo Castel (1758-1832), homem pacifico Le buveur que ton charme éveiUe,
6 benévolo, dil-o Staff, um de seus bio- Et tu le rends à la raison, etc.
graphos, "alma cândida que se reflectia
em ameno versejar didáctico. Teve como Entre outros poetas francezes antigos
discípulo um poeta fescenino, mas delica- de renome e que cantaram as glorias do
do, o Conde de Chévigné, cujos brejeiros café citam-se Ducis e Berchoux.
Contes remois são muito conhecidos, e re- João Francisco Ducis (173 3-1816), o
editados, tendo, até, fido'' a honra de o amável poeta de versejar fluente, simples
illustrar o grande pintor que foi Meisso- e gracioso, tão insubmisso á moda e á ty-
nier. rannia das escolas, diz Villemain, o apai-
Poeta e naturalista, professor do Col- xonado adaptador de Shakespeare ao
legio Louis-le-Grand, publicou em 17 97 o theatro francez, escreveu as delicadas es-
Poème des plantes, que Ukers, confiado tancias A mon café.
em Jardin, diz, erradamente, ter sabido Em 1800 publicou Berchoux (1765-
em 1811, quando a quarta edição é que 1839), o espirituoso autor do "quem nos
data deste millesimo. Versejador monó- libertará de gregos e romanos?", o seu
tono e derramado," possue comtudo certa celebrado poema da Gastronomie, d© que
graça. E ao café consagrou uns alexan» tantos versos passaram a ser axiomas
drinos agradáveis. literários, como por exemplo:
Assim por exemplo estes, qua Jardin Rien ne doit déranger Thonnête honune;
transcreve:
íqui dine;
De brillants végétaux, favoris de Fhébus, Un diner sans façon est une perfidie.
Offrent daus ces cliniifls lês plus rares Neste carme celebre não podia o poe-
tvertus ta lyonnez deixar de celebrar o café
e as-
Délicieux moka, ta sève enchanteresse sim o fez no quarto canto.
Réveille le génie et vaut tout le Fer. Mas depois de Delille qffem é mais ci-
tmesse. tado, dentre os poetas francezes, apolo-
Mais ou menos desta época é a can- gistas do café, é Esmenard, não José Af-
tata consagrada ao café por Luiz Fuzelier fonso, no dizer de Larousse, e sim José
(1672 - 1752), theatrologo abundante, Estevam, affirma Staff, valendo-se de
cujos versos, segundo La Harpe, revelam informações de família. A seu respeito
imaginação e talento poético. falaremos largamente a propósito de D9
Esta cantata foi musicada por Nicolau Clieu e sua aventura celebre.
Bernier (1664-1734), mestre da Capella Reunindo ume serie de citações menos
Real. Bem agradável é tal peça, cujo importantes, refere-se Ukers a uma coi-
principal escopo parece ser o louvor das lectanea de Chants bretons, onde occor-
virtudes anti-alcoolicas do café. rem muitas peças laudatorias do cal6.
Café quels climats inconnus Entre ellas, soliretudo, destaca certa poe-
sia de 96 versos, em que se descreve
Ignorent les beaux leux que ta vapeur a
poderosa attracção exercida pela bebera-
[inspire ? gem arábica sobre o bello sexo e seu pa-
Tu comptes dans ton vaste empií-e pel notável como factor da felicidade do-
Des lieiíx rebelles à Bacchus mestica !

Favorable liqueur dont mon âmc est Curiosa peça é certo canto da velha
[ravie
Armorica, em que se conta que nas an-
Par tigas éras da Bretanha fôra o café
enchantements augmente nos
tes privi-
legio de nobres e ricos, para depois
[beaux jours pas-
sar a bebida do pobre.
Nous domptons le sommeil par ton hen- Fala amda Ukers
írenx seconrs,
num Éloge du caífi
de Jacques Estienne (1711), cujo nome
. . .

99

não vemos citado nos diccionarios ency- Or grateful bitters shall delight the ta«t«
clopedicos e não nos parece da família
So long her honors namQ and prais©
dos famosos impressores e eruditos, e
um trecho Le Café de um í)oémã marse- Tshall last.
Ihez lia Grandeur de Dieu âa:as les mer- (Tanto quanto a arvore abençoada de
veilles de la Nature. Moka viceje as cerejas estalarem e os
Pssando a uma reseniia dos velhos vã- moinhos moerem, emquanto os jactos fu-
tes inglezes, que entoaram lôas ao cafe, megantes se erguerem dos vasos angen-
teos e a porcellana receber o negro fluxo;
cita Ukers, inicialmente, um~aos maiores
nomes das letras de todos os tempos: emquanto o café for querido das nym-
John Milton, que nos seus Comus assim phas brltannlcas e seus vapores odorífe-
ros reconfortarem as cabeças inclinadas
acclamou a infusão arábica.
e seu grato amargor deliciar o paladar,
One sip of this assim hão de lhe durar as honras, o nome
Will bathe the drooping spirits in de- e o louvor).
[lighl Ora, tendo Pope nascido em 1688 e
Beyond the bliss of di^eanis. •
morrido em 1744, vê-se que, em relação
ao café, na Inglaterra, representou o pa-
(Um sorvo banhará no deleite além da pel de Voltaire além da Mancha.
beatitude do sonho os espíritos amorte-
O famoso Furto da fechadura procede
cidos )
dos falatórios de um café.
Nada mais arroubado poderia dizer o
épico immortal do Paradise lost. Olhem! a sala das caneqninhas e colhe-
Dos fanáticos do cãté também foi o [ res está apinhada
grande Alexandre Pope, cerebração for-
midável em corpo de anão corcundinha, o Em aitare^ rebrilhantes de laca realça-se
que lhe provocava, continuamnte, a atra-
bile e lhe valia, pela ferinidade dos con-
A lâmpada de prata: chammejam os espi
ceitos, enorme quantidade de inimigos, [ ritos do fogo
cantou o Dos vasos argênteos o grato licor escorre
Coffee, which makes the politician wise Emquanto a porcellana recebe o tume-
And see thrDug!i ali tMiigs with his hall- [ gante fluxo
[shut eyes. . Ao mesmo tempo acariciando o odorato
(O café que dá critério ao politico e o e o paladar.
I.

faz ver todas as cousas com o olho entre- Frequ»3ntes íigeladas prolongam o rico
aberto). [ repasto
Sabe-se quanto o autor do Ensaio so- Immediatamente borboieteia em tomo da
bre o Homem, o traductor talentosíssimo [ assembléa a orche^ítra aérea
da Ilíada e da Odyssea, vivia amargura- Alguns, ao sorverem o fumegante licor
do pelo physico quasi teratologico e a de-
[ vaporoso.
bilidade congénita.
Sobie o seu pannejamenío abrem ãs
Sentia sempre um frio horrivel, preci-
sava viver acolchoado em lã, ser vestido [ plumas queridas

e despido, envergava uma espécie de col- Farfalhaiites e cônscios do rico brocado


lete-armadufã; para se manter erecto, e, O café que toma o politico sensato
ainda por cima, soffria de horríveis en- E o faz vej atravez de todas as cousa^
iiaquecas.
[ com os olhos entreabertos
Estas elle as combatia tomando café,
Incute por meio de seus vapores ao ce-
abundantemente, diz-nos Carruther em
[ rebro do barão
sua Vida de Pope.
E' o que parecem explicar estes versos Novos estratagemas e o deslimíbrante
do grande chefe da poesia clássica ín- [ facho faz conquistar.

gleza. Doentio como era não podia Pope


As long as Mocka's tree shall grow dispensar, dia e noite, os soccoros de
WMle berrles crackle, or whíle mills sua creada, cujo isomno perturbava, a ca-
rshall go da momento, pedindo-lhe café. Tinha
aliás, como habito, elle próprio, moer e
Whlle smoMng streams from silver
preparar a infusão. Outro grande apre-
[spouts shall glide
ciador setecentista do café, embora mui-
Or cliina's earth recefve the sable tide to menos afamado do que Alexandre Po-
WhUe fragralit steams the bended head pe, foi William Cowper (1731-1800) que
[shall cheer alguns pretendem ter sido traductor de
. . . .

100

Homero mais fiel do que o próprio Pope, cni um acto, e entrecortada de árias, cuja
o timido e melancólico poeta da deliciosa ultima vem a ser a cantiga, em cinco es-
bailada de John Gilpin. tancias, da lavra de um tal Caret.
Acabou demente, com intervallos de Assim começa:
lucidez, em que produzia lindas cousas Quanto prazer proporciona uan café
repassadas de real sensibilidade e a com-
prehensão exacta das bellezas da Crea- Onde se lê e se ouve como o Mando roda
[ alegTemente
ção
Em sua Pity for poor Africans, citada Oiíidc a gejite ri e tagarella disto, daquilio
por Ukers, exclama: [ e daquilloiitro . ..

AIi! quajito cteUes me compadeço, mas A


representação desta comedia, ou cou-
[ devo emmudecer! sa que valha, quasi trouxe grandes des-
Pois quio faríamos /ícm assuear e rhuiíi? ordens em Londres, pois fôra visivelmen-
te escripta para ridicularisar e deprimir
De assucar, sobretudo, tão necessitados certa Mrs. Yarrow, a dona do Dick's cof-
[ somos:
fee house, e sua filha.
Que! líenunclarmos ás nossas sobreme» E como fosse este cafá o lugar de en-
[sas, café e chá? contro predilecto dos maçons das Lojas
Assim era por meio de palavras com- dos Templários e estes estimassem muito
passivas que engodava a si próprio, na- a ambas as senhoras não só fizeram ás-
quelles tempos de campanha tenaz do suadas no theatro, sobretudo no dia da
grande Wilberforce, quando algum pro- estréa, como andaram perseguindo e
testo mais enérgico podia prejudicar~e ameaçando o mordaz reverendo James
o bem estar e o conforto. Além destes Miller.
poetas antigos, encarecedores do uso do Em1694, e em Pariz, fez João Bai)tis-
café, cita Ukers diversos outros, muitos ta Rousseau que então apenas contava
delias anonymos e.sem grande valor, in- 23 annos, representar, no Theatro Frau-
glezes e americanos cez, Le café. Parece que tal peça só teve
Affirma o autor de AU about coffee uma recita. Sabe-se, aliás, quanto foi o
que a primeira peça theatral ingieza em autor das Odes e Cantatas theatroiogo
que se faz allusão a café é um tal Tamgo desastrado
Wiles or tlkc Coffee House, comedia de Nesse tempo era o celebre poeta lyri-
1667, da autoria de um tal Thomas ÍSert. co assíduo frequentador do famoso café
A sua estréa concorreram os dous mais Laurent, ponto de encontro dos beam
altos personagens da raonarchia britan- espriís e do qual teria de se afastar, dous
nica o rei Carlos lí e o príncipe de Cal- annos mais tailde, em virtude das per-
les,futuro Jayme III versidades que a inveja lhe íizera escre-
Desta comedia diz o famoso Samuel ver contra os confrades.
Peppys, o autor das celebres Memorias Pateado com o Jason e o Adónis re-
cifradas, e, a muito custo, idecifradas, nunciou Rousseau, em 1700, ás glorias
que tanto o celebrisaram: é a peça mais do palco.
ridícula e insípida que em toda a mi- Affirma Ukers, sem citar a procedên-
nha vida assisti. cia, que Voltaire disse de Le café:
Refere Ukers ainda A Bold Stroke for a "Esta peça, obra de um rapazola, sem
wife de Suzanna, Centilivre representada o mínimo traquejo, ainda, das letras e do
em 1719, em que ha uma scena de café. tíieatro, parece apregoar a apparição de
Neila occorrem uns garotos a berrar: novo génio".
café fi-esco, senhores, café fresco! chá- Ora, "Voltaire nasceu exactamente em
bom! 1634, no anno da representação de Le ca-
Em 1730 publicou Fieiding uma come- fé- Assim, pois, quer nos parecer que ou a
dia,The coffee house poiician or Justice citação não lhe deve ser attribuida ou
caught in his ovvn trap, mas não sabemos um descuido do autor americano levou-o
se angariou applausos. a empregar o indicativo presente em vez
Muito mais deu
que falar de si a do pretérito
The coffee house, do Reverendo James Na época em que a peça de Rousseau
Miller, que se representou em 1737 no íoi ao palco era costume, entre os donos
Theater Royai de Drury Lane. Era uma dos cafés de Pariz e seus empregados,
adaptação de lie Café de João Baptista trajarem-se a arménia.
Rousseau. E' o que nos relata La Foire Saint Ger-
Um dos primeiros trechos de musica, main, comedia em ura acto e em prosa,
referente ao café, occorre nesta comedia representada peia primeira vez, a 19 de
. .

101

janeiro de 169 6, e obi'a de Florent Dan- Caffé se representara em Veneza, e em


court, o conhecido autor-actor a quem o 1750, com muita acceitação
Rei Sol tanto apreciava Causidico, jurisperlto, magistrado, a
Nessa "Foire Saint Geiniain. um dos grande reputação de Anthelme Brillat
principaes personagens é o "velho Lo- Savarin (1755-1826) não lhe provém,
range", negociante de café. comtudo, das letras jurídicas e sim das
;Num dos seus diálogos declara o tal paginas famosas da Physiologie du Goiít,
Lorange a uma dama, vendedora de rou- livro que o immortallzou, como de sobra
pas feitas, que se naturaUsara arménio é sabido.
pelo prazo de tres semanas. E' também dos que se arrolam na
Em 1760, representou-se, em Pariz, lista dos maiores apreciadores e apaixo-
outra peça que se prende a uma das mais nados do café, com Voltaire, Kant e Bal-
notáveis ephemerides Utterarias relati- zac á testa.
vas ao café Intitulava-se L'Ecossaisse e
.
Naquella obra imperecível, pelo bom
passa por ser da autoria illustre, illus- gosto e o espírito de epicurista, com no-
trissima, de Voltaire. tável graça redigiu as Meditações da
Diz Ukers que tal comedia se intitula Gastronomia, transcendente obra tlieori-
Le café ou PEcossaise Appareceu como .
co-historica, e actual, dedicada aos gas-
procedente da penna de um inglez, Hu- tronomos parisienses por um professor
me, e traduzida para o francez por um membro de vários grémios scientificos,
Jeronymo Carré rezam-lhe os sub-titulos.
Era violenta satyra contra Fréron, o Falando do café exclama arroubada-
mordacíssimo critico que ao autor de mente:
Mérope e de Zaire não deixava em paz "Vós, abbades e bispos mitrados, e
em sua Année Utteraire. portadores do báculo, que dispensaes os
B contra quem escreveu o susceptível favores do Ceu, e vós temerosos templá-
criticado o famoso epigramma; rios que vos armastes para o extermínio
Ii'autre .joiír, au fond d;'un vallon, dos sarracenos, nada conhecestes do
suave influxo reparador quer do nosso
Un serpent moidit Jean Frévon
chocolate quer ida cereja arábica instiga-
Qne peiísez vous 'qii'il aii'iva? dora do pensamento!
Ce fiit le serpent qui creva! O', quanto de vós me compadeço!"
Teve a tal Escosseza enorme triumpho, Falando de escriptores cafeiphiLícos re-
6 nella apparece um "Frelou", venal, fere-se Ukerg ainda a um Gourcuff, que
impudente e vil. não conhecemos, cltando-lhe, soleclstlca-
Teve Fréron o bom gosto de assistir mente aliás, o titulo de uma obra. De
á i-epresentação e delia deu um apanha- la café (sic) épitre attribué (sic) à
do, summamente vivaz e engraçado. Scnecé.
Passa-se num supposto café de Lon- Sobre o periodismo inglez exerceu enor-
dres. me influencia Sir Richard Steele com o
Em summa, o resultado obtido pelo seu Tatler (o Tagarela), órgão de reno-
autor da mediocie Heni-iade não attinglu vamento da imprensa, que data de 170!).
o seu desideratmn. Nas comedias, aliás, Tanto o Tatler como o Expectator de
era elle assaz fraco, justificando, em Addison (1711) ei'am jornaes dos cafés,
parte, o dito de um critico que se fossem referindo-se, a cada passo, aos costumes
representadas no Inferno até ao Demó- e opiniões destas casas publicas.
nio fariam morrer de tédio. Conta o autor de AH about coffee que,
E como Voltaire, Irascibilissimo, e sen- em 1758, appareceu, em Pariz, uma
foli-

sibilissimo aos reparos dos críticos, im- cuia periódica intitulada: O café, littera-
primiu um
epigramma contra Fréron, rio, artístico e conunercial, editado por
numa folha onde se via a figura de um um tal Carlos Woinez, publicação aliás
asno dedilhando uma lyr'a, retrucou-lhe ephemera. Tinha aliás suggestiva eplgra-
o mordaz adversário, declarando que a phe: "O SaloH (liíterarío) mantem-se
tão deliciosa satyra acompanhava o re- mercê dos privilégios de casta e o café
trato de seu autor. pelo igualitarismo".
Este Le Café foi traduzido para o In- Na literatura dramática italiana as
glez, e representado em Londres. Parece referencias ao café são mais recentes.
aliás que Voltaire escrevendo a tal Es^ Das suas peças antigas a mais celebre
cosseza bastante se inspirara em Goldonl, é a de Carlos Goldoui, o celebre e fecun-
o Mollère italiano, cuja La Bottega di díssimo theatrologo veneziano (1707-
.

102

verve, alegria e inspiração melódica fres-


1793), chamado pelos francezes o MoUè-
re italiano. Remodelador do theatro da cal.

península que cahira nas mais sórdidas Refere-sô Ukers a um autor, Angelo
saloiadas, também escreveu comedias
em Rambaldi, que, em Bolonha, publicou
francez, como geralmente é sabido. uma Ambrósia arábica, caffé discorso,
dl caffé, representa- obra em dezoito secções, descrevendo as
A La Bottega
sua
origens, os processos da cultivação, da
da em Veneza e em 1750, fina satyra de
torração da cereja e preparação da be-
costumes, tem como scenario o famoso
beragem.
Café Floriano da Praça de São Marcos.
Aliás a bibliographia italiana é bas-
Foi Goldonl, aliás, um dos grandes fa- tante extensa, desde o século XVII.
náticos^ do licor arábico. Apreciava, mui- Assim, segundo BrUno Belli, em seu
to, frequentar o ambiente
dos cafés, por
n caffé (Milão, 1910) são da éra seis-
toda a parte por onde passava, em
sua-»
centista a Virtu dei caffé de Domênico
longas viagens, na Itália ou fóra da pe- Magri (Roma, 1671), DelPuso dell'abuso
nínsula.
dei caffé (Veneza, 1691), de Dallo Bona,
Em outra de suas comedias, a Esposa Poemata varia de P. T. Strozza (Nápo-
persana, ba um trecho curioso em que les, 1689), II caffé con piu diUgenza. esa-
oceorre a descripção do processo de pre- minato (Palenmo, 1674, de Giuseppe Ga-
paração do café em meiados do século leano).
XVIII. No século XVIII cita este autor as
Diz um dos personagens, certa escrava: obras de Andréa Alberti II caffé descritto
Aqui está o café, senhores, -proveniente ed esaminato (Messina, 1702), Michela
[da Arábia Alberti: De caffeae potns uso noxio diss
E trazido pelas cararanas a Ispahaii (1730), Civinlnl, Delle storia e natura
dei caffé (Florença, 1734), Giorgio Bag-
O café da Arábia é certamente sempre o
[melhor, livi, Opera medico pratica (Pariz, 1783),
Giovanni Giacomo Zannichelli, Ossei-va-
De um lado brotam-lhes as folhas e de
zioni in torno all'abuso dei Caffé ed alie
[outro as flores
virtú di un nuovo té veneziano (Veneza,
Filho de rico solo, aspira pela sombra 1755)
[ou por pouco sol B sem a citação de datas, refere-se ain-
O fnicto enibora realmente muito pe- da a muitos outros escriptos como os de
[queno Constantini, Corre, Gemelli, Carevi Pauli,
Crescerá bastante para se tornar ver- Peretti, etc.
[doengo Assim como vêmos, quando o Brasil
Mais tarde quando empregado terá quO amanhecia para o café, nos grandes pai-
[ser moido de fresco zes occidentaes, que desde quasi seculó
E conservado em lugar quente e secco, e meio consumiam largamente a infu-
[cuidadosamente guardado
<
são arábica, numerosas manifestaçõej
das letras e das artes documentavam o
De pequena porção se precisa para o gosto que iam tomando as nações pela
[preparar.
bebida, por Voltaire adorada.
Ponha-a em dose sufficiente e não a Valendo-nos da obra prestante de
[esparrame sobre o fogo Ukers, lembremos algumas destas de-
Aqueça-a até que a espuma cresça e monstrações mais celebres agora no
[então deixe-a abaixar fóra do fogo campo da Arte.
E pelo menos faça-o assim sete vezes Parece que se deve a Adriano Van Os-
[que o café estará prompto tade (1'610-1685) a mais antiga pintura
[num instante. européa que retrata um interior de café.
Foi gravado por Beauvarlet este quadri-
Balthazar Galuppi, compositor vene-
o
nho do grande discípulo de Franz Ilals,
ziano de opera-buffa, hoje tão esquecido
tão illustre quanto o famoso mestre.
(1706-1785) e, no emtanto, autor de William Hogarth (1697-1764), um dos
muito renome em seu tempo, a ponto de maiores nomes da escola ingleza, tam-
ser chamado pela grande Catharina para bém muito se comiprazia em retratar in-
regent© da opera imperial de Petersbur- teriores de cafés.
go, escreveu luma opereta II caffé di Cam- 'W de 1733 o seu quadro o Club dc
pagna, representada em 1762, e na qual, White's coffee house, da série The Kake'3
affirmam os críticos, demonstrou muita Progress, e de 1738, o Tom King's cof-
, )

103

fee House in Covent Garden, da série tre ramage se rapporte à votre pluma-
Four times of the day. ge. .

