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Carlos A.

Gadea

O ESPAÇO DA NEGRITUDE E O REVERSO DA


AFRICANIDADE: crítica sobre as relações raciais
contemporâneas

Carlos A. Gadea*

O presente trabalho discute as dimensões sociais que parecem estar adquirindo o espaço da
negritude e a experiência negra na atualidade. Devido a uma série de transformações políticas,
sociais e culturais, parte-se da ideia de que os afrodescendentes expandiram os cenários de
suas interações, suscitando modificações na forma como constroem suas identificações sociais.
Jovens negros, por exemplo, protagonizam um processo de individualização e diferenciação
social que contribui para desestabilizar identificações culturais ancoradas nas já clássicas
noções de africanidade e comunidade. Nesse sentido, realiza-se uma crítica sobre as formas
que adquirem as relações raciais contemporâneas, supondo que os marcos referenciais clássi-
cos de constituição do espaço da negritude não parecem continuar correspondendo ao que, de
fato, está sendo vivido por muitos afrodescendentes hoje.
PALAVRAS-CHAVE: Espaço da negritude. Relações raciais. Africanidade. Afrodescendentes. Racismo.

[…] la diferenciación e individualización


aflojan el lazo social que nos une
a los que están más inmediatos,
pero en cambio crean un vínculo nuevo
- real o ideal - con los más alejados.
Georg Simmel.

INTRODUÇÃO situacional-mente como negro parece ter ingressa-


do num novo “sistema de coordenadas”, de forma
A identificação racial resulta de uma atribui- tal, que toda nova interação social e suas correlatas
ção realizada pelos próprios indivíduos ao inseri- relações de poder, toda nova filiação social e “gru-
rem-se numa específica relação na qual se veem po de pertença” determina que se reconsiderem
apelados a definir “marcas” como sinônimo de dis- os atuais espaços do racismo e do antirracismo,
tinções ou fronteiras grupais. Assim, a manifesta- bem como, de maneira fundamental, o espaço da
ção de certas práticas dependerá da situação e dos negritude. A identificação com “o negro”, numa

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interesses individuais ou grupais em cena. Nesse heterogênea população de diversas afiliações
esquema interpretativo, o objetivo é o de refletir acer- grupais, parece estar pautada por duas questões
ca das características que parecem assumir, na atu- básicas: por um lado, pela “indiferença” crescen-
alidade, as relações raciais, procurando contemplar te, entre muitos jovens, ao discurso da Africanidade
a possibilidade de que certas dinâmicas sociais pos- como apelativo para a elaboração identitária e polí-
sam sugerir algumas mudanças significativas nas tica, reduzindo-o a uma narrativa que só parece
próprias dinâmicas discriminatórias e racistas, no colaborar em momentos pontuais de projeção po-
antirracismo e, fundamentalmente, no que aqui se lítica concreta e de “marcação grupal” em situa-
tem denominado espaço da negritude. ções de um conflito social que “reclama” a sua es-
A hipótese de trabalho se nutre de uma sim- tratégica emergência; e, por outro lado, pela
ples apreciação: o indivíduo autopercebido constatação de que são as diferentes situações de
conflito vivenciadas por cada indivíduo as
* Pós-doutorado no Center for Latin American Studies na
University of Miami. Doutor em Sociologia Política. Pro- constitutivas fundamentais da autopercepção e do
fessor Titular do Programa de Pós-graduação em Ciências “reconhecimento” como indivíduo negro, consti-
Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Bol-
sista de Produtividade do CNPq. tuindo-se em referentes importantes e tornando o
Av. Unisinos, 950. Cristo Rei. Cep: 93022-000. São
Leopoldo – Rio Grande do Sul – Brasil. cgadea@unisinos.br espaço da negritude um “evento relacional” de di-

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versas dimensões. Como os indivíduos negros con- ção do racismo em sociedades particulares têm sido
temporâneos navegam em sistemas classificatórios o centro das atenções, assim como a análise e a
raciais diversos, dependentes das “fronteiras de descrição de diferentes estratégias político-cultu-
significados”: linhas de cor, contextos sociais e rais impulsionadas para poder “superar” práticas
lugares de residência, linguísticos e culturais? De sociais discriminatórias. A transcendência dessas
que maneira a “ampliação dos círculos sociais” discussões se mostrou indiscutível. Não obstante,
(Simmel, 1977 [1908]) entre a população negra do parece não terem sido contemplados, com clareza,
Brasil desenha novas dinâmicas de sociabilidade diagnósticos que permitissem considerar uma di-
e, em consequência, elabora um espaço da versidade de transformações socioculturais na atu-
negritude transformado? alidade. Tudo parecia ter-se limitado a gestos que,
Responder acerca dos contornos atuais do simplesmente, evidenciaram uma série de batalhas
que representa esse espaço de identificação racial, discursivas em demasia abstratas.
social, cultural e individual é o desafio lançado Talvez seja a ausência de uma espécie de
nas reflexões a seguir. Para isso, apela-se, como impressionismo sociológico uma dessas principais
simples exemplo empírico, a pesquisas e observa- limitações, um olhar atento sobre a realidade, ao
ções realizadas no Parque da Redenção da cidade que, de fato, está sendo vivido. Por isso, o interesse
de Porto Alegre com jovens negros, que são refe- por reavaliar a presumível problemática do racis-
rências incipientes das mudanças nas sociabilida- mo e do antirracismo revela um objetivo mais de-
des entre um significativo número de jovens do safiador: compreender a forma como se está
país. Assim mesmo, necessário será introduzir, na reelaborando o espaço da negritude ou a experiên-
discussão, o sentido e o significado do que se en- cia negra entre os afrodescendentes na atualidade.
tende por negritude, suas alterações semânticas e Ao tentar compreender em que medida o cenário
sentidos atribuídos na atualidade. Também será das desigualdades, dos preconceitos e das discri-
preciso realizar uma reflexão crítica em relação ao minações raciais, enraizadas historicamente na vida
discurso da africanidade como sinônimo de carga social, têm efetivamente adquirido novos contor-
identitária inquestionável para o espaço da nos, pergunta-se em que sentido se faz possível
negritude. Por último, interessa desenvolver uma considerar que se assiste a uma redefinição das
crítica aos modelos de sociabilidade que, aparen- formas e das relações raciais contemporâneas ao
temente, têm dado sustento e legitimidade à “per- sugerir-se certa “superação” do uso de categorias
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tença racial”: a comunidade, o movimento social e sociológicas vinculadas a noções próprias de uma
a narrativa de uma memória coletiva politicamente “sociedade racializada”.
ativa sob os signos da africanidade. Isso, em absoluto, não significa negar ou
relativizar a existência de “sentimentos de superi-
*** oridade” baseados em relações sociais de domina-
ção, assim como da existência de “estratégias de
Os estudos culturais e sociais recentes têm inferiorização” ligadas à afirmação de desigualda-
sido protagonistas de uma série de interessantes des sociais. Fora isso, o que, de certa forma, está
discussões em torno de temas como o racismo e o em debate é uma reconsideração das noções de
antirracismo, as identidades coletivas e as diferen- racismo e de antirracismo como construções cul-
ças culturais. Seus repertórios analíticos e impli- turalmente surgidas de situações de conflito que
cações teóricas manifestaram inegáveis conexões cada vez se apresentam mais diversificadas. Por
com problemas políticos e culturais concretos, re- isso, são insuficientes, ou simplesmente parciais,
lacionados, frequentemente, com as chamadas aquelas explicações centradas no privilegio da va-
políticas de reconhecimento, o multiculturalismo riável econômica ou racial para compreender as
e a democracia. No geral, as formas de interpreta- múltiplas lógicas de discriminação social. Se al-

