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SINOPSE DO CASE: “QUEM PARIU MATEUS QUE EMBALE, MAS NÃO AQUI”1

Larissa Cortez A. Guedes2


Thaís Viegas3

1 DESCRIÇÃO DO CASO

No caso em tela, diante da reação de uma cliente ao comportamento de uma criança


filho de outra cliente, com a justificativa da criança estar atrapalhando uma reunião de negócios,
o gerente do restaurante Skandalu’s se pronunciou afirmando que o negócio dali adiante
adotaria a política childfree, que consiste na proibição da entrada de crianças no
estabelecimento.

2 IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DO CASO


2.1 Descrição das Decisões Possíveis
a) A proibição da entrada de crianças em estabelecimento fere normas do CDC

b) A proibição da entrada de crianças em estabelecimento não fere normas do CDC

2.2 Argumentos Capazes de Fundamentar a Decisão


2.2.1 A proibição da entrada de crianças em estabelecimento fere normas do CDC

Quando se fala na proibição de crianças em estabelecimento como quebra de


normas do Código do Consumidor, temos que, em um primeiro momento, estabelecer que a
criança no caso é consumidor equiparado, pois, como previsto em art. 2º, parágrafo único, do
CDC, ele utiliza o serviço na condição de integrante de uma coletividade de pessoas, que são
as crianças. A atitude adotada pelo restaurante afetará essa coletividade de pessoas como um
todo, eles estão expostos às práticas dos fornecedores no mercado de consumo. (MIRAGEM).
Juntamente a isso, devemos observar o direito à proteção contra práticas abusivas,
disposto no art. 4º, VI, do CDC, segundo Bruno Miragem (2014, p. 203), trata-se de “práticas
abusivas englobam toda a atuação do fornecedor em desconformidade com padrões de conduta
reclamados, ou que estejam em desacordo com a boa-fé e a confiança dos consumidores”. Há

1
Case apresentado à disciplina Direito do Consumidor, da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco – UNDB.
2
Aluna do 8º Período do Curso de Direito da UNDB.
3
Professora Especialista, Mestre.
espécies de atos abusivos elencados pela doutrina, reconhecido pelos tribunais e até STJ, o mais
conhecido é o venire contra factum proprium, no qual após criar conduta inequívoca anterior
expectativa segura quanto ao futuro, ou seja, haver um comportamento estabelecido – no caso
em tela o restaurante desde o princípio era um ambiente familiar –, contradizer seu próprio
comportamento – que seria a proibição da entrada de crianças no estabelecimento. (GARCIA).
Dentre as hipóteses de práticas abusivas elencadas no art. 39 do CDC, a que se
adequa ao caso concreto é o inciso IX, que diz respeito à recusa direta do prestador de serviços
a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento. Tal proteção a esta prática
abusiva visa impedir a discriminação de consumidores, visto que o fornecedor de serviços não
pode recusar atendimento às demandas dos consumidores. (MIRAGEM).
Também há que se considerar o art. 220, §3º, I, da CF, porque dispõe que compete
à Lei Federal regular quanto à proteção da criança e a adolescente quanto à faixa etária, locais
e horários adequados a presença destes juntamente ao art. 227 da CF, que dispõe sobre o dever
da família, sociedade e do Estado assegurar à criança o direito à liberdade, à convivência
comunitária, além de colocá-los a salvo a toda forma de discriminação, sendo primordial ao
desenvolvimento da criança conviver em locais como restaurantes, pois é primordial à
adaptação no convívio social e sendo intolerante a postura de proibir a entrada destas.
(MACHADO; FERRAZ).
Por fim, há que se ponderar que, apesar de haver o princípio da livre iniciativa, que
tem amparo constitucional, o CDC tem, em seu art. 7º, a previsão de que diante de eventual
conflito aparente de normas, deverá ser aplicada a que abarcar melhor a proteção do vulnerável,
que será sempre o consumidor – que no caso concreto trata-se do consumidor equiparado,
bystandard, e está na classe de pessoas hipervulneráveis – pois fala-se no referido artigo que os
direitos contidos no código do consumidor não excluem direitos presentes em outros
dispositivos e, considerando-se a prevalência da Constituição, devemos observar a
possibilidade, prevista nos arts. 173 e 174 da Constituição Federal, de o Estado interferir na
livre iniciativa a fim a de atender a tutela de uma coletividade. (MACHADO; FERRAZ).

