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Filosofia Espontânea e Filosofia Sistemática

Texto

 “O que importa é incitar toda a gente a servir-se do seu raciocínio. Sempre que alguém procura forjar
a sua própria opinião, incitá-lo a argumentar. É irrelevante, pois, saber se, ao agir desse modo, essa
pessoa está, ou não, a filosofar.
Em contrapartida, o que me parece relevante é que esse exercício do espírito não se torne o domínio
reservado de uns tantos privilegiados. Reservar a filosofia aos que se dizem filósofos seria tão ridículo
como proibir de cozinhar os que não são cozinheiros profissionais.
Creio que todos os homens são filósofos, ainda que uns mais do que outros. (…)
Todos os homens são filósofos. Mesmo quando não têm consciência de terem problemas filosóficos, têm,
em todo caso, preconceitos filosóficos. A maior parte destes preconceitos são as teorias que aceitam
como evidentes: receberam-nas do seu meio intelectual ou por via da tradição.
Dado que só tomamos consciência de algumas dessas teorias, elas constituem preconceitos no
sentido de que são defendidas sem qualquer verificação crítica, ainda que sejam de extrema importância
para a ação prática e para a vida do homem.
Uma justificação para a existência da filosofia profissional ou académica é a necessidade de analisar
e de testar criticamente estas teorias divulgadas e influentes." (Karl Popper, Em Busca de um Mundo
Melhor).

Do "filosofar espontâneo" ao "filosofar sistemático"

Mesmo se é difícil (se não mesmo impossível) dar a definição da Filosofia, a verdade é que as questões
filosóficas brotam espontaneamente do espírito humano.

 Karl Jaspers escreveu que “as perguntas das crianças são um admirável sinal de que o homem, enquant
homem, filosofa espontaneamente”.
 T. Nagel (filósofo) e F.Alberoni (sociólogo)  chamam a atenção para as questões que os adolescentes estã
particularmente predispostos a colocar “a si próprios- isto é, perguntas cruciais” (Alberoni),  questões qu
(mesmo sem o saberem) são de carácter filosófico.
“… a matéria-prima filosófica vem directamente do mundo e da nossa relação com ele” (T. Nagel).
 
Karl Popper e A. Gramsci (ambos filósofos) vão mais longe, considerando que “todos os homens são filósofos”
 “… todos os homens desenvolvem determinados pontos de vista filosóficos – ainda que geralmente acríticos – (…
perante a vida” (Karl Popper).
 
Karl Jaspers afirma mesmo que “a filosofia é imprescindível ao homem, está presente e manifesta nos provérbio
tradicionais, em máximas filosóficas correntes, em convicções dominantes, como sejam, por exemplo,
linguagem e as crenças políticas; está presente, sobretudo, nos mitos anteriores ao início da história” (K
Jaspers).
 
Níveis do Filosofar: espontâneo e sistemático

“O homem, pelo facto de ser homem (animal pensante) tem necessidade de compreender (ou, pelo menos, d
sentir que compreende) o mundo (fazendo dele o seu mundo) e de se compreender a si próprio (dando sentid
à sua existência).”
 
“Enquanto ser racional, o homem pensa (ainda que de forma acrítica) e transporta consigo uma visão do mund
(uma concepção global do mundo e da vida) como resposta à sua necessidade de compreender.”
 