Entre os quadros celebres da Escola Um dos maiores nomes da arte musi-


Franceza 'que se prendem á historia do cal deve ser aqui agora lembrado.
ca£é citam-se o Petit Déjeuner, de Bou- Quando em principies do segundo quar-
cher (1703-1770). E' documento valio- tel do século XVIII, começaram os dou-
so, pois data de 1744 e representa uma tores a,llemães a guerrear o uso do café,
sala de jantar onde se vê um serviço deu-se o seguinte lnteressa(ntissimo fa-
de café. cto: o falatório dos taes medicastros le-
No retrato da Pompadour, por Carlos vou um homem genial a usar de seu ta-
Van Loo, apparece uma negra offerecen- lento para protestar contra semelhantes
do á bella (?) Antonietta Poisson uma imbecilidades. Era elle o immortal João
caneauinha de café. Sebastião iBach, que então escreveu a
Regnante, a Du Barry, quiz também o Cantata do café, em 1732, de que já
seu retrato, quando a tomar café, como falámos.
a illustre antecessora. E' uma , espécie de opereta, em um sõ
Passou tal quadro por obra de Drouais acto, espirituoso libreto em que se vâ
e data de 1771, mas parece que foi feito um pae solicito procurando afastar a fi-
pelo gravador Dagoty. lhinha querida dos perigos de tomar ca-
Nessa popular composição vô-se a ral- fé, a bebida da moda.

nhía franceza, da mão esquerda, tomando Não é este, porém, o género que se
uina chicara de café, que lhe a'presenta conhece do immortál Bach das fugas,
o íaínoso negrinho escravo Zamora, a dos prelúdios e da Paixão segundo São
iliiem tanto a(preciava. 'E Ino emtanto, Matheus.
seu futuro trahidor, de 1793, causador "Raramente se pensa em Bach como
de sua subida ao cadafalso... humorista, observa Ukers, mas o estro
Contemporâneo destes artistas é o ce- desta sua opereta é tão espirituoso e vi-
lebre caricaturista inglez Rowlandson vaz, suas árias tão álacres, que demons-
(1756-1827), cujo CachoiTO louco num tram o que seria a obra do mestre se
café,e o Café Francez, são muito popu- também se dedicasse á musica ligeira."
lares na Inglaterra. Mostra-se aliás o nosso autor yankee
Quanto ás primeiras manifestações
conhecedor imperfeito da obra do grande
musicaes que tomaram o café para the- musica nem
compositor saxonio, cuja
nia de suas inspirações, cita Ukers Le
sempre é austera e grandiosa. Também
Caíé, da autoria de um tal H. Colet, pro-
revelou a incomparável mestria em géne-
fessor de harmonia no Conservatório de
Paris.
ros amáveis, como por exemplo nessa
deliciosa Cantata profana (n. 212), obra
Data de ITll e teve, para fins de cir-
culação, o beneplácito de Voyer d'Argen- prima de humorismo musical.
son, então Intendente de Policia. Schlendrian, o pae cheio de ternura,
Não se sabe quem liaja sido o autor atauaza a filha, Lieschen, incitando-a a
da poesia (?) sobre a 'qual Colet se ins- deixar o vicio da moda.
pirou para fabricar a melodia, aliás bem Vendo que a não convence, acaDa
singela. ameaçando-a de que lhe não permittirá
Si voas Toulez sans ,
ipeine arranjar marido!
Vivre en boime santé,
E a moça, fanática do café, canta uma
aria deliciosa.
Sept jours de la semaino,
Ei! wie schmekt der coffee siisse,
Prenez du bon caffe,
Lieblicher ais tausend Kiisse
II voas preservera
Milder ais Muscaten wein
De toute maladie
Ei, ei, wie schmeckt der coffee ei.
Sa Tcrtu chassera
Tjà, là (O' como é suave ao paladar, mais
agradável do que mil beijos, mais doce
Migraine et fluxion
que o vinho Moscatel !

Don, doií Atemorisa-se a pequena, mas a Victo-


Rhume et mélancolie. ria paterna é de curta duração: faz elia
Ao conjuncto da musica e da letra ver ao feroz inimigo do café a incoheren-
podemos applicar, servatís servandis, a cia do procedimento. Tanto a mulher
famosa comparação lafontaineana, Si vo- como a sogra são grandes apreciadores
104

da beberagem negra. Um trio final con- ção: "The gift of Richard Sterne Esq. to
sagra o triumpho da menina. ye Honorrable East índia Comp.".
Interessante a observação de Ukers, a O vaso de 1689 é de propriedade do
saber: no libretto surge a palavra coffee rei Jorge V.
e não kaffee que era de esperar, visto Vêm depois os vasos de prata lavrada,
como é o texto escripto em allemão e de que ha numerosas producções de pe-
não em inglez. ças do Metropolitan Museum de Nova
Quanto á architectura dos primeiros York, do Museu Nacional dos Estados
tempos dos cafés specimen digno de nota Unidos e procedentes dos séculos XVII
vem a ser o edifício do Caffe Pedrocchl e XVIII.
em Pádua, Itália, no local de maior im- Também no AU about coffee occorrem
portância da cidade universitária.
outras reproducções de bules, taças, ser-
Seu proprietário Antonio Pedro, que
viços de café, de porcellana chineza, in-
começara a vida como obscuro botiqui-
gleza, franceza,, sobremodo interessantes.
neiro, grato á industria do café, que o
enriquecera, entendeu construir o mais
A noBãa contribuição lusitana e brasi-
leira brilha pela ausência.
bello café do mundo. E realmente, pon-
do mãos á obra, em 1816, conseguiu eri- Entretanto já no século XVIII havia
gir um edifício que se tornou famoso, serviçosde café muito bem trabalhados,
não só na península como em toda a Eu- segundo o gosto da velha ourivesaria por-
ropa, e foi, durante bastante tempo, o tugueza.
mais notável café do Universo. Ha em S. Paulo um, infelizmente in-
A industria dos metaes, e a cerâmica, completo, datado de fins do secnlo XVIII.
forneceram enorme contingente á histo- Pertenceu & casa do Brigadeiro Luiz An-
ria das artes applicadas relativas ao café. tonio de Souza Macedo e Queiroz (1760-
No livro de Ukers longas paginas se 1819), o homem mais opulento da ca-
consagram á destfrlpção de specimens de pitania paulista, e uma das maiores for-
cafeteiras artísticas e serviços completos tunas do Brasil joanino.
de café existentes nas collecções dos Este serviço passou a ser propriedade
grandes museus do Universo. Algumas de seu filho, o Senador do Império, Ba-
destas peças valem pela antiguidade, rão de Souza Queiroz (1806-1891) e das
como as cafeteiras de 1681 e 1689, uma mãos deste a seu neto Dr. Antonio de
delias pertencente ao Victoria and Albert Souza Queiroz (1844-1920), pertencendo
Museum e, outrora, á Companhia das actualmente a sua bisneta D. Sara de
índias Orientaes, segundo reza a Inscrip- Souza Queiroz de E. Taunay.
105

CAPÍTULO XÍX
A influencia de Soliman Agá em França. Os cafés
celebres de Paris. Os cafés e a Grande Revolução

Falando da influencia enorme exerci- Conta o autor do AU aboiít coffee, que


da por Soliman Agá na propagação Jb os resultados de Pascall foram medíocres.
uso do café, observa Paulo Porto Ale- Quasi todos preferiam ao petit nolr, o vi-
gre: nho, e os espirituosos.
"Partiu o embaixador turco, e algum Continuavam, comtudo, os seus garçons
tempo depois, quando o uso já era bas- a offerecer o género pelas ruas, aos gri-
tante commum, decidiram-se os negocian- tos de café café
! Mas afinal, desanima-
!

tes de Marselha e Lyão a mandar -vir do do de vez, mudou-se Pascall para Lon-
todos os pontos do Oriente navios car- dres, onde então havia muito maior
regados desse género. freguezia para a bebida arábica. Sua
Até essa época, o café não havia ainda clientella era apenas de estrangeiros e
transposto a soleira do rico; seu preço de cavalleiros de Malta. ,

exborbitante, e a circumstancia de 5er (Não conseguindo o apoio da Côrte, e


encarado como bebida de méra fantasia, dos grandes do Reino, propagou-se o uso
não o tinha tornado em França de um do café, muito lentamente, em França.
uso geral e ao alcance da bolsa do pobre. Em 1672, outro arménio, um tal Ma-
Além do pequeno ensaio feito no Petit liban, abriu café também perto da Abba-
Châtelet, para a venda publica, durante dia de Saint Germain, na rua de Bussy.
o reinado de Luiz XIII, ensaio esse que Também vendia tabaco. Mudou-se depois
durou pouco tempo, não existia antes para a rua Féron, perto de S. Sulpicio.
dessa época um uuico café publico do Mas não se deu bem em Paris, e lá se
género dos que hoje conhecemos. foi para a Hollanda, deixando o negocio
Foi ipouco mais ou menos, no anno de a um seu auxiliar, certo Gregorio, que
1G72, que se installaram alguns cafés, era persa.
pura commodidade dos amadores, que o Este transferiu o botequim para a rua
não podiam preparar em suas casás. Es- Mazarine, perto da Comedia Franceza
ses locaes eram tão pobremente guarne- então fronteira á rua Guénégaud. Em
cidos que o publico que os frequentava, 16 S9, mudar-se-ia o theatro para a rua
não era o mais próprio para enrique- des Fossés Saint Germain. Deixando o
cel-os. negocio, passou-o a um compatriota cha-
Parece que o primeiro café publioo naio Mekara.
parisiense foi devido a certo armei^io Transferiu Gregorio o seu café para o
chamado Pascall. Installou-o na feira do local do novo theatro, receioso de perder
bairro de Saint Germain, no local onde a Clientella dos frequentadores da Come-
depois houve praça do mercado. dia. Mas parece que pouco lucrou. Vol-
Era verdadeira taberna, que só logrou tando á sua cidade natal de Ispahan pas-
medíocre clientella, e Pascall, uma vez sara o negocio a um liegense Le Gantois.
acabado o periodo feirai, transferiu o Vendedor ambulante que se tornou en-
estabelecimento para o Qual de riccole. tão ipopular, foi certo rapazinho de Creta
JMz Ukers, sem declarar a procedência conhecido por Le Camelot. Fazia grande
do informe, que este primeiro café pari- berreiro pelas ruas da capital franceza,
siense datava de 1672, e o arménio viera a gritar:café ! café !
para Paris com Soliman Agá. Valia-se o Em frente ao Theatro Prauoez, na rua
oiientai dos préstimos de creadinhos ves- chamada ãe rancieniio Comedie, abriu-
cidt. s r turca. Circulavam entre a mul- se novo café, o qual não tardou a mover
tidão offerecendo café. em canequirhas. grande concurrencia ao de Gregorio. Era
Era este forte e dahi lhe proveio a desi- chamado Café Procopio, de um siciliano
gnação popular de petit noii-, que até de Palermo ou florentino, Procopio Cet-
hoje persiste. telli, ou iCotelli, segundo quer Ukers. Jã
Durava a feira dois mezes, e findo este tivera outro na rua de Tournon. Foi o
iprazo, o arménio transferiu o seu esta- primeiro que se lembrou de enfeitar esse
belecimento para o cáes vizinho do Pont género de estabelecimentos com luxo
Neuf. orieptal, actualmente tão frequente nos
106

belios cafés europeus e americanos. Ven- burguez de Paris, que alcançou tal pri-

dia-se alii não só o café, mas toda a es- vilegio graças a umalvará de 1692.
pécie de bebidas geladas e sorvetes. Deu-lhe o Rei, por dez annos, o direito
exclusivo de vender café e chá effi. todas
Algum tempo depois, teve Procopio as províncias e cidades do Reino do
por imitador outro oriental chamado Es-
França, além dos demais territórios, sub-
tevão, oriundo de Alepo, o qual também
mettidos á sua soberania.
por muito tempo dirigiu um café, ornado
Também lhe permittiram manter um
<om o gosto e luxo dos aue em Constan- deposito destes géneros.
tinopla vira. Estava situado á rua Saint-
André-des-Arts, em frente á ponte de
Na época em que, cora grande impulso,
começou o café a propagar-se em Paris,
Saint Michel. Foram estes os primeiros
não se encontrava ainda á venda em
caffe públicos de Paris.
casa de todos os mercadores.
lEra esperto o siciliano; procurou
so-
Vinha de Lyão ou Marselha, mas prin-
bretudo attrahir gente fina e rica.
cipalmente deste ultimo entreposto para
Di? um contemporâneo: "Vae ao café
o grão de Moka que ahi aportava via
do Procopio, também chamado o Antro
Alexandria, Smyrna e outros portos.
do Procopio (por muito escuro, mesmo
ao meio do dia e mal illuminado á tar- Começava o commercio cafeeiro a to-
de). AUi verás como freguezes, frequen-
mar extensão cada vez mais notável,
temente, uma collecQão de esqueléticos, quando, em princípios do século XVIII,
além de lamuriosos poetas, com ares de quasi desappareceu, pelos enormes im-
iphantasmas." postos lançados sobre o café da Arábia,
Durou este café do Procopio até 187 5
'.
em transito pelo Egypto.
Ao mesmo temipo que estes primeiros Custava então em França de 1$920 a
cafés se installavam, andavam homeas 2$240 réis a libra! Tão elevado preço
pelas ruas vendendo café aos copos, con- deu lugar á formação de uma companhia
ta-nos P. Porto Alegre. de negociantes de São Maio, que, orga-
Legrand d^Aussy descreve o aspecto nizando duas expedições, enviou em 1708
curioso desta espécie de cafés ambulan- e 1713 navios a Molsa. Dobrando o Cabo
tes .
da Boa Esperança, dalli trouxeram dous
"O primeiro, que fez este com-
diz elle, grandes caTregamentos, oujo preço no
mercio, foi um
côxo baixo, appellidado o mercado se mostrou muito satisfactorio,
Caadiota. . Teve por successor a uru
. tanto para a companhia como para os
oriental por nome José, o qual, depois de consumidores. Eram as famosas expedi-
ter exercido por algum tempo este meio ções de João de La Roque, que tanto de-
de vida, abriu successivamente diversos ram que fallar de si.
cafés em alguns logares da cidade, dob Sobretudo depois que o navegador, pri-
quaes o ultimo achava-se perto da iponte meiro historiador da introducção do café
de Notre Dame. Depois seguiram-se a em sua pátria, publicou a sua Viagem
elles, outros. Cingidos ãe um avental <!' Arábia Feliz pelo Oceano Oriental e o
branco, traziam deante de si um cesto de estreito do Mar Vermelho realizada pela
folha de Flandres, onde tinham todos õs primeira vez por *francezes nos annos de
utensílios necessários á preparação do 1708, 1709 e 1710 (Paris, 1716).
café. A esta relação se ajuntam dous ann<í-
Na mão direita levavam um esquenta- xos, o relato de uma viagem do Porto de
dor com uma cafeteira; na outra, uma Moka á costa do reino do Yemen (1711-
espécie de moringue com agua para en- 1713). Un mémoií-e concemant racdbre
cher a cafeteira quando assim fosse pre- et le fniit du café, dressé snr les obser-
ciso. vations de ceux qui ont fait ce dernier
'Percorriam as ruas com este appare- voyage. Et vai traité historiqme de l'ori-
Iharaento, apregoando, em voz alta, o seu gine et du progi-ês du Oafé, tant, dans
café. Da rua, os chamavam para as ca- TAsie e que dans l'Europe, de son intro-
sas, onde, por dois vinténs, tomavam um duction en Prance, et de l'etablif!sement
copo grande de café com assucar. Mas de son usage à Paris.
esta maneira de vender não teve grande Relatando a sua visita aos jardins
successo, ipórque naquella época, o uso reaes mostra-tse La Roque interessante,
da bebida não tinha aindã~ chegado ás pois ahi demonstra quanto os árabes de
classes inferiores." seu tempo acreditavam, piamente, não
Diz TJkers, que o primeiro mercador poder o cafeeiro vicejar fóra da Arábia.
com licença official de vender café em Assim narra: "Nada ha de notável nos
França loi um tal Francisco Damane, jardins reaes a não ser os grandes tra-
. . .

107

balhos realizados para os dotar de todas mais alta gerarchia, deixa de o tomar
as espécies de arvores communs do paiz. pela manhã, diariamente, ou logo depois
Entre ellas os cafeeiros os maia bellos do jantar, sendo corrente o habito de se
com que nos foi possivel avistarinoB. o offerecer em todas as visitas."
Quando os delegados francezes repre- Como 03 aristocratas se mostrassem
sentaTam ao Rei quanto era isto contra- dos mais calorosos propugnadores da
rio aos costumes dos princlpes da Europa nova bebida, não tardou que nos cafés
(que se esforçavam por proporcionar aos surgissem todas as magnificências do
se-us jardins as plantas mais raras), o Rei Oriente, tapetes, jarrões, porcellanas, etc.
lhes respondeu: Realmente seria o ca- A principio, são os autores concordes
feeiro muito commum na terra, mas nem em afirmal-o, não era a nata da socie-
por isso menos valioso; seu perpetuo dade franceza que constituía os frequen-
verdor era extremamente agradável, sug- tadores idos cafés. Verdadeiras tabernas
gerindo-lhe a ideia de que os seus fructos onde também se serviam líquidos alcoóli-
em parte mais alguma do globo se en- cos, foram élles, pouco a pouco, adqui-
contravam." rindo feição mais civilisada, sobretudo
E quando fazia presente daquillo, que depois do estabelecimento de Procopio
provinha dos próprios jardins, causava- Alargou-se tanto o commercio dos bo-
ihe grande prazer pensar que estava em tequins que vários negociantes tinham ao
condições de apregoar que elle próprio mesmo tempo, casas no bairo de Saint
plantara as plantas, com as próprias Germain e na feira de S. Lourenço. B o
curioso é que a ellas concorriam homens
mãos."
e mulheres.
A entrada do café pelos portos do
Nesta occasião já o café Procopio se
norte, via Amsterdam e Ruão, causou
convertera em local de encontro de nu-
vivos protestos entre os marselhezes, fu- merosissimas figuras de máximo relevo
riosos com semelhante concurrencia. Co- Escripto-
da inteliectualidade franceza .

meçaram a forjar intrigas, esforçando-se les, artistas, actores, "causeurs", passa-


para que se prohibisse a importação por vam horas e horas, alli a discutir e a
aquella via. conversar
Pretendiam o direito e a faculdade ex- Tornou-se a casa do Siciliano verda-
clusivas de prover o Reino. Devia o café deiro "salon" litterario. A vizinhança do
entrar por via do Mediterrâneo e do theatro fazia com que a frequentassem
Egypto, por ser Marselha porto franco, muito os autores dramáticos e os artis-
entre outras razões especiosas. tas .

Levaram finalmente uma representa- Assim entre os seus mais assíduos com-
ção ao Conselho Real, mas a despeito de mensaes viam-se João Baptista Rousseau,
todas as considerações e dos mais enér- Crébillon, Pison, Lemierre, etc, que aUi
gicos esforços empregados, ninguém os encontravam Fontenelle, Voisenon, Sain-
attendeu. te Foix, La Chaussée e quantos mais.
Por toda a França propagou-se o cos- Com o augmento notável do consumo
tume da bebida arábica, tornando-se o da bebida, muitos restaurantes muda-
paiz o vanguardeiro do consumo univer- ram de normas annexando cafés a seus
sal. estabelecimentos
Em 1686, affirma Blegny, o imitador Assim se deu com uma antiga casa
de Dufour, citado por Padberg: "Faz-se de pasto, que datava de 15 82 "La Tour
em Paris enorme consumo de café nao d'Argent" Funccionava no Quai de la
.

somente nas lojas dos vendedores de TourneUe e passou a ser por muito tem-
licor, como nas casas particulares e nas po o mais elegante dos restaurantes pa-
das communidades. Pouco falta para que risienses, frequentado até pelos reis.
03 inglezes e hollandezes sigam o exem- Nas mesmas condições cita Ukers Le
plo dos turcos e pouco falta também para tambour royal, de um tal João Ranipo-
que nós, francezes, estejamos tão invete- naux, a cuja casa frequentava até o pró-
raldos neste habito quanto elles." prio Luiz XVI. Mais tarde outro frequen-
Em fins do século XVII havia em tador régio seria alli notado: a rainha
Paris 250 cafés e em 1715, no dizer de Maria Antonietta Passou ma,is tarde o
.

La Roque, citado por Paulo Porto Ale- tal Tambor Real a ser lugar de suspeita
gre, uns 300. moralidade, tornando-se celebres, até, as
Em princípios do século XVIII, affir- suas festas carnavalescas e orgiacas.
mava La Roque: "Ninguém, desde o Quasi todos estes cafés se encontra-
mais modesto cidadão até pessoas da vam no centro de Paris em torno do Pa-
.. . . .