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guns dos debates clássicos destacam a eventual um marco jurídico de criminalização de práticas
formalização de relações sociais sob o signo da discriminatórias e, inclusive, naquelas que se tra-
“raça” e a consequente institucionalização do ra- duzem na visibilidade comunicacional dos
cismo como prática social, o que atualmente pare- afrodescendentes nos meios. Também, obviamen-
ce estar em jogo é um processo de individualização te, nos renovados desafios na elaboração de estraté-
e diferenciação social (Simmel, 1977 [1908]) que gias de sobrevivência material e simbólica que, na
estaria contribuindo para a desestabilização de um atualidade, muitos afrodescendentes empreendem
espaço da negritude elaborado a partir de uma es- em situações de contínua segregação socioespacial.
tratégia política (e pedagógica) associada a uma já É com referência a isso que, justamente, torna-se
clássica noção de Africanidade.1 possível visualizar que muitos afrodescendentes
Isso tem suas vinculações, em grande me- parecem estar expandindo os cenários de interações
dida, com a constatação de que aquele período de e as redes de comunicação sociais, dando lugar a
uma “política negra” associada à “política da luta certas modificações no contexto que em realizam
comunitária” parece ter ingressado em uma pro- as suas escolhas, elaboram os seus projetos e cons-
funda recessão (Hall, 2003), sem que isso se tra- troem suas identificações sociais. Dessa maneira,
duza na falsa ideia de uma suposta deflação mili- afirma-se, seguindo uma linha de pensamento
tante das ações coletivas motivada por esses pro- simmeliano, que o indivíduo afrodescendente “sai-
cessos de individualização e diferenciação social. ria reforçado” desse contato com a diversidade e a
Trata-se de contemplar a possibilidade de que cer- multiplicidade de interações sociais e, longe de
tas dinâmicas sociais atuais estejam a sugerir algu- considerar que uma eventual fragmentação das
mas mudanças significativas nas próprias dinâmi- experiências conduza a uma perda ou dissolução
cas discriminatórias e racistas, no antirracismo e, de seus supostos “grupos de pertença” e de sua
fundamentalmente, no espaço da negritude. Pen- própria individualidade, essa multiplicação de
se-se, por exemplo, e com referência ao Brasil, nas experiências e afiliações a grupos reforça, parado-
interações sociais surgidas (e as consequentes) do xalmente, o caráter propriamente individual de sua
contato com as novas políticas sociais que estão vivência como afrodescendente. Pareceria que tal
sendo implementadas com relação à redução da determinação individual conduz a visões plurais
pobreza e ao combate ao racismo, assim como nas do mundo social vivido, ao ser a construção indi-
discussões que se originam como consequência vidual sempre um olhar particular sobre o mundo

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dos conflitos sociais suscitados por ter-se levado (Simmel, 1977 [1908]). Assim, o afrodescendente
adiante políticas de affirmatives action ou progra- parece ter ingressado num novo “sistema de coor-
mas de inclusão social em universidades públi- denadas”, de forma tal que toda nova interação so-
cas. Pense-se, também, nas interações cotidianas cial e suas correlativas relações de poder, toda nova
que pressupõem a existência de regras sociais e afiliação social e “grupo de pertença” o determina
suficientemente como para que se reconsiderem os
1
Compreende-se por africanidade um espaço de elabora- espaços do racismo e do antirracismo, assim como,
ção discursiva e política que pretende sintetizar a per-
tença coletiva de um grupo humano a uma comunidade de forma fundamental, o espaço da negritude.
presumivelmente fundamentada em determinadas
especificidades históricas e culturais referenciadas no
continente africano. Trata-se, ao mesmo tempo, de um ***
gesto pedagógico e de “técnica de subjetivação” que esta-
belece o resgate de uma origem africana comum entre a
população negra, chave para o reconhecimento
intragrupal e valorização cultural particular. Politicamen- No Brasil, por exemplo, a problemática apre-
te, trata-se de um projeto de contraidentidade ou de
identidade de resistência, consequente com o projeto sentada pelo afrodescendente se tem consolidado
histórico da modernidade, que questiona a aparente su- a partir da constatação de que a denominada “de-
perioridade moral do modelo eurocêntrico de uma
historia universal. O termo foi discutido sob diferentes mocracia racial” deu sustento ideológico e político
óticas, por exemplo, em Asante (2009), Finch III, Charles
S.; Nascimento, E. (2009), Moore (2010) e Wade (1997). à inexistência de “barreiras de cor” e de segrega-

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ções raciais na configuração da moderna nação racistas se manifestassem, e sem ser necessária uma
brasileira. Como já havia observado Florestan ideologia racista para legitimar a exclusão e a dis-
Fernandes (1972), os setores favorecidos econo- criminação.
micamente pela dinamização do desenvolvimento Posteriormente, no contexto dos movimen-
capitalista iam dar as costas ao drama humano dos tos pela democratização política surge, em fins dos
descendentes dos ex-escravos e ignorariam as im- anos 70, o Movimento Negro Unificado. Esse mo-
plicações negativas da falta de integração da socie- vimento procuraria dar uma nova perspectiva ao
dade nacional no âmbito das relações raciais. Sen- tratamento das desigualdades raciais no Brasil,
do assim, tanto a tonalidade da pele quanto outras muitas vezes amparado em estudos que demons-
formas figuradas de linguagem “naturalizaram” travam o caráter racista da desigualdade social. Para
grandes desigualdades sociais e legitimaram práti- o Movimento Negro Unificado, a constatação do
cas discriminatórias que, aos poucos, foram com- “caráter negro da desigualdade” no Brasil conver-
prometendo a autoimagem brasileira de democra- ter-se-ia em fundamento político válido para levar
cia racial (Guimarães, 2005, p.40). adiante uma luta social que associava demandas
Não obstante, a partir dos anos 50, e no culturais com a luta por uma igualdade de oportu-
âmbito da Frente Negro Brasileira, foi possível, por nidades. De fato, nos anos 80 e 90, o que se dese-
exemplo, uma articulação mobilizatória que colo- nhava no horizonte das lutas antirracistas no Bra-
cava o racismo como problemática iniludível na sil era uma constatação política de grande peso:
discussão sobre a cultura nacional. A suposta “dis- que não unicamente os que ocupam os estratos
criminação racial” nos diferentes espaços de socia- sociais inferiores são fundamentalmente afro-bra-
bilidade provocou estratégias que veiculariam uma sileiros, senão que a desigualdade aludida é per-
“valorização do legado afro-brasileiro” e uma ênfase sistente. Ao se compararem diferentes gerações de
na importância desse grupo populacional na for- brancos e de negros, um branco teria maiores pos-
mação econômica e cultural do país. Sem dúvida, sibilidades de ascensão social que um negro, in-
este gesto pareceria contestar o chamado “racismo clusive quando os pais de ambos apresentam ní-
científico”, muito presente e divulgado como dou- veis socioeconômicos parecidos (Costa, 2002). Essa
trina ou ideologia em fins do século XIX e começos constatação, dentre outras, seria a que, fundamen-
do XX, segundo o qual existiriam raças cujas carac- talmente, derrubaria qualquer pretensão por con-
terísticas biológicas ou físicas corresponderiam a siderar a “democracia racial” o modelo funcional
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capacidades psicológicas e intelectuais, simulta- na configuração da moderna nação brasileira. Se o


neamente coletivas e válidas para cada indivíduo caráter individualista da “ascensão social” era co-
(Wieviorka, 2006, p. 167). Assim, pode-se afirmar, erente com o projeto da “democracia racial”, pode-
como primeira constatação, que esses primeiros se observar que as condições de existência da po-
“movimentos antirracistas” iniciados nos anos 50, pulação afro-brasileira não comportaram a “lógica
assim como o denominado “racismo científico”, igualitária” pretendida pelo projeto de nação. En-
enquadravam-se em situações de conflito surgidas quanto, para alguns, as condições materiais de
de lógicas sociais de discriminação baseadas numa existência poderiam ser melhoradas num esque-
série de preceitos ideológicos herdeiros do ma emanado desse projeto de “democracia racial”,
positivismo filosófico e do evolucionismo social, podendo-se, dessa forma, anular eventuais desi-
baluartes do projeto da modernidade brasileira. De gualdades herdadas, pode-se perceber que a nega-
todas as maneiras, as primeiras mobilizações tam- ção de uma identidade particular e a desigualdade
bém pareciam criticar a série de mecanismos aludida estão relacionadas a fatores mais subjeti-
institucionais que permitiriam manter os afro-bra- vos, próprios da questão racial: o preconceito, o
sileiros em situação de inferioridade social, sem estigma e a impossibilidade de uma construção
que se tornasse necessário que os preconceitos discursiva própria.

