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Antigamente, os orixás eram homens. Homens que se tornaram voduns por causa de seus poderes.

Homens que se tornaram voduns por causa de sua sabedoria. Eles eram respeitados por causa da sua
força Eles eram venerados por causa de suas virtudes. Nós adoramos sua memória e os altos feitos
que realizaram. Foi assim que estes homens se tornaram voduns. Os homens eram números sobre a
terra. AntigamenteAntigamente, como hoje, muitos deles não eram valentes nem sábios. A memória
destes não perpetuou. Eles foram completamente esquecidos. Não se tornaram voduns. Em cada vila
um culto se estabeleceu sobre a lembrança de um ancestral de prestígio e lendas foram transmitidas
de geração em geração para render-lhes homenagem. (VERGER,2000, p 35.)

VERGER, Pierre. Notas sobre o culto aos orixás e voduns. São Paulo: Edusp, 2000.

RELIGIOSIDADE dos EDO


Os povos de língua Edo vivem em uma região de floresta tropical no sul da Nigéria. A sua
língua pertencia anteriormente à família Kwa de línguas do Níger-Congo e agora está
classificada com o grupo Centro- Sul do Níger-Congo (Ruhlen, 1991). Os Edo propriamente
ditos, centrados na cidade de Benin e à sua volta, são de longa data nesta região. As tradições
orais sugerem que, no século XIII ou XIV, os Edo foram unidos em um reino poderoso que, no
século XV, havia embarcado em um curso de expansão militar agressiva no sul da Nigéria. No
final do século XV, exploradores portugueses entraram em contacto com eles, registando pela
primeira vez o nome Benin , que desde então é usado para designar o reino (o povo é por
vezes referido como oBini ).

A religião Edo tradicional divide o mundo em dois reinos: um mundo visível da experiência
humana comum e um mundo invisível de deuses, ancestrais e outros seres sobrenaturais. O
mundo espiritual é um reino localizado sob o solo ou onde o céu e a terra se encontram. Tem
uma existência paralela que afeta constantemente o mundo cotidiano. Os rituais centrais da
religião Edo, incluindo orações, ofertas e sacrifícios, acontecem em pontos de encontro entre
os dois reinos, em santuários dentro de casas e vilas, ou ao pé de árvores, encruzilhadas ou
margens de rios.

Os dois reinos foram criados pelo ser supremo, Osanobua. Ele também estabeleceu a estrutura
do espaço e do tempo e fez os primeiros humanos respirando força vital em imagens de argila
moldada. Osanobua é imaginado como um rei que vive em um palácio do qual preside o
mundo espiritual, tendo delegado a responsabilidade pelo mundo cotidiano a seus filhos, os
outros deuses do panteão Edo.

O Ser Supremo ‘ Osanubuwa’ é o Alfa e o Ômega da existência do homem. Ele é a força


máxima por trás de tudo o que existe na natureza. O Ser Supremo é espírito absoluto, forma
pura, força e controlador de todos os deuses ou divindades da terra. A concepção Edo de Deus
– ‘ Osanubuwa’ não é a de um Deus distante, ou um Deus incerto ou um Deus ocioso, mas um
Deus preocupado com todos os homens e suas ações e reconhece o coração de todos os
homens, bem como pune ou abençoa respectivamente .

Os deuses da terra Edo são claramente exibidos como a vontade de ‘ Osanubuwa’ . Eles são os
governadores de ‘ Osanubuwa’ . Os deuses da terra Edo são os ‘ Olokun’, ‘Ogivwu’, ‘Oto’, ‘Esu’
e ‘Ogun’ . Outra divindade foi ‘ Ehi’, que é o ser espiritual ou essência do homem ou alma da
personalidade. ‘ Ehi’ também é o determinante do destino humano. ‘ Ehi’ também é reverendo
e adorar com fé, pois ele é a posição espiritual para fortuna e infortúnio do homem. ‘ Olokun’
é o dono do mar que é o filho amado de ‘ Osanubuwa’. Às vezes, ‘ Olokun’é considerado
mulher, mas outros acreditam que ele seja homem. É por isso que quando um homem é
instruído a oferecer sacrifício a ‘ Olokun’ , ele pede que sua filha o faça em seu nome. ‘ Olukun’
tem uma função numerosa, conforme visto na religião Edo. Ele tem um lugar e um modo de
adoração e tem itens identificados com ele como um deus. É Olokun, governante das grandes
águas, que reside em seu próprio palácio sob o rio Etíope, que os Edo acreditam ser a fonte de
todas as águas do mundo. De lá, Olokun envia as bênçãos de riquezas e filhos para seus
devotos fiéis, especialmente mulheres que desejam ter filhos. As esposas e chefes de Olokun
são os deuses dos principais rios do reino e são adorados localmente pelos aldeões.

