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Jacinto Benjamim Apontamentos de Direito de Família

INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO PRIVADO DO UÍGE


DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, HUMANAS E DA
EDUCAÇÃO

CURSO DE DIREITO

Material de Apoio

Apontamentos de Direito de Família

Cadeira: Direito de Família

O Professor: Jacinto Benjamim

ANO LECTIVO 2020

Uíge, Março de 2020.


Jacinto Benjamim Apontamentos de Direito de Família

Epigrafe

―As sociedades são o que são as suas famílias ―

Aristóteles

―Friederich Engels que a família progride na


medida em que progride a sociedade, que vai se
modificando porque a família é produto do sistema
social e a cultura da época irá reflectir no sistema.‖

Friederich Engels

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
Jacinto Benjamim Apontamentos de Direito de Família

Prefácio
Sempre me emociono quando reparo o quanto filhos adoptivos passam a se parecer
com os seus responsáveis. Ninguém diz que foram adoptados: o mesmo olhar, o mesmo
andar, a mesma forma de soletrar a respiração. Há um DNA da ternura mais intenso
do que o próprio DNA. Os traços mudam conforme o amor a uma voz ou de acordo
com o aconchego de um abraço.
Não subestimo a força da convivência. Família é feita de
presença mais do que de registro. Há pais ausentes que nunca
serão pais, há padrastos atentos que sempre serão pais.
Não existem pai e mãe por decreto, representam conquistas
sucessivas. Não existem pai e mãe vitalícios. A paternidade e a
maternidade significam favoritismo, só que não se ganha uma
partida por antecipação. É preciso jogar dia por dia, rodada por
rodada. Já perdi os meus filhos por distração, já os reconquistei por
insistência e esforço.
Família é uma coisa, ser parente é outra. Identifico uma diferença
fundamental. Amigos podem ser mais irmãos do que os irmãos ou
mais mães do que as mães.
Família vem de laços espirituais; parente se caracteriza por laços
sanguíneos. As pessoas que mais amo no decorrer da minha
existência formarão a minha família, mesmo que não tenham nada a
ver com o meu sobrenome.
Família é chegada, não origem. Família se descobre na velhice,
não no berço. Família é afinidade, não determinação biológica.
Família é quem ficou ao lado nas dificuldades enquanto a maioria
desapareceu. Família é uma turma de sobreviventes, de eleitos, que
enfrentam o mundo em nossa trincheira e jamais mudam de lado.
Já parentes são fatalidades, um lance de sorte ou azar.
Nascemos tão somente ao lado deles, que têm a chance natural de
se tornarem família, mas nem todos aproveitam.
Árvore genealógica é o início do ciclo, jamais o seu apogeu.
Importante também pousar, frequentar os galhos, cuidar das folhagens,
abastecer as raízes: trabalho feito pelas aves genealógicas de
nossas vidas, os nossos verdadeiros familiares e cúmplices de
segredos e desafios.
Dividir o tecto não garante proximidade, o que assegura a afeição
é dividir o destino.

Por Fabrício Carpinejar, título do texto: Parente e


Família, da obra citada de Maria Berenice Dias. pp.6-7.

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
Jacinto Benjamim Apontamentos de Direito de Família

SIGLAS E ABREVIATURAS
Art. – Artigo

Arts – Artigos

Ali. – Alínea

Apud – Citado por

CC – Código Civil

CF – Código de Família

CCP – Código Civil Português

Cfr. – Conferir

CEDH – Convenção Europeia dos Direitos do Homem

CPDC - Ciência Política e Direito Constitucional

CRA – Constituição da República de Angola

CRC- Código de Registo Civil

DIP – Direito Internacional Público

DUDH – Declaração Universal dos Direitos Humanos

Idem – Mesmo autor e mesma obra

INESD – Introdução ao Estudo de Direito

Op. Cit. – Obra citada

P – Página

PP – Páginas

TGDC – Teoria Geral do Direito Civil

Vide – Ver também

v. g – verbis gratias

[…] – Texto inacabado

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
Jacinto Benjamim Apontamentos de Direito de Família

INTRODUÇÃO
Em alinhamento com os objectivos traçados no programa da nossa disciplina, e
na intenção de não deixar os estudantes órfãos de alguma base de leitura, visto que se
encontram no limiar de um percurso um tanto quanto sinuoso, resultante da própria
dificuldade de ter acesso a matérias de Direito em geral e no caso da nossa cadeira em
particular, produzimos estas pequenas páginas sob a forma de apontamentos da cadeira
de Direito da Família. Contudo, sem esgotar os assuntos que são aqui discutidos e
deixando em aberto as portas para críticas, visando o seu melhoramento o que se
procurará fazer em próximas edições. Ainda, este material não exclui a necessidade de
utilização de toda e qualquer obra do ramo, contando que não fuja do espírito das metas
preconizadas pela instituição. Nesta conformidade, o que trazemos aqui é o
desenvolvimento linear dos temas propostos pelo nosso programa.

