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Naturalidade discursiva na tradução: análise de uma reportagem traduzida do inglês


dos Estados Unidos para o português do Brasil

William Bosich de Souza1

Profa. Maria Paz Pizarro Portilla2

RESUMO

Este trabalho buscou analisar os elementos textuais que contribuem para a naturalidade e a
idiomaticidade de textos traduzidos do inglês dos Estados Unidos para o português do Brasil.
Conforme Salkie (1995), cujo trabalho centra-se na diferenciação entre o que é gramatical e o
que é natural, a produção de um texto natural é a prioridade máxima dos bons tradutores.
Partindo dessa premissa, procuraram-se, em um texto jornalístico traduzido, combinações de
palavras que parecem atípicas para os falantes do vernáculo, embora perfeitamente corretas do
ponto de vista gramatical. Para testar o nível de naturalidade dessas expressões, foram feitas
pesquisas no buscador Google (Meyer et al., 2003) a fim de se avaliar, por meio do número
de resultados, a frequência com que já foram usadas essas expressões, bem como se os
respectivos textos foram redigidos originalmente na língua portuguesa ou se foram traduzidos
de outro idioma. Por fim, em alguns casos, foram oferecidas sugestões de expressões mais
naturais para substituir aquelas consideradas poucos frequentes.

Palavras - Chave: Naturalidade. Tradução. Google. Frequência de uso.

1
Aluno concludente do curso de Bacharelado em Letras Língua Portuguesa da Universidade Estácio
de Sá.
2
Professora orientadora do artigo da Universidade Estácio de Sá.
2

1 INTRODUÇÃO

Em seus quase cinco anos na profissão de tradutor, o autor deste artigo sempre percebeu a
grande importância atribuída pelas agências de tradução à naturalidade dos textos traduzidos.
Uma das instruções técnicas que mais constam de seus trabalhos é a de tornar o texto
traduzido tão fluido e agradável a ponto de o leitor julgar que a redação tenha sido
originalmente feita na língua portuguesa. A propósito, diversos clientes, geralmente marcas
multinacionais, acabam permitindo que o tradutor se desvie do sentido transmitido pelo texto-
fonte a fim de que o texto-alvo soe natural. Assim, prefere-se um texto fluido, leve, familiar,
ainda que seu conteúdo divirja moderadamente da mensagem no outro idioma, a um texto
truncado, atípico, notadamente estrangeiro.

Conforme Salkie (1995), para os bons tradutores, a produção de um texto natural é prioridade
máxima em seu trabalho, mais até que a correção gramatical, com a qual já contam e
raramente representa um problema para tradutores proficientes. Embora o ofício de tradutor
não seja regulamentado, é comum que os profissionais da área tenham formação na área das
Letras. Dessa forma, construir um texto gramaticalmente correto não lhes parece ser um
desafio. Prima-se, contudo, pela confecção de um texto que use precipuamente combinações
de palavras que não destoem do conjunto típico da língua de chegada.

Nesta pesquisa, foi analisado um único texto jornalístico traduzido do inglês dos Estados
Unidos, cuja escolha se deu de forma aleatória. A reportagem objeto de estudo intitula-se “A
estratégia da mentira” e foi publicada na revista Época em julho de 2019. Diante desse escrito,
a primeira pergunta que se fez foi: “Quais elementos textuais objetivos denunciam que esse
texto foi traduzido, não redigido primariamente na língua portuguesa?”.

Depois de se terem destacado as expressões aparentemente insólitas da reportagem, analisou-


se a frequência de uso dessas combinações de palavras. Para tanto, foi utilizado o buscador
Google, que apresenta o número de vezes em que determinada combinação de palavras já foi
usada em seu universo de pesquisa. Com vistas à obtenção de resultados publicados apenas no
Brasil, ativou-se a configuração de exibição de páginas hospedadas apenas nesse país.
3

O uso de buscadores na internet para verificar a tipicidade do uso de certas expressões


linguísticas já foi objeto de pesquisas acadêmicas. Meyer et al. (2003) discorreram sobre a
importância do número de resultados de buscas para sugerir a frequência com que ocorrem
determinadas combinações de palavras e estruturas gramaticais. De acordo com esses
estudiosos, as informações sobre a frequência de uso apresentadas pelos buscadores podem
não ser integralmente precisas, mas são amplamente sugestivas. Assim, pode-se inferir que
quanto maior é o número de resultados apresentados, mais frequentemente determinada
expressão é usada naquele idioma, o que permite lhe conferir certo grau de tipicidade.

