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A Riqueza das Nações

Adam Smith

Bruno Rafael dos Santos

Novo Hamburgo
2020
O presente texto é um resumo dos principais aspectos do pensamento econômico de Adam
Smith (Kirkcaldy, 5 de junho de 1723 – Edimburgo, 17 de julho de 1790) presentes em sua obra
Uma investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, publicada originalmente
em 1776.
A obra é considerada até os dias de hoje como o marco inicial do estudo da Economia como
ciência independente e do liberalismo econômico, como resposta ao mercantilismo. Smith defendia
que a riqueza de um país consiste na capacidade de produzir bens de consumo suficientes para
atender a demanda da população, o que só seria possível através do desenvolvimento das forças
produtivas, ao contrário do que pregava a doutrina mercantilista, cuja riqueza consistia no acúmulo
de metais preciosos. Da mesma forma, Smith defendia o livre comércio em detrimento do
protecionismo mercantilista, argumentando que este impedia o curso natural do desenvolvimento da
economia.
O resumo que se segue não tem a pretensão de ir além do que fora dito pelo próprio autor
em sua principal obra, tendo, portanto, um caráter predominantemente expositivo, com o objetivo
de tornar as suas ideias mais acessíveis àqueles que se aventurarem na leitura de A Riqueza das
Nações e que porventura necessitarem de esclarecimento a respeito de alguns aspectos que podem
se apresentar obscuros no decorrer da leitura, algo que julgo ser bastante frequente em se tratando
de obras tão antigas.
O resumo seguirá a ordem linear da exposição proposta pelo autor, isto é, estará dividido em
cinco partes, do primeiro ao quinto livro de A Riqueza das Nações, sendo eles:
– Livro Primeiro: as causas do aprimoramento das forças produtivas do trabalho e a ordem segundo
a qual sua produção é naturalmente distribuída entre as diversas categorias do povo;
– Livro Segundo: A natureza, o acúmulo e o emprego do capital;
– Livro Terceiro: A diversidade do progresso da riqueza nas diferentes nações;
– Livro Quarto: Sistemas de economia política;
– Livro Quinto: A receita do Soberano e do Estado.
LIVRO PRIMEIRO
AS CAUSAS DO APRIMORAMENTO DAS FORÇAS PRODUTIVAS DO TRABALHO E A
ORDEM SEGUNDO A QUAL SUA PRODUÇÃO É NATURALMENTE DISTRIBUÍDA ENTRE
AS DIVERSAS CLASSES DO POVO

CAPÍTULO I
DIVISÃO DO TRABALHO

Uma nação é mais ou menos rica de acordo com os bens necessários e os confortos materiais
que é capaz de produzir. A proporção entre essa produção e o número de pessoas que deve consumi-
la determina a riqueza das nações.
Se em um país, a produção de alimentos não é suficiente para suprir a necessidade primária
de alimentação de uma parcela qualquer de sua população, em hipótese alguma o mesmo poderá ser
considerado um país rico. Do mesmo modo, um país que produz alimentos o suficiente para atender
toda a sua população, mas que é incapaz de suprir a demanda por bens de vestuário e moradia a toda
população, será menos rico do que aquele que consegue.
Em sociedades desenvolvidas, a capacidade produtiva, isto é, a capacidade de fornecer bens
de consumo em número suficiente para toda a população, parece ser efeito da divisão do trabalho.
Tomemos como exemplo, uma pequena manufatura de alfinetes. Um único operário
produziria, se efetuasse todas as atividades produtivas, um único número bastante reduzido de
alfinetes em relação ao que é produzido com a divisão do trabalho.
Os efeitos da divisão do trabalho são as mesmas em todas as artes e indústrias. A agricultura,
entretanto, não é uma atividade capaz de ser subdividida tanto quanto as atividades manufatureiras.
Portanto, a riqueza de uma nação deve ser melhor determinada pela sua capacidade industrial do
que agrícola.
As vantagens da divisão do trabalho devem-se a três circunstâncias:
1) Aumento da destreza dos trabalhadores;
2) Poupança de tempo, correspondente à passagem de uma atividade à outra;
3) Invenção e utilização de máquinas que facilitam e reduzem o trabalho.
Assim, a multiplicação dos produtos do trabalho em sociedades desenvolvidas, como efeito
da divisão do trabalho, proporciona, mesmo para as camadas mais pobres da população, um nível de
vida superior do que aquele que pode ter qualquer membro de uma sociedade primitiva.