A família é o ponto de partida e de chegada de todos nós, ela é um complexo de


relações que a cada dia ganha contornos mais complexos, resultante de um conjunto de
metamorfoses que o nosso tecido social vai ganhando em cada etapa do
desenvolvimento da espécie humana. Os debates em torno do tema família são daqueles
que mais águas movimentam pela natureza a eles inerentes e pelo complexo tipo de
laços que unem os seus membros. As relações familiares são das mais sensíveis e
complexas ao nível de toda sociedade, não é em vão que se tem procurado dar maior
atenção as algazarras dimanadas deste que é o núcleo fulcral de qualquer sociedade.

Direito de família ou Direito das Famílias como já o defendem muitos autores,


qual seja a Professora Berenice Dias, é a nossa disciplina e o ponto de convergência dos
nossos encontros, é definido grosso modo como sendo ―o conjunto de normas que
regulam as relações familiares ou outras relações às quais a lei confere essa natureza1.

Portanto, nela estuda-se o emaranhado de relações que nos levam ao


entedimento do que é então esta secular instituição, senão a mais antiga instituição
conhecida, procurando entender as suas origens, constituição, processo evolutivo, bem
como o status quo, de modos a se compreender o seu funcionamento. Assim como em
várias outras áreas da ciência jurídica a que algumas vezes ousamos caminhar para

1
PEREIRA, Maria de Lurdes dos Santos. Apontamentos de Direito Da Família e dos Menores.
Portugal.[em linha], [consultado em 27.01.2020]. disponível na internet: URL:
http://www.miluzinha.com.pt. 2013. p. 2.

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
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ampliar a nossa ciência, em Direito de Família também é muito escassa a bibliografia


com incidência específica a realidade concreta de Angola, ou seja, aqui quase que não
se escreve, por esta razão por um lado, e com vista a fazer uma abordagem transversal e
um estudo comparado por outro lado, trazemos aqui bibliografia não apenas nacional,
mas portuguesa por razões óbvias e brasileira pela desenvoltura que eles dão a ciência.
Destarte, por mais que nós quizessemos ficar apenas pelo direito interno, foi-nos
impossível, assim, nota-se ao longo destas páginas um entrelaçar de matérias de
ordenamentos distintos.

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
Jacinto Benjamim Apontamentos de Direito de Família

CAPÍTULO I: CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE AS RELAÇÕES


JURÍDICO-FAMILIARES

1. Noções Gerais
A Família é o primeiro espaço onde cada indivíduo se insere, sendo neste
contexto que a pessoa se inicia na sociabilização que o levará à articulação com a
comunidade. É no seio familiar que se faz a transmissão de valores, costumes e
tradições, sendo neste que o jovem/criança os absorve e se adapta á existência de regras
com as quais terá de conviver quando inserido na sociedade real. Uma família sem
regras e hierarquias corre o sério risco de formar pessoas irresponsáveis e com sérias
dificuldades de integração na sociedade comum. A família funciona assim como o lugar
onde se aprende a viver, a ser e a estar, e onde se inicia o processo de
consciencialização dos valores inerentes á sociedade. Esta surge com direitos e deveres,
portanto, é detentora de um importante papel educativo, sendo também o principal
motor de desenvolvimento das capacidades cognitivas e na estruturação das
características afectivas das crianças.

Sendo a instituição mais privilegiada na educação, tem sido alvo de inúmeras


mudanças ao longo das últimas décadas, as quais importa conhecer e analisar. Não
podemos pensar que a estrutura familiar é estanque e imóvel face ás mudanças sociais,
económicas e politicas que ocorreram, portanto, o conceito familiar existente em 1960 é
totalmente diferente da realidade actual. Nos últimos cinquenta anos, no Ocidente, a
família modificou as suas estruturas e organizou-se de diversas formas tendo em conta
os novos valores vigentes. Os elementos da família transformaram-se ao longo da sua
vida familiar, mediante as exigências do interior ou do meio social onde se tornou
necessária a adaptação a novos papeis de modo a equilibrar o seu funcionamento2.

