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Nome da mesa: Pulsão, relações e objeto: contraste de


concepções

A antropofagia do objeto. Desconstrução e Reconstrução

Ana Maria Sigal

Em psicanálise, quem teria a leitura autorizada, a leitura


justa que interpretaria sem erros aquilo que Freud nos oferece
como legado? Nenhum de nós. Pensando então no trabalho
específico que me levaria a discutir as relações de objeto tal
como as interpreto, e considerando o nome desta mesa, que se
refere ao contraste de concepções, me surgiu a necessidade de
colocar meu pensamento em um contexto mais amplo e também
o desejo de mostrar de que modo a metapsicologia se encarna
na minha clínica. Faz algum tempo venho pensando nos pilares
da teoria, variantes e invariantes nos diferentes autores. Ousei
chamá-los de “os inegociáveis da psicanálise”, mas já me vi na
necessidade de modificar minha proposição inicial à medida que
tomava em consideração pontos de vista diversos dos meus. De
toda maneira quero deixar claro que são conceitos que para
minha leitura são fundantes. Tento assim identificar até que
ponto certos conceitos são deslocados num leque que, de tão
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amplo, poderia acabar constituindo um outro referencial teórico,


fora do que se inscreveria no campo psicanalítico.
Entendo que é possível ler Freud e os pós-freudianos
partindo da ideia de que os caminhos pelos quais os diferentes
autores percorrem trilhas, criando ou não escolas, estão
enunciados em Freud. Cada pronunciamento teórico lê ou deixa
de ler certos parágrafos, omite ou ressalta alguns conceitos e dá
a outros o valor fundante.
Participo, desde sua fundação, do Movimento Articulação
das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, movimento iniciado no
ano 2000 e do qual formam parte 18 instituições de formação de
diferentes escolas que trabalham pela defesa e a não-
regulamentação da psicanálise. Este movimento foi criado em
resposta a uma tentativa de regulamentar a Psicanalise feita pela
SPOB(Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil)agrupação de
origem evangélico, que apresentou um projeto no Congresso
Nacional para regulamentar a Psicanalise. A base de sua
proposta era outorgar o titulo de psicanalista, propondo como
base da formação o tripé com o qual as diferentes instituições
trabalham, analise pessoal, estudo da teoria, e clinica
supervisionada, só que a forma em que aplicavam essas
premissas, deturpavam a essência da Psicanalise. Na teoria se
encontravam tanto enunciados moralistas onde o diabo e a
religião se misturavam com conceitos freudianos, quanto outras
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muitas aberrações do que se entendia por tratamento


psicanalítico e clinica. Foi assim necessário encaminhar ao
congresso diversos esclarecimentos, e brecar durante todos
estes anos diversos projetos apresentados baixo outras fachadas,
mas que apontavam a aprovação da regulamentação apoiados
pela bancada evangélica.
Naquela oportunidade, nos reunirmos diversas instituições
que nos reconhecíamos como de formação de analistas e
realizamos um trabalho de defensa contra a regulamentação.
Neste grupo nos esforçamos por fazer um trabalho que nos
permita reconhecermo-nos como psicanalistas, apesar das
diferenças de escolas , conceitos e modos de formação e
transmissão que nos separami.
Esta é também uma marca da formação no Sedes: sendo
Freud a viga mestra, estudam-se diversas escolas e autores, a fim
de que cada um se aproprie destes da forma mais interessada e
interessante para si.
Hoje, frente a um colóquio que segue esse espírito e que
apresenta diferentes maneiras de contextualizar as relações e os
objetos, cabe a nós o esforço de escutar e pensar pontos de
convergência entre os modos de formular as ideias e de abrir
espaço para fazer, a partir das divergências, uma conversa
coletiva. Vale também a tentativa de mostrar como a
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metapsicologia não é sofisticação intelectual, pois ela é a própria


