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ESCRITORES BRASILEIROS

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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes.

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Como o médico Afrânio Peixoto entrou à força para a Academia Brasileira de
Letras
Júlio Afrânio Peixoto (1876 - 1947) nasceu em Lençóis, na Bahia, e faleceu na
cidade do Rio de Janeiro. Elegeu-se para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em
1910, após ter escrito o drama teatral Rosa Mística: símbolo trágico (1900), que viria a
renegar, e de ter participado da novela Lufada Sinistra (1900).
Devido ao tema controverso (o incesto), a peça Rosa Mística gerou escândalo ao ser
publicada em 1900. Aparentemente não houve encenações de peça nem reedições do
livro.
https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/518770
Outras obras, tematicamente relacionadas a Rosa Mística e em elaboração, não
vieram à luz por causa da receptividade negativa do livro de estreia de Afrânio.
Repare no aviso colado na primeira página. Naquela época os erros de impressão
eram corriqueiros, em jornais, revistas e livros.

A novela Lufada Sinistra é um exemplo de ficção colaborativa: escrita por Afrânio


Peixoto, Augusto de Menezes, Brás do Amaral, Jorge de Moraes e Juliano Moreira, saiu
como publicação seriada no jornal A Bahia em 1900. Cada autor se responsabilizou por
um capítulo. Ressaltando o espírito de brincadeira da iniciativa, cada capítulo foi
redigido em estilo diferente: simbolista, romântico, naturalista, clássico e eclético.
Essa era a bagagem literária do médico Afrânio Peixoto ao ser eleito para a ABL em
1910.
A curiosa história de como ele se tornou acadêmico à força mereceu uma descrição
do próprio autor, que reproduzo em texto atualizado a seguir, a partir de entrevista
realizada pelo jornal A Imprensa em 1.º de agosto de 1912.
A Imprensa (Rio de Janeiro, RJ), 1/8/1912, número 1673, página 3, segunda coluna.
http://memoria.bn.br/DocReader/245038/16245
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Os projetos dos nossos escritores


AFRÂNIO PEIXOTO PALESTRA COM "A IMPRENSA"
— Trabalhos literários para este ano? Não é possível! — diz o dr. Afrânio Peixoto e
senta-se à sua secretária do Gabinete Médico-Legal da Polícia, indicando-nos uma
cadeira a seu lado.
— Entretanto...
— Não, meu amigo: produção literária, a meu entendimento, não se deve fazer
continuamente, porque virá a fadiga mental, e mais o desinteresse do leitor. À proporção
que se lê um autor, cuja produção seja mais ou menos ininterrupta, mais ou menos
intensa, perde-se o interesse da leitura, a curiosidade. Demais [Além disso], a nossa
massa ledora é ainda insignificante, e abarrotá-la de livros seria forçá-la ao desinteresse
pela nossa obra. Escrever pouco e bom, espaçadamente, creio, é um objetivo lógico para
o nosso meio.
E, a propósito, o dr. Afrânio Peixoto borda comentários em torno da vida literária de
[Edmond] Rostand [dramaturgo francês], com o Cyrano [de Bergerac], L'Aiglon e
Chantecler, dizendo coisas brilhantes, ligeiras, amáveis, paradoxais, curiosas... Ao fim,
pondera-nos:
— O meu amigo compreende, eu não sou um homem de letras, sou, sim, um médico,
e se quisesse dizer-lhe clara verdade, confessar-lhe-ia o modo por que entrei para a
Academia...
— Escutamo-lo, com prazer.
— Era eu secretário da Academia de Medicina e, no desempenho desse cargo, cabia-
me a elaboração do relatório anual; relatório é um serviço maçante, inçado [cheio] de
cifras, modelado em fórmulas consagradas, repetições e mais repetições de casos...
Horrível! Revoltei-me contra o feitio antiquado e aborrecido que se dá a semelhante
peça e fiz um relatório a meu jeito. Machado de Assis o leu e, porque fosse um doente,
e, portanto, revoltado contra os moldes da ciência médica, como todos os doentes,
gostou da forma de minha exposição e elogiou-me, com a sua grande bondade, perto de
algumas pessoas, entre as quais o Mário de Alencar, que era de uma dedicação filial ao
Mestre. Depois desse fato, empreendi viagem à Europa sem desconfiar nem
remotamente do que viria a ser o desfecho das palavras de Machado de Assis.
"Na Grécia, em Delfos, recebi um cartão de Oliveira Lima que, entre as expressões
de saudação, me avisava da desnecessidade de consulta ao oráculo, quanto ao meu
destino... Dias após, escrevendo a Aluísio Azevedo sobre assuntos íntimos, perguntava-
lhe sobre [o] que teria sido a fonte do aviso de Oliveira Lima, e, então, como resposta,
Aluísio me hipotecava o seu voto para a eleição da Academia, na vaga de Euclides da
Cunha, com a declaração de que o fazia espontaneamente.
"Regressando. aqui já encontrei Mário de Alencar sustentando-me a candidatura que
ele lançara. Ora, não sendo escritor, fiquei em dívida com a Academia, dívida que
satisfiz publicando A Esfinge, passada a eleição. Fazendo-lhe esta confissão, dispenso-
me dizer-lhe que, mesmo sem ser obrigado a fazê-lo, não abandonarei, contudo, o
intuito de trabalhar em outro livro. Que livro? não sei... Quando? Também não sei..."
E o dr. Afrânio Peixoto, simples, despreocupado, risonho, começa de conversar
conosco sobre literatura e literatos, durante toda uma hora, que nos pareceu apenas um
minuto.

B. M.
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Afrânio lançou o romance A Esfinge em 1911, ano em que tomou posse da cadeira 7
da ABL. O livro, escrito um tanto sob pressão, tornou-se o seu maior sucesso.
Depois deste vieram trinta outros, nos gêneros romance, ensaio, crítica literária,
poesia, filologia e história.

Uma curiosidade
Afrânio é o autor do mais breve título entre os livros brasileiros: É (1944). Millôr
Fernandes viria a escrever a peça cômica É... em 1977.

Outra curiosidade
Em Petrópolis (RJ) morei na rua Said Ali, bairro do Bingen. Manuel Said Ali Ida
(1861-1953), filólogo por profissão, nasceu nessa cidade. A rua Said Ali, de poucos
metros, tem como acesso a rua Afrânio Peixoto. Deve ser o único encontro filológico de
vias públicas em todo o Brasil.

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