1.1. O Conceito Genérico de família


Parece-nos que com um olhar desprovido de qualquer conhecimento técnico
profissional ou académico qualquer um podia oferecer uma definição de família, até
porque, não há uma definição unívoca do instituto, para o efeito vamos discorrer
algumas definições para podermos trabalhar aqui e delimitar a abordagem. Diversos

2
LEITE, Ana Paula. A Evolução das Famílias ao Longo dos Tempos. [em linha]. Portugal, [consultado
em 31.05.2019]. disponivel na internet: http://4pilares.zi-ju.com/?page_id=327. p.1.

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autores apresentam distintos conceitos, porém, todos convergem em certos elementos


indissociáveis da essência do que é então a família, a saber:

Para o nº 3 do art.º 16.º da DUDH estabelece que ―A família é o elemento


natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado‖, e do nº
1 do art.º 8 da CEDH ―…Qualquer pessoa tem direito ao respeito da sua vida privada e
familiar […]‖.
No direito português os Professores COELHO e OLIVEIRA aduzem que; a
noção jurídica de família contém -se, implicitamente, no art. 1576.º Código Civil, que,
aliás sem grande rigor, considera ―fontes das relações jurídicas familiares‖ o casamento,
o parentesco, a afinidade e a adoção3.
O tradicional conceito de família pode-se definir como o conjunto de pessoas
que residem no mesmo alojamento e que possuem relações de parentesco entre si. Este
tipo de família era geralmente extenso (constituída por avós, maternos, paternos ou
ambos, pais e filhos) apresentando um elevado número de indivíduos de várias
gerações, residentes no mesmo local4. Para a profesora DIAS nos diz que, mesmo sendo
a vida aos pares um facto natural, em que os indivíduos se unem por uma química
biológica, a família é um agrupamento informal, de formação espontânea no meio
social, cuja estruturação se dá através do direito5.
Para o antropólogo Lévi-Strauss, família designa um grupo social que tem sua
origem no casamento; é constituído pelo marido, esposa e filhos, podendo incluir outros
parentes que tenham um lugar próximo ao núcleo do grupo; os seus membros são
unidos entre si por laços legais, direitos, obrigações económicas e religiosas, num
entrelaçamento definido por direitos, proibições sexuais e sentimentos psicológicos, tais
como amor, afecto, respeito, medo, dentre outros.6
Na realidade angolana como não podia deixar de ser trazemos acolação a mãe
deste ramo de direito a celebre professora MEDINA (in memória), concluindo que a
família pode ser definida como sendo um grupo social relacionado entre si por

3
Cfr. COELHO, Francisco Pereira e OLIVEIRA, Guilherme de. Curso de Direito da Família:
Introdução ao Direito Matrimonial. Centro de Direito da Família. Volume I, 5.ª edição, Reimpressão.
Coimbra. Coimbra editora. 2011. pp. 34-35.
LEITE, Ana Paula. Op.Cit.
4

5
DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 11ª edição. Revista, actualizada e ampliada.
São Paulo. Editora Revista dos Tribunais. 2016. p. 47.
6
Cfr. LÉVI-STRAUSS apud VASCONCELLOS, Karina de Mendonça. A Representação Social da
Família: Desvendando Conteúdos e Explorando Processos. Brasília. Universidade de Brasília -
Departamento de Psicologia. 2013. p. 14.

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obrigações e direitos recíprocos7. Ao passo que do ponto de vista legal tal como no
direito português e brasileiro não há uma definição especifica sobre família, sendo que a
cra estatui no nº 1 do artigo 35º que, a família é o nucleo fundamental de organização da
sociedadade e é objecto de especial procteção do Estado, quer se funde em casamento,
quer em união de facto, entre homem e mulher8. Na sequência o Código de Familia
criado por força da Lei nº 1/88, de 20 de Fevereiro, no seu artigo 7º vagamente
conjugado com o artigo 1º consta que são fontes das relações familiares, o parentesco, o
casamento, a união de facto e a afinidade9. Querendo nos dizer que são família todos
aqueles que estiverem ligado entre si pelos laços trazidos pela norma, sendo isto o mais
próximo que temos de uma definição.
Com o que foi exposto supra foi construido um caminho para permear o
entendimento do que é do ponto de vista técnico e formal quem é afinal a família, com
isto, podermos trabalhar em conceitos e ou nas materias subsequentes.