108

lais Royai. Outro café antigo, contem- homens de talento e de génio surgia na-
porâneo de Procopio, celeben-imo, data quelle recinto! Além dos encyclopedistas
da primeira metade ido século XVIII e como Diderot e Rousseau, outros grandes
ainda hoje existe: o Café de La Régen- homens do porte de Beaumarchais, Uon-
ce. Fundara-o, segundo parece, pelos an- docet Entre outros vultos de notável
.

nos de 1689 um tal Lefèvre, parisiense reputação, Fontenelle, Piron, Crébillon,


que começara o seu commercio vendendo Voisenon
café pelas ruas, e depois abrira bote- Benjamin Frankliii foi visto entre os
quim . commensaes, desde os primeiros dias de
O nome, felicissimamente escolhido, sua famosa embaixada em Paris. Tam-
data, segundo consta, de 1718. Foi o es- bém quando, em 1790, faUeceu viu-se o
tabelecimento assim intitulado em hon- Café Procopio enlutado por meio de uma
ra ao nada casto Philippe de Orléans, o série de demonstrações causadas pela
famoso regente Ijieutenant Général du perda do grande corypheu da republica-
Royaume. nisação universal
Alli se reuniam os cortezãos, vindos Montesquieu, nas famosas Cartas per-
das sessões de paço e côrte, para a sua saiias escrevia: "O café está muito em
salinha estreita e atmosphera viciada. uso em Paris. Existe grande numero de
casas publicas que o vendem. Em algu-
Já, em 17 60, tinha o Café de la Ré-
geiíce a grande honra de merecer de um
mas aprendem-se novidades, em ouiras
jcga-se xadrez. Ha porém um, onde se
dos maiores vultos das letras universaes,
prepara de tal modo o café, que dá es-
Diderot, um apanhado do aspecto de
pirito aos que o tomam, pdo menos de
suas reuniões.
todos que dalli sahem, não ha ninguém
No Neveu de Rameau, escreve o lor-
que não acredite ter quatro vezes mais
midavel encyclopedista "Seja com que
espirito do que antes de lá haver en-
tempo for é habito meu, invariável, ir,
pélas cinco da tarde, dar uma volta pelo trado".
Falais Royai. Se faz muito frio ou mui- Alludia o autor do Kspirito das Leis
to calor abrigo-me no Café de la RégcJi- ao Café Procopio ou ao Gradot vizinho
ce". A este concorriam muitas das da Escola .le Medicina, e então muito
maiores inteUectualidades do século afamado também, pela freguezia dos ín-
XVin. Além de DMerot, Voltaire teliectuaes
e 'd'Alembert. "Mas o que mais me causa extranhe-
Cousa curiosa, transformou-se o cafô i,a, e merece reparos, é que o espirito
c-ra verdadeiro club de enxadrismo e que desta gente nada tem de util a sua pá-
frequentavam os grandes, os maiores tria", observa Montesquieu.
mestres do nobilíssimo jogo indiano. Tendo encontrado um geometra á por-
AUi pontificava o formidável Philidor, rade um café do Pont Neuf resolvera en-
musico assaz medíocre, mas trar, em sua companhia, no tal botequim.
campeão Espirituosamente commenta o que alli
tremendo do taboleiro das 64 rasas.
vira: o respeito com que os garçons tra-
Outro habito se creou. As senhoras da
alta aristocracia não ousavam apparecer tavam, muito mais cortezmeute, do que
nas salas dos cafés, onde havia ruidosas os dous soldados estafermos da por-
ta, certo sujeito pallido e esquálido, que
reuniões exclusivamente masculinas. Mas
lhe disseram ser grande politico. de
mandavam parar as carruagens á sua . .

café, sujeito que re preoccupava muito


porta e faziam se servir pelos garçons
com as operações dos exércitos e era da
que lhes traziam a bebida em chicaraB
categoria daquelles nossos notáveis es-
de prata
trategistas, de 1865-1870 pittorescamen-
O café Procopio, cada vez mais, se te alcunhados, no Rio de Janeiro, gene-
prestigiava graças aos frequentadores lixcfi da rua do Ouvidor.
de escol
Tanto em fins do século XVII como
Voltaire, alli constantemente apparc- em princípios da centúria seguinte nos
cia. Até se fechar o Café Procopio, pas-
cafés parisienses notou-se que numerosos
sados dous séculos de sua existência, eram os freguezes que alU permaneciam
mostrava-se a todos os frequentadores horas e horas.
não só mesa de mármore como a ca-
.1
Os donos dos estabelecimentos, para
deira em que permanecia, diária e lon- reterem a clientela, resolveram annexar
gamente, o philosopho de Ferney.
ao café a venda de outras bebidas e
Parece que apreciava immenso uma
também comidas. Assim insensivelmen-
mistura de café e chocolate. Que grupo de te numerosos restaurantes que mais tar-
109

de se tornaram iraportantissinios, come- ptos das idéias novas aos cafés para o
çaram como simples cafés. local de suas reuniões e debates, esi;reve
Notável iconographia conseguiu Ukers o articulista:
para o seu exceUente capitulo entre ou- "Se um graínde numero de médicos
tros a curiosa gravura de Boisredon admitto que o café é a bebida mais ade-
Le café de Piwope (1743) . quada para excitar, sem as perturbar, as
"No café Procope, diz um articulista funcQões do cérebro, a ninguém surpre-
do Grand Dictionaire du XIX Siècle, dis- "henderá vêr estabelecimentos, onde se o
ci.lia-sc literatura, politica, philosopuia, bebe, transformados em pontos de re-
religião, etc. união em que se discutiam as questões
Para exprimir mais livremente o pen- relativas á intelligencia."
samento, os principaes visitantes imagi- Apenas o uso do café se espalhara
naram gíria especial. em Constantinopla, passaram Os kawlia-
Assim, ouvia-se Marmontel dizer a kanés, onde se vendia o liquido extrahi-
Boindin: "Para quem acredita em Javot- dú da fava de Moka a ser frequentados
te, M. de TÊtre é um persona'gem ter- por pessoas lettradas.
rível, •que se apraz em torturar Margot." Depois dos cantos e dansas das corte-
O nue significa: "Para quem acredita na zãs, após as partidas de xadrez, come-
religião, Deus é um personagem bem ter- çava a conversa. A's historias antigas
rível, que se apraz em torturar a alma." succediam-se as modernas, e as do dia.
Ao lado destas conversas, onde as mais Acabou a politica por alli tomar tal Im.-
audaciosas idéas vinham á luz, atravez do portancia que o governo, inquieto, fizera
brilho das inteilligencias, outros lettra- fechar os kawíia-kanés.
dos silenciosos, entre os quaes sobresa- Vêmos a mesma medida adoptada na
hia a figura melancólica de J. J. Rous- Inglaterra, no reinado de Carlos II. Em-
seau, acompanhava as peripécias de uma quanto se permittia o funccionamento de
partida de xadrez, ou, como se dizia en- mais de 3.000 tascas, tinha-se medo da
tão, empurrava a madeira. deixar subsistir um único café ! Em
Antes da época em que o Café Proco- França, os Cafés attrahiram a attenção
pe angariou tamanha notoriedade, gra- da policia, e, algumas vezes, os seus ri-
ças á reunião de tão notáveis celebrida- gores; em parte alguma tão espiritosas
des, outro também havia onde se encon- se apresentaram como nessa 'patria do
travam homens de letras eminentes, o da espirito e da conversação."
viuva Laurent, situado á rua Dauphine. iPara o fim do século XVIII cresceu
Tinha por freguezes La Motte Saurin, iínmenso a influencia social dos cafés.
Danchet, Crébillon, La Faye, J. B. llous- No da Régence, Diderot jogava xadrez
seau, etc. com um testa coroada: o futuro impera-
Também alli se discutiam os aconte- dor José II !

cimentos litterarios, criticavam-se as no- Robespierre, mau xadresista, por lá


vas peças, emittiam-se idéas politicas e apparecia raras vezes; e o general Bona-
religiosas. parte sentava-se ao lado ide Louvet.
ÁUi surgiram os primeiros epigram- A alguns passos do Café da Regência,
mas, que provocaram o exilio de Jean sob as galerias do Palais Royai, outro
Baptiste Rousseau. existia já afamado e depois celebre. Era
Acabára este poeta de íazer represen- o Café de Foy, talvez mais illustre do
tar, sem êxito, aliás, o Caprichoso. que o congénere. "Não por causa da
A bile fácil de se lhe excitar, ainda bella caixeira por quem o duque de Or-
mais se lhe azedara com o triumpho da léans tanto s eapaixonara, nem pela an-
opera Hésione, que Danchet logo depois dorinha pintada no tecto por Carie Ver-
fizera subir ao ipalco. net, mas porque alli, á tarde de 12 de
Desabafou-se contra os freguezes do Julho de 17 89, um rapaz de vinte e sete
café, a quem accusou da cabala arruina- annos, Camille Desmoulins, com os co-
dora de sua peça, e atacou-os em qua- tovellos fincados á mesa, e a testa nas
dras anonymas, cheias de fél. mãos meditava no acto que ia realizar
Tornaram-se ellas cada vez mais saty- um quarto de hora depois e ao cérebro
ricas e diffamatorias. Interveio a justi- lhe escaldava: a immortal revolução que
ça e, fosse ou não fosse Rousseau o autor deveria modificar o mundo."
de toda essa versalhada, trouxe-lhe o pro- Entre outros cafés de grande fama nos
cesso a ruina." tempos, citam-se ainda os de Valeis o
Lembrando a notável coincidência de, Lemblin e o Cuisinier, na praça Saint
em diversos paizes, escolherem os ade- Michel, onde se apontava certa mesa em
110

que o tenente Napoleão Bonapai-te alnao- então agitados, só, e muito aHiás, pelas
çava certo dia com um amigo intimo, o questões litterarias", SScreve o articulis-
Tenente Duroc, sem terem, nem um nem ta acima citado.
outro, com 'ãue pagar a refeição. No
Palais Royai e nas ruas que o avl-
Escreve Porto Alegre: sinhavam fundaram-se vários estabeleci-
"Durante o século XVIII não era moda mentos de nomeada, onde se reuniam os
tomar café depois da refeição principal, partidários dos diversos credos.
com o fim de auxiliar a digestão, e mui- Emquanto o Café liemblín recebia os
to menos ainda o café com leite, então restos do estado maior imperial, os libe-
consumido em quantidade insignificante. raes da velha guarda e do Grande Exer-
Os cafés da época, mereciam mais que cito, que altamente protestavam contra
os actuaes este nome, pois que só se to- as humilhações da França e as fraquesas
mava nelles café preparado de grão puro, do governo bourbonico, viam-se no Café
algum chá, e poucas bebidas espirituosas. de Foy os liberaes, mais enthusíasmados
Ornados muitas vezes com uma sum- pela liberdade do que pelas glorias mili-
ptuosidade excessiva como os actuaes ca- tares, os adeptos do parlamentarismo, os
fés em Paris, Londres, Vienna, e outras doutrinários que combatiam em pról dos
cidades, na Itália e Suissa, além de ser principies constitucionalistas.
geralmente mal preparado, o que menos Ao mesmo tempo, no Café Valois, re-
se toma ahi é café, depois do appareci- uniam-se os cavalheiros de São Luiz, os
mento de um succedaneo pouco digno defensores natos e juramentados do thro-
delle, a cbicorea." no e do altar."
"O Revolução em 1789, e as Que se Com a propagação do uso da bebida
lhe seguiram transfõfmãram, constante- arábica nasceu a bibliograpbia franceza
mente, em reuniões politicas os Cafés até do café.
111

CAPITULO XX
A velha bibiiographia do café em Fran
O tratado de Philippe Dufour
Com apropagação do uso fla bebida pedindo-Ihe a protecção, afim de que pu-
arábica nasceu a bibiiographia do café. desse publicar as suas olSras. Respondeu-
Já. em 1671 apparecia em Lyon um Ihe o celebre jesuita concitando-o, antes
opúsculo anonymo intitulado: As admi- de mais nada, a converter-se ao catholi-
ráveis virtudes da amora chamada café. cismo.
Este fasciculo reclamava a appariçao Respondeu-ihe Spon, em sabia episto-
de algum volume que puzesse o publico la, defendendo as suas crenças e, desani-
em condigões de avaliar o que realmen- mado, emigrou, indo estabelecer-se em
te valia o café. .
Vevey, perto do famoso e irreductivel re-
Tal incitamento provocou o "admirá- publicano inglez e regicida Edmond Lud-
vel", dil-o Ukers bem, tratado de Philip- low.
pe Syívestre Dufour, sahido a lume, em Dufour o aconiipanhou. Apenas alli che-
Lyon, no mesmo anno de 1671. gados, falleceu Spon e pouco depois o
Vale a pena aqui lembrarmos quem fiel em 1687.
amigo,
foi este patriarcha da cafeibibliographia Do
seu tratado De Tusage du café et
frahceza. du chocolat (Lyon, 1671), reimpresso em
Philippe Syívestre, nascido em 1622, 1694, ainda em Lyon, possue o Museu
em Manosque, na Provença, ajuntou ao Paulista um exemplar da segunda edi-
nome paterno, por gratidão, o de um tio ção. Tambeín imprimira: Instructlon
materno que Ilie legara a fortuna. Assim d'un pèi>e à son fils qui part pour un long
passou a se chamar Philippe Sylvesfe voyage (Lyon, 16 77).
Dufour. A Dufour deve-se ainda, segundo
Resolvendo residir em Lyon, ahi foi Ukers, segunda publicação sobre o café:
droguista forte, tendo um estabelecimen- Modos de preparar café, chá e chocolate
to que conseguiu larga clientela e onde (1684), também impressa em Lyão. Des-
adquiriu fartos cabedaes. te volume nada diz o diccionario de La-
Apaixonado archeologo e numismata, rousse.
entreteve relações com os mais notáveis Vejamos, porém, quaes eram as ideias
antiquários de seu tempo, sobreT;udo com por Dufour expendidas em seu celebre
o celebre Jacques Spon (1647-1685), volume.
medico, humanista, numismata, epigra- Resumil-as é dar ao leitor uma im-
phista de renome considerável, viajan- pressão das prineipaes theorias de phy-
te da Grécia, Turquia, Asia Menor. Tudo siologia do tempo em matéria de hygiene
isto fizera á custa dos maiores sacrifícios, alimentar.
pois era pobríssimo, e em companhia do Tratando das qualidades primaciaes do
botânico inglez Jorge Wheeler. café, explicava Dufour o pensar dos aris-
Affeigoou^se Dufour a Spon, e em totélicos: predominavam nos corpos mix-
1678 publicou a sua notável relação de tos as qualidades: calor, frio, seccura e
viagem á Itália, Grécia e Levante. Eram humidade.
ambos protestantes. As combinações entre estes elementos
Foi o viajante quem trouxe, do Orien- é que produziam as "qualidades secun-
te, a Dufour, grande material, graças ao darias". Mas os médicos contemporâneos,
qual pôde enriquecer a incipiente colle- e sobretudo os moços da escola moder-
cção de historia natural. Assim também o na, oppositores das ideias antigas, só fa-
auxiliou muito para a formação do seu lavam agora em Acido e Alcali, Sal, En-
medalheiro, acervo de antiguidades e ga- xofre e Mercúrio.
binete numismático, que passaram a ser Maliciosamenle cõminentavá o nosso
realmente preciosos. homem: "Talvez dentro destes vinte an-
Quando se deram os primeiros passos nos inventarão alguma nova giria que ca-
para a perseguição aos reformados, an- hirá no goto do publico, pois dia a dia
tes da revogação do Edito de Nantes re- verificamos que a moda tanto influe no
solveu Spon retirar-se para a Suissa. Al- vestuário como em matéria medica."
gum tempo antes escrevera ãõ famoso Os physicos ainda perturbavam mais
Père Lachaise, confessor de Luiz Xrv, o caso com as suas novas ideias sobre
112

os átomos. Assim resolvera-se elle, autor, que, por via do fogo, fazia a resolução
a consultar os velhos clinicos, de ideias do mixto em seus princípios sensíveis."
moderadas e esclarecidas. Auxiliado pelo Sr. Cassaire Filho, Mai-
De accordo com a sua lição affirmava tre apothicaii-e da cidade de Lyon, e pelo
que o essencial em medicina era verificar Dr. Spon, seu grande amigo, distíUara
S6 um alimento vinha a ser quente ou uma libra (45 9 grs.) de cerejas de café,
frio. "obtendo uma fleuma cTara como agua,
Não havia necessidade de alguém ser vapores que se condens"ãram num licor
galenista ou partidário da escola chimi- avermelhado que escureceu, tornando-se
ca para poder affirmar que a pimenta mais crasso, mais negro, e mais oleoso
do reino, a aguardente, o vinho e as es- até attingir um peso total de meia libra.
peciarias eram quentes, ao passo que a A borra da retorta pesava um quarto de
agua, a tisana simples, os legumes figu- libra, de modo que os espiritos voláteis
ravam entre os frios; fosse por que cau- deviam ser correspondentes a outro quar-
sa fosse, pela a^tação de suas molé- to de libra.
culas ou graças aos seus enxofres, saes Do oleo espesso e coagulado, com a
fixos e voláteis. apparencia de manteiga ennegrecida, re-
o, café quente ou frio ?
Seria, pois. ti- sultaram duas onças e cinco drachmas
raria calor ao sangue ou lh'o communi- (74 grs. ,61).
Rectificado, passou a apresentai* côr
caria ?
amarello-clara. Obtiveram os analystas
Relativamente ao vinho era frio, por
do
uma drachma de sal fixo (3grs.,65). Cal-
ter menos elementos inílammaveis cinado, diffícilmente aliás, mostrou-se
que elle; mas, em relação á agua e á muito alcalino e acre como o sal do tár-
tisana, quente por lhes communicar
taro.
amargor e relevo, e ao sangue maior agi-
tação.
A fleuma mostrava-se assaz canegada
de saes voláteis, ou espiritos de côr ama-
Quando bem quente, entretinha, por rella. Provinham de uma parte do oleo
mais tempo, o movimento dos espiritos.
mai^ ethereo impedindo a fermenta.ção
Em referencia ás pessoas: tornava-se
dos ácidos, graças ao sal alcali-yolatil
quente quando bebido por pessoaa friaB
contido no espirito, porque obstruía os
e phieugmaticas, movimentando-Ihes mais
poros, impedindo a sua acção.
o chylo e o sangue. Em compensação, Tal não se dava com o sal alcali fixo,
provocava frialdade nos individues de
que, desembaraçado do seu oleo, fer-
femperamento fogoso por temperar agita-
mentava cora os ácidos, assim como os
ções sanguineas, por demais violentas.
outros alcalis fixos.
Porque? Á razão era clarissfina aos Basaado nesta ana'lys«. conscienciosa,
olhos do nosso eminente physiologista. O explicava Dufour que não agiria ás ton-
café, espécie de legume, insipido, pega-
tas para descrever os effeitos physiolo-
joso e terrestre, empregado como alimen- gicos do café. E ahi desenvolvia uma ex-
to, só podia constituir um sangue gros-
plicação repassada de verdadeiro sabor.
so e viscoso e portanto só podia refres-
Com os dados de que dispunha, "não
car. Mas, corfjo a torrefação consumia parecia teimosia attribuir á infusão ará-
uma parte de sua phleugma, exaltava os bica maior bem que poderia provocar,
espiritos, deixando-lhe muita impressão nem íhaior mal capaz de causar". Com
do fogo. Mas esta torrefação era parcial,
effeito, quando se soubesse que o café
restavam-lhe particulas terrestres de
está cheio de enxofre e sal volátil, como
modo que dahi lhe provinha uma temp^ê^ se deduz da analyse, ninguém se admi-
ratura média. Emfim, se alguém delle raria de que nutre e impede de dormir.
queria valer-se, como meio therapeutico,
devia consultar o medico. "A razão de uma e outra cousa provem
de que o sal volátil e o oleo estando in-
O café, substancia torrada, ninguém o timamente unidos, pela perfeita diges-
esquecesse, não podia deixar de commu-
tão da semente ajudada pelo calor do
nicar ao seu decocto qualidades dessec-
paiz em que nasce, são inuito próprias,
cantes, tanto mais quanto, diurético, tam-
uma pela actividade e outra pela lenti-
bém arrebatava alguma serosidade do dão, para impedir o sT)mno e fornecer
sangue, nova mo2fl-a do' poder seccativo. ao mesmo tempo o alimento."
Pharmaceutico-chimico, apaixonado de O oleo, composto de particulas ramo-
sua profissão, entendeu Dufour submet- sas e fáceis de se entrelaçar, auxiliado
ter o café a uma analyse, profunda quan- pelo sal volátil que lhe serve de vehi-
to possível, das suas qualidades por in- culo, é sobremodo próprio á alimenta-
termédio "desta bella arte da chimíca ção do animal. O sal, por seu lado, tam-
113

bem o é para a rarefacção dos humores os sujeitos a enxaquecas e a outros acha-


e aviventamento dos espíritos depri-
o ques.
midos no cérebro, provocando a vigília." Nos esfoíhagos quentes violenta era a
Nada mais simples, nem mais claro : dístillação do licor de Noé.
Subia o álcool ás membranas cere-
Quando não íiavia espirito preconce-
braes, deixando na bolsa gástrica o vi-
bido, como no caso do Dr. Simão GauUi,
que dando pancada de cego no chá tam- nagre e a borra em que se desdobrava.
bém calumniara o caíé, "droga desec- Esta, dissolvida pelo fleuma, la para o
cante e effemlnadora", chegavam as au- intestino, os rins e as articulações, cau-
toridades a estas mesmas conclusões. sando cólicas, areias e gotta. Com o
Achava Prospero Alpíni que o cafó se café nada disto! Seus espíritos não ti-
compunha de duas substancias, "uma nham a inflammabilidade dos do vinho,
terrestre e grosseira, fortificante e ro- È*"es não existiam ácidos, nem incenti-
horant.fí. « nutra autil, feita de partículas tws á embriaguez.
«^elites, poma quaes aquecia, desarro- Quem não sabia que a bebida até des-
/lava e detergia". intoxicava do álcool? De esperto prohibi-
Tinha o seu aecocto o gosto da chico- ra o governo de Carlos II os cafés e
fea, embora muito melhor desopilasse
do deixara abertas as tavernas. Naquellas oa
que esta. Para Vesimgiuá a oasca do cafó bebedores falavam em politica, cada vez
era um pouco fria e secca, mas o grão mais activos, nestas as fumaças do vi-
moderadamente quente. nho lhes davam o optimismo sobre aa
Torrado, o seu amargor era bem suP- cousas governamentaes, quando não lhes
portado pela língua, motivo pelo qual travava a parolagem e logo depois até a
afastava a náusea. língua.
Pietro delia "Valle, este declarava o Para a formação do chylo era admirá-
café refrescante no verão e aquecedor no
vel o café, que convertia o bolo alimen-
inverno. E Isto sem mudar de essência, era
tar em sangue louvável. Quando este
circumstanclas preciosas! sendo sempre
mal elaborado, toda a digestão se per-
a mesma bebida !
turbava, iQahí se resentindo a saúde
do
Emiím, entre os autores modernos,
individuo.
muitos delles notáveis até, vários eram
Entrava o nosso autor logo depois em
concordes em affirmar que o café for- Encerrava
alta dissertação physiologica.
tifica o estômago, desecca as humidades
o café duas substancias, uma
subtil e vo-
do corpo, é aperiente e desopilante, re- embo-
latU e outra terrestre. A primeira
batendo os vapores que sobem ao cére-
bro a que mantém vivaz.
Uva a excessiva acidez do fermento gás-
era ar-
trico e abrandava o chylo, pois
O primeiro effeito do cafó exercia-se, chi-sabido quanto os saes volatela dimi-
naturalmente, sobre a bocca. B era de
nuíam a energia da funcção acida. Quan-
se notar que, embora ingerido muito detersiva e
to á parte terrestre era ella
quente, não queimava nem esfolava a
bastante constringente, portanto altamen-
língua, como faria a agua simples á mes- gás-
te estomachica. Fortificava o sueco
ma temperatura, o que se poderia attri- trico por sua virtude abtersiva,
ilmpava-
buir ao pó em suspensão no líquido. Intes-
Ihe os depósitos assim como os do
As senhoras, ciosas da alvura dos den- tino delgado e pela seccura consumia as
recelavam talvez que a estes enne-
tes,
humidades supérfluas das partes nutn-
grecesse. Mas de tal se não assustassem.
zes.
Os dentes dos orientaes não eram mais
Graças ao alcali absorvia os azedumes
escuros do que os dos occidentaes. va-
Indigestos, fluctuantes nos primeiros
Mas, se acaso os vissem pretejar, o re- corrupção, op-
sos, resistia a qualquer
médio alli estava á mão: o próprio Pô, punha-se fortemente ás coagulações, cau-
resíduo da Infusão, os Dranquearia como
sa principal e mais commum das
molés-
a cinza do fumo aos dentes dos fu- In-
tias, ajudando muito â transpiração
mantes.
sensível, de onde decorria o equilíbrio da
Tinha o café súbito effeito sobre o es-
boa saúde.
tômago, promovendococção dos all-
a
Que prova maia evidente das vanta-
jnentos, dahi o seu apreço entre os orien-
gens estomacaes do cafó do que o obser-
iaes a quem Mafoma prohibira o vinho.
Jbjectar-se-la que em paízes vinhateiros vado com 03 turcos? Esta gente, grande
eria inútil. Mas ninguém se esquecesse bebedora d'agua, comendo legumes e fru-
ctas, e ingerindo lacticínios, incompara-
as idiosyncrasias numerosas, promovi-
•»s pelo vinho entre os febricitantes e velmente mais do que carnes, alimentan-
114