A tradição Edo deve muito ao poder de Ogivwu como o deus que os trouxe à vida. Ogivwu é o
deus do trovão que traz a morte para crianças desobedientes, por meio de trovões e
relâmpagos. Ele é o deus do julgamento divino. É claro que homem, mulher, vaca e cabra são
frequentemente sacrificados a ele e, em momentos terríveis, esses sacrifícios são aumentados.

O ‘ Ehi’ é o espírito que determina o destino de cada homem. A essência do homem, alma ou
sua natureza metafísica forma o fundamento da inter-relação e, de fato, afirma que o homem
é um ser religioso.

A ontologia Edo revê uma rica tradição histórica sobre o conceito de seus deuses terrestres.
Esses deuses ou divindades, conforme analisados, desempenham papéis importantes na
comunidade. Como trabalhadores de ‘ Osanubuwa’ , eles formam a estrutura espiritual ou
religiosa da sociedade e dão o fundamento para a moralidade e a ética ou normas na
sociedade.

CONCLUSÃO

Deve-se ter em mente que esta pesquisa poderia, de alguma forma, estar relacionada com a
de qualquer sociedade africana como tradição oral, visto que as sociedades africanas cruzam
linhas de semelhança, mas com algumas pequenas diferenças.

No entanto, em grande medida, os deuses ou divindades da terra na sociedade tradicional


africana constituem simbolicamente para a realização e melhoria da sociedade, da
humanidade e também sua destruição social, moral e religiosa.

RELIGIOSIDADE DAHOMEANA
Segundo Verger, os povos ewe-adja-fon, cuja origem (ele também afirma) remete-se a
ancestrais iorubas, teriam ocupado essa região a partir do século VII, fugindo de uma invasão
berbere ao Egito.

O fato é que, tanto para Lepine (2000) como para Verger (2000), estes povos, os quais
pertenceriam mais tarde, como veremos, ao reino do Dahomé (também conhecido como
Danxomé, ou Daomé), tem uma relação de parentesco com os iorubas, proximidade esta tanto
de guerras como de distanciamento, mas raramente de convivência pacífica. A história mais
aceita de que essas populações vieram do Egito, e de onde Verger se baseou, foi contada e
escrita por um oficial da marinha inglesa, o capitão Clapperton, o qual, segundo ele, baseou-se
nas conversas que teve com um líder da cidade de Sokoto (localizada no extremo Norte da
Nigéria), quando da ocupação da região do Níger, passando a ser de influência anglófila.
Inclusive o nome Nigéria significa região entre o rio Níger (Niger – area, ou seja, área do rio
Níger).

Dahomé cujo significado é “filhos da serpente, ou nascidos do ventre da serpente”, pois


acredita-se que Dan é a serpente ancestral que produz a vida e o movimento constante no
mundo.

Os registros informam que era mais comum os povos que viviam na região litorânea do golfo
do Benim terem ritualística específica aos voduns relacionados ao panteão do mar e dos ciclos
d’água, assim como é simbolizada toda a família Danbira . O culto à cobra ancestral era
centrado nas mãos do povo Hula que, a partir da expansão, não só territorial mas também
cultural, que o império dahomeano teve, fez com que houvesse agregação, grifando a
importância da manutenção deste culto e colocando-o como grande ação cultural de caráter
público. Algumas práticas litúrgicas eram de caráter privado e experimentadas apenas pelas
famílias que estavam ligadas à linhagem real, denominadas de ahovi.