1.1.1. As Relações Jurídicas Familiares e sua Autonomia


Com a definição exposta supra podemos agora analisar os seus elementos que
são como dito as fontes das relações familiares, ou seja, o nascedouro dos lações
familiares, as razões pelas quais podemos nos considerar família de certa pessoa.
Seguindo de perto as matérias dos exímius Professores COELHO e OLIVEIRA estas
são:
Entendem os autores que a primeira das relações de família é assim a relação
matrimonial, a relação que em consequência do casamento liga os cônjuges entre si.
Uma relação que afecta a condição dos cônjuges de maneira profunda e duradoura,
influenciando no seu regime, pode dizer -se, a generalidade das relações jurídicas
obrigacionais ou reais de que eles sejam titulares. A observação deve registar -se desde
já, pois tem todo o interesse para circunscrever o âmbito do direito da família.
Subordinadas à relação matrimonial, havemos de ver que aquelas relações obrigacionais
ou reais, não sendo em si mesmas

7
Cfr. MEDINA, Maria do Carmo. Direito de Família. 2.ª edição actualizada. Lobito. Escolar editora.
2013. p. 18.
8
Cfr. MINISTÉRIO DOS ASSUNTOS PARLAMENTARES. Constituição da República de Angola.
1.ª edição. Luanda: editora where Angola. 2014. p. 26.
9
Vide MARQUES, António Vicente. Código Civil Angolano, Luanda, texto editores, 3.ª tiragem,
1.ª edição. 2007. p. 450.

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
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familiares ou sendo só ―acessoriamente familiares‖, também caem no âmbito deste ramo


do direito, pois o seu regime é diferente do que resultaria do direito comum das relações
obrigacionais ou reais.
Relações de família são ainda as relações de parentesco, que são as que se
estabelecem entre pessoas que têm o mesmo sangue, porque descendam umas das outras
ou porque provenham de um progenitor comum. São relações de parentesco, v. g., a
relação entreo filho e o pai ou a mãe, as relações entre irmãos, entre primos, etc.
Todavia, cumpre já advertir que as relações de filiação — a relação de maternidade e a
de paternidade, logo que uma e outra se encontrem estabelecidas — são de longe e sem
dúvida as mais importantes das relações de parentesco, constituindo o seu estudo
objecto do direito da filiação, que é uma das grandes divisões do direito da família. Em
terceiro lugar, também são de considerar como relações de família as relações de
afinidade, as quais são elas mesmas um dos efeitos da relação matrimonial. Dizem -se
relações de afinidade as que, em consequência do casamento, ficam a ligar um dos
cônjuges aos parentes do outro cônjuge. Por último há a referir as relações de adopção,
que, à semelhança da filiação natural mas independentemente dos laços de sangue, se
estabelecem entre adotante e adotado ou entre um deles e os parentes do outro10. Não
menos importante devem ser expostos aqui as chamadas comummente como sendo
relações parafamiliares, a união de facto e a vida em economia comum, ou a simples
coabitação, que dependem em certos casos que a lei se lhes atribui os mesmos efeitos
que as outras relacões ora descritas. Matérias que serão objecto de especial análise nos
capítulos IV, VI, XI e XII do nosso programa.

1.2. Codificações do Direito de Família


O sistema de codificação das matérias jurídicas visa trazer mais vantagens para
os respectivos ordenamentos jurídicos, uma vez que distintos assuntos atinentes a
mesma área de estudo se encontram agrupados num mesmo diploma, permitindo assim
maior acessibilidade e celeridade no seu uso bem como maior portabilidade. assim
quando se fala em codificação em direito de família estamos a falar num código de
direito de família, que nos dizeres do professor TELLES, é uma organização sintética,
sistemática, e cietífica, estabelecidade por via legislativa, de certo ramo de direito11.

10
COELHO, Francisco Pereira e OLIVEIRA, Guilherme de. Op. Cit. pp. 31-34.
11
TELLES, Inocêncio Galvão. Introdução ao Estudo do Direito. Volume I. 11ª edição, reimpressão.
Coimbra. Coimbra editora. 2010. p. 197.