O grau de confiabilidade dessas pesquisas conduzidas na internet é elevado, embora não se


possam tecer considerações taxativas. Nesse sentido, sobre a escolha da web como corpus
para análise linguística, Colson (2007) afirma que “[o corpus] é tão grande (de 1 até 50
bilhões de palavras para as línguas europeias) que a probabilidade de se tirar conclusões
erradas é muito limitada, embora não possa ser totalmente excluída”. Logo, ressalta-se que,
neste trabalho, as classificações de expressão frequente ou expressão infrequente, embora
fundamentadas quantitativamente nos resultados de busca, não devem ser interpretadas de
maneira absoluta, mas sugestiva.

As expressões consideradas pouco usuais no português do Brasil em razão de sua baixa


frequência de aparição nos resultados de pesquisa foram brevemente analisadas e, para cada
uma delas, foram oferecidas sugestões de expressões mais comuns, sempre com base na
respectiva frequência de uso apontada pelo buscador. Por meio de consulta a um dicionário
bilíngue de renome, investigaram-se possíveis razões que levaram o tradutor a optar pela
utilização de expressões linguísticas aparentemente incomuns.

A relevância dessas reflexões parece despontar para fora da área acadêmica. Dentre os
possíveis efeitos práticos desse trabalho estão estimular uma conscientização sobre a
importância de se elegerem combinações de palavras naturais, não apenas gramaticais,
durante o processo de tradução; divulgar a possibilidade de utilização do buscador Google
como ferramenta auxiliar na verificação da frequência de emprego de expressões linguísticas;
4

e despertar discussões teóricas e pesquisas mais aprofundadas nos estudos da tradição sobre a
naturalidade de textos traduzidos.

2 NATURALIDADE: ELEMENTO ESSENCIAL PARA UMA


TRADUÇÃO DE QUALIDADE

É comum que aprendizes de línguas estrangeiras tenham a sensação de que determinada


oração enunciada por eles no outro idioma está gramaticalmente correta, mas que a sequência
de palavras usada não seria a escolhida por um falante nativo daquela língua. Assim, embora
haja infinitas possibilidades de orações gramaticais, nem todas podem ser consideradas
naturais (Lamparelli, 2007). A título de exemplificação, se alguém disser “Preciso pegar um
banho”, não há nenhum problema sintático nesse enunciado e, além disso, seria possível até
mesmo compreender genericamente o sentido da mensagem. Contudo, “pegar um banho” não
se constitui uma combinação de palavras típica do português brasileiro. Espera-se que a
expressão usada por falante nativo do vernáculo diga “Preciso tomar um banho”.

Nesse sentido, Rafael Salkie (1997) pontua a diferença entre o que é gramaticalmente correto
e o que é natural em um idioma:

Some texts sound “natural” in a language; others, while they are well-formed
grammatically, sound unnatural – as if they are translated from another language
they may well bear the imprint of the original language. ‘It isn’t wrong, but you
just don’t say it like that’ is a typical reaction to unnatural language.3

A partir do pensamento acima, passa-se a cogitar que uma das razões pelas quais alguns
textos traduzidos não soem naturais aos ouvidos dos falantes nativos da língua de chegada
seja a manutenção de marcas da língua de partida. Ao longo da análise dos trechos
problemáticos da reportagem eleita como objeto de estudo, será possível destacar com maior
clareza a influência do inglês na escolha dos vocábulos na tradução por parte do jornalista
tradutor.

A partir da premissa de que nem toda construção linguística gramatical pode ser considerada
natural, Lamparelli (2007) afirma que “[...] o que domínio de uma língua implica algo mais do
3
Alguns textos soam “naturais” em um idioma; outros, embora estejam bem-estruturados
gramaticalmente, soam “não naturais” – se forem traduzidos de outra língua, podem até trazer
marcas da língua original. ‘Não está errado, mas não assim que se diz’ é uma reação comum diante
de uma linguagem não natural.
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que uma gramática generativa, há um uso convencionado, aceito pelos membros da


comunidade de fala, uma opção preferida dentre as tantas igualmente gramaticais”. Nesse
contexto, ao considerar que há opções preferidas pelos falantes nativos de um idioma, John
Rupert Firth, em 1957, criou o termo “colocação” (colloquation, em inglês) para designar o
conjunto de palavras com ocorrência frequente. Segundo o autor, trata-se de “actual words in
habitual company”, ou seja, palavras autênticas em sua companhia habitual. Entretanto, é
precisar lançar mão de algum critério objetivo para classificar uma expressão como frequente
ou infrequente.

