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Coordenadores

Carlos Alexandre de Azevedo Campos


Denise Lucena Cavalcante
Paulo Caliendo

LEITURAS CLÁSSICAS DE
DIREITO TRIBUTÁRIO

2018
Sumário

INTRODUÇÃO

A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS............................................................................... 23


Carlos Alexandre de Azevedo Campos; Denise Lucena Cavalcante e Paulo
| |

Caliendo

I – ECONOMIA POLÍTICA

ADAM SMITH................................................................................................................. 49
Carlos Alexandre de Azevedo Campos

ADOLPH WAGNER........................................................................................................ 97
Pedro Adamy

EDWIN SELIGMAN........................................................................................................ 113


Carlos Araujo Leonetti

II – CIÊNCIA DAS FINANÇAS

BENVENUTO GRIZIOTTI............................................................................................. 131


Jeferson Teodorovicz

GUNTER SCHMÖLDERS.............................................................................................. 161


Aline Krieger e Danielle Nascimento
|

FRITZ NEUMARK.......................................................................................................... 175


Tatiana Junger

GASTON JÈZE................................................................................................................. 205


João Ricardo Fahrion Nüske

RICHARD MUSGRAVE.................................................................................................. 219


Daniel Vieira Marins e Carlos Alberto Cerqueira dos Santos
|

17
LEITURAS CLÁSSICAS DE DIREITO TRIBUTÁRIO

JAMES BUCHANAN....................................................................................................... 239


Bernard Gama Botelho

III – DO DIREITO ADMINISTRATIVO AO DIREITO FINANCEIRO

OTTO MAYER................................................................................................................. 269


André Luiz Batalha Alcântara e Daniel Lannes Poubel|

ORESTE RANELLETTI................................................................................................. 293


Carlos Alexandre de Azevedo Campos; Fernando Franco e Pedro Lameirão
| |

FERNANDO SAINZ DE BUJANDA.............................................................................. 319


Diana Castro; Fernanda Borges Theodoro; Fernando Franco
| |

IV – DIREITO TRIBUTÁRIO CLÁSSICO

ENNO BECKER............................................................................................................... 345


Paulo Caliendo

KLAUS TIPKE................................................................................................................. 363


Fábio Goulart Tomkowski

BENVENUTO GRIZIOTTI............................................................................................. 383


Donovan Lessa e Pedro Lameirão

EZIO VANONI.................................................................................................................. 409


Denise Lucena Cavalcante

DINO JARACH................................................................................................................. 431


Juliana Rodrigues Ribas

ACHILLE DONATO GIANNINI..................................................................................... 449


Carolina Cantarelle Ferraro e Alexandre Teixeira Jorge
|

LOUIS TROTABAS......................................................................................................... 473


Aline Cardoso de Faria e Érico Teixeira Vinhosa Pinto
|

SALDANHA SANCHES................................................................................................... 495


Elizabete Rosa de Mello

VÍTOR ANTÓNIO DUARTE FAVEIRO........................................................................ 517


João Ricardo Catarino e Ricardo Moraes e Soares
|

18
Sumário

CONCLUSÃO

OS CLÁSSICOS DAS FINANÇAS PÚBLICAS E DO DIREITO FINANCEIRO E


SEU PAULATINO ABANDONO PELA CIÊNCIA DO DIREITO TRIBUTÁRIO
PRODUZIDA NO BRASIL............................................................................................. 533
Marciano Seabra de Godoi

19
INTRODUÇÃO
A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS
Carlos Alexandre de Azevedo Campos1
Denise Lucena Cavalcante2
|

Paulo Caliendo3
|

Sumário: 1. Por que ler os clássicos; 2. O início pela Economia Política; 3. Ascensão da
Ciência das Finanças; 4. Do Direito Administrativo ao Direito Financeiro; 5. A Codificação
e o Direito Tributário Clássico; 6. Gigantes que “ainda têm muito a nos dizer”.

1. POR QUE LER OS CLÁSSICOS


Livros e autores clássicos são atemporais. Lançam ideias não ape-
nas universais, mas de relevância e atualidade que se renovam a cada
momento em que são lembradas, discutidas e aplicadas. Os clássicos
são, por assim dizer, sempre “contemporâneos”, inquietantes e provoca-
dores. Não é exagero afirmar: todo sentimento e conhecimento encon-
tram-se nos clássicos. Sempre estiveram lá! Nem mesmo os desafios da
linguagem não mais usual ou dos ambientes não mais existentes ou pro-
fundamente transformados podem ser considerados obstáculos ao que
os clássicos têm a nos oferecer: inspiração. Isso é assim para a Literatura
– os seguidores de Shakespeare que o digam –; isso deve ser assim para
o Direito.

1. Mestre e Doutor em Direito Público pela UERJ. Professor-Adjunto de Direito Financeiro e Tri-
butário nos cursos de graduação, mestrado e doutorado da UERJ. Ex-Assessor de Ministro do
STF. Advogado.
2. Pós-doutora pela Universidade de Lisboa. Doutora pela PUC/SP. Mestre pela UFC. Professora
de Direito Tributário e Financeiro da graduação e pós-graduação – UFC/UNI7. Procuradora
da Fazenda Nacional.
3. Mestre pela UFRGS, Doutor pela PUCSP, Estágio de Doutoramento na Ludwig-Maximilians
Universität (Alemanha). Professor Titular e membro do Corpo Permanente do PPGD da PU-
CRS. Ex-Conselheiro do CARF. Advogado. Autor das obras “Direito Tributário e Análise Econô-
mica do Direito” e “Curso de Direito Tributário”.

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Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

Mas o que é um livro clássico? Quais as notas características que


fazem de uma obra um clássico? O que um autor fez ou deve fazer para
ser considerado um clássico? O escritor italiano, nascido em Cuba, Italo
Calvino, publicou obra de referência em que procurou definir o que são
os livros clássicos e justificar o porquê de sua importância permanente.
Para Calvino, clássicos “são livros que exercem uma influência particular
seja quando se impõem como inesquecíveis, seja quando se escondem
nas dobras da memória mimetizando-se de inconsciente coletivo ou
individual”4. Os clássicos não se dão por esquecidos.
Prossegue o escritor italiano, dizendo que “toda releitura de um
clássico acaba sendo uma descoberta como se fosse uma primeira leitu-
ra”. Por outro lado, “toda primeira leitura de um clássico é na realidade
uma releitura”, e isso porque os clássicos carregam “as marcas das lei-
turas precedentes e, atrás de si, os traços que têm deixado na cultura ou
nas culturas que atravessaram”. Um clássico tem sempre “o seu lugar na
genealogia” dos notáveis. Por tudo isso, diz Calvino, “quanto mais acre-
ditamos conhecer [os clássicos] por ouvir dizer, mais se revelam novos,
inesperados, inéditos quando de fato os lemos”. Sem embargo, a “leitura
de um clássico deve dar-nos alguma surpresa em relação à imagem que
dele tínhamos”. Em boa síntese, “clássico é um livro que nunca terminou
de dizer aquilo que tem a dizer”5.
Os clássicos possuem, portanto, a virtude de nos surpreender sem-
pre. Oferecem teorias que se revelam inovadoras mesmo quando pen-
sávamos que tudo já havia sido completamente absorvido, ou que se
impõem como paradigmas mesmo quando acreditávamos já terem sido
superadas. Ouvimos sempre dizer dos clássicos e acreditamos que não
há mais o que se descobrir ou compreender acerca deles. Contudo, cada
(re)leitura é uma nova descoberta, um novo conhecimento, uma nova in-
quietação. Clássicos não são livros necessariamente velhos e empoeira-
dos, nem dignos de reimpressões intermináveis; clássicos são dignos de
reflexão continuamente renovável. Clássicos são dignos da imortalidade
e da ubiquidade de pensamento.
As ideias lançadas nos clássicos não se tornam ultrapassadas. O nú-
cleo do pensamento permanece no tempo, e serve de guia aos desen-
volvimentos posteriores. As inovações ocorrem nas franjas desse pensa-

4. CALVINO, Italo. Perché leggere i classici. Segrate: Mondadori Ed., 2002, p. 6-7.
5. CALVINO, Italo. Perché leggere i classici. Op. cit., p. 7, 8 e10.

