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Dr. P.

MARRIN, La Beauté chez l’Homme et la Femme – Les Moyens de


L’Acquérir et de L’Augmenter1. Ernest Kolb, Éditeur. Paris, 189...
Tradução: Maristela Bleggi Tomasini.

Capítulo 8
A BOCA

..................................

Eu serei breve no que concerne às gengivas, porque elas


não interessam à estética, ao menos com relação àquilo que podemos
fazer para embelezá-las, quanto ao ponto de vista de suas alterações de
cor, as quais dependem de doenças gerais ou locais que são da
competência da medicina propriamente dita, mais que da higiene. É

1
A Beleza no Homem e na Mulher – meios de adquiri-la e aumentá-
la.
Não houve condições de determinar o ano desta primeira edição, mas, pela
editora e pelas características da impressão, trata-se de obra publicada
entre 1894 e, no máximo, 1901. Em Porto Alegre, foi vendida pela Livraria
Joaquim Alves Leite, successores. Pertencia à biblioteca de um médico, já
falecido, que clinicou em Porto Alegre. Chamava-se Dr. João Kern de
Elissandro. Este capítulo dedicado à boca eu o traduzi parcialmente há
alguns anos, para que fosse usado em parte numa tese de doutorado sobre
doenças da gengiva, como referência histórica a tratamentos empreendidos
no passado.
assim que sua palidez, como aquela dos lábios, liga-se à anemia ou a
outras afecções crônicas que arruínam o sangue e necessitam de um
tratamento crônico, reconstituinte. Ao contrário, se elas têm, bem
freqüentemente, um rubor exagerado e são, ao mesmo tempo, sangrentas,
amolecidas, ora esta alteração é sinal de uma lesão escorbútica que vem
com a idade avançada, um mau estado de saúde, etc. ou de uma diabetes
no começo; ora ela existe, sem qualquer doença, entre certas pessoas em
quem as gengivas sangram de tempos em tempos ou todos os dias, ao
menor atrito da escovação ou mesmo sem motivo aparente. Neste último
caso, as lavagens da boca devem ser feitas com grande precaução: serve-
se de uma escova de dentes muito macia ou, melhor ainda, de um fio de
musselina fina que se passa ligeiramente entre as gengivas; empregam-se
dentifrícios tônicos e adstringentes (à base de quinino, tanino), dos quais
falaremos em breve. Freqüentemente também, as gengivas estão
amolecidas por conta da presença do tártaro dentário que exige cuidados
higiênicos que serão abordados adiante. Em suma, as gengivas, para que
tenham um aspecto agradável, não devem ser esbranquiçadas, nem moles,
nem sangrentas, mas, sim, firmes e rosadas.

.............

De todas as causas que prejudicam a beleza dos dentes e


que podem levar à queda prematura dos mesmos, as mais freqüentes são
o tártaro e a cárie.

2
Chama-se tártaro dentário o revestimento limoso, branco
amarelado, que se forma em mais ou menos grande quantidade na boca e
tende a se acumular ao redor da base dos dentes, dos inferiores,
sobretudo, no ponto onde esses pequenos ossos2 emergem das gengivas.
Constitui-se, em grande parte, de um sal calcário, o fosfato de cálcio, que
existe normalmente na saliva do homem e do cão.

Quando, sob a influência de uma disposição congênita,


de uma lesão da mucosa da boca ou de perturbações gástricas, esse sal
torna-se muito abundante na saliva que não mais pode dissolvê-lo,
precipita-se, torna-se livre e acumula-se na base da coroa. É
primeiramente mole e fácil de remover por lavagens cotidianas dos
dentes; mas, se esses cuidados forem negligenciados, o depósito endurece
e forma uma verdadeira incrustação de aspecto e odor desagradáveis na
união da coroa com a gengiva. Depois, esta última se torna irritada pelo
contato permanente do corpo estranho: ela se inflama, torna-se vermelha,
incha e amolece. É então que o tártaro se insinua entre a gengiva e o
dente, quando a raiz não fica mais completamente encoberta e é, em
parte, posta a nu, descarnada. Não é senão tempo de recorrer ao homem
da arte3 que, arrancando mecanicamente o depósito calcário, pode ainda
obter o recolamento das gengivas aos dentes: se esta intervenção não tiver
lugar, o tártaro se estende até fundo dos alvéolos, contornando as raízes;
ao descarnamento4 dos dentes, sucede seu afrouxamento, sua mobilidade

2
“Pequenos ossos” são os dentes.
3
Grifo nosso.
4
Não havia, ainda, o emprego da expressão “retração da gengiva”. Dizia-se
“descarnamento” mesmo. Conservei a expressão para manter fidelidade ao
3
anormal que, em última análise, pode conduzir à queda em pouco tempo.
Sem dúvida, o descarnamento pode também ser provocado por uma
disposição geral gotosa ou reumática, pelo escorbuto e pela diabetes. O
afrouxamento pode ser efeito de uma violência exterior: mas essas
influências são relativamente raras diante da freqüência da ação do
tártaro.

