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Tópicos para resenha da tese “A formação da pessoa em Edith Stein” de Adair Sberga

Contextualizar filósofa e abordar brevemente sobre sua biografia.

“Não se pode produzir nada que já não tenha sido colocado em gérmen no homem pela própria
natureza.” - Edith Stein.

Justificativa: a relevância do estudo sobre a formação humana comprometido com a


responsabilidade social e com a solidariedade para as áreas e os profissionais da pedagogia e da
psicologia. (p. 11) A proeminência internacionalmente reconhecida pelo seu legado, que, elaborado
por meio do rigor do método fenomenológico, s constitui como um amplo arcabouço teórico sobre o
conhecimento da complexa estrutura do ser humano e se delineia numa antropologia filosófica que
é referência para a área das ciências humanas. Segundo Stein, para estar na frente de una sala de
aula, antes de qualquer empreendimento pedagógico, é primordial se interrogar acerca di que
se conhece sobre o ser humano. Isso porque era convicta de que com base na concepção
antropológica é que se instaura um processo formativo. Para formar, segundo Stein, é preciso
atingir a alma do educando ou o seu núcleo central, a fim de ajudá-lo a viver a partir da sua
interioridade, de modo a fazer fluir a sua singularidade e originalidade pessoal.

Objetivo: investigar como se constitui a formação da pessoa, por meio do estudo da antropologia
filosófica de Edith Stein (1891-1942), remetendo-se especificamente ao núcleo pessoal, concebido
por essa filósofa como alma da alma, e esboçar alguns itinerários formativos coerentes com a sua
concepção. (p. 12)

Organização da obra em duas partes:


- a primeira que trata diretamente do processo de formação humana, apresentando as bases teóricas
do conceito de formação, através de um aprofundamento da antropologia filosófica e do método
fenomenológico, abordado em algumas obras e textos de Stein, delineando em seguida o papel do
protagonismo do sujeito da educação (educadores e educandos) assim como as comunidades
formadoras e depois apresentar os fundamentos de uma formação que encaminhe para a vida em
comunidade e para a ação social construtiva.
- A segunda, uma aproximação com a prática educativa de Giovanni Melchiorre Bosco (1815-
1888), que concebe em seus princípios educativos a necessidade de conduzir a formação para o
“ponto acessível ao bem”, com o propósito de apresentar alguns itinerários que exemplificam um

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processo formativo apropriado à concepção antropológica abordada. A referência à concepção da
“Santíssima Trindade” de Santo Agostinho na obra de Edith Stein.

“O meio educativo mais eficaz, pois, não é a instrução, mas o exemplo vivo; sem este, todas as
palavras serão inúteis.” - Edith Stein.

INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE FORMAÇÃO

Antropologia filosófica, método fenomenológico, formação da pessoa em sintonia com a


especificidade do humano, formação integral, desabrochar das potencialidades da pessoa, plena
realização de cada personalidade.

Sobre uma análise detalhada dos conceitos de formação e educação, ver nota 1 do capítulo 1, onde
destaco: formação como resultado da educação. A formação como o fim do processo educativo e a
educação como via a esse fim. Formação como conceito suprema, referindo-se à totalidade da
construção do homem, subordinando à formação, como meios, a instrução para a esfera intelectual e
a educação para a esfera moral. Por isso, o vocábulo formação é mais amplo que educação e toda a
formação não é educação. Isto segundo alguns autores, como Garcia, 1988.
Conceito de educar (bilden): formar um material e formar de tal modo uma forma plasmada ou uma
imagem, uma reprodução de um modelo.
Conceito de formação (bildung): tanto o processo de formar quanto seu êxito, correspondendo às
expressões: instrução, educação, formação, cultura. Em Stein este conceito vai além, significando
também “ conduzir para uma sabedoria de vida, para uma realização plena de si”.
Objetivo educativo: forma que deve ser conseguida.
Os educandos como o “material” a ser formado; os educadores os instrumentos que eles utilizam.
Conceito de processo formativo e educativo: processo de crescimento e de posse de uma forma,
que procede do interno e se estende para o externo e que necessita somente de ajudantes exteriores
de um determinado tipo. É pertinente ao processo formativo que uma matéria tome uma forma que
a torne reprodução de um modelo. (p. 16)
As diferentes possibilidades do processo formativo, segundo a matéria a ser modelada:
- Matéria inanimada, suscetível a sofrer manipulação formativa e a assumir uma forma advinda do
exterior, ex: o diamante que o ourives faz assumir a forma de um anel.
- Matéria animada: mundo vegetal, que possui alma vegetativa e deve se adequar à forma interior
de agir.

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- Matéria animal: possui estruturação e formação psíquica; a formação através de uma
codeterminação entre animal e adestrador, por exemplo.
- Matéria animal com alma humana: pessoa constituída de alma e corpo, numa total unidade, para
a qual está previsto um processo formativo: a forma interior mira modelar o corpo e a alma
segundo o próprio arquétipo. Formar é plasmar um material até fazê-lo assumir uma forma,
em base a uma imagem”. A formação é um processo que confere à aptidão da alma uma
configuração moldada… ou seja, a forma que a alma adquire. A formação da matéria
animada com alma humana, ou seja, da pessoa, como o mais sofisticado de todos os processos
formativos. (p. 17)
A mescla entre os conceitos de: ensinar, guiar, educar, formar.
Conceito de ensinar: uma proposta que conduz para “a compreensão de novos conteúdos ou de
qualquer potencialidade humana que se torna, com o exercício, uma capacidade verdadeira e
própria”.
Conceito de guiar: progredir na consciência do escopo: é o nível do entendimento segundo a
necessidade de adquirir algo ou de se abrir para o desenvolvimento de alguma potencialidade que
conduz para se tornar algo.
Conceito de educar: uma instrução e elaboração planejada da vontade para torná-la apta a
conseguir o escopo. O educar como uma incidência sobre a vontade, no sentido de persuadir para a
tomada de decisões, por meio de atos espontâneos e livres, com a finalidade de conseguir aquilo que
seja o melhor para o crescimento de si mesmo.
Obs: educar e guiar são conceitos muito conexos que, incorporados à força de vontade da pessoa,
almejam a conquista de um objetivo.
A atividade formativa chega a penetrar a alma mesma, a sua essência, de modo tal que a forme e,
com ela todo o ser humano. (p. 18).
Conceitos que se complementam e se fundem, tendo sempre o intuito de prepara a pessoa para
atualizar o que está escrito em sua forma interior. Tem por finalidade ajudar cada ser humano a
trilhar o seu caminho e realizar sua trajetória, que ele não escolhe arbitrariamente, mas é conduzido
por Deus.

A FORMAÇÃO DA PESSOA NAS OBRAS FILOSÓFICAS POTÊNCIA E ATO E


ESTRUTURA DA PESSOA HUMANA

Partindo da ontologia baseada em Tomás de Aquino (base aristotélica), em diálogo com Hedwig
Conrad-Martius, em confronto com as concepções de Martin Heidegger e seguindo os passos do
método fenomenológico de Edmund Husserl, na obra Potência e ato, Stein procura demonstrar

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e justificar quem é o ser humano, como se dá a constituição da sua estrutura e como se
desenvolve a sua subjetividade. O exame dos conceitos de potência e ato pela ontologia formal e
pela ontologia material.
Conceito de ontologia material: doutrina do ser na sua plenitude a doutrina do ser que está se
constituindo nos seus diferentes gêneros.
Pelo método fenomenológico Stein lida com os fatos que se manifestam através dos fenômenos, que
podem ser intuídos ou apresentados à consciência do sujeito. Isso significa que a relação que se
estabelece não é com a coisa propriamente dita, mas com a essência da coisa que se mostra à
consciência.
Ontologia formal: pensamento que as essências não são só oriundas da percepção, mas são captadas
pela intuição. Essas formas não são dotadas de realidade, só existindo no âmbito da forma, sendo
por isso consideradas ontologias formais.

O que é o material?
O que é o formal?

Conceito de substância espiritual de origem tomista (Tomás de Aquino): o espírito (Geist) como a
sede das operações intelectuais e voluntárias no duplo encontro entre conhecimento e moral. (p. 21)

O vínculo e a relação entre a matéria, a alma e o espírito. A idéia de que o espírito está presente em
toda a realidade e também na matéria. A matéria, enquanto formada, tem uma dimensão espiritual,
isto é, se apresenta com um sentido, um significado.

A vida animal, orgânica e espiritual do ser humano. O grau mais alto que a pessoa pode almejar: a
constante atualização de suas potencialidades, de modo que o seu agir seja sempre pautado em seu
núcleo interno - a alma da alma; um agir livre e consciente, que tende a buscar o melhor para si e
para os outros. (p. 22)

Conceitos ontológicos: objeto; o que o objeto é; o ser.

Potência e ato
Ato e potência são diferentes modos do ser, preenchimentos materiais da forma do ser. Isso não
significa que todo e qualquer objeto possa ser atual ou potencial.

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Conceito de potência: em geral é o princípio ou possibilidade de uma mudança qualquer. A matéria-
prima como pura potencialidade, no sentido de que está vazia de forma e pode se atualizar
adquirindo uma espécie, ou seja, uma forma que a atualize. É toda a possibilidade presente numa
matéria ou num ser, que o direciona a um tipo de fazer ou a determinado conhecimento. É o ser
potencial, o ser possível. A potência é o princípio do ato, capacidade para se tornar algo ou para
realizar uma determinada atividade.

Conceito de forma: é o ato da matéria ou aquilo em que esta se tornou como atualização.

O ser humano como um ser atual, mas um ser em constituição (formação): por isso tem a
potencialidade para vir a ser outra “coisa”, no sentido de algo melhor”.

Ato: é o ser atual, o ser real, momentâneo (exceto em Deus). Aquilo que dá o ser a um ser que está
se constituindo, a fim de que tenha consistência atual, que nunca será plenamente atualizada, porque
a sua dinâmica é de atualização constante. Nesse sentido o ato é pressuposto para a potência. O ato
como o ser que atualiza um momento desse inteiro que é o ser e enquanto o atualiza é
momentaneamente atual, passando depois para a inatualidade. (p. 23, 24 e 27)

Potência e ato também significam o ser que está aberto no tempo ou como modos de ser que
precedem ou procedem para esta dimensão do agora.

