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5º SIMPÓSIO BRASILEIRO DE SOLOS NÃO-SATURADOS

São Carlos, SP, 25 a 27/8/4

Resenha: Aplicações da Mecânica dos Solos Não-Saturados -


Fundações em Solos Colapsíveis
Cintra, J.C.A.
Professor Titular, USP/ São Carlos
cintrajc@sc.usp.br

RESUMO

Esta resenha trata do problema de fundações de edifícios em solos colapsíveis, com ênfase a trabalhos
publicados sobre provas de carga estática, e, por isso, não contempla outros aspectos importantes do tema
geral da colapsibilidade dos solos.
Na sua estruturação, optou-se por um formato bem diferente do usual, utilizando a figura simbólica de
uma escada. Em vez da abrangência de um estado-da-arte, tentou-se escolher as publicações que possam
caracterizar “degraus” da seqüência dos trabalhos sobre fundações em solos colapsíveis. Os degraus
representam, ao mesmo tempo, temas de trabalho, sem nenhuma correspondência com hierarquia de valores,
e marcos cronológicos, sem estabelecer períodos cronológicos encerrados. Como regra, cada degrau é
caracterizado por apenas um trabalho estrangeiro e um brasileiro.
Para efeitos didáticos, o texto foi dividido em duas “escadas”, denominadas colapso e sucção, com sete
degraus cada. Na primeira, são estabelecidos os degraus dos trabalhos que não incluem o importante papel da
sucção. A segunda escada não é uma continuidade cronológica da primeira, pois há uma simultaneidade
parcial entre elas. Ao final de cada uma das escadas, tem-se um patamar, para representar a síntese do
“momento histórico”, como resultado das reflexões do autor desta resenha.

1. INTRODUÇÃO substitui, quando necessário, a terminologia original


dos autores citados nesta resenha.
Nos solos colapsíveis, geralmente porosos e com
e
baixos teores de umidade, a infiltração de água em
quantidade suficiente pode causar uma espécie de
e0
colapso da sua estrutura, determinando um recalque inundação
suplementar, brusco e de grandes proporções. e1
O fenômeno do colapso pode ser reproduzido em
ensaios edométricos ou em provas de carga, com ∆e

inundação artificial do solo em determinado estágio


de carregamento. No ensaio de adensamento,
analisa-se o comportamento apenas do “material”
solo, enquanto na prova de carga observa-se o
comportamento do “sistema”, que inclui a geometria
e o processo executivo do elemento estrutural de
fundação instalado no maciço de solo. A Figura 1 log σ
ilustra, no ensaio edométrico, a significativa redução
do índice de vazios que ocorre na tensão de Figura 1. Reprodução do colapso em ensaio
inundação, evidenciando o colapso. edométrico
Antigamente, julgava-se que para entrar em
colapso o solo precisaria ser completamente Nos estudos iniciais sobre solos colapsíveis já se
saturado, mas hoje sabe-se que a elevação do teor de afirmava que, à estrutura porosa, caracterizada por
umidade para um determinado valor, aquém da um alto índice de vazios, pode estar associada a
saturação completa, já faz disparar o gatilho desse presença de um agente cimentante. Posteriormente,
fenômeno. Esse teor de umidade ou grau de descobriu-se o importante papel da pressão de
saturação suficiente para acionar o mecanismo do sucção, a pressão neutra negativa que se desenvolve
colapso caracteriza a condição de solo inundado, de nos solos não-saturados. A baixos valores do teor de
acordo com a terminologia apresentada no próximo umidade correspondem altos valores da sucção
item. Para facilidade de leitura, essa terminologia matricial, que é uma parcela da sucção total,
gerando uma coesão adicional (coesão “aparente”)

1
e, portanto, aumentando significativamente a 2. TERMINOLOGIA
resistência ao cisalhamento do solo. Então, a
inundação do solo colapsível provoca o É normalmente aceito que leigos não tenham
enfraquecimento (ou destruição) da cimentação e a conceitos exatos e que, por isso, geralmente, não
dissipação da sucção matricial, anulando a coesão façam distinção semântica entre dois vocábulos de
“aparente” e, portanto, reduzindo significativamente significado “próximo”, tais como eficiência e
a resistência ao cisalhamento, o que provoca o eficácia, juiz e árbitro, roubo e furto, socialismo e
colapso da sua estrutura. comunismo, etc. O significado leigo, ou não-
Há solos colapsíveis que, ao serem inundados, especializado, de certos vocábulos tem uso tão
entram em colapso sob atuação apenas do estado de comum que acaba registrado nos dicionários.
tensões geostáticas (peso próprio da camada), isto é, Em trabalhos técnicos e científicos, porém, é
sem carregamento externo. É o caso, por exemplo, imprescindível adotar uma terminologia precisa. Por
do loess russo. Não parece ser, entretanto, o caso isso, apresenta-se a seguir o significado de alguns
dos solos colapsíveis do Brasil, nos quais o colapso termos específicos utilizados nesta resenha,
só ocorre se a carga externa atingir um valor limite adequados a provas de carga com inundação do solo
(ou crítico ou mínimo necessário), definido por durante o ensaio. Sempre que possível, inclui-se o
Cintra (1995) como “carga de colapso”. crédito ao pioneirismo no uso do termo.
Portanto, o requisito duplo para que as estruturas
edificadas nos solos colapsíveis (brasileiros) sofram Carga de colapso
recalque de colapso são o aumento do teor de
umidade até a inundação do solo e a atuação, nas Valor mínimo de carga, aplicada a um elemento
fundações, de uma carga, no mínimo, igual à carga isolado de fundação em solo colapsível, que,
de colapso. Então, o solo colapsível pode não entrar sobrevindo a inundação do solo, é suficiente para
em colapso por insuficiência de umidade e/ou de deflagrar o fenômeno do colapso. O conceito de
carga. Mas, ocorrendo o colapso, os danos podem carga de colapso é uma proposição de Cintra (1995).
ser mais ou menos graves, dependendo dos Numa prova de carga em estaca, com inundação
recalques diferenciais resultantes. do solo na carga admissível (Pa) e ocorrência do
No caso, por exemplo, das intensas chuvas que colapso nesse estágio de carregamento (Figura 2), a
ocorreram no interior do Estado de São Paulo, em carga de colapso deve ser pesquisada com a
1995, a Defesa Civil catalogou algum tipo de dano inundação em estágios inferiores à carga admissível.
em cerca de 4.000 edificações, na cidade de Em outra situação, em que não se constate o colapso
Araraquara, SP, onde se registrou a precipitação de na carga admissível (Figura 3), a determinação da
135 mm no dia 31/1 e de 660 mm em 10 dias de carga de colapso (Pc) exige a introdução de novos
chuvas ininterruptas. Em tubulões escavados, mas estágios de carregamento, mantida a inundação.
ainda não concretados, constatou-se a elevação de 4
m no nível d´água, que perdurou por mais de um Pa R Carga

mês. Incrível, nesse caso, foi a explicação de um inundação


engenheiro, entrevistado num programa de rádio de
grande audiência local, que invocou reflexos de um
Recalque

abalo sísmico havido na Colômbia (Cintra, 1998).


Tal tipo de interpretação equivocada já havia sido
dado em Terra Roxa, PR, quando uma forte
tempestade precipitou 155 mm em 4 h, causando
sérios danos em construções: rachaduras de
alvenaria com aberturas de até 100 mm, inclinação
de paredes, ruptura de muros, rompimento de canos
de água e de esgoto, ruptura de vigas de concreto, Figura 2. Colapso na carga admissível
desaprumo de janelas, quebra de vidros e azulejos, Pa Pc Carga
R
emperramento de portas e rachaduras extensas no
solo. Segundo Lopes (1987), a população e a inundação
imprensa imaginaram a ocorrência de um terremoto,
associado ao enchimento do reservatório de Itaipu.
Recalque

Portanto, fundações implantadas em solos


colapsíveis podem apresentar um comportamento
satisfatório por algum tempo, mas bruscamente
sofrer um recalque adicional, em geral de
considerável magnitude, por causa da inundação
repentina do solo.
Figura 3. Colapso além da carga admissível

