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>>Atas CIAIQ2017 >>Investigação Qualitativa em Saúde//Investigación Cualitativa en Salud//Volume 2

Mapas Analíticos em Pesquisa Qualitativa: Estratégia


metodológica para formação de profissionais em saúde

Thaís Maranhão1, Izabella Barison Matos2,Cristianne Maria Famer Rocha3

1Escola
de Enfermagem Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Bolsista CAPES;
maranhao.thais@gmail.com
2Departamento de Medicina Universidade Federal da Fronteira Sul, Brasil. izabella.matos@uffs.edu.br
3Departamento de Assistência e Orientação Profissional Universidade Federal do Rio Grande do Sul,

Brasil. cristianne.rocha@ufrgs.br

Resumo: Este artigo visa compartilhar experiência de análise em pesquisa qualitativa. Utilizou mapas
analíticos como ferramenta metodológica para analisar a facilitação como prática pedagógica na formação
de profissionais de saúde no Brasil. Os mapas analíticos são ferramentas que podem identificar, nos sujeitos
da ação, os processos produtivos, fluxos de intensidade e afetos produzidos nas fabricações da
cotidianidade do trabalho. Os mapas analíticos mostraram-se como ferramentas de análise cartográficas
que evidenciaram os processos de facilitação da política estudada (Vivências e Estágios na Realidade do
Sistema Único de Saúde no Brasil), de forma a revelar aspectos e manifestações desejantes na produção da
realidade por parte dos sujeitos entrevistados. Também se mostraram capazes de cumprir a função de
lentes de cartógrafo para visualizar os processos educativos e a produção da realidade no âmbito da
macropolítica e da micropolítica.
Palavras-chave: Mapas analíticos; Pesquisa pós-crítica; Metodologia; Formação de profissionais de saúde.

Analytical maps in qualitative research: Methodological strategy to the education of health professionals
Abstract: This article aims to share an analytical experience in qualitative research, which used analytical
maps as a methodological tool to analyze facilitation as a pedagogical practice in the training of health
professionals in Brazil. The analytical maps are methodological tools that can identify, in the subjects of the
action, the productive processes, flows of intensity and affections produced in the fabrications of daily work.
The analytical maps were shown as tools of cartographic analysis that evidenced the processes of facilitation
of the policy studied (Experiences and Stages in the Reality of the Brazilian Unified Health System), in order
to reveal desirable aspects and manifestations in the production of reality by the Subjects interviewed. They
were also able to fulfill the role of cartographer lens to visualize the educational processes and the
production of reality in the scope of macropolicy and micropolicy.
Keywords: Analytical maps; Pós-critical research; Methodology; Education of health professionals.

Introdução

Pretendemos com este artigo compartilhar uma experiência de análise em metodologia de pesquisa
qualitativa, que utilizou mapas analíticos como ferramenta. O estudo analisou uma determinada
prática pedagógica – a facilitação - de uma estratégia de formação em saúde, direcionada a
estudantes de graduação, nomeada Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde
(VER-SUS/Brasil).
Admitimos, no estudo, a constituição do sujeito pesquisador como parte do mundo pesquisado, ao
qual não buscamos imparcialidade entre sujeito e objeto. Compreendemos também metodologia
como “certa forma de interrogação e um conjunto de estratégias analíticas de descrição”(Larrosa,
1994, p.38) que, em uma perspectiva pós-critica, pode oportunizar ao pesquisador afastar-se de
perspectivas rígidas, universais, prescritivas para adentrar em “imagens de pensamentos potentes
para interrogar e descrever-analisar nosso objeto”(Meyer, & Paraíso, 2014, p.20).

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Sobre o objeto de pesquisa

A pesquisa foi desenvolvida na área da Saúde Coletiva, no Brasil, e buscou compreender a prática de
facilitação do VER-SUS/Brasil, suas finalidades, suas condições formativas, em quais contextos
ocorreram, qual a importância dessa prática na vida dos sujeitos.
O VER-SUS é uma estratégia do Ministério da Saúde e do Movimento Estudantil da área da saúde,
que oportuniza aos estudantes conhecer, vivenciar e experimentar, como espaço de aprendizagem, a
realidade do Sistema Único de Saúde (SUS) (Brasil. Ministério da Saúde., 2004). É uma política pública
que se constituiu como uma estratégia para o fortalecimento do SUS como direito social,
oportunizado reflexões no campo da formação dos profissionais de saúde quanto ao seu
compromisso social, necessidade de problematização acerca das práticas pedagógicas nos cursos da
saúde e relação com as práticas sanitárias vigentes.
Pode-se dizer que, metodologicamente, o VER-SUS consiste na imersão de universitários, de
diferentes formações acadêmicas acompanhados de facilitadores (estudantes selecionados para este
fim), no cotidiano de trabalho das organizações de saúde e em espaços de controle social, em
municípios brasileiros; com avaliações diárias sobre as vivências. A imersão ocorre no período de
férias de verão ou de inverno e implica numa convivência integral entre os participantes, durante
todo o período, entre sete e quinze dias. Assim, possibilita criação de vínculos, proporciona
aprendizados sobre convivência em grupo e oportuniza discussões sobre o sistema de saúde local e
as experiências adquiridas.