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INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

mento e tendo em vista os dias sempre atuais. O que foi o Renascimento


senão a redescoberta, releitura e revalorização de autores da Antiguida-
de Clássica, notadamente de Platão6? O que são os princípios de justiça
e a filosofia moral de John Rawls senão um retorno ao construtivismo
e à filosofia ética de Kant7? Como recusar a influência do pensamento
liberal de Adam Smith e da abordagem político-social de Adolph Wagner
sobre o embate contemporâneo acerca da justificação moral e política
dos tributos8?
Os autores clássicos sempre refletiram e se perguntaram sobre as-
pectos permanentes da condição humana e do papel das instituições,
ao passo que os autores contemporâneos fazem as mesmas reflexões,
as mesmas perguntas, voltadas ao ser humano e às suas necessidades,
assim como às estruturas de poder da atualidade. Há tanto relativas di-
ferenças de perspectivas e de desafios, como conexões atemporais entre
as preocupações e os fundamentos morais ou políticos das respostas. Os
clássicos nos ajudam a encontrar, por nós mesmos, melhores e mais bem
fundamentadas soluções para os problemas de nossos dias, nos ofere-
cendo aportes originais e, ao mesmo tempo, inacreditavelmente atuais.
Os livros clássicos devem formar “cânones”, na feliz expressão do
crítico literário e acadêmico Harold Bloom. Quem lê deve escolher o que
vai ler – disse esse autor –, “pois mesmo se leitura fosse a única coisa
que um indivíduo fizesse na vida, ainda assim não haveria tempo para
ler tudo”. O leitor, mortal por essência, deve ser então seletivo; deve dar
preferência ao conjunto das obras sublimes e representativas de um
tempo, de uma nação; deve dar preferência aos autores que influenciam
outros autores. Deve selecionar as obras-modelo, ao cujo conjunto dá-
-se o nome de cânone9. O leitor, limitado pelo tempo e por sua natureza
humana, deve ser objetivo na busca de inspiração, de marcos teóricos

6. Cf. KRAYE, Jill. The philosophy of the Italian Renaissance. In: PARKINSON, G.H.R. (Ed.) Renais-
sance and 17th Century Rationalism. Routledge History of Philosophy. Vol. IV. New York: Rou-
tledge, 1993, p. 15-64; BROWN, Stuart. Renaissance philosophy outside Italy. In: PARKINSON,
G.H.R. (Ed.) Renaissance and 17th Century Rationalism. Op. cit., p. 65-96.
7. FREEMAN, Samuel. Rawls. New York: Routledge, 2007, p. 21: “As longas conferências de Rawls
sobre Kant […] indicam que Kant é o filósofo que mais profundamente o influenciou. [...] pode-
-se discernir que muitas das principais ideias de Rawls foram profundamente influenciadas
por sua compreensão de Kant”.
8. Cf. VOGEL, Klaus. The Justification for Taxation: a forgotten question. The American Journal of
Jurisprudence. Vol. 33, 1988, p. 19-59.
9. BLOOM, Harold. The Western Canon. The Books and School of the Ages. New York: Harcourt
Brace & Company, 1994, p. 15: “Who reads must choose, since there is literally not enough

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Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

consistentes, de pensamentos permanentes em perspectiva histórica.


Ele encontrará tudo isso nos clássicos.
Os clássicos devem ser lidos. Não basta o “ouvir dizer” sobre eles. Os
alunos – e os leitores em geral – precisam ser incentivados a buscar co-
nhecimento nos clássicos. Nesse ponto, o papel das escolas e das univer-
sidades é fundamental. O mesmo Harold Bloom destaca a responsabili-
dade das instituições acadêmicas na formação dos conjuntos de obras
de leitura essencial – os cânones. Como relata, o significado original de
cânone é relacionado às escolhas feitas pelas instituições de ensino das
grandes obras e dos grandes autores que os estudantes devem ler. A res-
ponsabilidade na formação dos cânones, segundo o autor, deve ser com
a qualidade estética. As instituições responsáveis devem incentivar lei-
turas tão importantes e singulares quanto diversificadas. O contrário,
segundo Bloom, “reduz o mérito estético à ideologia ou, na melhor das
hipóteses, à metafísica”10.
Portanto, os alunos-leitores devem, por meio do contato com os clás-
sicos, absorver conhecimentos e construir suas conclusões a partir da
visão dos próprios clássicos. Para tanto, o compromisso da universidade
deve ser com o incentivo à leitura direta e variada das obras clássicas,
sem seletividade ideológica, política ou moral. Essas foram as máximas
que governaram o projeto e a realização desta coletânea. Como profes-
sores, acadêmicos e coordenadores deste livro, buscamos fazer a nossa
parte: formamos nossos cânones e incentivamos a leitura dos clássicos
por nossos alunos em salas de aula de pós-graduação stricto sensu. O re-
sultado foi a produção desta obra coletiva, que, acreditamos, servirá de
incentivo para que outros apaixonados pelo Direito Tributário busquem
o conhecimento pelos clássicos11.
Nos cursos de mestrado e doutorado da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro – UERJ, da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul – PUCRS e da Universidade Federal do Ceará - UFC, diri-
gimos disciplinas que possuem por objetivo comum a pesquisa, o co-

time to read everything, even if one does nothing but reads”; p. 30: “We possess the Canon
because we are mortal and also rather belated”.
10. BLOOM, Harold. The Western Canon. The Books and School of the Ages. Op. cit., p. 18.
11. A advertência deve ser mantida e não possui incoerência com a proposta desta coletânea: é
importante que os leitores busquem o contato direto com os clássicos. Não esperamos que a
investigação dos clássicos se encerre com a leitura de nossa coletânea. Ao contrário, nosso
desejo é que esta coletânea incentive os seus leitores a também buscarem inspiração própria
diretamente nos clássicos, assim como todos nós fizemos.

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INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

nhecimento e a compreensão de autores de elevada importância his-


tórica para a construção progressiva das teorias, dos conceitos e dos
institutos do Direito Tributário. Nas aulas, debatemos o pensamento
financeiro e tributário de autores que fundaram e desenvolveram a
Economia Política como ciência nos séculos XVIII e XIX, a Ciência das
Finanças nos séculos XIX e XX, e o Direito Financeiro e Tributário no
século XX. Os alunos descobrem, por intermédio dos clássicos, o per-
curso científico trilhado pelo Direito Tributário até o seu atual estágio
de desenvolvimento. Além de assimilar as ideias básicas de cada época
e área de conhecimento, o objetivo é problematizar a aplicação dessas
lições na atualidade.
Ao final de cada semestre letivo, os alunos produzem papers rela-
cionados às suas pesquisas, que agora compõem esta coletânea. Trata-
-se, portanto, a presente obra, de conjunto de artigos produzido pelos
nossos mestrandos e doutorandos, mas também por nós, professores e
coordenadores, que versa autores clássicos fundamentais para a cons-
trução histórica do Direito Tributário como ciência jurídica e prática
política e social12. Para esta coletânea, o foco foi exclusivamente sobre
autores clássicos estrangeiros. A obra, como não poderia deixar de ser,
é marcada pelo pluralismo teórico e pela abertura discursiva às mais
diversas fases de evolução do Direito Tributário.
A divisão estrutural do livro segue o percurso histórico de formação
do Direito Tributário: da Economia Política, passando pela Ciência das
Finanças, pelo Direito Administrativo e pelo Direito Financeiro, até che-
gar ao Direito Tributário Clássico. Cada autor e suas respectivas obras
paradigmáticas são abordados separadamente, categorizados em cada
uma das aludidas áreas de conhecimento, historicamente conectadas
em torno da evolução do Direito Tributário. Essas diferentes fases de
conhecimento, a seguir sinteticamente apresentadas, são representadas
por capítulos desta coletânea. Dessa forma, a estrutura desta obra en-
cerra a própria descrição da evolução histórica e científica do Direito
Tributário.

12. Diferentemente de outras coletâneas da espécie, não optamos por transcrever trechos sele-
cionados das obras-modelo dos autores clássicos, e sim descrever e problematizar direta-
mente essas obras e suas passagens principais. Em relação a esse modelo de coletâneas de
transcrições dos clássicos, cf. GROOVES, Harold M. Viewpoints on Public Finance. Nova Iorque:
Henry Holt and Co., 1947; MUSGRAVE, Richard A.; PEACOCK, Alan T. (Ed.) Classics in the The-
ory of Public Finance. Nova Iorque: St. Martin Press, 1958.

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Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

2. O INÍCIO PELA ECONOMIA POLÍTICA


O estudo sistemático das finanças públicas em geral e dos tributos
em particular remonta à Economia Política – ciência que tem por objeto
os processos de produção, distribuição e consumo de riquezas e bens
materiais, associando-os às diferentes formas de organização social e
política13. A Economia Política avança, portanto, sobre as inter-relações
entre organização sócio-política e atividade econômica14, fornecendo
parâmetros para a formulação de políticas pelos governantes15, incluí-
das as de obtenção de receitas e de gastos públicos. O objeto da Econo-
mia Política é a riqueza de uma nação16, e o fim, a satisfação das necessi-
dades humanas da comunidade17. Dentro desse amplo campo temático,
os tratadistas sempre reservaram capítulos de seus manuais ao estudo
das finanças públicas – das despesas públicas e da cobrança de tributos
–, ao lado de temas como fatores e formas de produção, circulação, dis-
tribuição e consumo de riqueza, moeda, salários, lucros, teorias do valor,
da demanda e da oferta.
O desenvolvimento histórico da Ciência das Finanças e do Direito Tri-
butário está intimamente ligado, portanto, ao da Economia Política: pri-
meiramente, com os autores alemães do Cameralismo dos séculos XVII
e XVIII; depois, com os fisiocratas franceses do século XVIII18. É lugar co-
mum, no entanto, a afirmação de caber ao escocês Adam Smith o prestígio