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A partir desse diagnóstico, como bem men- duziram durante o regime escravocrata, senão que
ciona Guimarães (2005, p.51), qualquer análise se deve compreender que esse regime só gerou uma
sobre o racismo no Brasil não poderia negligenciar forma particular de racismo.2
as particularidades de três grandes processos his- Não obstante, o uso sociológico da catego-
tóricos: primeiramente, as que fazem referência ao ria “raça” se fundiu com as estratégias políticas (e
processo de formação da nação; em segundo lu- pedagógicas) antirracistas dos movimentos sociais
gar, as que resultam do “intercruzamento” ideoló- de afro-brasileiros, assim como das diversas orga-
gico e discursivo da ideia de “raça” com outros nizações sociais e comunitárias que compartilha-
conceitos de hierarquia social (classe, status, gê- vam o diagnóstico da existência das desigualda-
nero); e, por último, as que acompanharam as trans- des sociais como causadas, em grande medida,
formações econômicas, sociais e regionais. Em tese, pelas adscrições raciais (Costa, 2006, p.205-210).
esses processos históricos estariam confirmando Essa política da negritude pareceria sustentar-se,
“[...] a diferenciação entre tipos de racismo (que) de forma geral, na ideia de que, se os próprios
só pode ser estabelecida através da análise de sua “[...] negros consideram que as raças não existem,
formação histórica particular.” (2005, p. 37). Nes- (acabariam) também por achar que eles não exis-
se sentido, se a ideia de racismo só existe a partir tem integralmente como pessoas, posto que é as-
de uma realidade histórica específica e, dessa ma- sim que são, em parte, percebidos e classificados
neira, com relação a outras formas sociais existen- por outros”. (Guimarães, 2005, p.67). Quer dizer
tes, interessa saber quais seriam as “condições con- que o combate ao racismo passou a ser efetivado
cretas” que tornam essa forma de diferenciação racializando a sociedade, já que a ideia de “raça” é
social algo socialmente pertinente na atualidade. a que continua a diferenciar e privilegiar as opor-
O importante a ser destacado é que o racis- tunidades de vida das pessoas.
mo, se bem que possa conservar certas caracterís- Para os chamados estudos das desigualda-
ticas gerais, adquire significação numa determina- des raciais, ou os “estudos raciais” (Costa, 2006),
da prática social histórica e espacialmente em que desigualdades socioeconômicas podem ser
contextualizada (Hall, 2003). Isso não quer dizer explicadas por variáveis como cor ou “raça”, esse
que preconceitos e atitudes racistas não pareçam gesto analítico teve como objetivo, por um lado,
depender, de forma direita, da existência prévia pautar politicamente uma luta contra as segrega-
de uma ideologia ou doutrina racista, já que um ções e discriminações raciais e, por outro lado, uma

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indivíduo “[...] só pode ter cor e ser classificado luta pela recuperação da autoestima negra, algo
num grupo de cor se existir uma ideologia em que que o movimento negro passa a assumir a partir
a cor das pessoas tenha algum significado.” (Gui- de um “discurso racialista”3. Ressuscita-se a ideia
marães, 2005, p.47). Não obstante, presume-se que de “raça” como estratégia de luta contra o mito da
essa “ideologia” sofre uma mutação e um desloca- “democracia racial”, numa atitude que, ao supor
mento considerável ao se inserir na especificidade racializar a sociedade, acredita na visibilidade de-
histórica dos (e nos) contextos e entornos em que liberada de situações de conflito construídas em
entra em cena. O “local do racismo” estaria deter- torno das desigualdades e discriminações raciais.
minado por situações de conflito e manifestações 2
Apreciação análoga ao que Hall (2003, p.335) afirma:
de instabilidade constantes, explicando-se como “[...] que tipo de momento é este para se colocar a ques-
tão da cultura popular negra? Esses momentos são sem-
simples “espaço narrativo” usado instrumental- pre conjunturais. Eles têm sua especificidade histórica;
mente por certos grupos sociais ou indivíduos em e embora sempre exibam semelhanças e continuidades
com outros momentos, eles nunca são o mesmo mo-
função de uma suposta posição numa determina- mento. E a combinação do que é semelhante com o que
é diferente define não somente a especificidade do mo-
da ordem de “relações raciais pré-existentes”. Por mento, mas também a especificidade da questão [...]”.
3
isso, não é possível, por exemplo, considerar que “Racialista no sentido de evocar o carisma da raça negra
e de visar à formação de uma identidade racial negra”
os “sentimentos de superioridade” racial se pro- (Guimarães, 2005, p.227).

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AFRICANIDADE E “PERTENÇA RACIAL” sos totalizadores dentro da experiência da diáspora


africana”, admitindo que uma suposta “[...] espe-
Nesse “uso político” da categoria “raça”, num rança em torno de uma afinidade universal e abso-
gesto narrativo que parece redefinir a dinâmica luta para e entre povos da diáspora africana tem
cultural e histórica de pertença identitária, argu- sido tão ilusória quanto a formação de um proleta-
menta-se que: riado internacional”. Por isso, no trabalho de
Ferreira (2002), torna-se evidente um “discurso
Aos poucos, a pessoa pode passar a ter atitudes
mais abertas e menos defensivas, voltadas para a racialista” que se desenhou a partir de “uma iden-
valorização das matrizes africanas. O grupo ne- tidade” que se supõe “consciente de si mesma” e,
gro torna-se o principal grupo de referência, sen-
assim, projetada no jogo da politização da diferen-
do seu vínculo determinado por qualidades do
próprio grupo e, não mais, exclusivamente, por ça racial. Num sentido, “a identidade” pareceria
fatores externos a ele. [...] A referência raça e a preceder qualquer experiência social. Em outro,
cultura africana, antes vistas como de pouca im-
portância, tornam-se fundamentais para a vida “a identidade” seria a consequência de uma ação
diária. O afrodescendente passa a sentir-se acei- militante em torno das questões próprias do racis-
to, com propósito de vida, sentindo-se profunda-
mo e do antirracismo. Analogamente, Sérgio Cos-
mente enraizado na cultura negra, sem deixar de
perceber as condições às quais está submetido ta (2006, p. 208) argumentará que [...] o problema
num mundo que o vê com preconceito. As matri- mais óbvio que se manifesta na estratégia
zes africanas passam a ser efetivamente afirma-
das (Ferreira; 2002 p.80, Grifos nossos). racializante dos estudos raciais é naturalmente o
sentido instrumental atribuído à identidade, que
Estas apreciações são sintomáticas de uma faz da cultura uma variável dependente da política
narrativa que se constrói com base num exercício de antirracista e da estética um mero instrumento da
“contato” com uma “África imaginada” trazida como política [...]”, a partir de considerar que “[...] as
“memória”, convertendo-se em instrumento de in- referências à ‘cultura negra’ no Brasil, desde os
terpretação e em recurso hermenêutico. É também o anos 70, encerram uma farta variedade de senti-
resultado de um gesto por “controlar politicamente” dos e interpretações, não cabendo reduzir esse
um “passado fragmentado”, reinterpretando “volun- universo heterogêneo e plural ao momento de cons-
tariamente” supostas “lembranças” que adquirem trução racial de um sujeito antirracista [...]”. A
organicidade ou ordem numa “memória coletiva”. preocupação para uma análise inspirada nos estu-
Mas qual o sentido dado a “tornar-se negro” a par- dos pós-estruturalistas se manifesta na natureza
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tir das chamadas “matrizes africanas”? E quais se- “essencializante” de um “discurso racialista” que
riam os elementos concretos que definiriam “a pareceria construir, arbitrariamente, uma identida-
cultura africana”? Como compreender esse exercí- de cultural sob o destino de uma identidade polí-
cio de identificação social em que o espaço da tica que a precederia.
negritude é o aparente resultado de um “corpo Mas em que consiste essa “estratégia” espe-
político” enraizado numa ideia de africanidade? cífica de racialização da sociedade? Sem dúvida, a
Enquanto se ensaiam respostas, compreenda-se, percepção racializada de si mesmo e do outro pas-
de inicio, que a memória pode ser um campo de sou pela “[...] reconstrução da negritude a partir
imprecisões, de perturbações, de “esquecimentos da rica herança africana – a cultura afro-brasileira
voluntários”, um campo de elaboração discursiva do candomblé, da capoeira, dos afoxés, etc.–, mas
de “recursos da cultura”, com o simples propósito também da apropriação do legado cultural e políti-
de outorgar um sentido ao mundo e à experiência co do ‘Atlântico Negro’” (Guimarães; 2005, p.61).
social (Montesperelli, 2004). Um “discurso racialista de autodefesa” dessa ca-
Não obstante, e de acordo com John French racterística era o único possível para poder recu-
(2002, p. 111), ao se referir ao trabalho de Michel perar um sentimento de dignidade abalado e, des-
Hanchard, existem limitações claras nos “discur- sa forma, exercitar um “ressurgimento étnico”