...............................

Para conservar a pureza do hálito, para prevenir o


amolecimento das gengivas e a inflamação da boca, para impedir o
acúmulo do tártaro e a formação da cárie, para conservar os dentes ao
abrigo da descarnação, do afrouxamento e da queda prematura, devem-se
tomar precauções cotidianas que, em conjunto, constituem a higiene
dentária e que certo Jean Liébaut, que escrevia no final do Século XVI,
formulou da seguinte maneira: “Se quiserdes bem preservar os dentes
contra todos os acidentes, tanto oriundos de causas externas quanto
internas, e tê-los belos, claros e saudáveis, dando ocasião à longa vida,
guardai-vos de levar à boca coisas muito frias ou quentes, conquanto
umas e outras ofendem os dentes; não comais carnes de fácil corrupção,
nem duras e de difícil digestão. Não bebais também licor algum de não
seja de boa qualidade, nem façais qualquer excesso que possa impedir a
digestão. Evitai toda ocasião de vomitar, principalmente se a matéria do
vômito for ácida. Não comais coisas viscosas nem muito doces; não
rompais com os dentes qualquer coisa que seja dura; nem bebais vinho
estilo.
4
nem água fria ou congelada, assim como fazem muitos perante os
calores do Oriente; nem, ao contrário, cozidos ou carnes muito quentes.
A carne ou beberagem fria, não ingirais nem engulais antes, se tostados
estiverdes pelo calor; nem, ao contrário, após o calor, algo que esteja
frio. Se qualquer carne ou pasta introduzir-se entre vossos dentes,
extraí-a de lá logo e docemente, sem qualquer violência, com uma palha
ou pluma ou madeira de lentisco5 e não com uma faca, ou aço, ou ferro,
ou qualquer outra coisa que possa enferrujar. Depois de comerdes,
lavai logo vossa boca com qualquer vinho quase rude ou austero, para
impedir que reste alguma podridão, mesmo para confortar a parte.
Quando comerdes, mastigai de ambos os lados, a fim de que um ajude o
outro. Os figos, o açúcar e todas as outras coisas que têm a virtude de
amolecer e derreter, como óleos, banhas e graxas, são contrários aos
dentes. Não usais senão o mínimo que puderdes de coisas que sejam
inimigas dos dentes, tais como alhos, tâmaras, rábanos6, todas as coisas
ácidas.”

O conselho de evitar as ocasiões de vomitar


“principalmente se a matéria do vômito for ácida” parece, sem dúvida,
um pouco ingênuo7, mas, em todo o resto, são de guardar tais prescrições,
tão úteis hoje quanto em 1582. Se não mais podemos nos servir de
qualquer vinho “quase rude ou austero” para enxaguarmos a boca após o
repasto, é sempre indispensável escovar os dentes muito freqüentemente

5
Aroeira-da-praia.
6
Nome comum a diversas plantas crucíferas ou a própria raiz dessas
plantas.
7
Hoje não está comprovado que a acidez do vômito é nociva aos dentes?
5
para impedir o tártaro de se depositar e para desembaraçar os intervalos
dentários de partículas de alimentos que, com a putrefação, engendram a
cárie. A lavagem da boca deve ser feita, no mínimo, duas vezes por dia,
pela manhã e à noite; é bom repeti-la em duas outras ocasiões, após o
café da manhã e após o jantar. Esta repetição parecerá talvez excessiva
àqueles que se limitam só a uma loção ao acordarem, ou que não fazem
tudo isso completamente: tal prescrição não tem, todavia, nada de
exagerado.

Com que se deve lavar a boca? As elegantes de Atenas,


para preservar os dentes da cárie, mastigavam mástique8 de Chio, resina
extraída do lentisco; para conservarem seus dentes brancos, empregavam
urina de criança misturada a pedra-pomes reduzida a um fino pó. Temos,
felizmente, melhor que isso. A rigor, água pura empregada com cuidado
a serviço da toilette poderia ser suficiente: é todavia preferível usar
escova de dentes e um bom dentifrício.