do-se de pão auasi Bem levedo e multo e as mulheres opiladas. Como fosse lu-
pouco cozido, o que lhes devia arruinar brificante dos humores era admirável
as funcções gástricas, soffria no emtanto como emenagogo. As egypcias e as árabes
muito raramente de indigestões. que o dissessem.
Por que? Só por causa do café! A explicação vinha a ser: "os va-
E' verdade que também tomavam a li- pores uterinos causados pelos movimen-
monada ambreada, feita com summo de tos irregulares dos espirites, excitados
limão, assucar e âmbar, e o chosat, cujos pelas matérias heterogéneas e corruptas
ingredientes eram o mel, as passas e a do baixo ventre, ou na massa do sangue,
seiva acida do cedro. Mas além de não o acalmam-se com o sal volátil do café, que
fazerem no verão, em taea bebidas nâo abranda os puxos das substancias acres."
havia ingredientes capazes de corrigir as O sábio clinico, Sr. de la Closure, ho-
cruezas Indigestas do estômago. mem de tamanha nomeada, não queria
Apontava o nosso Dufour um caso tj'- outro remédio para as suas clientes de
pico succedido a um dos maiores fidalgos regras difficeis e recommemdava immen-
da França, o marquez de Crillon, neto so ás parturientes a ingestão de duaà
provavelmente do fajnoso bravo do pends- chicaras de café forte.
toi.
Sobre os rins era-lhe o effelto simples-
Tendo tido terrivel febre absorvera mente maravilhoso: abriam-se, dando
enromes quantidades de limonada que passagem á serosidade. Graças ao espiri-
lhe arruinaram o estômago, tornando o
to volátil reanimava e entretinha o calor
enfermo absolutamente anoretico. Puzera- natural, desobstruindo, poderosamente,
se a beber café e vira a bebida oriental
todos os canaes por onde transitava.
expellir o catharro viscido que atopetava
Ao uso do café se attribuia o facto de
e obstruía os poros do estômago, impe- hydropicos. Na
quasi não haver turcos
dindo a Insinuação do levedo gástrico dis-
Inglaterra, depois de seu consumo, esta-
solvente dos alimentos! Podia o café, ás
vam diminuindo muito as anasarcas.
vezes, excitar vómitos, mas muito rara-
Conhecido archiatra allemão, Mollen-
mente. E' que ahi vinha em soccorro do
estômago carregado de brock, referia quanto dinamarquezes, sue-
resíduos indi-
gestos. cos 6 hollandezes combatiam, com o uso
Para muita gente, do café, as moléstias hypocondriacas e
até, fazia cessar os
vómitos, provenientes escorbutosas, o que era naturalíssimo.
de
humores, por
demais ácidos. A estes temperava graças Pr(?vinham estas queixas dos humores
ao sal volátil a que, com as partículas íartaricos, ácidos e corrosivos, a que
oleosas, abrandava. combatia o sal volátil cafeico.
Como maior de espadas das excellen- O Sr. Deverace, fidalgo genebrez, got-
cias estomacaes do café apontava Dufour toso dos 25 aos 60 annos, desde que co-
fortíssimo argumento e do qual ninguém meçara a tomar café vira desapparecer
se lembraria: elle impedia a geração dos os nódulos dos pés e mãos, isto depois de
vermes! pois estes procediam das cruezas deixar de ser ventripotente!
do estômago e dos catharros que fermen- Então nos casos de gotta eram simples-
tavam nas cavidades do corpo! mente fantásticos os resultados do caíé.
Que dirão os doutos dessa helmlntho- Nas moléstias pulmonares também se
logia sabia de mestre Philippe Sylvestre notavam maravilhas, pelo facto de que a
Dufour? decocção arábica, diminuindo as serosi-
Nas doenças abdominaes, não menos dades sanguíneas, alliviavam os pulmões.
maravilhosos os effeitos do café. Fundia Para asthmaticos era um bálsamo,
a pituita dos intestinos, causadora da có- para prégadores formidável alentador.
lica, resolvia, pouco a pouco, os humores Um capuchinho, celebre missionário, ex-
viscosos dos pequenos vasos do figado, hausto pelos sermões contínuos, recome-
baço e pâncreas, motivos de deploráveis çava a prédica logo que bebia duas chi-
obstrucções. caras de café, ahi quasi a ferver.
No Egypto era empregadiaslmo para Mas o mais extraordinário vinha a ser
resolver tumores hepáticos, e splenlcos. o caso da completa amnésia occorrida a
O sábio VeslingiuB assegurava-lhe a ex- outro capuchinho que até se sentira como
cellencia contra os suecos frios e espes- que apatetado no momento de subir ao
sos, obstructores das entranhas e dos púlpito. Deram-lhe então café. A' medi-
vasov dippersos por todo o corpo. Assim da que lhe sorvia os goles percebera sen-
era óptimo para as pessoas fleugmaticas sivelmente que os vapores do cérebro se
" . . . .

115

lhe díBsipavain, deixando voltar as ideias ficaria,de fórma alguma, melindrado se


Que delle haviam desertado! o impedissem de trabalhar. E assim se
Para a tisica não havia como café com fôra, seguido dos demais coUegas.
leite. Neuhof, inventor da mistura, imi- Começou o arcediago a tratar a doen-
tara neste particular aos chins, que aos te pelo café; ao cabo de tres dias recu-
seus tuberculosos ministravam chá cqm perara o somno, totalmente ausente, ha-
leite. O Dr. Morin, o celebre medico de via vários mezes, voltara-lhe o appetite
Gxenoble, curara a própria esposa de e a curacompleta se fizera em tres se-
uma tisica gravíssima, tornando-a até manas!
sobremodo robusta. Para os olhos era óptimo receber o
O mesmo illustre clinico explicara ao Individuo,de vista fraca, baforadas ae
nosso autor quanto aos febricitantes era vapor do café; os turcos disto bem sa-
titilo café com leite: dissipava os vapo- biam.
res cerebraes causados pela pyrexia, fon- Passava a bebida por causadora da in-
te das enxaquecas, e fazia esvasiar, pelas somnia; o Dr. Ferrand, conhecido clini-
Tias urinarias, a serosidade salgada e co de Limoges, assegurava que a muitos
acre da lympha existente nas artérias e enfermos insomnes curâra fazendó-os
Teias. tomar café, forte e quente, á hora de
Para febres, terçãs, quartas, tripla- dormirem!
quartãs e outras quaesquer, café! e maia Receioso porém de o acoimarem como
café! café! e mais café! panegyrista inconvencivel de uma pana-
Entendia o eminente Dr. de la Closure, ceia, escreveu o nosso Dufour um capitu-
gloria do corpo medico francez, que os lo especial sobre os indivíduos cujo tem-
elementos subtis e vaporosos do café peramento não se dá bem com o café e
eram nitro-sulfureos, comparticipantes, as moléstias para as quaes a bebida era
portanto, do salitre e do enxofre; dahl a contra indicada.
sua affinidade com os espíritos animaes Não queria que a infusão arábica fos-
a que em pouco tempo normalisavam. se tida á conta do remédio universal. E
Esta substancia, subtil e volátil, tinha depois conhecia bem muitas anomalias.
as suas partículas mais ou menos do Assim havia indivíduos a quem o maná
mesmo tamanho, configuração e movi- dava pavorosa prisão de ventre e outros
mentação que as do espirito de vinho. a quem o sene causava symicopes!
Muito mais puras, porém, do que estas; Assim um seu amigo, o Sr. Galant,
dahi o facto de servirem, com tamanha vomitava pavorosamente sempre que to-
utilidade, nos casos de cephalalgia. mava café. Do que pudera observar no-
De tal dava o autor testemunho pes- tava que este, bom para os temperamen-
soal. Perseguido durante annos por pa- tos pituitários era mau para os biliosos
vorosa enxaqueca, fôra sangrado e pur- 8 calorosos demais, aos que digeriam,
gado a valer; recorrera a formidáveis com excessiva rapidez, os que tinham va-
sos cheios de sangue subtil a circular,
dietas e a banhos; tomara innumeros
clysteres. Tudo debalde! Viera o uso do
com excesso ide rapidez em artérias por

café e ficara curado! Para enxaquecas,


demais abertas
Mostrava-se menos próprio aos ma-
sympathicas do estômago, e das entra-
gros do que aos gordos, quando tal ma-
nhas, nada mais soberano!
greza não provinha de desordens dyspe-
A Senhora de Brière, fidalga famosa pticas
em Paris, pelos méritos e a belleza, tan- e anor-
Pessoas de sangue excessivo,
to soffrera de enxaquecas que, desespe-
malidade subiil, quando fracas do peito,
rada, resolvera trepanar-se. Assim, já deviam delle abster-se pelo receio de que
confessada e ungida, la entregar-se aos
se volatilisasse ainda mais e lhes tomaS'
cirurgiões, quando de repente, esbafori-
se os pulmões
do, entrara pela sala das operações a Para os tísicos era inteiramente con-
dentro o Arcediago do Cabido de Paris, a
tra indicado porque nelles o sangue se
gritar-lhe: "Minha Senhora! então não
achava muto subtílisado.
vedes que estaes entre perigosas mãos?" Uma ultima questão grave reservou-se
E depois interpelara os cirurgiões: Dufour a discutir no final de sua de-
Saiam! bárbaros Ignorantes! saberei im- monstração physíologíco-therapeutica
pedir que se sacrifique esta vida á sua Seria mesmo exacto o que apregoara
ganância Vou curar a enferma
!
!
o conhecido Simão PauH sobre as virtu-
Desculpou-se um dos operadores, di- des anaphrodisiacas e esterilisantes do
zendo que dbedecia aoa clínicos mas não café?
. . .

116

balela, nascida de inverdades


Rebatendo as opiniões do douto phy-
Era tudo
siologista germânico, que tinham, como
creadas por Adão blèarius o celebre via-
café pe- era de esperar, causado grande sensa-
jante germânico que, do uso do
Delle se servem ção, havendo até quem com ellas se es-
los persas, escrevera:
virtudes pro- ipavorisse, lembrava-lhe IDufour que, se
nara attenuar o calor e as
se carregar de o café realmente fosse esterilisante, não
liíicas, pois não gostam de procurar exem-
conlessaram havia necessidade de ir
muitos filbos, assim como
medico de nossa em- plos entre Índios e garamantes, para pro-
ao consultar e ao
var que qualquer excesso se mostrava
baixada" .

in- prejudicial.
E abi vinba então celebre trecho
pelo Não se sabia que os excessos do vinho
numeras vezes repetido, inclusive
ultimamente produziam paralysia hydropisia, apople-
nosso Burlamaqui, de quem
Hildebrando de Maga- xia e até a morte ?
o transcreveu
B 'qual esse juiz, essa autoridade ca-
''^Ipretende-se que o uso frequente
do paz de proscrever o licor que letificava
in- o coração humano ? quando tomado mo-
cahué torna os homens inteiramente
propósito con- deradamente
capazes de procrear. A tal
?

tam os persas de um de seus


reis, o sul- Em todo o caso, elle, Dufour, jámais
tão Mahomet Kasnin,
contemporâneo de vira coisa que justificasse tão absurda
tal
Tamerlão, que tanto se habituara a proposição.
Leberragem que dahi Ibe viera inconce- Se exacto que o cafó abundava em
bível aversão pela esposa. enxofre não era sua torrefacçâo suífi-
este, certo dia, um cavallo
que ciente para que este principio se desen-
Vendo
os palafreneiros haviam derrubado para volvesse em detrimento dos demais ? O
homens que nelle havia de sulfuroso o butyroso
o castrarem, perguntou a esses
pobre
porque maltratavam deste modo o concentrava-se na borra.
animal. Respohderam-lhe velaiuamente E ahi vinha a mais pittoresca explica-
que para lhe tirar a virtude geradora
e
ção, bem ao sabor das ideias alchimicaa
o ardor dos cavaUos inteiros. dos tempos pre-stahlianos, pois ainda não
Respondeu-lhe a rainha que para tal desenvolvera o lUustre aUemão a theo-
não havia necessidade de tanto
trabalho; ria do phlogistico, dentro em pouco ven-
ao animal a bebida negra do cedora.
dessem
idênticos:
Cahué, cujos ef feitos seriam tiuem pensasse que tomando café In-
tão frigido
tornar-se-ia logo o cavallo geria muitas partículas sulfúreas ficasse
quanto seu marido". certo de que este enxofre sahiria ligado
Valendo-se deste depoimento puzera-se á própria fleuma de sua borra e da
agua
o mestre PauU, Johannes Wilhelm PauU, em que se dissolvia. Assim se achava
a declamar contra o café. muito proporcionado aos espíritos ani
Era este cafeiphobico personagem maes e prolíficos a que, segundo a con-
muito reputado em teiras germânicas. cordância das experiências, não commu-
Nascido em 1603, em Rostock, exerce- '
nicava movimentos irregulares. Também
ra a medicina na cidade natal,
passando não os dissipava, como fazia o vinho, por
depois a Copenhague para ahl professar meio de seu enxofre, que era mais agi-
anatomia tado, mais inflammavel e mais fácil do
Fizera carreira na Dinamarca, onde separar-se de sua fleuma, e até da pró-
pria agua."
chegara a ser o primeiro medico do Rei
e aa Côrte. E até bispo Lutherano.
Ca- E depois: que valiam os argumentos
sado duas vezes, só de uma mulher tive- do Snr. Dr. Simão Pauli contra a ver-
ra quinze filnos! A' sua Machina anatO' dade inilludivel dos factos ? Na Turquia
mica, ripanço infoliar publicado em e no Egypto, abusava-se do café, e, no
1668, acatavam os doutos ae seu tempo, emlanto, estes dois paizes tinham 'popu-
summamente lação densa.
A alarmado ao que pa-
este povoador, rigueirôa, embaixador da Hespanha na
rece pelas necedades de Olearius, tanto côrte da Pérsia, residira neste paiz lon-
impressionara o texto do viajante que se gamente, muito antes de Olearius, na-
mettera em seu Tratado contra o abuso da menos de quinze annoa! E, <no
do tabaco e do chá a barafustar contra o emtanto, ada relatára a iproposito da
café tão ridícula balela. Pelo contrario,
Era positivamente esteriUsante! e isto narrara em sua relação dlplómatlca:
por causa de sua natureza sulfúrea! "Us persas usam o cahua por motivo de
117

eaude, e como o achem delicioso, decla- Bile não é o <iuinino, este maravi-
ram-n'o multo estomacal". lhoso febrífugo quo Hlppocrates teria
Acaso seiúa depois da sua estada na- adorado se o conhecesse.
(juelle paiz que se descobrira tão esdrú-
E realmente, quando poderiam os an-
tigos affirmar a um enfermo, como agora
xulo caso ?
se fazia, que com tres ou quatro dóses
,Mas então ahi estava o depoimento de
deste remédio a febre lhe passaria e o
Tavernier, o Ulysses do século XVII, ho-
appetite lhe haveria de voltar ?
mem meticulosíssimo. Teria, sem duvida Varias as celebridades francezas sete-
alguma referido tal historia se acaso
centistas adeptas das ideias de Dufour
possuísse ella alguma base séria.
e que se distinguiram pelo enthusiasmo
(B a reforçal-o, vinha outra opinião de
de bebedores de café.
douto viajante, o medico Bernler. Affir- Entre elles, na primeira plana: o phi-
mava este itinerante illustre que na Pér- losopho, a propósito de quem escreveu
sia era o cafémulto moderadamente con- Deillile os versos conhecidíssimos sobra
sumido. Se alguns persas soffriam da
o licor.
anaphrodisia é que estavam viciados pela à Virgile qu'adorait Vol-
Qiii inanquait
aguardente, o vinho e o oplo, sendo ge-
taire.Conta-se que chegou em certo pe-
ralmente muito mais intemperantes do
ríodo de vida a tomar cincoenta canequi-
que os turcos. nhas diárias !

Em annexo,
publicou aliás o nosso Outro apaixonado do café foi Fonte-
Dufour uma carta de Bernier, que esti- nelle, de quem é multo conhecida a res-
vera longamente na Syria, Arábia, Pér- posta a certo sujeito que acoimára o café
sia e afinal na índia. de venenoso.
Ahi passára doze annos como medico — "Deve sel-o, mas de acção muitíssi-
<io Grão-Mogol Aureng Zeb. mo lenta, pois ha oitenta e cinco annos
Homem de enorme prestigio intelle- que o ingiro e ainda por aqui ando."
ctual e perfeita integridade, sua palavra Observa Ukers que tal anecdota, posta
merecia o máximo acatamento. á conta de Voiitaire, não .pode ter tal ori-
Desmentindo a Olearius, formalmente gem, pois Fontenelle morreu centenário,
e Voltaire aos 84 annos.
declarava o illustre itinerante: "Na Ín-
dia e na Pérsia, o consumo do café ó Grande adorador do café também foi
muito pequeno, quasi se limita aos por- Talleyrand, o homem creador de tanta
tos do mar e pouco penetra no interior phrase de espirito e de notável profun-
dessas terras, ao passo que se mostra deza.
enorme na Turquia." Delle disse: Noii- comiae le diable,
Era Bernier um dos enthusiastas do chaud comme l'Enfer, pur comine un
café, bebida nutriente. Não havia com- ange, doux comme 'l'amour.
paração entre a que se ingeria no Bgy- Cita Ukers um trecho desse diplomata
pto e a da Arábia, esta incomparavel- inegualavel, pedaço que também se at-
mente mais saborosa. A de Europa nem tribue, mas erradamente, a Brillat Sa-
«e comparava á do Oriente. E' que com varin:
a longa viagem, havia a evaporação das "Uma chicara de café, levemente tem-
essências. Outra operação de alta impor- perado com bom leite, em nada perturba
tância: a torração, de que havia certos o intellecto. Pelo contrario, o estômago,
segredos. Basta dizer que, no Cairo, lugar graças a ella, torna-se apaziguado e não
mundo onde mais se bebia café, só affecta o cereibro.
existiam dois especialistas reputados para Não atrapalhará o espirito com exigên-
tal fim. Guardavam ciosamente o maior cias, deixando-lhe liberdade de acção.
segredo em defesa de seus interesses. As suaves moléculas de Moka suble-
Ao finalisar a informação, atirava Ber- vam o sangue em seu excessivo ardor o
nier alguns jactos de agua fria á fer- órgão pensante dahl recebe um senti-
vura do enthusiasmo de seu consulente. mento de symipathia, toi1na-se-lhe mais
"Mo de attribuir ao café todas estas fácil o trahalho e assim sentireis, sera
grandes virtudes que a novidade, muito prejuízo de vossa refeição principal que
mais do que a verdade ou a experiência vos restaurará o corpo, assegurando-vos
lhe emprestam, não sou homem para is- noite calma e deliciosa !

to, nem tão pouco medico que precise de Outro personagem illustre, e IHustris-
ftlguma distracção nova para os meus simo, aliás muitas vezes menos pela po-
enfermos. sição do que pela valia pessoal e grande
.