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contudo, nem todas materias em direito assumem ou já alcançaram dignidade bastante


para tal desiderato, continuando muitas delas ainda reguladas dentro dos códigos civis,
se esta for a realidade a pergunta que se segue é, já terão alcansado o nivel de
denvolvimento bastante para uma codificação das materias em direito de família.
Olhando para realidade angolana podemos dizer que sim, já alcançaram tal nível tanto
que com a aprovação da Lei nº 1/88, de 20 de fevereiro que aprova o Código de Família
de Angola dava-se autonomia a estas matérias do Código Civil, sendo que
anteriormente eram reguladas pelo livro IV do actual Código Civil angolano.

Adstrito ao Código de Família há outros diplomas avulsos que vão regulandop


diferentes materias do âmbito familiar na medida que vao sendo aprovados, pensamos
que assim poderão continuar até a revisão do actual CF que poderá apensar ao novo
código todo um leque de materias que foram aprvadas após a entrada do actual CF se o
legislador assim o entender, exemplo de tais normas podemos citar o Decreto
Presidencial nº 36/15, de 30 de Janeiro que aprova o Regime Jurídico do
Reconhecimento da União de Facto por Mútuo Acordo e a Dissolução da União de
Facto Reconhecida. Para mais abordagem sobre estas matérias remetemos a leituras a
obra da professora Medina.

1.3. Funções do Direito de Família


Se considerarmos como certa e de indubitável questionamento a afirmação de
Aristóteles ao considerar que ―as sociedades são o que são suas famílias‖, logo, é de
extrema importância que este núcleo fundamental da sociedade consiga funcionar
dentro dos cânones das mais estritas pautas normativas, convindo assegurar-lhe a
satisfação ou processucação dos fins pelos quais ela existe. Vem dai a necessidade do
direito aparecer nesta estrutura que é a família. Pois já defende a professora MEDINA
que este direito de família tem uma função promotora, contudo, não fica por ai, nos
dizeres da celebre professora, o direito de familia visa promover no âmbito da sua acção
a defesa dos legítimos interesses dos seus membros tal como são tutelados por lei12.

O Direito de Família procura criar balisas as mais claras possiveis de modos a


estabalecer parametros de actuação dentro de uma pauta de valores socialmente aceites
e dignas da vida do grupo, estas regras actuam tanto limitando a acção do Estado de
condutas que possam violar os direitos da família, como se nota de forma vaga no nº 1
12
Cfr. MEDINA, Maria do Carmo. Op. Cit ., p. 20.

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do artigo 35 º da CRA conjugado com o nº 1 do artigo 1º do CF, isto por um lado. Por
outro lado proteger e ou limitar condutas lesivas de direitos dos membros da família
entre si, como descriminação de genero, pois nos termos do nº 3 do artigo 35º da CRA
conjugado com o nº 1 do artigo 3º do CF, o homem e a mulher são iguais em direitos
dentro da família e gozam dos mesmos deveres, visa ainda o Direito de Família evitar a
descriminação entre filhos, como vê nos termos do nº 5 do artigo 35º da CRA e 4º do
CF os filhos são todos iguais independentemente se nasceram dentro ou fora do
casamento, só para citar estes casos.

Em fim, a função de proteger os interesses dos membros da família visa garantir


que cada um dos membros possa desenvolver plenamente os seus anseios no meio do
grupo e enquanto indivíduo, e externamente tem como tarefa criação de uma nova moral
social, tal como previsto nos termos do artigo 6 º do CF. Outrossim, a acção concreta do
direito de família só será eficaz se os membros do grupo conhecerem e poderm
reivindicar os seus direitos, e as distitntas estruturas do Estado estiverem em condições
de os assegurar e a sociedade toda cooperar, tal como afirma a professora MEDINA, in
verbis, mas também é certo que o conhecimento, por parte de cada pessoa, dos seus
próprios direitos permite que mais facilmente se reivindique o seu exercício e a sua
aplicação subjectiva13.

1.4. Sistemas Familiares Históricos


É premissa básica, ao passo que também incontroversa que, o ser humano, ao
receber o dom da vida, está ligado de alguma maneira ao seio familiar, considerado
como ―estrutura básica social‖. O grande vínculo natural que une o homem à família faz
tornar verdadeira a máxima de que não existe qualquer outra instituição que seja tão
intimamente ligada a ele. ―Simples ou complexa, assente do modo mais imediato em
instintos primordiais, a família nasce espontaneamente pelo simples desenvolvimento
da vida humana‖. Seja pelo instinto de perpetuação da espécie ou pelo repúdio à
solidão, o facto é que a dimensão que a abarca as estruturas familiares é, sem dúvidas,
muito ampla, tal como visto é de realçar que o seu conceito tem acompanhado as
constantes transformações que permeiam a sociedade, sendo necessário princípios
constitucionais que irão regê-las, em suas variedades, no âmbito jurídico14.