2.2.2 A proibição da entrada de crianças em estabelecimento não fere normas do CDC

Não há que se considerar a medida adotada pelo estabelecimento como não


cumprimento de normas do CDC, uma vez que o direito à informação, estabelecido no art. 6º,
III, do CDC, foi efetivamente garantido ao consumidor. O dever de informação consiste em
meio para diminuir os conflitos nas relações de consumo, pois com o maior grau de
conscientização e informação, diminui-se a desigualdade entre os polos fornecedor-
consumidor. Diante de situação que implica na fruição do estabelecimento por determinado
grupo de pessoas, este, utilizando-se da livre iniciativa, resolve focar nesse novo mercado
informando aos clientes que possuem crianças que o estabelecimento adotará nova política,
assim sendo, há uma informação clara de que tais medidas passarão a ser adotadas. (GARCIA).
A livre iniciativa, com amparo constitucional nos arts. 1º, IV; 5º, XIII e 170,
parágrafo único, afirma o caráter liberal adotado pelo constituinte de que os agentes de mercado,
em regra, não devem ter nenhum tipo de cerceamento quanto à atividade econômica e este
princípio como fundamento da ordem econômica. Cabendo ao Estado a exploração direta de
atividade econômica em caráter excepcional quando para assegurar a segurança nacional ou se
houver relevante interesse coletivo, assim sendo, nesse caso o Estado exerceria a função de
fiscalização, incentivo e planejamento para evitar possíveis irregularidades. (MACHADO;
FERRAZ).
Por fim, há que se falar que não há conflito com o dispositivo do art. 227, da CF,
tendo em vista a proposta do estabelecimento a se adequar à demanda da maioria de seus
clientes, estando dentre do dispositivo da livre iniciativa – que visa além do não cerceamento
da atividade econômica, permitir que fornecedor de serviços sempre possa fazer melhorias
visando o desenvolvimento e a melhoria da prestação de seus serviços, que também está de
acordo com a política de direito à melhoria da qualidade nos serviços para o consumidor –,
sendo possível também que os consumidores que reclamaram da nova política tenham acesso a
outros estabelecimentos que inclusive possam ser melhor adequados para as suas necessidades.

2.3 Descrição dos Critérios de Valores Contidos em Cada Decisão Possível

Foram utilizados na defesa de que tal posição adotada pelo estabelecimento fere
normas do CDC o conceito de que as crianças no caso são consumidoras por equiparação e
foram utilizados dispositivos constitucionais para a proteção do direito das crianças de ter
acesso ao local, além disso foram utilizados dispositivos do código do consumidor tais quais
como o direito à proteção contra práticas abusivas.
Quanto à defesa de que os estabelecimentos proíbam a entrada de crianças foi
utilizado dispositivo constitucional que trata da livre iniciativa, bem como o dever de
informação.
REFERÊNCIAS

BRASIL. Código do Consumidor. Lei Nº 8.078, de 11 de Setembro de 1990. Vade Mecum.


14. ed. São Paulo: Rideel, 2017.

GARCIA, Leonardo de Medeiros. Direito do Consumidor: código comentado, jurisprudência,


doutrina, questões, Decreto nº 2.1811/97. 6. ed. rev., ampl. e atual. Niterói: Impetus, 2010.

MACHADO, Costa; FERRAZ, Anna Candida da Cunha. Constituição Federal Interpretada:


Artigo por artigo, parágrafo por parágrafo. 4. ed. Barueri: Manole, 2013.

MIRAGEM, Bruno. Curso de Direito do Consumidor. 5. ed. ver., atual. e ampl. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2014.

TARTUCE, Flávio; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de Direito do


Consumidor: Direito Material e Processual. 6. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Método, 2017.

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