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amparado na ideia de “uma terra” a ser recuperada vivência material e simbólica. Quer dizer que a uma
através da memória (Guimarães; 2005). Assim, a profunda segregação socioespacial correspondem prin-
noção de africanidade se define por um potencial cípios ordenadores de uma realidade sociocultural que
político de dupla direção: por um lado, como nar- os próprios afrodescendentes elaboram dentro dos
rativa geradora de um “grupo de pertença” e, por seus enclaves territoriais.
outro, como discursividade demarcadora de uma Se o “gueto” é uma forma organizacional ela-
ação política e estratégica a ser empreendida. Os borada sob o critério racial e uma resposta a uma
afrodescendentes, dessa forma, estariam em con- “segregação estrutural”, o afrodescendente se apre-
dições práticas de desenvolver estratégias senta salvaguardado por uma série de dispositivos
antirracistas, de mapear cenários de conflito social institucionais e de solidariedade típicos do “ideal
e estabelecer pautas políticas de acordo com seu comunitário” (Tönnies, 2002, [1887]). Não obstante,
autorreconhecimento como herdeiros de uma “des- ele foi adquirindo, com o passar das gerações, sig-
cendência comum”. Esse “pertencimento” tornar- nificados e sentidos muito diferentes. Aquela evi-
se-ia chave para atuar com referência a outros gru- dente “âncora de negritude”, geradora de um espe-
pos socialmente existentes. cífico espaço da negritude e paradigmática da expe-
Outra maneira de compreender esse processo riência negra norte-americana pareceu ir tomando
de racialização da sociedade provém da suposta novas formas. Por exemplo, o “gueto”4 passa a
existência de um eventual vínculo entre “a comu- adquirir um caráter estigmatizador com relação aos
nidade” e a “pertença racial”, sugerindo-se que a seus integrantes, tratando-se de um fenômeno que
categoria “raça” não poderia existir sem se ter cons- conjuga aspectos espaciais e raciais. Assim, os
ciência dela e, assim, que a própria “pertença co- afrodescendentes norte-americanos “[...] acumulam
munitária” seria traduzível, de certa forma, em al- o capital simbólico negativo atribuído à cor e à con-
guns fenômenos históricos que resultaram em pro- signação a um território específico, reservado e
cessos sociais de “guetização”. O “gueto”, termo interior, ele próprio desvalorizado por ser o
derivado dos estudos da denominada Escola de repositório dos elementos da classe mais baixa da
Chicago (Coulon, 1995), parece ter um significado sociedade e por ser uma reserva racial.” (Wacquant,
histórico e um alcance sociológico que, justamente, 2005, p.148). O que se pretende afirmar é que um
permitiria compreender alguns dos processos de espaço de contenção de valores sociais concretos,
exclusão social. Loïc Wacquant (2005, 2004, 1996) como pode ser o “gueto”, não comporta as novas

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assim o considerou, ao definir o processo de dinâmicas individuais e coletivas de acesso a bens
“guetização” da população afrodescendente como tanto materiais quanto simbólicos. Por um lado,
um processo histórico de exclusão pelo critério da apresenta-se uma plausível intolerância subjetiva
raça: o “gueto” é uma formação socioespacial uni- à própria noção de pertença a um espaço
forme, delimitada por critérios raciais ou culturais socioespacial considerado “inferior” e denotativo
e baseada no afastamento forçado de uma popula- de imobilidade social institucionalizada. Pelo ou-
ção negativamente tipificada. O “gueto” seria “[...] tro, e de forma fundamental, o pertencimento a
uma formação étnico-racial que reúne as quatro uma determinada classe social e a adscrição racial
principais ‘formas elementares’ de dominação ra- já não parecem funcionar como projeto de realiza-
cial – o preconceito, a discriminação, a segregação ção pessoal ou coletiva, continuamente renovado
e a violência excludente.” (Wacquant, 1996, p.148).
Como é notório, tem sido a herança da sociologia de 4
Para os argumentos a seguir, interessa defini-lo como
sendo não simplesmente “[...] uma entidade espacial,
Chicago o que permitiu a Wacquant sugerir a associ- nem mesmo um mero conjunto de famílias pobres, pre-
ação entre um processo de “exclusão social forçado” so na estrutura inferior da estrutura de classes: é sua
qualidade singular de formação racial que dá origem a
e o estabelecimento de princípios de organização so- uma teia de associações materiais e simbólicas entre cor,
lugar e uma série de outras características cujo valor
cial que respondem a estratégias singulares de sobre- social é negativo” (Wacquant, 2005, p.147).

569
O ESPAÇO DA NEGRITUDE E O REVERSO ...

e reconfirmado na vida diária. Se o “coletivismo” foi sito de jovens que recordam o movimento que
“[...] a primeira opção de estratégia para aqueles situ- Wacquant (2005, p. 147) descreve sobre aqueles ado-
ados na ponta receptora da individualização, mas lescentes das “Banlieues” pobres da cidade de Paris:
incapazes de se autoafirmar enquanto indivíduos se
limitados a seus próprios recursos individuais” [...] vão sempre ‘passear’ nos distritos mais con-
ceituados da cidade para fugir de seus bairros e
(Bauman, 2001, p. 42), tudo indica que os integran- para curtir a badalação. Ao atravessar espaços
tes daqueles espaços sociais estigmatizados tendem, que não apenas simbolizam como também abri-
gam as classes altas, os suburbanos podem viver
cada vez mais, a adotar estratégias altamente indivi-
por algumas horas uma fantasia de inclusão so-
dualizadas, voltadas para realizações individuais. cial e participar, embora desempenhando o pa-
Dessa maneira, pode-se dizer que, por exemplo, para pel do outro, da sociedade mais abrangente.
muitos dos jovens negros dos centros urbanos atu-
ais, o que os distingue é precisamente um processo Por isso, para muitos desses jovens vindos
de individualização5 e diferenciação social que pare- dos bairros populares de Porto Alegre, e em parti-
ce contradizer os espaços típicos de afirmação pes- cular para aqueles jovens negros, “passear” no Par-
soal e coletiva pré-constituídos. que da Redenção não é uma simples forma de lazer,
mas sim da experiência de certa “dualidade de con-
textos”, de “troca de consciência” (Wacquant, 2005),
JOVENS NEGROS NO PARQUE DA REDENÇÃO6 na qual parecem estimular-se práticas de
distanciamento com aquele espaço socioespacial
É um dia de domingo ensolarado. O Parque de procedência.
da Redenção novamente está lotado e sugere, cada Talvez, de fato, a experiência do afrodescendente
vez mais, que se observe uma cena social por de- nos Estados Unidos ou desses jovens dos subúr-
mais significativa. É que, além de possuir as quali- bios parisienses tenha suficientes diferenças para
dades típicas de um espaço coletivo frequentado tornar inviável basear-se nela para descrever al-
por um heterogêneo público, inclusive em torno a guns fenômenos sociais e raciais no Brasil. Não
uma “feira de artesanato”, não se pode definir mais obstante, é possível realizar algumas analogias com
como um espaço de sociabilidades onde certos jo- um simples interesse analítico.7 Pretende-se con-
vens procuram expressar pertencimentos siderar, dessa forma, que, se na experiência norte-
“neotribais” e estéticos. “Skateros”, “neo-punkys” americana, o “gueto” derivou em “hipergueto”
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e “emos” não fazem parte, sozinhos, da sua geogra- (Wacquant, 1996), por força da quebra dos laços
fia espacial e social. Também o estão “ocupando” de sociabilidade e dos referenciais institucionais
uma grande quantidade de jovens dos bairros mais sob a matriz racial, no caso do Brasil (ou melhor,
populares da cidade, e em cuja expressividade se de algumas experiências sociais no heterogêneo
encontra um significativo componente racial. Nos fins Brasil), aqueles espaços da negritude construídos
de semana, é inquestionável assistir ao contínuo trân- em torno “da comunidade” ou da africanidade tam-
bém parecem estar sendo modificados a partir de
5
Faz-se referência à “formação da individualidade” segun- um processo social muito semelhante. Refere-se
do Simmel (1977 [1908], p.742-743), segundo o qual a
individualidade cresce na medida em que se amplia o aqui a um processo de individualização e diferen-
círculo social em torno do indivíduo e, ao aumentar a ciação social que esses jovens protagonizam na
individualização (e, assim, a repulsão dos elementos do
grupo) surgirá uma tendência centrífuga que servirá de tarefa por “insurgir-se” contra a situação coletiva
ponte para outro grupo.
6
Também conhecido como Parque Farroupilha. Trata-se
em que se encontram e, de alguma maneira, pode-
de um espaço público historicamente importante da ci-
dade de Porto Alegre, capital do estado de Rio Grande do
7
Sul. É um conhecido ponto de encontro nos fins de Faço próprias as palavras de Simmel (1977 [1908], p.747)
semana, por existir uma feira de artesanato e, em algu- e a sua lição metodológica sugerida: “No se entienda, sin
mas ocasiões, há festivais culturais e uma espontânea embargo, esto en el sentido de una ‘ley natural’ socioló-
infinidade de expressões artísticas. É um espaço de soci- gica, sino, por decirlo así, como una mera fórmula
abilidade frequentemente escolhido pelos mais jovens. fenomenológica […]”.