Dúvida: potência e ato poderiam corresponder também a ser e estar? Ou a essência e existência?
Atualização: processo do vir a ser, transformação do ser, constituição do ser-em-potência enquanto
ser da realidade, nascimento do ser para o mundo, através do pensamento, do sentimento e da ação
(do ser sobre si mesmo, de outros seres sobre ele). - inferências minhas

Conceitos de potência ativa e passiva:


Potência ativa: capaz de realizar mudança em outra coisa ou em si mesma.
Potência passiva: sofre mudança provocada por outra coisa ou por si mesma.

A compreensão do ser humano através da sua comparação com Deus. (Deus possui potência?)
Deus tem potência, mas em Deus não há contradição entre potência e ato. Deus é potência ativa, ato
puro e nele não há nada que não seja ato, enquanto as criaturas tem potência passiva e seu ato é
atividade, com começo e fim. O agir de Deus é eterno, o agir das criaturas é temporal. Em Deus,
nada vem do externo. A potência de Deus é só uma e o seu ato é só um e essa potência é

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completamente exercitada nesse ato. O ser da criatura é momentâneo e completo só naquele
momento, não é ser pleno. O ser de Deus é plenitude, ilimitado, é pura atualidade e, portanto, seu
modo de ser é divino. Em Deus não há potencialidade, então Deus é “o ser em ato”. As criaturas
participam do modo de ser de Deus, e essa participação se dá em graus diferentes, pode ser mais ou
menos o que é ou mais ou menos atual. Portanto, o modo de ser das coisas criadas é formado por
diferentes misturas de graus de atualidade e de potencialidade que se dão na temporalidade, ou seja,
a criatura é uma mistura do ser e do não-ser.

Imanente e transcendente

Conceito de imanente em Stein, Tomás de Aquino e na escolástica: a presença da finalidade da


ação, na ação, ou do resultado de uma operação qualquer, na ação. Significa que a ação
imanente permanece no agente: por exemplo, o sentir, o querer, o entender, não é uma ação
transitiva, e por isso não passa para uma matéria externa, como o quebrar, o molhar e o esquentar.
Dois conceitos diferentes de transcendência:
1. Estado ou condição do princípio divino, do ser que está além de toda experiência humana
ou do próprio ser (não para a escolástica clássica, que pensa que Deus habita o ser humano).
As correntes realistas da filosofia contemporânea atribuíram transcendência às coisas, aos
objetos do conhecimento em geral ou ao ser de tais objetos (posição de Husserl e Stein).
Posição que negava que uma coisa pudesse ser dada como imanente em qualquer percepção ou
consciência e definia o ser da coisa como ser transcendente, que é mais ou menos sombreado
pelas aparições da coisa à consciência. - dúvida: a possível contradição entre este conceito e
o conceito de imanencia, utilizado por Stein. Clarificando o termo transcendente: as coisas
não são análogas ao ser que as conhece (seguindo o raciocínio da escolástica), mas transcendem
o ser que as conhece, porque as coisas estão fora do ser, e é pela consciência intencional que se
tem a percepção delas. - o primeiro passo do método fenomenológico: a consciência, fazendo a
epoché capta a coisa para conhecê-la, em sua essência, segundo aquilo que a própria coisa
revela de si mesma.
2. Ato de estabelecer uma relação, sem que esta signifique unidade ou identidade de seus
termos, mas sim garantindo, com a própria relação, a sua alteridade. (melhor pra meu
projeto).

Conceito de transcendental do século XIII: as propriedades que todas as coisas têm em comum,
que por isso excedem ou transcendem as diversidades de gêneros em que as coisas se distribuem.
Em Tomás de Aquino: as propriedades, que ‘se acrescentam ao ente e que expressam um de seus

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modos que não é expresso pelo nome de ente’. Em Kant: esses predicados transcendentais das
coisas nada mais são que exigências lógicas e critérios para qualquer conhecimento das coisas em
geral e repousam nas categorias de quantidade (unidade, pluralidade e totalidade), no sentido
material, como pertencentes às possibilidades das coisas. Na filosofia contemporânea: aquilo que
pertence ao sujeito ou à consciência como condição do objeto e da própria realidade. Kant
também afirmou: não chamo de transcendental o conhecimento que cuida dos objetos, mas o que
cuida do nosso modo de conhecer os objetos, e que seja possível a priori”. Em Husserl: na reflexão
fenomenológica transcendental, saímos do terreno empírico praticando a epoché universal
quanto à existência ou à não-existência do mundo. Pode-se dizer que a experiência do mundo
assim modificada, a experiência transcendental, consiste no seguinte: examinamos o cogito
transcendentemente reduzido e o descrevemos sem efetuar além disso a posição de existência
natural implícita na percepção espontânea.
Clarificando a compreensão do termo transcendental: é o retorno ao sujeito ou a redução ao
sujeito, para analisar como a sua consciência conhece o objeto, ou seja, é a reflexão sobre o
próprio ato de conhecer. - 2º passo do método fenomenológico.
Resumindo: o termo transcendente se refere àquilo que está fora da consciência do sujeito
(mundo objetivo) e o termo transcendental se refere à consciência que o sujeito tem de
conhecer algo ou realizar algo; é o nível da consciência, dos atos reflexivos. - na fenomenologia

Dado de fato = o que se manifesta como certo ao sujeito. O dado de fato primeiro e mais simples,
do qual somos imediatamente certos, é aquele do nosso ser. Cogito ergo sum. É a certeza de ser, de
existir, que precede todos os conhecimentos racionais.
Tríplice problemática do intelecto reflexivo:
- O que é o ser do qual sou consciente?
- O que é o eu que é consciente do seu ser?
- O que é o ato ou o movimento espiritual no qual eu sou e no qual sou consciente de mim e
desses?

O ser se mostra como é em si num duplo aspecto: aquele do ser e do não ser.
O ser se manifesta como um ato momentâneo, sempre como “não mais” e “não ainda”.
O fluxo do ser momentâneo manifesta a idéia do ser puro, que é atemporal, eterno.

Explicação didática de Stein sobre ser e ato na página 27

A potência não é o não ser. O ser se torna cada vez mais específico à medida que se atualiza.

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A potência como o caráter material da imanência, ou seja, daquilo que está contido no ser.
Mesmo as potencialidades não estando atualizadas, elas estão guardadas, reservadas no ser, não só
objetivamente, mas fenomenicamente, porque aquilo que “não-é-mais” ou “não-é-ainda” continua
no ser, existe sempre a possibilidade da atualização.

Diferença entre movimento e atividade em Aristóteles.

O ato como atividade.

Objetivo de Stein: averiguar como a questão da potência e do ato acontecem no ser que as
possui.

O que é o eu? O que é encontrar-se? P. 29e 30 - estar consciente de si. O eu é a substância que está
na base da vida e a rege, que não se pode captar diretamente com os olhos.
Conexão entre substância, potência e ato - p. 30

Conceito de substância: algo no qual o ser se estende em uma duração, e do que esse é, surgem
certos efeitos; entendemos com atos essas atividades e com potenciais as duradouras determinações
da substância para certas atividades.

Três esferas do ser: a da imanente, como imediatamente consciente e inseparavelmente próximo (a


esfera do eu); a do transcendente, que se anuncia na imanência (a esfera da substância; ato e
potência); e uma terceira (a esfera do ser puro), que, conforme o seu ser, se distingue radicalmente
das esferas imanente e transcendente.

O fundamento da demonstração de Deus (p. 33)


Três caminhos para o ser supremo: experiência mística; fé; lógica

Fenomenologia transcendental: a descrição das estruturas da consciência, nas quais e através das
quais se constrói, pela imanência, um mundo transcendente.
O imanente como a coisa primeira, através do qual se deve chegar a outras esferas.

Matéria e forma

Ontologia formal: doutrina das formas do ser

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Forma, devir, vir a ser.
Sentidos do termo forma: formas geométricas; forma dos corpos viventes, formada pela enteléquia
(força intrínseca); forma das coisas materiais, formadas a partir de uma idéia.
Matéria-prima - a matéria completamente sem forma, segundo a definição aristotélico-tomista.
Matéria potencial, informe. Não é independente e não se cria por si mesma, mas é criada. É passiva,
e tudo que lhe acontece vem de fora.
A matéria sem forma não pode existir. Para se manifestar, ela recebe seu ser só mediante a forma. É
a forma que dá vitalidade à matéria. A matéria não existe da forma nem a forma antes da matéria.
Uma não deriva da outra. Matéria e forma iniciam sua existência ao mesmo tempo, numa profunda
unidade. (capítulo 3)
Para conhecer as formas é preciso saber o que é próprio de um objeto. - a individualidade do objeto,
a plenitude qualitativa e quantitativa presente no objeto.
A captação do ser que está sendo no objeto, ou seja, ao ser do objeto, assim como sua qualidade,
pela ontologia formal.

Formas ontológicas fundamentais: o objeto; a plenitude; o ser. O ser sendo/existindo como unidade
concreta do objeto.
Diferentes graus de universalidade das formas. Diferenciação (conteúdos) e especificação (de
gênero).
Não há unicidade para se abordar o termo forma, mas uma pluralidade de modos de conceber esse
termo.
Para Stein, a forma é força vivente ou forma vital, o que dá vida ao corpo humano. (capítulo 3)
é o que impulsiona a pessoa a agir e se posicionar diante os fatos da vida. Não é somente espiritual,
biológica ou psicológica, mas é uma unidade entre as "dimensões naturais e as dimensões do
espírito”.
A forma não se apresenta como matéria inteiramente formada, ela também é potência, que precisa
ser desenvolvida para ir se tornando cada vez mais completa.
A forma pode ser preenchida pela matéria, assim como pela alma, que também é, em alguma
medida, matéria. A alma está em potência para as formas do conhecimento, assim como a matéria
está para as formas naturais.
Na análise material da alma, a distinção entre um intrínseco princípio de forma e alguma coisa que
corresponde a um conceito formal vazio de matéria.
Conceito de matéria da alma: é um ser potencial, em sentido múltiplo: os dados sensíveis são como
uma matéria que é formada pela apreensão espiritual, com atos de percepção, por exemplo, a

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lembrança; a matéria da alma também pode ser a vida exuberante do eu, que pelos conteúdos que
recebe forma vivências diversificadas.
A formação da alma se dá num duplo sentido: pela recepção daquilo que chega do mundo externo
(com as vivências) e pela recepção dos conteúdos da vida interior espiritual, que se evidencia como
forma e matéria.
A formação é a atualização mais completa da forma, num processo que acontece de dentro pra fora.
A formação é um processo de colaboração para o desenvolvimento da pessoa por meio da força
vital, para que esta se torne aquilo que deve ser, segundo suas potencialidades internas, ou seja, para
que se realize em ato o que está prescrito na sua forma substancial.
A verdadeira formação humana deve incidir na alma, na profunda essência da pessoa, para dar
vazão à genuína riqueza que lá já esta contida, é ajudar a descobrir aquilo que é específico da
pessoa, para que o seu potencial aflore.