2
umidade. Portanto, por não se tratar do mesmo
Nessas duas figuras, em que R simboliza a fenômeno, é preferível, em nome da precisão,
capacidade de carga, utiliza-se uma forma de curva reservar o vocábulo “colapso”, no âmbito
carga x recalque compatível com o modo de ruptura geotécnico, apenas para o fenômeno provocado pela
denominado ruptura física, para evitar a discussão inundação do solo colapsível sem acréscimo de
sobre critérios de ruptura. Mas, para os conceitos carga.
apresentados, não importa a forma da curva. Em São
Carlos, SP, por exemplo, as provas de carga em Inundação
placa e em tubulão exibem um padrão de curva
carga x recalque com um trecho final retilíneo no Ato ou efeito, acidental, natural ou artificial, de
carregamento, com resistências sempre crescentes elevar o teor de umidade de um solo colapsível até,
com os recalques, o que exige a aplicação de um pelo menos, o necessário para que ocorra o colapso.
critério de ruptura convencional para definir a Essa elevação do teor de umidade, até a inundação,
capacidade de carga, e, no descarregamento, uma para deflagrar o colapso, corresponde a uma
recuperação elástica praticamente nula. diminuição da sucção matricial até praticamente
zerar o seu valor. Assim, solo inundado equivale à
Colapsibilidade condição de sucção matricial nula. As causas de
inundação do solo, além da artificial, podem ser:
Propriedade dos solos colapsíveis de entrar em ruptura de condutos de água ou esgoto, infiltração
colapso quando inundados sob carga constante, pelo de água de chuva, fissuras e trincas em reservatório
menos igual à carga de colapso. É equivocado o uso d´água enterrado, ascensão do lençol freático, etc.
da expressão “colapsividade do solo”, pois sempre Antigamente, usava-se o termo “saturação” por
que couberem os dois sufixos, “bilidade” e julgar-se que o solo colapsível precisaria ser
“vidade”, o primeiro se aplica ao elemento passivo e completamente saturado para entrar em colapso. É o
o segundo, ao ativo, como, por exemplo, no caso de caso, por exemplo, da afirmação de Vargas (1978):
erodibilidade do solo (o solo é que sofre a erosão) e “quando a quantidade de água que entra nos poros
erosividade da água (a água é que provoca a erosão). não é suficiente para saturá-los, o colapso estrutural
não se dá”. Mas ultimamente se compreendeu que
Colapsível não há necessidade da saturação completa para
ocorrência do colapso, despertando o interesse por
Característica dos solos que sofrem colapso ao um termo substituto. Alguns autores brasileiros
serem inundados sob carga constante, maior ou tentaram o uso de “encharcamento”, “umedecimento
igual à carga de colapso. Jennings e Knight (1957) e “irrigação”, mas acabou predominando o emprego
usaram pela primeira vez a expressão “solo de “inundação”, provavelmente porque, na falta de
colapsível” em inglês: collapsing soil (depois um termo mais apropriado, lembrou-se da expressão
tornou-se mais freqüente o uso de collapsible soil). “tensão de inundação”, que já era utilizada no ensaio
Os termos “colapsível” e “colapsibilidade” foram edométrico realizado com introdução de água no
utilizados em português, pela primeira vez, por corpo de prova, para um certo nível de tensão
Vargas (1970). aplicada. No sentido corriqueiro, “inundação” e
“saturação” são vocábulos praticamente sinônimos,
Colapso mas um dos verbetes registrados no Aurélio, para
“inundar”, tem a acepção de umedecer, molhar ou
Fenômeno que ocorre com a estrutura de certos banhar. Portanto, no tema da colapsibilidade e dos
solos porosos e não-saturados ao serem inundados solos não-saturados, o termo inundação tem um
sob carga constante, no mínimo igual à carga de significado específico, que pode abranger ou não a
colapso. A inundação praticamente anula a sucção saturação completa. A falta de um termo mais
matricial, reduzindo em muito a resistência ao adequado parece ocorrer também na língua inglesa,
cisalhamento do solo e causando uma espécie de pois os autores têm usado várias opções: wetting,
“desmoronamento” ou “desabamento” da sua soaking, inundation, flooding, application of water,
estrutura. Peck e Peck (1948) foram os pioneiros no moistening, etc.
emprego do termo “colapso” com esse significado,
inicialmente na forma verbal to collapse, em inglês. Recalque de colapso
Na literatura geotécnica, encontra-se, às vezes, o uso
do termo “colapso” englobando também o Recalque produzido pela inundação de um solo
significado de esgotamento da capacidade de carga colapsível, sob carga constante, no mínimo igual à
de um elemento isolado de fundação submetido a carga de colapso, e, portanto, suplementar ao
uma carga suficientemente elevada, mas sem recalque estabelecido antes da inundação. A
inundação do solo. Nesse caso mantém-se a magnitude do recalque de colapso depende do valor
umidade e aumenta-se a carga, enquanto no colapso, da carga aplicada e do teor de umidade do solo antes
ao contrário, mantém-se a carga e aumenta-se a da inundação, além de outros fatores.

3
A mais antiga notícia sobre a existência do
Solo inundado problema de recalque provocado por inundação do
solo, sob carga constante, é, provavelmente, a de
Condição de umidade do solo entre a mínima autoria de Zamarin e Reshetkin (1932), apud Abelev
suficiente para provocar o colapso e a saturação e Askalonov (1957): “solos loéssicos, com sua
completa. Um solo inundado pode não estar estrutura macroporosa, apresentam problemas de
saturado, mas todo solo saturado está inundado. recalque, sob fundações de estruturas e edifícios, por
causa da sua tendência para deformação quando
Solo não-inundado inundados”.
Um registro histórico muito interessante foi feito
Condição de umidade (variável) do solo por Abelev (1938), apud Cambefort (1972). Trata-se
insuficiente para deflagrar o colapso. Muito se do caso de uma escola ucraniana, com fundações em
emprega, até hoje, no Brasil e no exterior, a solo do tipo loess, que após ter sofrido um incêndio,
expressão “umidade natural” de um solo colapsível. apresentou uma inclinação acentuada, exigindo
Porém o teor de umidade dos solos não-saturados escoramento. Constatou-se que foi a água lançada
não é constante ao longo do tempo, influenciado que pelos bombeiros para apagar o fogo que, infiltrando-
é pelas variações climáticas e pluviométricas. Sabe- se no solo, provocou o recalque de uma parte da
se hoje que essas oscilações naturais do teor de construção e, conseqüentemente, o desaprumo.
umidade podem se traduzir em variações No Brasil, Vargas (1951) faz a primeira menção à
importantes da sucção matricial e, existência do problema em construções residenciais
conseqüentemente, da capacidade de carga de ao citar que “a argila porosa vermelha da cidade de
fundações em solos colapsíveis. Por isso, deve-se São Paulo tem sido tradicionalmente um problema
evitar o uso da expressão “solo na umidade natural”. de fundação”, pois “a construção de edifícios sobre
essa argila, mesmo com tensões admissíveis
No caso de prova de carga realizada com pré- reduzidas nas sapatas, tem resultado em recalques
inundação do terreno, pode-se considerar, por que, na maioria das vezes, são suficientemente
extensão de conceito, que a colapsibilidade se grandes para trincar a alvenaria de tijolos”. Porém,
manifesta não por um recalque abrupto, já que não não é feita associação desses recalques com a
se tem um degrau na curva tensão x recalque, mas infiltração de água, embora, naquela época, já se
pelo aumento da deformabilidade (Figura 4). A ouvissem “crônicas de casas residenciais que tinham
aplicação de um critério de ruptura à curva carga x trincado e recalcado depois que ocorrera ruptura de
recalque de uma prova de carga, realizada com encanamento de água” (Vargas, 1993). Silveira e
inundação prévia, indica, também por extensão de Souto Silveira (1963) assinalam que um grande
conceito, a carga de colapso. número de casas em São Carlos, SP, apresentam
danos e trincas, também sem deduzir que a causa era
Carga
a infiltração de água. É Vargas (1970) quem faz essa
Pc R
correlação pela primeira vez, ao mencionar que “no
solo poroso do interior de São Paulo um simples
vazamento de esgoto pode provocar o recalque de
colapso nas fundações de uma casa pequena”.
Recalque

Fora do contexto de fundações de edifícios, há a


referência anterior de Scherrer (1965), sobre a
barragem de terra de Jurumirim, na qual a
“saturação das fundações devida ao enchimento do
reservatório produziu um recalque adicional além
daquele devido ao adensamento”.

Figura 4. Carga de colapso determinada em prova de 2º Degrau: Medidas reparadoras


carga com pré-inundação do solo
Peck e Peck (1948) fazem, provavelmente, o
primeiro relato sobre trabalhos de reparação em
3. PRIMEIRA ESCADA: COLAPSO fundações que sofreram recalque de colapso devido
à inundação do solo.
Nesta escada são estabelecidos os degraus Trata-se de um edifício térreo construído em
representados dos trabalhos que não incluem o papel 1930, em local não mencionado, com área de 100 x
importante da sucção matricial no comportamento 61 m2, para execução de serviços em locomotivas a
de fundações em solos colapsíveis. vapor, inclusive sua lavagem. A maior parte do piso
era ocupada por 16 cavas, com 1,2 m de largura, 1,2
1º Degrau: Constatação da existência do problema a 1,8 m de profundidade, e cerca de 36 m de
extensão, para possibilitar os serviços sob as