13
Idem.
14
Cfr. NORONHA, Maressa Maelly Soares e PARRON, Stênio Ferreira. A Evolução do Conceito de
Família. Revista dos Tribunais. v. 833/41-53. São Paulo: Editora RT. 2005. p. 12.

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Quem rastreia a família em investigação sociológica encontra referências várias


a estágios primitivos em que mais actua a força da imaginação do que a comprovação
fáctica; mais prevalece a generalização de ocorrências particulares do que a indução de
fenômenos sociais e políticos de franca aceitabilidade. Atentos a elementos históricos
ou na observação dos chamados ―primitivos actuais‖ (as tribos indígenas da América, os
grupos polinésios ou africanos, os agrupamentos étnicos que no século XIX e ainda no
XX cultivam um padrão de vida rudimentar ou quase selvagem), têm procurado
reconstituir o organismo familiar em suas origens. Oferecem dados inequivocamente
valiosos, e permitem entender as formas de organização do antigamente15.
De facto a família tem a sua orgiem no fenómeno natural da procriação e
propagação da espècie humana. Mas é sobretudo um fenómeno social, pois através dos
tempos se tem verificado que nela não intervêm tão somente factores biológicos. Nela
estão também factores de ordem social e económica. Destarte, dos distintos sistemas
temos a família extensa ou a grande família estabelecida com base no parentesco. É a
família parental formada por um largo conjunto de pessoas, unidas por uma
ascencdência comum, ligadas por fortes laços de solidariedade e com uma comunidade
interesses económicos. A família monogâmica é estruturada no casamento único e
exclusivo dos cônjuges. A família poligâmica, ou ainda poligínica é aquela em que o
marido se apresenta ligado por laços válidos com mais de uma mulher sumultaneamente
(fenómeno muito frequente na realidade cultural nacional)16.
O clã ou grupo é constituido por grupos de descendentes provenientes de um
ascendente comum, pode ser estatuído por via materna, quando há referência a uma
ascendência feminina comum, ou ser estabelecida pela paterna, quando a referência é
feita a um ascendente masculino comum. Numa fase posterior, a família é caracterizada
pela poligamia praticada pelo homem, tendo como contrapartida a exigência de uma
rigorosa fidelidade por parte da mulher. Neste tipo de sociedade a mulher está
subordinada ao marido e nos meios rurais a família constitui uma unidade de produção
em que cabe às mulheres executar os trabalhos agrícolas e os serviços domésticos de
manutenção do agregado familiar, como o transporte de lenha e água, a preparação dos
alimentos17.

15
Cfr. Pereira, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil: Direito de Família. 26º. ed. Volume V.
Rio de Janeiro. editora Forense. 2018. p. 41.
16
Cfr. MEDINA, Maria do Carmo. Op. Cit ., p. 21.
17
Idem. p. 22.

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O mundo testemunhou, com o início da Revolução Industrial, um súbito


enxugamento da família, que migrou do campo para os grandes centros industriais, e
assim reduziu a quantificação dos seus componentes. Surgiu o pequeno grupo, formado
por pais e filhos, centrando no seu domicílio o ninho, o abrigo reservado à exposição
dos seus assuntos familiares mais íntimos. No começo, a tendência foi a de concentrar a
mulher nas actividades domésticas, no trato diário da prole conjugal e conferir ao
esposo a chefia económica do lar. Organizada a família nesse modelo social e político
de conveniente divisão imaterial e económica das funções conjugais, ficava fácil
constatar que cada membro precisava alcançar sua realização pessoal, assumindo as
tarefas divididas pela lei e pelos costumes para cada género sexual, em um papel de
inquestionável subserviência da mulher, em inaceitável desigualdade em relação ao
homem18.
A inquestionável dinâmica dos relacionamentos sociais quebrou a rigidez dos
esquemas típicos de família, especialmente aquela centrada exclusivamente no
casamento e permitiu que se desenvolvessem novos modelos familiares, com famílias
de facto ou do mesmo sexo, paralelas ou reconstituídas, enfim, e como visto,
simplesmente não há mais como ser falado em um único modelo de família, restando
incontroverso o pluralismo familiar, não sendo por outra razão que a doutrina defende a
utilização da expressão famílias para caracterizar a multiplicidade dessas entidades, no
lugar apenas da legítima família conjugal, certificada exclusivamente pelo casamento19.