118

tomador de café foi Luiz XV, o rehabi- versário á impotência, aniquilando-lhe o


litando difficil do talentoso P. Gaxotte. commercio.
Diz-se que o Bien Aimê, aliás muito Assim lançou o celebre decreto de 21
mais Bien aimant, gostava de preparar, de Qovembro de 1806, prohibindo qual-
elle próprio, a infusão. B que, das estu- quer commercio, qualquer communicação
fas de Versailles, o jardineiro-chefe lhe com a Grã Bretanha e seus domínios.
Aliás, é bom lembrar que a Inglaterra
coliia nada menos de tres kilos annuaes
para este fim.
também decretara o bloqueio das costas
Conta-se, não se sabe bem com que
do norte do Império, bloqueio que se pro-
fundamento, deste rei que tanto desmen- longava até á foz do Elba indo de Brest
o titulo de Christianissimo: Estava,
a Hamburgo.
tiu
certo dia, em Louveciennes, em casa de
Estas medidas tyrannicas causaram
sua ultima favorita, a formosa Bécu, dos enormes malefícios ao mundo civílisado,
maledicentes, que ao nome, plebeu e mal torna-se obvio lembral-o. E dahi provo-
sonante, trocou pelos appellidos pompo- caram uma série de complicações inter-
sos de Jeanne de Gomard, de Vaubernier,
nacionaes as mais graves, ê" as mais va-
condessa Du Barry. €omo o seu café fer- riadas, como, por exemplo, as violências
vendo ameaçasse derramar a comborça, do conquistador contra o Summo Pontí-
fice deposto e encarcerado, a dupla in-
gritou-lhe, com a maior sem cerimonia:
Ija France (assim lhe chamava) ton café vasão ibérica e afinal a guerra com a
va foutre le camp !
Rússia, que determinaria a ruína do Im-
Conta-se que Luiz XV gostava tanto de pério francez.
café que só a verba do grão destinado ás As populações, arruinadas ipela falta
princezas suas filhas attlngia setenta e de intercambio
commercial, soffreram
cinco mil libras francezas por anno, o immenso sem que as duas grandes po-
que é phantastico e naturalmente denun- tencias riaves conseguissem uma domi-
cia a existência de abuso enorme, pro- nar a outra.
veniente de estorno inilludivel da ucha- Esteve a Inglaterra, attíngída na parte
ria real. mais vital de sua economia, a pique de
Arrola Ukers a J. J. Rousseau entre se perder, esmagada por immensa divi-
os maiores apreciadores do café. Conta da nacional, com todos sabem.
que, certo dia, ao passar nas Tulherias, Apezar de todos os rigores da prohl-
em companhia do autor de Paulo e Vir- bição, as mercadorias brítannicas e os
gínia (a quem chama Bernardino (sic ?) géneros de sua importação introduziram-
de Saint Pierre dando um fácies italiano se no Continente, máu grado toda a vigi-
ao nome Bernardin) percebeu no ar o lância alfandegaria, a severidade das
aroma do café torrado. multas e o perigo das apprehensões.
Asaim exclamou logo: Bis ahi um per- O café, producto exótico, estava clas-
fume que me delicia ! Quando torram sificado nos denrées colonia^Ies, e assim
café perto de casa apresso-me em abrir o seu consumo ficou gravemente attin-
as portas para poder aproveitar-lhe todo gido pela tyrannia napoleoníca, que man-
o aroma. dava destruir pelo fogo todos os géne-
Affirma ainda Ukers que o Homem ros apprehendídos de procedência ingleza.
da Natureza expirou tendo em mãos uma Uma anecdota pittoresca, que não ha
chicara de café.
francez que ignore, data deste tempo
'E attribue a Napoleão o seguinte dito:
Authentica ou não, pertence a um dos
Café forte em abundância torna-me vi- mais interessantes capítulos do anecdo-
vaz. Incute-me ardor, força descommu-
tario napoleónico, envolvendo a própria
nal e dôr que não deixa de me causar
p&ssôa do césar corso.
carto prazer. Prefiro soffrer a ser insen-
sível."
Já, desde muito, eram os francezes
grandes bebedores de café e sentiam Im-
Falho, com a derrota da esquadra fran-
menso a privação de sua bebida prenl-
co-hespanhola, em Trafalgar, o golpe ima-
lecta.
ginado por Napoleão, em 1805, para o
Viajava Napoleão por certo recanto da
desembarque, na Inglaterra, das enormes
França, quando pequeno accidente, ou
forças accumuladas no acampamento de
incidente, de carro obrigou-o a deter-se
Boulogne, ficaram as esquadras britan-
nicas senhoras incontestes dos mares.
numa aldeíola. Bmquanto esperava, diri-
giu-se ao presbyterio local, onde residia
Foi então que o Homem dos Séculos velho cura.
imaginou o Bloqueio Continental, a seu Com a sem cerimonia habitual daa
vêr, único meio de reduzir o terrível ad- maneiras desabusadas, foi o vencedor de
119

Austerlitz varejando a casa. Sentiu logo A esta scena popularisou immenso um


forte cheiro de café torrado. Logo de- desenho do illustre CharJet, a quem im-
pois, apanliava no quintal, o vigário eni mortalisou uma serie de estampas la-
flagrante delicto de contravenção á lei do mosas, finas e espirituosas, sempre sem
Bloqueio Continental. aflrimonia alguma, e acarlciadoras notá-
— Então, Sr. Padre! — interpeUou-o veis do sentimento patriótico e da recor-
Napoleão vehementemente. Pego-o com a dação da gloria militar franceza.
liocca na botija! Assim é que o Sr. res- Uma das mais populares da obra enor-
peita as leis do Império! Bravíssimo! me desse quasi emulo do grande Rafíet,
Mas o cura era homem de muita cal- ó exactamente esta que iliustra o episo-
ma e sobretudo espirito. Assim respon- dio celebre da historia napoleoníca.
deu-lhe com a maior opportunidade. A falta de café exasperava os france-
— Mas Sire! Que estou fazendo senão zes, mas a appUcação do Bloqueio Conti-
exactamente o que Vossa Magestade nental beneficiou ao Brasil: Trouxe-nos
manda? Pois se V. M. me encontra a a transplantação da monarchla de que
queimar os géneros coloniaes?! proveio o apressamento de nossa iníde-
E Napoleão, grandíssimo apreciador pendencia, a fundação do Império de on-
dos traits d'esprit e, elle próprio, hábil de decorreram a unidade e a integridade
calembourista, riu-se, deixando o bom do brasileiras e graças á qual gozou o paIz
padre saborear o seu café, conquistado o governo dignificador desse homem no-
graças a tão habll sortida. bilíssimo que foi Pedro II.
.

120

CAPITULO XXI
A propagação da cultura cafeeiro extra arábica
Introdução do cafeeiro no Oriente e nas
colónias francezas das Antillias

Tradição corrente, e em geral acceita, mas mudas de cafeeiros que foram plan-
refere que a propagação do café se fez tadas no jardim botânico local.
lentamente, porque os árabes querendo Dalli se disseminaram pelos principaes
guardar o monopólio do fructo da rubia- estabelecimentos da Europa. De Java
cea tomavam a precaução de ferver as transportaram os hollandezes o cafeeiro
sementes vendidas para a exportação. a Sumatra, Celebes, Timor, Bali, etc.
Aldmitte Ukers a poS'Si511idade desta O primeiro carregamento Importante
manobra que, devia ser muito penosa, do café de Java despachado á HoUanda
pelo vulto da fervura de tanto grão, ob- partiu em 1719. Em 17 43 attingia esta
sei-vemol-o exportação a 1.600.000 kilogr., ou se-
Mas não era possível reprimir o surto jam 2 6 mil e tantas saccas das nossas,
da lavoura de tão precioso género. ao passo que o de Moka chegado á Hol-
Em 1614 estudavam os negociantes íanda não attingia 100 saccas, Tornou-
batavos as condições do aproveitamento se Java no século XVIII segundo berço
do café como artigo de commerclo Em.
do cafeeiro, dominando o mercado do cafó
1616 era um cafeeiro transportado de até que o Brasil a supplantasse.
Moka para a Holíanda. Os francezes começaram então a psii-
Em 1670 pensou-se em aclimar o ca- sar em introduzir a rubiacea em suas co-
feeiro em França, em Dijon, com resul- lónias.
tados péssimos, comtudo. Refere Pad- Curioso o que se deu com a transplan-
berg, porém, uma informação de Blégny tação dos cafeeiros do JardiS Botânico
relativa a uma plantação de cafeeiros de Amsterdam para as estufas do Jardim
em Dijon, por volta de 1680, segundo das Plantas de Pariz: uma serie de ver-
contava um tal d'Errere, grande nego- dadeiros fracassos.
ciante de Lyão, a propósito de um fidal- Mas perseveraram os Trancezes em seu
go das vizinhanças da capital borgonhe- propósito. O próprio Governo do bui'/
za. Trata va-se realmente da planta do XIV, finda a conflagração européa da
café. Successão da Hespanha e assignada a
Diz Eoerhaave que por 1690 se fez paz geral de Utrecht, solicitou officiai-
primeiro ensaio de transplantação para mente, do burgo mestre de Amsterdam,
Java. a remessa de mudas de cafeeiro.
Em 1690 o burgomestre de Amsterdam, E' provável que os plenipotenciário.^
Nicolau Witsen instigava o governador de Luiz XIV, indo á cidade celebre, onde
de Java, Van Hoorn, a plantar café e ao se reunia a conferencia da paz mundial,
commandante do Malabar Adriano Van indo h antiga Trajectum ad RhenHBa dos
Omen a enviar á grande ilha malaia al- romanos, hajam visto, no Jardim Botâ-
guns cafeeiros de Cananor. Procediam nico do grande porto hollandez, os spe-
de outros vindos do Yemen. Dahi se ori- cimer.s do cubiçado arbusto.
ginou todo o cafesal da Malásia hoUan- Ura tratado de commêrteíõ pelo prazo
'deza. Estes arbustos foram plantados de vinte e cinco annos se assignou então
pelo Governador Geral WiUem van Oud- entre a F^rança'"e a Republica das Pro-
tshoorn em Kedawoeng numa lazenaa víncias Unidas em que aquella ficava no
pertto de Batavia. Foi mais tarde esta mesmo pé de igualdade que a Ingla-
plantação destruída por um terremoto e terra.
subsequente innundação. Em 1699 Hen- E o abbade de Polignac, um dos ple-
rique Zwaardekroon importou nipotenciários do Rei Sol, assígnalava ao
algumas
mudas do Malabar para recomeçar seu Rei que os hollandezes queriam a
as la-
vouras .
todo o transe praticar o pfiviííg tíx) Ht.tle
asíd tískínjç too mnch de que os inglezes
Em 1706 Iam para Amsterdam as pri- os accusara de serem useiros e vezeiros.
meiras amostras de café javanez e algu-
Accommodaram-se as cousas ante a al
121

titude enérgica da IngKterra, que com- quena, verde; fructos encarnados, como
pelliu o povo dos diques e dos canaes a uma cereja,pouco mais ou menos, e ou-
diminuir as exageradas pretenções. tros ainda mais escuros, de cõr quasi ne-
Afinal, recebeu Luiz XIV, de presente, gra de maduros... Concluindo, diremos
um cafeeiro novo e vigoroso. Tinha cer- em Tjeneficio dos curiosos e dos estran-
ca de cinco pés (lm,65) de altura. En- geiros, que Mr. de Jussieu tem muito
viado ao Castello de Marly, foi transfe- prazer em recebel-os e os instruirá com
rido para o Jardim das Plantas de Pa- sua conversa erudita e agradável."
riz, onde, com todos os cuidados, o rece- Duas tentativas baldadas houve, se-
beu o eminente b-otanico Antonio de Jus- gundo consta, para se transportarem ás
sien. Seria elle o primeiro a dar a pri- Antilhas mudas do cafeeiro offerecidas
meira descripção scientifica do fruto e ao grande soberano do Nec pluribus im-
da flor do cafeeiro. par pelo burgo-mestre de Amsterdam.
Já nesta época percorrera a Hespanha Afinal viria a terceira a dar sorte, após
e Portugal em companhia de seu irmão uma serie de peripécias românticas d»
Bernardo, aliás muito mais cejebre. largo sabor.
Este cafeeiro do Jardim das Plantas O lugar da transplantação devia ser a
passa por ser o tronco de pelo menos Martinica, a ilha tomada, para a França,
todo o cafesal das Antiinas, da America em 1635, por Charles Lyénard, senhor
Centra! e do México. de rOlíve, e seu companheiro Jean Du-
Escrerve Porto Alegre: plessis, senhor de Ossonville.
"Nessa época (1731) appareceu a se- Parece, segundo affirma Porto Alegre,
gunda descripção do cafeseiro, devida ao que a Antonio de Jussieu commettera o
fundador da lllustre família de botâni- Rei o encargo de propagar a cultura do
cos Antonio de Jussieu, cujo ultimo re- cafeeiro pelas colónias francezas, sendo
presentante, Adriano de Jussieu, falleceu elle quem escolheu a Martinica para cam-
em 1853. po das primeiras experiências.
Esta memoria, que é currosa a muitos A tal propósito escreve Raynal, a res-
respeitos, encontra-se nas Memorias da peito desta ilha, celebre nos fastos ame-
Academia de Sciencias de Paris, de 1713, ricanos e nos do café:
a pag. 291, íomo 7, e ahi o cafeseiro é "Passando os francezes a ser os úni-
designado debaixo do nome de Jasmin cos possuidores da Martinica, occuparam
d'Arabie à feuilles de lanrier (Jasminum tranquillamente os pontos mais conve-
arabicum, laiiri-foWo cujus sremen apuf! nientes ás suas culturas. Constituiram-
nos cafíe dioítur)'. se então duas classes: Era a primeira a
"Este escripto e as publicações da im- dos que haviam pago as passagens para
prensa jornalística excitaram por tal a America: chamavam-lhes habitantes.
modo a curiosidade publica em Paris que O governo lhes distribuía terras de que
todos se empenhavam em ver semelhan- ficavam proprietários mediante o encar-
te planta". De obra muito interessante go de uma taxa annual. Víam-se obriga-
extrahimos o seguinte período curioso, a servir militarmente e a contribuir se-
que dá conta de uma visita quo fez o gundo a proporção dos meios ás despe-
autor, em companhia de muitas pessoas sas exigidas pela conveniência e segu-
de dístíncção, ao Jardim das Plantas "o rança das povoações.
intuito de alli observarem o cafeseiro: A's suas ordens estava uma recua dà
"Fomos conduzidos ahi por Mr. de pobretões, á sua custa trazidos da Eu-
Jussieu, doutor em medicina, membro do ropa, sob o nome de engagés, gente sub-
Academia de Sciencias e professor real mettida a uma espécie de escravatura
de botânica. . Nós o conTempIãmos (ao
. quo durava tres annos. rindo o prazo,
cafeseiro) durante muito tempo com tornavam-se os contractados, pela re-
grande prazer. Estava aíòda no caixão cuperação da liberdade, iguaes áquelles
em que tinha vindo, collocado dentro da a quem haviam servido.
estufa. Uns e outros oocupavam-se exclusiva-
Este arljustb pode ter ao Cbdo uns cin- mente do tabaco e do algodão. Mais tar-
co pés de altura, e uma "boa pollegada de de trataram do urucú e do anil. A cul-
espessura. De seu tronco estendem-se tura do assucar só começou em 1650.
diversos ramos, que dão ao
pequenos Benjamin Dacosta, um de.^íses judeus
torto um
aspecto pyramidal. Suas folhas industriosos cuja iniciativa provem <ia
Bão quasí todas dispostas duas a duas ao própria oppressão de sua nação, depois
longo dos ramos. de ter cultivado a canna, plantou, dez
Nós TTbservamos neste arbusto, fructos annos mais tarde, cacaiieíros. Seu exe-
verdes, do tamanho de uma ameixa pe- plo não teve. imitadores até 1684, quan-
. .

122

do o chocolate tornou-se de consumo bas- a reconstituição do seu património.


tante commum na metrópole. Escreve a tal propósito Paulo Porto
Então passou o cacau a constituir o Alegre:
recurso da maior parte dos colonos, que "Tendo a França reconhecido a utili-
não possuíam fundos sufficientes para dade desta planta, e desejando Introdu-
emprehender a cultura da canna de as- zil-a em suas colónias, encarregou a An-
sucar tonio de Jussieu de achar os meios de
Além destes recursos, tinha a Marti- a fazer chegar a essas colónias e a. Mar-
nica vantagens naturaes, que pareciam tinica pareceu-lhe offerecer as condições
dever leval-a, em pouco tempo, a um mais favoráveis para um primeiro ensaio
enriquecimento considerável. de acclimação.
Óptima a situação geographica. Rece- Foi ahi que pela primeira vez appare-
beu favores do governo francez e teve a ce a figura memorável na historia uni-
felicidade de não ser assaltada por cor- versal do café, de Gabriel Matheus de
sários . Clieu ou de Clieux, a quem alguns auto-
"Apesar de tantos recursos de prospe- res também chamavam Declieu e De-
ridade, a Martinica, embora mais adian- clieux.
tada que as outras colónias francezas, Jussieu entregou a mais robusta das
ainda o era muito pouco, em fins do sé- tres mudas que havia obtido do café-
culo XVII. seiro do Jardim das Plantas, ao seu ami-
Em 1700, só contava, ao todo, seis mil go e jovem official de marinha, Desclieux,
quinhentos e noventa e sete "brancos e que partia em 1723 para alli, encarre-
quatorze mil quinhentos e sessenta e seis gado de uma commissão, continua Porto
escravos. Reduzidos eram os rebanhos de Alegre
bovinos, equinos e ovinos, consideráveis Segundo alguns autores, Jussieu dera
as lavouras de cacau, tabaco, e algodão, um só pé e, segundo outros, tres, dos
existindo nove anilarias e cento e oiten- quaes, dous pereceram em caminho e um
ta e tres pequenos engenhos de assucar." só se salvou.
Tal o quadro do território onde iam Seja como fôr, a versão mais commum
surgir os primeiros cafeeiros antilhanos. é que & Martinica só chegou um arbusto
Vejamos porque. tronco de tantos milhares de plantas, que
Em 1717, entendera a metrópole alli- mais tarde povoaram as" vastas planta-
viar Os martiniquenses da taxa excessiva ções alli encontradas. Declieux, aliás,
que sobre o seu commercio pesava. As refere-se a um único pé.
suas lavouras prosperavam então. Mas Escrevendo em 1860, af firmava Bur-
occorreu um cyclone que lhes arrazou os lamaque que quem confiou os cafeseiros
cacauaes completamente. a De Clieux fôra de Chirac, em 1723, e
Recorreram á metrópole e esta, por in- não de Jussieu, o que é possível, pois de
termédio de um de seus sábios, lhes Chirac dirigia, então, o Jardin des Plan-
acenou com o cafeeiro, único meio para tes de Paris.
.

123

CAPITULO XXII
Esboço biographico de Clieu. O celebre episodio
de sua vida. Depoimento do protagonista

PretendeUkers, citando a Biographie sario do Ministério da Marinha. Não se


de Michaud,
Universelle, que Gabriel sabe quando de Clieu chegou exactamen-
Matheus de Clieu nasceu em Angléque- te á ilha autilhana. Pensam alguns au-
ville-sur-Saane, na Normandia (localida- tores em 1720, outros em 1723.
de ou lugarejo que hoje está no depar- Ensina Jardin (Edelestan) em seu
tamento do Sena Inferior), não se sabe lie cafeier et le café, publicado em Paris
se em 1686 ou 168'8. O Grand Dlction- no anno de 1895, que talvez haja de
naire du XIX Siècle muito mais recente Clieu, realizado duas travessias, com ver-
do que a Biographie Universelle, acceita dadeira constância, digna de todo o lou-
o primeiro dos dous millesimos. A' sua vor.
família pertencia João Baptista de Cileu, Sempre segundo Jardin parece que na
sábio theologo, autor de obras de pieda- primeira viagem morreram as mudas.
de, cura 'da igreja de Nossa Senhora do Na segunda tomara o official a precau-
Pavre, a quem se deve apreciado traba- ção de plantar as sementes ao deixar a
lho sobre a historia do grande porto nor- França; assim sobreviveram graças ao
mando, no século XVII. sacrifício que o official fez de diminuir
Entrando para a marinha de guerra a própria e escassa ração d'agua, da jor-
real, sabemos que Gabriel de Clieu era, nada oceânica, para as humedecer".
em 170,7, enselgne de vaissean ou se- Ha a tal respeito um dado positivo —
gundo tenente. Em 1718 fizeram do ca- a carta escripta pelo próprio de Clieu e
valleiro da Ordem de S. Luiz. Dous an- publicada na Année Litteraire de 1774,
nos mais tarde tinha a patente de capi- a quem era dirigida.
tão, provavelmente de infantaria. Neila só se refere a uma travessia.
Desídfedata por nós ignorada, servia de Querem outros discutir segundo pon-
Clieu na guarnição da Martinica. to, verdadeira nuga. Seriam as mudas
Indo á França para tratar de negócios uma só ou três?
pessoaes occorreu-Ihe alli a ideia de, na O próprio official affirma que só
viagem 'de volta, levar comsigo algumas transportou uma plantinha. De accordo
mudas de cafeeiro para os acllmar nas com as mais abalisadas opiniões partiu
Antilhas Nova versão como veremos
. . . .
de CUeu de Nantes, em 1723.
Eram poucas as de que podia dispor Conta-se que para melhor preservar a
o Jardim das Plantas e o joven official vida do precioso e frágil arbusto, arran-
achou difficuldades em conseguir que jara uma caixa, com tampa de vidro, de
lhas dessem. modo a absorver os ralos solares e deste
Parece que o favoreceu então o Sr. modo conservar o calor mais intenso
de Chirac, physico real. Este celebre fa- em dias nebulosos.
cultativo (1652-1732) depois de ter sido Não se tratasse de planta arábica!
lente em Montpellier, e servido como me- Entre os companheiros de bordo um
dico militar nas campanhas de Hespa- havia, typo sórdido de invejoso, que tudo
nha, adquirira immensa reputação como poz em pratica para fazer com que se
clinico, fora nomeado primeiro medico baldasse a generosa empreza do joven
do Regente, Duque de Orléans, e afinal official, tentando arrebatar-lhe a mais
de Luiz XV. Na vaga de Fagon fel-o este justa gloria.
rei director do Jardin des Plantes. felizmente, porém, não logrou resul-
Foi a elle que de Clieu recorreu Co-
.
tado algum a baixíssima tentativa.
mo não fosse bem succedido va'eu-se da "E' inútil, escreveu o próprio de Clieu,
influencia de uma senhora de alta posi- á Année litteraire, contar, por miúdo, o
ção a quem Chirac nada podia recusar, cuidado infinito que me vi obrigado a
relata a chronica maliciosa do tempo desenvolver para ipreservar a delicada
As mudas escolhidas se despacharam muda, durante a longa jornada mariti-
a Rochefort, porto onde o official devia niã, e as difficuldades que precisei su-
embarcar, por um Mr. Begon, commis- perar para arrebatar ás mãos daquelle
124

homem, 'baixamente invejoso da alegria meniç sc tratava do acontecimento ca-


que eu iaprestando tal serviço á
ter, pital de su£. existência, e certamente elle
minha pátria. Não lhe tendo sido possi- se lhe gravàra indelevelmente ás remi-
ve) arrehatar-me a muda de café, certa niscências. .Em todo o caso, teve de con-
vec mutilou-a cortando-lhe um dos ga- fessar lacunas senalvela á memoria,
Ihinhos." iionic estas de se não recordar do nome
O barco em que de Clieu navegava era, do navio em que viajára nem o do com-
mercante e muitas foram as vicissitudes !nan'cante do barco.
do perigo que ameaçava aos passageiros "Depositário dessa 'planta para mim
e tripulação. tão preciosa, embajquei com a maior
FJra, aliás, ainda, a mais perigosa a satisf acção; o navio que me levava, era
travessia do Atlântico, por causa da pre- um barco mercante, cujo nome, assim
sença idos piratas barbares<;os, pululan- como o do capitão que o commandava,
tes nos mares occidentaes, apesar da vi- me escaparam da memoria, pelo d?curso
gilância das potencias ibéricas, em Gi- do tempo.
braltar. Recordorme, porém, perfeitamente, de
Quantos e 'quantos francezes, das An- <jut> H travessia foi longa e a a%Uit ucs

tilhas,não terminaram a vida nas galés, faltou de tal modo que, durante mais
argelinas e tunisina.s, e figuraram nos do um mez, fui obrigado a compartilhar
mercados de escravos de Marrocos, do a escassa ração que me era fornecida,
Egypto e da Turquia ? Um dos mais ce^ com essa muda de café, sobre a qual fun-
lebres casos do commercio idessa "mar- dara as mais ditosas esperanças e que
chandise barbaresque", como se dizia no íazla as minhas delicias.
tempo, é o daquella jovem e lindíssima Mocessitava de tal soccorro, extrcna-
fidalga franceza, créole das Antilhas, Ai- mente idebil como era, nâo sendo maior
mée de Dubuc de Rivery, que, capturada que um tanchão de craveiro. Depois do
por um destes corsários, foi parar no minha chegada, meu primeiro cuidailo foi
serralho do Grão Turco Abdul Hamid I, planíal-a, com cautela, em meu jardlui,
onde acabaria sultana validé e mãe de no logar mais favorável ao seu crescimen-
um padishá, Mahmud II. to. Ainda que a guardasse á vista, pou-

Por um triz cahiu o navio


de Clieu co faltou para que me fosse roubada va-
Mm rias vezes, de modo que me vi obrigado
em poder de pirata tunisino. Soffreu
depois tremenda tempestade, que quasi a manidar cercal-a de espinhos e a dai-
o submergiu e teve uma calmaria pôdre, Ihe guarda até sua maturação.
interminável. Dentro de alguns dias, não O êxito excedeu minhas esperanças:
c.)lhl cerca de duas libras de grãos. Re-
havia mais quasi agua bebivel a bordo.
Precisaram todos resignar-se a meia dú- parti-os entre todas as pessoas que jul-
zia dc goles.
gaoi mais aptas a dispensarem os con-
A respeito do íeito de De Clieu, escre- venientes desvelos á reproducçâo dessa
planta.
ve Fusée Aublet, depois de se referir a
uma tentativa Infructifera de 1716: Fo^ a primeira colheita muito abun-
dante; com a segunda, a população da
'•Ao Snr. de Clieux idevem as Antilhas
Marfnlca achou-se em condições de des-
haver intentado, em 1720, enriquecer a
envolver, prodigiosamente, a cultura.
Martinica com a cultura do café. A' sua
Mas o que lhe favoreceu, singularmente,
iniciativa, deve-se o êxito deste segundo
a multiplicação, proveio de que, 2 annos
ensaio. Este liom cidadão, nesse tempo
ntaltj tarde, todos os cacaueiros da ilha,
capitão de infanteria e guarda-marinha,
que constituíam a occupação, e o recurso
tendo obtido, graças ao prestigio ido me-
único ide mais de 2.000 habitantes, foram
dico Chirac, uma muda oriunda das se-
desarraigados, arrebatados e radicalror-n-
mentes do caféeiro conservado no Jar-
te destruídos pelo mais horrível idos fu-
dim do Rei, embarcou para a Martinica,
racões, acompanhado de uma inundação
Julgo, porém, dever deixar o próprio
que submergiu toda a área do plantio
De Clieu relatar o êxito ida empreza, "de tacs arvores, terreno logo empregado
no extracto duma carta que me deu a
com tanto esmero quanto habilidade, na
honra de escrever a tal respeito, a 22
plantação dos caféeiros. Maravilhosamen-
de fevereiro de 1774.
te medraram estes, pondo os lavradores
Poder-se-á objectar que nesta data era condições de propagar o café, man-
contava o official mais de oitenta e sete dando-o a São Domingos, á Guadelupe
annos de idade, achando-se a nove me- e outras ilhas adjacentes, onde, em se-
zei? ide seu passamento Ter-lhc-ia, tal- guida, o cultivaram com o maior êxito,
vez, claudicado & memoria. Mas justa- etc".
.