Os fons, tendo sua origem em Odudua – que originou o povo adja, que são os ancestrais dos
fons – têm, portanto, a mesma origem do povo ioruba.

A sacralização da terra, do solo onde se vive e onde se originou a família nuclear, é a base da
vida e da cultura destes povos. O simples abandono poderia significar a ruptura com a sua
origem. Por esse motivo, muitos povos resistiram até o fim contra o invasor que, mais
preparado belicamente, e em maior número, geralmente vencia a contenda, com exceção do
povo mahi, que era visto, pelos danxomeanos, como uma reserva especial de escravos (Lepine
2000). Alguns povos dominados cultuavam um ancestral ligado a terra, conhecido pelo nome
de Sapatá (também chamado de Shapanan). O culto a este antepassado estava ligado à
possibilidade de vencer doenças contagiosas, como a varíola. Os fons desconheciam este deus
dos povos dominados (entre eles, os iorubas), e ao invadirem o território onde este ancestre
era cultuado, seus altares eram completamente destruídos.

As divindades desta região chamam-se voduns e dividem-se em famílias, de acordo com a sua
especificidade e também pela sua ligação com os elementos da natureza. Os voduns são
cultuados aos pés de grandes e antigas Árvores, algumas até centenárias. Este igbá natural
chama-se atinsá e mantém escondidos os fundamentos destas divindades. Estas árvores
recebem cuidados especiais e estão permanentemente enfeitadas com ojás e laços,
particularizando-as.

Os Voduns são divididos em três famílias engendradas no território dahomeano: a família de


Sakpatá, trazendo os Voduns da terra; a família dos Heviosso, Voduns do céu e do mar; e a
família de Dan, as cobras. Cada Vodum é um vetor fundamental na construção dos ritos, na
explicação das histórias ancestrais e na manutenção dos valores sagrados. Se a folha cai,
agradecemos a Agé; se o bebê respira assim que nasce, rezamos para Jó; se o corpo se
decompõe na terra, pensamos em Avimaje. Todas as três famílias são de suma importância nas
interpretações dos ciclos naturais, pantomima social e também na vinculação às questões
políticas intrínsecas as dinastias.

Os voduns são considerados ancestrais remotos divinizados e, como os homens, podem ser
jovens, velhos, crianças, femininos, masculinos, tendo pertencido a famílias reais e ilustres.
Costumam ser um pouco rudimentares, embrutecidos e até meio violentos em suas danças, e
não possuem muita aproximação nem intimidade com os seres humanos. Quando
desobedecidos ou provocados, zangam-se facilmente e não possuem comportamentos com
características humanizadas, como os orixás. Os nomes dos voduns, e até mesmo seus rituais,
alimentos, folhas, cantigas, emblemas etc. são bem distintos dos das demais divindades.

O vodun, em linguagem fon, (uma das etnias desta região), significa espírito. Este espírito está
diretamente ligado à ideia de ancestralidade. O ancestral, ou ancestre, é um ser que teve sua
vida terrena, morreu e é cultuado por ser, geralmente, o fundador do clã ou da família, ou
alguém que foi de grande importância para a comunidade. O líder, que pode ter se tornado rei,
como veremos adiante, geralmente era detentor dos poderes militares, jurídicos e espirituais,
e dava o norte por onde toda sua descendência percorreria após sua morte. Este vodun (no
caso dos povos ewe-fon, objeto desta primeira parte) pode ser saudado com cantos, orações
ou danças e reverenciado em festas públicas ou em cerimônias privadas. Os cantos, que são
uma forma de oração ritmada, geralmente aludem a alguma característica desse ancestral, ou
aos seus feitos históricos, ou, até mesmo, ao momento de seu desaparecimento vivo da
comunidade. Para os africanos, não há separação segmentada entre vivos e mortos, todos
fazem parte de um mesmo sistema existencial, assim como tudo o que existe, pedras, plantas,
ventos, fenômenos atmosféricos, pensamentos, sonhos, o material e o imaterial estão
integrados numa estrutura completa e complexa onde a inter-relação se dá no espaço
atemporal, e não cronológico.