1.4.1. A Família Tradicional Africana


Na realidade africana e angolana em particular a família sempre foi considerada
a extensa, que não se subsumia no pai, mãe e seus filhos, mas abrangia e nalguns casos
ainda abrange os netos, sobrinhos, primos, tios e ai por diante. A este respeito a
professora MEDINA introniza dizendo que; interessa apontar alguns dos caracteres
predominantes dos diversos tipos de organismos familiares que se encontram no nosso
continente, com especial relevo para a sua zona austral. Os primitivos habitantes desre
parate sul de África, os povos San, indevidamente designados como bosquimanos,
caracterizam-se por uma organização colectiva do poder e pelas relações conjugais

18
Cfr. MADALENO, Rolf. Op. Cit. p. 90.
19
Madaleno, Rolf. Direito de família. 8ª edição. Revista, atual. e ampliada. - Rio de Janeiro. Forense.
2018. p. 50.

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
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baseada na monogamia. Acrescenta a autora que a ideia de família para os povos Bantus
está estritamente ligada ao cultivo da terra e produção20.

As relações de produção estão intímamente relacionadas com as relações


familiares e estas determinam o direito dos individuos sobre o solo e os seus produtos
bem como dos direitos e obrigações a receber, dar e cooperar, como membros
integrados no grupo familiar. As relações de parentesco nesta sociedade funcionam
como relação de produção. Nesta conformidade nasce o casamento sendo um vínculo
que liga ou aliança de grupo a grupo e não apenas de indivíduo a indivíduo. Apesar das
relações poligamicas serem em grande escala, privilegia-se o casamento onde na sua
fase inicial é antecedido pela entrega de prestações da família do noivo a família da
noiva como compensanção pela saida de um membro da família21. A família tradicional
africana se caracteriza naquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da
unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente
convive e mantém vínculos de afinidade e afectividade. Os seus membros se estendem
consistente de avós, tios, primos, entre outros […]22.

1.4.2. A Família Moderna


Como se depreende de enunciados anteriores, a família não é uma estrutura
estática, ela acompanha os tempos e é afectada pelo conjunto de factos e fenómenos
envolventes, portanto, cada vez mais ela vai se diversificando tanto em número, tipo de
vínculo, bem como no género dos seus membros. Pois se ficarmos atentos a definição
trazida pelo artigo 35º nº 1 da CRA veremos que ela se compõe apenas de um homem e
uma mulher e demais membros. Contudo, por razões diversas ela ja não se resume ai,
facto que hoje, já se assiste a existência de famílias guys ou lesbicas, apesar de não
encontrarem hospedagem na nossa realidade jurídica, mas já existem de facto. Tal
afirmação corrobora com a professora DIAS, pois explica que;
Sempre que se pensa em família ainda vem à mente o modelo convencional: um
homem e uma mulher unidos pelo casamento, com o dever de gerar filhos, até que a
morte os separe mesmo na pobreza, na doença e na tristeza. Só que essa realidade
mudou se é que um dia existiu! Mas hoje, todos já estão acostumados com famílias que
se distanciam do perfil tradicional. A convivência com famílias recompostas,

20
Cfr. MEDINA, Maria do Carmo. Op. Cit ., p. 23.
21
Idem.
22
Madaleno, Rolf. Direito de família. Op. Cit. p. 68.

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monoparentais, homoafetivas impõe que se reconheça que seu conceito se pluralizou.