125

Observa Padberg que "este docuDien Quanto luxo, quanto conforto futuro,
t; básico, junto com as Indicações do quanto deleite nasceria daquelle único e
Aublet, deve prevalecer '
sobre noticias pequeno thesouro confiado á guarda de
discordantes, que falam por exeniplo de um homem de rara visão e bella perspi-
duas, ou mesmo três, plantas, das ^juass cácia inteUectual! alentado por espirito
só ama teria vingado, ou que aponÍF.m de real amor aos seus semelhantes!
a data de 1723, como "a mais fidedigna",
Não ha na historia do povo francez lei-
co?t;o dissera Ukers.
to igual praticado obscuramente para
Para o autoi gerrnhuico, 1720 é a data
maior beneficio da Humanidade.
inJiscuíivel da Introducgão do caféeiro
na Martinica. Algumas das sementes de sua priméTra
"Infere-se, aliás, da própria relação da colheita deu-as de Clieu ao Sr. de Ta
De Clieu, que falamdo do grande terre- Guarigue-Survíliier, coronel de milícias
moto de novembro de 1727, descripto da Martinica e a diversos outros lavrado-
como "a mais horrível das tempesta(]'3s", res -que as plantaram
fixa esta catastropbe dois annos após Por um auto em devida forma com-
AS duas primeiras colheitas. . provou o Sr. Blondel Jouvencourt, em
Seriam obtidas, por conseguinte, por 22 de fevereiro de 1726 que na quinta
volia de 17'25 e as arvores deviam con- do Sr. Survillier, em Sainte Marie, no-
tar fcntão, pelo menoss, una tres annos, ou tava a existência 'de vários cafeeiros, en-
dafar de 1722, mais ou ' menos. Nesse tre outras, nove arvores, salhldas da terra
anno, effectivamente, poidia de Clieu es- passados vinte mezes. Neste mesmo auto
perar os primeiros fructos "duma plan- se declara que havia na Martinica du-
tiuha importada em 1720". zentas arvores e grande quantidade de
A impossibilidade da fixação de 1723 outras que vinham despontando.
para tal fim confirma-a ainda um receu- O Padre Labat, escreve J. B.ossignlon,
scaii\ento de fevereiro de 1726, «lue, a quem Mr. de Survillier enviou este
para a Martinica, indicava uns 2.000 ca- attestado, refere em sua obra que os no-
feeiíozinhos, ainda sem fructos. e 200 ve pés acima citados haviam produzido
pés já florescendo e fructificamdo. Isto num anno quarenta e uma libras e meia
sem contar as mudas pequenas, como diz de café, além de mil sementes que elle
Labat citado por Belli, em seu Traité de dera a amigos para que as plantassem.
Ia cnlture dn café. E isto sem contar os que lhe haviam rou-
Está claro que as arvores dando flores bado .

e fructos em 1726, nunca poderiam pro- "Los cafeteros pros^peraban pues en la


vir dum pézinho fraco que tivesse entra- Martinica, Tas cosechas eran ya algo
do na ilha em 1723, observa Padberg, abundantes, cuando, el 7 de noviembre
com alguma razão, mas não de modo ir- de 1727, occurió el horrendo terremoto"
refutável, porque bem sabemos quanto, escreve o autor de quem falamos.
em determinardes solos, já com tres an- Mais tarde cobriu-se a Uha de calo-
nos os cafeeiros fructificam vigorosamen- Em
1777 contava perto de 19 mi-
saes.
te. E aliás nada se declara sobre o volu-
lhões de pés produzindo então mais café
me da carga desse cafesal, que podia ser do que precisava o consumo da França.
diminuta ainda.
E já em 1740 mandava um certo nu-
PJantou de Clieu o precioso rebento em mero de saccas para Portugal, fazendo
sua propriedade de Le Prêcheur, um dos concurrencia, como opportunamente ve-
tíistrictos àa. ilha onde, diz Reynal, se remos, ao grão produzido pelo Pará, pri-
muitiplicarani os cafeeiros com extraor- meiro café oriundo do Brasil.
dinária rapidez e vigor. Major em 1726 promoveram a de
Dos rebentões desta muda, transpor- Clieu em 1733 a lieutenant de valsseau.
tada de além mar, provieram quasi todos Foi em 1737 nomeado governador da
os cafeeiros das Antilhas. Guadelupe 1746, promovido a com-
e, em
Em sua cafeiphilla arroubada, exclama mandante de navio.
Ukers ao relatar estes factos:
Commendador da Ordem de S. Luiz,
"Assim, o pequeno forasteiro, prospe-
em 1750, reformaram-no em 1752 com
rando em terra longínqua, era, de dia,
o soldo de seis mil libras francezas. Foi
muito guardado por uma fila de escra-
em 17 53 novamente readmittido no ser-
vos. Tão pequenino e ia no emtanto pro-
viço da Armada para afinal, em 1760, re-
vocar o apparecimento de tanta lavoura formar-se definitivamente com uma pen-
rica nas ilhas das Índias Occidentaea e eão de dous mil francos. Tinha, já, a
regiões fronteiriças do Golfo do México. provecta idade de 74 annos.
. . . . .

126

Como, em 1746, houvesse voltado ã se que, por occasião de seu desappareci-


França, pediu uma audiência regia e foi mento, os seus louvores andaram em to-
apresentado a Luiz XV pelo ministro da dos 03 lábios.
Marinha, ^ue então era Rouillé de Jouy, Em 1774 L'aimée littéraire estampou
diz o autor do AU about coffee. longo poema em honra a de Clieu.
Mas ahi occoreu um lapso de memoria E a Gazette de France, o decano da
do autor ou, mais provavelmente, erro de imprensa franceza, publicou, a 12 de
imprensa, pois este ministro devia ser abril de 1816, uma noticia de homena-
Rouillé de Jouy, Antonio Luiz Rouillé, gem á memoria de de Clieu realmente
conde de Jouy, o óptimo ministro da Ma- interessante
rinha a quem a França deveu os maiores
Ura tal Donns, rico hollandez, e gran-
serviços
de apreciador do café, mandou pintar,
Ha na chronologia de Ukers, ou de e msua honra, um serviço de porcellana
quem a abonou, outro erro a reparar. com todos 03 pormenores de sua traves-
Foi só em maio de 1749 que de RouiUé sia, o feliz resultado da navegação e a
de Jouy assumiu a pasta da Marinha. transplantação da rubiacea
Durante mais 'de um quarto de século es-
tivera ella em mãos do Conde de Maure-
Affirma o articulista do velho órgão
pas, o notabilissimo ministro organiza-
de Theophrasto Renaudot que vira as
chicaras do tal apparelho sobre o qual
dor de grandes expedições scientificas,
dá muitos pormenores divulgando-ihes
que patrocinou a de La Condamine, com-
bateu sempre as manobras favoritas o mote latino.
de
Luiz XV e cahiu no desvalimento por Publicando em 1840 a sua Histoire
causa de ferino epigramma contra a de la Martinlque, relatou Sidney Daney
Pompadour, a famosa piada das flores que de Clieu falleceu em São Pedro da
brancas Martinica, a cidade arrazada em princi-
Acabaria, sob Luiz XVI, sendo um dos pies de nosso século pela terrível erupção
maiores instigadores da guerra contra de Mont Pelé. Desappareceu aos 97 an-
os ingiezes, em defesa da independência nos de idade, acabando a vida muito baldo
dos Estados Unidos. de recursos pecuniários.
Assim não se pode ter dado, em 143, Pensa Ukers que ahi existe erro,
o encontro de Clieu com o seu Rei se é embora julgue que de Clieu não haja
que o apresentador do official foi real- ajuntado fortuna, sequer modesta.
mente o já ministro RouiHé de Jouy, Affirma Daney: "Este homem gene-
Parece que o ministro ao trazer o offi- roso como única recompensa do nobre
cial á presença do monarcha, delle disse feito praticado, teve a satisfacção de ver
que era prestante servidor da França a esta cultura, nascida de uma arvore por
Quem as colónias, assim como a própria cuja vida tanto se desvelara, prosperar,
metrópole, e até mesmo o commercio em pelas Antilhas todas. A memoria illus-
geral, deviam o cultivo do café". tre de Clieu está entre aquelles a quem
Documentos officiaes, de 1752 e 1759, a Martinica deve uma reparação."
enviados á Corôa, relembram que não só Lembra o autor que, em 1804, houve
de Ciieu transportara o primeiro pé de um movimento em favor da erecção de
café á Martinica, como sempre se distin- um monumento no local onde o official
guira, além da bravura, pelo zelo e des- da marinha plantara o seu pequenino
interesse. cafeeiro
No Mercure de France, de dezembro A tal propósito, sceptlcamente, escreve
de 1774. Lê-se o seu pequeno necroló- Burlamaque, a fazer, aliás, praça de ar-
gio: "Gabriel d'Erchigny de Clieu, anti- dente pacifismo.
gamente capitão de navio, Commendador "M. d'Aussar, Prefeito da Colónia,
Honorário da Real Ordem Militar de S. projectou elevar-lhe um monumento no
Luiz, fallecido em Paris a 30 de novem- mesmo logar onde elle havia plantado o
bro, com 88 annos de idade". primeiro pé de café. Este projecto não
A ser isto exacto teria elle nascido em foi avante pela tomada da ilha pelos in-
1686 e não em 1688. giezes em 1809. Mas o projecto de per-
A 5 de dezembro deste mesmo anno petuar a memoria desse homem verda-
appareceu outra noticia necrologica a seu deiramente util seria posta em execução?
respeito na "Gazette de France", rara Pode dUTidar-Be a darmos credito «
honra, para um homem modesto. B dlz- um poeta:
"

127

Sitôt qn'à son declln votre âstre tutélaire seu nome permanece gravado no coração
Epanche son dernier rayon de todos os colonos da Martinica .

Votre nom, qui s'eteint, snr le lot po- E Pardon, o obscuro autor aliás, ex-
[pulaire clama em sua Lia Martinique:
Trace h peine un leger sillon, "Honra a este bomem distincto! Me-
Passez, passez; pour vous point de rece-a por parte da gente dos dous be-
[haate statne; mispberios. Seu nome ó digno de figu-
Le peaple perdra votre nom; rar ao lado do de Parmentler, que &
Car il ne se sonvient que de l'homme Franca transportou a batata do Canadá.
[qui tue Estes dous bomens prestaram immenso
Avec le sabre et le cânon. serviço á Humanidade e sua memoria já-
mais mereceria ser esquecida. E no em-
tanto ai de nós! Serão ainda lembrados?"
n n'ainie que le bras qui, dans les
[champs humides, Não ba duvida que não existe pari-
Par mllliers fait pourrir les os; dade entre a repercussão bistorica do
n aime qui lui fait batlr les pyramldes, nome de Parmentier e a do de Clieu.
Porter des pierres sur le dos. ,
O primeiro jamais foi esquecido e é a
cada passo lembrado e o de de Clieu vive
na obscuridade.
Se de Clieu não teve estatuás, ao me- Até 1922, affirma-o Ukers, o único pa-
nos alguns de seus compatriotas o lou- drão relembrador dos méritos do bravo e
varam em prosa e em verso: taes como philantropico officlal era a existência do
Tussac, na sua Piore des Antilles, Esmé- Jardim Botânico de Fort de França, a
nard no seu Poème de Navigation, Rob- capital martiniquense, a que se impu-
setno Poème de l'agrlculture. zera o seu nome, preito de reparação tar-
Exclama Tussac: dia para com uma memoria que por de-
"Embora não baja monumento erecto masiado tempo ficara entregue ao ol-
em bonra a este benemérito viajante. vido." \
... . . . .

128 !

CAPITULO XXIII
As lendas similares ao caso de De Clieu
Esta historia da rega das plantas gra- uma na Escola de Botânica, outra á base
ças ao sacrifício penoso de seus trans- da coUina úe Labyrintho. Esta se desen-
portadores ó, aliás, attribuida a diversos volveu, dando a bellissima arvore, uma
Botânicos das mais magestosas do mundo."
Assim se conta de Bernardo de Jussieu A propósito do facto de De Clieu, lem-
e o famoso Cedro do Jardln das Plantas bra Paulo Porto Alegre;
de Pariz, um dos mais velhos e bellos de "Um feito tão digno de ser transmittido
França, senão o mais corpulento de toda á posteridade, achou interprete eloquente
a Europa. E cuja frondosidade, sobre- no poeta francez Esménard, em cujo bello
tudo na dimensão horizontal, é real- livro (Poème de la Navigation) se en-
mente extraordinária. contra o seguinte trecho enthusiastioc;
Segundo a lenda, trouxe o grande bo-
tânico a muda da arvore libaneza dentro Sur son léger vaíssean,
de umchapéu, com ella compartilhando Voyageait de Moka le timide ârbrisseau
a escassa ração de agua que a demora Le flôt tombe soudain; Zéphlr n'a plus
da travessia marítima impuzera, a ponto [d'Iralelne,
de soffrer aêde para salvar a vida da Sous les feux de Câncer, l'eau pure des
plantinha [fontalneií
A
historia, porém, mais positiva, corta S'êpuise, et du besoin l'lnexorable loi
as azas a este devaneio, diz-nos o Grand Du peu qnl reste encore a mesuré
DictionaJre Univérsel du XIXème Siècle, tl'einploi
a contar simplesmente o caso que o cedro Chacun craint d'<^pronver les tourments
em questão veio ás mãos de Jussieu após [de Tantale.
uma travessia que não offerece margem Dcsclieux seul les défie, et d'une solf
a sacrifícios de tal jaez; a do Canal da [fatale
Mancha! ÉtouTfant tous les jours la devorante
Remetteu-lho da Inglaterra, simples- [ardeur,
mente, em 1734, um seu amigo, o Dr. Tandis qu'nn clel d'airain s'enflamme
Collinson [de splendeur,
A tal respeito assim se exprime: "Ha- De l'humide élément qu'il refuseà sa vie,
vendo Bernardo de Jussieu, em 1734, Goutte à gontto 11 Bourrit une plante
feito uma viagem á Inglaterra, recebeu [chérie,
de Collinson, então director do Jardim L'aspect de son arbuste adoucit tous se6
Botânico de Kew, dous cedrinhos, cada [maux,
qual no seu pote de barro. Ao voltar, Desclieiíx rêve déjà de ces l'ombre
foi, certo dia, a pé ao Museu, carre- [rameauT,
gando os seus dous vasos preciosos. Ao Et crolt, en caressant sa tige ranimêe
atravessar a praça Maubert, um destes Resperir en liqueur sa graine parfumée,
vasos cahiu e quebrou-se. Jussieu collo- Heareuse Martinique, ô bords hospi-
cou no chapéu a pequenina conífera com [taliers!
o seu torrão de terra e levou-o ao Jardim Dans nn monde nouveau, vous avez les
das Plantas. [premiera,
Deste accidente insignificante, ampli- Recueilli, fécondé ce doux fruit de TAslO
ficado pela tradição oral, originou-se uma Et dans un sol français mflri son am-
lenda, segundo a qual Jussieu trouxe o [broisie.
cedro da Syria para a França e dentro
do chapéu
Em outras litteraturas tem o feito do
illustre official de marinha tamlíem sido
Variante curiosa a seguinte: o repar- decantado
tlemnto da ração de agua não se deu du- Transcreve Ukers o que, a seu respeito,
rante a travessia marítima e sim durante disse celebrado poeta inglez, Carlos Lamb
a do deserto em que o grande botânico (1775-1834), ensaísta, critico e humo-
soffrera os horrores da sêde, para poder rista, amigo de Southey e de alguns dos
regar as suas queridas plantinhas. mais famosos poetas lakistas
Chegado ao Museum, o illustre botâ- Apregoou a proeza de de Clieu em ver-
nico carinhosamente plantou as mudas, sos repassados de delicadeza e finura, ca-
. . ..

129

racteristicos ú,e seu estro, no dizer de Phi- Agua elle a dá, primeiro, ás suas plan-
larète Chasles.
[ tinhas.
Canta em seu poemeto: As mudas de Antes que mitigue a própria sêde.
café: Receioso de que se acaso sorver a agua
Sempre que sorvo o oloroso café, Muito longe demais leve o ávido lábio.
Penso naquelle francez generoso, Vê que fenecem, por falta de mais Il-
Cuja nobre perseverança transportou íquido .

O arbusto ás praias da Martinica, Assim, quando attinge a oollimada praia.


Bmquanto era recente a colónia, Com orgulho, vê o heróico jardineiro
B os productos insulares escassos. Vivaz seiva ainda em suas arvores.
Dous rebentos de um cafeeiro Os insulares entoam os^ seus louvores
Trouxe-os comsigo, atravez dos mares, E a Martinica carrega os seus navios
E cada uma destas mudas Com o producto dessas queridas mudas
Diariamente as regou, em seu navio, [salvas
E emquanto velava sobre as arvoresi- Em nosso paiz houve quem quizesse
[nlias embryonarias, adaptar a proeza de De Clieu ao episodio
Sentia crescerem no meio dos mares da transplantação das mudas de cafeei-
Os pequenos cafeeiros cuja ampla sombra ros, realizada pelo chanceller João Al-
Abrigaria as morenas moças, filhas da berto de Castello Branco, do Pará para
[America o Rio de Janeiro, em 1760. Assim se in-
Mas, logo! ai delle! o seu prazer tão caro ventou que tal transplantação fôra effa-
Bm velar o querido thesouro ctuada pelo próprio magistrado, que, du-
Se desvanece, pois falta a agua rante a travessia, repetira o sacrificlo do
Na nau em qu« viaja. official francez.
Agora, todos os tanques estão fechados Tudo isto não parece passar de mero
E a tripulação submettida a estreito devaneio, provocado por alguma reminis-
[racionamento, cência da viagem de De Clieu e conse-
A quota de cada homem é como que quente adaptação ao scenario brasileiro
[uma gota, Nada, com effeito, prova que haja sido
Pequena sóbra da reserva, Castello Branco o próprio transplantador
Para regar as pobres mudas de café das mudas de café
De que suppre a necessidade imperiosa Inspirado nesta lenda, pintou A. Nor-
Até dos próprios lábios, seccos e per- gini um quadro frequentemente reprodu-
[gaminhados, zido, que se incorporou á collecção do
Poupa Clieu o liquido, pensando em Museu Paulista, sem ter, comtudo, a me-
[seus pimpolhos. nor base documental.
130

CAPITULO XXIV
Propagação do café nas Colónias da Nova In-
glaterra e nos Estados Unidos. Willian Penn.
Papel dos cafés na campanha da Indepen-
dência norte americana

Ao passo que na Inglaterra, após uma Phenomeno curioso o desta grande


carreira que promettia tornar-se notável, fracção anglo-saxonica, que constituiu os
o consumo do café declinara immenso, na Estados Unidos, passar a ser uma nação
mais importante parte do império colonial de bebedores de café em larga escala.
britannico começaria a infusão da rubia- Pretende Ukers que o habito do café
cea a ser o assumpto de um dos mais entre os yankees se estableceu simulta-
vultosos ramos do commercio. neamente com o do chá e o do chocolate,
Na Nova Inglaterra, appareceu o café já na ultima metade do século XVII.
com John Smith, de quem já falámos, o No fim da primeira metade do século
fundador de Jamestown em 1&07, cujas XVIII, occorreu aquella grande offensiva
aventuras com Poeahontas e Powhatan contra a rubiacea, e a favor do chá, le-
tão celebres ficaram nos fastos yankees. vada a cabo pela British East índia Com-
Não se sabe que, na feitoria de Ma- pany, offensiva que, como vimos, foi fu-
nhattan .Island, cellula mater da actual nesta ao café.
Nova York, fundada em 1624, haja appa- Os directores da famosa Companhia
recido qualquer carregamento de café trataram de conquistar novos mercados
hoUandez, trazido pela Companhia Ba- e, naturalmente, voltaram-se para os da

fava das índias Occidentaes. Nova Inglaterra.


