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INSTITUTO FEDERAL DO PARANÁ

CÂMPUS PALMAS

Disciplina: LÍNGUA PORTUGUESA

Docente: DAVID SEVERO

Palmas – PR

2020
I. NOÇÕES DE TÉCNICAS, ESTRATÉGIAS DE LEITURA E NÍVEIS DE
COMPREENSÃO DE TEXTO E SUAS RELAÇÕES COM AS NOÇÕES DE TEXTO E DE
GÊNEROS TEXTUAIS.

PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE LEITURA

Introdução
A nossa disciplina tem como um dos objetos de estudo o texto escrito. E para que
servem os textos escritos? Para nós nos comunicarmos através da linguagem escrita,
evidentemente. Para interagirmos nesse tipo de comunicação, temos que desenvolver a
habilidade da leitura, que é uma atividade complexa e que envolve muitos componentes, dentre
os quais podemos citar os aspectos internos – mentais, cognitivos, afetivos, linguísticos, dentre
outros – e os aspectos externos, que estão fora do indivíduo leitor, mas que o afetam muito o
processamento da leitura – os aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos.
Você já deve saber que a leitura proficiente vai além da simples decodificação de
palavras. Aliás, a decodificação é um componente importante, até mesmo imprescindível, mas
é insuficiente. Com efeito, para a leitura ser proficiente ela deve ser centrada na compreensão.
Noutras palavras, o leitor proficiente, ao deparar-se com um texto, sempre tenta compreendê-
lo, sempre busca significados e sentidos nesse texto. Portanto, além de dominar toda a técnica
de decodificação (reconhecimento eficaz de palavras e frases), o leitor deve ser capaz de
acionar seu conhecimento prévio para compreender o texto.

Mas o que muita gente não sabe é que não existe apenas um nível de compreensão de
textos e sim vários. O nível de compreensão de um texto depende do tipo de leitura que
fazemos e também dos nossos objetivos de leitura. Isso também tem relação com os tipos de
texto e com os chamados gêneros textuais.

1. Tipos de leitura
Nas sociedades letradas, depois que nos apropriamos do processo de decodificação e já
o automatizamos, nós aprendemos a realizar várias práticas de leitura, as quais terminam
caracterizando formas diferentes de lermos os inúmeros textos com que nos deparamos na
nossa vida pessoal, social, escolar e profissional. Isso significa, primeiramente, que existem
vários tipos de leitura, dentre os quais, podemos citar:
 a leitura sensual/sensorial, que ocorre quando lemos um texto literário, um poema, por
exemplo, ou qualquer texto poético. Geralmente, esse tipo de leitura proporciona um
certo prazer e um apelo aos sentidos e à emoção, além de um apelo à vocalização, por
conta da musicalidade do texto, do ritmo, etc;
 a leitura mental, em que não buscamos a fruição, o mero deleite e sim a racionalidade, o
raciocínio lógico e o encadeamento rigoroso das idéias, além de uma atitude crítica
diante do texto. Os gêneros textuais que pedem esse tipo de leitura são os artigos de
opinião, artigos de revista especializada, relatórios, projetos, trabalhos técnicos e
científicos, ensaios, etc;
 a leitura exploratória, que ocorre ao procuramos uma informação pontual num texto
qualquer ou quando procuramos algo em obras de referência (dicionários, catálogos,
enciclopédias, listas, etc.). O leitor utiliza ao máximo a sua mobilidade visual aliada à
concentração e à seleção de pistas indicadoras;
 a leitura linear, que é o tipo de leitura mais praticado, está relacionada à leitura
descomprometida, porém prazerosa, que flui sem muito esforço. Ocorre na leitura de
crônicas, romances, os contos, os causos, etc. O leitor, ao terminar a leitura pode não se
lembrar de detalhes, mas lembra dos fatos mais marcantes;
 a leitura de assimilação ocorre quando queremos estudar e aprender conteúdos através
de textos (livro didático, apostilha, manuais, etc.). Esse tipo de leitura é cuidadosa, feita
palavra por palavra, obrigando o leitor a repetir, vocalizar, reler, anotar, encadear,
resumir. Não há preocupação de leitura crítica;
 a leitura criativa acontece quando o texto lido desperta no leitor a inspiração para recriá-
lo, para produzir outros textos. Evidentemente, isso só ocorre quando a leitura de um
texto “mexe” com nosso pensamento e nossa imaginação e nos inspira e nos convida a
comunicar idéias e pensamentos.
 A leitura geradora pode nos levar ao aprofundamento de um tema que nos interessa e nos
apaixona e, por isso, ficamos sempre “antenados” com o assunto através de discussões,
pesquisas e releituras constantes. Literalmente o que ocorre é uma leitura gerando
necessidades de outras leituras.
Convém explicar que esses tipos de leitura podem não ocorrer de forma isolada.
Acontece, às vezes, de experimentarmos um certo prazer numa leitura assimilativa, ou seja,
numa leitura para estudo. Do mesmo modo, podemos apreciar um certo prazer estético na
leitura de um conto ou mesmo num artigo de opinião de um determinado articulista. Também
podemos ler um poema, um conto, etc., por exemplo, com o propósito de examinar os
recursos estilísticos, as figuras de linguagem e outros aspectos.
Além disso, vale ressaltar que, à medida que vamos atingindo uma maior maturidade,
vamos também atingindo uma melhor percepção e dimensão cada vez mais crítica diante da
leitura. Quando falamos em “proficiência em leitura”, “leitor proficiente”, estamos nos
referindo ao leitor maduro, ao leitor experiente que, além de dominar as técnicas e estratégia
de leitura, assume também uma visão crítica diante do que lê. Evidentemente, isso só se
alcança com a prática constante e variada de leitura, nos planos pessoal, políticossocial e
profissional.