570
Carlos A. Gadea

rem desenvolver estratégias de distanciamento e minação e o racismo contemporâneos se materiali-


de “saída”. Ante isso, Wacquant afirmaria que esse zam na suspeita de que os indivíduos ou grupos
tipo de atitudes estaria convalidando as “percep- culturais se apresentam cada vez “mais iguais”:
ções negativas” que se tem arbitrariamente elabo- iguais em direitos, em oportunidades concretas,
rado sobre eles, tratando-se, dessa maneira, de um em circulação e visibilidade, em capacidades
gesto que se apresenta próprio de ter internalizado discursivas e pressão política. Isso em absoluto
os dispositivos de segregação e estigma existentes. supõe o esquecimento eventual de estratégias ain-
Não obstante, pode-se realizar uma interpretação da vigentes de estigmatização e de segregação, da
um tanto diferente: que o aparente significado dessa própria presença do racismo na atualidade. Do que
experiência de “dualidade de contextos”, para se trata é de um racismo que opera com base em
muitos jovens negros, é o de um jogo de reversão específicos contextos e situações sociais, que atua
das identificações sociais atribuídas como dados a partir de novas ideologias individualistas e com-
inegáveis da realidade. Trata-se de uma atitude que petitivas na sociedade. Um exemplo pode estar no
procura, justamente, desconstruir essas identifica- que Andrews (1998) destaca ao estudar as mu-
ções e transformá-las em um projeto de responsabi- danças no mundo do trabalho da população
lidade e autodeterminação, experiência social anco- afrodescendente da cidade de São Paulo. Mencio-
rada, paradoxalmente, na eventual instabilidade dos na, por exemplo, que a situação de “mais liberda-
marcos individuais de referência. Parafraseando de” gerada pelas mudanças modernizadoras na
Bauman (2001, p. 42), pode-se dizer que, para es- economia a partir dos anos 50 e 60 levou a uma
ses jovens, “[...] não são fornecidos ‘lugares’ para a competição aberta entre a população branca e os
‘reacomodação’, e os lugares que podem ser postu- afrodescendentes, uma competição de grande in-
lados e perseguidos mostram-se frágeis”. Por tal tensidade, ao perceberem os primeiros que aque-
motivo, à noção um tanto pessimista de Wacquant les espaços por eles definidos a priori como pró-
perante esse processo de individualização e dife- prios na escala social e laboral estariam agora em
renciação social, opõe-se uma perspectiva socio- visível risco. Em linhas gerais, a ascensão social
lógica que simplesmente procura compreender o estaria delimitando novas estratégias racistas e
sentido dessas atitudes que levam muitos jovens novas reações antirracistas, considerando-se, des-
negros, neste caso, a elaborarem e participarem de sa forma, que é a percepção de vulnerabilidade e
“lógicas situacionais” que repercutem na própria os riscos próprios dos espaços sociais atuais uma

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percepção sobre uma pertença racial e social que das fontes do “novo racismo”.
precederia suas próprias experiências sociais.
Por outro lado, e de maneira semelhante, ***
alguns estudos recentes sobre as próprias dinâmi-
cas sociais discriminatórias advertem que o racis- Uma resposta interessante que se pode ofe-
mo contemporâneo não parece seguir explorando recer às estratégias de racialização da sociedade e
o simples “distanciamento” ou “estranhamento” às narrativas políticas (e pedagógicas) enraizadas
entre as pessoas, e sim a “proximidade” e o temor na noção de africanidade provém do viés pós-es-
dos indivíduos de tornarem-se, presumivelmente, truturalista de Stuart Hall (2003), para quem o eixo
cada vez “mais iguais”. Assim o constata Michel da polêmica parece estar na maneira de como se
Wieviorka (2006), ao afirmar que o suposto “novo deveriam considerar as identidades culturais na
racismo” parece constituir-se com base em proces- atualidade. Numa linha de argumentação próxima
sos de “diferenciação social”, sugerindo que é o a Foucault, Hall lembra que o sujeito é sempre o
próprio temor pela diferença cultural que traz, por resultado de “técnicas de produção”, significação
consequência, estratégias de segregação, de estig- e dominação que se instituem como discursos e
ma e de marginalização. Dessa maneira, a discri- verdades, formas de relações sociais e instituições,

571
O ESPAÇO DA NEGRITUDE E O REVERSO ...

evidenciando-se a impossibilidade de pensar o cos e negros sejam tratados como portadores de


sujeito como algo dado a priori. Por isso, o sujeito uma consciência racial pouco desenvolvida (Cos-
é sempre produção e incessante resignificação, ta, 2006, p. 216). Mais oportuno resulta conside-
sugerindo-se pensar noções como “raça” e racis- rar que esses elementos discursivos e políticos têm
mo como “práticas contextuais”, como o resultado pouco para aportar a uma sociologia atenta a mu-
de variáveis inerentes às lógicas de poder8 e às danças sociais gerais e às formas que as relações
condições sociais concretas. Daí que, por exem- sociais e raciais estão passando a adquirir. Sem,
plo, Hall (2003, p. 345) observe com desconfiança obviamente, reduzir o central protagonismo des-
algumas tentativas discursivas em torno de noções sas ações em prol da igualdade de condições soci-
como “raça”, ao considerar que o ais e o combate ao preconceito e a discriminação,
torna-se imprescindível contemplar outras variá-
[...] momento essencializante é fraco porque na- veis nos conflitos próprios do racismo e do
turaliza e des-historiciza a diferença, confunde o
que é histórico e cultural com o que é natural, antirracismo. Como questão de fundo, e tal qual
biológico e genético. No momento em que o manifesta Hall (2003), o que se apresenta com cla-
significante ‘negro’ é arrancado de seu encaixe
reza é o estabelecimento de relações sociais que
histórico, cultural e político, e é alojado em uma
categoria racial biologicamente construída, va- evidenciam a insuficiência do significante “negro”,
lorizamos, pela inversão, a própria base do racis- já que, não necessariamente, um indivíduo pode
mo que estamos tentando desconstruir.
“esgotar” a sua identidade com base nessa única
adscrição. Isso parece dever-se a que nem sempre
Isso parece desenvolver estratégias políti-
os indivíduos estão fazendo parte de relações que
cas contraditórias e conflitos intersubjetivos por
interpelam esse caráter de identificação cultural
demais interessantes, como, de certa maneira, as-
específico, pois a dinâmica de seleção de “grupos
sinala Costa (2006, p.213), ao afirmar que
de referência”, entre os diversos grupos a que per-
[...] se a reificação ideológica da cultura nacional tence o indivíduo, se encontra cada vez mais assu-
inclusiva funcionou historicamente no Brasil mindo grande relevância. Por isso, o espaço da
como instrumento de opressão das diferenças e
negritude não parece reduzir-se, simplesmente, a
bálsamo político para a manutenção da ordem
social iníqua, o elogio da consciência (racial) um “pertencimento racial” (com seus atributos
pode meramente inverter os termos de uma equa- culturais e políticos), senão que se projeta no di-
ção complexa, de sorte a prescrever a todos ‘não
brancos’ uma identidade ideal e um ideário polí- verso jogo de relações sociais e formações de gru-
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tico determinado, como se coubesse à política pos de forma constante.9


antirracista restabelecer o suposto elo
Pergunta-se, então, qual é a importância re-
(sócio)lógico entre corpo negro, a cultura negra e
o ativismo político. lativa da categoria “raça” e dos subgrupos dos quais
indivíduos afrodescendentes fazem parte? Quais
Tudo pareceria indicar que tem sido uma as circunstâncias que predispõem os
estratégia de politização da diferença racial o que afrodescendentes, na atualidade, a escolherem
estaria delimitando os conteúdos propriamente como “ponto de referência significativo” indivídu-
“raciais” e culturais nos afrodescendentes, “[...] os que não se encontram na “mesma situação” ou
fazendo com que aqueles que não constroem suas “grupo racial”? As respostas não podem evitar a
identidades com base na polarização entre bran- necessidade de relativizar a ideia de que a perten-
ça a determinado grupo social, per se, estaria pro-
8
Não estaria demais lembrar que, para Foucault (1992), o porcionando a armação de referência significativa
poder não se materializa, necessariamente, numa insti-
tuição ou estrutura socioeconômica, ou se define, sim- nos indivíduos; ou seja, que o grupo tomado como
plesmente, como uma “força” com que estão investidas
9
determinadas pessoas: o poder seria o nome dado a uma Nesse sentido, o recado de Hall (2003, p.356) parece não
complexa relação estratégica em uma sociedade dada; ser: “[...] mas é para a diversidade e não para a
significa relações, uma rede mais ou menos organizada, homogeneidade da experiência negra que devemos diri-
hierarquizada, coordenada. gir integralmente a nossa atenção criativa agora”.

