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AUTISMO E A APRENDIZAGEM DA MATEMÁTICA

CARVALHO, Maria do Socorro de Oliveira

RESUMO: O presente trabalho desenvolvido busca abordar a respeito do


transtorno espectro autista-TEA dentro de uma perspectiva das avaliações
neuropsicológicas, buscando analisar os parâmetros que podem ser
desenvolvidos para adequar as práticas pedagógicas favorecendo a
aprendizagem dentro da disciplina de matemática. O transtorno é marcado por
prejuízos que se apresentam no desenvolvimento pessoal e social. Pode-se
observar que a avaliação neuropsicológica possui um importante papel
quando utilizada para realizar o diagnóstico do paciente com suspeitas de
autismo, uma vez que este procedimento conta com instrumentos precisos
para o seu diagnóstico. Para a realização do trabalho foi realizada como
metodologia a revisão bibliográfica em artigos científicos e livros acadêmicos
buscando realizar o método hipotético dedutivo para a análise das
informações.

Palavras-chaves: Autismo. Neuropsicologia. Matemática. Práticas


Pedagógicas.

1. INTRODUÇÃO

O transtorno do espectro autista- TEA é caracterizado pelo


comprometimento da comunicação social, comportamentos repetitivos e
restritos. Os portadores dessa síndrome apresentam dificuldades na
reciprocidade emocional e comunicações não verbais que são frequentemente
utilizados nas relações sociais estabelecidas dentro das interações sociais.
Algumas características podem se apresentar já nos primeiros anos de
vida da criança, como por exemplo, movimentos motores e estereotipados bem
como os repetitivos, inflexibilidade em suas rotinas, padrões em seus
comportamentos diários, acabam por gerar danos ao seu desenvolvimento em
relação aos atributos sociais que promovem sua interação.
O diagnóstico realizado deve buscar identificar se a criança demonstra
padrões comportamentais, o que acaba por representar um grande desafio
para a realização da avaliação diagnóstica. Dependendo da faixa etária, esses
padrões são característicos ou muito sutis o que acaba por dificultar ainda mais
o processo.
O transtorno do espectro autista, segundo o DSM-IV-TR- Manual
Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais- classifica-o como sendo um
transtorno que se enquadra na categoria de neurodesenvolvimento. Uma vez
que seu início se manifesta quando a criança tem início o seu processo de
desenvolvimento, acarretando os déficits nas interações sociais, pessoais e
futuramente profissionais e acadêmicas.
Atualmente a uma expansão nos estudos que condizem com o
transtorno do autismo, uma vez que não se consegue ainda definir
etimologicamente uma conceituação bem como um processo eficaz de
avaliação e diagnóstico. Um crescente aliado para o desenvolvimento de
pesquisa e estudos dentro da área é a neuropsicologia.
Assim, a neuropsicologia apresenta-se como o estudo das relações do
cérebro bem como comportamentais, analisando as alterações que se
apresentam no cognitivo que acabam por modificar os comportamentos e
atitudes características do indivíduo buscando sua relação com possíveis
lesões cerebrais.
Dentro do espectro a neuropsicologia atua com maior intensidade para a
realização de avaliações, por meio da aplicação de teste psicométricos que tem
como função primordial a identificação do rendimento cognitivo funcional,
realizando sua ligação com o funcionamento cerebral. Uma vez que por meio
da investigação das funções cognitivas é possível observar a integridade e o
comportamento que são exercidos. As funções cognitivas analisadas que se
destacam dentro desse aspecto estão atreladas a memória, atenção,
linguagem, funções executivas, psicomotricidade, raciocínio lógico entre outras.
Para a realização dessas discussões o trabalho esta estruturados em
capítulos desenvolvendo assim uma narrativa por meio de informações obtidas
em artigos científicos e livros acadêmicos tendo como objetivo central a
identificação do processo de avaliação neuropsicológica desenvolvida dentro
do transtorno do espectro autista, analisando quais os testes e escalas que são
frequentemente utilizados. No primeiro capítulo buscamos abordar a respeito
das características que personificam o indivíduo que se apresentam com o
diagnóstico de autismo. No segundo capítulo analisamos, em termo geral, a
avaliação neuropsicológica. E para finalizar, discutimos e analisamos as
práticas de ensino que podem ser utilizadas buscando um melhor
aproveitamento educacional do aluno.
A esperança está muito presente com as crianças, adolescentes e
adultos que convivem com o autismo. Tem-se a esperança de que o olhar
distante e o silêncio seja timidez, que os comportamentos sejam excentricidade
e que os diagnósticos feitos sem a comprovação de exames sejam mais uma
de tantas opiniões equivocadas dos médicos. Logo, passado o luto, temos a
esperança de um dia chegarmos em casa e pedirmos a pessoa amada como
foi o seu dia, e ouvir entre um trejeito e outro, que ela conseguiu resolver
questões no trabalho, mas não conseguiu entender muito bem porque todos
fizeram festa, que comeu algo doce no almoço e sua garganta não pinicou, que
enfim conseguira entender a piada feita no jantar anterior.
Esta esperança sofre constantes lutas para nunca ser perdida a fé.
Queremos ser ouvidos, esperamos que algum dia eles possam fazer parte do
nosso mundo. Nossa esperança é duramente abalada quando estes são
excluídos ou discriminados. Isso nos desperta para conduzirmos as pessoas
que se encontram dentro do espectro autista mais perto do quadro neurotípico
e cada vez mais próximos de nós.
Angustia-nos não conseguir saber se tais atos os fazem sofrer ou não.
Em muitos casos, eles não conseguem se expressar, o jeito que são friamente
julgados e rotulados só demonstra a ignorância e a desumanidade que
compõem todas as camadas da nossa atual sociedade.
Para efetivar a garantia de seus direitos perante o poder social é
preciso a criação de leis especificas que assegurem a sua proteção. É
necessário criar batalhas para que seja mostrado o óbvio e que os indivíduos
possam ver além. Em se tratando do autismo em nosso país, no ano de 2012
foi promulgada a lei 12.764 instituindo a Política Nacional de Proteção aos
Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, a Lei Berenice Piana.