Ontologia material: nos devolve ao exame das formas.


Dúvida: qual conceito de matéria poderíamos empregar para compreender as formas, sem cair na
tautologia?
O devir (vir a ser) da matéria pode ser formado a partir do exterior ou do interior (enteléquia).
Matéria como potência pura, porque pode receber todas as formas.
Conceito de forma da matéria: puro potencial.
Conceito de forma: é o ato da matéria, a matéria que só entra na existência através do ato, da
forma.
Matéria, enteléquia, forma, ato. P. 40

Essência e existência

Conceito de essência em Aristóteles: o que procura definir o que é uma determinada coisa. É
necessária ou substancia; a essência é a “quidade” ou a “natureza”, que compreende tudo o que está
expresso na definição da coisa; logo, não significa só a forma, mas também a matéria. Também é
a essência aquilo que se encontra no ser próprio do indivíduo.
A essência é a essência da essência.

Mais à frente (no antepenúltimo capítulo do livro) à autora vai considerar que a essência é composta
por potência e por sentido (finalidade). Referindo-se à alma, diz Stein ser a essência aquilo que
forma a potência.

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Conceito de substância: no aristotelismo e na escolástica, realidade que se mantém permanente sob
os acidentes múltiplos e mutáveis, servindo-lhes de suporte e sustentáculo; aquilo que subsiste por
si, com autonomia e independência em relação às suas qualificações e estados.

A substância é composta de essência e de existência.


A separabilidade entre essência (matéria e forma) e existência.
A essência está para a existência assim como a potência está para o ato. A essência é potência em
relação à existência e a existência é ato em relação à essência.
Somente em Deus a essência é a própria existência, porque Deus é a sua essência como também é o
seu próprio ser.

Para a fenomenologia, cada conhecimento se inicia com a experiência, e assim a essência pressupõe
a existência. A existência tem primado sobre a essência. Obs: isso deve indicar a abertura para
considerar a existência não somente no nível físico, mas também, por exemplo, no nível estético,
imagético, imaginário, projetivo e ideal, além dos níveis próprios da matéria mais densa.
A essência é necessária ou substancial e é captada por um ato de intuição, análoga à percepção
sensível. Na coisa que aparece se capta uma essência, pois esta não poderia existir sem um conteúdo
material.
Conceito de conhecimento: da parte do objeto, é o seu ser presente no indivíduo; da parte do
indivíduo, é deixar que o objeto, que não é a sua realidade, se faça presente nele. O conhecimento
não modifica o objeto conhecido, mas conhecer é a assimilação por parte do cognoscente do objeto
conhecido.

Alma e espírito

Coisas = unidade de matéria e espírito, matéria formada pelo espírito.

O espírito, na sua forma mais pura nos representa a pura atualidade, e a matéria informe, a pura
potencialidade.

Conceito de alma em Tomás de Aquino: a alma, que é uma substância espiritual, entra em contato
com o corpo humano, que é uma substância material, e se unifica interiormente com o corpo, e a
alma é a forma do corpo.

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Para Stein, a alma não é uma propriedade adjunta do ser humano.
A singularidade da alma.
O ser humano está na sua alma, e sua alma está nele. A alma é parte do ser humano, mas uma parte
essencial, porque o inteiro do qual a alma faz parte não pode existir sem ela.
Em conrad-martius, a alma como o coração do ser, sua peculiaridade é ser o centro da sua vida. A
alma como o fundamento qualificante de todo ser vivente. Distinção entre alma impessoal (dos
animais e das plantas) e alma pessoal (ser humano). A alma como sede do animal, o espírito como
sede do humano. O que caracteriza a essência desta sede do espírito é ser despojada de si
mesmo, desfazendo-se da fixação de um Si determinado e vinculado (aprisionado), sendo livre
no espírito e com o espírito. Em suma, é o livre arbítrio, sua capacidade de decidir, de fazer
escolhas por si mesmo, por meio das quais vai se constituindo enquanto sujeito. Elevar-se ao
espírito torna o ser humano livre e senhor não só do seu centro psíquico, mas diante do seu
próprio espírito.
Aquele lugar da liberdade absoluta, aquele lugar do livre nascimento do eu ou da constituição
do eu é, necessariamente, o portão metafísico aberto através do qual o espírito de Deus pode
passar livremente. O ser humano tem o seu espírito próprio, o qual tem origem na
profundidade do seu ser singular pessoal; mas este espírito, através do espírito de Deus, pode
ser transfigurado e elevado ao absoluto.
Trazendo esta perspectiva para a compreensão de Deus como a Alteridade Suprema e como o
Amor, me parece haver uma grande oportunidade de articulação entre espiritualidade (conexão com
Deus), sentido da vida e formação humana, útil para o meu projeto.

Em Stein, a alma como o que qualifica o ser humano, sendo o espírito (ou alma da alma) o que o
qualifica de modo mais específico ainda, brotando do seu núcleo, na sua interioridade, onde reside
sua individualização.
A alma como tal não é um ser pronto, parado. Seu ser é vir-a-ser (tornar-se) em que as forças que
ela traz ao mundo em sua forma germinal devem desenvolver-se pela atividade.

Conceitos de alma:
- O fundamento que qualifica todo o ser vivente (sentido amplo)
- A profundidade qualificante onde habita o ser dotado de alma, por meio da qual o ser vive e age,
ou seja, o genuíno fundamento, o centro que assume a plenitude e a vida a partir da profundidade
e do obscuro e eleva este genuíno fundamento a ser pessoal, a ser espiritual. (sentido estreito)

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Cada alma é um mundo interior em si, concluído. No entanto isso não quer dizer que ela já é o que
deve ser como manifestação (em ato). Ela deve desabrochar, deve ser formada.

A peculiaridade da alma é ser vivente. O ser vivente é formado e transformado a partir do seu
interior, e o que lhe confere forma vivente é a alma. Interessante relação entre este dado e o método
fenomenológico, que tem na vivência a base para a elaboração do conhecimento.
O formar do intelecto, ao qual a alma pertence, é a atividade que conduz aquilo que é
potencial à atualidade.
A vida é a essência do espírito.
Conceito de alma atual: o que confere vida de espírito, no sentido de um produto objetivo-espiritual,
e não como sujeito espiritual, porque a sua vida é um agir do interno para o externo.

Conceito de espírito: Deus, o ser puro. Então tudo o que é deve ser, graças ao espírito, e trazer em
si alguma coisa desse último. É o que confere ao ser humano a individualidade e a consciência
sobre si mesmo. Caracteriza-se pelo livre-arbítrio, pelo intelecto, pela razão, pela vontade e pela
abertura eu também adicionaria o sentimento, compreendido como capacidade de elaboração
consciente das emoções. Também é o “ponto acessível ao bem” (Bosco) e à conexão com Deus.
Também é a parte do ser humano que é imortal. No ser humano, o espírito de Deus deve se
caracterizar principalmente pela sua qualidade de co-criador, ou seja, aquela que cria junto a
realidade, por meio do seu livre-arbítrio.

Espírito objetivo = o princípio espiritual que existe em todas as criaturas, pelo qual estas são o que
são.

O espírito não precisa estar inserido numa matéria e não é necessário que a forme. Mas se assim é,
então passa a ser a alma, que forma a matéria segundo a peculiaridade da espécie. A alma anima e
forma a matéria com uma peculiaridade específica. Essa especificidade é o espírito.

O espírito do ser humano é pessoal, e o que o caracteriza são a intelectualidade, a liberdade e a


abertura.
Conceito de intelectual: ser transparente, ser consciente de si mesmo, na liberdade e na clareza; é
ser capaz de escutar a si mesmo.
Conceito de liberdade: capacidade de desprender-se de si mesmo para se confrontar e depois agir
por meio de si mesmo; é a possibilidade de intuir-se com clareza, de conhecer-se. É o fundamento
mais autêntico e supremo do espírito.

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Conceito de abertura: é o voltar-se para si mesmo, para os outros ou para uma situação ou
realidade a fim de compreendê-la e acolhê-la.

Portanto o ser humano, por meio do espírito, e na forma suprema da espiritualidade, é elevado
acima do animal. Ele é consciente intelectualmente dos seus sentimentos e pode refletir sobre os
mesmos; pode abandonar-se aos seus impulsos da alma ou pode modificá-los e eliminá-los; sua
livre atividade nasce da sua interioridade e nisso se manifesta a unidade real da alma e do espírito.

O processo de constituição do ser humano

Conceito de pessoa humana: um ser originário que tem a capacidade de ser consciente de sua
existência e de agir em conformidade ao que é melhor para si

Nos seres humanos, as formas são como sementes que se desenvolvem e que, por meio da sua
progressiva atualização, vão adquirindo consistência. A pessoa também tem a capacidade para
formar a si mesma e com base nisso pode se desenvolver por meio da formação do seu corpo, em
consonância com a atualização constante daquilo que está traçado em seu núcleo interno.

A constituição do corpo

“A alma forma o corpo” - Aristóteles, Rudolf Steiner


… tanto nos humanos quanto nos animais - Stein
No ser humano, a capacidade de formar a si mesmo por meio do livre-arbítrio (que não é contudo
ilimitado, uma vez que é condicionado por fatores externos) vai muito além do aspecto corpóreo;
apesar de ser mediada pelo corpo animado, é uma atividade espiritual-pessoal, livremente
consciente, que forma o corpo imprimindo nele a ida psíquica interior, o que não é possível ao
arbítrio do animal.

A constituição da vida psíquica

A conceito de psique aqui parece estar vinculada principalmente ao campo emocional, instintos,
reações, desejos e impulsos.
A formação da vida psíquica acontece por meio da cooperação de formas acidentais (sem as quais o
ser permanece sendo o que ele é) que se caracterizam nas espécies de atos mutáveis, que
tradicionalmente se distinguem em espécie sensível (aquilo que os sentidos captam do objeto, a

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forma sensível, preenchida por materiais sensíveis ou por qualidades sensíveis - sensível no duplo
sentido: objetivamente, a qualidade sensível, desvinculada da forma da coisa; subjetivamente é o
dado da sensação, desvinculado do contexto da percepção) e espécies inteligíveis.
Os atos mutáveis são especificados por meio das suas intenções e pode-se dizer que a vida
espiritual se forma através das mutáveis intenções em atos delimitados na sucessão e,
eventualmente, na aproximação. É este o sentido noético da expressão “espécies inteligíveis”.