A cosmogonia Fon possui muitas variações. Em algumas, o universo fora criado por um deus,
chamado Avievodun, (acima, ou anterior aos voduns), e, a partir dele, todos os seres se
originaram por gerações sucessivas, outras narrativas, apresentam este mesmo deus único
criando todos os seres e dando, ele mesmo, movimento ao universo, que encontrava-se
parado, passando o mundo a movimentar-se perpetuamente, não havendo a ideia de
paralisação.

Para o povo Fon, deus, o criador do universo, está muito distante dos homens, há muitos
problemas para que ele se preocupe, não tendo possibilidade de tratar todos os problemas
humanos de forma especial.

Esta cosmogonia compreende que os seres são onipotentes, e que deus não é onipresente,
desta maneira, a relação entre os homens e os voduns, (criações de deus), dar-se-á em todos
os momentos da vida cotidiana. Os voduns não são forças que estão distantes, num
determinado lugar do universo, inalcançável aos homens, os voduns vivem a vida dos homens
e com os homens, tal qual os ancestrais. Um ancestral pode ser elevado a categoria de vodun
através de critérios que a etnia elegeu para assim fazê-lo, e portanto, pode também passar a
ser objeto de culto, mas nem todo ancestral é um vodun, há ancestrais que são apenas
lembrados, e outros, que são evocados por uma necessidade emergencial ou mesmo, em
cerimônias tradicionais.

Na cosmogonia narrada por Balandier, (1976, 24), há um casal primordial que foi o responsável
pela criação de todos os outros seres, porém, antes deste casal o qual falaremos em seguida,
havia uma divindade de sexualidade ignorada, talvez andrógina, que se chama Nana Buluku .
Nana criou a dualidade Mawu-Lisa, através dos quais, todos os outros seres foram se
formando. A cosmogonia da criação, o casal Mawu-Lisa tem em si os princípios masculinos e
femininos, sendo Mawu, o lado feminino, e Lisa, o masculino.

Podemos refletir que se a chamada força masculina teria uma predominância sobre a
feminina, a criação do universo teria ocorrido somente com entidades masculinas, e, por
desejo destas, seu oposto, a mulher, seria apenas um ser mortal, não sendo divinizada. Nas
sociedades africanas que são objetos desta pesquisa, tanto as entidades masculinas como
femininas são cultuadas e lembradas no mesmo patamar de importância. Não excluindo o
conflito, mas entendendo que ele é fundamental para explicar o universo mítico, tanto o atrito
como a harmonização fazem parte do universo simbólico da cosmogonia Fon.

Diferentemente de algumas narrativas iorubás, onde deus, (Olorun) , criou os homens pois
sentiu necessidade de movimentar o mundo e povoar o universo, a narrativa Fon não nos
apresenta uma necessidade moral para a criação dos homens, eles simplesmente foram
criados, pois assim deveriam ter sido.

Ontologicamente, temos ai uma ruptura com a tradição ocidental que procura justificar
racionalmente as ações de deus, e, ao não encontra-las, contenta-se em afirmar que não nos é
possível conhecer os desígnios divinos.

Mas, sendo Nanã absoluta e andrógina, (nesta narração), porque ela mesma não gerou todos
os seres? A primeira resposta que podemos inferir é que Nanã não era deus, e sim, uma
divindade que teve como função transferir o poder de criação para outros seres. Esta
transferência de força já nos leva a refletir na forma como o conceito de vida, para esta etnia,
tem sua fundamentação na reprodução continua de poder de geração.

DEIDADES DOS FONS ( REINO DO DAOMÉ)

➢ Nana Buluku é a mãe criadora suprema que deu à luz o espírito lunar Mawu , o espírito
solar Lisa e todo o universo.
➢ Lisa (homem) e Mawu (mulher), irmãos gêmeos casados de Nana Buluku , são os
espíritos criadores, ocasionalmente combinados como Mawu-Lisa , um espírito
andrógino.
➢ Avrikiti
➢ Gu
➢ Ayaba
➢ Legba
➢ Egberun
➢ Loko
➢ Fa
➢ Okanu
➢ Gleti:
➢ Sakpata
➢ Sogbo
➢ Xevioso
➢ Zinsu e Zinsi
➢ Jo

CULTURA
A arte tradicional Edo é composta por esculturas, placas e máscaras amplamente identificáveis
que refletem vários aspectos espirituais e históricos de suas ricas tradições culturais. Algumas
das peças de arte mais notáveis de Edo incluem a máscara da Rainha Mãe Idia e uma vasta
coleção de peças de arte históricas de Edo chamadas Benin Bronzes, que podem ser
encontradas não apenas na Nigéria, mas também espalhadas pelo mundo.