condição da nossa clínica.
A questão, a meu ver, é não fazer uma leitura cega, que
supõe verdadeiro somente aquilo em que nosso pensamento se
apoia. Do dogmatismo ao ecletismo há um certo percurso. De
um lado, a rigidez própria à coagulação dos conceitos nos levaria
ao dogmatismo mas, de outro lado, nem tudo pode se somar,
como acontece na postura eclética em que tudo vale. Desta
forma insistimos em um pensamento crítico de abertura que nos
mostra a possibilidade de repensar certos conceitos,
enriquecendo-os; outros, não têm ajuste possível ou, ainda, para
serem incorporados, exigiriam a criação de um novo corpo
teórico. É por exemplo o que acontece com as modificações que
Jung faz à teoria freudiana, dando à libido uma concepção ampla
de energia, tirando a marca da sexualidade que Freud considera
central. Entendo que a sexualidade infantil é outro pilar ou
inegociável que considero importante sustentar para nos
mantermos dentro do campo psicanalítico. Mais além das lutas
de poder que caracterizaram a história do movimento
psicanalítico, algumas modificações atacam fundamentos
centrais da teoria freudiana, fazendo balançar todo o seu
edifício. O próprio Freud não aceita aquelas proposições de Jung,
dizendo que modificam a essência de seu pensamento. Naquela
época Freud podia discutir as suas ideias, hoje em dia somos nós
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que nos apropriamos, apoiamos, rejeitamos e discutimos o que


pode ser considerado dentro do campo da psicanálise.
Cada autor, à sua maneira, aborda um espaço vazio.
Estamos acostumados a pensar em compostos binários, ou isto
ou aquilo, mas, às vezes, são as variações que nos dão o caminho
mais justo entre os extremos. A partir da incorporação do
conceito de diversidade e do trabalho com a diferença não
oposicional segundo o filósofo Jacques Derrida(diferance), temos
aderido a compreensões clínicas que durante longo tempo
ficaram paralisadas, enquanto nos vimos na necessidade de
escolher se um conceito metapsicológico era verdadeiro ou falso.
A clínica nos ajuda portanto a entrelaçar conceitos, sendo
importante problematizar a psicanálise, provocando novos
ordenamentos que repercutem em nossa prática. Assim como,
desde as origens, Freud é revisionista de sua própria obra, cada
analista contemporâneo vai se apropriando, na sua formação,
daquilo que lhe permite escutar melhor e trabalhar a
transferencia.
O conceito de inconsciente é outro dos inegociáveis com o
qual nós psicanalistas trabalhamos. Os diferentes pensadores
partem da ideia de que o inconsciente é um elemento central
que caracteriza nosso saber, mas se o inconsciente tem um
realismo que corresponde às marcas inscritas no decorrer da
história do sujeito, ou seja, se o inconsciente é um existente para
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além do discurso, como nos disseram Laplanche e Leclaire no


texto apresentado no colóquio de Bonneval ii; ou se, no dizer de
Melanie Klein, trata-se fundamentalmente de fantasias
inconscientes, de representações inconsciente de objetos
internalizados que são a representação mental dos instintos iii;
ou, ainda, se pensamos que o inconsciente, segundo uma
concepção lacaniana, é o discurso do Outro, estruturado como
uma linguagem, que há de buscar-se em todo discurso, em sua
enunciaçãoiv – em todos os casos há um descentramento do Eu
como lugar de saber. Isso dá ao inconsciente um estatuto de
inegociável. Isto marca a diferença com as terapias cognitivistas,
fenomenológicas ou corporalistas e muitas outras que são
estranhas à psicanálise. Assim também as relações e os objetos
sofrem diversas elaborações, isto poderá nos falar de clínicas
diferentes, mas todos os autores, em suas diferenças, se mantêm
no campo da psicanálise. O conceito de pulsão com um objeto
contingente passa também a ser um inegociável, ao separar a
psicanálise do campo do inatismo submetido à ideia de instinto.
Faço esta análise para chegar às relações de objeto, tal
como eu as entendo, a partir de certas formulações de
Laplanche, que a meu ver supera a dicotomia do modelo
pulsionalista ou relacionalista a partir de um modelo dialético,
trabalhando o conceito de objeto-fonte da pulsão. Avanço
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também em certos aspectos não esclarecidos nas suas