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

O transtorno do espectro autista é reconhecido por meio de seus


estudos científicos comprovados na área da saúde como sendo uma síndrome
de neurodesenvolvimento que acaba por prejudicar o desenvolvimento das
características que estão envoltas na comunicação social associado a prática
de comportamentos restritos e repetitivos. É muito importante a realização de
um diagnóstico precoce e encaminhamento para a reabilitação precoce e
intensiva direcionada para o transtorno do comportamento e da comunicação.

2.1 ORIGEM E CARACTERÍSTICAS DOS AUTISTAS

O termo ‘autismo’ foi utilizado pela primeira vez dentro do ramo da


psicologia aproximadamente em 1911 por Bleuer, para que fosse possível
descrever um dos sintomas que se faziam presentes na síndrome de
esquizofrenia em pessoas adultas. Ao definir o conceito de autismo, Bleuer
postulou algo próximo ao auto-erotismo, ou seja, investimento em si mesmo
sem que seja da ordem sexual ou libido. (CAVALCANTI, 2007).
Os esquizofrênicos mais graves, que deixam de ter qualquer
contato com o mundo, e vivem num mundo muito pessoal.
Fecharam-se em sua concha, com seus desejos e anseios
(que consideram preenchidos) ou ocupam-se das provações e
tribulações decorrentes de sua mania de perseguição; na
medida do possível cortaram qualquer contato com o mundo
externo. Denominamos autismo ao afastamento da realidade
aliado ao predomínio relativo ou absoluto de uma vida interior.
(Bleuler, 1988, p.25 apud CAVALCANTI, 2007, p.42).

Ainda, os termos relativos e absolutos utilizados por Bleuler,


representam a barreira criada pelas características autistas. O autor ainda
defende uma possibilidade de comunicação entre dois mundos,
Eles vivem num mundo do imaginário, feito de todo tipo de
realizações e desejos e de idéias persecutórias. Mas esses
dois mundos são realidade para eles: ás vezes eles podem, de
maneira consciente, distinguir entre os dois. Em certos casos o
universo autístico parece-lhes mais real, o outro é o mundo da
aparência. (Bleuler, 1988, p.25 apud CAVALCANTI, 2007,
p.43).