Lembra Ukers que, na bagagem e carga Quem, porém, lhes contrariou os pla-
do famosíssimo May flower (1620), não nos foi o desastrado rescripto de Jorge
II, o stamp act, ou lei do séllo, que levou
ha a minima referencia ao café. Apenas
se fala de um almofariz, e sua compe- os colonos dos futuros Estados Unidos ás
tente mão de pilão, mais tarde quiçá vehementissimas representações cuja fór-
usada para "fazer pó de café". mula era: ''nenhuma taxação nova sem a
acquiescencia do legislativo".
No periodo em que Nova York foi neer-
landeza, sob a occupação de 1624 a 1664,
Os americanos tanto mais se enfure-
é possível que haja vindo café de Amster-
ceram quanto haviam, durante a terrivel
dam, em cujo mercado se vendia corren- guerra dos Sete Annos, servido a metró-
pole com toda a dedicação, fornecendo-
temente o grão arábico desde 1640. Mas,
Ihe 25.000 homens para as campanhas
de tal não ha prova alguma. Parece que
sangrentas do Canadá, de onde resulta-
os hollandezes transportaram chá, atra-
ria a acquisição do enorme futuro Domi-
vez do Atlântico, antes de carregarem
iiion para a corôa do Hannover.
café.
E' possível que os inglezes tenham in-
Em 1761, á vista da opposição fortis-
troduzido o habito de café, na colónia de
sima dos colonos, foi a lei abrogada, mas,
Nova York, entre 1664 e 1673. em 1767, voltou a ter força, devendo ser
sellados os óleos, as tintas, o vidro, o
A mais velha referencia do café na
America data de 1668, segundo affirma chumbo, e o chá.
Esther Swingleton, em seu estudo Dutch Deante do boycottage dos americanos,
IVew York. cedeu o governo britannico, excepto quan-
to ao chá, que já estava entrando, nota-
Por este tempo havia uma beberagem, velmente, na America do Norte. Vivo con-
de cerejas torradas de café, temperadas trabando se fez então com -os portos hol-
com assucar ou mel, e cinnamomo, que, landezes.

em Nova York, se consumia. Só em 1670 E' bem sabido por aquelles que conhe-
se vê o café figurar nos relatórios offi-
cem a Historia Universal o que significa
ciaes da Nova Inglaterra.
o m.otim do chá em Boston, no anno de
Foram os cafés públicos da Nova In- 1773, facto culminante nos annaes de
glaterra abertos segundo os modelos de n-ossa idade moderna, de onde se originou
além Atlântico. o grande movimento nacional que iria fa-
. . . . .

131

zer, dez annos mais tarde, surgir um EmNova York, os hollandezes, primi-
grande povo livre, officialmente reconhe- tivos colonos da Nova Amsterdam,
cido pelo tratado de Versailles.
toma-
ram chá antes de se acostumarem ao café.
A intolerância do governo inglez, ins- Diz Esther Singleton que este começou
tigado pela ganância da British East ín-
dia Company, ia tornar os Estados Unidos
a apparecer em 18 6 8 e penetrou nos lares
uew-yorkinoB muito lentamente. Sabe-si
uma nação de bebedores de café em vez que Nova York se avantajou, como cen-
de ser, como a Inglaterra, outra de be- tro distribuidor
bedores de chá. Pensa Ukers que~ tal da ru'biacea, já que alli
ia William Penn compral-a.
facto é absolutamente incontestável.
j

Cora o triumplio das armas franco- Trataram os cafés de Nova York de


americanas e o estabelecimento da auto- imitar os congéneres de Londres e Paris,
(

nomia nacional das treze colónias, ainda mas não tiveram aquelle cunho intelle-
ctual das casas de além-mar, pois o atrazo
; se robusteceu o gosto pelo café.
cultural da colónia ainda era conside-
Botequins como os inglezes. houve-os
rável.
nas principaes cidades da Confederação
Mas eram muito medíocres,, legitimas MasUkers chama a attenção para
uma
I

particularidade: servirem de local


;i tascas, a não ser os de Boston, verdadeira
para assembléas, reuniões politicas e
r metrópole então, não só do Massachussets,
commerciaes
j)
como de toda a Nova Inglaterra,
l Parece que a primeira licença para a Quizeram os chronistas de Nova York
venda do café em Boston data de 1670 e attribuir á sua cidade a primazia da
\

foi concedida a uma Dorothea Jones, que


posse do primeiro café. Mas Ukers lhes
vendia café e cuchaletto (chocolate). Não contesta a pretenção, lembrando que ella
se sabe, aliás, se a tal Dorothea vendia cabe a Boston.
café bebida ou café em pó Em novembro de 1696, um tal John
Cita Ukers uma serie de outros cafés Hutchins, estabelecia-se em Broadway, no
públicos de Boston, alguns ainda do sé- café que intitulou King's Arms. Mas sa-
culo XVII e outros do século XVIII. Dei- bemos que, já em 1689, um livreiro, Ben-
les não falaremos por escapar o assum- jamim Harris, "vendia livros no café de
pto ao nosso programma. Tão importante Londres", segundo annuncio que fazia
se tornou Boston, como centro de impor- aos freguezes.
tação e commercio do café, que, em 18 OS, Era o King's Arms de madeira, mas
ali se construiu a jExcliaiige Coffee Hou- com fachada de tijolos amarellos, de pro-
se, então a maior e a mais rica bolsa ca- cedência hollandeza, segundo constava. E
feeira do Universo. tinha dous andares.
Tinha nada menos de sete andares, Muito bem collocado, delle se gozava
grandes dimensões de largura e compri- bella vista sobre o Hudson, a bahia e a
mento e custou nada menos de 500.00 cidade
dollares, quantia notável para a época. No sobrado se abriam salas para re-
Foi seu architecto Charles Bulfinch, o uniões de negociantes, corretores e mais
mais notável dos Estados Unidos, naquella gente do commercio.
época, e a sua apparencia, aliás, não é Durante muitos annos foi o King's Arms
das cousas que mais lhe recommendam, a o único café novo-yorkino, cidade cujo
esthetica dos planos. Dèz annos durou o commercio da rubiacea parece ter sido
edifício, destruído por incêndio em 1818. então medíocre. Pelo menos nada delle
Assim, desappareceu este antepassado se fala nos primeiros jornaes alli publi-
dos arranha-ceus, que tanto impressionou cados, como a New York Gazette, decano
os contemporâneos. Era, segundo parece, dos periódicos locaes.
realmente, notável, quer pelas dimensões, Sabe-se, porém, que já em 1732, exis-
quer pelo emprego dado aos seus com- tia uma bolsa de café, a Exchange Coffee
partimentos. Em seus salões occorreram, House of New York. Por um depoimento
em 1817, o banquete e a festa inaugu- de 1737, conhece-se que esta instituição
raes de um dos mais celebres presidentes passara a ser virtualmente o local dos
dos Estados Unidos, James Monroe. leilões officiaes, assim como aquelle em
Deve-se, comtudo, lembrar que os seus que se comprava e hebia-se o café e onde
últimos andares eram occupados por ainda numerosos artigos se offereciam á
appartamentos, prova de que a bolsa não venda
precisava de tamanhas proporções e fôra Houve depois uma MerchaJifs Cofíee,
construída obedecendo a instigações de Installado na esquina de Wall Street, a fa-
certa megalomania. mosíssima rua argentaria, e Water Street.
. .

132

Foi um prédio ckeio de notáveis tra- ctilidade e orador de grande dialéctica,


dições e desappareceu num incêndio, em mas homem de Estado de ideias tacanhas,
1804, poder levar a melhor os colonos revolta-
Durante a guerra da Independência, dos contra as suas taxas
entre as suas paredes, occorreram mui- Deante da insurreição do Massachusetts,
tos factos celebres nos annaes dos Es- e da Convenção de Boston, parecia for-
tados Unidos; quer durante os primeiros çado a recuar o primeiro Lord da The-
annos de lucta, quer quando os inglezes souraria, aliás acossado na Camara dos
tomaram a cidade, quer, ainda, quando os Communs por dous oradores geniaes,
patriotas a recuperaram. Burke e Fox.
Afinal, alli, a 23 de abril de 1789, re- Tinlia, porém, a amizade e confiança
cebeu Washington, primeiro presidente de Jorge III, débil mental, que não tar-
eleito dos Estados Unidos, as felicitações daria a se dementar, e emperrou na de-
das autoridades da cidade de Nova York. sastrada politica que adoptara. Retroce-
Nessa bolsa de café também se orga- dendo parcialmente em 1770, não quiz,
nizou o primeiro banco new-yorkino em porém, confessar-se Inteiramente batido e
1784 e realizou-se a primeira bolsa com ohstinou-se em manter a taxa sobre o
corretores officiaes. chá.
Em seu tempo de exilio, nos Estados Quatro annos mais tarde, dava-se a
Unidos, sobretudo em Philadelphia, disse famosa scena do porto de Boston e abria-
Talleyrand: Toda a gente vem ver toda a se a guerra entre as treze colónias e a
gente no Exchange Coffee Honse. E' club, Mãe Patria.
restaurante, bolsa, casa de cambio, tudo, A 4 de julho de 1776 occorria, em
emfim. Philadelphia, a famosa Declaração de Di-
E' universalmente conhecida a grande reitos, aurora de um povo livre, dentro
figura de William Penn, o apostolo dos em pouco formidável pelo surto de sua
quakers, fundador da Pennsylvania e de capacidade
Philadelphia, o homem a quem Montes- Apregoa-se o nome de Frederico North,
quieu chamou o Lycurgo moderno, cheio Conde de Guilford, como o do causador
de ideias philantropicas e altamente pa- da determinante que fez dos Estados Uni-
cifistas, respeitadoras dos direitos dos dos uma nação de grandes bebedores de
fracos. Oomparou-o Philarète Chasles a café, em discordância com o outro ramo
São Vicente de Paula, como "iniciador da de sua raça, o de bebedores de chá.
tolerância, propagador da caridade, pre- Philadelphia, a caplcal da Revolução
gador effectivo do julgamento individual americana, representou, como se sabe,
e desta personalidade da razão e do di- formidável papel em todo este movimento.
reito que constituem a força suprema do E o seu grande centro vibratório veio
homem e a grande honra da Humani- a ser o ambiente dos cafés da cidade de
dade". William Penn.
Prende-se este grande nome também, e
"Cabe-lhes largo papel na historia da
com destaque, & historia do café na cidade da Republica, commenta Ukers.
America. Pittorescos pela architectura colonial ca-
Já em 1683, anno Immediato ao do racterística, suas assembléas também fo-
seu estabelecimento no Delaware, fazia ram românticas.
abundantes compras, em Nova York, do Muitas reformas e movimentos cívicos,
grão arábico, cujo consumo incitava. E sociológicos, industriaes partiram das sa-
o seu prestigio contribuiu notavelmente
las, de pequeno pé direito e chão areiado
para que tivesse muitos imitadores de dos velhos cafés da cidade. Durante mui-
seu exemplo de cafeiphilo.
tos annos, os cafés Ye, os dous cafés de
Quando a lei do sello veio irritar pro- Londres e a City-Tavern, também cha-
digiosamente os americanos e preparar mada dos mercadores de café, cada qual
os espíritos para a insurreição de que a seu turno, dominaram a vida social e
nasceria a independência americana, a official de Philadelphia.
Pennsylvania, adherlndo ao boycot geral
Os botequins dos primeiros annos con-
das outras colónias irmãs da Nova Ingla-
gregavam regularmente os vereadores
terra, contra o chá, entregou-se ao con-
municipaes do credo quaker, os comman-
sumo do café com verdadeiro enthusias- dantes de navios e os negociantes que alli
mo, e os cafés de Philadelphia regorgi- se reuniam para tratar de negócios pú-
taram de consumidores da infusão negra. blicos e particulares.
Em 1768, entendeu Lord North, poli- Quando a Revolução estava imminente,
tico de espirito e talento, cheio de du-
os exaltados defensores dos direitos das
.

1-33

colónias conculcados por Lord North, hington, em 1776, passou por Philadel-
muitos delles vestidos da moda propi-ia phia, indo juntar-se ao marido, que se
dos quakers, alli se reuniam para ver- achava no Massachussets, em Cambridge,
berar a oppressão britannica. para assumir o commando das forças in-
Passada a Revolução, os cidadãos mais
eonspicuos iam aos cafés, jantar e ceiar e
surrectas — quizeram os patriotas dar-
Ihe um grande banquete na City Taveí-n.
exereer suas funcções sociaes. Mas, como soubesse que os legitimistas
Por occasião da fundação da Philadel- pretendiam invadir o café e depredal-o,
phia, era o café caríssimo. Uma libra de Mrs. Washington pediu aos amigos que
grão em 1683 custava 18 shillings e nove renunciassem a tal Ideia.
pence em Nova York, escreveu William
Foi ainda na City Tavem que oceor-
Penn nos seus Aecownts. Isto equivaleria leu a grande festa offerecida pelo pri-
hoje a dollares 4,68. Assim, a cliicara de meiro embaixador fi-ancez nos Bstadoa
café custaria 17 cents, quando uma re-
Unidos, Gérard, em honra ao natalício de
feição ordinária, nas casas de pasto, se
Luiz XVI.
pagava a 12 cents. Valia muito mais,
Entre os seus mais celebres comen-
pois, a sobremesa que o jantar! Era o que
saes, cita William Ukers os nomes im-
fazia crescer o consumo da cerveja.
mortaes de Jorge Was.hington, Thomaz
O primeiro café de Philadelphia pa-
Jefferson e Alexandre Hamilton.
rece datar de 1700, ou de 1702, talvez
de 1700, realmente, pois parece que foi Varias tentativas se fizeram nos Esta-
contemporâneo ainda de William Penn, dos Unidos para a accllmação da rubia-
antes de seu regresso á Inglaterra, onde cea no solo da Confederação, cujos terri-
o esperavam tão grandes amarguras tórios meridionaes, pela latitude e clima,
Cita Ukers uma serie de outros cafés pareciam servir-lhe á cultura. Mas bal-
celebres na cidade pennsylvanica, acaban- daram-se todas, affirma Ukers, que ae-
do por uma serie de referencias á City crescenta: admitte-se, comtudo, que os
Tavein, também chamada Merciianfs districtos do Sul da Califórnia se pres-
Coffee House, e ao London Coffee Hoiise. tam a tal cultivo.
Nesta se deram scenas notáveis da re- Recorda um autor que o infeliz presi-
bellião contra o governo inglez e o seu dente Garfield, em celebre discurso eni
proprietário, o jornalista William Brad- que decantou a espantosa opulência na-
ford, deixou o estabelecimento para en- tural do território norte-americano, al-
trar como voluntário no exercito dos In- ludiu a esta falha da producção nacio-
dependentes . nal, á rebeldia da adaptação da rubia-
Como o Café de Londres fosse, mais cea e da siphoiiia elástica ao solo dos Es-
tarde, o quartel-general dos legitimistas, tados Unidos.
e sobretudo dos inglezes. quando o exer- E o fez num tom em que os vizinhos
cito britannico, em 1777, occupou a ci- meridionaes da Confederação divisavam
dade, soffreu o estabelecimento um de- ameaças de positivo imperialismo, tanto
clínio de prestigio, após, especialmente, a mais grave quanto também podia alar-
abertura da City Tavern. mar o Brasil, com os seus territórios ama-
A tal propósito, conta Ukers interes- zonicos então detentores do monopólio
sante historia: quando a mulher de Yv^^as- natural da borraclia.
. . . . . .

134

CAPITULO XXV
O café nas AntiUias^ na America Central, no
México e nas Guyanas

Affirma Ukers que, antes da Martinica, 1750. Pretende Rossignon ():-.e esta data
ja se cultivava o café, quer em Haiti, en- eleve ser 17 69
tão colónia franceza, quer em S. Domin- Sm outro ponto Ukers se contradiz,
gos, possessão hespaivhola, como todos sa- recuando a daca de 1750 para 1748. As-
bem. Mais tarde, também vieram para a signala 175 5 para Porto Rico. O México,
ilha, onde estão hoje as duas republicas em 1790, plantou café por meio de se-
negras antilhanas, cafeeiros martiniquen- mentes das ilhas antilhanas. Em 1817,
ses começou a cultura intensiva no antigo
Assim, não se comprehende porque De império azteca com as plantações de Don
Clieu teria trazido de Franca a sua fa- Juan Antonio Gomei, na região de Vera
mosa muda quando outras tinha, a mão, Cruz
e tão mais perto. Em outros pontos da America Central,
Em seu Manual <lel cultivo dei café, appareceu o café tardiamente também.
fíí/Pao, -yaiíilla y tabaco en la America Es- Assim, para o território do Salvador, diz
paíiola, escrevia, em 1851, Julio Rossi- um autor que só em 1852 entrou o café
gnon, cathedratico das Universidades de por meio de mudas cubanas. Entretanto,
Guatemala e São Salvador, que, desde o districto vizinho de Costa Rica parece
1715, houvera cafesaes na ilha de S. Do- que desde 1779 já cuidava de tal plan-
mingos. tação, também oriunda de mudas de Cuba,
E' esta a data que Ukers acceita, quer segundo informa o viajante hêspanhol,
para S. Domingos, quer para o Haiti. A Don Francisco Xavier Navarra. Todos
cultura vem das vizinhanças deste mil- estes dados nos parecem imprecisos.
lesimo, mas os cafeeiros foram muito O cafeeir.o prosperava nas colónias hol-
abandonados, a ponto de cahirem em es- landezas e francezas do Novo Mundo an-
tado selvagem, affirma o autor yankee. tes que os inglezes pensassem em iitili-
Pensa Padberg que Ukers teve como ins- zal-o, facto inexplicável. A Jamaica foi
pirador a obra de Jardin, que, aliás, ellc mesmo a única dag ilhas britannicas que
não conseguiu cotejar. entendeu aproveital-o, mas, aliás, uunsa
Julga o autor germânico que deve ha- levou a cultura ao ponto attingido pelas
ver erro de imprensa, 1725 em vez de suas rivaes antilhanas, apesar da dimi-
1715, o que é perfeitamente razoável. nuição de impostos de exportação, decre-
"Também aqui deve havor originaria- tada pelo Parlamento em 1732.
mente um erro de imprensa, 1715, pro- Diz Ukers que alli entrou a rubiacea em
vavelmente, em vez de 172 5; pois, por 1730, data que Rossignon não admitte,
\olta deste anno, mandou-se, effectiva- marcando para este acontecimento o íiuno
mente, o primeiro café da Martinica para de 1728.
São Domingos (ou Haiti). Se, na ultima Affirma, aliás, que o introductor do
ilha, cuja parte mais importante era en- café na Jamaica veio a ser certo Nicolau
tão franceza, já tivesse havido cafeeiros Law, fallecido em 1731. Diz Porto Ale-
em 1715, os francezcs não se teriam es- gre que a primeira plantação foi em Tow-
forçado, ainda mais tarde, por ihtroduzir nell Estate, hoje chamado Temple Hall.
essa planta nas Antilhas Em 1792, produziu 18.000 quintaes e
Na Venezuela, provém o cafesa! de se- 42 libras francezas, affirma o abbé
mentes martiniquenses, affirma Ukers. Raynal
Plantou as primeiras arvores, em 17S4, Em 1778, colheu Porto Rico 11.163
uir padre por nome José Antonio Mo- quintaes de café. De Curaçau ia, todos
hedano os annos, um navio carregado de café
Para Guatemala pensa-se que a en- para a Hollanda, outro de algodão, outro
trada do café se deu entre 1750 e 1760. de anil, doze de assucar, etc, é Raynal
Em Cuba, o agente vehiculador do cafs ainda quem informa.
foi Don José Antonio Gelaberi; que o im- Escrevendo em 1792, af firmava o mes-
portou de S. Domingos e Porto Rico. mo autor que as Antilhas dinamarque-
Começou a cultivar a planta rn-abica em zas se achavam em estado realmente in-
. . . . .

135

feliz, exploradas pela ganância excessiva cueil de l'Académie des Sciences


do fisco. Só davam algum assucar, muito de
1713. Parece que, em 1714, o precioso
algodão e um pouco de café. arbusto foi transportado do castello
real
Quanto ao cafesal dominicano, que, em de Marly para o Jardim das Plantas
1790, apresentava aspecto de prosperi-
em
Paris, onde, a 29 de julho, o nosso
co-
dade saliente, decahiu elle completamente nhecido escriptor Jean de Ia Roque, em
com as guerras da Republica Franceza e companhia do próprio Jussieu e de ou-
do Império. A formidável insurreição dos tros personagens notáveis, admirou o
negros, em 1792, devastou e ier. abando- recem-chegado de "uns cinco pés de al-
nar as lavouras de S Domingos
.
tura e uma boa pollegada de espessu-
Para a historia do café no Brasil tem ra. . de aspecto pyramidal... fructos
.

capital importância, porém, os fastos da verdes e maduros."


introducQão da rubiacea na Guyana liol- Mostra o douto autor que sobre o caso
landeza, no Surinam da vinda dessas mudas de cafeeiro ha
Deste cafesal, procede o nosso, via controvérsia
Cayena. Falam autores em dous cafeeiros, um
Tratando da entrada do cafeeiro na trazido em 1713 ou talvez até em 1712, e
America por via hollandeza, escreveu outro em 1714.
Padberg algumas paginas brilhantes Fusée Aublet, o autor do grande tra-
"No Novo Mundo, era reservada ao café tado da Histoire des plantes de la Guiane
arábico a sua nova pátria principal, e é Prançaise, conta que o arbusto do Snr.
gloria imperecível da pequena Hollanda, de Ressons morreu, e que o segundo ca-
haver sido mediadora nessa fausta trans- feeiro, o que vingou em Marly, foi en-
plantação. viado, em 1714, a Luiz XIV, pelo Snr.
Dos seus viveiros de café, em Java, re- Bancras, então burgo-mestre de Amster-
cebeu ella, ao que parece, em 1706, para dam Hartwich rectifica este nome para
.

o jardim botânico de Amsterdiam, uma Pancras, dizendo que se tratava do di-


primeira planta, que vingou bem, natu- rector do Jardim Botânico de Amster-
ralmente em estufa, chegando-se alli dam não do prefeito.
e
também a tirar de sementes cafeeirozi- — Em
1713 remettera ao Jardin des
nhos novos e a colher delles fructos, de- Plantes parisiense o exemplar que de Jus-
pois de três annos. Com generosa muni- sieu descrevera.
ficência, o magistrado, amstelodosamente, Faz Padberg notado o erro enorme de
distribuiu dessas raridades também a ou- Burlamaque, que collocou Marly perto de
tros que o mereceriam. Assim se viu, Montpellier! e nota ainda quanto Ukers
já em 1710, uma arvoresinha com fructos se mostrou afoito em sustentar a passa-
num Castello do barão von Munchhausen, gem, por assim dizer instantânea, do pe-
perto de Hameln, onde foi mostrada, ain- queno cafeeiro de Marly ao Jardin des
da em 1716, ao czar Pedro o Grande. Plantes.
Também para Leipzig mandou-se da Hol- Foi ahl que a arvore, a 29 de julho
landa um pé de café, florescendo em 1723 de 1714, foi mostrada por de Jussieu a
e dando fructos no anno seguinte." J. de la Rocque, ainda no caixão em
Estes dados curiosos hauriu-os o douto que chegara.
autor numa obra, hoje esquecida, de um Isto não quer dizer, porém, que tal
medico, Francisco Gerhardt Constantini, caixão viesse da Hollanda. Podia a muda
publicada em Hannover, e, em 1771, ter sido encaixotada em Marly, o que
Abhandliing von Kaffee, assim como nou- era muito mais plausível.
tro livro hoje olvidado. Acta naturae Se tivesse vindo de Amsterdam, devia
curiosomm, que Ritter menciona Exem-
.
tratar-se de outro pé, já que Jussieu, em
plifica ainda a boa vontade batava em 1713, descrevera o primeiro rebento que,
relação á França entrementes, devia ter morrido.
"Em 1713, feita a paz de Utrecht com Mas, nem o botânico nem J. de la Ro-
a França, também um francez, o tenente- cque falaram em duas mudas, nem da
general de artilheria Ressons, amador de morte de qualquer delias.
botânica, obteve de Amsterdam um jo- Pensa, pois, Padberg que, á vista dos
vem cafeeiro, cedendo-o ao Jardim do testemunhos, póde-se affirmar que um
Rei, onde floresceu e fructificou succes- único cafeeiro se transportou de Amster-
sivamente. Sobre elle, Antonio de Jussieu, dam para Pariz.
que nos conta isso, fundou a primeira Desta arvore provieram novas mudas.
descripção scientifica do .Tsismiimm ara- Jâi em 1716, eram algumas delias con-
bicum, numa memoria já citada, do Re- fiadas a um medico, que as queria levar
.