formulações.
Em relação aos objetos, às relações com o objeto ou de
objeto podemos marcar diversos caminhos amplamente
descritos com grande rigor e profundidade, finamente
trabalhados no livro que Decio Gurfinkel v escreveu a respeito.
Quanto a mim, durante muitos anos, no Curso de psicanálise,
ministrei um seminário chamado “Diferentes concepções
metapsicológicas sobre a constituição do sujeito: Klein, Winnicott
e Lacan. Seus efeitos na clínica”, no qual se trabalhavam
fundamentalmente as diferenças que se produziam na clínica,
em função dos fundamentos teóricos de cada autor.
Este largo caminho me levou a mergulhar na
metapsicologia que nos colocam vários autores, sempre partindo
ou retornando a Freud para entender seus percursos, a fim de
me apropriar de conceitos que me permitiam trabalhar
clinicamente, de uma forma mais apurada, as questões que o dia
a dia de meu fazer exigia. Assim, cada um de nós constrói seu
próprio esquema referencial ou ECRO, segundo Pichon-Rivière,
que pode partir de vários autores e articular diversas
conceitualizações.
Justamente este interregno entre o dentro fora, a fantasia
e a realidade, o outro e os objetos internos representava um
campo com o qual me debatia constantemente. Na época em
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que fiz minha formação, reinava Melanie Klein no horizonte da


clínica, e começavam a chegar à América Latina os primeiros
ensinos de Lacan. No decorrer do tempo, o esquema kleiniano
começou a resultar-me insatisfatório na clínica, sobretudo no
trabalho com crianças, já que a importância das marcas do outro,
na formação dos fantasmas e das representações internas, nos
mostrava a falência do inato. Não me convencia a ideia que se
nasce com um montante de pulsão de morte interno que se
deflexiona no objeto. A meu ver o processo começa pelo outro e
não pelo inato. Assim reconhecendo a importância que o manejo
com os pais ia me impondo, foi necessário revisar a
metapsicologia para encontrar novos caminhos. Não trabalhar
com os pais, incorporando-os ao discurso coletivo que se fazia
presente na sessão da criança, tal era a proposta kleiniana da
época , deixava a criança responsável e, às vezes, perdida em
fantasmas que não eram dela e sim dos quais ela era portadora.
Os aportes de Mannoni e Dolto, que partiam do referencial
lacaniano, me ajudaram muito a expandir minhas ideias,
reforçavam a concepção de que a criança advém com um
discurso já pré-formado, que fazia as primeiras marcas, mas
também não me convencia atender os pais e não as crianças,
pensando que eles eram os únicos produtores do discurso
inconsciente da criança, proposta esta que, na época, se aplicava
a toda criança que ainda não tinha chegado ao terceiro tempo do
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Édipo. Aquele dizer de que o inconsciente da criança é o


discurso-desejo do outro não correspondia ao que constatava na
minha clínica, a criança também tinha sua parte na decodificação
do discurso do outro. Assim em 1997 publiquei um livro – O
lugar dos pais na psicanálise de crianças vi – no qual faço uma
proposta que referencia teoricamente uma mudança na técnica,
mudança que me permitiria trabalhar de maneira tal que minha
prática se transformava, operando com mais potência. Comecei
a incorporar os pais nas sessões das crianças, quando necessário,
naqueles momentos em que o discurso da criança ficava
coagulado porque lhe faltavam elementos para continuar
sonhando ou brincando. Os pais entram no tratamento e se
comprometem com suas fantasias inconscientes no discurso que
circula na sessão pois estas se originam na sua sexualidade e é
delas que a criança é uma portadora alheia, sem ter podido fazer
um trabalho de apropriação e tradução, motivo pelo qual ficam
estagnadas, coaguladas e recalcadas, sem possibilidade de
acesso. O modo pelo qual o adulto afeta a criança com sua
sexualidade inconsciente opera como implantação desta
sexualidade, possibilitando ao infans se apropriar e fazê-la
circular em seu incipiente estado psíquico já em constituição ou
fica como uma intromissão alheia, impossível de tradução,
destinada sempre ao recalcamento primário.
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Na época estudava muito Laplanche e tive a oportunidade