Acerca da produção de dados

Como forma de produção de dados para o estudo, a pesquisadora principal encontrou-se


presencialmente com 15 sujeitos, em 13 diferentes cidades e regiões do país, que haviam participado
desta experiência, como estudantes, há um pouco mais de uma década (em 2004 – ano de
inauguração nacional da Política). Para a escolha dos 15 sujeitos, em meio aos 124 sujeitos possíveis,
utilizamos uma combinação de critérios como: a) diferente formação de graduação; b) atual inserção
profissional (docência, assistência, gestão, movimentos sociais); c) local geográfico de participação na
experiência do VER-SUS.
Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, disparadas a partir de enunciados-questões como:
Conte-me um pouco da sua trajetória de trabalho e/ou formações após o VER-SUS, ou por onde você
andou todo esse tempo. Conte-me sobre o contexto político e social da época (aquilo que mais
marca a sua memória). Como te envolveste na facilitação no VER-SUS (motivações, seleção e
vivência)? O que podes me contar sobre preparação para ser facilitador (a), os propósitos da
facilitação, e possíveis dificuldades e/ou facilidades nessa atividade? O que ficou para ti desta
experiência? Importante destacar que esta pesquisadora também compartilhou da experiência de
facilitação, e que conhecia quase a totalidade dos sujeitos entrevistados. Destaca-se ainda que
desenvolvemos o estudo no ano de 2013-2014, no âmbito da realização de Dissertação de Mestrado
Acadêmico da pesquisadora principal.

Mapas Analíticos: possibilidades para análise

Com o intuito de discutir os processos de trabalho em saúde, em uma determinada unidade de


saúde, dois estudiosos no campo da Saúde Coletiva, criaram uma proposta para promover um olhar
analítico sobre as organizações da saúde (Franco, & Merhy, 2009),que, de acordo com suas

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intenções, têm um modo de produção dependente do Trabalho Vivo em Ato1.Como forma de iniciar
as discussões e análise junto aos trabalhadores, foram propostos os mapas analíticos.
Desenvolveram três tipos de mapas: 1) “mapas dos conflitos”; 2) “mapas dos atos inusitados”; 3)
“mapas dos atos inúteis”.
O primeiro mapa teve como objetivo evidenciar conflitos vivenciados pelos profissionais de saúde em
seu trabalho, cuja potência analítica traz a expressão de como os conflitos afetam a equipe, as
subjetividades que operavam na realidade, e, ainda, produzem “linhas de fuga”. Ou seja, práticas
desviantes do ordinário, ou consideradas criativas diante de certas adversidades. O segundo mapa,
“atos inusitados”, apresenta situações que envolvem o inesperado. Sua potência analisadora se
encontra na produção de afetamentos na equipe pelo incomum, pelo estranhamento ou assimilação.
Já o terceiro mapa apresenta o que existe de trabalho morto, ou seja, tipo de ato produtivo sem
aparente função realizada, muitas vezes, para responder à rotina normativa instituída. Isto é,
referem-se àquelas práticas conhecidas por se constituírem obrigatórias, que foram instituídas em
algum momento para atender a alguma situação, mas que, com o passar do tempo, já não se sabe ao
certo para que serve ou são realizadas, porque sempre foram assim.
O VER-SUS/Brasil - e consequentemente a sua prática de facilitação - se propõe a colocar em diálogo
a formação para o SUS e o trabalho em saúde, na perspectiva de fortalecer o Sistema. Nesse sentido,
assumiu-se o pressuposto que o trabalho em saúde é dependente do Trabalho Vivo em Ato e optou-
se por “tomar emprestadas” as ferramentas analíticas, por considerar que, tanto a prática
pedagógica de facilitação, como a prática do trabalho em saúde possuem semelhanças.