Para que uma escova de dentes realize bem sua função, é


preciso que seu volume seja suficientemente reduzido, que sua forma seja
assaz cômoda, para que se a possa fazer penetrar em todos os cantos da
boca, atrás das arcadas dentárias, como na frente. É bom que as cerdas
tenham uma certa resistência e apresentem-se numa disposição que a
torne convexa em ambos os sentidos, a fim de remover o tártaro e os
alimentos que permaneçam aderentes. As escovas de texugo não convêm
senão a pessoas nas quais as gengivas apresentem-se sensíveis e
8
Resina de aroeira ou de lentisco amarelado, que se usa em mistura de
tintas e como condimento.
6
facilmente sangrentas: elas são muito macias em outros casos. Não se
deve, entretanto, exagerar na dureza das cerdas nem na força das fricções:
alterar-se-ia, assim, o esmalte ao longo do tempo, preparando a cárie que
se quer impedir. Deve-se empregar um termo médio que qualquer um
pode facilmente encontrar, seguindo a sensibilidade de seus dentes e de
suas gengivas.

Os dentifrícios são extremamente numerosos, tendo cada


dentista uma preparação de sua invenção que, naturalmente, é bem
superior àquela de seu vizinho. Plínio conta a esse respeito coisas
abracadabrantes: “Faz-se – diz ele – dentifrícios de duas maneiras. A
cinza da cabeça de um lobo é um grande remédio e é certo que tal
remédio se encontra também, quase sempre, nas raspas dos ossos que,
num amuleto, têm a mesma eficácia. Instila-se, na orelha, miúdos de
lebre contra a dor de dentes. A cinza da cabeça da lebre é um
dentifrício; com a adição de borra, ela dissipa o mau odor da boca;
alguns preferem misturar ainda cinza de cabeça de camundongo.
Encontra-se igualmente, na lebre, um osso pontudo como uma agulha;
aconselha-se, no mal de dentes, fazer escarificações com este osso.” Os
ossos e a cinza do boi, da burra, do cavalo têm as mesmas propriedades
que aqueles da lebre o do lobo. Em nossos dias, muitas pessoas
empregam a cinza de cigarro, que tem um gosto desagradável que não
compensa qualquer propriedade especial; outros usam agrião, raiz-forte,
cravo-da-índia, que são úteis em caso de alteração escorbútica das
gengivas ou para aumentar a secreção de saliva e impedir a secura

7
exagerada da boca, mas que não têm qualquer ação preventiva contra a
cárie e o tártaro dos dentes.

Nada disso é sério. Aquilo que se quer de um dentifrício


é que ele contribua, com a água que se lhe acrescenta, na prevenção da
ação funesta dos alimentos, beberagens e líquidos da boca sobre os
dentes, para fortalecer as gengivas, para purificar o hálito; e que faça tudo
isso sem ser, por ele mesmo, nocivo e, ainda menos, tóxico.
Descartemos, pois, primeiramente, os dentifrícios moles, pastosos ou
opiáceos que são à base de mel que, como todas as substâncias
açucaradas, têm efeito dissolvente sobre o tecido dentário. Os
dentifrícios ácidos à base de cremor de tártaro não convêm por longo
tempo: dão brancura aos dentes, mas às custas do esmalte que atacam,
como o fazem todas as matérias ácidas. Os dentifrícios alcalinos,
compostos de magnésio, de giz, de bicarbonato de sódio, não convêm
senão quando a saliva é ácida e mantém a cárie em marcha rápida, coisa
que o médico ou o dentista apenas podem julgar: em outros casos, são
maus, porque, como os ácidos, põem o marfim a nu.

Em suma, os melhores dentifrícios para uso corrente,


salvo indicações especiais, são os neutros ou inertes, que não deixam, na
boca, nem sabor açucarado ou ácido, nem gosto de sabão. Se os emprega
sob a forma de pós ou de líquidos; a primeira forma é a melhor, quando a
boca está em bom estado, e as gengivas e os dentes intactos; caso
contrário, quando as gengivas são assaz sensíveis, a ponto de temer o
atrito um pouco rude dos pós, quando os dentes estão irritados,

8
descarnados ou já estragados, os líquidos, ou melhor, os elixires, águas e
tinturas dentifrícias são preferíveis. Entre as inumeráveis fórmulas que se
têm processado, limitar-me-ei a citar as duas seguintes que podem servir
de modelo e que respondem a todas as necessidades.