572
Carlos A. Gadea

ponto de referência é invariavelmente o grupo do de pertença” servem, quase inevitavelmente e em


qual o indivíduo é membro. Esse suposto equívo- graus diversos, como “grupos de referência” para
co conceitual não permitiu visualizar que, por exem-seus membros. Décadas antes, o próprio Mead (1982
plo, o “grupo dos afrodescendentes” não necessari- [1934]) já havia sustentado algo muito semelhan-
amente se tornaria o principal “grupo de referên- te, ao apresentar a hipótese de que são os grupos
cia” para os indivíduos negros, tal qual o fazem aos quais pertence o indivíduo, como membro,
interpretações como as realizadas por Ferreira (2002)
que proporcionam os elementos de referência sig-
e citadas aqui anteriormente. Atualmente, devido a nificativos. Nessa linha argumentativa, estar-se-ia
mudanças socioculturais e políticas diversas, de- em condições de afirmar que, para os
vem-se considerar as novas condições sob as quais afrodescendentes, o “[...] grupo negro torna-se o
os grupos dos que “não pertencem” também pos- principal grupo de referência, sendo seu vínculo
sam constituir uma significativa fonte de referênciadeterminado por qualidades do próprio grupo, e
para os indivíduos. As “lógicas situacionais” que não mais exclusivamente por fatores externos a ele”,
se apresentam aos afrodescendentes, como perten- tal qual Ferreira (2002) tinha considerado. Não
centes a determinada classe social, a determinada obstante, Newcomb (s.d., [1975]) vai manifestar
experiência sexual, idade, grau de escolaridade, que a capacidade de que um “grupo de pertença”
formação acadêmica, lugar de residência, dentre sirva, também, como “grupo de referência” depen-
outras, outorgam graus de significados diversos derá do grau em que a participação nele outorgue
sobre a própria experiência individual e o espaço satisfação ou insatisfação para o indivíduo. Os
da negritude. Principalmente os mais jovens, aos membros de algum grupo diferem como indivídu-
quais se lhes apresentam tensões cada vez mais os em destreza e capacidades, em necessidades
diversificadas e evidentes, têm multiplicado as suaspessoais e na própria formação da individualida-
afiliações a grupos, ocasionando, de forma funda- de, e eles encontrarão diferentes graus de satisfa-
mental, uma decorrente multiplicação de grupos ção em serem membros de grupos. Assim, insatis-
de referência. Essa presunção e esse diagnóstico fações irão crescendo na medida em que o grupo é
se apresentam de grande importância, na medida comparado desfavoravelmente com outros grupos,
em que se sugere observar diferenças na redefinição nos quais o indivíduo considere que tem a possi-
das formas e relações sociais nas que estão envol- bilidade de diferentes privilégios e oportunidades.
vidos indivíduos afrodescendentes atualmente. Em Pense-se em jovens negros que, tal qual se havia

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certa medida, trata-se de levar em consideração que mencionado anteriormente, desenvolvem estraté-
as principais mudanças sociais advindas do am- gias e experiências de “distanciamento” de um es-
plo repertório de políticas sociais, assim como da paço da negritude que, de maneira hierárquica,
própria presença negra em crescentes âmbitos de estabeleceu uma ordem específica de uma experi-
sociabilidade, trazem, de forma implícita, variaçõesência negra sob os destinos de uma suposta
significativas na própria experiência negra. africanidade ou “pertença comunitária”. A experi-
ência de “dualidade de contextos” aludida entra
em cena para, justamente, manifestar que já não
SOBRE A PERTENÇA E A REFERÊNCIA A há mais uma necessária correspondência entre o
GRUPOS SOCIAIS “grupo de pertença” e o “grupo de referência”, ou
seja, entre o espaço da negritude e a referência à
Mas essa presunção e esse diagnóstico me- africanidade como sua narrativa constitutiva.10
recem especial atenção. Apela-se, assim, à tradi-
10
De forma análoga, e para uma melhor compreensão,
ção sociológica que se intersecta com certa psico- cita-se ao próprio Newcomb (s.d., [1975], p.4): “Los gru-
logia social. Lembre-se que Newcomb (s.d., [1975]), pos de pertenencia real a menudo sirven a la misma
persona tanto como grupo de referencia positivo y nega-
por exemplo, tinha argumentado que os “grupos tivo a la vez, de distintas maneras. Un adolescente ame-

573
O ESPAÇO DA NEGRITUDE E O REVERSO ...

Não se podem negligenciar diversas mudan- senão que emergem de uma experiência individu-
ças políticas, econômicas, sociais e culturais surgidas al e social que se interpreta como semelhante ou
nos últimos tempos com relação à efetiva participa- própria de uma “lógica situacional” específica,
ção e visibilidade social dos afrodescendentes nas como talvez possa ser a que interpela um mesmo
sociedades contemporâneas. No caso do Brasil, to- status social e econômico, uma escolha na prática
dos os debates e discussões em torno da “questão sexual ou o fato de morar em uma determinada
negra” têm sido por demais significativos. Assim, a região da cidade. Por isso, e como bem afirma
experiência negra e o espaço da negritude apresen- Newcomb (s.d., [1975]), a conduta de uma pessoa
tam novas tensões e contradições. Quiçá isso seja está mais influenciada pela motivação que leva a
causado por uma simples “mudança de gerações”, relacionar-se com determinado grupo do que pela
na medida em que, para os mais jovens, não é estra- sua participação real nele.11
nho ver e considerar legítimo que indivíduos
afrodescendentes ocupem posições de destaque em ***
diferentes âmbitos da vida social. Existe um cenário
político e sociocultural enriquecido em elementos que Não é possível considerar que essas eviden-
estariam levando a reelaborações identitárias mais tes ações realizadas por muitos jovens negros rei-
complexas e dinâmicas para esses afrodescendentes. teram a conhecida fórmula que associa, por exem-
Quando, por exemplo, circulam notícias em que plo, a “mobilidade social” e a “ascensão social”
se acusa a constante segregação socioespacial e eco- com um processo de simples “branqueamento”
nômica da população negra, assim como nas situ- individual e sociocultural. Contrariamente, trata-
ações de violência física e simbólica em que se se de levar em consideração que, atualmente, o
envolvem jovens negros como estratégia para o suposto espaço da negritude também parece nu-
aceso à visibilidade social e ao reconhecimento trir-se de marcos de referência que se apresentam
intersubjetivo, o espaço da negritude não se apre- externos a ele. Ao mesmo tempo, trata-se de consi-
senta como sinônimo de um simples “corpo políti- derar que essas ações não podem ser compreendi-
co” que utiliza como recurso discursivo o apelo a das sem assumir o diagnóstico de que mundos de
uma memória histórica fundamentada numa origem vida diferentes determinam formas diferentes nas
africana comum. A experiência negra parece estar experiências individuais em torno da negritude.
além da própria ideia de africanidade. O espaço da Parece óbvio afirmar que um jovem negro morador
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negritude torna-se o resultado de uma experiência de uma favela terá uma experiência individual
social vivenciada na “precariedade das situações”, qualitativamente diferente da de um jovem negro
na inconstância dos contextos de referência. Por isso, de classe média, por exemplo. Da mesma forma
como jovens negros, muitos indivíduos comparti- que uma mulher jovem negra, sem emprego fixo,
lham marcos de referência que não são, necessaria- apresentará uma experiência de vida individual
mente, surgidos de supostas adscrições raciais, 11
Por exemplo, numa certa oportunidade, um jovem ne-
gro, estudante universitário, manifestou que, quando
ricano, por ejemplo, puede compartir muchas de las “vai à balada”, a determinadas festas em que a maioria
actitudes comunes de su familia, y su familia puede dos assistentes é constituída de jovens e negros como
querer tratarlo como a quien pertenece y comparte sus ele, a forma de vestir e as marcas das roupas usadas
normas. En tales aspectos, la familia le sirve como grupo desenvolvem um papel muito importante para os con-
positivo de referencia. Pero el puede repudiar algunas de tatos sociais posteriores. Manifestou que, como a sua
sus actitudes comunes, por ejemplo participación del vestimenta não indica a pertença a nenhuma “moda
culto o la actitud respecto al uso del tabaco. Con respecto black” concreta e, inclusive, como “não é de marca”, em
a estos objetivos comunes, su familia le sirve de grupo algumas ocasiões desenvolve solidariedade de grupo além
de referencia negativo, si su conducta está de hecho da própria adscrição racial. Assim, sente-se mais moti-
influenciada por su motivación a oponérseles. Algunas vado a juntar-se muito mais por critérios de arbitrária
veces esto ocurre por medio de una aguda rebelión, pertença a um status social e econômico que à “sua
entonces el adolescente busca emanciparse de sus pa- condição” de jovem negro: o fato de “ser negro” se tor-
dres. Más comúnmente, sin embargo, tal rebelión del naria uma segunda pele. A pergunta que surge pareceria
adolescente es influenciada por grupos de referencia análoga à realizada por Stuart Hall em certa oportunida-
positivos, su pandilla por ejemplo, tanto como por gru- de: que “situação” é essa experimentada por esse jovem
pos de referencia negativos, tal como su familia”. para se colocar a questão da negritude?