136

ás Antilhas francezas. Diz Aublet que a plantadas foram distribuídos entre os co-
morte deste facultativo, logo após o seu lonos e, em pouco tempo, os cafeeiros
desembarque, fez com que se mallograsse multiplicaram-se a ponto de dahi provi-
"
esta primeira tentativa. rem lucrativas colheitas .

Ao medico chama Belli Isambert, mas Este individuo parece que se chamava
Padberg pensa que houve afrancezamento Mourgues; assim lhe grapharam o nome
do nome allemão Isemberg ou melhor Porto Alegre e Belli. Burlamaque chama-
Isenberg lhe ora Mourges ora Mourgues.
Quer nos parecer que, no emtanto, cabe Verbera Padberg a Waldemar Peckolt
a razão ao autor italiano, pois era na- a Imaginosa versão pela qual metamor-
tural que o agente do transporte do ca- phoseou "Morgues" em ousado e teme-
feeiro á America fosse um francez e não rário garimpeiro de Guiana, que de suas
um allemão. viagens de commercio, teria trazido os
Seria extravagante mesmo que este por-
fructos de café para vendel-os por bom
tador fosse um estrangeiro. Isambert,
preço ou em troca de ouro".
medico, chama-lhe J. Rossignon, que, Aliás, este caso de Morgues é obscuro.
aliás, appellida o burgo-mestre de Ams-
terdam Mr. de Brancas, quando Edeles-
O próprio Hartwich, que real autoridade
tem, nada delle diz.
tan Jardin chama-lhe Pancras, o Pancras
Pensa Padberg que as sementes de
de Hartwich. Na obra de Jardín, que Pad-
Mourgues podem ter entrado em Cayenna
berg suppõe ser a inspiradora de Belli,
não ha referencias a Isambert nem a Isen-
em 1721, 1722 ou 1723.
berg da imaginativa patriótica do douto Podia, na verdade, parecer improvável
autor teuto-brasileiro. colherem-se já em 1719 fructos de plan-
E' Isambeff, alias, um dos nomes de tas, importadas só um anno antes; mas,

fácies mais francez que existem e não sendo ellas, ao que parece, arvores bem
vemos porque afaatal-o, dando-lhe um todo desenvolvidas, deve-se respeitar a expli-
germânico pouco plausível Se os diccio-
.
cita indicação do melhor conhecedor,
narios encyclopedicos não mencionam o tanto mais que Aublet teria tido Interesse
medico que se diz ter sido o transplan- em dar uma data posterior, para, assim,
tador do café, falam de outro Isambert, garantir a prioridade para sua pátria.
(1792-1857), o grande jurisconsulto o Fica, pois, estabelecido que Cayenna sub-
traiu de Sui-inam o café "em 1719, isto é,
politico.
antes que a Martinica recebesse a plan-
Do Surinam passou o cafeeiro para a também Freire Al-
ta", como assentou
sua vizinha Guyana Franceza, a ^5"ionia
de Cayena, como se dizia. lemão.
Com toda a razão invoca Padberg o tes- B, traduzindo a Hartwich, menciona em
temunho de Fusée Aublet para historiar nota:
o caso. Hartwich desdobra o facto, dizendo á
Passou o botânico dous annos, de 176'^ pagina 282: "O governador francez de
a 1764, em Cayena, occupado em redi- Cayenna, de la Motte-Aigron, logrou em
gir a sua grande obra Histoire des plan- 172 2 subtrair, ardilosamente, de Suri-
tes de la Gniaiie Fraiicaise, publicada em nam uma arvore, que, em 1725, já se ti-

1775. nha multiplicado consideravelmente.


Assim narra elle o caso: em 1719, um Igualmente, em 1721, os francezes ti-
prófugo da -colónia franceza, saudoso dos nham tirado, clandestinamente, de Suri-
lugares de onde se escapara, para refu- nam, sementes frescas de café, introdu-
giar-se nos estabelecimentos hollandezes zindo-as em Cayenna " Não sei em que
.

da Guyana, e desejando voltar a viver se funda a noticia dada v. g. por Lou-


entre os compatriotas, escreveu de Su- renço Granato (nota 114!), de se chamar
rinam, annunciando que, se o quizessem aquelle fugitivo Rosier le Breton. Ukers
receber e perdoar-lhe a falta, tTaria grãos cala-se a respeito de tudo isso.
de café, capazes de germinar, mau grado Vejamos como Edelestan Jardin expõe
as penas rigorosas comminadas aos que este caso, depois de declarar que a flora
procurassem sahlr da colónia batava le- goyanense conta tves espécies do género
vando taes sementes. coffea indígenas.
Confiante na palavra da promessa feita Allega valer-se do próprio Aublet em
chegou a Cayenna com sementes frescas, sua obra: Observatlons siir la ciiltnre du
que entregou ao Snr. d'Al'bon, commis- café.
sario de Marinha. Este encarregou-se de "Foi a Guyana hollandeza que gozou
as fazer nascer, tendo o seu desvelo o me- da vantagem de possuir o cafeeiro ará-
lhor êxito; os fructos de arvores recem- bico antes da vizinha, pelos awnos de 1718.
137

Era, porém, prohibido delia dar sementes Falando da Guyana hollandeza, diz
a outras colónias. Raynal que era flagellada pelas inunda-
Não está ainda bem esclarecido o modo ções. Mas, como o terreno fosse plano e
de introducção idesta planta na Guyana não escarpado, como o solo das Antilhas,
franceza. vivia o cafeeiro vinte annos. E, acaso,
Dizem-nos Que certo Snr. Mourgues, morto, podia ser substituido por outra
francez, a principio morador em Cayenna arvore, que florescia perfeitamente, no
e depois passado a viver entre os hollan- mesmo logar, o que não se dava em ou-
dezes, trouxe ao governador Snr. de la tros pontos. E, além disso, eram as sa-
Motte Aigron, uma libra de café fresco fras em Surinam mais abundantes do que
em casca. Fez o governador semear este nas Antilhas.
café, cuja cultura o próprio Mourgues Assim, em 1775, alli fee haviam colhido
superintendeu. 15.387.000 libras de' café, que tinham
Dizem outros, porém, que o cafeeiro rendido 8.980.934 libras francezas.
foi trazMo do Surinam por desertores
No Surinam avultou bastante ou mes-
francezes, que, desrespeitando a proliíbí-
ção, conseguiram subtrahir algumas mu-
mo muito a cafeicultura, cessando quasi
por completo depois da libertação dos es-
das e, assim, obtiveram o seu agracia-
mento..
cravos em 1863.
E ainda ha quem diga que o próprio R.ossignon, escrevendo,em 1859, cha-
de la Motte Aigron foi buscar as primei- mou a Mourgues Mansgues e pretende que
ras mudas. O Snr. d'Albon, commissario era degreidado. Aliás, pouca contiança
da Marinba, em pessoa, superintendeu os inspira este autor.que não indica fontes,
trabalhos de plantação, vendo-se recom- e estropia o nome de d'Albon para Mr.
pensado do trabalho pela multiplicação d'Albion^ etc.
que conseguiu de tão util espécie. Na Guayana hollandeza, prospei'avam
Na Historia Geral das Viagens, cita o muito os eafesaes, diz-nos Jardin, che-
Abbé Prévost um capitão das guarnições gando a produzir perto de 10 milhões de
de Cayenna, o Snr. de la Guaringue de kilos em 1796 Desenvolveram-se nos dis-
.

Survillée, que cultivava cafeeiros em seu trictos de Demerara e do Esequibo, mas


quintal. Já em 172 6 havia, na ilha de não no de Berbice, segundo Raynal. Com
Cayenna, grande numero de cafeeiros. a conquista da larga area feita pelos in-
Conta Jardin que o surto cafeeiro da glezes em 1803 e jamais restituído aos
Gua5'aaa Franceza se assemelha ao das batavos, não augmentou a pfbdução ca-
Antilhas; mostra-se valioso para depois feeira. Pelo contrario, decahiu sendo, em
decahir muito. 1822, de perto de 4 milhões de kilos.
138

CAPÍTULO XXVI
As primeiras referencias ao café em língua
portugueza

Lacuaa inesperada, infelizmente, oc- E' bem sa'bido o que na historia abys-
corre na monographia do erudito Dr. sinia recorda o nome de Pero da Covilhã,
Padberg, no capitulo em que investiga delegado por D. João II ao negus Da-
a etjmologia do nome café. vid III. Dom Manuel enviou embaixado-
'jS' que o douto autor não cogitou, de res ao imperador negro. Desde õs primei-
todo, Ide percorrer a bibliograpiíia dos ros annos do século XVI, missionários
velhos lexicographos e a dos arabistas portuguezes percorreram a Ethiopia, e
lusitanos. E, no emtanto, tudo indicava alguns até obtiveram dos Pontífices, 'bul-
que o deveria fazer, visto como tanto ias que lhes conferiam o patriarchado
versara as origens do vocábulo, aléin de abexim.
que escrevia em portuguez. Um delles alcançou verdadeira cele-
B a sua contribuição se destinava exa- bridade: o famoso D. João Bermudes, o
ctamente a commemorar a passagem do celebre pãtriarcha de Alexandria, e da
segundo centenário da intro'ducsâo do Ethiopia, que passou muito tempo por
cafeeiro em nossa pátria, por Francisco hespanhol, e afinal, graças ao estudo de
de Mello Palheta. R. Felner, verificou-se ser incontestavel-
Uma. sô vez vêmos, neste erudito ar- mente portuguez.
tigo, tão brilhantemente trabalhado, 'uma Não está bem averiguada a autheu-
referencia, aliás 'summaria, aos escriptos ticídade de sua nomeação por Paulo III,
de Fr. João de Souza, nada havendo so- para o patriarchado. O próprio Dora
bre os de Fr. João de S. Antonio Moura Jpão III duvidava de tal, quando elle
e outros arabistas eminentes. veiu a Portugal pedir soccorros, em nome
Seria, além 'disto, curial que a pesqui- de um negus, a quem chamava Onan-
za se encetasse pela revisão dos grandes dinguel, e a cujo throno ameaçavam os
diccionarios da língua porugueza. E esta musulmanos. Ordenou D. João III que
devia fatalmente começar pelas paginas musulmanos. Ordenou o Rei Piedoso que
do pãtriarcha de nossa bibliographia, Gama, mandasse forças á Abyssinia. Este
o illustre Dom Raphael Bluteau. assim fez, indo, em 1541, uma columna
Assim, o silencio de Padberg a tal de 450 homens, a quem acompanhava o
respeito nos deixa realmente surpresos. próprio D. João Bermudes, e coirinian-
Parece que, o primeiro portuguez que dava 'D. iChristovam da Gama, irmão do
graphou a palavra café, foi o judeu Pe- Governador, soccorrer o soberano ethlo-
dro Teixeira, a escrever em IBIO. pe. Vencedor a principio do sheick de
E' de crer que os chrouistas do século Zeilak, o aggressor dos abexins, acabou
XVI hajam desconhecido por completo Christovam batido e morto, mas seus
a existência da fava arábica, e seu de- lugares tenentes, Affonso Caldeira e Ay-
cocto, tal o silencio em que ns deixa- res Dias, triumpharam, por completo,
ram. Idosmahometanos.
Assim, nem em João de Barros, nera Doze annos permaneceu dom João
em Diogo do Couto, ha a menor allusão Bermudes na Abyssinia, onde soffreu
ao café. E mais, jamais se delle occupnu muitas contrariedades, chegando a ser
Garcia da Orta quanido tudo indicava que encarcerado.
o fizesse. Fugindo do calabouço, em 1556, asy-
Em lugar opportuno veremos como iou-se em Gôa. de onde seguiu para Lis-
Padberg rebate e pulverisa as allegações bôa. Ahi morreu, em 1570. De sua auto-
de um escriptor brasileiro que tentou ria existe curiosíssimo livro, impresso
encontrar no Colloquio dos Simples allu- em 1565, e hoje obra da mais extrema
sões á be'bida oriental. rariidade, sobre as suas acções na Abys-
Antes do que quaesquer outros euro- sinia. i

peus, tiveram os portuguezes contacto Escreve Pinheiro Chagas, aliás geral-


intimo e prolongado com os habitantes mente nada terno para com os jesuiLas:
das terras de onde, segundo o consenso "'Portugal salvara, pois, a indepcuden-
universal, proceide o café. cia da Abyssinia, e passou então a cxer-
" .

139

cer alli uma legitima preponderância, que portar o café para a índia: os hollande-
ainda, augmentou quando os missionários ze,^, que nos usurparam este
ramo ao
jesuitas, com a sua arte Ine-vv^eaivel, se lommercio, como todos os que faziamos
introduziram na côrte do Negns e exer- no Oriento, levaram para Batavia algiur.s
ceram alli um dominio completo. pés daquelle arbusto. .etc."
.

iRestam ainda hoje numerosos vestígios Esta asserção deve ter fundamento
da sua influencia, e as pontes, monu- histórico, que me é desconhecido. O que
mentos, que á sua voz se lançaram nos sei é que os hollandezes só depois de
rios da A'byssinia, parecem, diz Guilher- 1600 é que se apoderaram do commercio
me Lejean, feitas com cimento roríiano, do Oriente: e até essa época chegam as
e Ettestam o génio e a energia dos filhos Décadas de Barros e Coito, onde nem a
de Loyola. Mas, alli, como em toda a par- palavra— —
café se acha
to, a ambição desvairou-se e perdeu-os. Recorri aos escriptos dos portuguezes,
Tornaram-se pesados, tornaram-so im- que andaram pela índia e Ethiopia, taes
portunos e déspotas, a ponto que um como: Duarte Barbosa, que, em 151(J,
ir.onarcha mais enérgico, Basilides, ex- tão extensa e miudamente escrevia sobre
pulsou-os no século XVII. cousas Ida índia. Africa e mar Vermelho;
Com a sahida dos jesuítas, cahiu tam- o padre Francisco AlvaTes, na viagem ao
bém Ide todo a influencia portugueza, e Preste João, em 1520; e emfim o capitão
11 Abyssinia afastou-se completan?.ente de .Toão Ribeiro, que militou na índia, para
nós. a ponto de ser lá hoje talvez o nome onde foi em 1640, e alli se demorou obra
de Portugal, do paiz que salvou os abys- de quarenta annos, e parte destes como
sinios de cairem debaixo do dominio prisioneiro de guerra em Batavia, na sua
n;usulmano, apenas uma vaga tradição Fatalidade histórica da ilha de Ceylão;
liistorica. onde, quando elle faz uma como resenha
Destas relações, tão extensau, luso- dos principaes géneros de commercio de
nada resultou sob o ponto de
etliiopicas, varias nações, se acha o seguinte: '"O es-
vista da propagação ido café. tado do Brasil tem assucar e tabaco; a
E, facto mais surprehendente, dahi Arábia incenso, myrrha, tâmaras e cavai-
não proveio o menor adminiculo para a los; a Pérsia sedas. . etc." Nem estes,
.

bibliographia cafeeira. nem outros, que escuso nomear, faliam


E' um docurhento indirecto do peque- em café, que parece sei'-lhes inteiramente
no consumo que no próprio habitat devia desconhecido.
ter a infusão do bunn abexim, quando E como explicar-se este silencio? Será
pelas terras dos Negiis andavam os lusos. que, apesar do que se lê no Panorama, o
Mas já na época se fazia largo consumo café preparado na Arábia, encaminhava-
do café no littoral asiático fronteiro, á se pelo mar Vermelho, para o Egypto e
Costa de Ethiopia, nome antigo, para a Turquia, e não sahia da porta do
coino dizem os Iiusiadas. Estreito para os mares da índia, antes
E certamente não seria possível que das emprezas dos hollandezes?
os portuguezes attingissem a Abyssinia Como quer que se.ia, a verdade é que
sem ter contacto com os árabes, com os portuguezes só depois que os hollan-
quem traficavam. dezes 6 francezes commerciavam já mui-
Assim temos verdadeira surprez.i era to, com esta género, e o cultivavam em
verificar que a ingestão do decocto da suas colónias é que acordaram do seu
rtibiacea em nada os haja impressionado, somno e cuidaram em introduzir essa in-
a ponto de não se reflectir uma única dustria nas suas vastas possessões que
vez em sua bibliographia quinhentista. denominavam Nova Lusitânia.
Naida mais curial do que aqui repro- Assim como bem recorda Freire Alle-
duzirmos as palavras tão exactas de nosso mão, foram os hollandezes primeiros agen_
eminente Freire Allemão, em sua bella tes propagadores do café na Europa, pri-
niemoria. Qnaes são as principaes plan- mazia que, segundo todos os visos da ló-
tas que hoje se acham aclimatadas no gica dos factos e das circumstancias deve-
Brasil ? ria ter pertencido aos portuguezes.
"Emquanto hollandezes e francezes Torna-se desnecessário recordar que
porfiavam em tirar proveita deãta planta, quasi um século antes da bandeira tri-
o que faziam os portuguezes? Em um ar- color das Provncias Unidas tremular sob
tigo do Panorama a respeito do café, vem as auras do Oceano Indico, as frotas lusi-
estas palavras: "Quando os nossos nave- tanas da carreira das índias, e da con-
gadores rodeando a Africa chegaram a quista do Oriente, traziam a Lisboa
Arábia, começaram por negocio a trans- aquella grande massa de artigos do com-
. . . . .

140

mercio oriental que da capital lusa fize- Deve-se ao autor do primeiro inventa-
ram o grande empório quinhentista das rio serio da lingua portugueza.
especiarias. E' este o verbete consagrado por Blu-
Assim as vantagens até então auferidas teau á palavra café, em 1711, no tomo de
pelas praças italianas, sobretudo Veneza, seu monumental dicclonario.
desappareceram com o deslocamento de "Café, Café, deriva-se do Arábico
um eixo commercial, já diversas vezes se- Cahveh, que geralmente significa todo
cularmente invariável. o género de bebidas, mas ordinariamente
Realmente é singular, é singularissimo toma-se pela que chamamos Café. A tres
que do Oriente não hajam os portugue- castas de bebidas dão os Turcos e Árabes
zes trazido á Europa o uso do café quan- este nome ou outro semelhante.
do muita cousa nova introduziram ãs A primeira chama-se Caliuat ou Cas-
suas navegações no commercio europeu tali; íaz-se com uns grãos, que por of fen-
Foram os primeiros a percorrer a der a cabeça he prohibida pelos Doutores
Abyssinia e lá não perceberam a existên- da Ley, na Província de Yemen, que he
cia do cafeeiro e do café. Assim tam- da Arábia feliz, donde tomou seu princí-
bém quanto á frequentação dos árabes do pio .

Yemen A segunda se faz com as bainhas, & fo-


Mas, mais extranho do que isto é have- lelhos, ou cascas ida fava do Café; não
rem dominado tanto tempo em Ceylão, usamos desta, porque as dietas cascas,
desde 1605 até 1658, e não se terem in- depois de secas, se fazem em pó.
teressado pela cultura do café que no em- A terceira, de que usamos, e que em
tanto já existia na antiga Taprobana, in- todo o Levante se usa, se faz com a pró-
troduzida que alli fôra pelos árabes. pria fava do Café, a qual he mais parda,
Explica Ukers a circumsíaucia da pri- que branca, debaixo da mesma pelle sem-
mazia batava, dizendo que os hollandezes pre vem acompanhada de outra.
sempre foram grandes negociantes e sa- Fóra da Arábia Feliz não foy conheci-
gazes traficantes. da esta bebida pelo espaço de muytos
Faltaria esta sagacidade aos lusos que annos, até que finalmente no século nono
de sua mescla semitoiberica não eram da Hégira, ou Era & Época dos Árabes,
menos amigos dos negócios da China? os Derviches da Provinca de lemen, que
Ou teriam elles sido prejudicados pela moravão no Cairo, & tinhão seu domicí-
desproporção entre a cultura dos Paizes lio no Bairro dos Semanitas, acostuma-
Baixos e a de Portugal? dos a tomar Café antes de começar a sua
reza, introduziram o uso delle.
Vejamos agora alguma cousa sobre a
persistênciada palavra café e dos seus
No principio teve esta bebida suas
controvérsias; os escrupulosos a desap-
derivados na bibliographia portugueza
Do Padre Manuel Godinho,