Em plena década de 1940, na Primeira Guerra Mundial, o psiquiatra


austríaco Leo Kanner propôs uma síndrome dentro da psiquiatria infantil que
atualmente conhecemos como autismo. A criança desse novo quadro, segundo
as pesquisas desenvolvidas por Kanner não se enquadravam em nenhuma das
características para as síndromes então descobertas. Segundo ele, as crianças
eram inteligentes, possuíam uma excepcional capacidade de memorização,
mas apresentavam dificuldades na realização de contato afetivo e utilização de
linguagem, sendo está irrelevante e sem sentido, nunca usada para
comunicação.
E assim, o autismo começou a ser a nova patologia a ser estudada
dentro do ramo da psicanálise. Dentro da área da neurologia, o autismo é
considerado como sendo uma síndrome de déficit de capacidade afetiva,
comunicação e linguagem, podendo em alguns casos ser considerado como
um distúrbio psicoafetivo.
Segundo Denys Ribas (1997, p.7):
[...] depois de mais de vinte anos mal-entendidos continuam
florescendo neste campo. [...] Convém empregar o termo no
singular, sub-entendendo-se por este uso a unidade de uma
síndrome –doença, estado ou déficit? – ou deve-se falar de
autismos, implicando desde já sua diversidade? Deve-se
acrescentar ou não o termo precoce(s)? Considera-se que há
uma continuidade com as psicoses infantis? Se sim, um dos
termos será concebido como englobando o outro?

Para outros autores, como por exemplo, Francis Tustin, o autismo é uma
defesa ante o encontro prematuro e traumático com o mundo externo que leva
a criança a desenvolver um retraimento profundo, comprometendo todo o seu
processo de construção de sua vida psíquica. Assim, o autismo é definido
como sendo uma patologia precoce, marcada pela ausência de linguagens e
de relações objetais.
Por meio dessas descrições, as crianças que são diagnosticadas
portadoras dessa síndrome inquietam e fascinam. O distanciamento, o seu jeito
enigmático, o fascínio por movimentos circulares, os olhares fixos em um
horizonte invisível representando para alguns a crença de que as crianças
estão na fronteira da humanidade.
As relações adversas que surgiram após a conexão realizada por
Kanner a respeito do autismo e alguns traços patológicos maternos, fez com
que a sociedade moderna apresenta-se uma grande dificuldade em assumir as
responsabilidades que condizem com as gerações futuras. Para Kupfer (1999,
p.100),
A sociedade moderna vê no autista a denúncia de sua falha, a
denúncia do modo como está tratando suas crias. Choca mais
do que a infância abandonada, embora a balança numérica
tenda muito mais para o lado dos meninos de rua do que para
o lado dos autistas.
Talvez seja possível realizar uma aproximação e encontrar semelhanças
entre o sofrimento das crianças que vivem na sociedade contemporânea,
marcada pela destruição em massa, guerras étnicas, campos de refugiados e
as nossas interpretações do sofrimento dos pacientes autistas, com a presença
de crises de angústia impensáveis, tendo suas mães sideradas e pais
intocáveis.
Ao realizar esse processo de nomeação do sofrimento do autista,
acabamos por retirar nossa parcela de responsabilidade, atribuindo-lhe uma
imensa quantidade de sintomas da psicopatologia. Ao classificar uma criança
como autista, permanecemos cegos, não é possível reconhecer projeções que
são tão estranhas como as que se apresentam nas crianças e adolescentes
autistas.
Ao realizar uma rápida incursão na lista dos traços que são tomados
como característica do espetro autista no campo da psiquiatria infantil nos
levaria a conclusão de que essas crianças não são gente, uma vez que não
falam, ou quando falam, suas falas são repetitivas e sem sentido, não possuem
relação com as pessoas ou com o mundo, não criam laços afetivos, não
reconhecem os pais, não apresentam movimentos antecipatórios, não olha,
não brincam, não comem.
Diante dessas características, a própria sociedade rotula o autista como
não sendo humano, por meio das narrativas que são construídas no imaginário
cultural, de que uma criança que apresente tal síndrome não poderá
desenvolver sua linguagem, pensamento ou contato afetivo. Aparentemente,
esse rótulo da incapacidade de estabelecer contato afetivo, o configura.
Para tanto, em nosso país, foi necessário criar uma própria legislação
que assegura a proteção e o reconhecimento de que as pessoas portadoras do
espectro autista possuem necessidades especiais e que estas sejam
reconhecidas pelos órgãos da saúde e educação.
A lei 12.764 que foi promulgada em 2012, define o que é considerado
síndrome do transtorno do espectro autista, em linhas gerais, acaba por
descrever o tripé do diagnóstico:
Autismo

Incidência de padrões
Dificuldade na Dificuldade na
repetitivos e restritivos
interação social. comunicação.
no comportamento.