A dança Igbabonelimhin é executada por mascarados. Seu traje é feito de um material tecido à
mão e multicolorido chamado Igbuluododo. O Igbabonelimhin é dedicado aos espíritos da
terra e acredita-se que sempre que os mascarados executam esta dança, eles transcenderam o
reino mortal e se tornaram espíritos. A Igbabonelimhin não é executada por qualquer pessoa,
mas por iniciados da seita Igbabonelimhin, da qual a dança recebe o seu nome. A iniciação na
seita é feita pelos mais velhos do grupo. A dança é extremamente acrobática e requer uma
grande flexibilidade.

https://youtu.be/HJ3kklyHTJQ

https://m.facebook.com/watch/?v=829185484286091&_rdr

Bibliografia:

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VERGER, Pierre. Notas sobre o culto aos orixás e voduns. São Paulo: Edusp, 2000.

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Estudos Africanos. São Paulo: Humanitas, 2000, p. 219-268.

CURIOSIDADES:

➢ Os povos de língua Edo vivem em uma região de floresta tropical no sul da


Nigéria. A sua língua pertencia anteriormente à família Kwa de línguas do
Níger-Congo e agora está classificada com o grupo Centro- Sul do Níger-Congo
(Ruhlen, 1991). Os Edo propriamente ditos, centrados na cidade de Benin e à
sua volta, são de longa data nesta região.
➢ No final do século XV, exploradores portugueses entraram em contacto com
eles, registando pela primeira vez o nome Benin , que desde então é usado
para designar o reino (o povo é por vezes referido como oBini ).
➢ A religião Edo tradicional divide o mundo em dois reinos: um mundo visível da
experiência humana comum e um mundo invisível de deuses, ancestrais e
outros seres sobrenaturais.
➢ Os rituais centrais da religião Edo, incluindo orações, ofertas e sacrifícios,
acontecem em pontos de encontro entre os dois reinos, em santuários dentro
de casas e vilas, ou ao pé de árvores, encruzilhadas ou margens de rios.
➢ Os dois reinos foram criados pelo ser supremo, Osanobua. Ele também
estabeleceu a estrutura do espaço e do tempo e fez os primeiros humanos
respirando força vital em imagens de argila moldada.
➢ O Ser Supremo ‘ Osanubuwa’ é o Alfa e o Ômega da existência do homem. Ele
é a força máxima por trás de tudo o que existe na natureza. O Ser Supremo é
espírito absoluto, forma pura, força e controlador de todos os deuses ou
divindades da terra.
➢ Os deuses da terra Edo são os ‘ Olokun’, ‘Ogivwu’, ‘Oto’, ‘Seu’ e ‘Ogun’ . Outra
divindade foi ‘ Ehi’, que é o ser espiritual ou essência do homem ou alma da
personalidade. ‘ Ehi’ também é o determinante do destino humano.
➢ Olokun e Ogun são forças vitais na vida religiosa Edo contemporânea, mas
algumas divindades, como Ogiuwu, deus da morte, e Obiemwen, a grande
deusa mãe, não são mais adoradas no Benin. Outras divindades, incluindo Seu,
Sango e Orunmila, foram emprestadas dos Yoruba ao oeste de Benin,
especialmente nas áreas de fronteira onde os dois grupos étnicos estiveram
em contato próximo.
➢ Olokun é o dono do mar que é o filho amado de ‘ Osanubuwa’. Às vezes,
Olokun é considerado mulher, mas outros acreditam que ele seja homem. É
por isso que quando um homem é instruído a oferecer sacrifício a Olokun , ele
pede que sua filha o faça em seu nome.
➢ Ogivwu é o deus do trovão que traz a morte para crianças desobedientes, por
meio de trovões e relâmpagos. Ele é o deus do julgamento divino.
➢ O ‘ Ehi’ é o espírito que determina o destino de cada homem. A essência do
homem, alma ou sua natureza metafísica forma o fundamento da inter-relação
e, de fato, afirma que o homem é um ser religioso.
➢ Oto é o deus da produtividade em fazendas frequentemente representado por
uma árvore ‘Ikhimi’ plantada perto de cada casa ou em qualquer nova
fazenda, o emblema de ‘ Oto’ é um grande inhame.