13. Sobre a evolução do objeto da Economia Política, cf. LUTZ, Harley Leist. Public Finance. 4ª ed.
New York: D. Applenton and Co., 1947, p. 1-10.
14. LORIA, Achille. Corso di Economia Politica. 3ª ed. Torino: UTET, 1927, p. 74: “A Economia po-
lítica é a ciência da ordem social das riquezas. [...] outras ciências, além da Economia política,
estudam a riqueza [...]. Mas nenhuma dessas estuda a riqueza em suas relações com a prospe-
ridade pública e privada, que é exatamente a característica especial que a definição deve ter
em mente”.
15. COSSA, Luigi. Economia Sociale. 11ª ed. Milão: Ulrico Hoepli Ed., 1899, p. 8: “O ofício da econo-
mia política é dúplice. Ela investiga a essência, as causas e as leis da ordem social das riquezas
e fornece princípios diretivos para a atividade econômica dos corpos políticos”
16. NICHOLSON, J. Shield. Principles of Political Economy. Vol. I. 2ª ed. Londres: Adam and Charles
Black, 1902, p. 3: “Seu campo (de Economia Política) pode, talvez, ser melhor descrito provi-
soriamente nas palavras de Adam Smith, como o da investigação sobre a natureza e as causas
da riqueza das nações”
17. PIERSON, N. G. Trattato di Economia Politica. Torino: Bocca, 1905, p. 3:“Se costuma, em geral,
designar a Economia Política como a ciência que nos ensina quais regras os homens devem
seguir para o seu bem estar material”.
18. JARACH, Dino. Finanzas Públicas y Derecho Tributario. 3ª ed. Buenos Aires: Abeledo-Perrot,
2003, p. 4: “A ciência cameralista é a primeira expressão da ciência das finanças públicas”. No
mesmo sentido, cf. BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. 18ª ed. Rio de
Janeiro: Forense, 2012, p. 20.

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INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

de ter elevado a Economia Política “à dignidade de ciência”19 em sua no-


tável obra A Riqueza das Nações20. Segundo Luigi Cossa, com Adam Smith
“as teorias financeiras encontraram finalmente uma base mais sólida e um
desenvolvimento mais seguro”21. Adam Smith considerava as finanças pú-
blicas parte da Economia Política, tendo reservado todo o Livro V de sua
clássica obra ao tema: tratou dos gastos do soberano, das fontes de arre-
cadação e das dívidas públicas. Destaque para a sua sistematização dos
princípios de imposição tributária, de enorme influência até hoje para a
abordagem dos princípios constitucionais tributários22.
Na primeira metade do século XIX, destacaram-se os ingleses David
Ricardo23 e John Stuart Mill24 como herdeiros do legado de Adam Smi-
th25. Ambos escreveram capítulos, em seus importantes tratados de eco-
nomia política, sobre tributação e gastos públicos. Também para esses
autores, o estudo das Finanças Públicas não passava de uma “parte ou
sub-ramo da Economia Política”26. Para Ricardo, “determinar as leis que
regulam a distribuição [de riqueza na sociedade] é a principal questão
da Economia Política”, da qual faz parte “a influência da tributação so-
bre as diferentes classes da comunidade”27. Para Mill, uma das questões
mais disputadas tanto para a Ciência da Economia Política quanto para a
governança prática é a dos “adequados limites das funções e dos órgãos
dos governantes”, o que inclui os efeitos econômicos das escolhas feitas
a partir de determinada “teoria da Tributação”28.
Ainda no século XIX, alguns economistas alemães passaram a abor-
dar sistematicamente as finanças públicas e a tributação, concedendo-

19. COSSA, Luigi. Primi Elementi di Scienza dele Finanze. 9ª ed. Milão: Ulrico Hoepli Ed., 1905
(1876), p. 10.
20. SMITH, Adam. An Inquiry into the Nature and Cause of the Wealth of Nations,1776.
21. COSSA, Luigi. Primi Elementi di Economia Politica. Op. cit., p. 10. Acusando o excesso de tal
afirmação, defendendo o estudo orgânico e sistemático da matéria anteriormente pelos ca-
meralistas, cf. BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. Op. cit., p. 20.
22. Sobre esses princípios, cf. o tema “Adam Smith” no Capítulo I desta obra.
23. RICARDO, David. Political Economy and Taxation, 1817. Sobre a obra de David Ricardo, cf.
MARX, Karl. Storia dele Teorie Economiche. Vol. II: David Ricardo. Turin: Einaudi Ed., 1955.
24. MILL, John Stuart. Principles of Political Economy, 1848.
25. Sobre o legado de Smith nos séculos XVIII e XIX, cf. SHIRRAS, G. Findlay. The Sciense of Public
Finance. Londres: Macmillan and Co., 1924, p. 13-19.
26. BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. Op. cit., p. 21.
27. RICARDO, David. Political Economy and Taxation. Kitchener: Batoche Books, 2001 (1817), p. 5
(Prefácio).
28. MILL, John Stuart. Principles of Political Economy. New York: D. Applenton and Co., 2009
(1848), p. 619-620.

29
Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

-lhes uma importância que “abriu caminho à emancipação destas em re-


lação à Economia Política”29. Para esse processo, foram muito importan-
tes as contribuições dos professores de Economia Política Karl Heinrich
Rau30 – esse seguidor de Smith – e Lorenz von Stein31. Ainda que com
fundamentos, modos e graus diversos, ambos os autores contribuíram
para se abandonar a ideia de domínio absoluto da Economia sobre as Fi-
nanças Públicas, passando essa última a ser vista especificamente como
a “ciência da economia estatal”, o que incluía as perspectivas política e
jurídica além da econômica32.
Nesse processo de conquista de relevância científica pelas Finan-
ças Públicas, merece destaque especial Adolph Wagner, um dos mais
influentes economistas políticos de seu tempo. Fundador destacado do
movimento denominado “socialismo de cátedra” (Kathedersozialist),
Wagner defendeu em suas obras a função redistributiva de riqueza pelo
Estado e o correlato papel político-social do tributo33. Justamente por
entender o fenômeno estatal financeiro sob as perspectivas política e
social, e não meramente econômica, Wagner contribuiu enormemente
para a ascensão da Ciência das Finanças como disciplina autônoma34.
Ademais, a assunção pelo Estado de funções redistributivas e de trans-
formação social implica inevitável aumento de gastos públicos e da
cobrança de tributos, crescendo a importância, consequentemente, do
ramo científico a respeito das finanças públicas.
Na Itália, na segunda metade do século XIX, as finanças públicas
também eram estudadas e ensinadas por economistas políticos. No en-
tanto, o movimento de relevância da emergente Ciência das Finanças
Públicas foi ainda mais intenso nesse país. Destaque para Luigi Cossa,
que lecionava Teoria das Finanças Públicas na cadeira de Economia Po-
lítica da Universidade de Pavia, da qual era titular. Em seu manual de
Ciência das Finanças, publicado em 1876, Cossa afirmou expressamente
que “a ciência das finanças não é, como muitos acreditam, um apêndice

29. BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. Op. cit., p. 21.
30. RAU, Karl Heinrich. Lehrbuch der politischen Ökonomie. 3 Vols., 1826-1837.
31. VON STEIN, Lorenz. Lehrbuch der Finanzwissenschaft. 4 Vols., 1860. Sobre a teoria de justifi-
cação da tributação de von Stein, cf. VOGEL, Klaus. The Justification for Taxation: a forgotten
question. The American Journal of Jurisprudence. Vol. 33, 1988, p. 33-43.
32. GERLOFF, Wilhelm. Fundamentos de la Ciencia Financeira. In: _____.; NEUMARK, Fritz (Org.).
Tratado de Finanzas. Tomo I. Buenos Aires: El Ateneo, 1961, p. 4-5.
33. Sobre as ideias pioneiras do autor, cf. o tema “Adolph Wagner” no Capítulo I desta obra.
34. WAGNER, Adolph. Finanzwissenschaft, 1880.