4
locomotivas. As sapatas de fundação dos pilares residências, igrejas, centros de saúde, posto
foram projetadas para uma tensão admissível de 150 metereológico, escolas, hotéis, um bloco de
kPa, resultando a maioria delas com área de 1,5 m2. edifícios comerciais, etc.) Para o projeto desse
“O solo era descrito como silte, com material complexo, foram feitas 1.481 sondagens com
cimentante suficiente para fazê-lo coesivo e muito 12.156 m perfurados, abertos 20 poços com mais de
estável; várias estruturas pesadas já haviam sido 100 m perfurados e realizadas 64 provas de carga
construídas na vizinhança e nenhuma delas tinha (em placa, estacas e tubulões).
experimentado recalque suficiente para levantar Numa das provas de carga realizadas, em placa de
alguma suspeita sobre a qualidade do material de 0,8 x 0,8 m2, investigou-se o efeito da água sobre a
fundação.” argila siltosa de Volta Redonda. Nesse ensaio, o
Mas “menos de um ano após a construção, terreno resistiu bem à tensão máxima aplicada de
recalques comprometedores foram observados na 0,38 MPa, com recalque estabilizado de 14 mm,
área nordeste do edifício”, onde “seis cavas mas com a inundação da cava, mantida a tensão
recalcaram entre 25 e 150 mm e vários pilares máxima, deu-se o colapso em poucas horas, com o
recalcaram de 25 a 380 mm”, causando danos recalque passando para 42 mm. Em seguida,
estruturais. Descobriu-se que justamente a área experimentou-se descarregar a placa e recarregá-la
nordeste, e somente ela, havia sido extensivamente mantendo-se a inundação, quando, então, houve
usada para lavar as locomotivas. “Assim que o ruptura nítida a partir de 0,25 MPa de tensão,
subsolo se tornou mais ou menos saturado, escoando-se o terreno lateralmente.
rapidamente os recalques ocorreram”. “Onde a
estrutura do material foi completamente destruída, 4º Degrau: Prova de carga em estacas e tubulões
foi necessário reconstruir algumas sapatas e reduzir com inundação
a tensão admissível para 50 kPa”. Também foi
impermeabilizado o piso da área de lavagem das a) Estacas à compressão
locomotivas, além de providenciadas instalações
adicionais de drenagem. “Durante 15 anos após a Um trabalho pioneiro sobre provas de carga em
execução dessas reparações, não ocorreram estacas em solo colapsível é o de Holtz e Gibbs
recalques adicionais”. (1953), que relata a realização de 28 ensaios, em
É interessante observar que a medida adotada de Nebraska, EUA, para a construção de estruturas
reduzir a tensão significa a intuição, presente já hidráulicas em loess. O recalque era tido como o
naquela época, de que o colapso depende do nível problema mais importante neste tipo de construção,
de tensão aplicada e que, portanto, para tensões em loess, por causa do colapso da estrutura do solo
menores o colapso pode deixar de ocorrer. quando inundado sob carga e, por isso, o emprego
de estacas era considerado a solução do problema.
3º Degrau: Prova de carga em placa com inundação Então planejou-se um programa experimental
para ensaiar estacas cravadas ou instaladas com pré-
Holtz e Gibbs (1951) apresentam os resultados furo, se necessário, e estacas moldadas in loco com
pioneiros de provas de carga realizadas em placas de camisas metálicas. Foram escolhidos dois sítios para
0,3 x 0,3 m2, 0,9 x 0,9 m2, e 1,5 x 1,5 m2, em loess a pesquisa. Em cada sítio havia uma área para
com pré-inundação e em loess não-inundado, em instalação de estacas com pré-inundação do terreno
cavas com 1,5 m de profundidade e com mesmo e outra para implantação de estacas sem pré-
tamanho das placas. Os resultados dos ensaios nas inundação. Na área em que não houve pré-
placas maiores, por exemplo, mostram que, embora inundação do terreno para instalação das estacas,
o loess seco tenha suportado carregamentos de até realizaram-se provas de carga em duas condições:
400 kPa, sem nenhum indício de ruptura e com com e sem pré-inundação.
recalques de apenas 10 mm, no solo inundado houve No primeiro sítio, para estacas de ponta, com
um aumento significativo da deformabilidade (para cerca de 14 m de comprimento, apoiadas em areia
uma tensão de 200 kPa, o recalque aumentou de 3 compacta subjacente ao loess superficial com 10 a
mm para 40 mm). 12 m de espessura, praticamente não houve
No Brasil, o pioneirismo na realização de provas influência da inundação nos resultados das provas
de carga em placa, em solo inundado, aparece na de carga. Já no segundo, para estacas de atrito, com
publicação de Nápoles Neto e Lorena (1956), que 17 m de comprimento, embutidas em loess com
descreve os estudos efetuados pelo IPT para as mais de 18 m de espessura, houve diminuição
fundações da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, significativa da capacidade de carga por causa da
no início da década de 40. inundação do terreno. Para uma estaca cravada com
Trata-se da maior obra civil do Brasil até aquela pré-furo a seco, a capacidade de carga de
época. Numa área de 7 km2, localizaram-se a usina aproximadamente 1000 kN caiu, com a inundação,
(35 construções industriais totalizando 0,25 km2 de para 500 kN e, para uma estaca cravada com pré-
área construída) e a parte residencial, a cidade de furo obtido por injeção d´água, a redução foi de
Santa Cecília (3.700 construções, incluindo 1500 kN para 1200 kN. Em outra estaca, cravada

5
sem pré-furo, a capacidade de carga, que era bem decorridos 92 min do início da inundação. O
superior a 1500 kN, reduziu-se a 600 kN no caso de recalque, que estava estabilizado em cerca de 2 mm,
terreno pré-inundado. antes da inundação, ultrapassou 45 mm.
É interessante observar que a decisão de realizar
esses ensaios indica que, já naquela época, sabia-se c) Grupos de estacas
que as fundações profundas também podem ser
afetadas pelo colapso. Fernandes (1995) apresenta os resultados de
No Brasil, Albiero (1972), embora tenha provas de carga realizadas em grupos de duas a
realizado apenas provas de carga sem inundação (19 quatro estacas, em São Carlos, SP. As estacas eram
ensaios em estacas escavadas do tipo broca com do tipo broca, escavadas mecanicamente, com 0,25
diâmetro 0,15 a 0,30 cm e comprimento de 2 a 8 m, m de diâmetro e 6 m de comprimento, com
em São Carlos, SP), já destacava o fato de que “esse espaçamento entre estacas igual a três diâmetros, de
tipo de solo apresenta, quando inundado, uma centro-a-centro.
sensível redução de sua resistência ao cisalhamento Realizadas as provas de carga nos grupos de
e, por isso, na estação chuvosa esse tipo de estaca estacas, primeiramente sem inundação do solo,
sofre uma redução de sua capacidade de carga”. foram obtidos os seguintes valores de capacidade de
As primeiras provas de carga em estaca, com carga: 326 kN (duas estacas), 497 kN (três estacas
inundação do terreno, no Brasil, provavelmente em linha), 472 kN (triângulo) e 599 kN (quadrado).
foram as relatadas por Mellios (1985) e Monteiro Depois, com a inundação, as correspondentes cargas
(1985). Trata-se de provas de carga em estacas do de colapso foram de 190, 350, 350 e 450 kN,
tipo broca, nos solos porosos das proximidades da implicando valores de redução de capacidade de
Hidrelétrica de Jupiá, realizadas com e sem carga de 42, 30, 26 e 25% (Fernandes, 1995;
inundação do terreno. As estacas foram executadas Fernandes e Cintra, 1997).
com trado mecânico, com diâmetro de 0,3 m e
comprimento de 5 m. Constatou-se uma capacidade d) Carga horizontal em estacas
de carga da ordem de 150 kN, sem inundação do
terreno, valor esse que se reduziu para cerca da Miguel (1996) apresenta os resultados de provas
metade com a inundação prévia. de carga horizontal em estacas. Foram ensaiados
Nesse mesmo ano, há o registro interessante feito pares de estacas Strauss (0,28 m de diâmetro e 10 m
por Moraes et al. (1985) do colapso ocorrido “por de comprimento) e de estacas raiz (0,25 m de
acaso” numa prova de carga, uma vez que não se fez diâmetro e 16 m de comprimento), em São Carlos,
a inundação proposital do terreno. No ensaio de SP.
carregamento em tanque de armazenamento de Com a inundação do terreno, encontrou-se uma
GLP, apoiado em berços sobre estacas Strauss, após redução, em média, de 24 para 20 kN (17%) e de 27
a aplicação da carga máxima de ensaio e para 22 kN (19%) na capacidade de carga horizontal
estabilização do recalque, mas antes do início do para as estacas Strauss e raiz, respectivamente.
descarregamento, houve um chuva intensa que Quanto ao coeficiente de reação horizontal do solo
inundou o local e provocou o recalque de colapso. (nh), o parâmetro que rege o comportamento de
estacas carregadas horizontalmente em areia,
b) Estacas à tração obteve-se o valor de 8000 kN/m3, na condição não-
inundada, e uma enorme redução de 78% desse
Nadeo e Videla (1975) relatam a realização de valor em conseqüência da inundação (Miguel, 1996;
prova de carga à tração, com pré-inundação, numa Miguel e Cintra, 1996).
estaca escavada de 0,3 m de diâmetro e 14,9 m de
comprimento, na cidade de Córdoba, Argentina, na e) Tubulões a céu aberto
fase de projeto de um viaduto. Um carregamento
inicial, sem inundação, foi levado até apenas 120 Carneiro (1999) apresenta os resultados de provas
kN, com recalque estabilizado de 0,2 mm. No de carga realizadas em São Carlos, SP, em quatro
descarregamento, inundou-se no estágio de 60 kN, tubulões a céu aberto com fuste de diâmetro 0,6 m e
atingindo-se um recalque de 0,8 mm. Finalmente, base alargada apoiada à cota –8,0 m, com diâmetro
procedeu-se a um ensaio com pré-inundação, até de 1,5 m. Dois tubulões foram ensaiados com pré-
840 kN, que originou um recalque de 29,0 mm. inundação do terreno, determinando uma carga de
No Brasil, Carvalho e Souza (1990) apresentaram colapso média de 820 kN e, outros dois, sem
resultados de provas de carga à tração, realizadas em inundação, com valor médio de capacidade de carga
Ilha Solteira, SP, em estacas do tipo broca, de 1230 kN. Esses valores indicam uma redução de
escavadas mecanicamente com 6 m de comprimento capacidade de carga de 33% devido à inundação do
e 0,25 m de diâmetro. Num ensaio inicial, sem terreno.
inundação, atingiu-se a carga de ruptura de 150 kN.
Em seguida, realizou-se novo ensaio, com 5º Degrau: Melhoria do solo como solução de
inundação no estágio de 50 kN, ocorrendo o colapso projeto