A fim de se apurar a tipicidade de determinada combinação de palavras, Colson (2003)


definiu como métrica o PMW (Per Million of Words), ou Por Milhão de Palavras,
considerando uma expressão como frequente se esta aparecer uma vez a cada milhão de
palavras em determinado idioma do referido corpus. A pesquisadora Claudia Maria Xatara
(2008), após revisão de vários estudos acadêmicos, apurou que há aproximadamente 56
milhões de páginas em português brasileiro na internet. Logo, de acordo com a métrica do
PMW, uma expressão deve ser considerada frequente se apresentar, no mínimo, 56 resultados.
Resta indubitável, contudo, que quanto maior a frequência de uso, mais típica ou usual é a
expressão pesquisada.

Colson assevera que “although the World Wide Web does not offer a perfect solution to
research on set phrases, its huge size and its multilingual character will probably make it an
unbeatable competitor for traditional corpora.4” Nesse mesmo sentido, ainda que com
ressalvas mais evidentes à possibilidade de se tirarem conclusões incontestáveis das pesquisas
linguísticas que usam a web como corpus, Meyer et al. (2003) afirma que “although
frequency information generated by search engines must be interpreted with caution, such
information is ‘suggestive’ and can give a sense of which linguistic usages are common and
which are not”5.

4
Embora a World Wide Web não ofereça a solução perfeita para se pesquisarem locuções fixas, é
provável que seu tamanho enorme e seu caráter multilíngue a tornem um concorrente imbatível dos
corpora tradicionais.
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Embora as informações de frequência geradas pelos motores de busca devam ser interpretadas
com cautela, tais informações são “sugestivas” e podem oferecer uma percepção de quais usos
linguísticos são comuns e quais não são.
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3 ANÁLISE DA FREQUÊNCIA DE USO DAS COMBINAÇÕES DE


PALAVRAS APARENTEMENTE ATÍPICAS

Neste trabalho, elegeu-se como objeto de estudo a reportagem “A estratégia da mentira”


(Anexo A), publicada na revista Época, a qual nada mais é que uma tradução feita pelo
jornalista Victor Calcagno, pertencente ao próprio veículo de comunicação, do artigo “The
Constitution of Knowledge” (Anexo B), publicado na National Affairs, de autoria do também
jornalista Jonathan Rauch.

3.1 ESCOLHA DOS TRECHOS PROBLEMÁTICOS

Embora, para o autor deste artigo, a reportagem traduzida tenha apresentado boa fluidez e
precisão, certas combinações de palavras destacaram-se como possivelmente pouco usuais
para falantes nativos do português brasileiro. Assim, essas expressões foram recortadas da
matéria analisada e pesquisadas no buscador Google configurado para exibir apenas páginas
hospedadas no Brasil.

As referidas combinações foram colocadas entre aspas no momento da busca, de forma a


limitar os resultados exibidos àquele que continham a sequência exata pesquisada. Em uma
situação específica, foi necessário usar o caractere * (asterisco) no meio da expressão. Esse
símbolo é usado para solicitar que o buscador exiba resultados em que qualquer palavra esteja
no lugar do asterisco. No caso concreto, buscou-se a expressão “submeter * a checagem”,
pois, a este estudo, interessou contabilizar todo e qualquer resultado que contivesse o padrão
“submeter algo a checagem”. Dentre os resultados exibidos apareceram, por exemplo,
“submeter a publicação à checagem”, “submeter a matéria à checagem” e “submeter esse
imigrantes a checagem”.

Seguem abaixo os trechos textuais em que essas expressões possivelmente atípicas foram
encontradas e a respectiva passagem original. A inclusão do texto fonte em inglês logo após o
trecho estudado visa ao cotejamento vis-à-vis das colocações a fim de se avaliar se a estrutura
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da expressão traduzida foi objetivamente influenciada pela sua respectiva contraparte em


inglês.

1.ª colocação

Em uma entrevista em 2004 a Chris Matthews na rede de televisão MSNBC, Trump


elogiou os bem-sucedidos ataques republicanos aos atos heroicos de guerra do senador
John Kerry, então candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos.

In a 2004 television interview with Chris Matthews on MSNBC, he marveled at the


Republicans' successful attacks on the wartime heroism of Senator John Kerry, the
Democrats' presidential candidate.