➢ Segundo Verger, os povos ewe-adja-fon, cuja origem (ele também


afirma) remete-se a ancestrais iorubas, teriam ocupado essa região a
partir do século VII, fugindo de uma invasão berbere ao Egito.
➢ Inclusive o nome Nigéria significa região entre o rio Níger (Niger – area,
ou seja, área do rio Níger).
➢ Dahomé cujo significado é “filhos da serpente, ou nascidos do ventre da
serpente”, pois acredita-se que Dan é a serpente ancestral que produz a
vida e o movimento constante no mundo.
➢ Os registros informam que era mais comum os povos que viviam na
região litorânea do golfo do Benim terem ritualística específica aos
voduns relacionados ao panteão do mar e dos ciclos d’água, assim como
é simbolizada toda a família Danbira .
➢ Os fons, tendo sua origem em Odudua – que originou o povo adja, que são os
ancestrais dos fons – têm, portanto, a mesma origem do povo ioruba.
➢ A sacralização da terra, do solo onde se vive e onde se originou a família
nuclear, é a base da vida e da cultura destes povos. O simples abandono
poderia significar a ruptura com a sua origem.
➢ As divindades desta região chamam-se voduns e dividem-se em
famílias, de acordo com a sua especificidade e também pela sua ligação
com os elementos da natureza. Os voduns são cultuados aos pés de
grandes e antigas Árvores, algumas até centenárias.
➢ Os Voduns são divididos em três famílias engendradas no território
dahomeano: a família de Sakpatá, trazendo os Voduns da terra; a
família dos Heviosso, Voduns do céu e do mar; e a família de Dan, as
cobras.
➢ Cada Vodum é um vetor fundamental na construção dos ritos, na
explicação das histórias ancestrais e na manutenção dos valores
sagrados.
➢ Todas as três famílias são de suma importância nas interpretações dos
ciclos naturais, pantomima social e também na vinculação às questões
políticas intrínsecas as dinastias.
➢ Os voduns são considerados ancestrais remotos divinizados e, como os
homens, podem ser jovens, velhos, crianças, femininos, masculinos,
tendo pertencido a famílias reais e ilustres. Costumam ser um pouco
rudimentares, embrutecidos e até meio violentos em suas danças, e não
possuem muita aproximação nem intimidade com os seres humanos.
➢ O vodun, em linguagem fon, (uma das etnias desta região), significa
espírito. Este espírito está diretamente ligado à ideia de ancestralidade.
O ancestral, ou ancestre, é um ser que teve sua vida terrena, morreu e é
cultuado por ser, geralmente, o fundador do clã ou da família, ou
alguém que foi de grande importância para a comunidade.
➢ Para os africanos, não há separação segmentada entre vivos e mortos,
todos fazem parte de um mesmo sistema existencial, assim como tudo
o que existe, pedras, plantas, ventos, fenômenos atmosféricos,
pensamentos, sonhos, o material e o imaterial estão integrados numa
estrutura completa e complexa onde a inter-relação se dá no espaço
atemporal, e não cronológico.
➢ A cosmogonia Fon possui muitas variações. Em algumas, o universo fora
criado por um deus, chamado Avievodun, (acima, ou anterior aos
voduns), e, a partir dele, todos os seres se originaram por gerações
sucessivas.
➢ Para o povo Fon, deus, o criador do universo, está muito distante dos
homens, há muitos problemas para que ele se preocupe, não tendo
possibilidade de tratar todos os problemas humanos de forma especial.
➢ Esta cosmogonia compreende que os seres são onipotentes, e que deus
não é onipresente, desta maneira, a relação entre os homens e os
voduns, (criações de deus), dar-se-á em todos os momentos da vida
cotidiana. Os voduns não são forças que estão distantes, num
determinado lugar do universo, inalcançável aos homens, os voduns
vivem a vida dos homens e com os homens, tal qual os ancestrais.
➢ Na cosmogonia narrada por Balandier, (1976, 24), há um casal
primordial que foi o responsável pela criação de todos os outros seres,
porém, antes deste casal o qual falaremos em seguida, havia uma
divindade de sexualidade ignorada, talvez andrógina, que se chama:
➢ Nana Buluku - é a mãe criadora suprema que deu à luz o espírito lunar
Mawu , o espírito solar Lisa e todo o universo. Depois de dar à luz a eles,
ela se aposentou e deixou os assuntos do mundo para Mawu-Lisa. Ela é
a criadora primária, Mawu-Lisa a criadora secundária, e a teologia
baseada nisso é chamada de Vodun, Voodoo ou Vodoun.
➢ Lisa (homem) e Mawu (mulher), irmãos gêmeos casados de Nana
Buluku , são os espíritos criadores, ocasionalmente combinados como
Mawu-Lisa , um espírito andrógino. Mawu-Lisa criou o mundo e o
tornou ordeiro, depois fez plantas , animais e humanos ; todo o
processo demorou quatro dias.