Os Mapas Analíticos e a facilitação das Vivências no SUS

Na análise das entrevistas, e a partir da perspectiva dos três tipos de mapas analíticos - conflitos,
atos inusitados e atos inúteis – foram traçados os mapas analíticos, um para cada entrevista
realizada, iniciando pela palavra facilitação ou facilitador(a), colocado no centro do papel de
desenho/cartografia, no sentido de tornar visível tanto questões ligadas aos elementos
macropolíticos da facilitação, como os micropolíticos que foram aparecendo ao longo das narrativas.
Além disso, construiu-se também um único mapa que incluiu aspectos desses três mapas
mencionados, de forma entrelaçada, com os aspectos, de certa forma, representativos, de como os
participantes percebiam a questão da facilitação no VER-SUS.
Nos desenhos, foram traçados aspectos relacionados à agenda política dos atores, aos momentos de
preparação/formação para a atividade de facilitação; caracterização e seleção dos facilitadores; as
atribuições da atividade de facilitação; e algumas histórias e “causos” sobre os momentos,
propriamente ditos, das experiências de facilitação. Ao longo da construção dos mapas, as situações
conflituosas, inusitadas e inúteis foram sendo desenhadas por setas, palavras sublinhadas ou
circuladas, como por exemplo, tenso, novidade, inesperado, conflito.
Diante do desafio de exercitarmos a análise dos mapas elaborados, elencamos alguns elementos,
que foram apresentados no manuscrito final da pesquisa, da seguinte forma: a) caracterização e
seleção dos facilitadores; b) formação dos facilitadores; c) agenda política; d) atribuições da atividade
de facilitação; e) histórias e “causos” na atividade de facilitação; f) efeitos sentidos. Em cada um
deles, houve relatos de atos inúteis, conflituosos e inusitados, que se entrelaçaram às narrativas e
que oportunizaram visualizar o conjunto dos tópicos supracitados.

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Compreende-se que o Trabalho Vivo em Ato é o ato produtivo que expressa o grau máximo de liberdade do trabalhador,
que opera não apenas na lógica da consciência, mas, também, do desejo.

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Considerações acerca do uso dos mapas analíticos

Ao iniciar o estudo, em nenhum momento havia-se pensado na construção de mapas para a análise.
Essa elaboração surgiu após a ida a campo, como algo que precisava ser desenhado, extravasado,
mais do que escrito, pela pesquisadora principal. Foi possível perceber vários movimentos diferentes
no processo de análise e da elaboração dos mapas analíticos, ora de forma mais descritiva, mais
formal, ora mais sensível e afetuosa. Com o foco na prática de facilitação do VER-SUS, os mapas
analíticos acabaram por mostrar o entrelaçamento entre aspectos militantes, políticos, pedagógicos
e de defesa do SUS nas práticas formativas experienciados pelos sujeitos.
Nesse sentido, começamos a compreender que havia um desejo das pesquisadoras em cartografar,
pois “as cartografias vão se desenhando ao mesmo tempo (e indissociavelmente) que os territórios
vão tomando corpo: um não existe sem o outro” (Rolnik, 1989, p.44). Para o cartógrafo, o importante
é estar atento às estratégias do desejo, de criação de mundo; é perceber que se pode utilizar tudo
aquilo que lhe permite se expressar, criar sentidos, e que “todas as entradas são boas, desde que as
saídas sejam múltiplas” (Rolnik, 1989, p. 68). O que um cartógrafo quer é “participar, embarcar na
constituição de territórios existenciais, constituição de realidade, aceitar a vida, se entregar” (Rolnik,
1989, p.68).
Os mapas analíticos mostraram-se como ferramentas de análise cartográficas, que ao colocar os
processos de facilitação das Vivências no SUS em análise, puderam captar os movimentos contínuos
e descontínuos do “trabalho vivo”, em sua dinâmica, revelando também os aspectos e as
manifestações desejantes na produção da realidade (Franco, & Merhy, 2009, p.190). Os mapas
mostraram-se capazes de cumprir a função de lentes de cartógrafo para visualizar os processos
educativos e a produção da realidade em sua macropolítica e micropolítica.
Acreditamos que a partir dos mapas analíticos nos foi possível articular duas ordens de
pensamentos, que agem em diferentes lógicas, e em diferentes sistemas de referência. A primeira –
macropolítica - o plano dos territórios, do reconhecível “a priori”, da visibilidade a olho nu, dos
sujeitos, objetos, protocolos, unidades que formam totalizações, representações; a segunda –
micropolítica - é o plano do rizoma, onde não se sabe a origem ou o centro, é multiplicidade
imprevisível e incontrolável, é força instituinte, é movimento, é invenção (Rolnik, 1989).

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde.


Departamento de Gestão da Educação em Saúde. (2004). Projeto VER-SUS/Brasil: Relatório de
avaliação do Projeto-Piloto. 2004. Brasília (DF).

Franco, T.B., & Merhy, E. E. (2009). Mapas analíticos: una mirada sobre la organización y sus procesos
de trabajo Analytical maps : a look upon the organization and its processes of work. Salud
Colectiva, 5(2), 181–194.

Larrosa, J. (1994). Tecnologias do Eu e Educação. In T. T. Silva (Ed.), O sujeito da educação: estudos


foucaultianos, 35–86. Petrópolis (RJ): Vozes. Retrieved from http://www.grupodec.net.br/wp-
content/uploads/2015/10/TecnologiasdoEuEducacaoLarrossa.pdf

Meyer, D.E., & Paraíso, M. A. (2014). Metodologias de pesquisas pós-críticas ou sobre como fazemos
nossas investigações. In M. A. Meyer, Dagmar Estermann. Paraíso (Ed.), Metodologias de

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pesquisa pós-críticas em educação, 17–23.

Rolnik, S. (1989). Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo


(SP): Estação Liberdade.

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