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INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

da economia política. [...] Os princípios gerais do direito e da política são


fontes da ciência das finanças, não menos que os princípios da economia
política”35.
Desse modo, o fenômeno financeiro, segundo Luigi Cossa, deveria
ser apreciado sob uma tripla perspectiva – a da justiça (direito), a da
conveniência (política) e a das vantagens ou ganhos sociais (economia
política). Esse espectro ampliado resultaria na necessidade de autono-
mia da investigação dos fatos financeiros em relação à economia em ge-
ral. A partir de Cossa, os escritores italianos do fim do século XIX e come-
ço do século seguinte passaram a desenvolver uma literatura financeira,
além de vasta, do mais alto nível, o que repercutiu também no campo da
doutrina do Direito Tributário italiano nas décadas que se seguiram36.
Nos Estados Unidos, no fim do século XIX e começo do século XX,
importantes economistas também investigaram acerca das finanças pú-
blicas e dos tributos, vindo inclusive a influenciar autores europeus. Os
professores de Economia Política da Universidade de Michigan Henry
Carter Adams37 e da Universidade de Columbia Edwin Seligman38 são os
nomes mais importantes. Principalmente Seligman, que é considerado
pioneiro nos estudos de finanças públicas e tributação no país. Seligman
deixou de legado obras relevantíssimas sobre a incidência, a progressi-
vidade tributárias, e a tributação da renda39. Como descreveu Shirras,
“nenhum escritor sobre tributação neste período tratou a matéria tão
exaustivamente, com tanto sucesso ou com maior conhecimento do as-
sunto que Seligman”40.
Todos os autores citados são clássicos, merecedores de formarem
cânones seja qual for o critério de seleção utilizado41. Desenvolvendo e
formando a Economia Política como ciência, esses pensadores enfrenta-

35. COSSA, Luigi. Primi Elementi di Scienza dele Finanze. Op. cit., p. 6.
36. SHIRRAS, G. Findlay. The Sciense of Public Finance. Op. cit., p. 22-23
37. ADAMS, Henry Carter. The Sciense of Finance, 1888.
38. Sobre o trabalho pioneiro do autor, cf. o tema “Edwin Seligman” no Capítulo I desta obra.
39. SELIGMAN, Edwin Robert Anderson. Progressive Taxation in Theory and Practice, 1894; The
Shifting and Incidence of Taxation (1899); Essays in Taxation, 1905; The Income Tax: A Study of
the History, Theory and Practice of Income Taxation at Home and Abroad, 1911.
40. SHIRRAS, G. Findlay. The Sciense of Public Finance. Op. cit., p. 19.
41. Valem ainda as seguintes menções: o alemão Wilhem Roscher, o austríaco Emilio Sax, o fran-
cês Leroy-Beaulieu e o norte-americano Carl C. Plehn. Para uma ampla visão da literatura
econômico-financeira do período entre 1885 e 1900, cf. SELIGMAN, Edwin Robert Anderson.
Essays in Taxation. 8ª ed. Londres: Macmillan and Co., 1913, p. 543-595.

31
Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

ram de forma original problemas próprios de Finanças Públicas – gas-


tos públicos e tributação –, lançando as bases para a evolução a seguir
da Ciência das Finanças e, mais tarde, do próprio Direito Tributário. São
autores que influenciaram e influenciam outros autores, e contribuíram
para o desenvolvimento de nossa disciplina. Adam Smith, Adolph Wag-
ner e Edwin Seligman são clássicos da Economia Política escolhidos para
compor esta coletânea; os artigos sobre eles correspondem ao Capítulo I.

3. ASCENSÃO DA CIÊNCIA DAS FINANÇAS


Ciência das Finanças ou Economia Financeira ou Política Financeira
iniciou-se como a parte destacada da Economia Política e, segundo Luigi
Cossa, consiste na “doutrina do patrimônio público. Ela ensina o modo
melhor de constituí-lo, administrá-lo e empregá-lo”42. Finanças públicas
envolvem, portanto, a administração dos recursos e do patrimônio pú-
blicos pelos agentes políticos e de governo, voltada à satisfação das ne-
cessidades coletivas. Finanzwissenschaft, Scienza delle Finanze, Science
des Finances ou Science of Public Finance, a Ciência das Finanças alcança,
tradicionalmente, as seguintes divisões: gastos públicos, arrecadação
pública, empréstimos públicos e administração financeira, o que inclui o
orçamento e a contabilidade pública43.
Antes investigados dentro da Economia Política, os gastos públicos
e a obtenção de receitas públicas passaram a receber atenção separa-
da, formando a disciplina de Finanças Públicas – “a ciência da gestão
financeira governamental”44. Com efeito, seguindo o crescimento da
importância de objetos particulares de estudo dentro de disciplinas ge-
rais, toda evolução científica é marcada por processos progressivos de
especificação. E assim ocorreu com a Ciência das Finanças, cuja ascen-
são resultou da evolução da importância da investigação da atividade
financeira do Estado dentro da Economia Política45. Em vez de capítulos
dentro de manuais de Economia Política, a atividade financeira do Es-
tado passou a ser problematizada em manuais próprios de Ciência das
Finanças. E em vez de especialização na cátedra de Economia Política, a

42. COSSA, Luigi. Primi Elementi di Scienza dele Finanze. Op. cit., p. 6.
43. SHIRRAS, G. Findlay. The Sciense of Public Finance. Op. cit., p. 4.
44. LUTZ, Harley Leist. Public Finance. 4ª ed. New York: D. Applenton and Co., 1947, p. 3.
45. GERLOFF, Wilhelm. Fundamentos de la Ciencia Financeira. In: _____.; NEUMARK, Fritz (Org.).
Tratado de Finanzas. Tomo I. Buenos Aires: El Ateneo, 1961, p. 2: “A ulterior evolução da ciên-
cia financeira, intimamente ligada à história da economia politica [...].

32
INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

Ciência das Finanças aos poucos se tornou disciplina autônoma nas mais
importantes universidades da Europa.
A evolução da Ciência das Finanças foi especialmente forte na Itália.
Aluno de Luigi Cossa e de Adolph Wagner, Giuseppe Ricca-Salerno deu
continuidade à crescente importância do estudo autônomo da disciplina
no país46, seguido de Antonio de Viti de Marco47 que assumiu a cátedra
específica de Ciência das Finanças na mesma Universidade de Pavia.
Merecem também destaques os economistas Maffeo Pantaleoni48 e Ugo
Mazzola49, contemporâneos de Cossa, embora, diferentemente deste, va-
lorizassem mais o aspecto econômico das finanças públicas em relação
aos aspectos político e jurídico. Para o ulterior desenvolvimento da Ci-
ência das Finanças como disciplina autônoma também foram importan-
tes Augusto Graziani50 e Luigi Einaudi51.
Graças, portanto, ao ponto de partida de Luigi Cossa, a Ciência das
Finanças assumiu, na Itália, autonomia e relevância didática e científica.
Por sua vez, além da contribuição geral, Cossa lançou a pedra fundamen-
tal para aquele que seria um dos centros de estudo mais importantes do
mundo sobre Direito Financeiro e Tributário: a histórica Escola de Pavia.
Esse é o relato de Benvenuto Griziotti:
A obra de Luigi Cossa serviu, portanto, ao progresso dos estudos finan-
ceiros seja por promover o surgimento da cátedra de Ciência das Finan-
ças e Direito Financeiro nas universidades italianas, seja por fazer pros-
perar a Escola de Pavia, onde se formaram ou se fortaleceram jovens,
que ocupam hoje diversas cátedras e que contribuem, com suas ativi-
dades científicas, ao enriquecimento da literatura financeira italiana52.

46. Assim como Cossa, Ricca-Salerno defendeu o estudo das finanças públicas não apenas sob
o aspecto econômico, mas também sob os aspectos político e jurídico. Cf. RICCA-SALERNO,
Giuseppe. Scienza dele Finanze. 2ª ed. Firenze: G. Barbèra ed., 1890 (1888).
47. DE VITI DE MARCO, Antonio. Il Carattere Teoretico dell’ Economia Finanziaria, 1888. Poste-
riormente: Principî di Economia Finanziaria.3ª ed. Torino: Edizioni Scientifiche Einuadi, 1953
(1934).
48. PANTALEONI, Maffeo. Scritti Varii di Economia, 1904.
49. MAZZOLA, Ugo. I Dati Scientifici dela Finanza Pubblica, 1890.
50. GRAZIANI, Augusto. Istituzioni di Scienza dele Finanze, 1897.
51. EINAUDI, Luigi. Corso di Scienza dele Finanze, 1907.
52. GRIZIOTTI, Benvenuto. Primi lineamenti dele dotrine finanziarie in Italia durante l´ultimo
cinquantennio. In: Economia Politica Contemporanea. Saggi di Economia e Finanza in onere del
prof. Camilo Supino. Op. cit., p. 304.