No primeiro dia, Mawu-Lisa criou o mundo e a humanidade; No


segundo dia, a terra tornou-se adequada para a vida humana; No
terceiro dia, os humanos receberam intelecto, linguagem e os sentidos;
Finalmente, no quarto dia, a humanidade recebeu o dom da tecnologia.
➢ Agé (ou Idade ) é um deus na mitologia do povo Fon da África. Ele é
filho de Mawu-Lisa . Agé é o deus patrono dos caçadores, da selva e dos
animais dentro dela. Ele é o quarto filho de Mawu-Lisa. Quando ela
dividiu os reinos do universo entre seus filhos, ela deu a Agé o comando
dos animais selvagens e pássaros e o colocou no comando das terras
desabitadas.
➢ Gleti é uma deusa da lua do povo Fon do Reino de Daomé , situado no
que hoje é o Benin. Na mitologia do Daomé, ela é a mãe de todas as
estrelas. Um eclipse é causado pela sombra do marido da lua cruzando
seu rosto.
➢ Na religião do Daomé , Gu é o vodun da guerra e a divindade padroeira dos
ferreiros e artesãos. Ele foi enviado à Terra para torná-la um lugar agradável
para as pessoas viverem e ainda não concluiu essa tarefa.
➢ No Benin , na Nigéria e no Togo , Legba é visto como uma divindade trapaceira
jovem e viril, geralmente com chifres e fálico, e seu santuário fica geralmente
localizado no portão da vila no campo. Alternativamente, ele é tratado como
Legba Atibon, Atibon Legba ou Ati-Gbon Legba.
➢ Na mitologia do Daomé , Shakpana (ou Sopono, Sakpata ) é a divindade da
varíola. Ele infligiu insanidade e doenças aos humanos.