6
na antiga URRS. No Brasil, a compactação como
Abelev e Askalonov (1957) descrevem um medida preventiva ao colapso foi mencionada por
procedimento de melhoria do solo, para evitar o Aragão e Melo (1982), no caso do Conjunto
recalque de colapso. Trata-se do método de Habitacional Massangano, constituído por 1200
estabilização dos solos loéssicos por injeção de uma casas, em Petrolina, PE. Constatou-se a ocorrência
solução de silicato de sódio, empregado em 1949, na de colapso no solo de fundação, o qual foi
cidade de Zaporozhye, ex-URSS, na estabilização responsável pelo aparecimento de fissuras, trincas e
do loess de fundação sob chaminés de 80 e 120 m rachaduras em mais de 600 casas e, para a execução
de altura. das fundações de novas casas, os autores
Esse método da silificação de solos loéssicos foi recomendaram o procedimento da compactação para
usado logo depois, de 1954 a 1956, como medida evitar o problema do colapso.
reparadora no Teatro Ópera de Odessa, afetado por Mas a comprovação da eficácia da compactação
recalques de colapso que se repetiam. Após o somente se iniciou com os ensaios em modelos
término dos trabalhos (15.400 m3 de solo realizados por Cintra et al. (1986). Em placas de 30
estabilizado por meio de 2.250 furos de injeção), x 60 mm2, instaladas no topo de blocos
realizados em interdição do teatro, os recalques indeformados (300 x 300 x 240 cm3), em
cessaram. Nesse caso de Odessa, para verificar a laboratório, realizaram-se provas de carga com
eficácia do método, foram realizadas duas provas de inundação na tensão de 80 kPa. Com grau de
carga em placa com área de 0,5 m2. O recalque do compactação de 90%, o recalque de colapso foi
solo estabilizado, após inundação, foi igual a 3 mm, reduzido em 86%.
enquanto o solo não-estabilizado recalcou 67 mm, Depois, foram realizados ensaios in situ, em placa
para a tensão aplicada de 250 kPa. circular de diâmetro 0,80 m, em Ilha Solteira, SP.
No Brasil, o procedimento de melhoria do solo Para a tensão de 60 kPa, a redução do recalque de
colapsível mais citado, para reduzir colapso foi de 87% por causa da compactação, ao
substancialmente o recalque de colapso e viabilizar diminuir de 38,2 para 4,9 mm. Finalmente, foram
o emprego de fundações por sapatas, tem sido a construídas duas sapatas de 0,60 x 3,00 m2, com
compactação do solo. O próprio solo escavado, até aplicação de uma sobrecarga de 120 kPa e posterior
uma profundidade z, contada a partir da cota de inundação. O recalque de colapso diminuiu de 19,4
apoio da sapata e igual à largura B da sapata, é para 1,8 mm, resultando uma redução de 93% por
reposto em camadas compactadas, conforme o causa da compactação do solo sob a sapata (Souza,
esquema da Figura 5. 1993; Souza e Cintra, 1994; Souza et al., 1995).
Essas reduções são impressionantes, inclusive
B/2 B/2 porque se tem a presença do solo colapsível não-
compactado a uma distância de apenas B da base da
sapata. Ocorre que a essa camada não-melhorada
chega uma tensão propagada aproximada de apenas
B 25% da tensão aplicada pela sapata. Assim, a
compactado
utilização da tensão admissível σa, determinada sem
z=B o benefício da compactação, corresponde a aplicar
somente ¼ σa no topo da camada não-compactada, o
que ameniza significativamente o colapso (por
Figura 5. Uso de sapatas em solo colapsível diminuição da tensão).
compactado (Cintra et al., 2003) Obviamente quanto mais espessa a camada
compactada, maior a eficácia da solução. Para uma
Inicialmente, a compactação foi concebida como espessura de 2B, por exemplo, a tensão propagada
solução para redução da compressibilidade de solos ao topo da camada não-compactada é de cerca de
porosos para emprego de fundações por sapatas apenas 10% da tensão aplicada pela sapata. Porém,
como, por exemplo, nos casos das fundações dos economicamente a solução deixa de ser interessante.
hangares da Escola de Aeronáutica de Pirassununga Essa melhoria do solo colapsível não se aplica
(IPT, 1944), da fundação de um grande reservatório aos casos em que as sapatas têm dimensões muito
de água, o Reservatório da Consolação, na cidade de grandes, pois economicamente e até tecnicamente
São Paulo, com cerca de 50.000 m3 de capacidade pode ser inviável remover uma camada muito
(Vargas, 1951), e das fundações dos edifícios da espessa de solo para compactá-lo. Um exemplo de
Escola de Engenharia de São Carlos, de um ou dois aplicação incorreta dessa solução ocorreu em
andares, para laboratórios, salas de aula e anfiteatros Paulínia, SP, nas fundações de tanques de betume
(Silveira e Souto Silveira, 1963). com 40 m de diâmetro e 15 m de altura (Cintra et al.
Abelev & Askalonov (1957) já citavam que o 2003). A partir de outra experiência, bem-sucedida,
método mais simples de eliminar recalque de em tanques menores, com remoção de uma camada
colapso é compactar o solo mecanicamente, cuja de 7 m para compactação, usou-se equivocadamente
eficácia era corroborada pela experiência na a mesma espessura de 7 m em Paulínia. Já no teste
construção de barragens de terra em solos loéssicos

7
do tanque, ao se fazer o enchimento com água, um uma significativa redução adicional do índice de
vazamento na mangueira, próximo à parede do vazios, que caracteriza o recalque de colapso.
tanque, provocou um recalque de colapso de 30 cm, No Brasil, Queiroz (1959) foi o primeiro a
comprometendo a utilização do tanque. O benefício realizar ensaios edométricos com inundação do solo
da compactação foi insuficiente, pois essa espessura por ocasião do projeto e construção da Barragem de
de solo compactado de 7 m (17% do diâmetro do Três Marias.
tanque) implicou a propagação, até o topo da Em outro trabalho, bem posterior, Jennings e
camada não-compactada, de cerca de 70% da tensão Knight (1975) apresentam o conceito básico de
média aplicada pela base do tanque. Portanto, a recalque de colapso, ilustrado pela Figura 6. Sob a
redução da tensão ficou bem aquém do necessário. atuação da tensão admissível (σa), uma sapata com
No interior de São Paulo o procedimento da base bem acima do NA sofre um recalque “normal”,
compactação é bem indicado para as obras pequenas praticamente estabilizado no tempo t1, quando
e até médias, mas o seu uso tem sido muito restrito, ocorre a ruptura de um conduto de água próximo da
por causa do advento das estacas apiloadas, que têm base da sapata. Então surge o recalque de colapso,
baixo custo e boa produtividade nos solos porosos. sem alteração da tensão aplicada, mas com
Outro método de melhoria do solo colapsível acréscimo importante do teor de umidade devido à
pode ser a “cravação” de tubulões a céu aberto para quebra do tubo.
aumento da capacidade de carga e da carga de
colapso (Benvenutti, 2001; Cintra et al., 2004a).
Dois tubulões com fuste de diâmetro 0,5 m e com
base alargada (diâmetro de 1,5 m e altura de 0,9 m) σa
assentada à cota -6,0 m, foram ensaiados em São
Carlos, SP. Essa cota jamais seria cogitada para
apoiar a base de tubulões, em projetos reais de
fundações, porque o solo é compressível e
colapsível. Mas os tubulões foram executados com
base apoiada nessa cota, de propósito, para
pesquisar o benefício da cravação, a qual foi
simulada por meio de sucessivas provas de carga
estática no mesmo tubulão.
Realizadas as provas de carga, uma sem
inundação do terreno e outra com pré-inundação,
encontraram-se inicialmente os baixos valores de
capacidade de carga, de 871 kN, e de carga de
colapso, de 408 kN, respectivamente. Com a
“cravação” dos tubulões esses valores cresceram
significativamente. Para 0,3 m de “cravação”, por
exemplo, a capacidade carga passou para 1607 kN e
Figura 6. Conceito básico de recalque adicional
a carga de colapso para 774 kN, o que resulta uma
carga admissível de 516 kN, com fatores de devido ao colapso da estrutura do solo
segurança de 2,0 à capacidade de carga e 1,5 ao (Jennings e Knight, 1975)
colapso. Em conclusão, a “cravação” de 0,65 m
seria suficiente para garantir a carga admissível Essa figura parece ter sugestionado uma mudança
(segura ao colapso e com recalques ínfimos) de 800 nas provas de carga. A inundação, que era
kN, compatível com o diâmetro de fuste de 0,50 m. introduzida sempre previamente ao ensaio, em
Para se obter a mesma carga admissível, sem a muitos casos passou a ser realizada durante o
“cravação”, o tubulão precisaria ser bem mais ensaio, sob carga constante, no estágio
profundo. correspondente à tensão admissível (ensaio de
placa) ou carga admissível (ensaio de estaca).
6º Degrau: As contribuições de Jennings e Knight Grigorian (1997) compara esses dois modos de
execução de provas de carga com inundação e
O trabalho de Jennings e Knight (1957) Cintra (1995) e Cintra et al. (1997) demonstram a
representa um marco no estudo da colapsibilidade, vantagem da retomada da prova de carga com pré-
com a proposição do ensaio de adensamento duplo. inundação do solo.
Em trabalho anterior, de 1956, esses autores já Jennings e Knight (1975) apresentam também a
citavam a realização do ensaio de adensamento definição de potencial de colapso (CP), com base na
simples, para reproduzir o fenômeno do colapso em variação do índice de vazios (∆e) que ocorre, no
laboratório: após a aplicação do mesmo nível de ensaio edométrico, com a inundação da amostra na
tensão atuante na fundação e a estabilização das tensão de 200 kPa:
deformações, inundava-se a amostra, obtendo-se