No segundo parágrafo tem-se “a pessoa com transtorno do espectro


autista é considerada uma pessoa com deficiência, para todos os efeitos
legais”. (BRASIL, 2012). Esta lei abre as portas que outrora se encontravam
entreaberta, promovendo o acesso a inúmeras ações de proteção e tratamento
de pessoas deficientes, sendo este reconhecimento uma das suas maiores
conquistas.
Também, dentro de seus pressupostos a Política Nacional de Proteção
aos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, a Lei Berenice
Piana, deixa explícita a necessidade de um diagnóstico precoce, tratamento
multidisciplinar por meio de fonoaudiólogas, psicólogas, terapeutas
ocupacionais, psicopedagogas, neurologistas, psiquiatras, nutricionistas,
fisioterapeutas, acesso a medicação específica, atrelado ao acompanhamento
dos pais e familiares.
Todos estes cuidados visam proporcionar as pessoas que se encontram
dentro do TEA a lidar com suas especificidades e limitações, superando suas
dificuldades, alcançando sua independência, bem-estar e cidadania, além de
ser um integrante efetivamente da sociedade.

2.2 AVALIAÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS

Desde as antigas civilizações se apresentam as curiosidades a respeito


do funcionamento do cérebro humano, na antiguidade se utilizava a
craniotomia para a realização de alguns estudos. Por meio dos artefatos e
registros arqueológicos, inúmeros povos realizavam perfurações nos crânios.
Em se tratando da área da neuropsicologia, o primeiro registro que
descreve a localização das funções mentais foi encontrado em um artefato de
papiro egípcio, onde nele se encontram a descrição de 48 pessoas que
possuíam lesões traumáticas, onde foi buscado encontrar qual seria a região
cortical afetada, mediante a descrição e aparecimento dessas lesões cerebrais.
No início pensava-se que as doenças mentais poderiam estar
relacionadas com as funções cardíacas, ou seja, enfatizava-se que toda
expressão mental estava localizada no coração.
Na Grécia, o filósofo Platão, buscou descrever com riqueza de detalhes
as relações entre o corpo e a alma humana. O corpo sendo representado por
matéria, perene e mutável e a alma se configurando como uma dimensão
imaterial e eterna que nunca mudaria. Tinha-se a plena consciência de que as
verdades essenciais se encontravam na alma e seriam acessíveis por meio das
especulações filosóficas. Após alguns anos, o filósofo Aristóteles, dividiu a
atividade mental tendo como sede o coração.
Muitos opositores começaram a questionar os estudos realizados por
Platão e Aristóteles, uma vez que para eles o cérebro era a sede da mente.
Alcmaeon de Crotona propôs que o cérebro era responsável por realizar a
localização de cada sensação. Hipócrates afirmava que o cérebro advinha o
pensamento e as sensações.
Foi somente por meio dos estudos e pesquisas realizadas por Galeno
que a hipótese cerebral ganhou sua devida importância. Suas pesquisas foram
realizadas levando em conta o processo de dissecação de animais, que
possuíam semelhança com os seres humanos, bem como a utilização de
cadáveres abandonados onde o mesmo conseguiu desenvolver a teoria
ventricular, que afirmava a ligação da mente com os ventrículos cerebrais. Por
se utilizar da técnica de dissecação animal, seus estudos possuíam uma gama
de detalhes anatômicos e fisiológicos, comprovando tudo o que outrora tinha
sido especulado.
Somente no final do século XVII, quando René Descartes, propôs o
dualismo cartesiano, onde foi estabelecida a separação da mente e do cérebro.
E neste momento, para o autor, a glândula pineal era tida como a sede da
alma, e esta por sua vez, possuía o objetivo realizar a ligação entre a mente e
o corpo. Neste período, a hipótese cerebral já predominava o campo dos
estudos, sendo deixada de lado a hipótese cardíaca da mente.
As observações clínicas sobre as seqüelas de lesões cerebrais
locais começaram,há muitos anos atrás; mesmo em um estágio
inicial, descobriu-se que uma lesão do córtex motor leva a
paralisia dos membros opostos, uma lesão da região pós-
central do córtex acarreta perda de sensibilidade no lado
oposto do corpo, e uma lesão da região ocipital do cérebro
redunda em cegueira central. (LURIA, 1981, p. 6).