de estar com ele, acompanhando seu pensamento. Também
pudemos convidá-lo ao Sedes, abertos aos seus ensinamentos, e
apresentei a ele, num congresso em Porto Alegre, um trabalho
intitulado “Psicanálise com crianças, os pais e a circulação do
significante enigmático na condução da cura” que abriu um
leque importante para o atendimento de crianças e me serve de
apoio até hoje. Este autor me deu os elementos
metapsicológicos que me ajudariam a desenvolver minha clínica
nesse momento. Este pensamento me ofereceu paradigmas que
me permitiram operar desde uma perspectiva psicanalítica em
relação à importância da alteridade na constituição subjetiva,
sem deixar de fora ou desconsiderar o efeito que produzia o
desejo do outro ao fazer marca na singularidade do bebê. E é
justamente numa compreensão do modo pelo qual Laplanche
teoriza os objetos que encontro a resposta metapsicológica que
amplia o campo do dentro-fora como um contínuo, onde a fonte
pulsional do corpo se funda e adquire sua potência a partir do
outro, que investe sua bagagem sexual inconsciente a partir dos
cuidados e da palavra que funda este encontro. A formulação de
Laplanche de objeto-fonte da pulsão é que me abriu o caminho.
Quando Laplanche nos fala do objeto-fonte da pulsão, está
superando esta dicotomia dentro-fora. É o fora que incide no
dentro produzindo uma modificação. A pergunta era: ou a
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criança ou os pais. O endógeno ou exógeno? Sem dúvida que o


desejo do outro está presente na forma como o adulto se dirige
a seu bebê, em suas manifestações mais inconscientes, este
desejo não está necessariamente debelado, mas sim veiculado e
oculto. Parte da usina inconsciente da sexualidade da mãe se faz
carne em um corpo que está à espera de significações. A
sexualidade inconsciente e infantil materna se faz carne no corpo
do sujeito infantil como fantasias das origens e, deste ponto em
diante, o trauma, que era externo, se transforma em auto-
traumático e começa a pulsar a partir da zona que se erogeniza
no bebê, fundando a fonte pulsional.
A zona erógena como biológica (zonas de mucosas) por si
só não seria suficiente para ser a fonte pulsional sem a
intervenção do outro. A mãe implanta seu desejo mas este é
desestruturado, metabolizado e antropofagizado até se fazer
carne-fantasma no corpo da criança. A internalização deste
objeto-desejo se transforma em usina de desejo e de prazer, se
constituindo na fonte da pulsão, uma pulsão que já não é puro
corpo e sim corpo emoldurado pelo outro. A pulsão não é
biológica mas o desejo inconsciente da mãe ancorado e
encarnado no corpo da criança, metabolizado, de-composto e
recomposto pela criança que o recebe, se transforma em objeto-
fonte. Entre o discurso-comportamento do outro carregado de
sexualidade e a representação inconsciente do sujeito não há
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continuidade, nem simples incorporação, há de-composição ou


de-qualificação deste discurso e recomposição. Assim o
inconsciente da criança é resultado de um mecanismo
antropofágico de decomposição e recomposição do objeto. Para
Laplanche, o desejo-discurso da mãe, ao incidir na criança, sofre
uma mudança, incide sobre a necessidade, que no caso poderia
ser a amamentação, elemento da auto-conservação, que irá
adquirir uma qualidade diferente por ser investida da energia
sexualizante que chega do adulto. Assim, por exemplo, a boca,
que era fonte da necessidade, se vê transformada em zona
erógena e começa a emitir energia sexualizada, transformando-
se em objeto-fonte da pulsão. O conceito de apoio (Anlehnung)
se subverte por conta da sedução materna. Não é a própria boca
que se erotiza por intermédio do exercício do chupeteio, como
nos diz Freud: não é de prazer de órgão que se trata, ao qual se
adiciona um plus de prazer, eis aqui a diferença com Freud. A
mensagem enigmática materna é que transforma o corpo em
pulsação erótica, assim se priva a zona erógena de sua origem
endógena. A mensagem que a mãe passa ao bebê é
inconsciente, é produto de sua própria história e pulsionalidade,
é produto de sua sexualidade infantil e de seu Édipo. O que a
mãe passa não tem significado, não se implanta como
representação materna na criança; para Laplanche é pura
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energia, portanto é pura excitação – e sempre traumatizante – o