2. Estratégias de leitura
Hoje em dia discute-se muito a questão da proficiência em leitura. Noticiários, nas
mídias impressa e televisiva estão sempre abordando os baixos índices de compreensão leitora
dos nossos jovens evidenciados nos diversos exames de âmbito nacional e internacional.
Dentre os vários fatores que concorrem para o insucesso na compreensão de textos, um deles
nos interessa particularmente: o não-desenvolvimento da leitura estratégica entre nossos
jovens estudantes e mesmo entre pessoas que já foram escolarizadas.
De fato, muitas pessoas, apesar de terem passado pela escola, não evoluíram muito em
termos de leitura: ficaram presas apenas a um processo lento e não-consolidado de
decodificação, por isso “emperram” ao tentarem compreender textos longos que exigirão
delas um esforço de compreensão, ou seja, de busca de significados e sentidos. Por outro lado,
há também aqueles leitores que, simplesmente, não tendo consolidado o processo automático
de decodificação, procuram adivinhar rapidamente os sentidos e os significados do texto, sem
o devido cuidado de atentar para o que está realmente escrito.
Para muitos estudiosos, a exemplo de Kleiman (1989) e Silveira (2005), uma das
causas dessa leitura deficiente pode estar nas práticas escolares de leitura que, muitas vezes,
nem sequer potencializam os livros didáticos. Pesquisas têm verificado que se lê pouco na
escola. E assim mesmo, o texto na sala de aula, na maioria das vezes, serve apenas de pretexto
para se ensinar conteúdos gramaticais. Na realidade, é preciso ler mais e com várias
finalidades: para curtir, para rir, para estudar e aprender, para recitar, para fortalecer o espírito,
para pesquisar e se informar e adquirir conhecimentos gerais, etc. Evidentemente, para que
essas leituras se efetivem, é preciso que o aluno tenha contato com vários tipos de
texto e de gêneros textuais, através de uma prática significativa de leitura. Nessas atividades,
os alunos vão desenvolvendo estratégias de leitura, que são operações mentais, geralmente
inconscientes, que realizamos para compreender textos.
Dentre as estratégias de leitura, vale enfatizar a inferência. Ocorre inferência toda vez
que compreendemos várias passagens do texto mesmo quando a informação não está
explícita. Vamos dar um exemplo simples no seguinte trecho: “José sabia que a operação da
sua esposa ia ser muito cara. O tio Herculano estava sempre lá em Piracicaba. José
apressou-se em localizar a agenda telefônica.” Mesmo sem estar explícito, sabemos que José
vai telefonar para o tio Herculano para pedir dinheiro emprestado para fazer a operação da
esposa. É possível inferirmos isso através dos indícios e das pistas que o trecho oferece e que
fazem sentido por causa dos nossos conhecimentos prévios.
Um tipo de inferência muito importante é a inferência lexical. Muitas palavras
desconhecidas no texto podem ter seus significados esclarecidos através da inferência. Veja
que, na frase Seu João Holanda era muito habilidoso. Sabia trabalhar com a buchela como
nenhum outro ourives”, não é difícil inferir o significado da palavra “buchela” que,
evidentemente, se trata de um instrumento típico para ourives. Essa habilidade de fazer
inferências lexicais é muito importante para aumentarmos nosso vocabulário e,
consequentemente, aumentar nossa capacidade de compreensão.