A área da neuropsicologia infantil tem como especificidade realizar a


base teórica e técnica voltada para o tratamento de crianças. A sua atuação se
faz por um conjunto de especialistas: pediatra, neurologia, endocrinologia,
infectologia, fisiatria, ortopedia, psiquiatria, fisioterapia, fonoaudióloga, serviço
social, terapia ocupacional, musicoterapia e a própria psicoterapia.
Tem-se que um dos principais fatores de realizar uma avaliação
neuropsicológica se faz por meio da busca de analisar as funções executivas,
neste caso, a capacidade de desenvolvimento e de planejamento das
estratégias para o alcance de seus objetivos. Podendo também ser analisado
possíveis lesões cerebrais ou até mesmo disfunções, auxiliando no
diagnóstico.
Logo, os resultados dessas avaliações neuropsicológicas irão ajudar
como subsídios das mediações e intervenções que podem compor o quadro de
reabilitação. Trabalhando os aspectos cognitivos, comportamentais e
emocionais que podem estar relacionados com as funções ou os distúrbios
cerebrais que se fazem presentes. Por meio dessas estratégias busca-se uma
melhor funcionalidade e qualidade de vida para o paciente.
Para que a avaliação neuropsicológica possa surtir o efeito desejado, é
necessário que o profissional desenvolva testes e tarefas objetivas utilizando-
se de questionários e escalas além da realização de uma entrevista clínica.
Pode-se também realizar exames em familiares e pessoas próximas, podendo
ser obtidas informações significativas que correspondam as dificuldades que
são apresentadas pelo paciente no seu cotidiano e no desenvolvimento de
suas atividades.
Segundo as pesquisas desenvolvidas por Luria (1981), quando o
neuropsicológico se defronta com os problemas psíquicos em suas avaliações
o primeiro passo é determinar os fatores que estão envoltos nas atividades
mentais particulares e as estruturas que constituem a base neural do cérebro.
Tendo que esse dois problemas podem ser resolvidos quando é realizada a
comparação de todos os sintomas que surgem em lesões de um foco
estritamente localizado no córtex, por meio de uma análise exaustiva da
natureza de um distúrbio deste sistema por lesões cerebrais que se encontram
em locais diferentes.
A neuropsicologia do transtorno do espectro autista está sendo
frequentemente utilizada uma vez que se tem mostrado uma grande aliada na
constatação de prejuízos neuropsicológicos propondo uma investigação mais
detalhada das questões cognitivas e competências do indivíduo. Uma vez que
por meio dos estudos e pesquisas realizadas dento da TEA, tem-se a hipótese
do comprometimento das funções executivas por meio da disfunção cortical
pré-frontal.
Assim, essas avaliações auxiliam na possibilidade de saber quais as
áreas cerebrais são responsáveis pela habilidade cognitivas necessárias que
estão associadas ao controle e regulação de pensamentos, emoções e
comportamentos. Sendo possível desenvolver estratégias para aprendizagens
que proporcionem o desenvolvimento da sua própria autonomia, que possam
contribuir para a aquisição e desenvolvimento de relações sociais, emocionais,
comportamentais e comunicacionais.

2.3 PRÁTICAS E METODOLOGIAS PARA O ENSINO DE MATEMÁTICA

Hoje em dia, os alunos possuem cada vez mais dificuldade em


desenvolver as atividades que lhes são propostas por cada disciplina. Isso tem
dificultado o planejamento do professor, pois o mesmo tem que encontrar
metodologias diferenciadas para desenvolver seu conteúdo e assim o aluno
pode compreendê-lo melhor.
É possível observar que, o professor é o agente transformador do ensino
da matemática, quando o mesmo proporciona aos seus alunos a oportunidade
de lhe fazer questionamentos e expor seus raciocínios.
O professor pode fazer uso de diferentes recursos didáticos para criar
uma aula diferenciada, onde o aluno conseguirá assimilar o conteúdo de uma
maneira não tradicional, ou seja, mecânica. Para que o uso desses recursos
seja desenvolvido corretamente os Parâmetros Curriculares Nacionais orientam
o professor nesta prática.
Recursos didáticos como jogos, livros, vídeos, calculadoras,
computadores e outros materiais têm um papel importante no
processo de ensino e aprendizagem. Contudo, eles precisam
estar integrados a situações que levem ao exercício da análise
e da reflexão, em última instância, a base da atividade
matemática. (PCN,1998,p.15)