8
∆e quando se utiliza o sistema de circulação de água
PC = 100 (%) (1) antes de atingir o NA.
1 + eo Ferreira (1994) apresenta os resultados de duas
sondagens realizadas em Petrolândia, PE, uma delas
em que eo é o índice de vazios inicial, conforme com pré-inundação do terreno. Com os valores de
ilustrado anteriormente pela Figura 1. Cinco NSPT obtidos até 5,3 m de profundidade, constata-se
intervalos de valores do potencial de colapso que a inundação provoca uma redução no índice de
definem os diferentes graus de gravidade do resistência à penetração, crescente com a
problema. profundidade, de 30% para 70%.
No Brasil, o potencial de colapso foi Quanto ao ensaio de penetração estática, Ferreira
popularizado por Vargas (1978) como uma espécie et al. (1989) apresentam a comparação inédita entre
de critério para diagnosticar solo colapsível, mas dois ensaios CPT, realizados numa camada de solo
com substituição, na equação (1), do índice de coluvionar colapsível de Ilha Solteira, SP, sendo um
vazios inicial da amostra (eo) pelo índice de vazios ensaio sem inundação e outro com pré-inundação.
no início da inundação (e1). O solo é caracterizado Os resultados obtidos em ambas as situações e
como colapsível quando o potencial de colapso é apresentados na Figura 7, demonstram uma redução
maior que 2%, sem fixação de uma tensão de acentuada da resistência de ponta do cone devido à
inundação, provavelmente indicando que se proceda inundação.
à inundação na tensão admissível provável.
Na nota do item sobre solos colapsíveis, no qc(MPa)
capítulo das fundações superficiais, a NBR-9122/96 0
0 1 2 3 4 5 6 7 8
prescreve que a “a condição de colapsibilidade deve
ser verificada através de critérios adequados, não se z (m)
dispensando a realização de ensaios edométricos
com encharcamento do solo”.
Aquele valor limite de 2% já era citado por Beles Não-inundado
5
e Stanculesco (1961): “considera-se que um terreno
de loess apresenta um perigo de recalque acentuado
sob carga, em caso de inundação, se o recalque Inundado
específico ultrapassar 2%”, para uma tensão de
inundação de 300 kPa no ensaio edométrico. 10
De acordo com Lutenegger e Saber (1988),
parece que foi Abelev, em 1948, o primeiro a
sugerir um ensaio edométrico de uma amostra Figura 7. Resistência de ponta de cone em solo pré-
indeformada, com inundação em determinada tensão inundado e não-inundado (Ferreira et al., 1989)
(300 kPa, no caso) e também o cálculo do potencial
de colapso, com e1 em vez de eo. Patamar da primeira escada

7º Degrau: Ensaios de penetração estática e Neste patamar, não se considerava o importante


dinâmica papel da sucção matricial no comportamento das
fundações em solos colapsíveis. É como se a
Reginatto (1971) analisa os valores do índice de condição não-inundada fosse única, caracterizando
resistência à penetração NSPT obtidos em sete furos um comportamento carga x recalque invariável.
de sondagem, em Córdoba, Argentina, com pré- O problema eram as chuvas intensas, a ruptura de
inundação do terreno em três deles, constatando que condutos ou qualquer outra causa de infiltração
a inundação provoca uma redução importante no significativa de água no solo, provocando o recalque
NSPT. de colapso nas fundações. Daí o interesse pela
No Brasil, Lobo (1991) verifica a influência que a adoção de medidas preventivas à infiltração de água,
variação do NA provoca no valor do índice de principalmente de água de chuva no caso de
resistência à penetração (NSPT) com base nos fundações rasas.
resultados de sondagens de duas campanhas As chuvas também afetam os resultados de
executadas em diferentes épocas, em 1987 e 1988, sondagens, pois o índice de resistência à penetração
quando da implantação de um conjunto residencial (NSPT) obtido em períodos chuvosos é inferior ao
em Bauru, SP. Ressalvando-se o fato de que as encontrado em período de seca, no mesmo local, à
campanhas foram realizadas por empresas mesma profundidade. De modo semelhante, as
diferentes, os resultados indicam uma redução de provas de carga realizadas em época de chuva
cerca de 50% nos valores de NSPT por causa da indicam valores de capacidade de carga diminuídos
ascensão do NA. Também se observa uma em relação a ensaios conduzidos na estação seca do
diminuição de aproximadamente 30% no NSPT ano.

9
Como se esperava unicidade no comportamento estrutural de fundação de modo a minimizar o efeito
carga x recalque do ensaio não-inundado, qualquer da colapsibilidade do solo, isto é, minimizar a
variação na capacidade de carga, em provas de carga redução de capacidade de carga por inundação do
realizadas no mesmo local, mas em datas diferentes, solo. Mas, muitas vezes, a opção mais econômica é
era atribuída tão somente à variabilidade do maciço outro tipo de fundação, com menor profundidade,
de solo. Por razões semelhantes, variações no índice com carga admissível diminuída para garantir uma
de resistência à penetração em sondagens realizadas segurança mínima ao colapso.
em épocas diferentes, mas em furos próximos, eram Qualquer que seja a solução, além da capacidade
interpretadas como devido à variabilidade do de carga na condição não-inundada, há necessidade
maciço de solo ou aos procedimentos de ensaio. de se determinar também a carga de colapso, para
Considerando que o problema se restringia à aplicação de um fator de segurança específico. Isso
“chuva”, interessava reproduzi-lo por meio de constitui uma metodologia de projeto para
ensaios inundados. fundações em solos colapsíveis. Na determinação da
carga admissível, além das verificações usuais de
a) Carga de colapso segurança à ruptura e ao recalque excessivo, inclui-
se a verificação da segurança ao colapso do solo.
A carga de colapso pode ser determinada Essa verificação complementar consiste na
diretamente pela realização de uma prova de carga aplicação de um fator de segurança de, pelo menos,
com pré-inundação do terreno, aplicando-se um 1,5 à carga de colapso .Então, abstraindo a
critério de ruptura à curva carga x recalque. verificação ao recalque admissível, a carga
Pode-se especular que a carga de colapso talvez admissível (Pa) deve ser tal que:
possa ser estimada por meio dos métodos semi-
empíricos de cálculo de capacidade de carga, ⎧R / 2,0
utilizando valores de NSPT ou qc obtidos em ensaios Pa ≤ ⎨
inundados. ⎩Pc / 1,5
De qualquer modo, a carga de colapso deve ser
conhecida, por representar a resistência mínima do Assim, por exemplo, no caso de uma fundação
elemento isolado de fundação em solo colapsível. por estacas com capacidade de carga de 1000 kN
(obtida na condição não-inundada) e carga de
b) Redução da capacidade de carga colapso de 600 kN (ensaio pré-inundado), a carga
admissível seria de 400 kN (fator de segurança 1,5
Em relação à capacidade de carga determinada na ao colapso), em vez de 500 kN (fator de segurança
condição não-inundada, a carga de colapso 2,0 à ruptura), desde que verificado o recalque
representa uma redução da capacidade de carga admissível. Pode-se aproveitar esse exemplo para
devido à inundação. mostrar a inconveniência da prova de carga com
Essa redução da capacidade de carga define o inundação na carga admissível com a mera
grau de susceptibilidade da fundação ao colapso. No finalidade de verificar o colapso ou não nessa carga.
caso de fundações por estacas, por exemplo, as Nesse caso, não teria havido colapso nessa carga e o
estacas de deslocamento são menos afetadas pela projeto teria mantido a carga admissível de 500 kN,
colapsibilidade do que as estacas escavadas, ou sem o que implicaria um fator de segurança de apenas
deslocamento. Assim, para estacas de deslocamento 1,2 ao colapso.
obtêm-se valores menores de redução de capacidade A adoção do valor 1,5 para o fator de segurança
de carga. Por outro lado, as estacas flutuantes na ao colapso, juntamente com o fator de segurança 2,0
camada colapsível são muito mais sensíveis à à ruptura na condição não-inundada, implica que a
colapsibilidade, em relação a estacas do mesmo tipo, carga de colapso é a condicionante de projeto
mas mais longas, penetrando no estrato não sempre que a redução de capacidade de carga por
colapsível. Logo, nas estacas flutuantes a redução de inundação for superior a 25%. Para reduções de
capacidade de carga por inundação é bem mais capacidade de carga inferiores a 25%, o valor da
significativa. carga admissível não é afetado pela colapsibilidade.
Portanto, além das características geotécnicas do Essa metodologia caracteriza uma evolução do
maciço de solo, a carga de colapso e, conhecimento. Em vez de se determinar a carga
conseqüentemente, o grau de redução de capacidade admissível, sem a consideração da colapsibilidade, e
de carga são dependentes do processo executivo e apenas fazer a verificação por meio de provas de
da geometria do elemento estrutural de fundação. carga com inundação nessa provável carga
admissível, passou-se a levar em conta a
c) Metodologia de projeto de fundações profundas colapsibilidade na própria determinação da carga
admissível.
No projeto de fundações profundas em solos Mudou-se a concepção filosófica. Antes,
colapsíveis, geralmente se tem a opção técnica de realizava-se a prova de carga com inundação
escolher o tipo e profundidade de apoio do elemento diretamente no estágio correspondente à carga