574
Carlos A. Gadea

muito diferente daquela que se encontra num cur- ras culturais que têm discriminado por critérios
so de ensino superior. Tudo parece indicar que se raciais, levam a considerar que o que antes se man-
trata de “formas de socialização”12 que transformam tinha reservado a simples “guetos” e “espaços da
as próprias definições previamente elaboradas so- comunidade” atualmente parece se ter ampliado
bre o sentido e o significado da experiência negra quantitativamente. Por isso, se, para um jovem
na atualidade e, dessa maneira, de um processo negro, sua “primeira pertença” a um grupo social
de individualização e diferenciação social que su- estava supostamente delimitada pela sua “condi-
põe rediscutir os contornos e os alcances das pró- ção racial”, as relações e vinculações crescentes
prias práticas discriminatórias e racistas, assim com “produções culturais” diversas (gênero, ida-
como do próprio espaço da negritude atual. de, situação laboral, estudo, moda, valores, mora-
Por isso, os processos sociais que estariam dia em determinado local, etc.) estão sugerindo que
determinando essas eventuais transformações se as “pertenças a grupos” estão se diversificando e
referem a uma experiência negra marcada por uma ampliando e, assim, que sua experiência indivi-
clara dualidade: por um lado, o que se pode en- dual também se está transformando.
tender como uma aproximação crescente a múlti- Pode-se compreender, então, que essa apro-
plos contextos sociais e culturais de referência e, ximação de novos círculos sociais estaria condu-
pelo outro, a uma diferenciação social geradora de zindo a uma indiferenciação social crescente, a uma
uma experiência da individualidade e da negritude espécie de anulação das qualidades identitárias
muito particular. Se bem que os dispositivos de elaboradas em torno da negritude? Nada parece
exclusão por critérios raciais possam persistir no indicar que assim esteja acontecendo. Ao contrá-
jogo da vida social, as dinâmicas que envolvem rio, trata-se de um processo de diferenciação soci-
esses dispositivos historicamente existentes têm al que, como bem afirma Simmel (1977 [1908],
se tornado mais complexas e diversas, à medida p.742), supõe formas de interação e socialização
que o espaço da negritude tem se aproximado de em que as
espaços sociais antes muito distantes. As barrei-
ras políticas, sociais e econômicas podem persis- [...] diferencias, originariamente mínimas, que
existen entre los individuos, por virtud de sus
tir numa sociedade ainda “racializada”, mas tam- disposiciones externas e internas y de su
bém é interessante considerar que essas barreiras actuación, acentúanse por la necesidad de ad-
cada vez menos conseguem legitimar e reproduzir quirir, merced a medios diversos, lo necesario

CADERNO CRH, Salvador, v. 26, n. 69, p. 563-579, Set./Dez. 2013


para el sustento. La competencia crea, en la me-
uma realidade social “dicotomizada” por privilégi- dida numérica de los que participan en ella, la
os sociais que não correspondem aos critérios ra- especialización del individuo.
ciais. Assim o demonstra a aproximação do espa-
ço da negritude a “círculos sociais” (Simmel, 1977 Quer dizer que, à medida que se amplia o
[1908]) antes distantes. Jovens negros no mercado círculo social em torno de um indivíduo, a “indivi-
de trabalho (e ocupando espaços de crescente au- dualidade do ser” cresce e, ao aumentar a
tonomia profissional), mulheres negras nas uni- individualização, surgirá uma tendência que servirá
versidades, reivindicações que enfatizam as desi- de ponte para o contato com outro grupo. Por isso, a
gualdades sociais e econômicas da população ne- individualização e a diferenciação social, segundo
gra amplamente internalizadas pela grande maio- Simmel, tende a “afrouxar” o laço que une um indi-
ria da população, assim como o inevitável reco- víduo aos que se encontram mais imediatos, crian-
nhecimento de que a pobreza e a exclusão social do, ao mesmo tempo, um vínculo novo com os que
se correspondem, em muitos casos, com estrutu- estão mais distantes. Dessa maneira, ao ampliar-se o
12
círculo social de que um jovem negro participa, e no
Segundo Simmel (1977 [1908]), a socialização é a confi-
guração em que vários indivíduos entram em ação recípro- qual se concentram seus interesses, ele terá mais es-
ca, e essa ação recíproca provém da encenação das pulsões,
ou da intenção de conseguir certos objetivos práticos. paço para desenvolver sua individualidade.

575
O ESPAÇO DA NEGRITUDE E O REVERSO ...

Se, nas diversas definições que se podem do de que a relação precede os termos da própria
elaborar na atualidade sobre o espaço da negritude, relação resulta fundamental. Por isso, uma prática
considera-se aquela que a entende como “grupo social não é nada em si mesma; só adquire signifi-
primário” de pertença para muitos jovens negros, cado unicamente no interior de uma série de rela-
deve-se compreender que esse processo de ções. No intercruzamento de múltiplas pertenças
individualização e de diferenciação social aludido a grupos sociais, o indivíduo afrodescendente ocu-
coincidirá com a diminuição da individualidade pa posições relativamente diferentes, acrescentan-
do grupo. Em outras palavras, que a um processo do, assim, sua individualização e diferenciação
de diferenciação corresponde um concomitante social, tanto mais na medida em que os grupos a
processo de indistinção do espaço da negritude tal que esse indivíduo pertence cada vez menos in-
qual tinha sido definido previamente. Assim, ele fluenciam de forma determinante sua personali-
perde a capacidade de referência significativa nas dade (Simmel, 1977 [1908]). Como consequência,
ações dos indivíduos afrodescendentes, não con- esse indivíduo se sentirá “mais livre”, com maio-
seguindo mais assegurar a eventual inserção dos res possibilidades na elaboração da sua própria
seus membros em outros grupos sociais a partir individualidade, assim como mais dependente dos
daquela “primeira pertença”. Consequentemente, seus próprios recursos, apesar de, também, de for-
a multiplicação dos grupos formalmente abertos ma paradoxal, ser menos protegido por uma soli-
por esses indivíduos e o lugar que se lhes oferece dariedade de grupo.13 Quando aqueles jovens ne-
são os indicadores de uma transformação das for- gros frequentam o Parque da Redenção e experi-
mas da atual experiência negra. A individualida- mentam o “distanciamento” de um marco
de de um jovem negro está, dessa maneira, num referencial que os identifica como pertencentes a
espaço de intercruzamento de diversos “fios soci- uma “raça” e a um espaço urbano concreto, estão
ais”, em que cada pertença particular o vincula ao realizando uma verdadeira aventura sociocultural:
passado desses grupos (a suas tensões e carga ao multiplicar suas experiências e suas afiliações a
discursiva, status e modelo de sociabilidade) e a diferentes grupos, e ao assumir marcos de referên-
sua experiência negra corresponderá às combina- cia também diversos, reforçam-se estratégias pro-
ções particulares e cada vez mais únicas que reali- priamente individuais. Assim, o processo de dife-
za. Dessa forma, a crescente participação em gru- renciação social conduz à elaboração de novos códi-
pos diversos e a “superação” da referencialidade gos particulares para esses novos grupos sociais,
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significativa na adscrição racial se apresentam sus- códigos que cada vez menos irão tendo vínculos com
ceptíveis de enriquecer a cultura no seu conjunto, anteriores pertenças grupais e com um espaço da
na medida em que a apropriação realizada em cada negritude que antecipava uma específica solidarieda-
grupo particular retorna aos outros por via do in- de de grupo determinada por uma posição social
divíduo. Assim como o afrodescendente e as suas definida, a priori, em termos de subordinação.
formas sociais e tensões que materializa determi-
nam os demais grupos aos quais pertence, como
“cultura objetiva” (Simmel, 1977 [1908]), ele tam- À MANEIRA DE CONCLUSÃO
bém é objeto de determinação.
Nesse sentido, o pós-estruturalismo de Essas transformações sociais atuais não
Stuart Hall (2003) parece adquirir dimensões prá- unicamente se vinculam com o impacto político
ticas precisas nessa perspectiva sociológica que tem protagonizado as mobilizações sociais de
simmeliana. Ao enfatizar que categorias como “raça” afrodescendentes pelo reconhecimento de suas
e “racismo” devem ser observadas como específi- demandas por igualdade de condições econômi-
cas “práticas contextuais”, a ideia de relacionalidade 13
Ver em Simmel (1977 [1908]) o capítulo intitulado: “La
é a que assume centralidade analítica. O postula- ampliación de los grupos y la formación de la individualidad”.