Conceito de sentido noético: o aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos de
compreensão que visam a apreender o objeto, tais como perceber, lembrar, imaginar, etc. O objeto
percebido se torna o conteúdo noemático, que na definição de Husserl é o aspecto objetivo da
vivência, ou seja, o objeto considerado pela reflexão em seus diversos modos de ser dado, ex: o
percebido, o recordado, o imaginado, etc. O que o conteúdo noemático busca captar é a espécie em
sentindo objetivo, a forma substancial da coisa, a coisa mesma. O noema é da espécie sensível,
distinto do próprio objeto. O conteúdo noemático não é o objeto, mas esta pode se tornar um
objeto pela reflexão.

Estas formas cognitivas, no rigor dos termos, não são do espírito, só as intenções é que o são, mas
pertencem a este por posse, porque se tornam inseparáveis das intenções. E na medida em que são
inseparáveis das intenções, determinam a espécie dos atos e se tornam formativas.

Para uma análise detalhada da formação pela espécie do ser do objeto e da vida atual do sujeito, ver
p. 52.

Na medida em que os dados das sensações dão impulso a um movimento espiritual que os “anima”
ou que os interpreta cognitivamente, pode-se caracterizá-los como motivos. Quando estes
determinam o movimento em avante, como algo de objetivamente captado, se definem como
estímulos. Assim é composta a vida da psique na realidade da vida da pessoa.

A constituição da vida da alma

O sujeito não pode autonomamente passar de um modo de ser a outro, mais elevado, ou seja, não
pode por si mesmo se atualizar como pretende, pois o seu ser e sua essência não são adquiridos
por ele mesmo, mas são coisas que ele recebe. Junto a estas ele também recebe a liberdade de
codeterminar (co-criar) a sua mutável atualidade - codeterminação, porque a mudança depende
ainda de outros aspectos, como o social, o político, o econômico, biológico, etc.

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Cada ato que é atualizado vem carregado de um conteúdo, que pode ser um conteúdo de ato
cognitivo (ex: de conhecimento) ou de ato volitivo (relativo à vontade. O sujeito não pode, por si
mesmo, se dar esses conteúdos, mas pode escolher livremente entre um conteúdo e outro.
A decisão livre sobre diversos conteúdos ou atos possíveis significa uma decisão sobre quais
potências devem ser atualizadas e não só uma decisão sobre o ser atual e momentâneo da pessoa. A
decisão por este ou aquele ato é o que determina o ser da pessoa. Porém, essa liberdade do
sujeito para escolher tem limites.
Os atos qualificam a vida e se diferenciam pela forma substancial. É essa forma que modela o
núcleo interno do ser humano, ou seja, o que o sujeito é em si mesmo, na sua mais genuína
especificidade, na sua individualidade.

Conceito de substância: algo no qual o ser se estende em uma duração, e do que esse é, surgem
certos efeitos; entendemos com atos essas atividades e com potências as duradouras determinações
da substância para certas atividades. (no tópico Imanente e Transcendente)

Qual é a coisa potencial (substância da alma/forma substancial) que o sujeito conduz à atualidade: é
a vida interior da pessoa que é qualificada pela substância e pela espécie acidental, que
determinam a sua atualidade. A força vital como a energia que age a favor dessa atualização; a
matéria inseparável da forma substancial, cuja formação é o mesmo ser da forma. A personalidade
do indivíduo, expressada pela consistência do seu caráter, como o resultante dessa integração e
como o que diferencia o ser humano do animal.
O ato da reflexão como a possibilidade do ser humano passar de uma forma originário de
consciência para outra, pela sua liberdade.

A formação do caráter

A pessoa se forma ao longo de toda a sua vida. A atividade intelectual faz crescer na pessoa a sua
dimensão espiritual e pela potência da cognição se pode chegar a uma configuração habitual. Há
uma habitual conformação da potência à vontade.

Quando a pessoa se sente tocada interiormente, seu ânimo se desperta para a atualidade e ela se
sente inclinada, por meio disso, à habitualidade. Sob o jogo da potência, ato e hábito, que acontece
devido a um determinado “motivo”, dá-se a livre configuração tanto da formação de si como da
formação dos outros.

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Conceito de caráter: a forma habitual da pessoa; a configuração que habitualmente a pessoa
permite que aconteça em si, por meio da atualização das suas potências.

A formação da pessoa se dá por meio da formação do seu caráter.

Para formar o caráter é necessário que a pessoa tenha um conhecimento da essência universal do ser
humano, e ao mesmo tempo, uma meta ou um ideal de caráter a ser alcançado. - conexão com o
sentido da vida. - o mal estar como propulsor para a mudança da pessoa.

A pessoa não se torna o seu caráter, mas ela tem a posse de um caráter. Isso porque o caráter revela
gradualmente quem a pessoa é, mas não caracteriza a globalidade, a inteireza da pessoa.

O núcleo como singularidade pessoal

O núcleo como a característica da singularidade pessoal: a alma da alma. Aquilo que a pessoa é em
si mesma e por meio do qual ela é semelhante ao ser divino. É algo de atual, mas com capacidade
de crescimento na forma do ser da vida espiritual consciente. O ser do núcleo se aproxima da
simplicidade do ser divino, mas permanece abaixo da simplicidade da vida divina, sendo o seu
constante modo de ser um estado de vida sempre capaz de enriquecimento e amadurecimento. O
núcleo revela o que é e o que possui na atualidade da vida, pois, jamais será completamente
atualizado. A tensão na qual se estende o seu ser não é só um contínuo temporal, mas é um
estender-se entre superfície e profundidade, que se manifesta na forma do ser central ou periférico e
em diversos graus de intensidade. O que a pessoa é em si mesma, seu núcleo, está em ato durante a
duração inteira do seu ser.

Durante o processo de atualização constante da pessoa, o núcleo permanece o mesmo ou está


sempre sendo modificado?

O núcleo e sua atualização:

Nem tudo o que a pessoa é esta contemporaneamente atualizado na sua vida espiritual consciente.
Assim, o núcleo deve ter diferentes partes e extensão temporal, que podem se atualizar em
diferentes momentos.

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Há uma diferença entre atos que acontecem na profundidade e atos que acontecem na
superficialidade.
Aquilo que atinge a pessoa na sua racionalidade, que envolve a operação da vontade, que mexe com
a pessoa em seu ânimo, em seus sentimento, vem da profundidade do eu; o que deixa a pessoa
distraída de si mesmo, inerte e apática diante de fatos ou situações pode significar a superficialidade
da vivência.
É o núcleo que determina intrinsecamente o inteiro processo de formação da pessoa, pela
atualização das potências, que formam os hábitos e por consequência o caráter.

O núcleo e a vida espiritual consciente:

Isso que a pessoa é na vida atual não é ainda tudo o que ela pode se tornar.
O núcleo da pessoa é o seu potencial em relação à vida atual (vida espiritual consciente); é o
fundamento para a sua vida atual.
A tarefa do ser humano é manter a alma da alma, o seu núcleo, na sua constituição originária,
procurando o máximo da sua atualização.

O núcleo da pessoa está em potência e relação à atualização, sendo que a atualização espiritual é o
supremo modo de ser do núcleo.

O núcleo e a enteléquia

O núcleo não permanece completamente rígido e imutável, pois suas diferentes partes são também
atualizadas. A alma, naquilo que é em si mesmo e o seu núcleo são a força qualificada e formada e
são a essência desse ser humano, do indivíduo, ou seja, a sua forma substancial.
A forma substancial, ou o núcleo da pessoa, é enteléquia, ou seja, é uma força vivente, puramente
atual, que se exterioriza nos movimentos que chamam as necessárias substâncias construtivas à
transformação e ao ordenamento da matéria.
A formação que parte do núcleo, devido a sua força substancial, também ativa e ordena a matéria e
a alma para as transformações que vão se dando nelas com as constantes atualizações de suas
potências. Essa transformação se dá segundo um télos próprio da pessoa, ou seja, é uma
atualização segundo aquilo que já está contido na pessoa como peculiaridade original de seu ser, de
suas qualidades pessoais e disposições originárias.
A plena manifestação da alma é definida enquanto télos na enteléquia no núcleo originário da
pessoa.

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A formação da pessoa em A estrutura da pessoa humana

As três dimensões do humano: corpo, psique e espírito.


Como se constitui a pessoa humana?
A pessoa registra em sua consciência atos de vivência de três qualidades: o ato perceptivo, que
reenvia ao corpo, o ato psíquico, que reenvia à psique, e o ato intelectivo, ou volitivo, que reenvia
ao espírito. A fenomenologia é a ciência que estuda de forma integrada essas vivências do corpo, da
psique e do espírito.
O ser humano como distinto de todos os outros seres da natureza.
O espírito, concebido como alma da alma, núcleo interior da pessoa, que retrata seu intelecto,
vontade e razão, é um Plus específico do humano. E por ser uma pessoa espiritual, pode tomar
decisões diante de uma situação e sentir-se livre para realizar aquilo que lhe convém. O ser humano
é um ser que tem consciência de seu eu, que é capaz de falar sobre si. O ser humano é uma pessoa
livre e espiritual.
O que diferencia o ser humano é a sua atividade espiritual, que lhe permite ter acesso a sua
interioridade e se tornar livre para agir com autonomia.
A alma é uma unidade complexa que engloba os aspectos psíquico e espiritual, que são
diferenciados entre si, mas intrinsecamente unidos.

Para se promover a formação de uma pessoa, é preciso conhecer sua estrutura, articular um
processo que se inicia em seu interior, contar com a forma vital própria de cada ser e chegar
na forma substancial ou forma interior (núcleo), que dá unidade às diversas dimensões do ser,
a fim de desencadear seu desenvolvimento segundo o telos, isto é, a sua forma mais completa. -
aqui também se enuncia o papel do sentido da vida para a formação humana.