Podemos perceber que hoje em dia, o ensino da matemática está


ganhando grande destaque em estudos e pesquisas científicas. E muitos
desses estudos são desenvolvidos na área do ensino para o professor de
matemática. Os Parâmetros curriculares Nacionais, que são livros propostos
pelo Ministério da Educação, defendem uma abordagem interdisciplinar, como
visto acima, com o uso de problemas e situações reais, trabalhando a
contextualização matemática, onde os problemas do cotidiano são
transformados em problemas de aritmética e álgebra.
Muito do que vivenciamos em nosso cotidiano se apresenta por meio de
problemas que necessitam serem solucionados e em algumas soluções é
necessário utilizar-se dos conceitos matemáticas como por exemplo, o tempo
para se percorrer uma determinada distância, mantendo-se uma velocidade
média de 80km/h, o juros que é cobrado por uma instituição financeira por meio
da contratação de um empréstimo, a área de um terreno em formato retangular
entre tantos outros.
Por meio da prática de ensino de modelagem matemática, é necessário
desenvolver um modelo onde são necessário além do conhecimento a respeito
dos conceitos matemáticos os fatores de criatividade, intuição e senso lúdico
são fundamentais para a interpretação daquilo que está sendo proposto.
Assim, pode-se dizer segundo a autora Biembengur (2009), que a
modelagem matemática é uma arte, que se utiliza para formular, resolver e
elaborar expressões que sirvam para solucionar vários problemas. É por meio
da modelagem que se realiza a união entre a matemática e a realidade que nos
cerca.
Por meio da prática de modelagem matemática é escolhida uma
temática pertinente ao conteúdo programático e por meio dela os alunos irão
criar modelos e desenvolver o seu próprio conhecimento. O professor irá
direcionar e auxiliá-los sendo o mediador do processo e o aluno terá a
autonomia para seguir e trilhar seu próprio caminho.

Esquema 1: Processo de construção da modelagem matemática

Situação Real

Modelo

Matemática

Fonte: Adaptação Biembengur 2009, p.13


Outra tendência de ensino da matemática é a etnomatemática, que
possui como principal objetivo entender o saber e o fazer matemático ao longo
da história, contextualizando as práticas adotadas nos diferentes grupos,
comunidades, povos e nações.
Assim, para D’Ambrósio (2013), todo indivíduo vivo desenvolve
conhecimento e por meio de suas ações e comportamentos irá refletir esse
conhecimento na sociedade ao qual está inserido, que por sua vai ser
modificado em função dos resultados desses comportamentos. Para cada
indivíduo o seu comportamento bem como o seu conhecimento está em
constante transformação e se relacionam.
Dentro das relações que são desenvolvidas dentro da sociedade o saber
e o fazer matemático são contextualizados e respondem aos fatores naturais e
sociais que ali se fazem presentes. O nosso cotidiano está repleto dos saberes
próprios da cultura. A todo o momento, os indivíduos estão comparando,
classificando, quantificando, medindo, explicando, generalizando, e de algum
modo, avaliando, usando os instrumentos materiais e intelectuais que são
próprios da cultura.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A síndrome do autismo ainda não possui uma definição clara, por mais
que tenhamos vários estudos e pesquisas dentro da área, não sabemos ao
certo qual a sua origem. Conseguimos perceber algumas características que
são predominantes, que envolvem a parte comportamental, de linguagem e
interação social.
Por meio dos pressupostos acima se percebe que a criança do TEA
apresenta dificuldade no desenvolvimento vão desde limitações específicas de
aprendizagem, do controle das funções executivas a prejuízos globais das
habilidades sociais e inteligência.
É fundamental a realização de um diagnóstico precoce, para tanto a
avaliação neuropsicológica serve para auxiliar na busca de quais componentes
estão sendo prejudicados e quais as estratégias devem ser adotadas para
proporcionar o desenvolvimento correto respeitando a especificidade da
criança.

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