CAPÍTULO II
O PRINCÍPIO QUE DA ORIGEM A DIVISÃO DO TRABALHO

A divisão do trabalho procede mais da natureza humana do que de convenções sociais. O


homem primitivo não era capaz de satisfazer todas as suas necessidades sem imenso esforço e
mesmo sem arriscar sua própria vida em suas atividades produtivas. Tampouco é o homem o animal
mais forte e com melhor constituição para enfrentar os perigos do mundo natural.
Levando em conta que é impossível a um único indivíduo suprir todas as suas necessidades
através do produto direto de seu trabalho, não é difícil imaginar que mesmo nas sociedades mais
primitivas já houvesse certa divisão do trabalho, de modo que um produtor de x, necessitando de um
bem y, trocasse o excedente de sua produção pelo excedente de um produtor de y, o qual igualmente
necessitasse de x.
Evidencia-se, portanto, na natureza humana, uma propensão à troca, ao escambo, à permuta.
Essa tendência à troca é o princípio que dá origem à divisão do trabalho. Numa sociedade
desenvolvida, o homem necessita da cooperação de uma imensidade de pessoas para atender todas
as suas necessidades, tendo maior probabilidade de obter aquilo que deseja, se conseguir fornecer às
outras pessoas aquilo que elas desejam. Em outras palavras, é o egoísmo de cada produtor
específico o motor da cooperação econômica entre os membros de uma sociedade.
Não é da bondade do marceneiro, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso
jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse.
O egoísmo leva a divisão do trabalho e a divisão do trabalho leva ao desenvolvimento das
forças produtivas. A divisão do trabalho leva à especialização, isto é, ao desenvolvimento, nos
indivíduos, de talentos para determinadas atividades. A diversidade de talentos tornam-se úteis para
todos e, na medida em que as sociedades se desenvolvem, geram maior capacidade para satisfazer
um número cada vez mais elevado de necessidades da população.

CAPÍTULO III
QUE A DIVISÃO DO TRABALHO É LIMITADA PELA EXTENSÃO DO MERCADO

O mercado é onde ocorrem as trocas econômicas. Podemos aqui, para facilitar a exposição,
pensar no mercado como um espaço geográfico delimitado, onde os produtos do trabalho são
produzidos e trocados.
A limitação da extensão do mercado limita também a extensão da divisão do trabalho.
Quando o mercado é muito reduzido, ninguém é estimulado a dedicar-se inteiramente a uma única
atividade, porque não poderá trocar todo o seu excedente pelos bens que necessita.
Em uma pequena aldeia, por exemplo, cada agricultor deve ser também cortador, pedreiro,
cervejeiro de sua própria família, pois muito dificilmente se encontrará indivíduos especializados
para suprir essas necessidades dentro do pequeno mercado em que está inserido. Assim, as grandes
cidades favorecem a divisão do trabalho.
O transporte de mercadorias por vias aquáticas cobre um mercado muito mais vasto do que
o transporte por terra. Portanto, não é de estranhar que o desenvolvimento econômico sempre
comece em regiões da costa ou próximas de grandes rios.

CAPÍTULO IV
A ORIGEM E O USO DO DINHEIRO

Existem inconvenientes em se permutar diretamente o produto de um trabalho por outro. O


açougueiro possui em seu estoque mais carne do que pode consumir e está disposto a trocar seu
excedente por outro produto. O padeiro possui mais pão do que o necessário para sua subsistência e
pretende trocar seu excedente por carne. Entretanto, o açougueiro já possui pão o suficiente para sua
subsistência. Nesse caso, a troca fica impossibilitada.
Para evitar esse tipo de inconveniente, desde tempos remotos, os homens têm estipulado
certas mercadorias que devem servir de objeto de troca equivalente a qualquer outra, Para esse fim
foram empregadas mercadorias diversas: gado, tabaco, sal etc. Entretanto, os metais tornaram-se as
mercadorias favoritas para exercer esse tipo de função, devido a sua durabilidade e divisibilidade.
A moeda cunhada surge da necessidade de garantir a autenticidade de um determinado metal
como meio de troca dentro de um território, garantindo assim que a moeda se transformasse em
meio de troca universal.
Para determinar a proporção em que um bem x deve ser trocado por um bem y é preciso
conhecer o valor desses bens. A partir de seus valores serão estipulados seus preços.
Toda bem econômico possui valor de uso (utilidade) e valor de troca (poder de compra). É
evidente que é o valor de troca que deve determinar o preço dos bens, não o valor de uso. A água é
muito útil, já os diamantes não, porém os diamantes possuem um poder de compra muito superior à
água.
CAPÍTULO V
DO PREÇO REAL E NOMINAL DOS BENS, OU DE SEU PREÇO EM TRABALHO E EM
DINHEIRO