576
Carlos A. Gadea

cas e sociais. As principais mudanças podem ser te, a não ser como estratégia política e pedagógica
encontradas na própria forma que tem adquirido a por parte de ativistas sociais negros) para um “re-
experiência negra e os novos contornos do espaço curso cultural” como o materializado no exercício
da negritude. Enquanto cada indivíduo de eventual contato com uma “África imaginária”
afrodescendente estava ligado, unicamente, a uma para a interpretação e posterior construção de iden-
experiência negra delimitada à “pertença racial” e à tificações sociais e culturais. Obviamente, não se
“comunidade”, ou a um “corpo político” enraizado trata de questionar o concreto “êxito político” des-
numa ideia de africanidade, existia um “conceito sa tarefa, na medida em que o recurso da
coletivo de negro”, algo que, consequentemente, não africanidade e a estratégia de racialização da soci-
dava lugar para socializações particulares, já que edade foram elementos constitutivos daquelas pos-
cada indivíduo negro era “reenviado” à sua teriores transformações socioculturais que
negritude, era recolocado num “sistema de coor- redesenharam, justamente, o denominado espaço
denadas” que não lhe permitia sacudir-se da lógi- da negritude. A constatação de que a noção de
ca binária passível de lembrar-lhe de sua situação africanidade não parece contribuir, de forma signifi-
de subordinação. Assim, aqueles jovens negros, cativa, nos destinos discursivos que elaboram iden-
ao introduzir um “distanciamento” com o (supos- tificações sociais em indivíduos negros não reside,
to) “grupo primário” de pertença, ao ingressar em simplesmente, na sua suposta inviabilidade discursiva,
múltiplas atividades e fazer parte de novos “círcu- na sua incapacidade pedagógica ou na sua ineficiên-
los sociais”, desenvolvem uma experiência negra cia política. Em determinados contextos e situações,
que se percebe situada num “ponto de interseção” pode continuar sendo legítima. O que não parece
dos grupos que, por um lado, os vinculam com possível é se iludir quanto à sua aparente fragilidade
outras pessoas e mundos de vida e, pelo outro, de em pretender outorgar um sentido e um significado
forma fundamental, com os outros jovens negros. social sólido e estável, devido, fundamentalmente, à
Todo esse processo social, todo esse diagnóstico sua escassa receptividade valorativa.
sobre as novas formas que a experiência negra ad- Ao pensar nos jovens negros que frequen-
quire, na atualidade, sugerem compreender que a tam o Parque da Redenção, parece evidente que o
individualização e a diferenciação social, pelos espaço da negritude que passam a redesenhar tem
intercruzamentos de sociabilidade que permitem, como ponto de referência uma espécie de jogo de
constituem uma condição para o desenvolvimento reversibilidade da noção de africanidade, um mo-

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de novas afiliações a grupos e, de maneira funda- vimento em certo sentido irônico, ao devolver a
mental, para a própria expansão do espaço da imagem de uma negritude que não tem significa-
negritude. Assim, os afrodescendentes se apresen- ção alguma se não for situada numa concreta rela-
tam, crescentemente, com a possibilidade de aportar ção social e como forma de “relação de poder”. À
à cultura prestações das quais são incapazes os que medida que a autoconfiança e as capacidades de
não participam de sua especifica experiência social. “passar à ofensiva” aumentaram consideravelmen-
Essa aparente nova situação apela para ob- te, incorporando, nesse gesto, o elemento “raça”
servar os possíveis desdobramentos atuais sobre de forma mais explícita nas suas relações sociais
as persistentes práticas discriminatórias e o pró- cotidianas, a “pertença comunitária”, que delimi-
prio racismo. Ao se procurar revelar a forma que tava um específico espaço da negritude, resultou
está assumindo o espaço da negritude, é possível crescentemente desvalorizada para esses jovens.
recolocar os próprios conteúdos do racismo e do Assim, o processo de individualização e diferenci-
antirracismo no contexto contemporâneo. Nesse ação social tem conduzido à insatisfação com uma
sentido, não parece convincente supor que os in- narrativa de identificação cultural que pretendia
divíduos afrodescendentes continuem apelando (se favorecer a “concentração” e uma estratégia de au-
é que, em algum momento, o têm feito plenamen- todefesa e de solidariedade de grupo. Em cada uma

577
O ESPAÇO DA NEGRITUDE E O REVERSO ...

FINCH III, Charles S.; NASCIMENTO, Elisa Larkin. Abor-


dessas ações, esses jovens negros parecem sugerir dagem afrocentrada, história e evolução. In: NASCIMEN-
que seu espaço da negritude não tem mais “uma resi- TO, Elisa Larkin (Org.) Afrocentricidade. Uma abordagem
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Carlos A. Gadea

BLACKNESS AND REVERSE AFRICANNESS: L’ESPACE DE LA NÉGRITUDE ET LE REVERS


a critique of contemporary race relations DE L’AFRICANITÉ: critiques à propos des
relations raciales contemporaines
Carlos A. Gadea Carlos A. Gadea

This article discusses the social dimensions Ce travail présente les dimensions sociales
which blackness and the black experience seem to que l’espace de la négritude semble être en train
be acquiring in our current days. Due to a series of d’occuper ainsi que l’expérience noire dans
political, social and cultural transformations, there l’actualité. Etant donné toute une série de
has arisen the idea that African Brazilians have transformations politiques, sociales et culturelles,
expanded their scenario of interactions, leading to nous partons de l’idée selon laquelle les afro-
changes in the way that they construct their social descendants ont amplifié les scénarios de leurs
identifications. Black youths, for instance, are interactions, suscitant des changements dans leur
protagonists in a process of individualization and manière de construire leurs identifications sociales.
social differentiation which helps destabilize cul- De jeunes Noirs, par exemple, sont à la tête d’un
tural identifications anchored in classical notions processus d’individualisation et de différenciation
of Africanness and community. In this regard, this sociale qui contribue à déstabiliser les identifications
is a critique of the shape that contemporary race culturelles ancrées dans les notions classiques
relations have taken, supposing that the classical d’africanité et de communauté. C’est dans ce sens
referential markers which constitute blackness no qu’une critique des configurations des relations
longer seem to be legitimatizing what is really being sociales contemporaines est faite, en partant du
experienced by many African Brazilians today. principe que les points de repère classiques de
constitution de l’espace de la négritude ne semblent
pas continuer à légitimer ce qui est, de fait, vécu
actuellement par de nombreux afro-descendants.

KEY WORDS: Blackness. Race relations. Africanness. MOTS-CLÉS: Espace de la négritude. Relations
African Brazilians. Racism. raciales. Africanité. Afro-descendants. Racisme.

CADERNO CRH, Salvador, v. 26, n. 69, p. 563-579, Set./Dez. 2013

Carlos A. Gadea – Pós-doutorado no Center for Latin American Studies na University of Miami. Doutor em
Sociologia Política. Professor Titular do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais na Universidade do
Vale do Rio dos Sinos. Bolsista de Produtividade do CNPq. Atua principalmente nos temas: Teoria Social
Contemporânea, Estudos Latino-americanos, Ações coletivas e Movimentos Sociais, Juventude e Cultura,
Violência e Conflitos Urbanos e Estudos Étnico-Raciais. Publicações recentes: The neo-zapatista movement of
Chiapas: identities and strategies. Sociology Study, v. 3, p. 278-288, 2013; La izquierda política en América Latina:
el Lulismo en Brasil y la Izquierda en el Uruguay. Espacio Abierto (Caracas. 1992), v. 22, p. 377-392, 2013; O
interacionismo simbólico e os estudos sobre cultura e poder. Sociedade e Estado (UnB. Impresso), v. 28, p. 241-255,
2013; O significante ‘negro’ e a pós-africanidade: a diáspora haitiana em Miami. Sociologias (UFRGS. Impresso),
v. 15, p. 220-245, 2013.

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