33
Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

Benvenuto Griziotti, ele mesmo, é um dos protagonistas da ascen-


são científica da Ciência das Finanças na Itália. Dando continuidade aos
trabalhos de Luigi Cossa e de Vitti de Marco na Universidade de Pavia,
Griziotti consolidou a Escola de Pavia de Direito Financeiro e Ciência das
Finanças, formou discípulos da envergadura de Ezio Vanoni e Dino Jara-
ch53, e fundou, em 1937, assim como dirigiu, por muitos anos, a Rivista di
Diritto Finanziario e Scienza delle Finanze (Editora Giuffrè). O periódico
é publicado até hoje. Griziotti defendia uma metodologia particular de
ensino da disciplina: chamado de “integralista”, o método griziottiano
tinha como premissa a identidade de objeto entre o Direito Financeiro
e a Ciência das Finanças, do que resultava a necessidade do estudo dos
fenômenos financeiros, incluídos os tributários, conjuntamente sob as
perspectivas econômica, política e jurídica.
Disso resultaram, no plano da estrutura universitária, o estabele-
cimento da cátedra única de “Direito Financeiro e Ciência das Finan-
ças”; no plano normativo, a tese da “interpretação funcional” das nor-
mas financeiras54, ainda hoje relevante para o tema da aplicação das
normas anti-elisivas. Griziotti não defendeu, diferentemente de Maffeo
Pantaleoni e Ugo Mazzola, a prevalência do elemento econômico so-
bre o jurídico, mas que o jurista deveria levar em conta o elemento
econômico, assim como o político, na investigação jurídica dos insti-
tutos financeiros. Trata-se, segundo Grizzioti, de elementos coessen-
ciais, daí a conveniência da disciplina única “Direito Financeiro e Ci-
ência das Finanças”55. Muitas foram as reações contrárias às propostas
metodológicas de Griziotti, notadamente no sentido da necessidade da
autonomia científica do Direito Financeiro como disciplina jurídica em
relação à Ciência das Finanças.
Na França, Gaston Jèze foi o maior exemplo de jurista que contribuiu
decisivamente para a consolidação da Ciência das Finanças como disci-
plina autônoma56. Acadêmico, publicista e ativista de direitos humanos,
Jèze fundou, em 1903, e dirigiu a Revue de Science et de législation fi-
nancière. Tido como “papa” das Finanças Públicas na França, Jèze lutou
pelo ensino autônomo da Ciência das Finanças, em relação às ciências
econômicas, nas universidades francesas, vindo a ser titular da cátedra

53. Ambos são tratados como autores clássicos do Direito Tributário nesta coletânea no capítulo IV.
54. Sobre essas e outras teses, cf. o tema “Benvenuto Griziotti” no Capítulo II desta obra.
55. GRIZIOTTI, Benvenuto. Principii di Politica, Direitto e Scienza delle Finanze, 1929.
56. JÈZE, Gaston. Cours de science des finances et de législation financière française,1922.

34
INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

correspondente na Universidade de Paris. Enfatizava o caráter político


das Finanças Públicas sobre o econômico, entendimento que predomi-
nou durante os primeiros 40 anos do século XX na academia francesa57.
Por tudo isso, Gaston Jèze foi o principal nome da Ciência das Finanças
na França da primeira metade do século XX58.
Nos Estados Unidos, a evolução do pensamento financeiro no século
XX deu-se muito em função de Richard Abel Musgrave. Economista de
origem alemã, Musgrave desenvolveu ideias contrárias ao pensamen-
to liberal de seus antecessores, especialmente ao de Edwin Seligman.
Influenciado pelas teorias de autores europeus de ideologia socialista,
como Adolph Wagner, Musgrave desafiou o senso comum estaduniden-
se ao defender um papel mais intervencionista do Estado na economia,
incluída a noção redistributiva da atividade financeira estatal. Pensando
conjuntamente as despesas e as receitas públicas e a função distributiva
dos tributos, Musgrave defendia que a definição do papel fiscal do go-
verno deveria passar pela preocupação com a justiça na repartição de
rendas e riquezas59. Nunca foi, nem de longe, preocupação de Musgrave
a autonomia didática das Finanças Públicas em relação às ciências eco-
nômicas, mas ele elevou o estudo da primeira a um patamar de sofisti-
cação próprio das disciplinas específicas e autônomas60. Não por menos,
era tido como o “pai das Finanças Públicas moderna”61.
Ainda nos Estados Unidos, no campo das Finanças Públicas nosé-
culo XX, merece igual menção o economista liberal e neocontratualista
James Buchanan, com quem Richard Musgrave teve profícuos e sofisti-
cados debates62. Um dos líderes da escola de public choice e do libera-
lismo econômico, Buchanan se destacou, ao lado de Musgrave e Milton
Freedman, como um dos principais teóricos das finanças públicas e da
economia política do século XX nos Estados Unidos63.

57. BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. Op. cit., p. 32.
58. Cf. o tema “Gaston Jèze” no Capítulo II desta obra.
59. MUSGRAVE, Richard A. The Theory of Public Finance, 1959.
60. Muito ao contrário, próprio do padrão norte-americano, as Finanças Públicas em Musgrave
eram explicadas integradas à Economia Pública ou Política. A sua categorização dentro do ca-
pítulo de Ciência das Finanças nesta coletânea (capítulo II) justifica-se mesmo pela excelência
de suas lições sobre o papel fiscal do Estado.
61. Cf. o tema “Richard Musgrave” no Capítulo II desta obra
62. Cf. BUCHANAN, James; MUSGRAVE, Richard. Public Finance and Public Choice. Two Contras-
ting Visions of the State. Cambridge: The MIT Press, 1999.
63. Cf. o tema “James Buchanan” no Capítulo II desta obra

35
Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

Os autores citados são clássicos e merecedores de comporem câ-


nones. São autores que influenciaram e influenciam outros autores.
Elevaram a Ciência das Finanças a um patamar de especificação e so-
fisticação a justificar fosse a matéria abordada de forma autônoma em
manuais e ganhasse cátedras próprias nas universidades. A ascensão
da disciplina pavimentou o caminho para a evolução do Direito Finan-
ceiro e do Direito Tributário. Benvenuto Griziotti, Gaston Jèze, Richard
Musgrave e James Buchanan são clássicos das Finanças Públicas esco-
lhidos para compor esta coletânea; os artigos sobre eles correspon-
dem ao Capítulo II.

4. DO DIREITO ADMINISTRATIVO AO DIREITO FINANCEIRO.


No fim do século XIX, paralelamente à ascensão, na Itália, da Ci-
ência das Finanças, ocorria na Alemanha o movimento de estudo do
Direito Financeiro e Tributário dentro do Direito Administrativo. Essa
última disciplina derivou de uma concepção absolta do poder admi-
nistrativo do soberano na Alemanha, do que resultou a concepção de
uma administração pública de natureza autoritária. Essas premissas
levaram, no campo financeiro, à noção da atividade financeira e tribu-
tária como um poder financeiro (Finanzgewalt) relacionado ao poder
de polícia (Polizeigewalt). O principal defensor dessa proposta foi Otto
Mayer, um dos mais notáveis administrativistas da história do Direito
Público alemão64.
Otto Mayer dedicou um capítulo do seu manual de Direito Adminis-
trativo65 para abordar o poder financeiro do Estado, incluído o poder
de impor tributos. Mayer, coerente com a doutrina clássica do Direito
Público alemão, afirmava que o tributo é uma emanação da supremacia
estatal, do poder ilimitado do Estado. Ao lado do poder de polícia, vol-
tado a assegurar a boa ordem na comunidade, o Estado exerce o poder
financeiro que tem por fim conseguir os meios econômicos necessários
para que possa exercer suas funções. A relação tributária seria, desse
modo, uma relação de poder; poder soberano que se manifesta em to-
dos os estágios de formação do fenômeno tributário: desde a criação em
lei, passando pelos momentos de surgimento do dever tributário e do
lançamento, culminando na expedição pela Administração da ordem de

64. D’AMATI, Nicola. Il “Diritto Tributario” e la Tradizione Giuridico-Finanziaria Italiana. In: Studi
in Onore di Achile Donato Giannini. Milão: Giuffrè, 1961, p. 399.
65. MAYER, Otto. Deutsches Verwaltungsrecht, 1895.

36
INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

pagamento66. Na mesma linha de Mayer na Alemanha, merece citação o


administrativista Fritz Fleiner67.
Em que pesem as críticas que merece a formulação da relação tribu-
tária como relação de poder, na qual o Estado encontraria apenas limi-
tes de fato em sua manifestação financeira, a contribuição da doutrina
administrativa alemã foi relevante no sentido de ter promovido o estudo
dos fenômenos financeiro e tributário fora dos campos da Economia Po-
lítica e da Ciência Financeira, tendo deslocado-o para o campo das dis-
ciplinas jurídicas propriamente ditas. Também na Itália, nas primeiras
décadas do século XX, paralelamente à proposta de Griziotti do estudo
unitário do Direito Financeiro e da Ciência das Finanças, o Direito Fi-
nanceiro passou a ser estudado, em outras “escolas”, também no âmbi-
to do Direito Administrativo. De acordo com Andrea Amatucci, à época,
sob essa ótica metodológica, “o Direito Financeiro, tanto se considera-
do unitário, como distribuído em tais duas partes [Direito Financeiro e
Ciên­cia das Finanças], era concebido em geral como um setor do Direito
Administrativo”68.
Nessa linha didática merece destaque o professor de Direito Admi-
nistrativo da Universidade de Nápoles Oreste Ranelletti, fundador da
Escola Napolitana de Direito Financeiro69. Ranelletti dedicou boa parte
de seu tempo e de suas aulas ao Direito Financeiro. O seu manual70 é
considerado texto pioneiro no tratamento autônomo da matéria e con-
tribuição fundamental à formação da moderna doutrina financeira71.
Ranelletti defendia a investigação autônoma do Direito Financeiro em
relação à Ciência das Finanças, destacando que, embora possuam o mes-
mo objeto – o fenômeno financeiro –, são disciplinas profundamente di-
versas. Para ele, apenas o Direito Financeiro é uma ciência jurídica, pois
tem por objeto o aspecto jurídico do fenômeno financeiro que é a norma
jurídico-financeira, enquanto a Ciência das Finanças se ocupa dos aspec-

66. Sobre a tese de Mayer da relação tributária como relação de poder, cf. o tema “Otto Mayer” no
Capítulo III desta obra.
67. FLEINER, Fritz. Institutionen des deutschen Verwaltungsrechts, 1911.
68. AMATUCCI, Andrea. L’Ordinamento Giuridico dela Finanza Pubblica. 7ª ed. Napoli: Jovene Ed,
2004, p. 21.
69. Sobre a Escola Napolitana de Direito Financeiro fundada por Ranelletti, cf. AMATUCCI, An-
drea. L’Ordinamento Giuridico dela Finanza Pubblica. Op. cit., p. 21-27.
70. RANELLETTI, Oreste. Corso di Diritto Finanziario, 1928.
71. D’AMATI, Nicola. Il “Diritto Finanziario” di Oreste Ranelletti. Padova: Cedam, 1954, p. 3: (Ex-
trato da Diritto e Pratica Tributaria Vol. XXV, núm. 4 (1954).