Assim como a riqueza de uma nação é medida pela sua capacidade de produzir e distribuir
bens a toda a população, um indivíduo é rico ou pobre de acordo com a quantidade de necessidades
que consegue satisfazer através do produto de seu trabalho e através do produto do trabalho dos
outros.
O valor de uma mercadoria é determinado, portanto, para a pessoa que a produziu e que não
pretende consumi-la, mas trocá-la pela mercadoria de outro, pela quantidade de trabalho alheio que
ela lhe permite comprar ou dominar. Assim, o trabalho constitui a verdadeira medida de valor de
troca de todos os bens. Geralmente, contudo, o valor não é calculado diretamente pelo trabalho,
sendo este muito difícil de ser mensurado com precisão. Não basta levar em conta o tempo de
trabalho, mas também o grau de complexidade e esforço exigido pela atividade.
É mais frequente que uma mercadoria seja trocada por outra do que por trabalho; mais
frequente ainda é que ela seja trocada por dinheiro. Contudo, sendo os metais que constituem o
dinheiro também mercadorias, seus valores variam constantemente. O preço da prata caiu na
Europa com a descoberta das minas na América, por exemplo. A quantidade de trabalho que uma
quantidade específica de ouro e prata pode comprar ou comandar, ou seja, a quantidade de outros
bens pela qual pode ser trocada, depende sempre da abundância ou escassez das minas que
eventualmente se conhecem, por ocasião das trocas.
O trabalho é a única medida de valor que nunca varia, sendo portanto, o preço real das
mercadorias, enquanto o valor em dinheiro representa o preço nominal.
No mesmo tempo e lugar, a moeda é suficiente para se ter a medida exata do valor de um
bem. No longo prazo, os valores estimados em trigo são mais estáveis que aqueles avaliados em
ouro ou prata, por funcionar como indicador do preço real do trabalho que deve remunerar a
subsistência do trabalhador.

CAPÍTULO VI
DAS PARTES QUE COMPÕE O PREÇO DOS BENS

Admite-se que no estado mais primitivo do desenvolvimento das forças produtivas, a


totalidade do produto do trabalho pertence ao trabalhador. Com o acúmulo de capital, esse estado de
coisas é alterado. Alguns indivíduos empregarão seu capital de modo que possam colocar outros
indivíduos para realizarem o trabalho, criando assim, a relação entre patrões e empregados.
O valor que os trabalhadores acrescentam às matérias-primas consistirá em duas partes:
lucro para o patrão e salário para os trabalhadores. O patrão não teria interesse em empregá-los se
não esperasse obter mais do que a reconstituição da riqueza inicial e não teria interesse em
empregar um maior volume de bens se os lucros não forem proporcionais ao volume de capital
empregado.
Assim, a quantidade de trabalho necessário para a produção deixa de ser o único fator
determinante do valor de troca.
Logo que a terra torna-se propriedade privada, os seus donos cobrarão pela exploração de
seus recursos naturais, então, outro fator entre na composição do preço: a renda da terra.
Em uma sociedade desenvolvida, salários, lucros e renda da terra compõe os preços das
mercadorias, embora seja possível que um ou dois deles estejam ausentes, é impossível que estejam
os três ausentes ao mesmo tempo.
Como, em um país desenvolvido, a renda e o lucro contribuem largamente para a produção
anual, está será suficiente para comprar ou dominar uma quantidade de trabalho muito superior à
que foi utilizada para criar, preparar e transportar essa produção, Se a sociedade empregasse,
anualmente, todo o trabalho que pode adquirir, a produção de cada ano sempre superaria a do
precedente. Mas os ociosos consomem, em toda parte, uma grande parcela dessa produção. A
proporção em que a produção é consumida por produtores e por ociosos determina o aumento, a
estagnação ou o declínio da produção.