Ainda sobre essa questão do vocabulário, vale lembrar que nós sempre lidamos com
um vocabulário ativo, que usamos nas nossas falas, no dia-a-dia, e um vocabulário passivo,
que utilizamos mais para recepções de texto, ou seja, para a compreensão auditiva (a escuta) e
a compreensão escrita (a leitura).

3. Técnicas de leitura
Além da noção de estratégias de leitura, é interessante também que nos familiarizemos
com as técnicas de leitura. Convém explicar que as estratégias são comportamentos mentais,
ou seja, ações cognitivas que o leitor realiza em sua mente, na maioria das vezes, de forma
inconsciente. A bem da verdade, o professor não “ensina” estratégias de leitura; ele dá
condição para que o aluno as desenvolva. Já as técnicas de leitura podem ser ensinadas
através de uma rotina de exercícios e recomendações.
Mesmo sendo praticadas por leitores experientes desde sempre, o fato é que algumas
técnicas de leitura mais conhecidas ficaram mais divulgadas e nomeadas a partir das práticas
de leitura instrumental em língua estrangeira (inglês, francês, etc.), mas que servem para a
leitura em qualquer língua, inclusive na nossa língua materna – o português.

Nessa perspectiva, temos as seguintes técnicas de leitura:


a) skimming - leitura superficial; leitura de varredura, de reconhecimento. Este tipo de
leitura nós fazemos, por exemplo, quando estamos procurando livros na biblioteca ou
quando examinamos um material antes de lê-lo efetivamente.
b) scanning – leitura para busca de informações específicas; pode envolver inferências
ou não. Essa etapa também envolve uma leitura detalhada – também conhecida como
leitura das entrelinhas.
c) main points - leitura para busca de idéias centrais. Nesta etapa, o leitor identifica as
macroestruturas do texto, tão importantes para a elaboração de resumos.
d) leitura crítica – este nível de leitura necessita que o leitor busque as subjacências das
idéias, as intenções do autor, as condições de produção e de recepção do texto, etc.
As noções aqui apresentadas serão mais bem entendidas quando você vivenciar
algumas experiências de leitura que façam você perceber as estratégias e as técnicas de
leitura. Na atividade que apresentaremos, você verá também a importância da diversidade dos
chamados gêneros textuais para a compreensão de textos.
II. NOÇÕES DE TEXTO E DE GÊNEROS TEXTUAIS.

NOÇÕES DE TEXTO, GÊNEROS TEXTUAIS E DOMÍNIOS DISCURSIVOS

1. O que é texto?
De um ponto de vista bem amplo, bem abrangente, texto é tudo que comunica,
independentemente do suporte, da linguagem (ou código) em que ele se expressa. Portanto,
tudo que veicula uma mensagem, uma intenção de comunicar é texto. Exemplos: um cartaz,
uma canção, uma pintura, uma placa de trânsito, um recado falado, uma fotografia, uma
piada, etc. Assim sendo, temos o texto verbal (que utiliza a palavra oral ou escrita); o texto
musical, o texto pictórico (que utiliza o desenho, a pintura); o texto imagético (que se
expressa pela imagem, pela fotografia), etc.
Vale dizer que nosso estudo só se ocupará do texto verbal; ou seja, aquele que se
utiliza da palavra. Obviamente, o texto verbal pode ser falado e pode ser escrito. Nosso
enfoque, entretanto, será no texto escrito.