A formação é um processo que deve partir do autoconhecimento, para que a pessoa se torne
aquilo que está prescrito no seu núcleo central, tanto como vocação humana e profissional
quanto como capacidades, dons e talentos. É um processo único de mão dupla: há um modo
comum, universal, condição de formação para todo e qualquer ser humano, que se dá por meio do
desenvolvimento das qualidades humanas, sociais, éticas e morais; e há também, um modo
específico, originário e pessoal, em que cada pessoa é convidada a assumir a sua plena liberdade,
isto é, a tornar a si mesmo segundo a sua forma substancial.

O ser humano como corpo material e como organismo

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Vemos o ser humano como um microcosmo, no qual os estados encontram unidade: ele é uma
coisa material, um ser vivente, um ser animado e uma pessoa espiritual.
No ser humano se dá uma síntese de todo o real; assim se expressa: ser homem significa ser ao
mesmo tempo coisa material, planta, animal e espírito, mas tudo isso em modo unitário.
A potência existe em nossas almas enquanto matéria-prima que se atualiza em forma. A alma,
contudo, não é a potência em si, mas sim o ato da potência. Temos portanto, que no conceito de
alma há simultaneamente uma sequência encadeamento dos pares de conceitos ontológicos: ser e
estar; potência e ato; matéria e forma; essência e existência; que se dá como potência-matéria-
essência, atributos da a vida interior da pessoa (substância da alma/forma substancial) seguida de
uma inversão, pois a vida interior da pessoa, a substância da alma, a forma substancial não é a
alma como a conhecemos, como ela vem ao mundo, mas está inserida na alma enquanto potência,
essência e matéria e é conduzida à atualidade e à existência, assumindo uma forma, que é a alma
como propriamente a conhecemos. Em suma, a potência, a essência e a matéria não são atualmente
a alma propriamente dita, mas estão como potência na alma. A rigor, em termos ontológicos,
poderia-se dizer que a alma tem dois estados de ser, como tudo, um ser potencial (vida interior da
pessoa, substância da alma, forma substancial) e um ser atual - a alma como ela vem ao mundo.
Ainda pode-se dizer, a alma é um ato que possui potência. (inferencias minhas sobre a natureza
ontológica da alma).

Segundo Stein, o ser humano percebe seu corpo como uma realidade unidade internamente. A sua
forma exterior é formada a partir do interior. Em Tomás de Aquino essa formação que parte de
dentro do ser é indicada como forma interior e é chamado por ele como alma, enquanto para
Aristóteles essa forma interior é somente um princípio vital, uma alma vegetativa (enteléquia).

A finalidade do processo de formação humana: a estrutura desenvolvida e articulada que age


a partir do interno, para manter essa forma completa.
No capítulo 3,também se adiciona: permitir que a personalidade humana assuma a sua forma
própria.

Em Stein a forma interior (alma) é a força vital (enteléquia), que dá forma à matéria.

O ser humano como ser animal

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A planta é sensitiva, e suas características são de quietude e fechamento. A psique da planta não é
reativa ao que vem do externo. As potências da alma vegetativa são a capacidade de nutrir-se,
crescer e reproduzir. A alma da planta é limitada ao organismo que forma e só através da
capacidade de se reproduzir vai além de si mesma.

O animal é sensitivo, porque sente a si mesmo. A sensibilidade do animal aos estímulos externos é
uma abertura da natureza animal para o exterior e a sensibilidade no confronto a si mesmo é uma
abertura para o interior. O que diferencia o animal da planta é que esse possui instinto animal, sua
sensibilidade e sua natureza psíquica (demonstram emoções como alegria, dor, raiva medo, etc);
a “linguagem dos animais” e a sua vida comunitária, que os aproxima dos humanos. O animal é
movido na sua alma e o seu mundo psíquico se exprime mediante o seu corpo vivente, entendido
como alma animal que possui uma vida interior, o ponto de troca do qual chegam os impulsos e do
qual partes as reações. Os instintos da alma estão a serviço da manutenção e do desenvolvimento do
corpo, como desejo daquilo que este tem necessidade e rejeição para aquilo que o ameaça. O animal
é regido por leis, não é livre, não pode fazer coisas novas, tem limites pré-estabelecidos. Comparada
à dos humanos, a alma animal parece estar no estado de sono e pré-consciência. As potências da
alma animal são a capacidade de nutrir-se, crescer, reproduzir e as potências dos órgãos dos
sentidos. Sua alma também está totalmente vinculada ao corpo vivente. A transformação da
potência em hábitos já existe no mundo animal e sobre ela se funda o adestramento.

A alma humana está vinculada ao corpo, com suas partes inferiores, a vegetativa e a sensitiva, mas
as suas forças espirituais não estão diretamente e indissoluvelmente ligadas ao corpo vivente. O ser
humano pode fechar-se diante de situações externas e impedir, se quiser, os movimentos da alma
que são produzidos na sua interioridade, o que já não acontece com o animal. No ser humano, a
individualidade assume um significado novo, e não se dá o mesmo com nenhuma criatura interior a
ele.

O ser humano como especificamente humano.

O elemento específico do ser humano: a alma como forma e espírito.

A percepção dos estímulos sensoriais e ações reativas como substratos comuns entre os humanos e
os animais.

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Os atos de reflexão e discernimento do que acontece com ele e com os outros como propriamente
humano. O ser humano não tem só estímulos, tem percepção - e essa é a primeira operação da
atividade intelectual. Para Stein, a especificidade do humano é que ele pode se dar conta da
unidade profunda que existe entre seu corpo, sua psique e seu espírito.
De forma sistemática, podemos compreender que o especificamente humano é o seu espírito, que
lhe confere razão e livre arbítrio, assim como individualidade e consciência sobre si mesmo. Eu
acrescentaria sentimento como uma elaboração consciente das emoções, já presentes nos animais.
A capacidade de tomar decisões e sentir-se livre como proveniente do espírito humano.
A alma como união entre psique e espírito, uma unidade sem contrastes que acontece no âmago do
ser.
Existe um ponto no espaço (temporal) da alma no qual o eu encontro o seu lugar próprio, o lugar
da paz, que este deve buscar até que o tenha encontrado e ao qual sempre deve retornar, se o
abandonou. Este é o ponto mais profundo da alma. Só daqui pode tomar decisões em plena
consciência, daqui pode empenhar-se por qualquer coisa, pode sacrificar-se e doar a si mesmo. Essa
parte central da alma é o seu núcleo interno, sua interioridade mais central, seu mais profundo, onde
reside a identidade própria de cada ser humano, onde a pessoa é singular. (deve estar
profundamente vinculado ao sentido da vida e à missão de vida de cada um). É a sede da verdade ou
de Deus, onde se manifesta a máxima transcendência, presente na imanência. Quanto mais se
escava a profundidade, quanto mais se adentra na interioridade, mais se tem abertura aquilo que
transcende, ou seja, analisar e acolher o que vem de fora.

Segundo Stein, não se pode compreender o ser humano se não se chega à sua singularidade.
A singularidade como caminho para se chegar ao universal.
Além disso, não se consegue captar a universalidade, mas por meio da pessoa singular, que tem
características universais, pode-se chegar ao universal, tanto com relação aos objetos quanto as
pessoas.

O ser humano e sua alma como forma e espírito

A alma do ser humano como uma forma corporis, animal e espiritual. O ser humano tem um alma
individual. Não há no ser humano uma pluralidade de formas, mas uma unidade de forma
substancial.
Conceito de espécie: o que da a forma e determina a estrutura e qualidades do indivíduo.

A essência do espírito: a vida

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Conceito de Geist (espírito)
Geist (espírito) é a potência da alma, engloba intellectus (a parte do espírito que conhece, mais
amplo do que a razão), mens (abraça intelecto e vontade, significa conhecimento e tensão diante
das coisas sensíveis, expressão que sintetiza uma série de potências, a atividade superior do
raciocínio) e spiritus (o que aproxima o ser humano de outras realidades, como Deus ou os anjos,
do hebraico, ruah, é o hálito sopro da vida) [do latim].

Como a energia é a base da matéria, dizemos que há graus diferentes de energia na matéria e cada
ser possui diferentes graus de energia no corpo. Como Deus é o criador do ser humano e da
natureza, tudo o que Deus cria tem aspecto espiritual. Como as matérias apresentam graus
diferentes, então há graus diferentes de espírito na matéria. Como a matéria tem espírito ela
revela sentidos/ mensagens de tipo espiritual, uma vez que todas as coisas tem sentido e
revelam uma finalidade, ao ponto de sua mensagem poder ser captada pelo ser humano. A
matéria possui um sentido hilético, simbólico capaz de reativar ações psíquicas nas pessoas.
As forças que se encontram na matéria: força física e força espiritual.
Na unidade entre a psique e o corpo se forma o corpo vivente (Leib), onde se localiza a força vital
sensível, a força física. Na unidade entre a psique e o espírito está a alma. A “alma da alma” está no
espírito, na parte mais profunda da pessoa, onde reside sua força espiritual, sua motivação, sua
liberdade e seu querer agir em vista do bem e da verdade.

Tentativa de conciliação entre os conceitos de Deus e da Natureza.


Me parece haver em Stein - e talvez na cosmovisão Cristã - um defeito nos conceitos de Deus e da
Natureza, que gera a separação entre os dois, compreendendo Deus como Espírito e a Natureza
como Matéria. Ora, pra mim parece só haver um Deus-Natureza que é simultaneamente Matéria e
Espírito.
Se compreendermos a natureza como a face ou a aparência de Deus no mundo, pode ser que
esse problema seja resolvido - apenas se não incidirmos novamente na separação entre ser e
aparência, mas compreendendo a existência do ser na aparência. A Natureza, numa primeira
tentativa de conceituação, seria a dimensão de Deus visível e compreensível ao ser humano,
constituindo inclusive ele próprio. A Natureza é visível, ainda que para isso tenhamos que recorrer a
profundas investigações que visem aprofundar-se ainda mais nela, vendo cada vez mais além, até
um certo limite, que demarca o invisível, o Transcendente, propriamente, acessível unicamente pela
intuição. O Transcendente, por assim dizer, também pode ser entendido como a Natureza, mas a
Natureza que vai além dos limites da intelegibilidade, ao menos momentâneamente. É o mistério

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próprio dos recônditos mais profundos da dimensão espiritual, sobre o qual a profundidade não
temos a menor idéia. É contudo, através do desenvolvimento e da evolução humana através da
formação do seu pensar, sentir e agir, que adentramos, pouco a pouco, mistério divino da natureza.
O mistério, portanto, não é absolutamente fechado, impenetrável, mas pode somente ser desvelado e
compreendido pelo mérito.