CAPÍTULO VII
DO PREÇO NATURAL E DO PREÇO DE MERCADO DOS BENS

A natureza das ocupações e o estado de desenvolvimento da sociedade determina uma taxa


corrente ou média de lucro, salários e renda. Quando o preço equivale ao conjunto da renda, salários
e lucro necessários para colocar a mercadoria no mercado, esse preço é o que podemos chamar de
preço natural.
Já o preço de mercado, pode ser superior, igual ou inferior ao preço natural. O preço de
mercado é determinado principalmente pela quantidade de bens que entram no mercado em relação
a procura desses bens pela população, ou seja, pela oferta e demanda.
Quando a quantidade posta no mercado é superior a procura, uma parte da produção deverá
ser vendida a um preço de mercado inferior ao preço natural. Quando a quantidade posta no
mercado é inferior a procura, uma parte da produção pode ser vendida a um preço superior ao preço
natural.
O preço natural é o centro para o qual tendem os preços de todas as mercadorias, assim
como a procura efetiva deve regular a quantidade de bens posta no mercado. Muitos fatores, no
entanto, contribuem para deixar o preço de mercado suspenso acima ou abaixo do preço natural:
1) Na agricultura, os preços de mercado estão sujeitos as condições climáticas e naturais em
geral;
2) Um luto público eleva o preço da roupa preta;
3) Monopólios podem manter o mercado sempre subabastecido, controlando o preço a seu
favor;
4) Corporações e estatutos de aprendizagem reduzem a concorrência, produzindo uma
espécie de monopólio;
5) Segredos industriais podem constituir vantagem àqueles que os detém;
Segredos industriais, monopólios e demais situações extraordinárias podem manter o preço
de mercado elevado durante muito tempo, ao passo que raramente o preço de mercado ficará muito
abaixo do preço natural durante muito tempo. Qualquer que fosse o componente do preço pago
abaixo da taxa natural, as pessoas cujos interesses saíssem prejudicados diretamente pela perda,
retiraria sua contribuição e assim a quantidade colocada no mercado se reduziria ao estritamente
suficiente para atender a demanda efetiva. Portanto, o preço dessa mercadoria logo subiria ao preço
natural.

CAPÍTULO VIII
OS SALÁRIOS DO TRABALHO

Os salários dependem de contratos celebrados entre trabalhadores e patrões. Nem de longe


seus interesses coincidem: enquanto uns querem aumentar seus salários, os outros querem diminuí-
los para que possam aumentar seus lucros. É evidente também que os patrões têm certa vantagem
em relação aos trabalhadores: possuem melhor capacidade de organização e possuem capital
suficiente para subsistir por mais tempo em caso de disputas.
Embora os patrões desejem baixar os salários, não conveniente para eles mantê-los abaixo
de determinada taxa, suficiente para manter a subsistência do trabalhador e de sua família. A
mortalidade infantil é efeito dos salários que não são capazes de garantir, além da subsistência do
trabalhador, a de seus filhos. Nesse caso, a procura por mão de obra tende a aumentar e com ela,
consequentemente, aumentam também os salários. A demanda por trabalhadores aumenta também
com o aumento da riqueza nacional: as receitas e o capital. Não se trata aqui, do volume de receitas
e do capital, que permanecendo constantes, em nada alteram a procura por mão de obra, mas sim do
contínuo progresso e aumento dessa riqueza.
É natural que o aumento dos salários dos trabalhadores produzam efeitos positivos para toda
a sociedade. Os salários altos são incentivos para a atividade. Uma subsistência farta aumenta a
força e o ânimo, os trabalhadores serão mais ativos e diligentes. Além disso, a melhor remuneração
propicia o descanso dos trabalhadores, algo igualmente positivo para a sociedade.
O aumento dos salários aumenta também o preço dos bens, visto que aumenta a parte
correspondente aos salários na composição dos preços. Todavia, a causa do aumento dos salários,
isto é, o aumento do capital, leva a que se aumente a capacidade produtiva da sociedade,
conseguindo-se uma maior quantidade de produtos com uma menor quantidade de trabalho. Haverá
assim, maior divisão do trabalho, mais especialização e maior probabilidade de surgirem novas
invenções. A produção de certos bens passará a exigir menos trabalho, sendo o aumento do preço do
trabalho mais do que compensado pela redução de sua quantidade.