2.ª colocação

Embora não seja especificada na lei, a constituição do entendimento tem seus equivalentes
de pesos e contrapesos, separação dos Poderes, instituições governantes, eleições e
virtudes cívicas.

Though nowhere encoded in law, the constitution of knowledge has its own equivalents of
checks and balances, separation of powers, governing institutions, voting, and civic
virtues.

3.ª colocação

Embora a desinformação seja algo antigo, ela recentemente se juntou à internet para
produzir algo novo: uma versão de desinformação descentralizada e apoiada em multidões
que ficou conhecida como trolagem.

Although disinformation is old, it has recently cross-pollinated with the internet to


produce something new: the decentralized, swarm-based version of disinformation that has
come to be known as trolling.
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4.ª colocação

Você pode acreditar no que quiser e dizer o que quiser. No entanto, se suas crenças não
forem comprovadas ou se você não submetê-las a checagem, você não pode esperar que
alguém mais se importe com o que diz.

You can believe and say whatever you want. But if your beliefs don't check out, or if you
don't submit them for checking, you can't expect anyone else to publish, care about, or
even notice what you think.

5.ª colocação

Se você está envolvido em química, jornalismo diário ou análise de inteligência, testar


hipóteses requer tempo, dinheiro, habilidade, experiência e interação social complexa.

Whether you are engaged in bench chemistry, daily journalism, or intelligence analysis,
testing hypotheses requires time, money, skill, expertise, and intricate social interaction.

6.ª colocação

Notícias sobre a intolerância e a irracionalidade no campus aparecem nos jornais para


retratar a universidade como um lugar que coloca os padrões políticos à frente dos
profissionais.

News stories about campus intolerance and unreason ricochet throughout the media to
portray the university as a place that puts political standards ahead of professional ones.

3.2 RESULTADO QUANTITATIVO E CLASSIFICAÇÃO COMO FREQUENTE OU


INFREQUENTE

Após a pesquisa manual de cada expressão no buscar, anotou-se o respectivo número de


resultados, os quais foram compilados em uma tabela para melhor visualização. Em seguida,
esses resultados foram confrontados com o piso mínimo de frequência definido por Xatara
(2008).
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Expressão Quantidade de resultados


“bem-sucedidos ataques” 755
“instituições governantes” 765
“se juntar à internet” 7
“submeter * a checagem” 10
“estar envolvido em química” 2
“padrões políticos” 8.840

Assim, pode-se observar que, segundo o critério de tipicidade para expressões no português
brasileiro definido por Xatara, três das seis expressões analisadas – “se juntar à internet”,
“submeter * a checagem” e “estar envolvido em química” – não podem ser consideradas
frequentes, pois não atingiram o piso mínimo de 56 resultados. Por outro lado, as outras três
expressões – “bem-sucedidos ataques”, “instituições governantes” e “padrões políticos”,
embora tenham se destacado como não naturais para o autor deste artigo, podem ser
consideradas frequentes. Far-se-ão algumas observações sobre o critério PMW como
determinante para a tipicidade de expressões nas considerações finais.

3.3 SUGESTÕES DE EXPRESSÕES MAIS USUAIS

Para cada combinação de palavras pesquisada, tentou-se encontrar uma expressão substitutiva
possivelmente mais natural e procedeu-se à pesquisa no Google, com vistas à apuração da
frequência de uso e posterior comparação os resultados iniciais.

A expressão “bem-sucedidos ataques” foi substituída por “ataques de sucesso”, que


apresentou 188.000 resultados, face às 755 situações de uso da combinação escolhida pelo
autor da reportagem que foi objeto deste estudo. Insta apontar que, aparentemente, a ordem
adjetivo-substantivo teve grande relevância para a escassa quantidade de resultados
apresentados, pois, quando se buscou a expressão “ataques bem-sucedidos”, que segue a
ordem canônica substantivo-adjetivo da língua portuguesa, obtiveram-se 7.640 resultados; ou
seja, “ataques bem-sucedidos” foi uma expressão aproximadamente dez vezes mais usada que
“bem-sucedidos ataques”. Contudo, nenhuma das duas combinações se aproxima do número
impressionante de 188.000 mil resultados levantados pela expressão “ataques de sucesso”.
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No caso de “instituições governantes”, a disparidade entre os resultados obtidos com a