Atentar para o necessário cuidado de diferenciar na minha pesquisa os conceitos de espírito (próprio
do humano) e entidade espiritual, os espíritos desencarnados.

O ser humano como ser social

A estrutura da pessoa humana é determinada (eu diria condicionada, ou ainda formada) pelo seu ser
social em uma multiplicidade de aspectos que se dão por meio dos atos sociais, das relações sociais,
das formas sociais e dos tipos sociais.

As relações sociais se constituem com vínculos de reciprocidade, como a amizade, que só existe se
for recíproca.

As formas de organização social: a sociedade, a comunidade e o estado.

A comunidade é a forma de convivência humana ideal, porque todas as pessoas são envolvidas e se
sentem pertencentes ao grupo. É guiada pelas atitudes espirituais (não as atitudes psíquicas) que
solicitam a reflexão, as críticas em favor da construção de um projeto em vista do bem comum. A
formação da comunidade não é espontânea, mas solicita uma ação conjunta. A essência da
comunidade se fundamenta no ideal moral, com princípios e valores.

O papel da comunidade para a formação humana:


Para que ele (o sujeito) desenvolva sua humanidade, é preciso que ele receba ajuda de outras
pessoas e que esteja inserido em um ambiente humano que colabore na sua completa formação. Os
valores que estão presentes numa comunidade podem ajudar as pessoas a se tornar melhores e,
“com a consciência de pertencer a um povo, inicia a responsabilidade e a necessidade da avaliação
pessoal”. Quando a pessoa tem consciência do próprio modo de ser, ela também assume com mais
maturidade uma função na sociedade.

O estado

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Onde está presente a consciência do próprio modo de ser, só aí podemos chamar o povo de nação; e
onde o próprio modo de ser é vivido como valor próprio, podemos falar de sentimento nacional.

O ser humano como ser religioso

Na profundidade mais íntima de si, a pessoa encontra seu núcleo, e é nessa busca da
profundidade que ela compreende o sentido da própria existência.

A função da experiência religiosa, para Stein: conduzir as pessoas ao seu núcleo. Nessa
experiência a pessoa descobre aquilo que está na sua essência, o que facilita seu processo formativo.

Saber o que somos e o que devemos ser e como podemos chegar a ser é a questão mais urgente pra
cada um. Educar significa conduzir outras pessoas a se tornarem aquilo que devem ser. Não se
pode fazer sem saber o que é o ser humano e como ele é, como deve ser conduzido e quais são as
estradas possíveis.

No processo formativo, é necessário chegar ao conhecimento do núcleo, aspecto sumamente


relevante para elevar a pessoa ao mundo dos valores; também é necessário levar em consideração
as forças espirituais, as capacidades próprias da psique, os dados dos sentidos, assim como as
condições externas que contribuem para a formação da personalidade.

A essência da ação pedagógica, para Stein, é a cooperação entre Deus e a pessoa humana, no
intuito de que ela consiga sua salvação.

Educação para a formação religiosa: tem o objetivo de tornar o jovens segundo a imagem de Deus,
seguidores de Cristo, um outro Cristo. Projeto que assusta, por ser grandioso, mas que se deve
conseguir pois segundo Stein, todo o cristão é chamado à perfeição.

A terceira via de conhecimento para o ser humano (após a razão e a experiencia): a experiência
religiosa, da Revelação por parte de Deus. Essa verdade, que vem de Deus, revela ao ser humano
quem ele é e o que deve fazer.

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO CONCEITO DE FORMAÇÃO: DA ANTROPOLOGIA
FILOSÓFICA À PEDAGOGIA

A formação e a educação, além de conceber o ser humano na sua íntima singularidade, devem
compreendê-lo como uma totalidade, composto de corpo vivente, alma e espírito. Como também
para o ato pedagógico é necessário saber que o ser humano faz parte de um todo, ou seja, de um
povo, que tem características e costumes próprios e precisa ser formado não só como indivíduo,
mas como parte desse todo. P. 91

A antropologia como uma ciência universal do espírito


Uma ciência do homem considerado uma pessoa espiritual, que busca conhecer a individualidade
presente no ser humano. Por meio dela é possível captar, pela individualidade, uma lei ou estrutura
universalmente compreensível do ser humano - seu logos.
Tem como objeto a estrutura de todas as formas espirituais, o que também inclui a formação da
comunidade, do Estado, da língua, dos direitos, etc. Quer atingir a essencialidade das formas
espirituais.
A pedagogia para Stein não deve abandonar a ciência da natureza, mas incorporar a ciência do
espírito.
A pedagogia deve, além de dar a educação científica e cultural, deve conduzir a uma “sabedoria de
vida”.

Stein considera como incompleta e inadequada, como fundamento para a pedagogia, uma
antropologia que não leva em consideração o relacionamento do homem com Deus, que deve
acontecer por meios filosóficos e naturais. Na antropologia convergem todas as questões
metafísicas, filosóficas e teológicas.

O método fenomenológico como via essencial para a formação

O princípio mais elementar do método fenomenológico: considerar as coisas por elas mesmas
(como aparecem à percepção), aproximar-se delas com um olhar privado de preconceitos e captá-las
com visão imediata, sem levar em consideração as teorias sobre as coisas. - que se faz através da
epoché. Pra mim, isso remete a algo que Saja me disse: o psicólogo (ou o professor) estuda gasta
horas, dias, anos estudando profundamente a teoria e se apropriando dela, mas quando se encontra
com o paciente (ou o educando) precisa ser simplesmente um coração escutando e falando com
outro coração - conversar de coração pra coração. O ofício do fenomenólogo me parece ser esse e é

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precisamente isto que está, de alguma forma, enunciado no primeiro princípio, que é o de fazer a
epoché. Qualquer que seja o âmbito da relação - seja na filosofia, na psicologia, na sociologia ou até
mesmo nas ciências duras - me parece que através do método fenomenológico podemos ser
simplesmente pesquisadores pesquisando, o que quer dizer ter desde o primeiro momento a
humildade de reconhecer os limites do seu próprio conhecimento e se permitir ser afetado por
aquilo ou quem pretende conhecer. Isto me parece ser justamente o “retorno as coisas mesmas”,
retorno que só pode se dar pela volta radical à percepção como fundamento para o conhecimento.
Se queremos saber como é um ser humano, devemos nos colocar no modo mais vivo possível, na
situação na qual fazemos experiência do seu ser aqui, quer dizer, daquilo que experimentamos no
encontro com nós mesmos e daquilo que experimentamos no encontro com os outros.
O segundo princípio: endereçar o olhar ao essencial, ao que essa coisa é segundo o seu próprio
ser, é o que essa é segundo a sua essência universal, o que se dá através da intuição.

Os dois passos pelos quais se efetiva o método fenomenológico:

O primeiro é a redução eidética: atitude de colocar entre parênteses (não tomar em


consideração de modo ativo) todas as teorias, saberes anteriores, ou seja, suspender o juízo, fazer
a epoché, para acontecer a visão imediata, a fim de captar a coisa por ela mesma. É o ato de captar
a essência (eidos) das coisas, que se dá numa visão espiritual que Husserl chama de intuição, ou
seja, intuição da essência, o seu sentido. Consiste em tirar o supérfluo para realçar aquilo que é a
coisa em si mesma.

Para formar a pessoa, em primeiro lugar, é preciso conhecê-la, e isso se faz com um procedimento
vivencial. É preciso colocar-se da maneira mais viva possível e fazer a experiência do ser aqui. Para
analisar algo, é necessário partir sempre de si mesmo. O ser humano começa a análise olhando para
dentro de si, para conhecer a sua estrutura interior e exterior.
Ele parte de suas vivências, que ora remetem ao corpo (que percebe pelos sentidos); à psique
(instintos, reações, desejos e impulsos; emoções); ou ao espírito (a abertura para o externo e
interno, que ativa as capacidades reflexivas e motivacional, impulsionando para a responsabilidade
e a liberdade.
O objetivo é captar o fenômeno para compreender a sua essência sem confusão, isto é, colher aquilo
que é próprio do ser humano que se manifesta, a sua essência, que é uma essência universal. É a
atividade intelectual que permite captar a sua essência e depois da análise da vivência fazem-se as
afirmações ou negações sobre o objeto.

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O ser humano é o único capaz de ser ao mesmo tempo objeto e sujeito de reflexão e conhecimento
sobre si mesmo. Por isso ele tem a dupla função de analisar a si mesmo na sua essência e de ser
analisado por si mesmo.

O segundo passo do método é a redução transcendental e consiste justamente em a pessoa ser


analisada por ela mesma, ou seja, a pessoa (educando/pesquisado) precisa fazer uma análise
subjetiva da sua estrutura interior, ir além do que está fora para remeter-se à análise das vivências
internas, tendo como objeto não propriamente o sujeito (ele mesmo) mas as vivências do sujeito.
Compreender como ele percebe a si mesmo e como interpreta e avalia suas próprias vivências.

A novidade do método fenomenológico em comparação às outras posições filosóficas e


psicológicas é a modalidade de alcançar os níveis do corpo, da psique e do espírito através das
vivências. Estas são investigadas pela fenomenologia pelo que são em sua essência e não só
como dado factual. A novidade de Husserl está no segundo passo, porque ele descreve o modo
como o ser humano chega a ser consciente dos seus atos, e o dado instigante é que ele pode ser
consciente já no momento em que está realizando o ato. A consciência é um ato de vivência.

A vivência pode ser um ato de percepção por meio do qual o sujeito vê ou toca alguma coisa, mas
pode ser também o próprio ato de reflexão. O ato de reflexão é uma consciência de um grau mais
elevado, quer dizer, o ser humano tem consciência de tocar um determinado objeto, mas quando
reflete sobre o modo como toca o objeto tem outro tipo de consciência. Assim a consciência dos
atos é de um primeiro nível e a consciência dos atos reflexivos é de um segundo nível.