CAPÍTULO IX
OS LUCROS DO CAPITAL

Tal como os salários, os lucros tendem a variar de acordo com o grau de prosperidade ou
decadência da riqueza do país. O aumento do capital acumulado, que faz subir os salários, tende a
baixar os lucros, devido à concorrência mútua entre os diversos capitalistas e devido a maior
despesa que um capital maior acarreta.
O lucro de uma nação varia muito e por diversas circunstâncias, sendo muito difícil de ser
mensurado. Pode-se adotar a máxima de que, onde se pode ganhar muito com o uso do dinheiro,
muito se poderá pagar por esse uso; e onde pouco se pode ganhar com esse uso, pouco se pagará.
Assim, podemos tomar uma ideia do lucro médio do capital a partir da taxa de juro.
Conforme, portanto, a taxa de juro variar em um determinado país, podemos deduzir que os
lucros do capital variarão com ela: baixam quando eles baixam e sobem quando eles sobem.
A mínima taxa de lucros deve ser o suficiente para compensar as perdas acidentais a que o
emprego do capital está sujeito e mais um excesso. Somente esse excesso constitui o lucro limpo. O
mesmo deve ocorrer com a taxa de juro.

CAPÍTULO X
OS SALÁRIOS E O LUCRO NOS DIVERSOS EMPREGOS DE MÃO DE OBRA E CAPITAL

Onde há plena liberdade as vantagens e desvantagens dos diversos empregos de mão de obra
e de capital tendem a igualdade. As diferenças efetivas entre ganhos e perdas se contrabalanceiam
devido a circunstâncias inerentes aos próprios empregos e devido à intervenções políticas na
economia.

Parte primeira: desigualdades decorrentes da própria natureza das ocupações

1) Os salários variam de acordo com a natureza das ocupações: trabalhos limpos, fáceis e
seguros tendem a pagar menos do que trabalhos sujos, difíceis e perigosos, tanto no tocante aos
salários quanto aos lucros;
2) Os salários variam conforme o custo de aprendizagem da ocupação. Tal circunstância
pouco afeta os lucros;
3) Os trabalhos variam conforme a estabilidade do emprego. Um pedreiro, por exemplo, não
pode trabalhar sob determinadas condições climáticas, por isso deve ganhar mais;
4) Os salários variam conforme a confiança a ser depositada. Tal circunstância pouco afeta
os lucros;
5) Os salários variam com a probabilidade do sucesso. Os lucros varam conforme a certeza
do retorno.
Como se vê, os lucros são menos variáveis que os salários.

Parte segunda: Desigualdades oriundas da política da Europa

A política da Europa gera desigualdades quando:


1) Limita a concorrência em alguns casos, sobretudo outorgando privilégios às corporações;
2) Aumenta a concorrência em outros casos, como ocorre no clero;
3) Dificulta a livre circulação de mão de obra e de capital;

CAPÍTULO XI
A RENDA DA TERRA

A renda considerada como o preço pago pela utilização da terra, será o valor mais alto que o
arrendatário puder pagar. Não advém de juros ou lucros do capital, portanto, a renda da terra
assemelha-se a um preço de monopólio.
Se determinada parcela da produção atinge ou não preço suficiente para gerar uma renda,
isso depende da demanda. A renda da terra entra na composição do preço de uma forma diferente
dos elementos salários e lucro. Enquanto estes são a causa do preço das mercadorias, a renda da
terra é um efeito dos preços. Sendo a renda da terra o excedente que sobra após ser deduzido o custo
de produzir e levar os produtos da terra até o mercado mais o lucro do arrendatário, poderão haver
mercadorias cujo preço é o suficiente para serem levadas ao mercado, para cobrir o custo de
produção e os lucros, mas que não gerarão renda ao proprietário da terra.

Parte primeira: os produtos da terra que sempre proporcionam renda

A terra sempre produz uma quantidade de alimentos mais que suficiente para manter toda a
mão de obra necessária para colocá-la no mercado, o lucro do capital e a renda da terra. Na medida
em que aumenta a população, aumenta na mesma proporção a demanda por alimentos, portanto, a
oferta de alimentos é determinada pela demanda.
A demanda por trigo, o alimento básico da população, encontra-se determinada pelo
tamanho da população, sendo, portanto, a renda da produção de trigo a medida da renda de todos os
outros produtos da terra.
A renda varia de acordo com a fertilidade da terra e a localização. Assim, a renda é superior
perto das cidades, devido ao baixo custo de transporte dos produtos do trabalho até os
consumidores. Do mesmo modo, a renda das terras mais férteis regula a renda das menos férteis.
A renda e o lucro do trigo devem naturalmente regular a renda e o lucro das pastagens, e a
renda gerada pela terra que produz alimentos regula a renda proporcionada pela maioria das outras
terras.