expressão usada na reportagem e aqueles exibidos com a expressão sugerida é muito mais
notória. A combinação “instituições governamentais” apresentou nada menos que 408.000
resultados, ou seja, pode ser considerada 533 vezes mais frequente, já que “instituições
governantes” registrou 765 resultados apenas. O sufixo “al”, usado no inglês para adjetivar
substantivo terminados em “ent” (government/governamental, environment/environmental,
sentiment/sentimental) é muito menos usado que o sufixo “ing”, que costuma adjetivar a
maior parte dos substantivos (interest/interesting, love/loving, care/caring). Por isso, embora
exista o adjetivo “governamental” na língua inglesa, ele é muito menos usado que
“governing”. Por outro lado, no português do Brasil, usa-se mais frequentemente o adjetivo
“governamental” do que “governante”, principalmente com o substantivo “instituições”.

A terceira combinação avaliada, “se juntar à internet”, foi substituída por “entrar para a
internet”. Esta última obteve 139.000 resultados, enquanto a expressão utilizada na
reportagem levantou apenas sete resultados. Diante do número extremamente reduzido de
resultados para essa combinação de palavras, é possível inferir uma patente atipicidade dessa
expressão no português do Brasil. Outras duas expressões também tiverem resultados muito
inferiores ao piso mínimo de 56. Cabe ainda ressaltar a possível influência do termo “join” na
opção do tradutor da reportagem pelo verbo “juntar-se”. O Dicionário Oxford Escolar aponta
como traduções diretas para “join” as entradas “unir-se” e “juntar-se”. Todavia, no contexto
em que foi usado, o verbo “juntar-se” parece não se adequar bem, tanto que a expressão “se
juntar à internet” não atingiu nem dez resultados.

A colocação “submeter * a checagem” também não atingiu o piso mínimo para ser
considerada frequente, pois apenas dez páginas com essa combinação foram exibidas.
Também nesse caso, a tradução parece ter sofrido grande influência dos vocábulos ingleses. O
verbo “submit” tem como primeiro significado no Dicionário Oxford Escolar o verbo
“submeter-se”. Já o verbo substantivado “checking” foi traduzido como “checagem”, que,
segundo o Grande Dicionário Houaiss, é uma derivação do verbo checar, usado pela primeira
vez no Brasil em 1975, como uma adaptação direta do verbo inglês “check”. Quando
pesquisada a expressão substitutiva “fazer uma verificação de *”, obtiveram-se 41.800.000
resultados. Essa foi a maior disparidade de resultados encontrada em todo o estudo.
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A quinta colocação pesquisada apresentou a menor frequência dentre todas as combinações


analisadas: apenas duas. “Estar envolvido em química”, de fato, parece soar bastante artificial
para um falante do português brasileiro. Ocorre que a expressão utilizada no texto original,
“be engaged in”, foi literalmente traduzida como “estar envolvido em”. No Brasil, quando
alguém estuda ou trabalha em alguma indústria, a da química, por exemplo, costumamos dizer
que “fulado mexe com química” ou que “ciclano é da área da química”. Contudo, não é típico
dizer que “alguém está envolvido em química”. Assim, a pesquisa de corpus revelou que essa
expressão é infrequente no português do Brasil, o que vai ao encontro da estranheza
provocada por essa combinação de palavras aos ouvidos de um brasileiro nativo.

A última colocação estudada foi a que obteve o maior número de resultados, relevando-se,
assim, expressão frequente no vernáculo. A razão pela qual se escolheu essa expressão como
potencialmente atípica é o conhecimento prévio, por parte do autor deste artigo, de que o
termo “standards” pode ter, dentre outras, sua tradução como “padrões” ou como “normas”.
Embora ambos os vocábulo se encontrem no mesmo campo semântico, é possível afirmar,
conforme o embasamento teórico apresentado neste trabalho, que há certas combinações que
soam mais naturais que outras. Assim, optou-se por pesquisar tanto “padrões políticos” como
“normas políticas” e fazer uma comparação entre os respectivos resultados. A expressão
utilizada na tradução original foi “padrões políticos”, que atingiu 8.840 resultados, podendo
ser considerada uma expressão frequente. Por outro lado, “normas políticas” atingiu 331.000
resultados, o que a torna uma expressão extremamente frequente. Logo, pode-se concluir que
ambas as expressões são frequentes e podem ser consideradas naturais no vernáculo, embora a
última tenha uso muito mais disseminado.

Segue um quadro comparativo entre a frequência de uso das expressões destacadas na


reportagem traduzida e a das expressões sugeridas como possivelmente mais naturais no
português do Brasil. Na última coluna, tem-se a diferença de frequência a maior entre as
substitutivas e as originais.