No dizer de Michele Perrot, despontam novos modelos de família, mais igualitárias nas
relações de sexo e idade, mais flexíveis em suas temporalidades e em seus
componentes, menos sujeitas à regra e mais ao desejo23. Em forma exemplificativa
vamos expor apenas alguns tipos de famílias modernas para ampliar a nossa percepção
sobre o assunto, sem por isto esgotar a temática, ainda que nem todas catalogadas
especificamente na nossa ordem juridica ou doutrinal, mas de facto temos:
Família Díade Nuclear: Duas pessoas em relação conjugal sem filhos (não há
descendentes comuns nem de relações anteriores de cada elemento).
Família Nuclear ou Simples: Uma só união entre adultos e um só nível de descendência,
pais e seu(s) filho(s).
Família Alargada ou Extensa: Co-habitam ascendentes, descendentes e/ou colaterais
por consanguinidade ou não, para além de progenitor(es) e/ou filho(s).
Família com prole extensa ou numerosa: Família com crianças e jovens de idades muito
diferentes, independentemente da restante estrutura familiar
Família Reconstruída, Combinada ou Recombinada: Família em que existe uma nova
união conjugal, com ou sem descendentes de relações anteriores, de um ou dos dois
cônjuges.
Família Homossexual: Família em que existe uma união conjugal entre 2 pessoas do
mesmo sexo, independentemente da restante estrutura.
Família Monoparental: Família constituída por um progenitor que co-habita com o(s)
seu(s) descendente(s).
Família Unitária: Família constituída por uma pessoa que vive sozinha,
independentemente de relação conjugal sem co-habitação.
Família de Co-habitação: Homens e /ou Mulheres que vivem na mesma habitação sem
laços familiares ou conjugais, com ou sem objectivo comum (ex:
estudantes universitários, amigos, imigrantes,…).
Família Comunitária: Família composta por homens e/ou mulheres e seus eventuais
descendentes, co-habitando na mesma casa ou em casas próximas (ex: comunidades
religiosas, seitas, comunas, ciganos,…).
Família Hospedeira: Família em que ocorre a colocação temporária de um elemento
exterior à família (ex: criança, idoso, amigo, colega,…).

23
DIAS, Maria Berenice. Op. Cit. p. 228.

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”
Jacinto Benjamim Apontamentos de Direito de Família

Família Adoptiva: Família que adoptou uma ou mais crianças não consanguíneas, com
ou sem co-habitação de filhos biológicos.
Família Consanguínea: Família em que existe uma relação conjugal consanguínea,
independentemente da restante estrutura24.
O novo modelo da família funda-se sobre os pilares da repersonalização, da
afectividade, da pluralidade, impingindo nova roupagem axiológica ao direito das famílias.
Agora, a tônica reside no indivíduo, e não mais nos bens ou coisas que guarnecem a relação
familiar. A família-instituição foi substituída pela família-instrumento, ou seja, ela existe e
contribui tanto para o desenvolvimento da personalidade de seus integrantes como para o
crescimento e formação da própria sociedade, justificando, com isso, a sua proteção pelo
Estado25.
A família na sociedade moderna corresponde a um dado estágio social resultante do
desenvolvimento técnico-científico industrializado: nela coexistem os cônjuges e os
respectivos filhos, formando a família nuclear ou conjugal. É, pois, um conceito de família
de âmbito mais restrito, composta por um homem e uma mulher, formando uma
comunidade de vida, unidos com estabilidade e a sua prole comum. Dela resultam
importantes direitos e deveres recíprocos de solidadariedade entre os seus membros, como o
direito e dever de ajuda mútua e assietência moral e material, que se traduz na prestação de
alimentos. Apesar de estar reduzida em número, ainda assim, não se lhe retira a sua grande
importância, enquanto núcleo básico de organização da sociedade. A ela é reconhecida a
função de natureza estabilizadora cuja preservação interesa à evolução da própria
sociedade. Por isto deve ser apoiada e protegida pelo Estado. Imbende sobre a família
conjugal especialmente a missão de procriação da prole, a educação e a formação dos
filhos. Apesar das contantes mutações sofridas, ainda é nela onde são introduzidos os
primeiros valores culturais, transmitidos de froma oral de geração em geração de pais para
filhos. Hoje, tem se vindo a substituir a família estruturada na hierarquia pela família
estruturada na diarquia (de marido e mulher) e baseada no consenso de ambos. Ao marido e
mulher reconhece-se igualdade de direitos e obrigações26, pois a dignidade da pessoa
humana é a mesma para o homem e a mulher27.

24
Acerca dos tipos de família não há uma classificação rígida universalmente aceite, pode-se ler a professora Maria do Carmo
Medina, Pereira Coelho e Guilherme de Oliveira, Rolf Madaleno nas obras citadas, Patrícia Krempel Goulart em A Origem e
evolução do casamento na história do direito de família, bem como outros. Contudo, aqui seguimos de perto a classificação trazida
por CANIÇO, Hernâni, et. al. Novos Tipos de Família. Coimbra. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2010. pp. 2-3.
25
DIAS, Maria Berenice. Op. Cit. p. 233.
26
Vide artigo 3º do CF.
27
Cfr. MEDINA, Maria do Carmo. Op. Cit ., pp. 24-25.

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“Há Sempre um Caminho a Seguir!”