➢ O transe de incorporação, onde os voduns, (deuses ou semi-deuses),


encarnam, por um tempo, no corpo dos seus crentes, é uma das marcas
fundamentais da África Negra. Não basta apenas crer no mito, é preciso senti-
lo, buscá-lo e encarna-lo com o próprio corpo e conversar com ele, abraça-lo,
ter a absoluta certeza de que ele vive com os homens e nos homens. O transe
de incorporação desloca o entendimento para o campo da fé, já que não é um
fenômeno possível de ser compreendido pela razão. Mais uma vez, a
endogenia do mito está presente. O corpo sacralizado é o centro do mundo, é
o umbigo de toda a existência. Não há como ignorar tal fato, caso contrário, o
entendimento das formas de ser do africano ficarão pela metade. A
incorporação dos deuses, sob o ponto de vista africano, é o pragmatismo do
qual tiram-se o entendimento sobre a vida.
➢ Num Fongbè mais arcaico não existem as letras Q e R. Geralmente quando há
tonicidade próxima da forma de pronunciar rato, a língua Fon utiliza a letra H 1.
Ou seja, palavras como Dahomé, hunkpame 2, humè3, hennu4, huedo5 e afins
são vocalizadas em R (SÀKPATÁ, 2014).
➢ O contato do povo Fon com a cultura do Orisá também ocasionou adaptações
linguísticas e a incorporação de novos rituais. A palavra orixá, agora em grafia
aportuguesada, sofreu supressão da primeira letra e alteração da letra R pela
L. Gerando assim a divindade Lisá.
➢ A inserção do culto de Lisá dentro do panteão Fon se deu pela hierarquização
proposta por Na Huanjile (Ná Hwanjelé), mãe do rei Tegbesú. Por volta de
1740 a kpojitó6 incluiu como culto da corte no Abomé 7 ritos em oferenda a
Mawu-Lissa. Lissá também é outra grafia possível, a fim de nomear o
reprocessamento que o Orisá nagô teve em terras beninenses.
➢ As Ahosi (“esposas do rei” em Fon) ou Mino (“nossas mães”), como eram
chamadas as mulheres treinadas militarmente para serem guardiãs do rei do
Daomé, região da atual República do Benin, não só existiram como foram um
dos exércitos mais prósperos do continente africano durante as incursões
coloniais europeias.
➢ O rei Houegbadja criou este exército que chegou a ter 6 mil mulheres em seu
auge, cerca de um terço do exército daomeano. Um dos fatores de sucesso
sobre os inimigos europeus era a surpresa.
➢ As Ahosi tiveram importância essencial para a resistência daomeana às
invasões francesas durante boa parte do século XIX e são conhecidas como o
único exército feminino da história mundial. A última guerreira Ahosi faleceu
em 1979.

1 Os estudos do Fongbè realizados em língua portuguesa são demasiadamente escassos. Fontes mais
consolidadas são encontradas apenas em língua francesa, em virtude da dominação da França no
processo colonial. Coloco aqui como adendo determinadas alterações linguísticas, haja vista que a
língua é um elemento dinâmico, como a incorporação da letra R em algumas palavras de origem Fon.
Pensando na tonicidade da letra R aplicada de modo mais recente, percebe-se a distinção entre o som
produzido pelo H e pelo R. Enquanto o H produz som assemelhado à pronúncia de rato, o R produz som
assemelhado à pronúncia de dourado. Portanto a pronúncia de Parará é distinta com a letra R na
fonética portuguesa como em roupa. Para ver mais sobre o assunto: SÀKPATÁ, Nagbo Vodúnnón Marcia
du. Nukponwemà Fongbè-Português. Vocabulário do uso da Língua fon nos Terreiros Mahíì do Rio de
Janeiro. São Paulo: Scortecci, 2014.
2 Uma tradução literal seria convento, pensando através dos ideais cristãos de antropólogos modernos.

Hunkpame é pensado como um amplo espaço dedicado ao culto de voduns, podendo também ser
traduzido como fazenda. A ideia de xwè está mais próxima de uma casa, cujas proporções são menores.
3 Palavra que faz referência ao sangue animal.
4 Palavra que faz referência à linhagem familiar, tendendo a ser voltada para a hereditariedade.
5 Designa coletividade residencial, onde os membros de um mesmo hennu tendem a morar juntos.
6 Havia nos reinados beninenses forte relação da família do monarca com o Vodum híbrido entre

pantera e homem, denominado de Kpó ou Kpósú. O sufixo jitó pode ser traduzido como palavra que
designa posse e/ou manipulação, autonomia e liderança. Sendo assim, as rainhas-mães eram
denominadas de kpojitós, cuja tradução literal seria “aquela que engendra o leopardo”. Em virtude da
fauna nativa da área Gbe, a antropologia contemporânea percebeu que o felino relacionado a Vodum
Kpó era, na verdade, um leopardo.
7 Capital do Dahomé. Outra grafia possível é Abomey.

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