Expressão original Resultados Expressão Resultados Diferença de


substitutiva frequência
“bem-sucedidos 755 “ataques de sucesso” 188.000 24.900%
12

ataques”
“instituições 765 “instituições 408.000 53.333%
governantes” governamentais”
“se juntar à internet” 7 “entrar para a 139.000 1.985.714%
internet”
“submeter * a 10 “fazer uma 41.800.000 418.000.000%
checagem” verificação de *”
“estar envolvido em 2 “ser da área da 8.890 444.500%
química” química”
“padrões políticos” 8.840 “normas políticas” 331.000 3.700%

Diante da sucinta análise do processo de tradução dos trechos selecionados, é possível


perceber que a literalidade, ou seja, a tradução dos vocábulos de forma isolada, palavra por
palavra, contribui para que as expressões resultantes não soassem naturais. A influência direta
dos termos em inglês na escolha de palavras feita pelo tradutor reforça que um dos maiores
desafios na arte de traduzir é encontrar conjuntos de palavras que sejam naturais para o
público-alvo, com expressões típicas e frequentes no idioma de chegada.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da fundamentação teórica e dos dados analisados, é possível afirmar que a naturalidade
dos textos traduzidos está diretamente ligada com a escolha de palavras que são tipicamente
usadas conjuntamente por falantes nativos da língua-alvo. É essencial atentar-se para as
colocações, pois elas domesticam o texto traduzido, conferindo-lhe fluidez, naturalidade e
estética.

Para verificar se um conjunto de palavras consiste forma uma colocação, uma das formas de
apurar se esse conjunto é frequente em um idioma é utilizar a web como corpus para pesquisa.
Nesse caso, a métrica mais utilizada é o PMW (Per Million Words), que define como
frequente determinada expressão caso ela apareça pelo menos uma vez a cada milhão de itens
disponíveis no idioma específico. É importante perceber que os dados utilizados por Xatara
para estabelecer a frequência de uma expressão no português brasileiro baseiam-se em 56
13

milhões de itens na web, e essa apuração foi feita em 2008. Todavia, estima-se que o volume
de conteúdo digital na internet dobre a cada dois anos6. Assim, se essa estimativa tiver lastro,
o número de sites em português do Brasil deve ser muito superior aos 56 milhões usados
como referência para Xatara.

Por fim, sugere-se que sejam conduzidos estudos mais aprofundados sobre a naturalidade dos
textos traduzidos para o vernáculo e o uso dos buscadores para apurar a frequência de uso de
determinadas expressões linguísticas, definindo-se critérios atualizados, baseados na
quantidade contemporânea de sites disponíveis na rede mundial de computadores.

6
https://exame.abril.com.br/tecnologia/conteudo-digital-dobra-a-cada-dois-anos-no-mundo/
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5 REFERÊNCIAS

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DOBROVOL’SKIJ; P. KÜHN; N. NORRICK (eds.), Phraseologie / Phraseology. Berlim e
Nova York: Mouton de Gruyter, 2007, p. 1071-1077.

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S.; FRANCO, F.M.M. Dicionário Houaiss da Língua


Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 451.

KJELLMER, G. Grammatical or nativelike? In: LEITNER, G. (Orgs). New Directions in


English Language Corpora. Berlim e Nova York: Mouton de Gruyter, 1992, p. 329-343.

LAMPARELLI, A.H.C.A. A naturalidade na tradução: quem garante? 2007. 250f.


Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês) – Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 2007.

MEYER, C.F. et al. The World Wide Web as Linguistic Corpus. 2003. In: LEISTYNA P.;
MEYER, C.F. (Orgs). Corpus Analysis. Language Structure and Language. Amsterdã e
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PRESS, O.U. Dicionário Oxford Escolar. Oxford: Oxford, 1999, p. 475, 616.

SALKIE, R. Naturalness and Contrastive Linguistics. In: Teubert, W.; Krishnamurthy, R.


(Orgs). Corpus Linguistics. Critical concepts in linguistics, 4 . Londres: Routledge, 2007,
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XATARA, C.M. A web para um levantamento de frequência. In: MAGALHÃES, J. S.;


TRAVAGLIA, L. C. (Org.). Múltiplas perspectivas em linguística. Uberlândia: EDUFU,
2008, p.770-777.
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ANEXO A
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17
18
19

ANEXO B
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21
22
23
24

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