Do ponto de vista da comunicação verbal, a bem da verdade, o texto falado ou escrito


é a unidade básica da comunicação humana, pois as pessoas não se comunicam através de
palavras soltas, isoladas, e sim através de textos, mesmo que esses textos só tenham uma
palavra. Tome como exemplo uma pessoa gritando “Socorro!” ou uma placa de rua dizendo
“PARE”. Os textos são, pois, eventos comunicativos; portanto, partem de emissores e buscam
receptores.
Nos textos, geralmente aparecem os tipos textuais, também chamados de sequencias
textuais ou formas composicionais e podem ser entendidas como as formas linguísticas que
utilizamos quando falamos ou escrevemos. Assim, quando nos comunicamos verbalmente,
estamos sempre
- narrando (contando ou relatando fatos);
- descrevendo coisas ou pessoas;
- expondo informações, ideias, conceitos;
- argumentando em defesa de uma opinião ou defendendo um ponto de vista;
- instruindo, quer dizer, dando instruções ou induzindo alguém a fazer algo e,
finalmente.
- dialogando.
Diante disso, diz-se que os principais tipos textuais ou formas composicionais são,
portanto, a narração, a descrição, a exposição, a argumentação, a injunção e o diálogo.
2. O que são gêneros textuais?
São realizações textuais concretas que circulam na sociedade como parte das nossas
atividades pessoais e sociais. O gênero tem uma existência real e funcional que se expressa
através de nomeações diversas, tais como: telefonema, sermão, carta comercial, carta
pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula, notícia jornalística, horóscopo,
cartaz, entrevista, anedota, fofoca, receita culinária, bula de remédio, instruções de uso,
outdoor, etc. São formas textuais estabilizadas, histórica e socialmente situadas. Sua definição
vai além do aspecto linguístico, pois nele predomina o aspecto discursivo, sócio-comunicativo
e cultural. Em todas as nossas ações e interações mediadas pela língua utilizamos gêneros
textuais.
Para clarear ainda mais a noção de gênero textual e sua circulação na sociedade,
convém lembrar que essa circulação de gêneros se dá nos chamados domínios discursivos.
Esses domínios nada mais são do que as várias instâncias de interações sociais humanas, ou
melhor, as inúmeras e diferentes “esferas de atividades” que existem tanto nos âmbitos das
necessidades pessoais e dos relacionamentos sociais, quanto nos âmbitos produtivos no
mundo do trabalho e produção de conhecimento. Exemplos desses domínios são o lar, a
escola, a medicina, o comércio, o jornalismo, a academia, o direito, etc. Enfim, como disse
Bakhtin, todas as esferas da atividade humana têm seus gêneros.
É interessante frisar que nós usamos gêneros textuais o tempo todo, todo dia, tanto nas
nossas produções orais quanto nas nossas produções escritas, mas geralmente não temos
consciência disso. Os gêneros textuais são, portanto, as formas através das quais os textos são
usados na sociedade, em todas as culturas, em todas as atividades em que temos que utilizar a
linguagem falada e escrita.
De que forma a noção de gêneros textuais ajuda o aluno de nível superior?
Primeiramente, essa noção ajuda a nos conscientizarmos da imensa diversidade de textos
específicos que produzimos na sociedade. Isso deve também nos conscientizar do
compromisso que a universidade, ao ensinar a ler e a escrever, deve ensinar os alunos a
identificar e produzir alguns gêneros textuais que são indispensáveis não só para as atividades
e realizações pessoais, interpessoais e escolares, como também para o exercício da cidadania.
Em segundo lugar, é importante salientar também que esses gêneros textuais exercem funções
sociais e, geralmente, muitos deles têm propósitos comunicativos muito definidos.

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