Parte segunda: o produto da terra que às vezes gera renda e às vezes não

Os únicos produtos da terra que sempre geram renda são os alimentos. Depois da
alimentação vêm as necessidades de vestuário e moradia. Os produtos da terra que satisfazem esse
tipo de necessidade são abundantes no período em que as forças produtivas da sociedade não estão
plenamente desenvolvidas e a terra não está plenamente dedicada ao cultivo de alimentos, portanto
não possuem muito valor, chegando até a não possuir nenhum. Quando a sociedade se desenvolve,
produtos de vestuário e moradia adquirem imenso valor e sua demanda será regulada pela facilidade
de conseguir alimentos. Em outras palavras, tendo alimentos suficiente para toda a população, esta
poderá adquirir outras mercadorias provenientes da matéria-prima retirada da terra; com o aumento
da demanda, o preço dessas matérias-primas tornam-se suficientes para gerar renda ao proprietário
de terras. Mas nem sempre isso ocorre. Para uma mina de carvão gerar renda, por exemplo, vai
depender muito da sua localização e fertilidade

Parte terceira: as variações entre os respectivos preços daqueles tipos de produto que sempre
geram renda e daqueles que as vezes geram renda

A marcha geral do progresso da sociedade faz com que os produtos da terra, que não sejam
alimentos, se tornem mais caros. Porém, existem exceções, como é o caso da prata, cujo valor
diminui na medida em que novas e ricas minas são descobertas.
Se a demanda por prata é superior a sua oferta, seu valor aumenta, fazendo com que se possa
adquirir uma maior quantidade de trigo com uma quantidade menor de prata. Se ao contrário, a
oferta supera a demanda, o valor da prata cai e se obterá menor quantidade de trigo com a maior
quantidade de prata. Se, por fim, a oferta e a demanda por prata manter a proporção, o preço
monetário do trigo manter-se-ia no mesmo nível em todo o período.

Efeitos diferentes do avanço do desenvolvimento sobre três tipos diferentes de produtos naturais

Os diversos tipos de produtos brutos cujo preço aumenta com o progresso são classificados
em três grupos:
1) Aqueles cujo trabalho humano dificilmente pode multiplicar: animais raros, por exemplo.
Ao crescer a riqueza, a demanda por esse tipo de produto tende a crescer, por outro lado, o trabalho
humano pouco pode fazer para aumentar a sua oferta.
2) Aqueles cujo trabalho humano pode multiplicar de acordo com a demanda: Produtos
abundantes na natureza, mas que com o avanço do progresso são substituídos por outros mais
lucrativos. Com o progresso, embora a quantidade desses bens diminua, a demanda por eles cresce
e, consequentemente, o preço subirá em relação a demanda efetiva;
3) Aqueles cujo trabalho humano só pode multiplicar em caráter limitado e incerto: a
quantidade de couro e lã disponíveis no mercado estará limitada a quantidade de gado e ovelhas
criadas.

Conclusão do capítulo

O progresso da sociedade tende a aumentar a renda do proprietário de terras,


consequentemente, seu poder de comandar trabalho alheio. Todo aumento na riqueza real da
sociedade, todo aumento na quantidade de mão de obra útil nela empregada, indiretamente tende a
aumentar a renda real da terra. Assim, o interesse do proprietário de terras está intimamente ligado
com o interesse geral da sociedade. Do mesmo modo, o aumento da riqueza da sociedade favorece
os trabalhadores assalariados, embora em menor intensidade do que aos proprietários de terra. Por
outro lado, como os lucros do capital baixam na medida em que a sociedade progride, o interesse
dos capitalistas não mantém, portanto, com o interesse geral da sociedade relação idêntica à
verificada para as outras duas.
LIVRO SEGUNDO
DA NATUREZA, ACÚMULO E EMPREGO DO CAPITAL

Dando continuidade ao resumo da obra A Riqueza das Nações de Adam Smith, trataremos
agora do Livro Segundo – Da Natureza, Acúmulo e Emprego do Capital.