Esta visão do mundo é frequentemente formada por um conjunto de ideias recebidas do meio sócio-cultur
envolvente.
Em todo o caso, num momento ou noutro da sua vida, qualquer homem se vê confrontado com questões d
fundo (questões 
filosóficas), mesmo se não reconhecidas como tais, acerca da vida e do seu sentido. 
Deste modo, “não se pode fugir à filosofia. (…) quem recusar a filosofia está realizando um acto filosófico” (K
Jaspers).
 Mas, face a este saber primeiro enraizado na imediatez do vivido (prático-utilitário), importa perguntar:
 "É preferível 'pensar' sem disso ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, num
concepção do mundo 'imposta' mecanicamente pelo ambiente exterior, (...) ou é preferível elaborar a própr
concepção do mundo consciente e criticamente?" (A. Gramsci).
 Parece não ser difícil a resposta a esta questão. E isto sugere que, quando se diz que "todos os homens sã
filósofos", se afirma apenas uma parte (de facto, uma bem pequena parte) da verdade.
Importa saber se uma tal filosofia “é consciente ou inconsciente, boa ou má, confusa ou clara” (K. Jaspers).
Ou, como escreveu K. Popper, “compete ao filósofo profissional investigar criticamente as coisas que muito
outros têm na conta de óbvias. Pois muitos  destes pontos de vista não passam de preconceitos que são aceite
acriticamente como óbvios, mas que muitíssimas vezes são simplesmente falsos. E para denunciar isto, precisa-s
talvez, de alguém como um filósofo profissional que dedique todo o seu tempo reflexão crítica” (K. Popper).

  O que distingue o filósofo sistemático (e neste sentido nem todos os homens são filósofos, ainda que todo
possam sê-lo) é o facto de que, por um lado, ele pensa “com mais rigor, com maior coerência, com maior espírit
de sistema que os restantes homens”, e, por outro lado, ele “conhece toda a história do pensamento, quer dize
sabe qual foi a evolução do pensamento até ele e está em condições de encarar os problemas no ponto em que s
encontram depois de terem sido objecto do maior número de tentativas de solução” (A. Gramsci).
 
Do filosofar sistemático (afinal o filosofar em sentido próprio) se pode dizer que ele tem por palavra d
ordem “pensar consciente e criticamente” (A. Gramsci).
 Trata-se de fazer da Razão critério quer do pensamento quer da acção. E então a referida palavra de orde
desdobra-se em duas:
 - pensar por si mesmo;
- ser guia de si mesmo.
Todos os seres humanos passam por situações que os levam a interrogar-se sobre a vida, a liberdade, a
morte (entre muitas outras interrogações). Todos os seres humanos, de um modo mais ou menos
profundo, mais ou menos consciente, interrogam-se sobre a realidade em que estão inseridos; todos
têm uma conceção do mundo, da vida, da morte, de Deus, etc. É neste sentido que dizemos que todos
os homens são filósofos. Contudo, temos que distinguir o filosofar espontâneo do filosofar
propriamente dito (filosofar sistemático).  

 Filosofar espontâneo  pouco consciente; superficial (é um pensamento pouco aprofundado;


não é organizado; não é rigoroso, nem crítico.
 - é próprio do homem comum e, muitas vezes, só ocorre quando algo
faz interromper o curso da vida quotidiana (situações limites: morte, sofrimento, etc)
obrigando ao exercício da reflexão.
 Esta presente: nos provérbios, nas poesias, no batuque e na “finaçon”, na música, lendas e
contos tradicionais, etc.
  
 Filosofar sistemático  é consciente e profundo, constitui uma reflexão permanente sobre as
questões que os seres humanos desde sempre se colocaram; é um pensamento organizado,
rigoroso e crítico.
 - é próprio dos filósofos profissionais, conhecedores da história da Filosofia e das principais
correntes de pensamento. É crítico, aprofundado e antidogmático: luta contra os preconceitos,
as ideias não fundamentadas e o dogmatismo. Apresenta propostas de análise e compreensão
da relação complexa entre o Homem e o Mundo.
 Está presente: nas grandes teorias e/ou doutrinas (sistemai) filosóficos, como as de Sócrates,
Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, Karl Marx, Piaget, K. Jaspers, Karl Popper, entre
outros.

 FILOSOFIA SISTEMÁTICA E FILOSOFIA ESPONTÂNEA: Quadro síntese.