que a criança recebe.
A este mecanismo de apropriação, Laplanche nomeia
metábola, inspirando-se no que seria um processo de
metabolismo, no qual o alimento é recebido e transformado a
partir das próprias substâncias. Na metábola não se pode
substituir um significante por outro, fazendo desaparecer um
termo por simplificação; entre um significante e outro sempre há
algum resto, entre o inconsciente desejo da mãe e o modo em
que este faz marca na criança há uma diferença. Esta diferença é
produto da metábola, da forma desta criança de-codificar e
recodificar a mensagem. Este resto é o que marca a diferença
com a metáfora. Quando um raio de luz incide sobre um
elemento líquido, aquele sofre uma refração, um desvio, ao
penetrar num meio diferente - muda seu ângulo de incidência e
já não é mais o mesmo. Poderíamos dizer que os significantes
enigmáticos, desejo, discurso, energia sexual que a mãe lança no
contato com a criança, penetra no mundo psíquico da criança e
sofre assim, como o raio de luz refratado, uma modificação. O
que vai marcar o inconsciente é esse novo produto do qual a
criança se apropria.
As mensagens enigmáticas são sempre traumáticas, porque
introduzem a dissimetria entre o adulto e a criança. O aspecto
econômico tem vigência porque, dependendo do que a mãe
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veicula, e de como o faz, haverá a possibilidade de a criança


transformar ou derivar os primeiros signos de percepção (Wz).
Se no lugar de implantar sua mensagem enigmática para que a
criança decodifique e se aproprie dela, ligando-a e associando-a
com outras marcas existentes, a mensagem fica como uma
intromissão, devido à sua violência e ao seu montante, esta fica
incrustada, blindada e sem possibilidades de ligação e
escoamento, funcionando desde o interior como algo isolado
que produz energia não degradável, não associativa e sem
ligação.
Não só no trabalho com crianças me ajudou esta forma de
pensar a metapsicologia, facilitou também a interpretação no
trabalho com adultos, em que não é tudo mundo interno ou
recalcamento da sexualidade infantil, e sim um composto entre o
que se implanta como discurso que vem do outro, do social e a
forma pela qual o adulto se apropria de sua história na
decomposição do discurso do outro.
Quando nos perguntamos se o que estamos trabalhando na
sessão tem que ser ouvido como fantasia ou realidade,
perguntamo-nos se este é falso ou verdadeiro debate. Nem um
nem outro: a questão é verdadeira, mas está mal colocada. O
que dificulta a articulação é o “ou”, ou seja, a suposição de
termos que fazer uma escolha. O que dificulta é o pensamento
binário com a conjunção “OU” no lugar de “E”. Onde está o
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traumatismo? Onde está a sedução? Laplanche nos diz que tanto


uma como outra se situam num jogo de après-coup, numa
sucessão de traduções, e é na impossibilidade da tradução que
se encontra o recalcamento. Haverá diversas e novas inscrições
se consideramos o inconsciente como um sistema aberto,
reafirmando o valor da história do sujeito. Nem tudo se definiu
nos primórdios, novas inscrições e traduções no decorrer da
história nos falam de um processo de neogênese, que amplia e
alarga o campo das intervenções e interpretações.
Estamos sempre nos repensando, abrindo e explorando
continentes que fazem de nossa clínica um lugar aberto às
surpresas. O pontapé inicial foi dado pela teoria de Laplanche
mas desde então continuo trabalhando nos pontos de contato
entre esses conceitos e outros que chegam de novos autores ou
de novas leituras de velhos autores.
i
Alberti, S. e outros. Ofício de Psicanalista. Formação vs regulamentação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.
ii
Laplanche, J. El Inconsciente y el ello. In: El inconsciente: Um estudio psicanalitico. Buenos Aires: Amorrortu, 1981.
iii
Klein, M. Contribuciones al psicoanálisis. Principios psicológicos do analise infantil. Buenos Aires: Paidós, 1964.
iv
Lacan Posição do inconsciente, em Escritos 7, 1960 em referência ao colóquio de Bonneval.
v
Gurfinkel,Decio.Relaçoes de Objeto,São Paulo Ed Blucher 2017.
vi
Sigal, Ana Maria.O lugar dos pais na psicanalise de crianças,São Paulo,ED Escuta 1997.

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