CAPÍTULO I
A DIVISÃO DO CAPITAL

O acúmulo de capital é consequência do desenvolvimento da sociedade e gera a divisão do


trabalho. Em sociedades primitivas, os indivíduos buscam pelos bens na medida em que são
impelidos pela necessidade de consumi-los e as trocas quase não existem. Entretanto, na medida em
que a sociedade progride, dificilmente um indivíduo conseguirá satisfazer todas as suas
necessidades através do produto de seu próprio trabalho. A necessidade de obter o produto do
trabalho de outro, através da troca do produto de seu próprio trabalho, obriga o produtor a manter
em seu estoque uma quantia determinada de bens que seja suficiente para garantir sua subsistência
enquanto realiza suas atividades produtivas. Como estoque destinado ao consumo imediato daquele
que o possui temos a primeira forma do capital: o capital de subsistência, ou capital para o consumo
imediato.
Geralmente, um capital pequeno servirá para o consumo imediato daquele que o possui.
Dificilmente dele se tentará auferir alguma renda. Quando, porém, a pessoa consegue, através de
seu capital acumulado, garantir sua subsistência e ainda lhe resta uma boa porção desse capital, é
natural que ela busque auferir uma renda dessa parte.
Há duas maneiras de se empregar capital para que ele proporcione renda ou lucro àquele que
o detém:
1) Como capital circulante: Usa-se o capital para obter, fabricar ou comprar bens que serão
revendidos com lucro. Denomina-se capital circulante pois não dá lucro ao seu detentor enquanto
não sair de suas mão. As mercadorias de um comerciante, por exemplo, somente proporcionarão
renda quando forem trocadas por dinheiro e quando o dinheiro, por sua vez, for trocado por outros
bens.
2) Como capital fixo: Máquinas, ferramentas, melhorias que, sem saírem das mãos de seu
dono, geram renda ou lucro.
A quantidade de capital fixo e circulante que deve ser empregado em cada ocupação varia de
acordo com a natureza de cada trabalho. Por exemplo, o capital de um comerciante é constituído
predominantemente de capital circulante; o capital de um manufator, por outro lado, é constituído
predominantemente por ferramentas necessárias ao exercício de sua atividade, ou seja, capital fixo.
O capital total de um país é a soma de todos os capitais de todos os habitantes do país e pode
ser de três tipos:
1) Capital reservado para o consumo imediato: consiste em não gerar renda nem lucro.
Consiste no capital em alimentos, roupas, mobílias domésticas etc. que foram comprados pelos seus
consumidores mas ainda não estão totalmente consumidos.
2) Capital fixo: proporciona renda ou lucro sem circular de mãos. Consiste nos quatro itens
seguintes:
a) máquinas e instrumentos que abreviam o trabalho;
b) construções que geram renda tanto para o proprietário quanto para o locatário;
c) aprimoramento da terra;
d) habilidades úteis dos indivíduos que compõe a sociedade.
3) Capital circulante: proporciona renda apenas quando passa de mãos em mãos. Também divide-se
em quatro partes:
a) Dinheiro: que possibilita a circulação e a distribuição dos bens;
b) Estoque de provisões;
c) Materiais em estado bruto ou ainda não acabados;
d) Produto acabado.
As três últimas partes do capital circulante da sociedade estão constantemente sendo
desincorporados desse grupo, indo para o capital fixo ou destinado ao consumo imediato de alguém.
Todo capital fixo deriva de um capital circulante e é mantido por ele, não podendo gerar renda ao
seu proprietário sem um capital circulante: materiais a serem trabalhados e remuneração aos
empregados.
A única finalidade do capital fixo e do capital circulante é possibilitar o aumento do capital
destinado ao consumo imediato da população. Sendo a riqueza de uma nação determinada pela
capacidade das forças produtivas satisfazerem as necessidades da população, da capacidade destes
capitais em fornecer os bens que satisfazem essas necessidades depende a riqueza ou a pobreza de
uma sociedade.
O capital circulante, por estar frequentemente sendo fragmentado e por ser necessário a
manutenção do capital fixo, deve ser regularmente reabastecido. As fontes de abastecimento desse
capital são três: a mineração, a produção da terra e a pesca, sendo que as três atividades também
requerem capitais fixos e circulantes para serem exploradas.