Esse segundo nível é o que permite ao ser humano ter consciência ou ter uma vivência consciente, e
por meio dessa o conhecimento da sua estrutura pessoal, permitem-lhe averiguação de suas reações
diante dos fatos do dia a dia e dão-lhe embasamento para suas tomadas de decisões, podendo ainda
motivá-lo para viver com maior determinação e empenho.
O primeiro nível é fundamental para o processo educativo, mas se não se chega ao segundo
nível não se atinge a finalidade da educação, pois é nele que se ativam outros atos, como atos de
controle dos próprios comportamento, atos de compreensão, de avaliação, de tomadas de decisão,
etc. O ato reflexivo é a porta para entrar na subjetividade do educando e, a partir daí, acionar as suas
forças, para que ele assuma as responsabilidades perante o processo da própria formação, sempre

Esse processo educacional pode se dar por meio da revisão de seus comportamentos e atitudes, da
averiguação de suas posturas relacionais e todas de decisão, da capacidade de construir projetos

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futuros e concretizar seus sonhos, etc. sempre em vista de seu crescimento e aperfeiçoamento
humano, pessoal e social.

Este assunto se relaciona especialmente com a atividade dos ADB desenvolvida no grupão no
dia 25/05/2020 e a bem da verdade, parece atravessar todas as práticas sócio-educativas dos
ADB.

Nota: não fichei os capítulos 3.3, 3.4 e 3.5 por falta de tempo. Vale a pena retornar a esses
capítulos e fichá-los ainda.

A necessidade do educador conhecer o que específico de cada educando, sua singularidade, para
direcionar o processo formativo para o desenvolvimentos das potencialidades específicas que cada
um possui dentro de si, na sua alma.

A necessidade do processo formativo acontecer sob a trilha da liberdade - a decisão dos educandos
como o limite pedagógico e ao mesmo tempo como a possibilidade da abertura das fronteiras do
próprio educando por ele mesmo.

A espiritualidade em consonância com a formação

A espiritualidade como ato pedagógico


A natureza espiritual do homem - razão e liberdade - exige a espiritualidade do ato pedagógico, isto
é, uma ação comum do educador e aluno que leva em conta o crescimento gradual da
espiritualidade, na qual a atividade de guia do educador deixa sempre mais espaço á atividade
própria do aluno, para conduzi-lo, enfim, à completa autonomia e autoeducação. Os limites da
atividade do educador, dor quais cada um deve ser consciente, se unem à natureza do aluno, para o
qual nem tudo se pode fazer, devido a sua liberdade, que pode se opor à educação e frustrar os
esforços do educador, e enfim a própria inadequação, quer dizer, a limitação dos conhecimentos,
pela qual, por exemplo, mesmo com todo o desejo, não posso ter completa clareza sobre a natureza
do aluno.

Todo ato pedagógico precisa conduzir o educando ao desenvolvimento da sua autonomia, para que
ele governe a sua vida por si mesmo, para que saiba tomar boas decisões para si e para o outro, além
de ter clareza e garantia de por que cumprir determinadas leis, normas ou propostas.

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A função dos educadores portanto exige corresponsabilidade na formação dos educandos, uma
tarefa que exige humildade do educador e ciência para constatar que a individualidade é algo de
misterioso, de surpreendente e imprevisível, que demonstra a impossibilidade do conhecimento de
cada educando na sua inteireza.

Cada ação pedagógica deve conduzir à autoeducação e à consciência de que o educando tem que
ir formando suas potencialidades intelectuais, seu caráter e seus talentos pessoas.
Ao desenvolver as forças espirituais da alma (memória, imaginação, intelecto, vontade,
sentimentos e sentidos) o educando também vai compreendendo a origem e o significado da sua
vida, o que lhe direciona para a percepção de que ele é uma obra divina e gradualmente a sua fé
vai sendo despertada.

A fé como o que faz emergir nos educandos o nexo entre reponsabilidade (de formar a si mesmo) e
confiança (de que Deus nos ajudará a cumprir essa tarefa). A idéia de que ambos (Deus e o
educando) cooperam com a realização da obra divina. Aqui reside o papel pedagógico da fé.

O meio e o fim da educação: formar juízos verdadeiros, opiniões claras e conceitos corretos.

“Verdade e clareza no ensinamento e na educação”


O que é a verdade?
O que é a clareza?
Conhecer: adquirir uma noção nova ou fazer conhecer um objeto novo.
Três fatores para o conhecer: o objeto ou argumento a ser conhecido, o sujeito que cumpre o ato
intelectual de conhecer e o ato em si de conhecer.
É o tipo de objeto que determina seu modo de conhecimento (pelos sentidos, pela percepção
interior, etc)

Conceito de verdade segundo a escolástica: um predicado que se refere ao juízo; a conformidade do


conhecimento e do ser.
Conceito de clareza: o que permite o ato do discernimento e da apreensão da imagem, chegando
assim ao conhecimento da sua natureza própria.
Quanto maior a clareza sobre um objeto, maior probabilidade de emitir juízos verdadeiros e
conceitos corretos.

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Conceito de ensinar: mediar o conhecimento. Implica em fazer os alunos aprenderem juízos
verdadeiros, opiniões claras e conceitos corretos e em formar o seu intelecto de tal modo que eles
se tornem capazes de adquirir juízos verdadeiros, opiniões claras e conceitos corretos.
Ensinar a observar e a pensar autonomamente de maneira correta.

A verdade e a clareza são o meio e o fim do ensino e da educação (Erziehung).

Diferença entre conhecimento humano (se dá posterior à existência da coisa - a posteriori) e


conhecimento divino (precede as coisas - a priori), contém em si um arquétipo ou ideia de cada
coisa criada.

O ser humano é verdadeiro, autêntico, se é tal qual Deus prescreve ao homem para ser, e isso seja
no sentido geral da natureza humano, como no sentido todo particular da personalidade individual.
A autenticidade do humano como a finalidade da educação. A busca da sua autêntica
individualidade e o desenvolvimento da sua autêntica natureza.
Para isso é preciso que o procedimento do educador se paute em opiniões claras, juízos verdadeiros
e conceitos corretos sobre o fim último da educação.
Diante disso, a necessidade de o conhecimento sobre o ser humano não ser apenas do tipo cientifico
a posteriori, mas também filosófico, metafísico e teológico a priori.

O que é formar o ser humano autêntico: formá-lo segundo aquele que assumiu o arquétipo do
ser humano autêntico, ou seja, de Jesus Cristo para conformar-se à sua imagem, predispondo-
se a seguir seu modo de ser e de viver. Isso só é possível se o próprio educador é autêntico e
testemunhar uma vivência conforme os ensinamentos de Cristo.
Além disso, é preciso considerar a outra finalidade da educação, que é o conhecimento da
individualidade pessoal de cada educando.
Formação integral.
A individualidade e a singularidade como uma construção que vai se fazendo e ao mesmo tempo se
desvendando, um processo que jamais se esgota.

O papel dos educadores: ajudar o educando a descobrir e atualizar suas potencialidades, a


manifestar autenticamente a sua singularidade a fim de, gradativamente, ir se conformando à sua
forma original.

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Para tal, deve-se observar três procedimentos:
a) o educando deve ir adquirindo ideias claras do seu projeto de vida, do que deve se tornar para
conduzir sua autoformação, em colaboração com seus educadores e pares;
b) deve ter princípios claros e sólidos, construídos e apreendidos na convivência social, sendo
incentivados a elaborar um modo de se comportar e agir em conformidade com esses princípios;
c) por meio da empatia, vai conhecendo sempre mais a si mesmo, o que favorece a sua abertura,
transparência e motivação para chegar a perscrutar até o fundo da sua alma.

A partir daqui, do capítulo 4, sigo apenas elencando tópicos possíveis para tratar na resenha,
sem me ocupar de fichá-los.

O SUJEITO DA FORMAÇÃO

Pressuposto de Stein sobre a formação:


- É indispensável conhecer quem é o sujeito da formação, tanto no sentido universal quanto no
sentido particular.
O reconhecimento da influência da sociedade na formação, que pode gerar desvios no caminho do
educando. Nem tudo depende do sujeito livre. A formação é autoformação, mas nem tudo está ao
alcance daquele que se forma. Daí a necessidade do educador.
É preciso criar as condições que contribuam para a reversão dos desvios e afloramento da natureza
pura do educando, ajudando-o a se tornar aquilo que ele está destinado a ser segundo sua
singularidade e potencialidades pessoais.
O método fenomenológico como aliado do educador, ajudando-o a compreender cada educando
com base em suas disposições naturais.

Autoeducação
O ser humano responsável por si mesmo: dele depende o que ele é e ele deve fazer de si algo de
determinado: ele pode e deve formar a si mesmo.
Relação com o conceito de espírito - a livre decisão.
Pessoa livre e espiritual: a que conquistou certo autodomínio sobre si e possui espiritualidade
pessoal (vigilância e abertura ao mundo interior e exterior)

Conceito de liberdade: o que permite ao ser humano assumir sua vida na verdade e
responsabilidade e colabora para um direcionamento seguro.

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O exemplo e a coerência entre teoria e prática como método pedagógico mais eficaz.

A espiritualidade do ato pedagógico: ação integrada entre educador e educando que leva em
consideração o crescimento gradual das forças espirituais, deixando cada vez mais espaço para a
atividade do próprio educando, a fim de conduzi-lo a uma completa autonomia e autoformação.

A empatia como via privilegiada para a ação educativa: o reconhecimento do educando como uma
alteridades que precisa ser respeitada, valorizada e levada em consideração no processo educativo.
Os atos da empatia como responsáveis do acesso ao mundo dos valores (em que reside o que é bom,
belo, justo, verdadeiro) - revelam o outro como base de confronto para si mesmo, o que motiva o
desejo de atualizar qualidades adormecidas em sua essência humana.

Os sentimentos como expressão do mundo dos valores, que revelam aspectos da propriedade
pessoal.

AS COMUNIDADES FORMADORAS

O papel das comunidades para a formação (a seguir, transcrição do fichamento do capitulo dois)

As formas de organização social: a sociedade, a comunidade e o estado.

A comunidade é a forma de convivência humana ideal, porque todas as pessoas são envolvidas e se
sentem pertencentes ao grupo. É guiada pelas atitudes espirituais (não as atitudes psíquicas) que
solicitam a reflexão, as críticas em favor da construção de um projeto em vista do bem comum. A
formação da comunidade não é espontânea, mas solicita uma ação conjunta. A essência da
comunidade se fundamenta no ideal moral, com princípios e valores.

O papel da comunidade para a formação humana:


Para que ele (o sujeito) desenvolva sua humanidade, é preciso que ele receba ajuda de outras
pessoas e que esteja inserido em um ambiente humano que colabore na sua completa formação. Os
valores que estão presentes numa comunidade podem ajudar as pessoas a se tornar melhores e,
“com a consciência de pertencer a um povo, inicia a responsabilidade e a necessidade da avaliação
pessoal”. Quando a pessoa tem consciência do próprio modo de ser, ela também assume com mais
maturidade uma função na sociedade.