37
Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

tos econômico e político. Em sentido contrário ao método integralista


de Griziotti, Ranelletti contribuiu muito para a autonomia científica do
Direito Financeiro72.
O responsável direto pela conquista da autonomia científica e didá-
tica do Direito Financeiro na Espanha e pela formação de gerações de
financistas e tributaristas naquele país foi o professor Fernando Sainz
de Bujanda, fundador e titular, por muitos anos, da cátedra de Direito
Financeiro e Tributário da Universidade Complutense de Madrid. Sainz
de Bujanda inaugurou a história científica do Direito Financeiro e Tribu-
tário na Espanha com a influente coletânea Hacienda y Derecho73, e con-
solidou a excelência de seu trabalho com o magistral Sistema de Derecho
Financeiro74.
Depois de conquistar o estabelecimento de cátedra própria para a
disciplina nas universidades espanholas, Sainz de Bujanda formou uma
verdadeira escola espanhola de Direito Financeiro75, cujos traços princi-
pais são a sua autonomia científica e didática em relação à Ciência das
Finanças, o juízo conjunto do ingresso e do gasto públicos na análise da
legitimidade da atividade financeira do Estado, e o apego aos valores do
Estado de direito, máxime à legalidade tributária76. Por tudo isso, Sainz
de Bujanda é tido como o principal nome da história do Direito Finan-
ceiro e Tributário na Espanha e um dos maiores juristas espanhóis do
século XX.
Os autores citados são clássicos e merecedores de comporem câno-
nes . São autores que influenciaram e influenciam outros autores. Cada
77

72. Sobre os métodos de Oreste Ranelleti e a Escola Napolitana de Direito Financeiro que fundou,
cf. o tema “Oreste Ranelletti” no Capítulo III desta coletânea.
73. SAINZ DE BUJANDA, Fernando. Hacienda y Derecho, Vols. I e II (1962), III (1963), IV (1964), V
(1967) e VI (1973).
74. SAINZ DE BUJANDA, Fernando. Sistema de Derecho Financiero, Tomo I, Vols. 1º (1977) e 2º
(1985).
75. Sobre os métodos, teorias e o legado de Fernando Sainz de Bujanda, cf. o tema “Sainz de Bu-
janda” no Capítulo III desta coletânea.
76. Sobre os principais traços da obra de Sainz de Bujanda, cf. DE LA TORRE, Ángel Sánchez.
Maestros Complutenses de Derecho: Fernando Sainz de Bujanda: Fundador de los estúdios de
Deerecho Financiero y Tributario. Madrid: DP, 2003; TABOADA, Carlos. Uma antologia de
“Hacienda y Derecho” de Fernando Sainz de Bujanda. Revista Española de Derecho Financiero
Núm. 169, jan.-mar. 2016, p. 17-41. Cf. o tema “Sainz de Bujanda” no Capítulo III desta obra.
77. Merece menção especial, considerado esse período de formação científica do Direito Finan-
ceiro, o professor de Economia Política da Universidade de Inssbruck, na Áustria, Myrbach-
-Rheinffeld. Seu manual – Grundriss des Finanzrechts, 1906 – foi de elevada relevância para

38
INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

um, a seu modo e extensão, contribuiu para a conquista da autonomia


científica e didática do Direito Financeiro em relação à Ciência das Fi-
nanças. Com eles, o Direito Financeiro firmou-se como a disciplina que
se ocupa do aspecto jurídico da atividade financeira do Estado, ainda
que tal análise não prescinda de considerações econômicas e políticas78.
Trata-se, sob qualquer ângulo, de ciência e disciplina de objeto próprio.
Otto Mayer, Oreste Ranelletti e Sainz de Bujanda são clássicos do Direito
Financeiro escolhidos para compor esta coletânea; os artigos sobre eles
correspondem ao Capítulo III.

5. A CODIFICAÇÃO E O DIREITO TRIBUTÁRIO CLÁSSICO.


É bastante aceito pela doutrina que o ponto decisivo para a formação
do Direito Tributário como ramo científico autônomo foi a promulgação,
em dezembro de 1919, do Código Tributário do Reich alemão (Reicha-
bgabenordnung – R.A.O). Foi o primeiro texto legislativo que reuniu, de
forma orgânica e coerente, regras e princípios acerca da imposição tri-
butária e das relações diversas entre os entes tributantes e os contri-
buintes. O Reichabgabenordnung é a pedra fundamental da sistemati-
zação dogmática das relações jurídico-tributárias. A codificação alemã,
segundo Ezio Vanoni, foi um divisor de águas nos estudos tributários:

Do momento da emanação da R.A.O. se viu, na Alemanha, um florescer


dos estudos de direito financeiro, que logo cedo levaram a doutrina ale-
mã à vanguarda na sistematização e na elaboração dos princípios jurí-
dicos que governam a imposição tributária.
O fato de ter reunido em um único texto legislativo as normas gerais
em torno do tributo facilitou o estudo. A sistematização acolhida na lei
excitou os espíritos críticos [...].
O estudo do direito tributário se destacou assim nitidamente do estudo
do direito administrativo, sob a égide do qual, relativo às elaborações de
Otto Mayer, tinha dado os primeiros passos.79

o desenvolvimento inicial do Direito Tributário na Alemanha. À época, foi a obra em língua


alemã que representou exceção àquelas que abordavam o Direito Financeiro dentro dos ma-
nuais de Direito Administrativo.
78. Merece menção, embora o Brasil não seja o foco desta coletânea, a figura de Aliomar Baleeiro.
79. VANONI, Ezio. L’Esperienza della Codificazione Tributaria in Germania. In: Opere Giuridiche
Vol. II. Milão: Giuffrè Ed., 1962, p. 392-393. No mesmo sentido: NOGUEIRA, Ruy Barbosa. Novo
Código Tributário Alemão. Rio de Janeiro: Forense, 1978, p. xii (Apresentação): “[...] a partir
de sua elaboração em 1919, [o R.A.O.] foi o verdadeiro marco da sistematização científico-le-
gislativa do Direito Tributário e provocou não só na doutrina, como na jurisprudência, avanço

39
Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

Com efeito, na Alemanha, a partir da codificação de 1919, a matéria


tributária passou a ter um tratamento legal sistemático e autônomo80.
O R.A.O. é o melhor exemplo da importância “que a codificação de um
setor do ordenamento pode exercer na consecução da autonomia cientí-
fica do mesmo”81. Com o R.A.O., o Direito Tributário adquiriu progressiva
autonomia em relação ao Direito Administrativo. Neste ponto, merece
destaque inicial Enno Becker, criador do Código Tributário do Reich ale-
mão, além de importante comentador da lei82. Como dito pelo próprio
Becker, o R.A.O. foi “uma lei fundamental, que além de prover a formação
dos órgãos [da administração financeira], disciplinou o procedimento e
estabeleceu as bases uniformes essenciais do direito tributário material,
servindo como premissas e diretrizes para as várias leis dos impostos”
na Alemanha83.
Ao código seguiram importantes manuais específicos de Direito Tri-
butário como os de Kurt Ball84, de L. Waldecker85, de Albert Hensel86, de
Hans Nawiasky87 – esse bastante crítico à codificação –, de W. Merk88
e de Ottmar Bühler89. Sem dúvida, a principal referência cabe a Albert
Hensel. O seu manual é considerado o mais fundamental à época para a