10
admissível, para simular o que podia ocorrer na condição de umidade do solo pode ter na
fundação implantada em solo colapsível, projetada estabilidade de fundações rasas. Essa publicação
sem considerar a colapsibilidade. Depois, com a talvez tenha sido a primeira a relacionar a sucção do
determinação da carga de colapso em prova de carga solo com o comportamento de fundações.
com pré-inundação, instaurou-se o projeto de No Brasil, Wolle e Carvalho (1988) e Gusmão
fundação com segurança ao colapso, evitando a Filho (1994) destacam a influência e os efeitos,
ocorrência do colapso na vida útil da obra. Uma vez respectivamente, das variações de umidade na
que o colapso não deve ocorrer, não é cabível estabilidade de fundações.
nenhum cálculo para estimativa de recalque de A infiltração de água, por chuva por exemplo,
colapso. pode não ser suficiente para inundar o solo
principalmente em maiores profundidades, o que é
d) Fundações por sapatas incapaz de provocar o colapso, mas diminui a
sucção matricial, podendo majorar os recalques.
A NBR 6122/96 prescreve que, “em princípio,
devem ser evitadas fundações superficiais apoiadas 2º Degrau: Ensaios de campo
em solos colapsíveis, a não ser que sejam feitos
estudos considerando-se as tensões a serem Reginatto (1971) mostra, por meio da Figura 8,
aplicadas pelas fundações e a possibilidade de que os valores do índice de resistência à penetração
encharcamento do solo”. NSPT diminuem com o aumento do teor de umidade
Pode-se acrescentar a possibilidade de viabilizar do solo.
as fundações por sapatas em solos colapsíveis por
meio da compactação do solo. NSPT

e) Ensaios de penetração
15
A inundação do solo colapsível afeta os
resultados de ensaios de penetração, reduzindo os
valores do índice de resistência à penetração (NSPT)
e a resistência de ponta (qc) de ensaios CPT.
Por isso, numa campanha de ensaios de campo 10
em solo colapsível deve-se cogitar a realização de
alguns ensaios com pré-inundação do terreno. No
caso do SPT, em particular, é possível que a prática
contrária à norma de, na perfuração, usar o sistema
com circulação de água antes de atingir o NA, 5
reproduza, de certa forma, a condição de inundação
necessária para o colapso. Em conseqüência, essa
prática pode ser interessante em solos colapsíveis, se
utilizada apenas em parte dos furos de sondagem de
uma campanha. 0 5 10 15 20 25 30 w (%)
O uso de circulação de água antes do NA, em Figura 8. Variação de NSPT com o teor de umidade
alguns furos, pode até substituir a prescrição de (Reginatto, 1971)
ensaios SPT com pré-inundação do terreno, se
comprovada a equivalência dos dois procedimentos. Apesar de englobar valores de NSPT obtidos a
diferentes profundidades em quatro locais, em
Córdoba, Argentina, essa figura é bem ilustrativa da
4. SEGUNDA ESCADA: SUCÇÃO dependência entre NSPT e teor de umidade.
Em função disso, Reginatto (1971) conclui que,
Nesta outra escada, são caracterizados os degraus “em solos colapsíveis, os valores de NSPT só podem
dos trabalhos sobre o papel importante do teor de ser correlacionados com valores de resistência ao
umidade ou da sucção matricial no comportamento cisalhamento correspondentes ao mesmo teor de
de fundações em solos colapsíveis. umidade do momento da realização da sondagem”.
Além disso, Reginatto (1971) considera que “o
1º Degrau: Teor de umidade e sucção uso do SPT é de um valor muito limitado para
determinar valores de capacidade de carga em solos
Croney e Coleman (1953) abordam o papel colapsíveis pois, na maioria dos casos, pode resultar
desempenhado pelo teor de umidade nas valores muito maiores do que os valores seguros
propriedades mecânicas do solo, sugerindo que para condições inundadas”. Clevenger (1956) já
essas propriedades estejam associadas à sucção do alertava para o fato de que, nos solos loéssicos,
solo, e também tratam do efeito que as mudanças na “estimativas da capacidade de carga podem ser

11
feitas por meio de ensaios SPT, somente se houver realização de ensaios edométricos em amostras do
garantia de que o solo nunca se tornará mais úmido sedimento cenozóico de São Carlos, SP.
do que na época das sondagens”. Depois, Nunes
(1975) ratifica que “os ensaios estáticos e dinâmicos σ0
de penetração não podem ser empregados em solos ∆σ log σ
com características colapsíveis, pois os seus
resultados são aplicáveis somente ao material com
seu teor de umidade inicial e nada podem informar e0
sobre o comportamento do mesmo se as condições
de umidade variam”.
Entretanto, tais advertências devem ser recebidas
com reservas. Não se trata de deixar de realizar o w1
SPT em solos colapsíveis, mas sim de não se poder w2
ignorar que os resultados são inerentes ao teor de
umidade (ou à sucção matricial) da época da w3
campanha e que uma parte dos ensaios deve ser
conduzida com inundação prévia do terreno. e w4
Se o SPT fosse desaconselhado para solos w5
colapsíveis, por motivos idênticos as provas de Figura 9. Curvas edométricas do mesmo solo
carga também não teriam sentido nesses solos. em diferentes teores de umidade
No Brasil, Camapum de Carvalho et al. (2001) (Jennings & Knight, 1975)
analisam a influência da sucção nos resultados de
SPT e SPT-T em solos porosos colapsíveis, Em conseqüência, o chamado potencial de
concluindo que o índice de resistência à penetração colapso é função do teor de umidade inicial do
depende da sucção, mas o torque é menos afetado corpo de prova no ensaio edométrico. O mesmo solo
por ela. terá potencial de colapso mais baixo, quanto mais
Mota (2003) analisa a influência da variação da úmido, e potencial de colapso mais alto quanto mais
umidade e da sucção nos resultados de vários tipos seco estiver o solo antes do início da inundação.
de ensaios de campo realizados em Brasília, DF. Portanto, o potencial de colapso tem significado
“Medidas de umidade no perfil, em diferentes relativo e sua utilização deve ser cautelosa.
épocas do ano, mostram que a variação do grau de
saturação e, consequentemente, da sucção, é 4º Degrau: Capacidade de carga de fundações por
significativa para os três primeiros metros, sapatas
influenciando diretamente as medidas de qc, do
CPT, e de po, do DMT. Porém, não se consegue Fredlund e Rahardjo (1993) trazem uma
relacionar os resultados dos ensaios de CPT, DMT, contribuição notável ao quantificar o efeito da
SPT-T e DPL com a sucção. Observa-se que o variação da sucção matricial na capacidade de carga
ensaio dilatométrico é o que apresenta melhor de fundações por sapatas, utilizando a equação de
relação com a sucção e o ensaio de cone o que Terzaghi. Com a adoção de parâmetros para o solo e
apresenta as maiores variações, em parte devido à considerando sapatas corridas de 0,5 e 1,0 m de
sucção.” lado, apoiadas a 0,5 m de profundidade, são obtidos
os resultados apresentados na Figura 10.
3º Degrau: Curva edométrica
2000
Jennings & Knight (1975) apresentam cinco φ’ = 20º
Capacidade de Carga (kPa)

curvas edométricas típicas de um solo para 1600 φb = 15º


diferentes valores do teor de umidade (Figura 9), c’ = 5 kPa B = 1,0 m
com w5 representando a curva para o solo na 1200 γ = 18 kN
condição inundada e tal que w5 > w4 > w3 > w2 > w1. h = 0,5 m
Se σ0 é pressão geostática na profundidade
800
considerada, com a aplicação de um acréscimo de
tensão ∆σ o recalque seguirá a curva apropriada de B = 0,5 m

teor de umidade, dando um recalque “normal”, sem 400


alteração do teor de umidade. Se o solo é inundado
(na tensão σ0 + ∆σ), ocorre um deslocamento para a 0
0 100 200 300
curva w5. Isso causa um recalque adicional, que
ocorre sem alteração na tensão aplicada. Sucção Matricial (kPa)
Essa evidência de que o recalque de colapso Figura 10. Capacidade de carga em função da
depende do teor de umidade inicial foi comprovada sucção matricial (Fredlund e Rahardjo, 1993)
experimentalmente por Vilar (1979), com a