CAPÍTULO II
O DINHEIRO CONSIDERADO COMO UM SETOR ESPECÍFICO DO CAPITAL NACIONAL,
OU SEJA, A DESPESA DA MANUTENÇÃO DO CAPITAL

A renda bruta de todos os habitantes de um país compreende a produção anual total de sua
terra ou de seu trabalho. Já a renda líquida diz respeito ao que lhes resta livre após serem deduzidas
todas as despesas de manutenção do capital, ou seja, tudo aquilo que, sem interferir em seu capital,
pode ser incorporado ao seu capital reservado ao consumo imediato. A riqueza está em proporção à
renda líquida, e não à renda bruta.
O total de despesas necessárias para manter o capital fixo deve ser excluído da renda líquida
da sociedade. O salário dos trabalhadores pode fazer parte da renda líquida, já que os trabalhadores
podem empregar a totalidade de seus salários em seu capital de consumo imediato.
O propósito do capital fixo é aumentar as forças produtivas do trabalho, portanto, qualquer
redução nos custos de manutenção do capital fixo é vantajosa, desde que não afete negativamente a
capacidade produtiva deste capital.
O mesmo não ocorre em relação ao capital circulante. Dos quatro elementos que compõe
esse capital – dinheiro, suprimentos, materiais e produto acabado – os três últimos são
constantemente retirados do capital circulante e incorporados ou ao capital fixo ou ao capital
reservado ao consumo imediato da sociedade. Toda porção desses bens, que não for empregada na
manutenção do capital circulante, vai para o capital da sociedade, fazendo parte da renda líquida
desta. Do mesmo modo, a manutenção desses três tipos de bens não retira da renda líquida da
sociedade nenhuma porção da produção anual.
Assim, o capital circulante da sociedade é diferente do capital circulante de um indivíduo.
Em se tratando do capital circulante de um indivíduo, não há a possibilidade dele fazer parte da sua
renda líquida, que deve consistir unicamente de seu lucro. Por outro lado, o capital circulante de um
indivíduo, por estar sempre sendo incorporado ao capital de consumo imediato de outras pessoas,
faz parte da renda líquida da sociedade.
O dinheiro é o único elemento do capital circulante cuja manutenção pode acarretar
diminuição da renda líquida da sociedade. O caráter peculiar do dinheiro, como elemento desse
capital, deve ser analisado mais de perto.
A manutenção da parcela do capital circulante composta por dinheiro afeta a renda da
sociedade de uma maneira semelhante ao capital fixo, pois:
1) A circulação de dinheiro em certo país exigirá despesas que afetam a renda líquida do
mesmo, devido à mão de obra e aos metais preciosos que, em vez de aumentarem o capital
reservado para o consumo imediato, são empregados para manter a circulação;
2) Sendo a riqueza composta pelos bens capazes de satisfazer as necessidades da população
e o dinheiro apenas a engrenagem que faz a roda da circulação funcionar, o dinheiro não faz parte
nem da renda bruta nem da renda líquida da sociedade, assim como o capital fixo;
3) Assim como toda economia de despesas feita na manutenção do capital fixo é desejável,
toda economia de despesas realizada a fim de manter a circulação de dinheiro em um determinado
país é igualmente desejável. A substituição da moeda metálica por papel moeda é vantajosa por
diminuir as despesas da manutenção do dinheiro como meio de circulação.
Um banco emite notas bancárias, que devido à confiança e a credibilidade que possuem na
sociedade, servem como dinheiro. Digamos que um banqueiro emita 100 mil libras esterlinas em
notas promissórias que ficarão circulando por meses e até anos. Um montante de 20 mil libras em
outro e prata em posse do mesmo banco pode ser o suficiente para suprir as demandas ocasionais.
Assim, poupa-se a circulação de 80 mil libras em moeda metálica.
Sendo 1 milhão de libras o necessário para fazer circular o total da produção anual de um
país, diversos banqueiros emitem notas de até 1 milhão, deixando em seus cofres um total de 200
mil em ouro e prata para suprir eventuais demandas. Estariam em circulação, portanto, 1,8 milhão
de libras. Sendo 1 milhão o suficiente para encher o canal de circulação, os outros 800 mil podem
ser direcionados ao exterior para a compra de mercadorias estrangeiras.

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