na forma e no conteúdo deste ramo do Direito, mas também irradiou conceitos e institutos a
outros ramos jurídicos, ultrapassando fronteiras e repercutindo nas legislações e elaborações
doutrinárias e jurisprudências tributárias de outros países”.
80. Na definição do professor alemão Heinz Paulick, “em geral se caracteriza o Código Tributário
como a lei tributária fundamental, por conter as disposições básicas aplicáveis a todos os
impostos. É a ampla codificação de uma parte geral do Direito Tributário e pressupõe uma
compreensão e penetração científicas de todo o Direito tributário, um domínio sistemático
do mesmo, uma formação jurídica de conceitos e uma linguagem e terminologia jurídica. Uma
codificação dessa natureza promove a segurança jurídica e a igualdade de imposição median-
te sua ordenação sistemática e mediante o valor didático unido a esta” (PAULICK, Heinz. Orde-
nanza Tributaria Alemana. Madrid: IEF, 1980, p. 34.
81. SIMON ACOSTA, Eugenio. El Derecho Financiero y la Ciencia Juridica. Bolonia: Real Colegio de
España, 1985, p. 177.
82. BECKER, Enno. Kommentar zur RAO, 1922; Die Reichabgabenordnung vom 13. Dezember 1919
nebst Ausführungsverordnungen, 1921-1922. Cf. o tema “Enno Becker” no Capítulo IV desta
obra.
83. BECKER, Enno. Accertamento e Sviluppo del Diritto Tributario Tedesco. Rivista di Diritto Fi-
nanziario e Scienza dele Finanze, Ano I, Vol. I, 1937, p. 157.
84. BALL, Kurt. Einführung in das Steuerrecht, 1922.
85. WALDECKER, L. Deutsches Steuerrecht, 1924.
86. HENSEL, Albert. Steuerrecht,1924.
87. NAWIASKY, Hans. Steuerrechtliche Grundfragen, 1924.
88. MERK, W. Steuerschuldrecht, 1926.
89. BÜHLER, Ottmar. Lehrbuch des Steuerrechts, 1927.

40
INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

sistematização do Direito Tributário, a ponto de Hensel ser referido por


importante historiador do direito público alemão como “o fundador da
disciplina”90. Palao Taboada diz que “a ciência jurídico-tributária alemã
desta época tem sua melhor expressão na obra, que pode classificar-se
de ‘clássica’, de Albert Hensel”91. Hensel teve forte influência sobre o de-
senvolvimento do Direito Tributário na Itália, seja pelo contato que o
importante tributarista italiano Ezio Vanoni teve com suas lições quan-
do estudou na Alemanha entre 1928 e 193092, seja pela tradução de seu
manual ao italiano pelo igualmente relevante Dino Jarach, publicada em
195693.
Outro autor relevante para a consolidação da autonomia científi-
ca do Direito Tributário foi o suíço Ernst Blumenstein. Com manual
muito prestigiado94, Blumenstein defendeu a necessidade de coerên-
cia e completude sistêmica do Direito Tributário, notadamente sobre
as grandes questões da época: interpretação tributária teleológica,
extensiva, restritiva, interpretação econômica do fato gerador e ana-
logia, relação entre Direito Civil e Tributário e as implicações dessa
relação para a interpretação tributária, elisão fiscal, sujeição passiva
tributária. Merece especial destaque sua abordagem sobre a “causa do
imposto”95.
Mais recentemente, Klaus Tipke tem sido o autor de maior destaque
na Alemanha. É fundador de uma verdadeira “escola de Direito Tribu-
tário da Universidade de Colônia”, tendo como ponto essencial de sua
teoria o “esforço em sistematizar e julgar o Direito positivo a partir de
princípios gerais, primordialmente o princípio constitucional da capaci-
dade contributiva”96. O tema central do Professor Tipke é a preocupação

90. STOLLEIS, Michael. A History of Public Law in Germany. 1914-1945. New York: Oxford Uni.
Press, 2004, p. 221.
91. PALAO TABOADA, Carlos. Derecho Financiero y Tributario. Vol. I. 2ª ed. Madrid: Colex, 1987, p.
41. Cf. o tema “Albert Hensel” no Capítulo IV desta obra.
92. Sobre a relevância de Albert Hensel para o pensamento de Vanoni e desse para o Direito Tri-
butário italiano, cf. FALSITA, Gaspare. Giustizia Tributaria e Tirania Fiscale. Milão: Giuffrè,
2008, p. 416-425.
93. HENSEL, Albert. Diritto Tributario. Milão: Giuffrè, 1956.
94. BLUMENSTEIN, Ernst. System des Steuerrechts, 1945.
95. BLUMENSTEIN, Ernst. La Causa nel Diritto Tributario Svizzero. Rivista di Diritto Finanziario e
Scienza dele Finanze, Ano III, Vol. III, 1939, p. 355-371
96. TIPKE, Klaus. Moral Tributária do Estado e dos Contribuintes. Madrid: Marcial Pons, 2002, p.
14. O trecho é extraído da “Apresentação” à obra a cargo do tradutor, o Professor da Universi-
dade Complutense Pedro Manual Herrera Molina.

41
Carlos Alexandre de Azevedo Campos | Denise Lucena Cavalcante | Paulo Caliendo

com a justiça fiscal e a igualdade97, versando suas principais obras esses


temas98. Klaus Vogel99, falecido em 2007, foi também importante autor
alemão da segunda metade do século XX, assim como são Henrich Kru-
se100 e Paul Kirchhof101.
Na Itália, como já mencionado, duas grandes “escolas” se destaca-
ram no desenvolvimento inicial do Direito Tributário: as Escolas de Pa-
via e de Nápolis102. A primeira, sob a liderança intelectual de Griziotti, fo-
cou temas como o da interpretação funcional das leis tributárias, a causa
da imposição e a capacidade contributiva, e a função solidária do impos-
to. A Escola de Pavia teve importantes alunos como Mario Pugliese103,
Renzo Pomini104 e Federico Maffezzoni105. No entanto, foram Ezio Vanoni
e Dino Jarach os principais nomes da escola, merecedores da menção
como “clássicos”.
Aluno e assistente de Griziotti na Universidade de Pavia, Ezio Vano-
ni tornou-se um dos principais juristas e políticos de seu tempo na Itália,
chegando a ser constituinte em 1946 e Ministro das Finanças entre 1948
e 1954. Vanoni aprofundou os seus estudos na Alemanha sobre a codifi-
cação tributária, vindo a ser pioneiro na defesa desse movimento legis-
lativo para o sistema tributário italiano106. Ademais, escreveu a principal
obra sobre a interpretação tributária italiana, chamando a atenção ao
caráter não excepcional do tributo e, consequentemente, à utilização de

97. TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de Direito Constitucional Financeiro e Tributário. Vol. II. Valo-
res e Princípios Constitucionais Tributários, 2014, p. 140.
98. TIPKE, Klaus. Steuerrecht. Ein systematischer Grundriss, 1973; Steuergerechtigkeit in Theorie
und Praxis, 1981; Die Steuerrechtsordnung, 1993. Cf. o tema “Klaus Tipke” no Capítulo IV desta
obra.
99. Cf., entre outros: Finanzverfassung und politisches Ermessen, 1972.
100. KRUSE, Heinrich Wilhelm. Steuerrecht, 1973.
101. Entre outros: Besteuerung im Verfassungsstaat, Beiträge zur Ordnungstheorie und Ordnungs-
politik. 2000 Einkommensteuergesetz – Kompaktkommentar, 2011.
102. Sobre as duas escolas, cf. AMATUCCI, Andrea. L’Ordinamento Giuridico dela Finanza Pubblica.
Op. cit., p. 14-27.
103. PUGLIESE, Mario. Istituzioni di diritto finanziario: Diritto Tributario, 1937.
104. POMINI, Renzo.  La “causa  impositionis” nello svolgimento storico della dottrina finanziaria,
1951.
105. MAFFEZZONI, Federico. Il principio di capacità contributiva nel Diritto Finanziario, 1970
106. Cf., em VANONI, Ezio. Opere Giuridiche Vol. II. Op. cit., p. 381-410 e 411-454, respectivamente,
os seus artigos “L’Esperienza della Codificazione Tributaria in Germania” e “Il problema della
Codificazione Tributaria”.

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INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

critérios gerais de interpretação para as normas tributárias107. Em todas


as suas obras e artigos, sobressaia-se a visão humana e abrangente de
Vanoni, que enxergava o Direito Tributário como “um sistema que pos-
sui fundamentos éticos, políticos e jurídicos”108.
Por sua vez, Dino Jarach, também assistente de Griziotti na Univer-
sidade de Pavia, teve projeção maior fora da Itália, particularmente na
América Latina. Judeu, Jarach fugiu da Europa durante a Segunda Gran-
de Guerra para a Argentina, radicando-se naquele país, vindo a exercer
a docência nas Universidades de Córdoba e de Buenos Aires, além de
vibrante advocacia consultiva aos órgãos do governo argentino. Na Ar-
gentina, Jarach aprofundou temas como a natureza e a causa jurídica do
tributo – que havia abordado como premissas de sua tese de doutora-
do109 – para formular o grande clássico Hecho Imponible110. Nessa obra,
escrita quando possuía apenas 28 anos, Jarach ressaltou a autonomia es-
trutural do Direito Tributário substantivo, erigido em torno do conceito
de fato gerador, frente ao Direito Financeiro e ao Direito Administrativo.
O livro teve enorme influência para o avanço do Direito Tributário na
América Latina.
A “Escola Napolitana de Direito Tributário”, orientada por Ranelle-
ti, tem entre seguidores nomes como Giorgio Tesoro111 e Achille Donato
Giannini112. O último é um dos principais autores da história do Direito
Tributário italiano, tendo exercido grande influência sobre acadêmicos
espanhóis e latino-americanos. Principal expoente do formalismo jurídi-
co no Direito Tributário113, Giannini destacou-se ao tratar dos institutos
básicos da disciplina, da relação jurídico-tributária, do fato gerador e
das espécies tributárias. A consolidação do Direito Tributário na Itália
é ainda bastante tributária de clássicos como Antonio Berliri114 – outro