Níveis do Filosofar Caracterização Ponto de vista de alguns pensadores

“Todos nós dispomos de uma capacidade racional* que


nos habilita a pensar e a reflectir de modo autónomo,
formulando problemas filosóficos. O exercício da
actividade filosófica não é apanágio exclusivo de meia
-Característico de todos os humanos.
dúzia de seres iluminados, mas antes típico de todos os
-Está presente na sabedoria comum/popular- seres humanos e de cada um que se disponibilize a
(senso-comum). pensar por si mesmo” (Albert Jacquard ).

-O Homem comum possui inquietações “ Todos os homens são filósofos. Mesmo quando não
subjacentes à Filosofia. têm consciência de terem problemas filosóficos, têm,
em todo o caso, preconceitos filosóficos.”(Karl Popper)
ESPONTÂNEO -Está patente no senso-comum, na religião
popular e em todo o sistema de crença, “ O Filósofo Profissional está mais perto do resto dos
superstição, opiniões, modos de ver e de actuar homens do que acontece com os outros especialistas: e
que se esboçam naquilo que se chama “folklore”. isso porque não se pode conceber nenhum homem que
-Não é metodicamente organizado. não seja filósofo, que não pense, e isto precisamente,
porque o acto de pensar é própria da natureza do
-Resulta de pontos de vista face à nossa vivência homem. “ ( A. Gramsci- A Formação dos intelectuais ).
quotidiana, à vida, à morte, etc.

- É próprio dos especialistas desta área do saber;

-Traduz uma reflexão consciente e insatisfeita “ O Filósofo Profissional não pensa somente com maior
sobre a experiência vivida na totalidade do real ; rigor de lógica, com superior coerência, com um mais
elevado sentido das regras que os outros homens.
-Implica uma organização rigorosa e uma Conhece também toda a história do pensamento, dá-
SISTEMÁTICO ordenação metódica dos conhecimentos. se conta da evolução alcançada por ele próprio, é capaz
de abordar correctamente os vários problemas em
-Traduz o esforço de defesa de ideias e
busca de soluções…” ( A. Gramsci- A Formação dos
clarificação de conceitos. Não é um conjunto de
intelectuais ).
palavras que associamos ao nosso belo gosto.


 Exemplo do filosofar espontâneo: TPC (trabalho de pesquisa)

Provérbios

 “Deitar cedo e cedo levantar dá saúde e faz crescer”
 “Vale mais um pássaro na mão do que dois a voar”
 “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”
 “ Quem tem telhados de vidro não pode atirar pedradas contra o telhado dos outros”
 “É na adversidade é que se sabe quem são os verdadeiros amigos”

 Poesias (António Aleixo)

 Porque o mundo me empurrou,
 Caí na lama, e então
 Tomei-lhe a cor, mas não sou
 A lama que muitos são.

 Sei que pareço um ladrão…
 Mas há muitos que eu conheço
 Que, sem parecer o que são,
 São aquilo que eu pareço.

 Não me deem mais desgostos
 Porque sei raciocinar;
 Só os burros estão dispostos a sofrer sem protestar.

 Eu não tenho vistas largas
 nem grande sabedoria,
 mas dão-me as horas amargas
 lições de filosofia

 Tu, que tanto prometeste
 Enquanto nada podias,
 hoje que podes- esqueceste
 tudo quanto prometias.


i
Um sistema filosófico corresponde a um conjunto de conceitos sobre o homem, o mundo ou a vida, que, constituindo um todo
organizado, se caracteriza fundamentalmente pela sua coerência intrínseca. Assim, temos sistema ou filosofia platónica, aristotélica,
cartesiana, hegeliana, etc. Se o filósofo difere do homem comum não é pela natureza das suas ideias nem mesmo essencialmente pelo
seu número, mas pela maneira como as domina, como as unifica, como faz delas um corpo de doutrina, um sistema.”

TPC: Fazer o levantamento de exemplos de filosofar espontâneo existente na finaçon de nha nácia gomi; ntoninho denti di oru,
batuque, músicas –tradicionais sobretudo-; algumas músicas rappers, ditados populares; etc