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ESCRITORAS BRASILEIRAS

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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes.

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A mulher brasileira é escravocrata? Texto inédito de Délia (1884)

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Observação

Trecho de capítulo da segunda edição do meu livro digital Cenas da Escravidão


(1849-1888): O Sofrimento dos Torturados no Império da Crueldade, lançada em
novembro de 2020.

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A participação das mulheres nas práticas de tortura durante a escravidão

As mais de 600 notícias de violência transcritas neste livro revelam que, embora os
agressores fossem em sua maioria do sexo masculino, as mulheres participaram
decisivamente na opressão aos negros, na área rural e na área urbana. Vivia-se um
contexto de desumanização global, do qual poucos escaparam até o surgimento do
movimento abolicionista. E mesmo após esse início, e também após a abolição, atitudes
e hábitos arraigados demonstraram o seu natural poder de persistência.

O distanciamento físico das fazendas proporcionou o ambiente ideal para o exercício


da violência, geralmente impune. Escravos falecidos em sessões de tortura acabavam
enterrados na própria fazenda como casos de morte natural. Alguns desses casos, como
veremos, ao serem descobertos pela lei apontavam para uma responsável: a esposa do
fazendeiro, que se vingara da escrava estuprada pelo marido, às vezes tirando-lhe o feto
do ventre antes ou depois do assassinato, como ato supremo de revide.

A ficção deixou registrada essa participação das mulheres na novela Fantina, Cenas
da Escravidão (1881), de Francisco Coelho Duarte Badaró. Na história, também
centrada em caso de estupro vingado pela esposa do fazendeiro, a “proprietária” de
escravos acaba sendo punida pelas próprias vítimas, que a envenenam lentamente até a
morte.

Na área urbana, inúmeras denúncias motivadas por gritos de socorro de escravas


domésticas levaram à origem do problema: a “senhora”.

Os dois julgamentos mais famosos no final do período da escravidão envolveram


uma milionária do bairro de Botafogo, no Rio, e uma dona de casa na cidade fluminense
de Niterói, a primeira acusada de assassinato e a segunda de sevícias cruéis, ambos os
crimes cometidos contra meninas.

Outros casos marcantes desse período expuseram as formas de vingança doméstica


ao corpo negro que servira de satisfação ao marido: além do espancamento, do uso de
chibata ou do esfaqueamento, a introdução de objetos na vagina ou no ânus, ou mesmo
a queimação da vulva.

A série de artigos A mulher brasileira é escravocrata?

Em 1884, o jornal Gazeta da Tarde (Rio) ofereceu um espaço a várias


personalidades para responderem à pergunta “A mulher brasileira é escravocrata?”. Os
dois testemunhos mais importantes da série, devido ao status dos escritores, couberam a
Aluísio Azevedo, autor do romance O Mulato (1881), e a Maria Benedita Câmara
Bormann, a Délia, autora do romance Lésbia (1884). Ambos responderam “Sim”.

Délia resumiu bem a situação das jovens negras:

“E as míseras servem de pasto à luxúria do senhor, amamentam os filhos do seu


tirano e suportam o rancor das esposas ultrajadas!”.

E expôs a essência da questão: a educação de um povo, durante séculos, para tratar


de modo egoísta e cruel o seu semelhante:

“A única atenuante para a mulher brasileira é a ideia errônea em que a educaram,


fazendo-a encarar a escravidão como um direito e como o núcleo de todos os seus
interesses e comodidades”.

Abaixo, o texto integral da resposta de Délia.

A mulher brasileira é escravocrata?

A mulher brasileira é, infelizmente, escravocrata porque desde o berço considera a


escrava um objeto do seu uso, de que pode abusar à vontade.

À medida que se desenvolve, compreende a utilidade dos serviços prestados por


essas infelizes, que se dobram à sua miséria com a resignação do fatalismo.

Imaginam as míseras que nasceram para servir e sujeitam-se ao destino, sem a


mínima ideia de revolta.
Submetem-se a tudo, até a saciar os brutais desejos de seus senhores, quando o
coração se arrasta para o homem da sua cor!

A mulher branca, cruelmente, se vinga dessa humilhante rivalidade nas pobres


sacrificadas, em vez de desprezar o marido, que açoita essas mesmas criaturas, pelas
quais esquece o decoro de chefe de família e a santidade do lar.

Qual o verdadeiro criminoso?

A escrava que suporta a abjeção, com medo do chicote, ou o senhor, que deve ser
humano e portar-se dignamente sob o teto onde seus filhos dormem?

E a brasileira perdoa a vilania do consorte e atormenta a aviltante existência da


escrava!

Muitas vezes, aplaude o castigo que o marido inflige, sem adivinhar que ele é
movido pelo ciúme ou pela cólera de encontrar resistência nessas humildes mulheres,
saturadas de fadiga, amargura e vergonha!

Se a brasileira despreza tanto e odeia a essas criaturas, para que consente que seus
filhos suguem a vida no seio das escravas?

E as míseras servem de pasto à luxúria do senhor, amamentam os filhos do seu tirano


e suportam o rancor das esposas ultrajadas!

Quanta iniquidade!

A única atenuante para a mulher brasileira é a ideia errônea em que a educaram,


fazendo-a encarar a escravidão como um direito e como o núcleo de todos os seus
interesses e comodidades.

Não é, pois, inteiramente responsável por essa culpa.

DÉLIA.
Gazeta da Tarde, 22/1/1884, número 18, página 1, quarta coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/226688/3315

A resposta de Aluísio Azevedo pode ser lida no blog Rio 450:

http://riomaurorosso.blogspot.com/2015/08/a-mulher-brasileira-e-escravocrata-de.html

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