12
Os cálculos mostram que para a sapata com 0,5 m situado sob a placa em conseqüência da redução de
de lado e sucção matricial nula, a capacidade de volume durante o ensaio, mas apenas caracterizar o
carga é de 182 kPa mas, quando a sucção matricial é nível de sucção matricial atuante no solo, no início
aumentada para 100 kPa, a capacidade de carga sobe do ensaio.
para 655 kPa. Observa-se uma tendência semelhante Na interpretação dessas curvas tensão x recalque,
para a sapata mais larga. Os autores concluem que Costa (1999) utiliza o critério de ruptura
“a sucção matricial aumenta fantasticamente a convencional que associa a capacidade de carga ao
capacidade de carga”. valor de tensão correspondente ao recalque de 25
“In situ, a sucção matricial pode aumentar ou mm, obtendo uma correlação linear entre a
diminuir em resposta a mudanças nas condições capacidade de carga (σr) e a sucção matricial (ψm):
climáticas tais como evaporação e precipitação”
(Fredlund e Rahardjo, 1993). Mas mesmo que não σr = 67 + 2,8 ψm (kPa) (2)
se atinjam valores tão elevados de sucção matricial,
como os considerados nessa figura, constata-se que, Em relação a uma prova de carga realizada com
nesse caso, basta uma sucção matricial de 38 kPa sucção matricial de 24 kPa (σr = 134 kPa), por
para dobrar o valor da capacidade de carga, em exemplo, a inundação do solo representaria uma
relação à condição inundada, ou de sucção matricial redução de 50% na capacidade de carga (σr = 67
nula. kPa).
Outras análises dessa pesquisa são apresentadas
5º Degrau: Sucção matricial e tensiômetro por Costa et al. (2003).
Macacari (2001) também apresenta resultados de
Conciani (1997) faz o uso pioneiro de provas de carga em placa circular de diâmetro 0,80
tensiômetros na medição da sucção matricial do solo m, em São Carlos, SP, mas com variação da
durante a realização de provas de carga em placa, profundidade de assentamento da placa (1,5, 4,0 e
em Rondonópolis e em Campo Novo do Parecis, 6,0 m). Por meio de ensaios não-inundados, com a
MT. sucção matricial monitorada por tensiômetros, e de
Mas é Costa (1999) que comprova ensaios inundados, é possível quantificar a dupla
experimentalmente as conclusões de Fredlund e influência da sucção matricial e da profundidade z,
Rahardjo (1993), ao estabelecer uma correlação para na capacidade de carga, representada pela regressão
o aumento significativo da capacidade de carga com linear múltipla:
a sucção matricial. Essa comprovação foi obtida em
provas de carga em placa, realizadas sob diferentes σr = 29 + 22 z + 2,9 ψm (kPa) (3)
condições de sucção ao longo do ano, em São
Carlos, SP, usando uma placa circular de 0,80 m de com z em metros e R2 = 0,9403.
diâmetro, assentada a 1,5 m de profundidade. A
sucção matricial foi monitorada por meio de Tsuha (2003) e Tsuha et al. (2004) avaliam a
tensiômetros instalados na cava de ensaio, ao redor utilização de um penetrômetro manual em solo
da placa. A Figura 7 apresenta os resultados de três colapsível, em cavas com 1,5 m de profundidade,
provas de carga, sendo uma delas com pré- em São Carlos, SP. Ensaios penetrométricos
inundação do terreno (ψm representa a sucção realizados com monitoração da sucção matricial por
matricial média nos vários tensiômetros). meio de tensiômetros, além de ensaios
penetrométricos realizados em cava inundada,
Tensão (kPa) permitem comprovar, também nesse caso, o
0 40 80 120 160 importante papel da sucção matricial na resistência
0
do solo. A tensão de ruptura (qp) obtida no ensaio
penetrométrico é correlacionada com a sucção
20 matricial (ψm), nesse caso, pela regressão linear:
Recalque (mm)

qp = 487 + 25 ψm (kPa) (4)


40

com R2 = 0,944.
60
Correlações regionais desse tipo podem ter
Ψm = 0 Ψm =15 kPa Ψm = 22 kPa
grande importância prática, por permitirem a
80 avaliação da sucção matricial por procedimento
Figura 11. Curvas tensão x recalque de provas de simples, inclusive para o caso de tubulões a céu
carga sobre placa em solo colapsível com diferentes aberto, se as correlações forem obtidas para
condições de sucção matricial (Costa, 1999) profundidades adequadas. Além disso, a
combinação das equações do tipo (2) e (4) pode
É importante destacar que não é objetivo avaliar a fornecer, a partir unicamente do penetrômetro
redução de sucção matricial que se processa no solo

13
manual, tanto a sucção matricial como a estimativa dos resultados, são apresentadas, em função da
de capacidade de carga do ensaio de placa. sucção matricial, as curvas de resistência lateral
(Figura 12) e de resistência de base (Figura 13).
6º Degrau: Simulação da curva carga x recalque
40
Machado (1998) apresenta uma proposta de

Atrito lateral (kPa)


modelagem, com realização de simulações 30
numéricas de curvas de provas de carga em placa e 20
em estacas escavadas, realizadas em São Carlos, SP.
10
São representadas as condições não-inundada (um
único perfil de sucção) e inundada. 0
A partir dos resultados de ensaios de placa de 0 10 20 30 40

Conciani (1997), Futai et al. (2001) apresentam Sucção matricial (kPa)

simulações da curva tensão x recalque para


diferentes sucções, utilizando um modelo elasto- Figura 12. Resistência por atrito lateral em função
plástico e parâmetros do solo obtidos em ensaios da sucção matricial (Cintra et al., 2004b)
especiais com sucção controlada.
Menegotto (2004) também realiza simulação

Resistencia de base (kPa)


800
paramétrica, adotando uma expressão matemática
para a forma típica da curva tensão x recalque de 700
ensaio de placa em São Carlos, SP, e calibrando os
parâmetros envolvidos com retroanálise e ensaios de 600
laboratório com sucção controlada. As curvas tensão
x recalque são obtidas com variação da sucção 500
0 10 20 30
matricial e da profundidade de assentamento da
Sucção matricial (kPa)
placa ou da dimensão da placa.
Tentativas para estabelecimento de métodos de
previsão de curvas carga x recalque, para diferentes
níveis de sucção matricial, devem ser prestigiadas Figura 13. Resistência de base em função sucção
nas pesquisas acadêmicas. A obtenção de previsões matricial (Cintra et al., 2004b)
razoáveis ao menos para a condição crítica de solo
inundado já constituiria um grande progresso. Guimarães (2002) e Guimarães et al. (2004)
apresentam resultados de cinco provas de carga
7º Degrau: Capacidade de carga de fundações realizadas em diferentes épocas do ano, em Brasília,
profundas DF, em estacas escavadas mecanicamente (0,3 m de
diâmetro e 7,5 a 8,0 m de comprimento), com
De forma inédita, Santos (2001) obtém a simultânea obtenção dos perfis de umidade e de
variação, com a sucção matricial, das parcelas de sucção ao longo do ano (sucção determinada pela
resistência por atrito lateral e de resistência de base técnica do papel-filtro). Constata-se uma variação na
em ensaios de tubulões a céu aberto com 0,60 m de capacidade de carga de até 33% (270 a 360 kN),
diâmetro de fuste e 1,50 m de diâmetro de base embora as variações expressivas de umidade e de
alargada, na cota –8 m, executados em São Carlos, sucção ao longo do ano tenham ocorrido apenas até
SP (NA entre 9,90 e 10,80 m de profundidade na 3 m de profundidade.
época dos ensaios). Nas provas de carga não- Mascarenha et al. (2004) relacionam esses
inundadas, a sucção matricial foi obtida mesmos valores de capacidade de carga aos dados
indiretamente por meio da umidade de amostras pluviométricos da região, por meio do fator IHU
indeformadas, retiradas de metro em metro por (ER), que corresponde ao índice de umidade obtido
tradagem, e utilização das curvas características de com valores de evaporação real, precipitação
retenção de água previamente estabelecidas em excedente e o déficit de precipitação. Os autores
laboratório, em função da profundidade, por concluem pela possibilidade de correção da
Machado (1998). Nesse solo, parece ser razoável a capacidade de carga por meio desse procedimento.
utilização de um valor constante da massa específica
seca (ρd) para transformação da umidade Patamar da segunda escada
gravimétrica (amostra) em umidade volumétrica
(curva característica). Neste patamar, são discutidos novos paradigmas
Para se obter experimentalmente os valores para as fundações em solos colapsíveis, à luz do
separados da resistência lateral e da resistência de importante papel da sucção matricial.
ponta, foram colocadas placas de isopor entre a base
e o fuste dos tubulões. Maiores detalhes dos ensaios a) Curva carga x recalque
são descritos por Cintra et al. (2004b). Como síntese