107. VANONI, Ezio. Natura ed Interpretazione delle Leggi Tributarie, 1932. Cf. o tema “Ezio Vanoni”
no Capítulo IV desta obra.
108. DE MITA, Enrico. Maestri del Diritto Tributario. Milão: Giuffrè, 2013, p. 3.
109. JARACH, Dino. Principi per L’Applicazione delle Tasse di Registro, 1937.
110. JARACH, Dino. Hecho Imponible, 1943. Cf. o tema “Dino Jarach” no Capítulo IV desta obra.
111. TESORO, Giorgio. Principii di DirittoTtributário, 1938.
112. GIANNINI, Achille Donato. Il Rapporto Giuridico d’imposto, 1937; Istituzioni di DirittoTributa-
rio, 1956.
113. Sobre o formalismo jurídico no Direito Tributário, cf. ROCHA, Sergio André. O que é forma-
lismo tributário? In: QUEIROZ, Luís Cesar Souza de et. al. (Orgs.). Tributação Constitucional,
Justiça Fiscal e Segurança Jurídica. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2014. p. 45-60.
114. BERLIRI, Antonio. Principii di Diritto Tributario, 1952

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de grande influência na Espanha –, Enrico Allorio115 – percussor na te-


mática do Direito Processual Tributário – e Gian Antonio Micheli116 – um
dos primeiros a defender a prestação tributária como dever de solida-
riedade no custeio dos gastos públicos. Todos os autores italianos cita-
dos compõem aquela que Enrico de Mita chama de “época de ouro da
literatura italiana”117.
Na França, o publicista Louis Trotabas foi um dos grandes defenso-
res da autonomia científica e estrutural do Direito Tributário118. Trota-
bas engajou-se em famoso debate com o jurista compatriota François
Geny, reivindicando a autonomia do Direito Tributário face ao Direito
Privado119. Trotabas reclamou “reincorporar o direito fiscal ao direito
público, libertando-o de uma injustificável sujeição de princípio ao direi-
to privado”120. Na Espanha, seguindo os passos de Sainz de Bujanda, po-
dem ser citados José Juan Ferreiro Lapatza121 e Carlos Palao Taboada122.
Em outros giros escolares, destacaram-se Cesar Albiñana García-Quin-
tana123, Perez de Ayala124 e Rafael Calvo Ortega125. Em Portugal, merecem
destaques Vítor António Duarte Faveiro126, Alberto Xavier127 e Saldanha
Sanches128.
O século XX, principalmente a sua segunda metade, assistiu ao de-
senvolvimento do Direito Tributário também na América Latina. Tra-

115. ALLORIO, Enrico. Diritto Processuale Tributario, 1942.


116. MICHELI, Gian Antonio. Corso di Diritto Tributario, 1970.
117. DE MITA, Enrico. Maestri del Diritto Tributario. Op. cit., p. 51.
118. TROTABAS, Louis. Précis de science et de législation financières, 1929; Les Finances publiques
et les impôts en France, 1953.
119. Cf. GENY, François. Le particularisme du Droit Fiscal, Revue Trimestrelle de Droit Civil, Vol. 30,
1921; TROTABAS, Louis. Essai sur le droit fiscal, Revue de Science et de Legislation Financieres,
Vol. 2, 1928.
120. TROTABAS, Louis. Ensaio sobre o Direito Fiscal. Revista de Direito Administrativo Vol. 26, FGV,
1951, p. 58. Cf. o tema “Louis Trotabas” no Capítulo IV desta obra.
121. FERREIRO LAPATZA, José Juan. Curso de Derecho Financiero Español, 1975.
122. PALAO TABOADA, Carlos. Derecho Financiero y Tributario, 1985.
123. ALBIÑANA GARCÍA-QUINTANA, Cesar. Derecho Financiero y Tributario, 1979.
124. PEREZ DE AYALA, José Luis. Derecho Tributario, 1968; Las Ficciones en el Derecho Tributario,
1970.
125. CALVO ORTEGA, Rafael. Leys Tributarias de España, 1975.
126. FAVEIRO, Vítor António Duarte. As Garantias Jurídicas do Contribuinte, 1959.
127. XAVIER, Alberto Pinheiro. Conceito e Natureza do Acto Tributario, 1972.
128. SALDANHA SANCHES. Manual de Direito Fiscal. 3. ed. 2007.

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INTRODUÇÃO • A RELEVÂNCIA DOS CLÁSSICOS

tou-se de movimento, que já pode ser tido como de um Direito Tributá-


rio clássico, bastante influenciado pelos gigantes europeus citados, es-
pecialmente Ezio Vanoni, Albert Hensel, Mario Pugliese, Achille Donato
Giannini, Dino Jarach e Sainz de Bujanda. Na Argentina, os nomes mais
importantes foram os de Giuliani Founrouge129 e Héctor Villegas130; no
Uruguai, de Ramón Valdés Costa131; no México, de Ernesto Flores Zava-
la132 e Sergio Francisco de La Garza133. Embora os autores brasileiros
não sejam o foco desta coletânea, vale destacar aqueles que, à mesma
época dos demais latino-americanos, formaram o Direito Tributário
como disciplina jurídica no Brasil: Aliomar Baleeiro, Rubens Gomes de
Sousa, Gilberto de Ulhôa Canto, Amílcar de Araújo Falcão, Ruy Barbosa
Nogueira, Geraldo Ataliba, Alfredo Augusto Becker e José Souto Maior
Borges134.
Os autores citados são clássicos e merecedores de comporem câno-
nes. São autores que influenciaram e influenciam outros autores. Encer-
raram as etapas de formação do Direito Tributário como ciência jurídica,
dotada de autonomia didática, inclusive em relação ao Direito Financei-
ro. Formam, assim, o que pode ser considerado o “Direito Tributário
clássico”, no qual foram consolidados os conceitos e institutos básicos da
disciplina. Estabeleceram, dessa forma, estágio imprescindível e, talvez,
o mais importante da evolução de nossa disciplina. O Direito Tributá-
rio contemporâneo, marcado principalmente pela interdisciplinaridade
com o Direito Constitucional e a Teoria dos Direitos Fundamentais, não
abandona, ao contrário, atualiza as premissas e teorias desses pionei-
ros. Enno Becker, Klaus Tipke, Benvenuto Griziotti – novamente, pela
sua destacada importância também para o Direito Tributário Clássico
–, Ezio Vanoni, Dino Jarach, Achille Donato Giannini, Louis Trotabas, Sal-
danha Sanches e Vítor António Duarte Faveiro são clássicos do Direito
Tributário escolhidos para compor e encerrar esta coletânea; os artigos
sobre eles correspondem ao Capítulo IV.

129. FONROUGE, Carlos M. Giuliani. Derecho Financiero, 1962.


130. VILLEGAS, Héctor Belisario. Curso de Finanzas, Derecho Financiero y Tributario, 1972.
131. VALDÉS COSTA, Ramón. Instituciones de Derecho Tributario, 1992.
132. FLORES ZAVALA, Ernesto. Elementos de Finanzas Publicas Mexicanas. Los Impuestos, 1946.
133. LA GARZA, Sergio Francisco. Derecho Financiero Mexicano, 1964.
134. Sobre os autores clássicos brasileiros, cf. CALIENDO, Paulo (Coord.) Clássicos do Direito Tribu-
tário. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2016.

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6. GIGANTES QUE “AINDA TÊM MUITO A NOS DIZER”.


“Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de Gigantes”
(Isaac Newton, 1675).

Os clássicos são gigantes que nos fazem enxergar mais longe. Os


clássicos nos oferecem ideias do passado que nos ajudam a compreen-
der e a problematizar presente e futuro. Eles ainda – e sempre – têm
muito a nos dizer; muito a nos ensinar e provocar. A tarefa dos clássicos
não acaba nunca: a excelência das obras os “condena” à eternidade do
aprendizado. Convidamos agora os leitores a percorrerem o trajeto his-
tórico de desenvolvimento do Direito Tributário retratado nos artigos
desta coletânea, formulados por nós enquanto buscávamos enxergar e
pensar mais longe nossa disciplina. Durante todo o nosso percurso, se-
guimos de pé sobre os ombros de gigantes135. Desejamos inspirar a todos
a fazerem a mesma viagem.

135. Tomo a frase da citação feita em TABOADA, Carlos. Uma antologia de “Hacienda y Derecho” de
Fernando Sáinz de Bujanda. Revista Española de Derecho Financiero Núm. 169, jan.-mar. 2016,
p. 41. A referência pelo autor a “gigante” tem Sainz de Bujanda como referência.

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