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jusbrasil.com.br
14 de Novembro de 2018

A lição de Henry Ford: empregado não é colaborador,


é empregado

Uma re exão para quem quer negar o inafastável con ito de


classe no Direito do Trabalho.

Não duvido que em algum momento próximo a CLT venha a


ser substituída por outro diploma, talvez uma CLC, a
“Consolidação das Leis do Colaborador”. Pois agora, nesses
tempos que correm, muitas empresas decidiram que seus
trabalhadores não podem mais ser chamados de
“empregados”, mas sim de “colaboradores”. Algumas vão
mais além e tratam os seus subordinados como “parceiros”.

Nada é tão emblemático do anseio reacionário de derruição


do Direito do Trabalho quanto a tentativa algo patética de
empregadores de quererem fazer acreditar que a relação de
emprego não é uma relação de subordinação
(verticalizada), mas sim de colaboração (horizontalizada).
Colaborar, na etimologia latina, significa trabalhar lado a
lado. Nesta novilíngua, patrões e empregados estariam
assim em uma “parceria”, em comunhão total de interesses,
“laborando conjuntamente”. A filosofia subjacente,
divulgada inclusive em manuais fajutos de recursos
humanos, é de que o patrão é também trabalhador e o
trabalhador é igualmente um “sócio” informal da empresa.
Ora, as palavras têm sentido. Muito da interpretação
jurídica, aliás, não passa de mera disputa de sentido
semântico. O discurso linguístico nunca é neutro e embute,
é claro, uma ideologia. A utilização da expressão
“colaborador” não é aleatória ou acidental. Ela se contrapõe
a “empregado”, voz passiva do verbo empregar, ou seja,
aquele que é usado, submetido em sua vontade por outrem.
A lógica do eufemismo é claríssima: disfarçar ou suavizar a
condição de subordinação e exploração (lícita) do
trabalhador.

Não é coincidência que a terminologia surja neste momento


em que o legislador procura impulsionar “formas
alternativas” (e eu diria eufemísticas…) de contrato de
trabalho e em que a jurisprudência vem aceitando
bovinamente a desnaturação e reclassificação de relações
fático-jurídicas de claríssima subordinação, como é o caso
da absurda decisão monocrática do ,inistro Luis Roberto
Barroso na ADC 48.

Ou seja, o direito legislativo e jurisprudencial, por via


oblíqua, quer estabelecer que o empregado não é
empregado. Mas as palavras, mesmo quando sequestradas,
não mudam a natureza das coisas. Como lembra Ferdinand
Lassalle no clássico “A Essência da Constituição”, se
colocarmos uma placa sobre uma figueira dizendo que
aquela árvore é uma macieira, dela não brotarão maçãs.

Por isso, não é necessário ser sociólogo para perceber que o


vocábulo “colaborador”, criado pelo patronato e não pelo
coloquialismo da classe trabalhadora (que no Brasil gerou o
termo “peão”), tem evidente caráter alienante, para que o
trabalhador não perceba a existência da divisão de classes e
de sua posição subalterna; para que não seja lembrado
semanticamente de que os seus interesses chocam-se
inevitavelmente com o do empregador; para que ele não
reconheça a peculiaridade de sua condição de trabalhador
sujeito a ordens e a disciplina; para que, enfim, não note a
sua identidade “proletária” e, em razão de seu status, não se
solidarize (via sindicalização) com os seus iguais.

Porque, afinal, o sindicato só serve para atrapalhar a


“parceria”, a aliança de “co” “laboração” entre patrões e
empregados. Estou ciente, é claro, da crítica ao conceito de
“proletariado” como uma ficção sociológica, mas o utilizo
aqui para designar a percepção muito concreta de que os
trabalhadores têm de pertencimento a uma mesma
categoria ou profissão.

É evidente que não estou aqui defendendo que o


empregado deva agir como “inimigo” ou “adversário” do
empregador. “Consciência de classe” não significa “luta de
classes”. O que defendo aqui, pois, é o liberalismo do
interesse bem compreendido de Tocqueville, e não uma
fórmula marxista de tomada de poder pelo proletariado.

Por isso, creio, realmente, que os trabalhadores possam e


devam ver a empresa como uma entidade que, de alguma
forma limitada e em certo sentido, também lhes pertence, já
que são parte fundamental da produção de sua riqueza. E,
consequentemente, claro, devem trabalhar com dedicação e
seriedade para que os negócios do patrão prosperem, pois
isso lhes beneficiará (pelo menos em tese), com a
manutenção do emprego e progressão salarial. Institutos
como a participação nos lucros foram oportunamente
criados dentro desse propósito.

Leia artigo completo de Cássio Casagrande, na coluna "O


mundo fora dos autos".

Disponível em: http://jotainfo.jusbrasil.com.br/artigos/647560076/a-licao-de-henry-ford-


empregado-nao-e-colaborador-e-empregado