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RELÓGIOS DE SOL E POMARES DE FIGO-DA-ÍNDIA

Desde a antiguidade o Homem sempre se interessou pelo Céu e Astros, em particular pelo Sol.
Estudou o comportamento daquele astro e aqueles que melhor o dominavam esse conhecimento
conseguiram obter vantagens sobre os restantes, pois conseguiam prever as mudanças regulares e
cíclicas das estações do ano, e com isso perceber melhor as 'artes' agrícolas.
A lua e as estrelas também foram profundamente estudadas nas influencias que introduzem na
agricultura, sendo ainda hoje usados aqueles conhecimentos e técnicas.

Contudo, o astro-rei, o Sol, é o que mais importa mencionar nesta reflexão.


A determinação do tempo foi também estudada e 'controlada' por meio de relógios de sol.
Provavelmente os mais antigos e eficazes meios de medir o tempo. Os ensinamentos dessas
estruturas são interessantissímos e de importância crucial para a percepção das 'regras' e 'porquês'
aplicados à cultura do figo-da-índia.

Tem-se visto muitos comentários sobre o número de plantas que se devem agrupar numa plantação
ordenada. Desde a planta singular, a conjuntos de 2, 3, 4 e outras – até 7 já se mencionou ! – tudo é
'lançado'.
Uma das razões que os 'apóstolos' dessas quantidades – 3 ou mais plantas - é a da 'boa exposição'
solar, entre outras razões.

Convém assim perceber o melhor que se possa o que significa 'boa exposição solar' e cmo se
consegue a mesma.

Todos os interessados já verificaram o comportamento da planta em face da exposição solar. Tem


um crescimento muito vigoroso a Sul, sendo que a Norte além de se apresentar invariavelmente
com cladódios de menor dimensão, tem também fraca, ou mesmo nula produtividade de fruta.
Esta constatação deverá servir como base para a percepção do comportamento da planta, e das
consequências de determinadas opções, que parece terem sido negligenciadas. Tem-se feito de
determinada forma, porque alguém disse, porque sim, ou por razões que a razão desconhece.

Assim, considerando que é a Sul que a planta mais se desenvolve, convirá perceber qual o melhor
formato que optimize essa exposição, reduzindo ou anulando a exposição a Norte que não trará
vantagens produtivas, apesar de a planta, mesmo a Norte, necessitar também de nutrientes, rega e
práticas culturais.

Considerando o 'esquema' de agrupamento de 3 plantas, e independentemente da posição que as três


plantas assumam, pelo menos uma fica sempre a Norte.
Utilizando fotos de uma publicação de FB que refere isto mesmo, podemos perceber em detalhe
esta questão:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1120717161287374&set=oa.1449074362051657&type=1&theater

Desconhecendo a localização do Norte na fotografia original (da esquerda), mas arriscando que as 3
plantas que formam um triângulo terão o vértice superior apontado a Norte, resultará que essa
planta terá, no futuro menor exposição solar. Caso seja na posição inversa, como na foto da direita
(invertida da primeira), serão duas as plntas expostas a Norte. E em qualquer posição isso
acontecerá.
E acontece por uma situação incontornável, e que é o facto de Portugal se situar no hemisfério
Norte, entre as latitudes 37º e 42º. Essa 'pequena' particularidade implica que a Norte nunca haja
Sol, o que para uma planta como a Opuntia Ficus Indica que dele tanto necessita, será no mínimo
estranho optar por essa posição.

Na latitude em que se situa Portugal, e dependendendo da época do ano, podemos ter variação de
exposição solar relativamente às estação do ano. No Inverno a trangetória aparente do Sol é mais
'baixa' do que no Verão, o que nos permite perceber as zonas de máxima e mínima sombra. E será
esse sombreamento que irá no condicionar o crescimento e eventualmente a
rentabilidade/produtividade da planta.

Para se perceber melhor o 'comportamento' da sombra, será necessário perceber também o


movimento do sol. Essa percepção tem sido bastante divulgada de forma muito simplificada pelas
entidades que promovem o aproveitamento da energia solar, e pelas regras da construção
bioclimática.

Assim, e quando as plantas atingirem o seu ponto mais alto, que nós defendemos ser inferior a 2
metros por questões de manutenção e colheita, acontecerá que as plantas mais expostas farão
sombra sobre as imediatamente posteriores, quando agrupadas em 3 ou mais.

É também esta particularidade que condicionará o distanciamento mínimo entre grupos de plantas
(independentemente do nº de plantas em cada grupo), considerando a situação menos favorável, ou
seja o sombreamento no Inverno.
Para calcular o sombreamento no Inverno será necessário ter em consideração a latitude do local
onde a plantação será efectuada.

Além disso, também deverá ser considerada a inclinação do terreno e respectiva orientação. Neste
caso, vamos considerar que se trata de um terreno plano para mais eficazmente se perceber o
distanciamento mínimo entre plantas (grupos) por forma a garantir que não provocam
sombreamentos.
No esquema abaixo a dimensão L é considerada com 2 metros, o que conduz a que a altura da
planta (ou grupo), seja um pouco menor. De qualquer modo não interfere na compreensão do
esquema. A distancia d depende assim da latitude, pois é esse elemento que determina a maior ou
menor inclinação dos raios solares.

Com a aplicação destas regras consegue-se determinar o distanciamento óptimo entre plantas
garantindo que não existe sombreamentos. Como também interfere aqui a inclinação do terreno
onde se instalará o pomar, poderemos aceitar como regra simplificada um afastamento de 4 metros
entre plantas (ou grupos) para alturas de plantas de 2 metros, será o ideal.
Curiosamente esse afastamento também coincide com o afastamento óptimo para a maximização da
colheita, como referido em Antropometria em pomares de figo-da-india.

Em nossa opinião é assim crucial perceber que a distancia mínima deverá ser os mencionados 4
metros, e que a opção de 3 ou mais plantas em grupos é altamente questionável.
Preferimos uma solução de 2 plantas por núcleo, com desfasamento entre si, para optimizar a
exposição solar, evitando sombreamentos matinais e vespertinos.

Maio de 2015

António Fonseca
Figo d'Idanha, Sociedade Agricola, Lda