14
Na condição não-inundada, a curva carga x avaliação da sucção matricial na data de realização
recalque de uma prova de carga não é única, pois a de uma prova de carga.
forma da curva depende da sucção matricial atuante Para a prática de fundações não é o caso de se
no solo no início do ensaio. cogitar procedimentos sofisticados. Para ensaios de
Para valores mais altos da sucção matricial, no placa, considera-se que os tensiômetros possam vir a
início do ensaio, diminui-se a deformabilidade e ser incorporados às provas de carga “comerciais”.
aumenta-se a capacidade de carga. Para valores mais Eventualmente também os penetrômetros manuais,
baixos da sucção matricial, aumenta-se a desde que haja correlações regionais já
deformabilidade e diminui-se a capacidade de carga. estabelecidas.
Portanto tem-se uma família de curvas carga x Para ensaios de fundações profundas, mesmo uma
recalque, conforme o valor da sucção matricial no técnica mais sofisticada como o TDR não fornece
início do ensaio (Figura 14). Na condição pré- medida direta de sução matricial, necessitando de
inundada (sucção matricial nula), tem-se uma curva curvas características de retenção de água,
carga x recalque “crítica”, com a maior previamente estabelecidas em laboratório, para
deformabilidade e a menor capacidade de carga. diferentes profundidades, para correlacionar a
sucção matricial com a umidade.
Carga Por isso, talvez se deva incentivar a realização de
tradagem, simultaneamente à realização de provas
de carga em estacas e tubulões, para obtenção do
teor de umidade com a profundidade. O acúmulo de
experiência com perfil de umidade poderá ser
benéfico para a prática de fundações, a qual
dificilmente incorporará a obtenção de perfis de
sucção matricial. Eventualmente, pode-se imaginar a
utilização da técnica do papel-filtro para
determinação direta da sucção das amostras obtidas
Recalque

Ψm crescente por tradagem, simultaneamente à realização de


Ψm = 0 provas de carga.
A análise de dados pluviométricos, conforme a
proposição de Mascarenha et al. (2004), também
pode ser implementada.
Figura 14. Família de curvas carga x recalque para O importante papel da variação da sucção
diferentes valores da sucção matricial média no solo matricial na capacidade de carga esclarece, pelo
menos em parte, divergências de resultados de
Em ensaios de placa, a sucção matricial no início provas de carga que ocorrem nas seguintes
do ensaio não-inundado pode ser representada pela situações: a) ensaios estáticos realizados em datas
média dos valores obtidos ao redor da placa, em distintas, às vezes intercaladas por chuva; b) prova
diferentes profundidades que podem ir até, por de carga dinâmica, realizada no momento da
exemplo, a metade do bulbo de tensões. cravação de uma estaca, e prova de carga estática
Em fundações profundas “flutuantes” em solo realizada algum tempo depois. De modo
colapsível, como é o caso, por exemplo, de tubulões semelhante, tem-se a discordância da capacidade de
a céu aberto, podem ser considerados dois valores carga prevista, utilizando resultados de sondagem de
médios da sucção matricial: o primeiro, ao longo do uma determinada época, com a capacidade de obtida
fuste, e o segundo, das cotas mais profundas que a em prova de carga realizada em outra época.
base do elemento estrutural de fundação, afetando, Por outro lado, a variação da sucção matricial
respectivamente, a resistência por atrito lateral e a adiciona uma dificuldade na interpretação de
resistência de base. Em fundações que atravessam a reensaios, em que duas ou mais provas de carga são
camada colapsível para se apoiar no estrato não- realizadas no mesmo elemento isolado de fundação,
colapsível, como é o caso por exemplo das estacas em datas distintas e, às vezes, distantes.
que vão além do NA, tem-se apenas a sucção
matricial média do solo ao redor de parte do fuste c) Carga de colapso
afetando a capacidade de carga.
Além de ensaios não-inundados, é imprescindível
b) Prova de carga a realização de prova de carga com pré-inundação
para determinação da carga de colapso, por
Para qualquer prova de carga realizada sem representar a condição mais crítica.
inundação, em solos colapsíveis, a curva carga x
recalque é intrínseca à condição de sucção matricial d) Redução de capacidade de carga
do início do ensaio. Por isso, é necessário que se
passe a adotar algum tipo de procedimento de

15
A redução de capacidade de carga, representada conseqüentemente, alterações nos valores de NSPT e
pela carga de colapso, também é dependente do de qc.
nível de sucção matricial atuante no solo quando da Por isso, incentiva-se a determinação do teor de
realização do ensaio não-inundado. Para um mesmo umidade das amostras do SPT para acumular
elemento isolado de fundação em solo colapsível, experiência na relação entre os valores de NSPT de
sucções maiores dão reduções também maiores na um furo de sondagem e o respectivo perfil de
capacidade de carga, enquanto sucções mais baixas umidade.
geram reduções menores de capacidade de carga. É imprescindível que se realize parte dos ensaios
Portanto, uma baixa redução de capacidade de com pré-inundação do terreno.
carga não implica necessariamente baixa
susceptibilidade ao colapso. O mesmo elemento de
fundação, no mesmo local, pode ser mais 5. CONCLUSÃO
susceptível ao colapso, se a inundação ocorrer em
outro momento, em que a sucção matricial for mais No patamar da primeira escada, considerava-se
elevada. que a chamada condição não-inundada era única,
Portanto, a redução de capacidade de carga tem restringindo o problema das fundações em solo
significado relativo e sua utilização deve ser restrita, colapsível à ocorrência de inundação (condição
associado a um nível determinado nível de sucção crítica). Assim, desconsiderando a variabilidade do
matricial. maciço de solo, a prova de carga num elemento
isolado de fundação poderia fornecer apenas duas
e) Metodologia de projeto curvas carga x recalque, que representam essas duas
condições.
A utilização conjunta de fatores de segurança
Havia uma metodologia de projeto que
mínimos de 2,0 (capacidade de carga na condição
não-inundada) e 1,5 (carga de colapso na condição preconizava um fator de segurança de 1,5 à carga de
inundada) tem novas implicações pelo fato da colapso (condição inundada), além da aplicação do
condição não-inundada não ser única, em termos de fator de segurança 2,0 à capacidade de carga
sucção matricial ou de teor de umidade. (condição não-inundada). A determinação da carga
Seja, por exemplo, o caso em que a capacidade de de colapso e da capacidade de carga podia ser feita
carga foi determinada numa prova de carga não- experimentalmente, por provas de carga, ou por
inundada, com correspondente sucção matricial métodos semi-empíricos, utilizando ensaios de
média de 20 kPa. Então, com a variação da sucção campo pré-inundados e não-inundados,
para valores maiores que 20 kPa o fator de respectivamente.
segurança à capacidade de carga torna-se maior que No patamar da segunda escada, a condição não-
2,0, mas para sucções menores que 20 kPa, esse inundada deixa de ser única e torna-se variável em
fator de segurança se torna menor que 2,0, ficando função da sucção matricial. Em conseqüência, a
assegurado o mínimo de 1,5 para a sucção nula prova de carga pode apresentar não apenas duas,
(inundação). mas uma família de curvas carga x recalque, uma
Outra implicação é que mesmo sem ocorrer para cada nível de sucção matricial, permanecendo
colapso, a diminuição da sucção matricial aumenta como crítica a condição inundada (sucção nula).
os recalques, sob carga constante, pois o solo se Pode-se manter a mesma metodologia de projeto,
torna mais deformável. Daí a necessidade da
utilizando uma única condição não-inundada, mas
estimativa do recalque, sob atuação da carga
admissível, para a sucção matricial nula, que é a sem o direito de ignorar que o fator de segurança 2,0
condição de solo menos rígido. Então, mesmo a só é compatível com o mesmo nível de sucção
fundação totalmente segura ao colapso, deve ser matricial correspondente à condição não-inundada
verificada ao recalque correspondente à sucção considerada. Oscilações na sucção matricial
matricial nula. Para isso, talvez possam ser implicarão em variações desse fator de segurança
utilizados os métodos existentes para estimativa de para maior que 2,0 ou para menor que 2,0,
recalque, mas com utilização de parâmetros do solo resguardado o mínimo de 1,5.
correspondentes à condição inundada. O problema se complica porque é preciso
considerar que sem ocorrer o colapso o recalque
f) Ensaios de penetração pode aumentar com a diminuição da sucção
matricial que torna o solo menos rígido. Portanto,
De modo semelhante ao que ocorre com as não basta garantir a segurança ao colapso. É preciso
provas de carga, os ensaios de penetração estática e desenvolver meios para a verificação do recalque,
dinâmica também têm os seus resultados afetados em função da sucção matricial.
pelo nível de sucção matricial da data do ensaio.
As variações de temperatura, umidade relativa do
ar e pluviometria provocam variações na sucção e, AGRADECIMENTOS

16
Conf. on Soil Mech. And Found Engng.,
À pós-graduanda Luciene Santos de Moraes, pela Hamburgo, v. 2, p. 781-782.
revisão deste texto, ao Prof. Orencio Monje Vilar, CINTRA, J.C.A.; AOKI, N.; ALBIERO, J.H.
pelas sugestões, e ao Prof. Nelson Aoki, pelas (2003) Tensão admissível em fundações
críticas. diretas. Ed. Rima, São Carlos - SP, 135 p.
Antecipadamente, a todos que contribuírem para CINTRA, J.C.A.; BENVENUTTI, M.; AOKI, N.
a melhoria deste texto (2004a) Tubulões “cravados” em solo
colapsível. 5º Simp. Brasil. sobre Solos Não
Saturados, São Carlos - SP.
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