Com 200 gramas de carvão vegetal e 100 gramas de


quina cinza faz-se um excelente pó que se aromatiza com um grama de
essência de menta ou de cravo-da-índia, e ao qual se pode acrescentar 10
gramas de tanino para apertar as gengivas, prevenindo seu amolecimento.
O carvão, estando desinfetado, purifica o hálito e não é nocivo para os
dentes, desde que se tenha o cuidado de não colocar senão uma pequena
quantidade sobre a escova de dentes, e de se enxaguar em seguida,
abundantemente, a boca com água morna.

O principal é que as substâncias empregadas sejam muito


finamente pulverizadas, a fim de que seus grânulos não ataquem o
esmalte, como o fazem as substâncias muito duras, tais como a pedra-
pomes ou o coral.

Entre os dentifrícios aquosos, aquele de Botot tem uma


reputação universal bem merecida. Vejamos a composição:

Anis verde ..................... 80 gramas


Cravo-da-índia ................ 20 gramas
Canela triturada ............... 20 gramas
Essência de menta ............ 10gramas

9
Feitos macerar em 2,240 gramas de aguardente durante
oito dias, filtra-se e acrescenta-se 1 grama de tintura de âmbar, colorido-
se com cochonila9.

Não pretendo, bem entendido, que esta água seja a única


que se deva empregar; mas acredito que, por ser útil e agradável, por
conservar o bom estado da boca e o frescor do hálito, uma água
dentifrícia deva se aproximar da fórmula precedente. Qualquer que seja o
elixir escolhido, é suficiente verter algumas gotas em água morna na qual
se embebe a escova de dentes e com a qual se enxágua a boca.

Venho de falar de água morna a empregar-se com os pós


e elixires dentifrícios. É que, com efeito, é nesta temperatura média que
devem estar todas as substâncias, líquidas ou sólidas, que se põem em
contato com os dentes, que temem temperaturas extremas e, sobretudo,
transições bruscas. Recordo-vos os conselhos de Liébault: não bebais
nem vinho nem água muito frios nem congelados, nem, ao contrário,
cozidos ou carnes muito quentes. O ar frio constitui-se também num
fator nocivo: daí o princípio de manter a boca fechada quando se sai no
inverno e de portar um protetor de nariz ou uma manta por cima, quando
são sensíveis os dentes: é o melhor meio de prevenir os edemas de origem
dentária. Evita-se, igualmente, os abusos do açúcar que, como vimos,
predispõem às cáries, e de substâncias ácidas — vinagre, azedinhas,
groselhas, limões, etc. — que, além de fazerem mal aos dentes, causam
9
Corante obtido de insetos coccídeos, vermelho, que contém ácido
carmínico.
10
aquela sensação desagradável que chamamos irritação; as pessoas sujeitas
a irritações dos dentes fariam bem em usar pastilhas de Vichy e queijos
que o início da fermentação torna alcalinos, tais como o queijo de Brie
recém feito.

Os honoráveis membros da sociedade contra o uso do


tabaco não se furtam de invocar, em seu apoio, os crescentes perigos que,
segundo eles, o hábito de fumar traria para a boca e os dentes. Eles
acusam o tabaco de alterar a pureza do hálito, o que é incontestável; mas
este pequeno incômodo é fácil de corrigir com a ajuda do cachou10, de
Bolonha ou outros, de pastilhas de menta ou de Vichy e, melhor ainda, de
lavagens freqüentes da boca com um dentifrício aromatizado, lavagens as
quais têm a vantagem de incitar os que não pensariam nelas. Pretendem,
também, que o tabaco arruína os dentes e os predispõem às cáries: essa
acusação é absolutamente falsa: o tabaco prejudicaria talvez os dentes, e,
ainda, apenas entre os fumantes que não tivessem o cuidado de escová-
los assaz freqüentemente. Eu seria quase tentado a dizer que ele os
conserva, em se opondo às fermentações bucais que preparam a cárie.
Assim, fumadores de cachimbo, de cigarrilhas ou cigarros, fumai em paz:
vós não tendes nada a temer dessa doce mania para a conservação de
vosso maxilar.

10
Não tem tradução. No Larousse, define-se como uma substância
adstringente, estomacal e estimulante extraída de uma acácia das Índias.
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