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As comunidades necessárias para a formação da pessoa: a família, o Estado e a Igreja

A familia como o fundamento mais eficaz e sólido do processo formativo e o papel central da mãe.

O Estado: sua essência = seu poder, seu dever = assegurar o livre desenvolvimento das pessoas e
das comunidades que vivem sob sua proteção.

A Igreja: completa aquilo que não está ao alcance da família, já que esta não possui todos os meios
necessários para atingir os fins últimos da formação, que é educar para a eternidade.
A razão de ser da igreja: a formação do homem ao fim que ele está submetido.
A abertura interreligiosa de Stein.
O que se faz necessário para ela: o reconhecimento do transcendente.

A escola: tem a missão de introduzir os educandos nos campos da cultura, promovendo o encontro
destes com o que Stein chama de espírito objetivo, ou seja, o espírito objetivado nas produções e
nos bens culturais. Através deste encontro ativar nos educandos suas forças vitais, para que
desenvolvam seus talentos e continuem a produção cultural, inicialmente como forma de realização
pessoal, e em seguida, como continuação criativa do patrimônio cultural do seu povo.

FUNDAMENTOS PARA A VIDA EM COMUNIDADE E FORMAÇÃO SOCIAL


CONSTRUTIVA

A função da família e da escola: preparar os educandos para assumir a vida social e comunitária
nas suas variadas formas.

Três pressupostos para uma educação social:


1. A educação social é possível;
2. A educação social é necessária
3. A comunidade é necessária; compreendendo que sem comunidade sem vida social e, portanto,
sem educação dos indivíduos para se tornarem membros da comunidade, não se alcança o fim
último do ser humano.

A vida em comunidade é útil e necessária para a formação da pessoa, pois governa para um
conhecimento mais amplo e coerente de si mesmo, do outro e do mundo.

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Na dupla natureza, a de ser indivíduo e a de ser membro da comunidade existem perigos e conflitos
que só podem ser resolvidos com uma intervenção formativa que seja sistemática e adequada.

A essência da vida comunitária: a comunhão


O que dá sentido à vida em comunidade: os valores

Educação para e pelos direitos humanos: além da promoção do conhecimento da declaração


universal de direitos humanos, das concenções, dos pactos internacionais e resolução, a ênfase na
necessidade de persuadir os educandos ao compromisso, à solidariedade e às ações em favor
da vida e da dignidade humana.

Educação para a responsabilidade social. - necessária para que a comunidade esteja


alicerçada em valores morais e éticos.
A responsabilidade se dá por meio da capacidade de discernir, optar e agir baseando-se em
motivações que vão além do plano pessoal e se estendem para o âmbito comunitário, implicando
decisões mais ou menos alargadas, em prol do bem comum.

Educação para a formação religiosa: tem o objetivo de tornar o jovens segundo a imagem de Deus,
seguidores de Cristo, um outro Cristo. Projeto que assusta, por ser grandioso, mas que se deve
conseguir pois segundo Stein, todo o cristão é chamado à perfeição.

PARTE II: ITINERÁRIOS FORMATIVOS PARA A EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS,


ADOLESCENTES E JOVENS: DIRECIONAR PARA O NÚCLEO DA ALMA OU PARA O
“PONTO ACESSÍVEL AO BEM”.

“O fundo mais íntimo da alma é a sede da mais absoluta liberdade.” - Edith Stein

Crítica à psicologia naturalista e positivista do século XIX, a exclusão do espírito da dimensão


psíquica, considerado derivação da matéria cerebral ou dualisticamente a esta contraposto.

A redescoberta do espírito por notáveis pensadores, como Wilhelm Dilthey, Franz Brentano,
Alexander Pfänder, Edmund Husserl e suas escolas, pioneiros na criação das ciências do espírito e
da alma.

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Conceito de eu: pessoa livre, um ponto móvel que circula nos espaços da alma; onde o eu para
(fixa) e toma posição, lá se acende a luz da consciência, que ilumina um determinado âmbito, que
pode ser tanto do íntimo da alma quanto de uma realidade objetiva para a qual o eu se voltou. É o
ponto que faz a passagem da vida superficial à vida profunda, da possibilidade à realidade
consciente, ou seja, da potência ao ato. - me parece corresponder ao conceito de consciente de
Freud.

Interrelação e diferenciação entre eu, si mesmo, pessoa, alma e espírito.

Eu: é aquele que forma o si mesmo. É um ente cujo ser é vida, como desenvolvimento do eu em um
ser, sendo que esse desenvolvimento se dá a partir dele mesmo.

O si mesmo: aquilo que vai sendo atualizado, na pessoa, por meio das propriedades duradouras da
alma que vão desabrochando. O si mesmo está sempre em travessia, se constituindo.

Pessoa: o eu consciente e livre, dono das suas ações.

A metáfora da alma como um castelo com sete moradas em Santa Tereza d’Ávila.

Espiritualidade: abertura consciente para perceber a presença do criador na alma da sua alma. É a
abertura da pessoa ao outro, a Deus, às propostas e iniciativas que conduzem para a doação da vida
e para o amor incondicional.

O adentramento do eu na alma como aproximação de Deus onde ele reside como o caminho para
um conhecimento mais completo de si, assim como também, surpreendentemente, do mundo
externo.

A essência da alma singular de cada pessoa é o que forma a sua potência e a sua vida. Na essência
se deve distinguir sentido e potência como: sentido sendo a forma do fim, a qual está subordinada
a alma pela sua determinação essencial; a força ou potência de ser lhe é dada para que se torne o
que deve se tornar. A potência se desenvolve na vida da alma.

O sistema preventivo de Giovanni Melchiorre Bosco (1815-1888), educador italiano, padre


diocesano e criador da Sociedade de São Francisco de Sales - Congregação dos Padres Salesiano e
fundou oratórios para acolher e educar jovens pobres e abandonados.

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“Em todo o jovem, mesmo naquele que se encontra numa situação deplorável, há um ponto
acessível ao bem, e o primeiro dever do educador é buscar esse ponto, essa corda sensível do
coração e tirar proveito da mesma.” - corresponde à vida íntima da alma, a alma da alma, o espírito
descrita por Stein
É aí que estão guardadas as condições para uma formação mais completa, pelo descobrimento das
riquezas aí colocadas em todos os humanos pelo seu criador, que é Deus.

Itinerários educativos:
1) Formação da razão. Formar opiniões claras, conceitos corretos e juízos verdadeiros perante
todas as situações da vida. Formar o bom senso, o juízo moral e ético.
2) A formação da espiritualidade, compreendida como a dimensão enraizada no centro da pessoa,
na sua profundidade mais íntima. É algo de essencial, de substancial da vida humana, que
abrange e anima toda a estrutura do ser humano. É a abertura consciente para perceber a
presença do criador na alma da sua alma. É a abertura da pessoa ao outro, a Deus, às propostas
e iniciativas que conduzem para a doação da vida e para o amor incondicional. É a dimensão
que determina o modo de ser e de agir da pessoa.
3) A formação da capacidade de amar como elaboração interior, que se faz de intermediária entre
a razão e a espiritualidade. O amor é a coisa mais livre que se possa existir, é o dom do próprio
ser e identificação com o amado. “A educação é coisa do coração, e ganhar o coração do jovem
é a condição essencial para que se consiga trabalhar com ele.
Entre os três princípio, o amor é o que tem a supremacia, porque além de dar unidade aos outros
dois, é o que principia, define e determina a relação educativa e o fim do processo educativo. O
amor é a síntese dos itinerários educativos.

Na trindade, o amor como unidade para o conhecimento e a formação da pessoa humana.


Precursor: Santo Agostinho: Deus é amor. Trindade: amor, amante, amado. O conhecimento como
requisito para o amor. Trindade: espírito, amor, conhecimento. O amor como fundamento da
memória, do intelecto e da vontade. A divisão trina da vida do espírito: pensar, sentir e querer. O ser
humano: corpo, alma, espírito.

Concluindo

A necessidade da pedagogia e da psicologia analisar o ser humano na sua totalidade, composto de


corpo, psique e espírito, em que consiste o legado da antropologia filosófica de Stein para as
ciências humanas.

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O espírito retrata o intelecto, a vontade e a razão, e o que diferencia o espírito da psique é sua
abertura intencional tanto em relação ao mundo objetivo, que se experimenta, quanto em relação a
subjetividade alheia e a si mesmo.

Alma = psique + espírito.

A forma interior, imbuida de força vital, cuja propriedade é atualizar as potencialidades contidas no
ser da matéria. Deve corresponder ao corpo etérico.

A formação é um processo que acontece a partir do interior no qual a força vital modela o corpo e a
alma de modo que assumam uma forma, para que se consolide segundo o próprio arquétipo (ou a
própria imagem).

A formação deve conduzir a pessoa para a dimensão espiritual, também chamada de alma
intelectiva: a dimensão da razão e da vontade, da consciência do modo próprio de ser e de viver,
uma luz que direciona para a capacidade de refletir, decidir e agir livremente, em vista daquilo que
é melhor e mais apropriado.
A dimensão espiritual é regida por forças espirituais, a saber: memória, imaginação, intelecto,
vontade, sentimentos e sentidos.

O núcleo central, a alma da alma. É o que propicia a abertura para o mundo dos valores. É o
potencial em relação a tudo aquilo que a pessoa pode se tornar ou pode atualizar, de modo tal que a
vida espiritual consciente é o grau superior da atualidade, assim como o grau superior do núcleo.

Atos, hábitos, caráter

A finalidade da formação é possibilitar que a pessoa desenvolva suas potencialidades a partir da


sua dimensão espiritual, para se tornar aquilo que nasceu para ser segundo a sua originalidade
própria, tornando-se pessoa autônoma, livre e responsável, que pauta sua personalidade no mundo
de valores.
O processo educativo precisa se dar segundo das características da originalidade de cada ser.

As relações intersubjetivas, a empatia, o autoconhecimento e autoavaliação. Reconhecer-se no


outro. Formação para o respeito, a compreensão e a valorização mútua.

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Formar o ser humano para agir na sua inteira liberdade, plenamente consciente de seus atos; requer
o percurso do eu ao núcleo da alma, onde é possível dar forma àquilo que está em potência no ser.

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